segunda-feira, 7 de abril de 2014

MASSACRE EM RUANDA.

Há 20 anos, começava o genocídio em Ruanda

Cem dias de horror: o mundo não soube enfrentar o massacre no país africano.
No dia 7 de abril de 1994, começaram os 100 dias mais ferozes da história da Ruanda e, talvez, da humanidade inteira depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Por mais de três meses, perpetrou-se um massacre sistemático que o mundo não soube prever nem enfrentar, muito menos parar.
O detonador da explosão de horror que resultou em décadas de conflito entre as etnias hutu e tutsi foi um atentado: no dia anterior, haviam sido mortos o presidente ruandês, Juvénal Habyarimana, e burundês, Cyprien Ntaryamira, quando foi derrubado o seu avião que estava aterrissando no aeroporto da capital ruandesa, Kigali. Com eles morreram dois ministros do Burundi, cinco funcionários da Ruanda e os três membros da tripulação francesa do avião.
A reportagem é de Pierluigi Natalia, publicada no jornal L'Osservatore Romano, 06-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Os dois presidentes voltavam de uma cúpula de chefes de Estado da África Central, realizada em Dar-es-Salaam, naTanzânia, e dedicada justamente à guerra que, há anos, via a contraposição entre os hutu e os tutsi que vivem nos dois países.
Não foram suficientes para parar o conflito nem mesmo os acordos assinados no dia 4 de agosto do ano anterior, emArusha, também na Tanzânia, que previam um governo de transição na Ruanda, também com expoentes da Frente Patriótica Ruandesa (FPR), o grupo armado dos tutsi, liderado pelo atual presidente Paul Kagame.
Nenhuma investigação internacional jamais determinou quais foram os responsáveis pelo atentado. Mas a violência transbordou imediatamente, antes na capital Kigali e depois no resto da Ruanda, contra os tutsi e os hutu moderados.
Os soldados hutu da guarda presidencial se lançaram contra o bairro de Kigali onde estavam alojadas as milícias daFPR, que consideravam como os autores do atentado. Entre as primeiras vítimas, estavam dez soldados das forças de paz belgas da UNAMIR, a missão da ONU que começou em outubro do ano anterior. Os militares belgas foram capturados quando tentavam proteger a fuga da primeira-ministra, Agathe Uwilingiyimana, também ela morta, assim como outros expoentes do governo.
Por 100 dias, centenas de milhares de mulheres e de homens, de idosos e de crianças, foram trucidados em todas as localidades, durante uma caçada humana aterrorizante. Um ano depois, também foi atroz a vingança dos tutsi que chegaram ao poder. No campo de Kibeho, milhares de hutu foram mortos, incluindo mulheres e crianças, enquanto, em Kigali, o novo governo reivindicava "o direito de separar os refugiados dos autores do genocídio".
As forças da ONU, depois de terem assistido, impotentes, ao primeiro e aterrorizante ataque, conseguiram resgatar milhares de crianças, muitas vezes encontradas ao lado dos cadáveres das mães. Aquelas horas marcaram para sempre a memória de quem as viveu. Aquelas crianças não falavam, não choravam, algumas estavam enlouquecidas. Também vacilou a razão daqueles que fizeram o máximo para tornar aquele horror, embora minimamente, menos cruel ou daqueles que tiveram que relatá-lo.
Um aspecto do conflito entre hutu e tutsi, populações de grande maioria católica, não pode ser calado: o do envolvimento de muitos religiosos. Desde o início, o sangue marcou a Igreja ruandesa muitas vezes com a cor do martírio, mas às vezes – e é algo que ainda surpreende – manchando mãos culpadas.
