sábado, 3 de maio de 2014

FORÇA SINDICAL E O DIA DO TRABALHO.

Força Sindical transforma homenagem ao dia do trabalho em ofensas a Dilma

O deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força e principal líder do SDD, transformou o ato da Força Sindical em homenagem ao dia do trabalho nesta quinta em São Paulo em ofensas a presidente Dilma Rousseff. Por dois momentos distintos - quando os pré-candidatos a presidência Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB)estavam no palanque -, disse que a presidente pode ir parar no presídio da Papuda (que abriga os condenados do mensalão, em Brasília) e instigou o público a mandar uma banana à candidata do PT.

Fotos PúblicasAécio Neves participa do encontro da Força Sindical no dia do Trabalho
A reportagem é de Vasconcelo Quadros e publicado pelo portal do iG, 01-05-2013.
“Se tiver que investigar a fundo o caso da Petrobras a Dilma vai parar na Papuda”, disse o deputado, que até março do ano passado, ainda no PDT, na gestão do ex-ministro Brizola Neto, era um dos políticos que mais cargos controlavam no Ministério do Trabalho e Emprego.
Depois, numa comparação infeliz, lembrando o caso do jogador Daniel Alves, vítima de racismo na Espanha, fez uma demonstração sobre o gesto de mandar uma banana e instigou a multidão a imitá-lo. Presentes ao palanque, os ministros Gilberto Carvalho (Secretaria Geral da Presidência) e Manoel Dias (Trabalho) ficaram visivelmente constrangidos.
“O Paulinho não precisava ter ofendido a presidente”, afirmou Manoel Dias, que se preocupou em informar, no seu discurso, os ganhos acima de 70% da inflação e do salário mínimo que a classe trabalhadora obteve na gestão doPT. “Esta reunião não é para ofender ninguém”, disse o ministro.
“Não levo a sério o que o Paulinho diz e não quero misturar as coisas. Esse tipo de gente nem é ouvida. Não vim ao palanque por causa dele. Democracia é isso”, disse Gilberto CarvalhoPaulinho, que apoia ostensivamente Aécio Neves, disse que, sem coragem para comparecer ao ato, a presidente mandou “representantes subalternos” e elogiou os dois principais adversários de Dilma.
No momento em que Aécio Neves estava no palanque, o deputado pegou o microfone, disse que convidou todos os candidatos, mas que só apareceu a “Dilma do Pânico”, referindo-se ao ator Marvio Lucio, que no programa Pânico da Band (TV Bandeirantes) faz uma imitação humorística da presidente. Paulinho então chamou o ator, que fez um breve discurso como a “Dilma Ducheff” e perguntou se o público votaria nele, ouvindo “não” e vaias.
Perguntado sobre a referência a Papuda, Campos defendeu uma campanha em torno de ideias e prometeu não fazer ataques a presidente Dilma. “Farei uma campanha respeitosa, um debate de ideias”, disse.
Embora em momentos diferentes, este foi o primeiro evento em que Aécio Neves e Eduardo Campos, subiram juntos, como uma prévia do que pode ser um eventual segundo turno contra Dilma Rousseff. Ambos criticaram o discurso da presidente na quarta à noite em homenagem aos trabalhadores e pregaram a manutenção das conquistas trabalhistas - sem a flexibilização das leis -, estímulos ao crescimento, a indústria, ao emprego e combate cerrado a inflação.
Campos criticou o tom da presidente e o uso de espaço institucional para falar de temas não relacionadas com o Dia do Trabalho. Aécio afirmou que a presidente usou um instrumento de Estado para atacar a oposição.
A Força Sindical estima que cerca de 1 milhão de pessoas passaram pela Praça Campo de Bagatelle, em Santana, zona norte da capital paulista cujo palanque foi formado, em diferentes momentos, também por dirigentes da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e de vários partidos, entre eles, o líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ) e o senador Eduardo Suplicy (PT).
Fonte : Instituto Humanitas Unisinos

GERAÇÃO UPP.

Geração UPP: maioria não tem religião e prefere shopping a baile.

Na casa do estudante Carlos Roberto Geremias, de 15 anos, todo 23 de abril é dia de acender uma vela para São Jorge. O menino mora com a família — devota do santo, que ocupa um lugar de destaque na casa dos Geremias — na favela Nova Divineia, no Andaraí, e, seguindo a tradição dos pais, afirma ser católico. Mas, como um dos pesquisadores selecionados pela UPP Social para ir a campo entrevistar outros jovens, Carlos Roberto, ou o Betinho, se surpreendeu ao descobrir que a maioria dos adolescentes de sua geração se declara sem religião.
A reportagem é Ludmilla de Lima, publicada pelo jornal O Globo, 27-04-2014.

