COP21, a conferência de 2015 sobre o clima.
[O Estado de S.Paulo] Será realizada em Paris no final do ano que vem uma grande conferência internacional (a COP 21), cuja agenda é chegar a um acordo global sobre mudanças climáticas, para entrar em vigor em 2020. Esse novo acordo deverá substituir o Protocolo de Kyoto, de 1997, que teve resultados decepcionantes.
O objetivo do Protocolo de Kyoto era reduzir as emissões de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global e pelas mudanças climáticas. Mas adotou uma estratégia que não deu certo: os países em desenvolvimento – incluindo o Brasil, a China e muitos outros – foram desobrigados de reduzir suas emissões com a justificativa de que fazê-lo prejudicaria suas perspectivas de desenvolvimento. Além disso, os Estados Unidos mantiveram-se fora do protocolo. Como resultado, as emissões de gases-estufa, em lugar de decrescer, aumentaram cerca de 50% em relação a 1990.
A conferência de Paris em 2015 está programada para adotar um novo protocolo ou tratado abrangente, incluindo todos os países.
As grandes esperanças e o entusiasmo que levaram à adoção da Convenção do Clima em 1992, no Rio de Janeiro (Rio-92), se dissiparam, como ficou evidente na Rio+20, em 2012. Isso se deve em boa parte ao governo brasileiro, que abandonou a liderança que exerceu em 1992 para exercer o papel de “coveiro” em 2012.
É realista esperar resultados concretos da conferência de Paris? Para responder a essa pergunta é preciso lembrar que guerras se vencem nos campos de batalha, e não nas conferências de paz que se reúnem ao fim delas. Batalhas estão ocorrendo em muitos países para levar os governos a adotar medidas que reduzam a poluição em geral e as emissões de gases de efeito estufa em particular.
E elas estão ocorrendo por questões de interesse próprio, principalmente nos dois maiores emissores: Estados Unidos e China. No primeiro deles, em razão dos avanços tecnológicos e de aumentos de produtividade que, na prática, reduzem tais emissões. Na China o problema é devido à necessidade urgente de melhorar a qualidade do ar, que está sufocando suas cidades. No país asiático, a produção de energia elétrica com a queima de carvão – que é o pior dos combustíveis, tanto do ponto de vista ambiental quanto de eficiência – e o aumento do uso de automóveis que utilizam gasolina são a origem da poluição.
Estados Unidos e China, juntos, representam mais de 50% das emissões de gases de efeito estufa e a eles se junta a União Europeia, onde a França pretende desempenhar papel de liderança, como tem declarado o presidente François Hollande. Na sua recente visita aos Estados Unidos, Hollande declarou que “o objetivo da conferência não é apenas encher os hotéis de Paris, mas o de atingir um acordo global, porque estamos em perigo”.
O recente episódio da capital francesa envolta em poluição – causada por automóveis e caminhões -, obrigando o governo a adotar rodízio de carros, vai reforçar a determinação de Hollande, que é a de reduzir as emissões em 20% – abaixo do nível de 1990 – até 2020, aumentando a participação de fontes renováveis de energia na França em até 20%.
Diante desse quadro, os países em desenvolvimento (entre os quais o Brasil) que até agora não assumiram obrigações de redução de emissões vão ser submetidos a fortes pressões para participarem do esforço global. A estratégia desses países – agrupados no assim chamado Grupo dos 77 – foi sempre a de adiar assumir responsabilidades em nome de vagas ideias sobre equidade e “responsabilidades históricas” dos países que se industrializaram no fim do século 19 e meados do século 20.
Os países industrializados podem ser responsabilizados por muitos dos males que afligem hoje a humanidade, como a herança colonial, a distribuição desigual da renda per capita e tantos outros. Tentar, todavia, compensar esses males usando a Convenção do Clima para isentar os países em desenvolvimento de esforços para evitar novas catástrofes, como as causadas por mudanças climáticas, tem um forte componente de ingenuidade e de falta de realismo.
Por essa razão, as conferências preparatórias para a grande conferência de Paris tornaram-se campos férteis para a retórica, a advocacia e até o turismo. Discute-se agora se decisões tomadas anteriormente, como a de que “todos os países” devem contribuir para reduzir as emissões, violam a Convenção do Clima, a qual dividiu os países em duas categorias: a dos industrializados, que deveriam reduzir suas emissões, e a dos países em desenvolvimento, que seriam isentos dessas obrigações.
A Convenção do Clima foi adotada em 1992 – há 22 anos, portanto – e muitas coisas mudaram desde então. Uma delas é a contribuição da China, que já supera as emissões dos Estados Unidos.
Os lideres políticos entenderam isso muito bem quando tentaram em Copenhague, em 2009, resolver esses problemas. Até o então presidente Lula concordou em apresentar “metas voluntárias” de reduções, que são questionáveis do ponto de vista técnico, mas politicamente representam um avanço porque são o reconhecimento de que os países em desenvolvimento também têm de contribuir.
O surpreendente é que desde então a diplomacia brasileira parece ter esquecido o que os chefes de Estado aceitaram em Copenhague e hoje se associa às teses mais retrógradas em discussão.
Se há uma área em que o Brasil poderia liderar e se destacar no cenário internacional, é a de mudanças climáticas. Isso ocorreu nos preparativos da Conferência do Rio em 1992. Essa liderança, contudo, foi perdida, como se viu na Rio+20, e não será recuperada se até 2015 a posição brasileira não mudar.
José Goldemberg, Professor Emérito da USP, foi Secretário do Meio Ambiente da Presidência da República durante as Negociações da Rio-92
Artigo originalmente publicado em O Estado de S.Paulo e reproduzido pelo EcoDebate, 22/04/2014
Fonte : EcoDebate
sábado, 26 de abril de 2014
COLAPSO GLOBAL.
A tempestade perfeita: crise da comida, água, emprego, energia e clima.
“A pirâmide global da riqueza pode afundar por falta de sustentação ecológica ou pode implodir por falta de justiça redistributiva em sua arquitetura social” (JED ALVES, 26/06/2013).
