quinta-feira, 31 de agosto de 2017

MAR CÁSPIO : AUMENTO DE EVAPORAÇÃO

Aumento da temperatura associada às mudanças climáticas acelera a evaporação do Mar Cáspio

Da American Geophysical Union*
Mapa da drenagem do Mar Cáspio e da região do Cáspio (encerrado pela linha do contorno vermelho). O Mar Cáspio está rodeado por cinco países: Rússia, Cazaquistão, Turquemenistão, Irã e Azerbaijão. Quatro estações de maré (1 = Makhachkala, 2 = Forte Shevchenko, 3 = Baku e 4 = Turkmenbashi), das quais derivam as séries históricas do tempo de observação do nível do mar Cáspio, são marcadas por pontos magenta. Crédito: Jianli Chen / Geophysical Research Letters / AGU
Mapa da drenagem do Mar Cáspio e da região do Cáspio (encerrado pela linha do contorno vermelho). O Mar Cáspio está rodeado por cinco países: Rússia, Cazaquistão, Turquemenistão, Irã e Azerbaijão. Quatro estações de maré (1 = Makhachkala, 2 = Forte Shevchenko, 3 = Baku e 4 = Turkmenbashi), das quais derivam as séries históricas do tempo de observação do nível do mar Cáspio, são marcadas por pontos magenta. Crédito: Jianli Chen / Geophysical Research Letters / AGU
O maior corpo de água do planeta terrestre tem evaporado lentamente nas últimas duas décadas, devido ao aumento das temperaturas associadas à mudança climática, revela um novo estudo.
Os níveis de água no mar do Cáspio caíram quase 7 centímetros (3 polegadas) por ano de 1996 a 2015, ou quase 1,5 metro (5 pés) de total, de acordo com o novo estudo. O nível atual do mar Cáspio é apenas cerca de 1 metro (3 pés) acima do menor nível histórico, alcançado no final da década de 1970.
O aumento da evaporação sobre o Mar Cáspio foi associado ao aumento da temperatura do ar superficial. De acordo com os dados do estudo, a temperatura média anual da superfície sobre o Mar Cáspio aumentou cerca de 1 grau Celsius (1,8 graus Fahrenheit) entre os dois períodos de tempo estudados, 1979-1995 e 1996-2015. Estas temperaturas crescentes são, provavelmente, resultado de mudanças climáticas, de acordo com os autores do estudo.
A evaporação provocada pelas temperaturas do aquecimento parece ser a principal causa da queda atual do nível do mar e o declínio provavelmente continuará à medida que o planeta aquecer, de acordo com os autores do estudo, publicado em Geophysical Research Letters
O Mar Cáspio, localizado entre a Europa e a Ásia, é aproximadamente do tamanho do estado de Montana, EUA, com 371 mil quilômetros quadrados (143,244 milhas quadradas). Tem experimentado mudanças substanciais em seu nível de água nos últimos centenas de anos, mas estudos anteriores não conseguiram identificar as causas exatas das mudanças no nível do mar.
O Mar Cáspio é limitado por cinco países e contém uma abundância de recursos naturais e uma vida selvagem diversificada. Também contém reservas de petróleo e gás natural e é um recurso importante para a pesca nos países vizinhos.
O novo estudo começou depois que Wilson e Jianli Chen, o principal autor do estudo do Centro de Pesquisa Espacial da Universidade do Texas em Austin, unidos a outros pesquisadores, usaram o Mar Cáspio para calibrar dados dos satélites gêmeos da missão GRACE lançada em 2002. Ao comparar as medidas do mar Cáspio dos dados da GRACE e das medições baseadas na Terra, os pesquisadores ajudaram a melhorar a precisão dos dados do satélite. Ao fazê-lo, eles notaram que os níveis de água do Mar Cáspio estavam sofrendo mudanças significativas.