Não por acaso, recebendo os bispos ruandeses justamente nessa semana, o Papa Francisco recordou os "tantos sofrimentos e feridas, ainda longes de serem cicatrizadas" e os exortou a "seguir resolutamente em frente, testemunhando incessantemente a verdade", ressaltando que "a Igreja tem um lugar importante na reconstrução de uma sociedade reconciliada".
Uma impressão amarga se difundiu nas consciências naquela primavera de 1994. Mas a comunidade internacional não captou imediatamente o assustador porte dos acontecimentos. O Conselho de Segurança da ONU se limitou a solicitar que o então secretário-geral, Boutros Boutros-Ghali, tomasse "as medidas necessárias para assegurar a segurança" dos cidadãos estrangeiros na Ruanda.
Uma década depois, Kofi Annan, o sucessor de Boutros-Ghali, que em 1994 era responsável pelas missões militares da ONU, admitiu, ele mesmo, que tinha subestimado a situação. Assim como, um ano depois, em julho de 1995, as forças de paz francesas da ONU demonstraram ser impotentes diante de outro genocídio, o de Srebrenica, na Bósnia e Herzegovina.
Além disso, nem mesmo a trágica história balcânica realmente envolveu o norte rico e poderoso do mundo, onde se viviam os anos do fim do bipolarismo leste-oeste com um alívio que as décadas posteriores se encarregariam de demonstrar que era infundado.
O que estava sendo preparado e o que depois aconteceu nos Bálcãs e na região dos Grandes Lagos pegou despreparada a comunidade internacional. No entanto, aquelas imagens, aquelas notícias de massacres, de campos de concentração que viam encadeados homens concretos e a própria dignidade do homem, valas comuns onde se enterravam cadáveres e a própria humanidade, não eram novas.
Não eram tão inéditas a ponto de parecerem incríveis. Acontecia de novo, como acontecera 50 anos antes na Europa. A imprensa propunha evidências cruas e ressuscitava memórias dolorosas. Mas essa insistência da memória não soube se tornar compaixão ativa, reflexão atenta, vigilância solícita.
Declinava, entregando os seus horrores ao duro julgamento da posteridade, um século marcado pelas atrocidades, o século que inventara os campos de concentração, as limpezas étnicas, os genocídios sistemáticos, que tinha proposto a epidemia recorrente dos totalitarismos, que devastara a fisiologia das nações com a patologia dos nacionalismos, que havia transformado a identidade étnica na máscara zombeteira do racismo.
Vinte anos depois, nesse início do milênio, aqueles monstros ainda estão presentes e muitas vezes são triunfantes. "Nunca esqueceremos que mais de 800 mil pessoas inocentes foram selvagemente assassinadas. Prestamos homenagem à coragem e à capacidade de recuperação dos sobreviventes", disse o secretário-geral da ONUBan Ki-moon, que no dia 7 de abril estará em Kigali para a cerimônia de comemoração.
Ban Ki-moon elogiou "a determinação dos ruandeses para regenerar o seu país e lançar as bases para um futuro seguro e próspero". Porém, acrescentou que a batalha não para por aí, porque é preciso continuar agindo para impedir outros horrores semelhantes, particularmente na região dos Grandes Lagos, "onde o impacto do genocídio ainda é sentido".
O nosso passado, o nosso ontem mais recente, o nosso hoje são iguais. Imagens idênticas, notícias idênticas servem de testemunhas de acusação para aqueles que usam a identidade das nações como uma espada contra as minorias étnicas, ou sociais, ou religiosas, como um pé de cabra para arrombar os cofres da história e para lhes roubar a memória, para aqueles que mistificam os povos com um chamado progresso sem direitos, com pacificações apenas supostas, por serem sem justiça e sem verdade.
Ban Ki-moon tem razão: um aniversário é importante para fazer memória. Mas uma memória que não ensina é apenas um formalismo inútil.
Fonte : Instituto Humanitas Unisinos