[EcoDebate] No dia 22 de abril, além do aniversário da chegada de Cabral e data de início da exploração portuguesa do Brasil, se comemora o Dia da Terra. Na verdade há pouco a se comemorar pois as condições ambientais do Planeta pioram dia a dia. O solo, a água e o ar estão sendo poluídos e degradados pelo progresso da civilização humana. O homo sapiens, com seu padrão econômico, se tornou antagonista do meio ambiente e as atividades antrópicas estão reduzindo a biodiversidade da vida na Terra.
O modelo de desenvolvimento que teve início com as grandes navegações de Cristóvão Colombo, em 1492, mas que tomou forma definitiva nos últimos 250 anos, tornando-se onipresente no mundo globalizado – baseado na exploração crescente dos recursos naturais e no uso intensivo de energia fóssil – pode estar caminhando para um colapso irreversível, segundo Nafeez Ahmed, em artigo do jornal The Guardian (14/03/2014).
O artigo de Ahmed tem como base um estudo recente patrocinado pelo Goddard Space Flight Center, da Nasa, que considera a perspectiva de que a civilização industrial global pode entrar em colapso nas próximas décadas devido à exploração insustentável de recursos naturais e à má distribuição de riqueza e ao desigual acesso aos bens de consumo modernos.
De acordo com os registros históricos, até mesmo avançadas civilizações com alto nível de complexidade são suscetíveis a entrar em colapso, levantando questões sobre a sustentabilidade da civilização moderna: “A queda do Império Romano e dos avançados Impérios Han, Maurya e Gupta , assim como dos Impérios Mesopotâmicos, mostram que civilizações sofisticadas, complexas e criativas podem também serem frágeis e inconstantes”.
O estudo publicado no journal Ecological Economics identificou alguns fatores inter-relacionados mais relevantes que podem explicar o declínio civilizacional e que podem ajudar a determinar o risco de colapso atual, a saber: População, Clima, Água, Agricultura e Energia. Esses fatores podem levar ao colapso quando convergem para gerar duas características cruciais: a tensão colocada sobre a capacidade de carga do Planeta e a estratificação econômica da sociedade com o aumento da desigualdade entre a elite e a “ralé” (na expressão de Jessé de Souza). A conjugação do colapso ambiental e social têm desempenhado um papel central no processo de colapso em todas as civilizações avançadas nos últimos cinco mil anos.
O estudo desafia aqueles que argumentam que a tecnologia vai resolver esses desafios aumentando a eficiência econômica. A mudança tecnológica pode aumentar a eficiência da utilização de recursos, mas também tende a aumentar tanto o consumo de recursos per capita e a escala de extração de recursos, de modo que, os aumentos no consumo muitas vezes compensam o aumento da eficiência do uso de recursos. Isso é o que se chama de Paradoxo de Jevons.
Na medida em que a taxa de esgotamento dos recursos segue seu rumo, as elites continuam consumindo e mantendo seus privilégios, enquanto a ralé sofre com a falta d’água, o aumento do preço dos alimentos e o desemprego. O esgotamento dos recursos naturais (pico da água, do petróleo, etc..) e as mudanças climáticas delineiam os limites do modelo de desenvolvimento, mas o colapso pode começar pelas classes trabalhadoras e pobres e só atingem a elite depois de um certo tempo. Os monopólios de riqueza da elite significam que ela está protegida contra a maioria dos primeiros efeitos negativos do colapso ambiental e só sentiriam as consequências muito mais tarde do que a ralé.
Segundo Alves (26/06/2013): “O crescimento econômico é igual ao incremento da força de trabalho multiplicado pelo aumento da produtividade das pessoas ocupadas. Se há, ao mesmo tempo, declínio da população (especialmente da PIA: população em idade ativa), crescimento do desemprego, estagnação das inovações tecnológicas e esgotamento dos recursos naturais, então o crescimento econômico se torna impossível. Este quadro é agravado pelo endividamento público e privado e pelos custos do envelhecimento populacional sem aproveitamento do segundo bônus demográfico”.
Algumas pessoas e estudiosos tentam dar o alerta de que o sistema está se movendo em direção a um colapso iminente e defendem mudanças estruturais na sociedade, na população e na economia. Porém, em geral, são chamados de catastrofistas e neomalthusianos. A elite e o pensamento convencional sempre apresentam argumentos para mostrar que o modelo de produção e consumo pode ser aperfeiçoado e ampliado. Na reunião da Comissão sobre População e Desenvolvimento (CPD) da ONU, ocorrida de 7 a 11 de abril de 2014, o desenvolvimento foi reafirmado como um direito dos povos – um bem em si mesmo – e não ficaram claros os limites ambientais das atividades antrópicas e nem foram considerados os direitos da Terra e das demais espécies do Planeta.
Evidentemente o colapso ambiental pode ser evitado se a taxa per capita de esgotamento dos ecossistemas for reduzida a um nível sustentável e houver redução da desigualdade econômica e social. Para tanto, o estudo publicado no journal Ecological Economics mostra que é preciso reduzir drasticamente o consumo de recursos e a geração de lixo e resíduos sólidos – fazendo a transição para recursos renováveis ??e mais desmaterializados – além de reduzir o tamanho da população, diminuindo o impacto antrópico sobre o meio ambiente.
Segundo Nafeez Ahmed, o modelo “business as usual” não é sustentável e mudanças estruturais imediatas são necessárias para a defesa do meio ambiente e a redução das desigualdades sociais. A conjugação das crises da água, da comida, do emprego, da energia e do clima significa que o mundo pode mudar para pior e que os últimos 250 anos de “progresso” humano podem estar chegando ao fim com o início de uma fase de regresso social.
O Dia Internacional da Mãe Terra – conforme denominação assumida pela Organização das Nações Unidas (ONU) a partir de 2009 – deveria servir para marcar a responsabilidade coletiva na promoção da harmonia entre todos os seres vivos do Planeta. Porém, se os crimes do especismo e do ecocídio não forem erradicados, a vida na Terra pode caminhar para um colapso irreversível. Adicionalmente, se houver ampliação das desigualdades sociais a sociedade pode caminhar para a desintegração de seu tecido constitutivo. Uma grande crise ambiental e social poderia ser uma tempestade perfeita que o mundo todo gostaria de evitar.