Esse é um dos resultados mais curiosos da pesquisa “Agentes da Transformação — O Censo da Juventude das Áreas Pacificadas”, feita pelo Instituto Pereira Passos (IPP) e o Instituto TIM com 5.400 meninos e meninas, entre 14 e 24 anos, de dez áreas pacificadas do Rio. Os dados traçam um perfil dessa juventude, que curte muito mais ir ao shopping e ao cinema do que se acabar num baile funk e que já não depende das lan houses para se manter conectada com o mundo.
Dos entrevistados, 39,26% afirmaram não ter religião, contra 30,09% que responderam ser católicos e 26,62% evangélicos. O teólogo Antônio Carlos Costa, fundador da ONG Rio de Paz, disse que o resultado da pesquisa não significa que esteja surgindo uma geração agnóstica. Na opinião dele, provavelmente, esses jovens não negam a existência de um criador. Eles, diz Costa, não têm um compromisso com a religião institucional.
— Isso prova a dificuldade que a religião institucional encontra para se dirigir à alma do jovem. Esses jovens têm muita dificuldade de se sentar e ouvir uma pessoa falar (seja um padre ou um pastor) porque são bombardeados a todo momento por uma comunicação muito vibrante, como a internet — disse o teólogo.
A pesquisa também mostra o que os jovens mais gostam de fazer com seu tempo livre. Ir ao shopping é a atividade de lazer preferida: nada menos que 68% disseram que foram passear entre corredores e vitrines nos últimos três meses. Assistir a um filme no cinema vem em segundo, com 48,1%, na frente dos bailes (funk, charme etc), frequentados por 46,4%. No questionário, o item praia acabou ficando de fora e deve entrar na próxima etapa do levantamento, no segundo semestre, com mais sete comunidades.
Os dados foram coletados no fim do ano passado por cem adolescentes com o apoio de tablets cedidos pela TIM, que ofereceu uma bolsa mensal de R$ 250 por cinco meses de trabalho. Fizeram parte Cidade de DeusVidigal,Pavão-PavãozinhoTabajarasProvidênciaMorro dos Prazeres, BorelSão CarlosNova Divineia e Formiga. Os resultados serão apresentados a secretarias municipais em maio, em seminário organizado pelo IPP, e ajudarão a nortear políticas públicas em áreas como educação, cultura, esportes e ciência e tecnologia.
O estudo prova que os jovens dessas comunidades fazem parte de uma geração super conectada. Do total, 89% deles acessam a internet, sendo 72,8% todos os dias. Grande parte, ou 67,2%, disse aos pesquisadores que acessa a web de casa. Os celulares são o meio de navegação para 21,4%, enquanto as lan houses, febre no passado, são usadas hoje apenas por 4,8%.
Betinho usa a internet a cabo do seu computador tanto para se divertir antes e depois dos deveres de casa quanto para fazer exercícios escolares. Ele está no 1º ano do ensino médio de uma escola particular, da qual é bolsista, e mora com os pais e dois irmãos num pequeno imóvel em uma área de risco da Nova Divineia.
— Tem deveres do colégio que são feitos pela internet. A gente recebe um login para fazer esses exercícios extracurriculares, que valem ponto — diz Betinho, que usa também a internet do seu celular e do tablet que ganhou por ter sido um dos pesquisadores mais aplicados.
O adolescente já escreveu e ilustrou 25 livros infantis com fábulas e histórias do cotidiano. Seu principal leitor hoje é o pai, o motorista de ônibus Carlos Reis Geremias, de 55 anos, que tem o ensino médio completo.
— Com a idade, surgem ideias mais complexas. Tenho ideias para dois ou três livros maiores, com mais de 200 páginas, que terão um pouco de mágica e tratarão de assuntos como corrupção e inveja — revela o menino, que já sabe o que quer: fazer faculdade de letras na UFRJ ou Uerj e ser escritor.
Assim como Betinho, uma parcela significativa dos jovens quer hoje voar mais alto que os pais. Dos que participaram da pesquisa do IPP, 26,76% desejam completar o ensino superior. Outros 23,43% almejam terminar o ensino médio, enquanto 23,02% pretendem cursar uma pós-graduação ou mestrado e doutorado. Por outro lado, os chamados“Nem-Nem” — jovens que nem estudam, nem trabalham nem procuram emprego — preocupam: eles representam 20% do total entre 18 a 24 anos.
Presidente do IPPEduarda La Rocque analisa os dados sobre educação com otimismo.
— A informação mais relevante e interessante da pesquisa é sobre a formação. Os 50% dos jovens que querem ensino superior completo ou ir além trazem esperança. Os dados mostram também que a população jovem é mais educada que os pais — avalia Eduarda.
Falta de áreas de lazer
O levantamento também perguntou qual é o nível de escolaridade do principal responsável dos jovens de 19 a 24 anos. Excluindo os 25% que não souberam responder a questão, o resultado foi que a maioria (36,2%) não completou o ensino médio. E somente 3,6% concluíram o ensino superior.
Morador da Ladeira dos TabajarasChristiano Silva, de 20 anos, entra na classificação “Nem-Nem”: pai de Bianca, de 1 ano, ele se vira fazendo bicos quando aparecem. Ele parou de estudar há dois anos, no 7º ano, e queria fazer um curso na área de informática. Do universo entrevistado, 19% têm filhos e 17% já são responsáveis por seus domicílios.
—Eu queria arranjar um trabalho que desse para estudar ao mesmo tempo — comenta Christiano, que, depois de afirmar não ter religião, emenda que sua “religião é Deus”.
Grávida de quatro meses de uma menina, Mirella Michele, de 17 anos, não pretende interromper os estudos. No 1º ano do ensino médio, ela mora na Nova Divineia e se assustou, como pesquisadora do levantamento, com tantos jovens sem religião:
— Sou católica, mas vi que tem muita gente que não vai à igreja. É muito estranho — conclui Mirella, que se prepara para assumir um lar com o namorado, de 19 anos, que trabalha, mas parou de estudar.
Da Ladeira dos TabajarasThalita Souza, de 16 anos, cursa o 1º ano do ensino médio de um colégio estadual e foi também uma das pesquisadoras selecionadas pela UPP Social. Sua mãe, que trabalha na limpeza de uma creche, estudou até o antigo primário.
— Ela tem que estudar para escolher o que é melhor para a vida dela. Para ser gari hoje tem que estudar — diz a mãe, Luciana Souza, de 30 anos, que procura um emprego para a filha.
Thalita não escolheu ainda uma profissão, mas vê a sua entrada na faculdade como uma oportunidade de ganhar dinheiro e melhorar a casa onde mora, um quarto e sala. Enquanto só estuda, ela ajuda a cuidar dos três irmãos, todos mais novos. Quando “não tem nada para fazer”, gosta de dar um rolé nos shoppings RioSul e Nova América.
— Gosto mais de shopping e cinema. Em baile sempre tem briga, e você vai só para gastar dinheiro e voltar para casa — critica Thalita, que declara não ter religião e reclama ainda da falta de áreas de lazer na favela. — Essa é uma comunidade sem espaço para as crianças brincarem. Não tem pracinha. Só o Lajão (uma quadra de futebol sem manutenção).
A cientista social Marina Ribeiro, do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), relaciona a preferência pelos shoppings à falta de equipamentos culturais e explica que hoje há mais liberdade na escolha da religião:
— Hoje você tem cada vez mais religiões, mas tem também a possibilidade de não seguir a prática religiosa dos pais. No passado, isso causava mais conflitos.
Andrea Pulici, doutora em planejamento urbano pela UFRJ e coordenadora de campo da pesquisa, interpreta o alto número de jovens com internet em casa como uma estratégia de proteção dos pais de manter os filhos “presos”. Para ela, o trabalho indica ainda que, além de muito mais informada, a juventude das favelas tem hoje novas ambições. A coordenadora acredita que os resultados poderão guiar o poder público e as instituições privadas na preparação dessa garotada para o futuro:
— Eles não querem mais ser torneiros mecânicos e costureiras. Os cursos precisam ser modificados. Eles querem fazer línguas, fotografia, ser engenheiro. São jovens que têm muito mais acesso à informação que os de antigamente. Eles querem muito mais.