Os pesquisadores analisaram as três principais influências sobre os níveis de água do mar Cáspio: água dos rios que drenam para o mar, precipitação e evaporação.
Eles compilaram informações sobre mudanças de nível de água, observadas pelos satélites, registros de precipitação e drenagem no mar a partir de rios, e estimativas de precipitação e evaporação de modelos climáticos. Os pesquisadores então reuniram um registro de quanto cada um desses fatores contribuiu para mudanças observadas no nível do Mar Cáspio de 1979 a 2015.
Eles encontraram que os níveis do Mar Cáspio aumentaram em cerca de 12 centímetros (5 polegadas) por ano de 1979 a 1995. Mas em 1996, os níveis do mar começaram a cair e diminuíram em média quase 7 centímetros por ano até 2015. De 1996 a 2015, o nível do Mar Cáspio caiu quase 1,4 metro (4.5 pés), de acordo com os registros do nível do mar usados no estudo.
A evaporação contribuiu para cerca de metade desse declínio, enquanto os efeitos combinados das mudanças de precipitação e descarga do rio contribuíram para a outra metade. De acordo com o estudo, as taxas de evaporação observadas estão associadas ao aumento da temperatura do ar superficial e outros fatores climáticos, como a umidade da superfície e o vento.
O novo estudo fornece a primeira prova convincente de que o aumento da evaporação sobre o Mar Cáspio é uma força motriz mais importante da mudança do nível do mar do Cáspio do que a descarga ou precipitação do rio, diz Anny Cazenave, um geodesista espacial do CNES, do Laboratório de Estudos em Geofísica e Océanografia Spatiales (LEGOS), no Observatoire Midi-Pyrénées em Toulouse, França, que não esteve envolvido no novo estudo.
A evaporação terá o maior impacto na parte norte do Mar Cáspio porque grande parte da água naquela área é inferior a 5 metros (16 pés) de profundidade. Se a tendência atual de uma redução de 7 centímetros por ano continuar a uma taxa constante, levaria cerca de 75 anos para que a parte norte do mar desapareça, de acordo com o novo estudo.
O mar do Cáspio suporta muitas espécies antigas e antigas que ficaram de quando o mar fazia parte do Oceano de Tethys durante a era do Mesozóico, aproximadamente 300 milhões de anos atrás. Embora a maioria dessas espécies viva nas regiões do sul e do meio do Mar Cáspio, algumas usam a área do norte rasa como terreno de reprodução, incluindo 90 por cento dos esturjões do mundo . A queda do nível do mar também afetaria a baía de Kara-Bogaz-Gol, no lado leste do mar, com menos de 5 metros de profundidade e contém um dos maiores depósitos naturais de sais marinhos do mundo , de acordo com os autores do estudo .
Embora este estudo tenha identificado as tendências no nível do mar e suas causas, os pesquisadores não projetaram estimativas específicas de como esses níveis podem mudar no futuro.
Referência:
Chen, J. L., T. Pekker, C. R. Wilson, B. D. Tapley, A. G. Kostianoy, J.-F. Cretaux, and E. S. Safarov (2017), Long-term Caspian Sea level change, Geophys. Res. Lett., 44, 6993–7001, doi:10.1002/2017GL073958.
http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/2017GL073958/pdf
* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/08/2017