Referência:
Nafeez Ahmed. Nasa-funded study: industrial civilisation headed for ‘irreversible collapse’? The Guardian, 14 March 2014
http://www.theguardian.com/environment/earth-insight/2014/mar/14/nasa-civilisation-irreversible-collapse-study-scientists
ALVES, JED. A pirâmide global da riqueza. EcoDebate, RJ, 26/06/2013
http://www.ecodebate.com.br/2013/06/26/a-piramide-global-da-riqueza-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
ALVES, JED. O decrescimento econômico e populacional: uma realidade provável? EcoDebate, RJ, 26/06/2013
http://www.ecodebate.com.br/2013/04/03/o-decrescimento-economico-e-populacional-uma-realidade-provavel-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
Nafeez Ahmed. The global Transition tipping point has arrived – vive la revolution, 18 March 2014
http://www.theguardian.com/environment/earth-insight/2014/mar/18/transition-tipping-point-
revolution-doom
Safa Motesharrei et al. Human and Nature Dynamics (HANDY): Modeling Inequality and Use of Resources in the Collapse or Sustainability of Societies, journal Ecological Economics, March 19, 2014
http://www.sesync.org/sites/default/files/resources/motesharrei-rivas-kalnay.pdf
Como o ser humano destrói o planeta
http://www.huffingtonpost.com/2014/03/27/everything-wrong-with-humanity-animation_n_5037496.html?utm_hp_ref=mostpopular
http://www.youtube.com/watch?v=WfGMYdalClU
Ser humano espécie invasora e praga sobre a Terra?
https://www.facebook.com/photo.php?v=710025515727565
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, Doutor em demografia e professor titular do mestrado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
EcoDebate, 22/04/2014
“A pirâmide global da riqueza pode afundar por falta de sustentação ecológica ou pode implodir por falta de justiça redistributiva em sua arquitetura social” (JED ALVES, 26/06/2013).
[EcoDebate] No dia 22 de abril, além do aniversário da chegada de Cabral e data de início da exploração portuguesa do Brasil, se comemora o Dia da Terra. Na verdade há pouco a se comemorar pois as condições ambientais do Planeta pioram dia a dia. O solo, a água e o ar estão sendo poluídos e degradados pelo progresso da civilização humana. O homo sapiens, com seu padrão econômico, se tornou antagonista do meio ambiente e as atividades antrópicas estão reduzindo a biodiversidade da vida na Terra.
O modelo de desenvolvimento que teve início com as grandes navegações de Cristóvão Colombo, em 1492, mas que tomou forma definitiva nos últimos 250 anos, tornando-se onipresente no mundo globalizado – baseado na exploração crescente dos recursos naturais e no uso intensivo de energia fóssil – pode estar caminhando para um colapso irreversível, segundo Nafeez Ahmed, em artigo do jornal The Guardian (14/03/2014).
O artigo de Ahmed tem como base um estudo recente patrocinado pelo Goddard Space Flight Center, da Nasa, que considera a perspectiva de que a civilização industrial global pode entrar em colapso nas próximas décadas devido à exploração insustentável de recursos naturais e à má distribuição de riqueza e ao desigual acesso aos bens de consumo modernos.
De acordo com os registros históricos, até mesmo avançadas civilizações com alto nível de complexidade são suscetíveis a entrar em colapso, levantando questões sobre a sustentabilidade da civilização moderna: “A queda do Império Romano e dos avançados Impérios Han, Maurya e Gupta , assim como dos Impérios Mesopotâmicos, mostram que civilizações sofisticadas, complexas e criativas podem também serem frágeis e inconstantes”.
O estudo publicado no journal Ecological Economics identificou alguns fatores inter-relacionados mais relevantes que podem explicar o declínio civilizacional e que podem ajudar a determinar o risco de colapso atual, a saber: População, Clima, Água, Agricultura e Energia. Esses fatores podem levar ao colapso quando convergem para gerar duas características cruciais: a tensão colocada sobre a capacidade de carga do Planeta e a estratificação econômica da sociedade com o aumento da desigualdade entre a elite e a “ralé” (na expressão de Jessé de Souza). A conjugação do colapso ambiental e social têm desempenhado um papel central no processo de colapso em todas as civilizações avançadas nos últimos cinco mil anos.
O estudo desafia aqueles que argumentam que a tecnologia vai resolver esses desafios aumentando a eficiência econômica. A mudança tecnológica pode aumentar a eficiência da utilização de recursos, mas também tende a aumentar tanto o consumo de recursos per capita e a escala de extração de recursos, de modo que, os aumentos no consumo muitas vezes compensam o aumento da eficiência do uso de recursos. Isso é o que se chama de Paradoxo de Jevons.
Na medida em que a taxa de esgotamento dos recursos segue seu rumo, as elites continuam consumindo e mantendo seus privilégios, enquanto a ralé sofre com a falta d’água, o aumento do preço dos alimentos e o desemprego. O esgotamento dos recursos naturais (pico da água, do petróleo, etc..) e as mudanças climáticas delineiam os limites do modelo de desenvolvimento, mas o colapso pode começar pelas classes trabalhadoras e pobres e só atingem a elite depois de um certo tempo. Os monopólios de riqueza da elite significam que ela está protegida contra a maioria dos primeiros efeitos negativos do colapso ambiental e só sentiriam as consequências muito mais tarde do que a ralé.
Segundo Alves (26/06/2013): “O crescimento econômico é igual ao incremento da força de trabalho multiplicado pelo aumento da produtividade das pessoas ocupadas. Se há, ao mesmo tempo, declínio da população (especialmente da PIA: população em idade ativa), crescimento do desemprego, estagnação das inovações tecnológicas e esgotamento dos recursos naturais, então o crescimento econômico se torna impossível. Este quadro é agravado pelo endividamento público e privado e pelos custos do envelhecimento populacional sem aproveitamento do segundo bônus demográfico”.
Algumas pessoas e estudiosos tentam dar o alerta de que o sistema está se movendo em direção a um colapso iminente e defendem mudanças estruturais na sociedade, na população e na economia. Porém, em geral, são chamados de catastrofistas e neomalthusianos. A elite e o pensamento convencional sempre apresentam argumentos para mostrar que o modelo de produção e consumo pode ser aperfeiçoado e ampliado. Na reunião da Comissão sobre População e Desenvolvimento (CPD) da ONU, ocorrida de 7 a 11 de abril de 2014, o desenvolvimento foi reafirmado como um direito dos povos – um bem em si mesmo – e não ficaram claros os limites ambientais das atividades antrópicas e nem foram considerados os direitos da Terra e das demais espécies do Planeta.