Fonte : Instituto Humanitas Unisinos

CIDADES BRASILEIRAS E AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS.

Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) vai focar estudo nas cidades.

poluição do ar

Entre os anos de 2014 e 2016, o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) vai focar os estudos e análises nas cidades brasileiras. O anúncio foi feito pela presidenta do Comitê Científico do painel, professora Suzana Kahn, do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ), durante o seminário Conclusões do 5º Relatório do IPCC (Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), Extremos Climáticos e seus Desdobramentos na Disponibilidade Hídrica e na Geração Elétrica no Brasil.
De acordo com ela, a análise da emissão de gases de efeito estufa nas cidades foi uma das novidades do relatório do IPCC, apresentado no ano passado, dentro do Grupo 3, que analisa as medidas possíveis de mitigação para evitar os efeitos mais nocivos do aquecimento global.
Ela disse que “a população urbana em 2050 é esperada para ser de 5,6 [bilhões] a 7,1 bilhões de pessoas. Quase 70% da população mundial vão estar nas cidades, que consomem mais da metade da energia mundial. Daí a importância de se olhar as cidades quando se está pensando em mitigação das emissões. As cidades também são as que vão sofrer os maiores impactos das emissões, é onde a população está, é onde os danos vão acontecer, ao mesmo tempo em que as cidades são uma grande fonte de emissão. Portanto, deve ser tratada como um setor para reduzir as emissões”.
Com isso, o PBMC vai se dedicar a analisar a situação das cidades brasileiras. “A gente vai trabalhar com a questão da mudança climática em cidades, tanto no diagnóstico de medidas e tecnologias disponíveis [quanto na] adequação às tipologias das cidades. Cada uma tem suas especificidades; medidas de adaptação das cidades brasileiras vulneráveis; medidas urbanas de mitigação de emissões de gases do efeito estufa. Isso acabou de ser aprovado, e a gente vai agora chamar uma reunião do conselho diretor e do comitê científico para discutir o plano de trabalho. As cidades são uma fonte de emissão e também uma fonte de solução para os problemas climáticos”, informou Suzana.
Ela explicou a estrutura do Grupo 3 do relatório, e disse que apenas medidas tecnológicas não serão capazes de manter o aquecimento global dentro da melhor perspectiva, entre os 900 cenários analisados pelos cientistas, que é de subir 2,5 graus Celsius até o final do século. De acordo com Suzana, é necessária uma “profunda descarbonizada da energia”, o que implica em mudanças no atual padrão de consumo energético mundial, muito baseado em combustíveis fósseis. A boa notícia, segundo ela, é que os investimentos previstos em infraestrutura para o setor, nos próximos anos, já contemplam essa mudança.
O professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Artaxo explicou as conclusões do Grupo 1 do IPCC, que trata das bases científicas. De acordo com ele, o relatório mais recente reconhece com certeza a influência da atividade humana nas mudanças climáticas, no funcionamento dos ecossistemas, na química da atmosfera e na dinâmica oceânica. Também aponta evidências concretas do aquecimento global, como o aumento da concentração de gás carbônico e de vapor de água na atmosfera, bem como a diminuição da concentração de oxigênio e das geleiras e o aumento da acidez dos oceanos.
A professora do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP Maria Assunção Faus da Silva Dias falou sobre o Grupo 2 do IPCC, que trata dos impactos, adaptação e vulnerabilidade. De acordo com ela, um dos maiores graus de confiança nas mudanças climáticas na América do Sul é a diminuição das geleiras nos Andes e o aumento da vazão na Bacia do Rio da Prata. Outro exemplo é o aumento de eventos extremos, como a falta de chuvas, que afetou o nível dos reservatórios de água em São Paulo e em outros estados da Região Sudeste, principalmente.
Para o professor Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe-UFRJ e secretário executivo do PBMC, o ano vai ser difícil para o Brasil na questão de emissões no setor elétrico, já que choveu pouco e será preciso acionar as usinas termelétricas, que aumentam a emissão de gases de efeito estufa. Ele cita também a falta de competitividade no preço do etanol como alternativa ao combustível fóssil.
“Com base no quinto relatório do IPCC, é óbvio que a preocupação com o enfrentamento à mudança no clima é grande e ao mesmo tempo as políticas para isso são insuficientes, tanto do ponto de vista de mitigação quanto de adaptação. O Brasil tem uma vantagem interessante de ter reduzido muito o desmatamento; isso é positivo. Mas a área de energia se tornou importante, pois está aumentando muito suas emissões”, analisou Pinguelli.
Reportagem de Akemi Nitahara, da Agência Brasil, no EcoDebate, 02/05/2014

MARCO CIVIL DA INTERNET.