terça-feira, 29 de agosto de 2017

POLÍTICA NACIONAL DOS RECURSOS HÍDRICOS

Desperdício, falhas de planejamento e ausência de integração ameaçam os recursos hídricos do país


Dênio Simões/Agência Brasília
Meio Ambiente - água - estação tratamento esgotos Goiás DF
Em audiência pública da Comissão de Integração Nacional, Desenvolvimento Regional e da Amazônia (CINDRA), pesquisadores e representantes de organizações não-governamentais apontaram falhas na elaboração, execução e acompanhamento das metas do Plano Nacional de Recursos Hídricos, um dos instrumentos que orienta a gestão e uso das águas no Brasil.
A avaliação levou em conta a atual crise no abastecimento e a perspectiva de aumentar a necessidade de água para consumo humano, agricultura e geração de energia nos próximos anos.
O Plano Nacional de Recursos Hídricos faz parte da Política Nacional de Recursos Hídricos, criada há 20 anos pela chamada Lei das Águas (Lei 9.433/1997). Existem ainda planos regionais, por bacias, a cargo da Agência Nacional de Águas (ANA), e planos estaduais.
Entre outras medidas, a lei estabelece que a gestão dos recursos hídricos no país tem que ser realizada por meio de planos nacionais periódicos, de forma descentralizada e participativa. Ou seja, tem que envolver o governo federal, estados, municípios, usuários e representantes da sociedade.
Só que isso não tem acontecido, de acordo com o pesquisador Lineu Neiva Rodrigues, do Núcleo de Articulação Internacional da Embrapa Cerrados. “Os diversos planos de recursos hídricos, em níveis nacional, estadual, local e de bacia, são mal coordenados e não chegam a ser colocados em prática. Existe um isolamento setorial dos ministérios e de órgãos públicos, o que dificulta ainda mais a coerência política dos setores de recursos hídricos, agricultura e energia. As políticas têm que conversar mais, (é preciso) ter uma maior integração”, disse.
Representantes da sociedade nas discussões sobre definição de prioridades e implementação das metas de uso e proteção das águas reclamam ainda que não são ouvidos.
João Clímaco de Mendonça Filho, representante das organizações não-governamentais no Conselho Nacional de Recursos Hídricos, o órgão encarregado de aprovar o Plano Nacional de Recursos Hídricos, aponta que as sugestões da sociedade não são levadas em conta, principalmente nos estados.
Mudanças climáticas
Segundo ele, os planos deixam de ter eficiência, ainda, por não levarem em conta fenômenos como as mudanças climáticas, responsáveis pela crise de abastecimento de água na região Sudeste e pela seca no Nordeste. “Nós não estamos conseguindo fazer com que os planos sejam instrumentos eficientes de uma política pública. A questão das mudanças climáticas é um componente novo que não está sendo bem absorvido e respeitado nos planos”, disse.
João Clímaco dá como exemplo o que acontece na bacia do rio Tocantins, especialmente no Maranhão, onde o Conselho Estadual de Recursos Hídricos, fundamental para a implantação do plano de uso da água, não funciona. Segundo ele, o plano de uso de águas do rio Tocantins apresenta falhas e dados incorretos e não representa a realidade da bacia.
Representante do Maranhão na Câmara, o deputado Deoclides Macedo (PDT), descreve como grave a vazão do rio Tocantins no trecho localizado entre as hidrelétricas de Serra da Mesa, em Goiás, e de Estreito, no Maranhão.
A situação, segundo ele, é crítica na segunda maior cidade maranhense, Imperatriz, que corre o risco de ficar sem água. “A cidade de Imperatriz deve sofrer a maior crise de abastecimento de água da sua história. Eu nunca vi uma situação como aquela, de notícias de pessoas estarem atravessando o rio Tocantins a pé e a nado”, disse.