Evidentemente o colapso ambiental pode ser evitado se a taxa per capita de esgotamento dos ecossistemas for reduzida a um nível sustentável e houver redução da desigualdade econômica e social. Para tanto, o estudo publicado no journal Ecological Economics mostra que é preciso reduzir drasticamente o consumo de recursos e a geração de lixo e resíduos sólidos – fazendo a transição para recursos renováveis ??e mais desmaterializados – além de reduzir o tamanho da população, diminuindo o impacto antrópico sobre o meio ambiente.
Segundo Nafeez Ahmed, o modelo “business as usual” não é sustentável e mudanças estruturais imediatas são necessárias para a defesa do meio ambiente e a redução das desigualdades sociais. A conjugação das crises da água, da comida, do emprego, da energia e do clima significa que o mundo pode mudar para pior e que os últimos 250 anos de “progresso” humano podem estar chegando ao fim com o início de uma fase de regresso social.
O Dia Internacional da Mãe Terra – conforme denominação assumida pela Organização das Nações Unidas (ONU) a partir de 2009 – deveria servir para marcar a responsabilidade coletiva na promoção da harmonia entre todos os seres vivos do Planeta. Porém, se os crimes do especismo e do ecocídio não forem erradicados, a vida na Terra pode caminhar para um colapso irreversível. Adicionalmente, se houver ampliação das desigualdades sociais a sociedade pode caminhar para a desintegração de seu tecido constitutivo. Uma grande crise ambiental e social poderia ser uma tempestade perfeita que o mundo todo gostaria de evitar.
Referência:
Nafeez Ahmed. Nasa-funded study: industrial civilisation headed for ‘irreversible collapse’? The Guardian, 14 March 2014
http://www.theguardian.com/environment/earth-insight/2014/mar/14/nasa-civilisation-irreversible-collapse-study-scientists
ALVES, JED. A pirâmide global da riqueza. EcoDebate, RJ, 26/06/2013
http://www.ecodebate.com.br/2013/06/26/a-piramide-global-da-riqueza-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
ALVES, JED. O decrescimento econômico e populacional: uma realidade provável? EcoDebate, RJ, 26/06/2013
http://www.ecodebate.com.br/2013/04/03/o-decrescimento-economico-e-populacional-uma-realidade-provavel-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
Nafeez Ahmed. The global Transition tipping point has arrived – vive la revolution, 18 March 2014
http://www.theguardian.com/environment/earth-insight/2014/mar/18/transition-tipping-point-
revolution-doom
Safa Motesharrei et al. Human and Nature Dynamics (HANDY): Modeling Inequality and Use of Resources in the Collapse or Sustainability of Societies, journal Ecological Economics, March 19, 2014
http://www.sesync.org/sites/default/files/resources/motesharrei-rivas-kalnay.pdf
Como o ser humano destrói o planeta
http://www.huffingtonpost.com/2014/03/27/everything-wrong-with-humanity-animation_n_5037496.html?utm_hp_ref=mostpopular
http://www.youtube.com/watch?v=WfGMYdalClU
Ser humano espécie invasora e praga sobre a Terra?
https://www.facebook.com/photo.php?v=710025515727565
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, Doutor em demografia e professor titular do mestrado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
EcoDebate, 22/04/2014
terça-feira, 22 de abril de 2014
sexta-feira, 18 de abril de 2014
SACOLAS PLÁSTICAS. BRASIL : FAZ O CTRL C / CTRL V , DA EUROPA.
União Europeia quer reduzir em 80% o consumo de sacolas plásticas
Medida aprovada prevê criação de impostos sobre esse produto e até sua proibição. Das 750 mil toneladas de sacolas plásticas produzidas na Europa em 2010, somente 10% foram recicladas.
A União Europeia (UE) quer diminuir drasticamente o consumo de sacolas plásticas na região até o fim da década. O Parlamento Europeu aprovou nesta quarta-feira (16/03) a meta de reduzir em 80% a quantidade consumida nos próximos cinco anos.
Para isso, os países membros devem implementar medidas mais duras para forçar a queda do consumo, como taxas ou impostos sobre sacolas plástica – ou até mesmo sua proibição. Até 2019, a média anual de consumo de sacolas descartáveis por habitante deve ser cair dos atuais 176 para 35.
“As sacolas plásticas são um símbolo da nossa sociedade de desperdício. Nós a usamos por pouco tempo, mas comprometemos o meio ambiente por séculos”, afirma o comissário europeu do Meio Ambiente, Janez Potocnik.
Segundo a Comissão Europeia, a produção mundial de plástico pode triplicar até 2050. Somente na Europa, em 2010, foram produzidas 750 mil toneladas de sacolas plásticas, revela a organização Ajuda Ambiental Alemã (DUH). Esse montante corresponde ao peso de 625 mil carros. Apenas 10% dessas sacolas são recicladas.
A média de consumo de sacolas plásticas descartáveis na UE por habitante é de 198, das quais 176 são descartáveis. Na Alemanha, esse número é de 71 sacolas por habitante, sendo 64 descartáveis. Em Portugal, estima-se cada morador use 500 sacolas por ano.
Imposto extra
A Irlanda possui o menor consumo, com cerca de 20 sacolas por habitante, sendo 18 descartáveis. O país conseguiu alcançar esse nível devido à criação de um imposto de 22 centavos de euro por sacola.
“O imposto não foi criado para aumentar a renda estatal, mas para mudar o comportamento do cidadão. Desde a criação do imposto o consumo caiu bastante”, afirma Benjamin Bongardt, diretor do setor de políticas sobre recursos da Federação de Proteção Ambiental da Alemanha (Nabu). A diminuição foi grande, passando de 328 para 20.
Segundo a Federação para Meio Ambiente e Proteção da Natureza da Alemanha (Bund), dez milhões de toneladas de lixo vão parar nos oceanos por ano, formando ilhas enormes nos mares. O plástico precisa de centenas de anos para se decompor – as sacolas desse material são um perigo para o meio ambiente por até 450 anos, afirmam especialistas.