O Marco Civil da Internet, NetMundial e o Menosprezo aos Cidadãos.

internet

[EcoDebate] O projeto de lei que instituiu o Marco Civil da Internet foi sancionado pela Presidente Dilma Rousseff, durante a abertura do encontro da NetMundial, realizado em São Paulo, nos dias 23-24 de abril do corrente ano, com a presença de representantes de cerca de 80 países. De um lado, o Brasil poderia dizer: vejam o nosso marco civil da internet e que os governos de seus países deveriam fazer o mesmo. Do outro lado, os Estados Unidos satisfeitos por ter conseguido abraçar o Brasil em seus esforços políticos de divulgar o discurso corporativista de Multistakeholder. Para alguns, era possível dizer: Tudo está muito bem, vamos. tomar caipirinhas. Para o ICANN, institutição americana responsável pela governança atual da internet, todos estavam felizes, considerando que estavam convergindo para os valores de um modelo de governança, denominado de Multistakeholder, ou seja, o modelo de governança corporativa americano. Mas, no final do evento, como era de se esperar, chegou-se ao momento desagradável. Nem os Estados Unidos, nem a União Europeia, defensores de uma governança corporativa da internet, que menospreza os cidadãos-usuários, aceitaram abraçar a idéia de neutralidade da internet, ponto forte de nosso Marco Civil. Conforme foi noticiado, se quisermos mais internet e mais democracia, devemos esquecer NetMundial e ICANN.
Apesar do discurso corajoso de nossa Presidente, em favor da liberdade, da neutralidade da internet e contra a espionagem em massa, não houve impacto no resultado final da NetMundial. Comenta-se que a versão final do documento sobre os princípios da governança da internet é pior do que versões anteriores, razão pela qual deve servir de alerta para os cidadãos do mundo inteiro. Sem conhecer os fatos, torna-se difícil comentar sobre as razões pelas quais a Presidente Dilma aceitou que o Brasil fosse um dos co-organizadores do evento, juntamente com ICANN. Pela sua história e como vítima de um processo de espionagem criminoso, será que a Presidente Dilma Rousseff se rendeu ao discurso Multistakeholder, ao lado dos Estados Unidos?
Comenta-se que, com base neste discurso, nada de concreto aconteceu nos últimos 15 anos durante as reuniões Multistakeholders, a não ser a observação de que, ao longo dos anos, a tecnologia tem se voltado contra os cidadãos-usuários, enquanto ferramenta de espionagem, controle e opressão. O modelo multistakeholder é esmagado pelas botas da NSA, Google, Facebook, Apple e muitos outros que, de forma unilateral, não desejam moldar a tecnologia para beneficiar os cidadãos. Infelizmente, o discurso multistakeholder é o preferido por boa parte dos técnicos de tecnologia de informação, que enxergam apenas as questões técnicas da tecnologia, relegando as questões de contexto e outras questões sociais. Este é o modelo que inclui as principais corporações da Internet, o governo dos Estados Unidos e seus aliados nas comunidades técnicas e parte da sociedade civil. A questão que se levanta é a seguinte: Neste modelo, quem são os representantes dos interesses públicos, quando as corporações, que dominam os eventos, estão defendendo seus próprios interesses?
Portanto, o modelo multistakeholder é visto como a transformação do modelo econômico neo-liberal, responsável pela devastação da tragédia humana no mundo inteiro, mas celebrado por alguns por conta da dominação da Internet pelos Estados Unidos, suas corporações e um limitado número de países aliados, responsáveis pela implementação de um modelo de governança, que abre espaços para a participação de stakeholders do setor privado, mas nenhuma participação para stakeholders interessados no interesse público. Similar ao modelo econômico neo-liberal, o modelo multistakeholder não permite uma regulamentação externa para proteger o público e seus interesses. Portanto, estamos diante de um modelo que prioriza a privatização da governança, com a participação de alguns membros da sociedade civil que, muitas vezes, depende de viagens pagas pelas grandes corporações, o que dificulta se ter a internet como um bem social, diante da dominação das grandes corporações, reforçada pelos processos do modelo multistakehlders.
Os cidadãos-usuários brasileiros receberam o primeiro golpe durante as discussões do Marco Civil no Congresso Nacional. Boa parte da classe política, tanto aliada do governo como de oposição, rejeitou a idéia do projeto incial apresentado pelo governo, que defendia que os dados de cidadãos brasileiros fossem armazenados no Brasil. De nada valeram as denúncias de espionagem de Edward Snowden, de nada valeram a espionagem feita contra a nossa Presidente, as elites políticas se mantiveram favoráveis ao status quo, enquanto defensoras das grandes corporações, inclusive internacionais. Parecem pouco interessadas na segurança dos usuários e, consequentemente, na segurança do país como um todo. Se não for criada uma estrutura de segurança dentro do nosso país, dificilmente isto vai acontecer se for feita noutros países. Pode até ser um processo mais caro, mas, em se tratando de melhor segurança, temos que pagar um preço por isto. Porém, para viabilizar a aprovação do projeto, o governo abriu mão de um dos pontos mais importantes do projeto inicial, referente ao armazenamento de dados no Brasil de usuários brasileiros.
Em se tratando de armazenamento de dados, vale a pena mencionar recente pesquisa realizada na Europa, após as denúncias de espionagem e que tenta mostrar o comportamento e atitudes dos executivos das grandes corporações. Mais de 90% dos executivos de países como Alemanha, França, e Inglaterra demonstraram ser favoráveis a que os dados de suas organizações fossem mantidos dentro do próprio país e não mais em organizações dos Estados Unidos. Isto demonstra a grande preocupação com a segurança cibernética, que não parece ser o caso no Brasil, como ficou demonstrado quando da votação do Marco Civil da Internet, que para ser aprovado levou o governo a retirar do projeto inicial o tópico inerente ao armazenamento de dados de cidadãos brasileiros. Por que manter dados dos cidadãos brasileiros em banco de dados das grandes corporações americanas, dentro dos Estados Unidos, diante do que estamos percebendo? O que nos alegre foi o recente depoimento, segundo a imprensa, do Ministro das Telecomunicações, Paulo Bernardo, de que vai lutar para obrigar empresas de internet a manter dados de cidadãos brasileiros, no Brasil.
Considerando que a atual governança da Internet resultou num processo criminoso de espionagem, sem que nada tenha sido comentado no documento final da NetMundial, apesar do discurso inicial da Presidente Dilma Rousseff, o tempo é que vai nos dizer o que vai acontecer com o Marco Civil da Internet no Brasil e no exterior. O significado da participação do Brasil como co-organizador da NetMundial, ao lado dos Estados Unidos, não está clara. Porém, pelo que se observa, o país foi realmente convencido pelos Estados Unidos a se engajar no modelo Multistakeholder, que, como vimos, menospreza os cidadãos, deixando de discutir o que lhes interessa e o que é de interesse público.
José Rodrigues Filho é Professor da Universidade Federal da Paraíba. Foi pesquisador nas Universidades de Harvard e Johns Hopkins (EUA). http://jrodriguesfilho.blogspot.com/