domingo, 6 de abril de 2014

sexta-feira, 4 de abril de 2014

BRASIL E AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Cientista afirma que mudança climática afeta várias partes do Brasil

Declaração é de co-autor do 5º Relatório de avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Norte, nordeste e sudeste brasileiro sofrem com secas. Ouça a matéria da Rádio ONU em português. Felipe Siston, do Rio de Janeiro para a Rádio ONU em português.
À direita, o chefe do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, José Marengo. Foto: UNIC Rio/Diogo Cysne
À direita, o chefe do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, José Marengo. Foto: UNIC Rio/Diogo Cysne
Um cientista alertou nesta terça-feira (1) que a mudança climática afeta várias regiões do Brasil. No nordeste e no sudeste o problema principal é a seca.
afirmação foi feita pelo chefe do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, José Marengo.
Em evento no Rio de Janeiro, Marengo apresentou um resumo de 30 páginas que foi produzido para orientar gestores em relação ao problema ambiental. Ele é co-autor do 5º Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC).
“O que este relatório está tentando demonstrar agora é basicamente todas as bases científicas para que sejam consideradas na próxima conferência das partes que vai ocorrer agora em Lima e no próximo ano lá em Paris. Esta é a ideia, que toda a ciência que está sendo produzida seja utilizada pelos políticos. Se os políticos não usam essa ciência, então realmente a gente está perdendo tempo.”
Participaram também do lançamento especialistas envolvidos na produção do relatório do IPCC.
Impactos no Brasil
Marengo falou dos impactos sobre o território brasileiro. Para ele, a dimensão continental do Brasil faz com que o país seja afetado de diferentes formas.
“Socialmente o nordeste é muito vulnerável, ecologicamente a Amazônia é uma área muito vulnerável. Na parte hídrica o sudeste e o nordeste são vulneráveis à escassez de água, com riscos à irrigação e à geração de energia.
Sobre as áreas costeiras do nordeste e sul do Brasil, o cientista chamou a atenção para a ocorrência de fenômenos como o branqueamento de corais, provocado por alterações de temperaturas nos mares.
Com apoio do UNIC Rio, lançamento aconteceu na Academia Brasileira de Ciências (ABC), no Rio. Foto: UNIC Rio/Diogo Cysne
Com apoio do UNIC Rio, lançamento aconteceu na Academia Brasileira de Ciências (ABC), no Rio. Foto: UNIC Rio/Diogo Cysne
Ele também mencionou que os políticos devem estar preparados, especialmente nas cidades de Santos e do Rio de Janeiro, para os custos que a elevação do nível do mar pode causar às estruturas portuárias.
“Não existe uma fórmula mágica de adaptação. Se a Argentina desenvolve toda uma estratégia de agricultura para eles, isso não pode ser aplicado na Índia ou no Brasil. Cada lugar tem que desenvolver sua própria estratégia de adaptação territorial. Pode-se falar da adaptação da agricultura, da adaptação social, da saúde. Isso envolve fatores que não são climáticos, como a vacinação, como o crédito agropecuário.”
Amazônia
No caso da Amazônia, o cientista explicou que houve uma mudança de modelo utilizado pelo Painel.
Os cientistas descobriram que o bioma da região é mais resistente do que se esperava. Os impactos previstos no 4° Relatório do IPCC foram reavaliados.
Ele disse que “os resultados novos mostram que de fato a floresta pode ser comprometida, mas não chegaria tão longe a mudar de vegetação. Não passaria a ser savana, poderia ser talvez uma floresta mais secundária”.
(Apresentação: Mônica Villela Grayley com reportagem do UNIC Rio)
Informe da ONU Brasil, publicado pelo EcoDebate, 03/04/2014

POLUIÇÃO DO AR: SETE MILHÕES DE PESSOAS MORRERAM EM 2012.

Poluição do ar deveria virar caso de polícia.