Anualmente, milhares de pássaros e mamíferos marinhos morrem devido ao lixo acumulado. Muitos deles ficam presos ou comem plástico. Especialistas alertam que, dessa maneira, esse elemento pode ir parar na cadeia alimentar humana.
Para entrar em vigor, a decisão aprovada pelo Parlamento Europeu ainda precisa ser negociada com os países membros. A negociação está prevista para começar ainda esse ano, após a eleição europeia que acontece em maio.
CN/dpa/dw
Matéria de Nádia Pontes, da Deutsche Welle, DW.DE, reproduzida pelo EcoDebate, 17/04/2014
Medida aprovada prevê criação de impostos sobre esse produto e até sua proibição. Das 750 mil toneladas de sacolas plásticas produzidas na Europa em 2010, somente 10% foram recicladas.
A União Europeia (UE) quer diminuir drasticamente o consumo de sacolas plásticas na região até o fim da década. O Parlamento Europeu aprovou nesta quarta-feira (16/03) a meta de reduzir em 80% a quantidade consumida nos próximos cinco anos.
Para isso, os países membros devem implementar medidas mais duras para forçar a queda do consumo, como taxas ou impostos sobre sacolas plástica – ou até mesmo sua proibição. Até 2019, a média anual de consumo de sacolas descartáveis por habitante deve ser cair dos atuais 176 para 35.
“As sacolas plásticas são um símbolo da nossa sociedade de desperdício. Nós a usamos por pouco tempo, mas comprometemos o meio ambiente por séculos”, afirma o comissário europeu do Meio Ambiente, Janez Potocnik.
Segundo a Comissão Europeia, a produção mundial de plástico pode triplicar até 2050. Somente na Europa, em 2010, foram produzidas 750 mil toneladas de sacolas plásticas, revela a organização Ajuda Ambiental Alemã (DUH). Esse montante corresponde ao peso de 625 mil carros. Apenas 10% dessas sacolas são recicladas.
A média de consumo de sacolas plásticas descartáveis na UE por habitante é de 198, das quais 176 são descartáveis. Na Alemanha, esse número é de 71 sacolas por habitante, sendo 64 descartáveis. Em Portugal, estima-se cada morador use 500 sacolas por ano.
Imposto extra
A Irlanda possui o menor consumo, com cerca de 20 sacolas por habitante, sendo 18 descartáveis. O país conseguiu alcançar esse nível devido à criação de um imposto de 22 centavos de euro por sacola.
“O imposto não foi criado para aumentar a renda estatal, mas para mudar o comportamento do cidadão. Desde a criação do imposto o consumo caiu bastante”, afirma Benjamin Bongardt, diretor do setor de políticas sobre recursos da Federação de Proteção Ambiental da Alemanha (Nabu). A diminuição foi grande, passando de 328 para 20.
Segundo a Federação para Meio Ambiente e Proteção da Natureza da Alemanha (Bund), dez milhões de toneladas de lixo vão parar nos oceanos por ano, formando ilhas enormes nos mares. O plástico precisa de centenas de anos para se decompor – as sacolas desse material são um perigo para o meio ambiente por até 450 anos, afirmam especialistas.
Anualmente, milhares de pássaros e mamíferos marinhos morrem devido ao lixo acumulado. Muitos deles ficam presos ou comem plástico. Especialistas alertam que, dessa maneira, esse elemento pode ir parar na cadeia alimentar humana.
Para entrar em vigor, a decisão aprovada pelo Parlamento Europeu ainda precisa ser negociada com os países membros. A negociação está prevista para começar ainda esse ano, após a eleição europeia que acontece em maio.
CN/dpa/dw
Matéria de Nádia Pontes, da Deutsche Welle, DW.DE, reproduzida pelo EcoDebate, 17/04/2014
QUEBRADEIRAS DE COCO.
O orgulho de quebrar coco babaçu em Vila Criolis, Baixo Parnaíba maranhense.
[Territórios Livres do Baixo Parnaíba] Não é recomendável chegar em determinada cidade depois de um determinado horário por talvez não encontrar quem o receba assim como não é recomendável deixar essa mesma cidade em determinado horário por não haver quem o leve.
O povoado Vila Criolis se distancia treze quilômetros da cidade de Brejo, Baixo Parnaíba maranhense. Qualquer dificuldade, ele ligaria para dona Milagres que o aguardava em sua casa. Assim que chegaram, perguntou-se ao frentista qual era a distância entre Brejo e a Vila Criolis. O frentista calculou uns 30 quilômetros. Um rapaz guiou o carro pela estrada de piçarra em plena noite. Uma senhora o aconselhara a continuar o percurso a Vila Criolis pela manhã cedo. Ele gostaria de dormir na comunidade e por isso fazia questão de continuar. Além do motorista, seguia um outro rapaz no carro; eles perguntaram se o moço era professor. Ele respondeu que era jornalista. O conselho da senhora o inquietara. Ela o fez se sentir ameaçado. Os rapazes discorreram sobre roubos de celulares e de motos nos interiores da cidade de Brejo. Bem ali, mora não sei quem que rouba motos.
No ano passado, quando viera, a prefeitura anunciava a reforma da estrada que liga Brejo aos assentamentos do Incra. A reforma ficou só no anúncio. Sorte que não chovera tudo que tinha que chover, senão passariam por maus bocados. Simplesmente, a prefeitura “esquecera” de reformar a estrada que passa pela Vila Criolis. Ocorreu, apenas, a instalação dos tubos por onde a água corre. A prefeitura, simplesmente, aboliu a Vila Criolis do seu planejamento. As razões para não cumprir com as obrigações constitucionais não ficaram claras.
A Vila Criolis se caracteriza por ser uma região de Baixo. Os babaçuais predominam em vários trechos. Desde sempre, ouvia-se das bocas de várias pessoas, que provieram da Vila Criolis e de áreas próximas, o quanto suas vidas dependeram do extrativismo do babaçu. O deputado Domingos Dutra e o professor Luis Alves expõem suas dívidas e raízes históricas com a cultura do babaçu sempre que possível.