EcoDebate, 02/05/2014

REDAÇÃO NO ENEM : TERMOS ADEQUADOS.

InfoEnem



Posted: 01 May 2014 08:11 AM PDT
No último final de semana, o atleta brasileiro Daniel Alves, jogador do clube espanhol de futebol Barcelona, em um jogo, foi alvo de racismo; um torcedor do time rival jogou no campo, enquanto Daniel estava na sua borda, uma banana e este, por sua vez, a pegou e a comeu e, em seguida, voltou a jogar. No início deste ano, o atleta Tinga, do clube mineiro Cruzeiro, também foi alvo de racismo em um jogo fora do país, no qual vários torcedores do time rival, toda a vez que ele “pegava” na bola, simulavam sons de macacos. Estes são apenas dois exemplos de racismo no futebol pelo mundo, mas o preconceito não está presente apenas neste esporte.
Em 2011, um atleta do time de vôlei Futuro, o jogador Michael, em uma partida da Superliga de Vôlei, foi alvo de homofobia. Homossexual assumido, toda vez em que Michael tocava na bola, parte da torcida do outro time gritava xingamentos.
O preconceito e a discriminação possuem diversos alvos: negros, homossexuais, transexuais, travestis, mulheres, pessoas de classes sociais menos favorecidas, nordestinos, integrantes de religiões de raízes africanas (candomblé, por exemplo) dentre outros e, infelizmente, ainda estamos longe de ser uma sociedade igualitária, justa e pacífica, livre de qualquer preconceito.
O número de homossexuais assassinados no Brasil é alarmante: no ano de 2013, a cada 28 horas, um homossexual foi morto em crimes de ódio, isto é, em crimes motivados por homofobia; somou-se 312 mortes deste tipo e, com este dado, o país lidera o ranking mundial de violência contra os homossexuais, segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB).
A população carcerária brasileira é, em sua grande maioria, constituída por homens jovens, negros e oriundos das camadas mais pobres da sociedade, sendo a 4ª maior população em cárcere do mundo.
Nordestinos recém chegados na região sudeste e até aqueles que residem fora de seu estado de origem há muito tempo sofrem xenofobia, ou seja, a discriminação e o preconceito de pessoas que não aceitam migrantes. Praticantes de religiões de raízes africanas, como o candomblé, por exemplo, são discriminadas por pessoas que não conhecem, nem um pouco, a história, as tradições e o dia a dia destas crenças.
A escola, juntamente com a comunidade na qual está inserida (e isto inclui as famílias dos alunos), tem papel fundamental no combate aos diversos tipos de preconceitos a fim de conscientizar os estudantes por meio de campanhas, projetos, trabalhos etc. Como formadora de cidadãos críticos e protagonistas, a escola tem o dever de lutar contra a discriminação, inclusive em seu interior, combatendo o bullying.
O Enem tem, bem claro, em suas cinco competências e em seu propósito a luta contra o preconceito: qualquer traço de discriminação e ódio acarretará na anulação da redação e não apenas em relação à proposta de intervenção social, mas também em todo o texto. Qualquer violação aos direitos humanos será punida não por ser politicamente incorreta, mas por ser errada. Deste modo, o Enem, em seu contexto, está a par deste combate e cumpre seu papel no sentido de conscientizar os seus candidatos que, por sua vez, jamais devem ser preconceituosos, mas não porque correm o risco de terem sua redação anulada, mas sim porque é o correto.
Às vezes, por desconhecimento, ao escrevermos e/ou ao falarmos, utilizamos termos pejorativos ou já em desuso e, assim, na redação do Enem ou de qualquer outro exame e no nosso dia a dia devemos usar termos mais adequados para não sermos preconceituosos e para combatermos este mal.
Por exemplo, não é mais apropriado usar a palavra “homossexualismo” e sim “homossexualidade” e “homoafetividade”. O sufixo “-ismo”, na Língua Portuguesa, refere-se a doenças e já foi provado, cientificamente, que ser homossexual não é ser ou estar doente; não se adquire homossexualidade e, portanto, não se deve falar em “homossexualismo”, pois não trata-se de uma doença.
O termo “raça” é outro que está deixando a cena. De acordo com publicações científicas e jornalísticas, biologicamente, raças são “subespécies e definidas como grupos de pessoas – ou animais – que são fisiológica e geneticamente distintos de outros grupos. São da mesma raça os indivíduos que podem cruzar entre si e produzir descendentes férteis” (1), mas, recentemente, esta definição foi aprimorada.
Pode haver mais variação genética entre pessoas de uma mesma raça do que entre indivíduos de raças diferentes. Isso significa que um sueco loiro pode ser, no íntimo de seus cromossomos, mais distinto de outro sueco loiro do que de um negro africano. Em resumo, a genética descobriu que raça não existe abaixo da superfície cosmética que define a cor da pele, a textura do cabelo, o formato do crânio, do nariz e dos olhos.(2)
Ao invés de falarmos em “raças”, devemos falar em etnias que, segundo o dicionário Houaiss, significa “coletividade de indivíduos que se diferencia por sua especificidade sociocultural, refletida principalmente na língua, religião e maneiras de agir; grupo étnico”. Este termo, na verdade, ainda está em discussão, principalmente na Antropologia, mas é o que está em voga atualmente.
Já as religiões de raízes africanas sofrem uma injusta e grande generalização por parte de quem é preconceituoso e/ou desinformado: todas são macumbas. “Macumba” é uma palavra de origem africana que possui, como primeira acepção, “antigo instrumento de percussão de origem africana, espécie de canzá que consistia num tubo de taquara com cortes transversais onde se friccionavam duas varetas, e que era outrora usada em terreiros de cultos afro-brasileiros”, ou seja, macumba é um instrumento utilizado em rituais de religiões de origem africana, mas, como a Língua Portuguesa é viva como todas as línguas, passou a ser utilizada para referir-se a todos os cultos de raiz africana e, especialmente, aos “trabalhos” realizados nestes cultos.
O problema desta generalização é a ignorância que a cerca, pois há várias religiões afro-brasileiras e cada uma possui sua cultura, suas tradições e costumes, suas crenças e muitas pessoas pensam que elas são do mal, mas não. Assim, nunca devemos generalizar, pois sempre junto a uma generalização está a ignorância e a falta de ponderação e de bom senso, além de este ato demonstrar uma imensa falta de vontade de aprender e de conhecer o que é diferente.
Portanto, no Enem, em outros vestibulares e no nosso dia a dia, devemos mostrar respeito, não tolerância (pois esta é ligada ao ato de aguentar, o que não é a mesma coisa que respeitar) e devemos combater os nossos preconceitos com conhecimento e sem medo de conhecer o que é diferente do nosso contexto social, político e religioso.