poluição

[EcoDebate] Na terça-feira,25 de março, a Organização Mundial de Saúde (OMS) publicou os dados mais recentes dos efeitos mortíferos da poluição de ar no mundo. Os dados são chocantes: sete milhões de pessoas morreram por contaminação do ar em 2012. Isto significa uma em cada oito mortes no mundo resultante da exposição ao ar contaminado. Estes dados mais que dobram as estimativas e comprovam que a poluição do ar é líder ambiental para riscos em saúde e morte. O que pede medidas emergenciais de controle efetivo desse mal e seus efeitos para saúde.
Em relação às mortes provocadas pela poluição do ambiente externo, por fontes móveis (veículos) e fixas (ex. indústrias), contabilizou-se 2,6 milhões de mortes – os números crescem assustadoramente, 30% a mais do que ano anterior. Inúmeras são as publicações científicas e na mídia sobre a gravidade da poluição do ar externo para a saúde no mundo. Particularmente, no estado de São Paulo (17 mil mortes em 2011), de acordo com pesquisa inédita, divulgada pelo Instituto Saúde e Sustentabilidade no último ano e inúmeras outras realizadas pelo Laboratório de Polução Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da USP. Uma delas, por exemplo, foi a classificação do poluente material particulado e o ar contaminado como substância cancerígena do Grupo 1, pelo OMS, no ano passado. Embora assim seja vasto o conhecimento sobre tão relevante tema, no Brasil nos deparamos com um dos piores padrões de qualidade de ar do mundo e o mínimo de políticas públicas responsável para salvaguardar os cidadãos brasileiros. Em que planeta vivem nossos governantes?
As mortes relacionadas à poluição do ar em geral são devidas às doenças cardiovasculares, infarto do coração e derrame cerebral, pneumonias, DPOC e câncer do pulmão. Pouco se divulga este assunto, mas as restantes 3,3 milhões de mortes decorreram da contaminação do ar intradomiciliar, a poluição do ar provocada dentro dos domicílios. Cerca de 3 bilhões de pessoas cozinham e aquecem suas casas com fogões e lareiras que utilizam a queima de biomassa, como madeira, esterco animal, resíduos vegetais e carvão. A fumaça e o poluente material particulado podem atingir níveis até 100 vezes maiores que o aceitável dentro das casas. No Brasil, áreas do Nordeste há fogões a lenha em mais de 60% das casas. As regiões da Ásia e do Pacífico são as mais afetadas.
As mulheres e as crianças são a população mais afetada, pois passam mais tempo em seus lares. É a quarta causa de mortalidade em crianças em países em desenvolvimento, estando à sua frente apenas desnutrição, sexo inseguro, falta de água potável e saneamento.
Quase metade das mortes entre crianças menores de cinco anos de idade devido às infecções agudas do trato respiratório inferior são decorrentes da inalação de material particulado de origem da queima de biomassa intradomiciliar.
Mulheres expostas à poluição no interior das casas são três vezes mais propensas a desenvolverem doenças pulmonares obstrutivas crônicas – DPOC (por exemplo, bronquite crônica), do que as mulheres que usam fogões de tecnologia mais limpa.
Há evidências de que a poluição intradomiciliar aumente também o risco de outros importantes problemas de saúde em crianças e adultos, tais como: asma, otite média e outras infecções do trato respiratório superior, tuberculose, câncer nasofaríngeo e laríngeo, catarata, doença cardiovascular, recém-nascidos de baixo peso e mortalidade perinatal.
Os alardes já estão sendo feitos há muito tempo e as informações são precisas. É preciso deixar a população a par deste imenso problema ambiental e de saúde pública que vivemos: o inimigo invisível, inodoro e insípido que é a poluição do ar. O que os olhos não veem o coração não sente. É preciso deixar a população a par do descaso e desinteresse dos governantes, antes das eleições, muito pouco tem sido realizado e a doses ínfimas.
* Evangelina M. P. Araújo Vormittag: Idealizadora e Diretora Presidente do Instituto Saúde e Sustentabilidade, é médica, especialista em Patologia Clínica e Microbiologia, doutora e pós doutoranda em Patologia – Saúde Ambiental pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). Especialista em Gestão de Sustentabilidade pela Faculdade de Administração da Fundação Getúlio Vargas SP.
Colaboração de Ricardo Lauricella/Elaine Alves, para o EcoDebate, 03/04/2014