A sua ida a Vila Criolis se configurava como uma excelente oportunidade não só para apresentar o PAIS, ou Produção Agroecologica Integrada e Sustentável, uma tecnologia social que congrega no mesmo espaço diferentes atividades produtivas como a criação de galinha caipira e o plantio de verduras, para a comunidade como também uma excelente oportunidade para rememorar as histórias pelas quais essa gente toda passou e ainda passa. A casa de dona Milagres era uma casa de agricultores. Eles plantavam um pouco de mandioca, arroz, feijão e abóbora. O filho dela disse desse jeito: “ aqui vivemos da roça”. Em sua fala, havia muita sinceridade e muita tristeza. A irmã veio em seguida para desembestar outros dizeres e afazeres. Ela compunha um dos grupos que cultivavam uma área com verduras. Apanhava-se cheiro verde e cebolinha. A Girlene também quebrava coco e vendia o azeite. Depois de escutar a Girlene, ele inquiriu a família de dona Milagres dos porquês das pessoas deixarem que as coisas boas se percam. A dona Milagres respondeu que por medo.
A Capacitação em meio ambiente, organizada pelo Aconeruq, iniciou-se as oito horas da manhã. A dona Maria do Rosário se deslocou de mansinho na manhã para avisar que não ficaria por muito tempo na oficina e que enviaria o marido para ficar em seu lugar. Ficou por muito mais tempo do que previra. A primeira conversa da capacitação girou em torno do que representava para eles viver na Vila Criolis, data Saco das Almas. A dona Maria do Rosário recordou a sua infância e as ameaças de despejo desferidas pelo proprietário de terras à sua família e aos outros agregados. O agregado pagava uma renda ao proprietário como forma de obediência e também como forma de garantir a sua permanência na propriedade. Caso não pagasse a renda, o proprietário enviava a polícia militar para retirar a família e os seus pertences. A obrigação de pagar renda ofendia a família de duas formas: pela humilhação com os tratamentos dispendidos e pelo empobrecimento já que os agregados destinavam seu tempo e sua produção para o proprietário.
O senhor José de Fátima, como dona Rosário, viveu boa parte de sua vida agregado em propriedades dos outros. No caso dele, foram três as propriedades: a dona Vitória, o senhor Wilson e o doutor Carlos. Quanto tempo existe a Vila Criolis? Ninguém soube responder ao certo. As respostas raspavam os trinta anos. A Ana Lina discordou de imediato porque ela nasceu na Vila Criolis e já tinha 37 anos. Para tirar a dúvida, chegou a dona Ana Lurdes, mãe de Ana Lina. A dona Ana Lurdes também não soube precisar a idade da Vila Criolis, mas soube cravar que se orgulha de ser quebradora de coco babaçu. Depois que ela declarou esse orgulho, as demais mulheres responderam no mesmo tom que se orgulhavam de serem quebradoras. O Antonio, delegado sindical, relatou que as áreas de babaçuais na data Saco das Almas alcançam mais de quinze mil hectares e que o Vicente um dos proprietários da área quis implantar um projeto industrial de extração do palmito do babaçu na cidade de Brejo. O projeto só não foi em frente porque os quilombolas fizeram denúncias ao Ibama.
De acordo com o Antonio, o babaçu é a vida dos quilombolas porque dele se tira o azeite, o palmito, o mesocarpo e se queima a casca. Essa declaração do Antonio e as declarações das mulheres se chocam um pouco com a percepção que o babaçu, de tanto fazer parte da vida dos quilombolas da Vila Criolis, perdeu um pouco a sua importância econômica e social nesses tempos modernos. As mulheres quebram o coco e vendem o azeite, só que o babaçu não aparece em primeiro lugar na lista de espécies florestais importantes para a comunidade.
Os participantes da capacitação em meio ambiente se depararam durante a caminhada pelo leito do riacho da Ponte, na Vila Criolis, município de Brejo, com a dona Maria Inês em seu momento de banho. Eles caminhavam por dentro da propriedade do senhor Candin. A dona Maria Inês chegou aos seus setenta anos. O senhor Candin prometeu doar um hectare para ela se manter. Uma cerca torna difícil a caminhada até o riacho na propriedade do senhor Candin. Verificam-se cercas por toda a extensão do riacho. Apenas dois trechos se livraram das cercas e nestes a comunidade se banha e lava as roupas. Nesses dois trechos as criações de animais também se molham e bebem. Tem dois anos que o riacho da Ponte seca depois que as chuvas acabam. Isso se deve, segundo os moradores, ao desmatamento que o senhor Candin realizou para o plantio de capim.
Além do desmatamento, o plantio de capim traz consigo o despejo de agrotóxicos. O senhor Francisco, marido de uma das participantes, despejou agrotóxico quinze anos da sua vida. Apresentaram-se dores da cintura para baixo o que pode ser resultado da aspersão de agrotóxico. Na casa do senhor Francisco, depois da caminhada, as pessoas conversaram sobre mudanças climáticas e o comportamento dos agricultores referente ao meio ambiente e a urgência em mudar esse comportamento.
Os agricultores esperam que a floresta se regenere depois que utilizaram aquele solo para os seus plantios. É bem provável que ela não regenere a contento porque o agricultor voltará a essa área mais cedo ou mais tarde. A hora do almoço se aproximava. As mulheres saíram cedo de suas casas sem aprontarem nada. De uma próxima vez, o almoço se dará no mesmo lugar da oficina. Por conta disso, a esposa do senhor Francisco ofereceu goiabas. Alguns comeram mais e outros menos. As pessoas paparam as goiabas e, por fim, escolheram três deles (Girlene, Valdemar e Zé de Fátima) para formarem um grupo que encetará uma discussão com os proprietários, que impedem os moradores de carregarem água de seus terrenos e que despejam agrotóxicos para plantar capim, para que mudem suas atitudes que causam danos ambientais na vida de todos os moradores da Vila Criolis.
* Mayron Régis, Colaborador do EcoDebate, é Jornalista e Assessor do Fórum Carajás e atua no Programa Territórios Livres do Baixo Parnaíba (Fórum Carajás, SMDH, CCN e FDBPM).
** Crônica enviada pelo Autor e originalmente publicada no blogue Territórios Livres do Baixo Parnaíba.
EcoDebate, 17/04/2014
[Territórios Livres do Baixo Parnaíba] Não é recomendável chegar em determinada cidade depois de um determinado horário por talvez não encontrar quem o receba assim como não é recomendável deixar essa mesma cidade em determinado horário por não haver quem o leve.