A deputada Raquel Muniz (PSD-MG) apontou riscos de desabastecimento também no norte de Minas Gerais. “Falam muito da seca do Nordeste, mas o norte de Minas também sofre com isso e precisa de uma atenção especial”, disse.
O Plano Nacional de Recursos Hídricos é renovado de quatro em quatro anos. O que está em vigor foi atualizado no ano passado e tem 16 prioridades. Entre elas estão a integração da política de recursos hídricos com as demais políticas, como a ambiental, saneamento, irrigação, energia e turismo. Também estabelece critérios para o reuso e o uso sustentável da água.
Desperdício
Além da crise de abastecimento e da redução dos cursos de água, a qualidade da água das bacias e o desperdício da água tratada nas redes estaduais de abastecimento também foram abordados na audiência pública.
Wilson de Azevedo Filho, representante dos praticantes de pesca esportiva e usuários de águas para lazer e turismo na Câmara Técnica do Plano Nacional de Recursos Hídricos – o órgão técnico que ajuda a elaborar a política nacional, com representantes de vários órgãos e segmentos envolvidos –, considera a qualidade da água fundamental. “É muito importante para nosso setor e, para isso, é fundamental uma maior interlocução com os municípios”, disse.
Ubiratan Pereira da Silva, secretário-executivo da Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento Básico (AESBE), considera o reuso uma das medidas mais importantes a serem disseminadas. “Reutilizar a água é importante para as pessoas, para as empresas e para o governo. Numa empresa, a água usada para processos industriais pode ser tratada na própria empresa e ser reutilizada. Numa residência, a água de banho pode ser usada para dar descarga. E a água da rede de esgoto pode ser tratada e usada para irrigar jardins”, disse.
Silva admitiu que as empresas de saneamento, responsáveis pelo tratamento e distribuição da água, apresentam uma média de desperdício de 36% de todo o volume, o que compreende vazamentos e captações irregulares. “Mas existem lugares, principalmente na região Norte, em que o desperdício chega a 70%”, disse.
A representante do Ministério do Meio Ambiente na audiência, Adriana Lustosa, da Secretaria de Recursos Hídricos e Qualidade Ambiental, admitiu que houve falhas na implementação dos planos entre 2006 e 2015. As falhas foram identificadas por uma consultoria independente contratada especialmente para fazer essa avaliação.
Um dos resultados da análise foi a identificação de baixos índices de cumprimento das ações e programas previstos no plano. “A análise realizada apontou como um dos grandes motivos a ausência de um planejamento e estratégia para o cumprimento das ações e dificuldades para o estabelecimento e respectivo acompanhamento de responsabilidades”, disse.
São Francisco
O presidente da Comissão de Integração Nacional, deputado Valadares Filho (PSB-SE), anunciou que vai promover um debate sobre a crise hídrica na cidade sergipana de Propriá. A cidade fica à margem do rio São Francisco, ameaçado pela falta de água e assoreamento. “Se falou muito da transposição e se esqueceu da revitalização do rio”, disse.
João Clímaco de Mendonça Filho, representante das organizações não-governamentais, aponta como um dos fatores para a crise no rio a falta de integração entre os diversos segmentos que usam a água, como a agricultura e a geração de energia. “O setor elétrico manda no rio e os demais segmentos ficam prejudicados”, disse.
Reportagem – Antonio Vital
Edição – Roberto Seabra
Da Agência Câmara de Notícias, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/08/2017