O GOLPE E A DITADURA CÍVICO-MILITAR

Contar sobre a ditadura até que a história crave nos ossos dos mais jovens

"Lembrar é fundamental para que não deixemos certas coisas acontecerem novamente. Que o Supremo Tribunal Federal reconsidere e afirme que crimes contra a humanidade, como a tortura, não podem ser anistiados, nunca", escreve Leonardo Sakamoto, em artigo publicado em seu blog, 01-04-2014.
Eis o artigo.
Um aluno me perguntou se eu não achava exagero estar aparecendo tanta coisa sobre o golpe militar de 1964 na mídia. Em sua opinião (“Já deu, né?''), o assunto é chato e ele e seus amigos não aguentam mais esse assunto.
Ainda bem que era só um futuro jornalista. Nada com o qual devemos nos preocupar.
É claro que a história pode ser contada e analisada de uma maneira mais interessante do que é feito hoje, tanto pelas escolas quanto pela mídia. Nisso, podemos melhorar e muito, tornando o aprendizado tão viciante quanto jogar Candy Crush.
Ou se isso não for possível que, pelo menos, crianças e adolescentes sejam levadas a compreender qual a utilidade de se conhecer os caminhos já trilhados pelos que vieram antes deles para não repetir os mesmos erros. Perceber que o mundo não começa com seu nascimento, nem vai se exaurir com a sua morte.
golpe e a ditadura cívico-militar ainda são temas que não fazem parte de nosso cotidiano em comparação com outros países que viveram realidades semelhantes e que almejam ser democracias. Por aqui, lidamos com o passado como se ele tivesse automaticamente feito as pazes com o presente.
Aliás, deveríamos transformar o dia do golpe militar de 1964 em feriado nacional. Talvez assim possamos garantir que esse dia nunca seja encarado por nós e, principalmente, pelas gerações que virão como um grande Primeiro de Abril, como se o golpe de 1964 nunca tivesse existido.
Cicatriz que não deveria ser escondida mas permanecer como algo incômodo, à vista de todos, funcionando como um lembrete. Não vivemos três décadas de piada, apesar da elite militar e parte da elite econômica do país terem rido muito às custas de quem pedia liberdade e democracia nos Anos de Chumbo.
Pouco me importa o que pensam os verde-oliva da reserva que tomam seu uísque nos Clubes Militares enquanto, saudosos, lançam confetes ao Dia da Revolução (sic). Demonstrações de afeto a um período autoritário são peça de museu, então que fiquem, democraticamente, com quem faz parte do passado.
Mas eles precisam saber – ainda em vida – que, desta vez, a História não vai ficar com a versão dos golpistas. E que o mundo que eles ajudaram a construir, mais cedo ou mais tarde, vai embora com eles. Não por vingança, mas por Justiça.
Em nome de uma suposta estabilidade institucional, o passado não resolvido permanece nos assombrando. Seja através de um olhar perdido da mãe de um amigo que, da janela, permanece a esperar o marido que jaz no fundo do mar, lançado de helicóptero. Seja adotando os métodos desenvolvidos por eles para garantir a ordem e o progresso.
Durante a ditadura, os militares armaram uma farsa para encobrir o assassinato do jornalista Vladimir Herzog. A explicação trazida à público, de suicídio na cela, não convenceu e a morte de Vlado tornou-se símbolo na luta contra o regime. Mas fez escola.
Em São Paulo, um homem de 39 anos foi encontrado enforcado pouco mais de duas horas depois de ter sido preso.
Supostamente, era traficante e transportava cocaína.
Supostamente, teria se enforcado usando um cadarço de sapato.
Questionado por jornalistas se não é praxe da polícia retirar os cadarços de sapatos de presos, um policial afirmou que o acusado usou um pedaço de papelão para arrastar um cadarço que estava fora da cela. Seria cômica se não fosse ofensiva uma justificativa dessas.
Como aqui já disse, o impacto de não resolvermos o nosso passado se faz sentir no dia-a-dia dos distritos policiais, nas salas de interrogatórios, nas periferias das grandes cidades, em manifestações, nos grotões da zona rural, com o Estado aterrorizando ou reprimindo parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica). A verdade é que não queremos olhar para o retrovisor não por ele mostrar o que está lá atrás, mas por nos revelar qual a nossa cara hoje.
Lembrar é fundamental para que não deixemos certas coisas acontecerem novamente.
Que o Supremo Tribunal Federal reconsidere e afirme que crimes contra a humanidade, como a tortura, não podem ser anistiados, nunca.
Que a história dos assassinatos sob responsabilidade da ditadura seja conhecida e contada nas escolas até entrar nos ossos e vísceras de nossas crianças e adolescentes a fim de que nunca esqueçam que a liberdade do qual desfrutam não foi de mão beijada.
Mas custou o sangue, a carne e a saudade de muita gente.
Fonte : Instituto Humanitas Unisinos