O povoado Vila Criolis se distancia treze quilômetros da cidade de Brejo, Baixo Parnaíba maranhense. Qualquer dificuldade, ele ligaria para dona Milagres que o aguardava em sua casa. Assim que chegaram, perguntou-se ao frentista qual era a distância entre Brejo e a Vila Criolis. O frentista calculou uns 30 quilômetros. Um rapaz guiou o carro pela estrada de piçarra em plena noite. Uma senhora o aconselhara a continuar o percurso a Vila Criolis pela manhã cedo. Ele gostaria de dormir na comunidade e por isso fazia questão de continuar. Além do motorista, seguia um outro rapaz no carro; eles perguntaram se o moço era professor. Ele respondeu que era jornalista. O conselho da senhora o inquietara. Ela o fez se sentir ameaçado. Os rapazes discorreram sobre roubos de celulares e de motos nos interiores da cidade de Brejo. Bem ali, mora não sei quem que rouba motos.
No ano passado, quando viera, a prefeitura anunciava a reforma da estrada que liga Brejo aos assentamentos do Incra. A reforma ficou só no anúncio. Sorte que não chovera tudo que tinha que chover, senão passariam por maus bocados. Simplesmente, a prefeitura “esquecera” de reformar a estrada que passa pela Vila Criolis. Ocorreu, apenas, a instalação dos tubos por onde a água corre. A prefeitura, simplesmente, aboliu a Vila Criolis do seu planejamento. As razões para não cumprir com as obrigações constitucionais não ficaram claras.
A Vila Criolis se caracteriza por ser uma região de Baixo. Os babaçuais predominam em vários trechos. Desde sempre, ouvia-se das bocas de várias pessoas, que provieram da Vila Criolis e de áreas próximas, o quanto suas vidas dependeram do extrativismo do babaçu. O deputado Domingos Dutra e o professor Luis Alves expõem suas dívidas e raízes históricas com a cultura do babaçu sempre que possível.
A sua ida a Vila Criolis se configurava como uma excelente oportunidade não só para apresentar o PAIS, ou Produção Agroecologica Integrada e Sustentável, uma tecnologia social que congrega no mesmo espaço diferentes atividades produtivas como a criação de galinha caipira e o plantio de verduras, para a comunidade como também uma excelente oportunidade para rememorar as histórias pelas quais essa gente toda passou e ainda passa. A casa de dona Milagres era uma casa de agricultores. Eles plantavam um pouco de mandioca, arroz, feijão e abóbora. O filho dela disse desse jeito: “ aqui vivemos da roça”. Em sua fala, havia muita sinceridade e muita tristeza. A irmã veio em seguida para desembestar outros dizeres e afazeres. Ela compunha um dos grupos que cultivavam uma área com verduras. Apanhava-se cheiro verde e cebolinha. A Girlene também quebrava coco e vendia o azeite. Depois de escutar a Girlene, ele inquiriu a família de dona Milagres dos porquês das pessoas deixarem que as coisas boas se percam. A dona Milagres respondeu que por medo.
A Capacitação em meio ambiente, organizada pelo Aconeruq, iniciou-se as oito horas da manhã. A dona Maria do Rosário se deslocou de mansinho na manhã para avisar que não ficaria por muito tempo na oficina e que enviaria o marido para ficar em seu lugar. Ficou por muito mais tempo do que previra. A primeira conversa da capacitação girou em torno do que representava para eles viver na Vila Criolis, data Saco das Almas. A dona Maria do Rosário recordou a sua infância e as ameaças de despejo desferidas pelo proprietário de terras à sua família e aos outros agregados. O agregado pagava uma renda ao proprietário como forma de obediência e também como forma de garantir a sua permanência na propriedade. Caso não pagasse a renda, o proprietário enviava a polícia militar para retirar a família e os seus pertences. A obrigação de pagar renda ofendia a família de duas formas: pela humilhação com os tratamentos dispendidos e pelo empobrecimento já que os agregados destinavam seu tempo e sua produção para o proprietário.
O senhor José de Fátima, como dona Rosário, viveu boa parte de sua vida agregado em propriedades dos outros. No caso dele, foram três as propriedades: a dona Vitória, o senhor Wilson e o doutor Carlos. Quanto tempo existe a Vila Criolis? Ninguém soube responder ao certo. As respostas raspavam os trinta anos. A Ana Lina discordou de imediato porque ela nasceu na Vila Criolis e já tinha 37 anos. Para tirar a dúvida, chegou a dona Ana Lurdes, mãe de Ana Lina. A dona Ana Lurdes também não soube precisar a idade da Vila Criolis, mas soube cravar que se orgulha de ser quebradora de coco babaçu. Depois que ela declarou esse orgulho, as demais mulheres responderam no mesmo tom que se orgulhavam de serem quebradoras. O Antonio, delegado sindical, relatou que as áreas de babaçuais na data Saco das Almas alcançam mais de quinze mil hectares e que o Vicente um dos proprietários da área quis implantar um projeto industrial de extração do palmito do babaçu na cidade de Brejo. O projeto só não foi em frente porque os quilombolas fizeram denúncias ao Ibama.
De acordo com o Antonio, o babaçu é a vida dos quilombolas porque dele se tira o azeite, o palmito, o mesocarpo e se queima a casca. Essa declaração do Antonio e as declarações das mulheres se chocam um pouco com a percepção que o babaçu, de tanto fazer parte da vida dos quilombolas da Vila Criolis, perdeu um pouco a sua importância econômica e social nesses tempos modernos. As mulheres quebram o coco e vendem o azeite, só que o babaçu não aparece em primeiro lugar na lista de espécies florestais importantes para a comunidade.