(1). Extraído de http://veja.abril.com.br/060607/p_082.shtml. Acesso em 29/04/2014.
(2). Idem.


*CAMILA DALLA POZZA PEREIRA é graduada e mestranda em Letras/Português pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente trabalha na área da Educação exercendo funções relacionadas ao ensino de Língua Portuguesa, Literatura e Redação. Foi corretora de redação em em importantes universidades públicas. Além disso, também participou de avaliações e produções de vários materiais didáticos, inclusive prestando serviço ao Ministério da Educação (MEC).
**Camila também é colunista semanal sobre redação do infoEnem. Um orgulho para nosso portal e um presente para nossos milhares de leitores! Seus artigos serão publicados todas às quintas-feiras, não percam!



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quinta-feira, 1 de maio de 2014

MEIO AMBIENTE: MUDANÇAS CLIMÁTICAS.

Mudanças climáticas já são alarmantes, alertam especialistas.

IPCC - sumário

Suzana Kahn: para mitigar o aumento da temperatura será preciso uma mudança de comportamento em relação ao consumo.
Especialistas alertaram nesta terça-feira (29), na Comissão Mista Permanente sobre Mudanças Climáticas, que as alterações no clima provocam impactos físicos, econômicos e sociais irreversíveis em diversos países. Entre os cenários de futuro apresentados no relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), discutidos na reunião, estão dias e noites mais quentes, ondas de calor, eventos de chuva extrema, aumento dos ciclones tropicais e prolongamento das secas.
“A mudança climática já é alarmante com riscos irreversíveis e vai necessitar um grande trabalho de adaptação, com medidas que devem ser tomadas rapidamente”, alertou Osvaldo Luiz Leal de Moraes, representante da Secretaria de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
Medidas como o uso de materiais de construção adequados a climas diferentes, a contenção de enchentes, entre outras, foram apontadas pelo representante da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, Sérgio Margulis.
Divulgado em 31 de março, o documento está sendo considerado como a avaliação mais completa já feita sobre o impacto das mudanças climáticas no planeta. De acordo com o relatório, o efeito do aquecimento global será “grave, abrangente e irreversível”.
Comportamento consumista
Durante o debate, a vice-presidente do IPCC, Suzana Kahn, enfatizou que o acordo internacional para mitigar o aumento da temperatura passa por uma mudança de comportamento em relação ao consumo. “A tecnologia pura e simples não vai resolver o problema. Se a gente considerar o aumento populacional no mundo, mantendo o mesmo padrão de consumo da classe média ocidental, não adianta”, afirmou.
Na opinião de Suzana Kahn, os países consumidores também são responsáveis pelo aquecimento global. Ela ressaltou que os países mais poluidores são os de menor renda, que produzem bens para atender a demanda dos mais ricos.
Na América do Sul, a previsão é que a distribuição e uso da água sejam afetados, assim como a produção de alimentos. A safra de trigo já caiu e pode reduzir também a de milho, soja e arroz.
Geração de energia
O relatório sobre mudanças climáticas revelou ainda que, em 2010, a emissão de gás carbono, que causa o efeito estufa foi o maior da história. O aumento está relacionado à geração de energia e, em menor número, ao uso da terra (queimadas e desmatamento).
A Europa, por razões geopolíticas, intensificou o uso do carvão na sua matriz energética, gerando o crescimento da intensidade de carbono no setor industrial.
Aprovada pelos governos, a utilização da biomassa para substituir as usinas térmicas a carvão, é uma das medidas de mitigação destacadas no relatório.
Para o presidente da comissão, deputado Alfredo Sirkis (PSB-RJ), um acordo entre os países para instituir a redução de carbono como unidade de valor do sistema financeiro internacional, seria uma medida complementar para manter os níveis desejados de temperatura no planeta.
Efeitos climáticos no Brasil
Segundo os especialistas, nos últimos cem anos a temperatura no Brasil aumentou em média dois graus. E a previsão é aumentar mais dois graus até o fim do século.
Fenômenos climáticos recentes como as grandes cheias em Rondônia, Rio de Janeiro e outros estados, tornado em Santa Catarina e a seca em São Paulo foram mencionados pelos debatedores.
O senador pelo Ceará e vice-presidente da comissão, Inácio Arruda (PCdoB), lembrou os três anos de estiagem seguida no Nordeste e questionou os participantes sobre as previsões climáticas para a região.
As respostas divergiram, com tendência de aumento da desertificação e períodos maiores de seca, mas também aumento de chuvas, ainda que com distribuição irregular. Estudos apontam que no litoral nordestino, nos últimos 50 anos, não houve mudança na quantidade de chuvas, ao contrário do interior.
A previsão é que chova mais, tanto no Nordeste quanto na Região Amazônica, nos próximos anos. Contudo, como são usados mais de 30 modelos climáticos diferentes, é comum que os resultados sejam mais discordantes em relação às chuvas do que sobre o aumento da temperatura. A expectativa é que o uso por cientistas brasileiros de um modelo de escala global possa garantir melhores cenários e previsões mais precisas.
Da Redação – RCA
Com informações da Agência Senado
Matéria da Agência Câmara de Notícias, no EcoDebate, 30/04/2014

ÁGUA : GRANDE QUESTÃO EM DEBATE.

UTI ambiental: a água e a realidade nua e crua.