UM PAÍS SEM PRIORIDADE . ESCRITO POR MARCOS SANDRINI

Educação: Um país sem prioridade

Escrito por  
Vivemos num país “abençoado por Deus e bonito por natureza”. Nesta frase está faltando a contribuição do povo brasileiro. Infelizmente ainda não é a hora de gritar e sambar com Jorge Ben Jor que o país tropical acompanhou a bênção de Deus e a beleza da natureza.

O IBGE divulgou recentemente dados relevantes. Segundo sua Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (PNAD), 14 milhões de crianças e adolescentes até 17 anos estão excluídos do sistema educacional brasileiro. Somente 70% dos alunos terminam o ensino fundamental, com atraso médio de quatro anos. Apenas 16% da população economicamente ativa concluiu o ensino médio.

No que se refere ao ensino médio, de 15 a 18 anos, há uma verdadeira calamidade.No estado do Rio Grande do Sul, já considerado adiantado em educação, dos jovens que estão em idade de frequentar o ensino médio, 20% estão fora da escola. Parece difícil acreditar, mas pelo menos um quinto de nossos adolescentes está longe do que há de mais importante nesse período da vida: educação. Dos 80% que se matriculam neste grau de ensino, há uma evasão anual (abandono escolar) de 10,1% e repetência de 19,9%. Somados repetência e abandono, chegam a 30%, índice que revela uma verdadeira tragédia social. Somados aos 20% que não entram no ensino médio, temos uma taxa alarmante de 50% dos adolescentes que não iniciam ou não concluem o ensino médio adequadamente.

Para agravar um pouco mais esta situação, apenas 38% dos(as) professores(as) que dão aulas para alunos mais pobres no ensino fundamental da rede pública dizem acreditar que quase todos os estudantes concluirão o ensino médio. A descrença na capacidade de muitos alunos completarem o ensino médio pode tornar-se uma profecia autorrealizadora. Este fenômeno foi estudado pelos pesquisadores americanos Rosenthal e Jacobsen, que provaram que a expectativa dos professores tinha impacto no desempenho dos alunos. Com uma visão negativa dos alunos, educadores se relacionam com eles de modo a confirmar as expectativas de que serão incapazes de aprender. Na prática isso pode acontecer por meio de comportamentos explícitos – agressões verbais – ou sutis, como a frequência com que atendem as dúvidas de alunos considerados menos capazes.

Nos cálculos das Nações Unidas, os jovens brasileiros permanecem em média 8,4 anos nos bancos escolares. A média é inferior à do Chile, de 10,9 anos, e à da Argentina, de 10,5 anos. No Brasil, um em cada cinco eleitores não foi à escola ou é analfabeto. Em números absolutos isto representa 27 milhões de eleitores que ou nunca frequentaram a escola ou são analfabetos. Só 13% dos brasileiros entre 18 e 24 anos frequentam o ensino superior. Nos países da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico(OCDE), a percentagem é, em média, de 30%, e na Coréia do Sul, de 60%. De resto, apenas 9% da população brasileira conclui o ensino superior, contra 26%, na média nos países da OCDE. O Brasil não é um país membro da OCDE, mas tem a distinção de membro pleno, com participação em algumas reuniões e plena cooperação em diálogos e negociações sobre o desenvolvimento das economias mundiais.

Cerca de dois em cada dez jovens brasileiros entre 18 e 25 anos não estudam e nem trabalham (19,5%). É a geração nem-nem. Em números absolutos são 5,3 milhões de jovens. Os dados são do IBGE de 2010. Embora o desemprego esteja caindo em nosso país, paradoxalmente os indicadores mostram que os nem-nem estão crescendo.