Os participantes da capacitação em meio ambiente se depararam durante a caminhada pelo leito do riacho da Ponte, na Vila Criolis, município de Brejo, com a dona Maria Inês em seu momento de banho. Eles caminhavam por dentro da propriedade do senhor Candin. A dona Maria Inês chegou aos seus setenta anos. O senhor Candin prometeu doar um hectare para ela se manter. Uma cerca torna difícil a caminhada até o riacho na propriedade do senhor Candin. Verificam-se cercas por toda a extensão do riacho. Apenas dois trechos se livraram das cercas e nestes a comunidade se banha e lava as roupas. Nesses dois trechos as criações de animais também se molham e bebem. Tem dois anos que o riacho da Ponte seca depois que as chuvas acabam. Isso se deve, segundo os moradores, ao desmatamento que o senhor Candin realizou para o plantio de capim.
Além do desmatamento, o plantio de capim traz consigo o despejo de agrotóxicos. O senhor Francisco, marido de uma das participantes, despejou agrotóxico quinze anos da sua vida. Apresentaram-se dores da cintura para baixo o que pode ser resultado da aspersão de agrotóxico. Na casa do senhor Francisco, depois da caminhada, as pessoas conversaram sobre mudanças climáticas e o comportamento dos agricultores referente ao meio ambiente e a urgência em mudar esse comportamento.
Os agricultores esperam que a floresta se regenere depois que utilizaram aquele solo para os seus plantios. É bem provável que ela não regenere a contento porque o agricultor voltará a essa área mais cedo ou mais tarde. A hora do almoço se aproximava. As mulheres saíram cedo de suas casas sem aprontarem nada. De uma próxima vez, o almoço se dará no mesmo lugar da oficina. Por conta disso, a esposa do senhor Francisco ofereceu goiabas. Alguns comeram mais e outros menos. As pessoas paparam as goiabas e, por fim, escolheram três deles (Girlene, Valdemar e Zé de Fátima) para formarem um grupo que encetará uma discussão com os proprietários, que impedem os moradores de carregarem água de seus terrenos e que despejam agrotóxicos para plantar capim, para que mudem suas atitudes que causam danos ambientais na vida de todos os moradores da Vila Criolis.
* Mayron Régis, Colaborador do EcoDebate, é Jornalista e Assessor do Fórum Carajás e atua no Programa Territórios Livres do Baixo Parnaíba (Fórum Carajás, SMDH, CCN e FDBPM).
** Crônica enviada pelo Autor e originalmente publicada no blogue Territórios Livres do Baixo Parnaíba.
EcoDebate, 17/04/2014
PAÍS DO FUTURO. CARROS DO PASSADO.
Pouco eficientes, carros brasileiros têm tecnologia defasada
Greenpeace inicia campanha para que Volkswagen, Fiat e Chevrolet produzam veículos mais eficientes – como já fazem em outros mercados – e invistam em carros elétricos
Enquanto produzem carros mais limpos e eficientes em outros países, montadoras fazem veículos com tecnologia velha no Brasil.
O Greenpeace apresentou hoje, em São Paulo, o ‘lançamento do ano’: um carro da Idade da Pedra. Com uma tenda da Volkswagen, Fiat e Chevrolet – as montadoras que mais vendem carros no país –, ativistas vestidos com roupas daquela época convidavam pedestres a fazer um test drive. A sátira fazia parte do lançamento de uma campanha desafiando as empresas a adotarem tecnologia mais moderna em seus carros, para que eles consumam menos combustível e emitam menos gases de efeito estufa.
“A União Europeia, os Estados Unidos e vários outros países estão muito mais avançados nas discussões sobre eletromobilidade e já adotaram metas ousadas de eficiência energética para seus veículos. Estamos ficando para trás nessa corrida, colocando nas ruas carros que têm design atual, mas que ainda gastam muito combustível e contribuem largamente para o aquecimento global”, diz Iran Magno, coordenador da campanha de Clima e Energia do Greenpeace.
Na última semana, o estudo “Eficiência Energética e Emissões de Gases de Efeito Estufa”, feito pela Coppe/UFRJ em parceria com o Greenpeace, foi divulgado mostrando que as emissões de CO2 dos veículos brasileiros podem reduzir. Segundo os dados, caso as montadoras nacionais seguissem as mesmas metas de eficiência energética europeias, chegaríamos em 2030 com emissões mais baixas que as de hoje, mesmo que a frota de veículos do país dobre, como é estimado.
“Se por um lado precisamos que os governos ofereçam um sistema de transporte público muito melhor que o atual, a indústria de automóveis também precisa tomar medidas para amenizar sua contribuição ao aquecimento global”, diz Magno. “Fiat, Volkswagen e Chevrolet, que detêm 61% do mercado brasileiro de automóveis, já estão produzindo carros mais limpos e eficientes em outros países. Portanto, um alinhamento tecnológico para os veículos produzidos no país é imprescindível. Está na hora de oferecer o mesmo para os consumidores brasileiros, que colocaram o país entre os quatro maiores mercados de carros do mundo”.
O setor de transportes se tornou um dos maiores emissores de gases estufa no Brasil. De 1990 a 2012, segundo o Observatório do Clima, o salto de suas emissões foi de 143%, e continua aumentando. A tendência é global: no domingo, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) divulgou relatório mostrando que, se nada for feito, as emissões do setor são as que mais crescerão, superando todas as outras fontes, até 2050.
Os cientistas sugerem que a indústria de veículos adote tecnologias de baixo carbono, melhorando a eficiência energética de seus carros e abrindo caminho para a eletromobilidade. “O que estamos pedindo para as companhias é exatamente o que recomendam os cientistas. O Brasil é uma das maiores economias globais e temos todas as condições de avançar muito mais nessas questões”, diz Magno.
A proposta do Greenpeace é que a indústria brasileira se comprometa com as mesmas metas de eficiência energética da União Europeia, até 2021. Isso significa aumentar em 41% a eficiência de seus carros, tomando como base as taxas de 2011. Além disso, a organização também pede que haja mais investimentos em pesquisa e desenvolvimento de tecnologia para carros elétricos. No site www.ocarroqueeuquero.org.br, lançado hoje pelo Greenpeace, os consumidores podem enviar mensagens às empresas pedindo essas mudanças.
Informe do Greenpeace, publicado pelo EcoDebate, 17/04/2014
TRABALHOS DO CAPÍTULO 3 - DOS PRIMEIROS ANOS DO ENSINO MÉDIO
TRABALHOS EM GRUPOS DOS ALUNOS DOS PRIMEIROS ANOS DO ENSINO MÉDIO.
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