recarga

[EcoDebate] Foram nove artigos publicados aqui no EcoDebate, sobre produção de água . Todos ancorados na série UTI ambiental. Acabo de relê-los, na esperança de ter conseguido passar conhecimentos e preocupações acumuladas ao longo de muitos anos de militância na área. Todas as vezes que faço isso (reler artigos que escrevi), fico com a sensação de ainda estar longe de saber divulgar conhecimentos científicos e técnicos. Mas não vou desanimar, disso tenho certeza. E como escrevo sobre assuntos polêmicos, como conservação e preservação de recursos naturais, acabo provocando o contraditório, que é importante para estimular a produção de textos mais claros e objetivos.
Mas e agora José? Todas as vezes que estava escrevendo, ficava um pouco angustiado com a situação atual do país, onde os interesses que permeiam a realidade política e econômica acabam sufocando um debate mais aprofundado sobre a produção e o consumo de água. Leio reportagens, assisto a entrevistas, ouço depoimentos e comentários e não me convenço de que os caminhos apontados levarão ao destino desejado: boa oferta de água no tempo e no espaço. Tomara que seja só implicância minha (ou pessimismo, mesmo) e que tudo se resolva dentro de uma lógica que eu não estou conseguindo perceber.
Antes de passar, a partir dos próximos artigos, a discutir outros pacientes internados na UTI ambiental, vou fazer, a seguir, algumas reflexões a mais sobre a realidade nua e crua que recai sobre a produção de água.
1) Há um grande receio, e até um melindre mesmo, de considerar a água um bem de valor econômico. Ainda vivemos a ilusão de ser ela um bem estritamente produzido por sistemas naturais e de acesso livre. Mas, mesmo chateados, temos que aceitar que ela já virou e vai continuar sendo um negócio, cada vez mais regulada pela lei da oferta e procura. Em parte, tal mudança se deve à urbanização da sociedade brasileira (85% da população nas cidades), obrigando a coleta, condução a grandes distâncias, tratamento e distribuição. Antes, quando a população rural predominava, a bica correndo continuamente era capaz de satisfazer as necessidades das pessoas. Os pequenos núcleos urbanos se contentavam com os chafarizes. Muitos, ainda hoje, sonham em voltar aos velhos tempos, mas na lei da oferta e procura, quando o preço sobe a procura tende a cair. A água vai ficar cara para obrigar a diminuição do consumo.
Apesar desta minha opinião, quero deixar claro o meu maior respeito por aqueles que continuam vendo a água como um bem comum e o acesso a ela como um direito humano. Mas, infelizmente, eu falo é da realidade nua e crua;
2) Os sistemas naturais já não conseguem mais equilibrar os processos do ciclo hidrológico e a distribuição de água na superfície e nos aquíferos subterrâneos estão mudando rapidamente. Se insistirmos na tese de que a solução está centrada na recomposição dos sistemas naturais, não vamos conseguir recuperar a produção de água. O crescimento populacional e o consequente aumento do consumo de produtos agropecuários já desenham um novo quadro. E este não tem mais volta. Esbarrado nos meus 73 anos, eu também tenho saudades dos tempos antigos, mas a realidade por mim aceita, controla as reminiscências da infância e da juventude, obrigando-me, como técnico, a buscar alternativas. É o que ando tentando fazer com meus artigos;
3) Recentemente, um jornal mineiro fez uma boa reportagem sobre alguns dos nossos rios, como o São Francisco, o Doce e alguns de seus afluentes. Mas cometeu algumas falhas conceituais que acabam dificultando as soluções. Por exemplo, focaram as nascentes dos vários rios, reclamaram da falta de vegetação arbórea em torno delas e deixaram o leitor com a sensação de que se forem criados parques ou reservas nessas nascentes, os rios estarão salvos. A nascente de origem do são Francisco (e de outros rios) é apenas simbólica, em termos de vazão, e serve como referência para delimitação territorial da bacia. Já a vazão do rio é resultado de milhares de outras nascentes, ao longo de sua área de abrangência, e mantidas por aquíferos abastecidos por pequenas bacias, ocupadas, em sua maioria, por propriedades rurais que já provocaram alterações definitivas nos sistemas naturais. Além do mais, os pequenos cursos d’água formados pelas nascentes têm suas vazões engordadas por equilíbrios diretos com os aquíferos. Se tudo tiver que virar parque ou reserva, como produzir alimentos?