Este é o perfil do adolescente infrator que chega às instituições de privação de liberdade no Brasil: 98% não completou o ensino fundamental (embora 77% tenha idade suficiente, ou seja, são maiores de 15 anos), sendo que 15% são analfabetos e 61% não frequentavam a escola. Ainda mais, 99% destes jovens provêm de famílias que ganham menos de seis salários mínimos. Mais ainda, mais de 90% são negros. Sabemos perfeitamente que jovens das elites brasileiras se envolvem com drogas (tanto no uso quanto no tráfico), com acidentes de trânsito, com homicídios, depredações, arruaças, uso ilegal de armas, participam de gangues juvenis, exercem violência sexual, corrompem-se e são corrompidos por dinheiro? Por que esta discriminação tão escandalosa?

Enquanto alguns brasileiros têm acesso ao que há de mais moderno em todos os campos, a maioria da população vive de migalhas tecnológicas ou, então, não tem nenhum acesso a elas. São os Lázaros modernos sedentos de comer migalhas que caem do banquete tecnológico e educacional dos ricos.

Há coisas não resolvidas em nosso país. Uma delas é a universalização da educação, sobretudo da básica. Para que haja esta universalização é importante que haja uma visão diferente do próprio financiamento da educação. Hoje, 87% da educação brasileira é feita em escolas estatais, 10% em escolas privadas e 3% em escolas confessionais. Os recursos públicos são destinados à educação estatal. As escolas privadas estão se beneficiando do mercado livre. As confessionais, ora furam o discurso das estatais abocanhando parcos recursos públicos, ora fazem o discurso das instituições privadas de ensino entregando-se ao mercado. Entregar-se ao mercado, hoje, significa servir as camadas mais altas da população brasileira que não muda de ideologia de jeito nenhum porque tem a visão de privilégio do que de compromisso social.

Há países que resolveram esta questão de forma diferente. O Chile, por exemplo, universalizou a educação básica com o financiamento público para todas as escolas, inclusive as da iniciativa privada. Só não entra nesta dinâmica quem optar por um caminho altamente privatista ocupando nichos seletos de ensino. Inclusive todas as escolas chilenas de educação básica são de turno integral. Não é aceitável a desculpa de que o Chile é um país pequeno, com uma população pequena (17,46 milhões de habitantes). Guardadas as devidas proporções, o Brasil é um país continental com imensas possibilidades naturais, culturais, demográficas, econômicas... População numerosa, hoje, significa poder de mercado interno.

O problema não é apenas do governo porque este executa o que a nação quer... Há uma afirmação que diz: “o povo tem o governo que merece”. Não é bem verdade. O povo tem o governo que escolhe. Enquanto a escola estatal (municipal, estadual, federal) estiver servindo à enorme população das camadas mais baixas da população e a elite brasileira puder se servir das escolas privadas nacionais ou estrangeiras para educar as novas gerações, numa visão de privilégio e não de compromisso social, o que teremos é um apartheid sempre maior de classes. A violência que atinge a sociedade brasileira tem esta origem. A violência não está ligada à pobreza. Pobre não é violento. A violência está ligada à desigualdade social. Educação mal gerida, mal distribuida, mal qualificada não conseguirá gerar uma nação onde a cidadania constitucional é prioridade e os direitos de todos são respeitados.

Educação não é sinônimo de cultura erudita, bons modos, etiqueta. Educação é questão de respeito à dignidade de todos sobretudo à democratização à escola no acesso, na qualidade e na gestão.

A Família Salesiana aprendeu de Dom Bosco a amar a escola. Ele viveu no século XIX, período de grandes reformas educacionais no Piemonte e, posteriormente, na Itália. Engajou-se profundamente na universalização da educação básica assumindo as novas tecnologias da época. É só ver o entusiasmo com que assumiu o sistema métrico decimal, novidade na época. Contribuiu, sobretudo, com a organização do Sistema Preventivo feito à sua imagem e semelhança que era e é, ao mesmo tempo, pedagogia, pastoral e espiritualidade.

Pe. Marcos Sandrini, SDB, é diretor da Faculdade Dom Bosco de Porto Alegre, RS

sandrini@dombosco.net
Fonte : BOLETIM SALESIANO