Temos de aceitar as tecnologias de recarga artificial de aquíferos, compatíveis com explorações sustentadas, planejadas e suportadas, pelo menos em parte, pela figura do pagamento por serviços ambientais. Na região Sudeste, onde se concentram os mananciais que abastecem 56% da população brasileira, nós temos aproximadamente 900.000 propriedades rurais com áreas de até 100 hectares que, na maioria, são consideradas pequenas propriedades. Nelas estão concentrados os aquíferos e as nascentes e são essas propriedades que merecem ser remuneradas para se tornarem produtoras de água. Olha aí a água como negócio e a cidade pagando ao campo pela sua produção, assim como paga na feira pelo tomate, pelas verduras, frutas e por outros bens de consumo originados da roça;
4) Mas o pagamento por serviços ambientais não pode ter as ações concentradas apenas em reflorestamentos de matas ciliares e na preservação de outras unidades naturais. Só isso não resolve. As áreas utilizadas para culturas de várias naturezas também precisam colaborar no abastecimento de aquíferos. Aí entram os terraços, as caixas ou cisternas de infiltração, as barraginhas, os plantios em nível, os plantios diretos, os renques de vegetação, as paliçadas e muitas outras tecnologias disponíveis e que podem ser adotadas na produção de planos de manejo.
A Agência Nacional de Águas (ANA) já tem um programa de Produtor de Água, muito interessante (que pode ser consultado em produtordeagua.ana.gov.br) e que tem a finalidade de apoiar ações que levem ao pagamento por serviços ambientais. Segundo a mesma Agência, já existem, no país, 1.098 agricultores beneficiados com pagamentos pelas atividades de produção de água.
O programa, para mim, é como uma folha de chá capaz de aliviar aquela angústia manifestada logo no início deste texto. Mas é fundamental que a semente, já germinada, cresça e produza milhares de outras. Alvíssaras, por enquanto!
5) O pagamento pelos serviços ambientais, ligados à produção de água, exige a participação ativa da comunidade da bacia nas decisões e no acompanhamento das tecnologias de conservação a serem utilizadas. Por isso, chamei a atenção no artigo anterior (UTI ambiental: revitalização de bacias hidrográficas II) da necessidade de o plano de bacia estar ao alcance dos produtores rurais e dos técnicos de campo.
Temos visto, na adoção do sistema de licitações por alguns Comitês de Bacias, empresas de engenharia serem contratadas para construção de terraços, paliçadas, caixas e barraginhas e para cercamento de nascentes. A educação ambiental fica restrita a palestras e cursos rápidos Depois entra em cena uma empresa fiscalizadora. Terminados os trabalhos, elas vão embora e o projeto corre um grande risco de não cumprir adequadamente os objetivos desejados. O trabalho precisa do envolvimento de instituições que militam no campo e na região; que conheçam um pouco, pelo menos, da sociologia rural e das técnicas de extensão rural aplicáveis às comunidades. E que estão lá o tempo todo. Aqui não funciona como na construção de uma obra de arte, por exemplo, onde, terminado o trabalho, submete-se o mesmo à fiscalização para ver se tudo foi feito de acordo com o projetado, desmonta-se o canteiro de obra e pronto. Conservação é uma operação de construção e manutenção ao longo do tempo.
6) Pressionados pela realidade nua e crua, estamos vendo, atualmente, as instituições e as autoridades responsáveis pela oferta de água às populações e pela geração de energia, suplicando pelas chuvas; e, pasmem, torcendo para que elas causem enxurradas que venham logo para encher as represas do Sistema Cantareira, o lago de Furnas e outros.
Mas as chuvas desejadas (pois muitas são odiadas), quando caem, não encontram as bacias hidrográficas em condições de processarem adequadamente os volumes recebidos. Prepará-las é o desafio para a regularização da produção e da disponibilidade de água, de um ano para outro e dentro de cada ano. E é importante sabermos que cheia e escassez de água são irmãs gêmeas, pois se ocorre muita enxurrada para provocar cheia, o aquífero subterrâneo recebe pouca água e provoca quedas das vazões de estiagens.
Termino a série de artigos sobre água com uma expressão muito usada por meu falecido sogro. Quando percebia que o papo estava minguando, ele cuidava logo de encerrá-lo, dizendo: “e a razão é essa”.
Osvaldo Ferreira Valente é engenheiro florestal, especialista em hidrologia e manejo de pequenas bacias hidrográficas, professor titular, aposentado, da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e autor de dois livros sobre o assunto: “Conservação de nascentes – Produção de água em pequenas bacias hidrográficas”e “Das chuvas às torneiras – A água nossa de cada dia”; colaborador e articulista do EcoDebate .( valente.osvaldo@gmail.com)
EcoDebate, 30/04/2014