EXTINÇÃO DA RESERVA NACIONAL DE COBRE E ASSOCIADAS

Extinção da Reserva Nacional de Cobre e Associadas (Renca) coloca em risco nove áreas protegidas na Amazônia

RENCA
Mapa: MME
Extinção da Reserva Nacional de Cobre e Associadas (Renca) deverá gerar uma série de conflitos entre a atividade minerária, a conservação da biodiversidade e os povos indígenas.
O governo federal publicou nesta quarta-feira (23) o decreto que extingue a Reserva Nacional de Cobre e Associadas (Renca), uma área de 47 mil quilômetros quadrados entre o Pará e o Amapá – o equivalente ao tamanho do estado do Espírito Santo. A região, que é rica em ouro e outros minérios, engloba também nove áreas protegidas, entre florestas estaduais, reservas ecológicas e terras indígenas.
O WWF-Brasil já havia feito o alerta. Em maio deste ano, a organização avisou que o governo pretendia liberar essa área para iniciativa privada – que estava proibida para a mineração desde 1984. É mais uma das medidas previstas pelo governo Temer para estimular o desenvolvimento econômico e engordar o PIB brasileiro (saiba mais).
Mas não é só isso. Segundo relatório divulgado no mês passado pelo WWF-Brasil, produzido em parceria com a empresa Jazida.com, especializada em geoprocessamento, a extinção da Renca deverá gerar uma série de conflitos entre a atividade minerária, a conservação da biodiversidade e os povos indígenas.
A área conhecida como Renca engloba nove áreas protegidas: o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, as Florestas Estaduais do Paru e do Amapá, a Reserva Biológica de Maicuru, a Estação Ecológica do Jari, a Reserva Extrativista Rio Cajari, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru e as Terras Indígenas Waiãpi e Rio Paru d`Este.
Para o diretor executivo do WWF-Brasil, Maurício Voivodic, a liberação da atividade minerária neste local colocará em risco diversas áreas protegidas, podendo causar impactos irreversíveis ao meio ambiente e povos da região. “Além da exploração demográfica, desmatamento, perda da biodiversidade e comprometimento dos recursos hídricos, haverá acirramento dos conflitos fundiários e ameaça a povos indígenas e populações tradicionais”, adverte.
decreto 9142, assinado na terça-feira (22) pelo presidente Michel Temer, diz que a “extinção de que trata o art. 1º não afasta a aplicação de legislação específica sobre proteção da vegetação nativa, unidades de conservação da natureza, terras indígenas e áreas em faixa de fronteira”.
A legislação ambiental brasileira proíbe a mineração em unidades de conservação classificadas como de proteção integral – destinadas exclusivamente à preservação dos recursos naturais. Já as unidades de uso sustentável permitem a atividade, desde que haja um Plano de Manejo que indique claramente quais as atividades permitidas.
No caso das Terras Indígenas a proibição é total. O mesmo se aplica às Reservas Extrativistas.
Das nove áreas protegidas existentes na Renca, a legislação atual permite atividade mineral apenas na Floresta Estadual do Paru, já que a atividade está prevista no seu Plano de Manejo, e mesmo assim em apenas um trecho da Flota.
“O que nos surpreende é a falta de diálogo e de transparência do governo que, por meio de um decreto, abre para mineração uma área que coloca em risco os povos indígenas e unidades de conservação de relevante potencial ecológico bem no coração da Amazônia”, destaca o coordenador de Políticas Públicas do WWF-Brasil, Michel de Souza Santos.
Segundo ele, o Brasil não pode continuar insistindo em abrir suas áreas protegidas em prol de interesses privados. “Há compromissos de clima e biodiversidade que assumimos internacionalmente e salvaguardas socioambientais que devem ser consideradas nestes processos”, defende Santos.
Potenciais conflitos
De acordo com o relatório do WWF, a principal área de interesse para a mineração na Renca coincide justamente com uma área de proteção integral, a Reserva Biológica (Rebio) de Maicuru, onde os dados da Serviço Geológico Brasileiro (CPRM) apontam fortes indícios da ocorrência de cobre e ouro.
Existem na Rebio três processos minerários registrados no Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). Trata-se de duas autorizações para lavra e uma de pesquisa. Duas concessões de lavra de ouro pertencem à Mineração Transamazônica S.A. A de pesquisa é de domínio da Mineração Jatapu Ltda. Esses processos devem ser mantidos, segundo a portaria do MME que começa a reabrir a Renca.
Outra autorização de pesquisa a ser mantida pertence à Mineração Tucuri Ltda, e fica em uma área transfronteiriça que pega o trecho paraense da Estação Ecológica do Jari e a zona proibida à mineração na Floresta Estadual do Paru (PA).
Outros 154 requerimentos de pesquisa protocolados junto ao DNPM serão analisados com a abertura da Renca. No total, a área requerida para estudos corresponde a cerca de 30 por cento de toda a reserva.
Segundo o Diagnóstico do Setor Mineral do Amapá, feito pelo MME, há 260 processos de interesse em mineração registrados, sendo 20% deles anteriores à criação da reserva em 1984.
Além disso, há duas Terras Indígenas na Renca – outro grande potencial de conflito. No lado paraense está a TI Rio Paru d`Este, onde habitam duas etnias, os Aparai e os Wayana. No lado do Amapá, encontra-se o território indígena do povo Wajãpi. Eles vivem em relativo isolamento, conservam modos de vida milenares e mantêm de pé uma área superior a 17 mil quilômetros quadrados de floresta amazônica.
Colaboração de Giovanna Leopoldi
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/08/2017

ESTADOS UNIDOS E AS MORTES NA FRONTEIRA

TRAVESSIA  PARA OS ESTADOS UNIDOS MATA SEIS BRASILEIROS EM UM ANO.
Juntar dinheiro. Voltar ao Brasil. Comprar uma casa. Talvez abrir um comércio. Quando fez sua mala e iniciou sua aventura clandestina rumo a Boston, o mineiro Maycon Douglas de Andrade Fernandes tinha os mesmos sonhos de milhares de outros brasileiros que trilham esse caminho. O seu não durou 24 horas e terminou na aridez do Texas.
Há duas semanas, Fernandes se tornou o sexto brasileiro a morrer na travessia da fronteira sul dos Estados Unidos nos últimos 12 meses, período que registrou o maior número de vítimas em pelo menos uma década. O ano mais fatal até agora havia sido 2010, quando 4 brasileiros morreram no massacre de Tamaulipas, no México – 72 pessoas que se preparavam para cruzar a fronteira foram assassinadas por narcotraficantes.
A reportagem é de Cláudia Trevisan, publicada por O Estado de S. Paulo, 27-08-2017.

O número de mortes nos últimos 12 meses é o maior pelo menos desde 2007, período sobre o qual o Ministério das Relações Exteriores forneceu dados para o Estado. De 2007 até agora, 19 brasileiros morreram na tentativa de chegar por terra ao território americano. Estão fora dessa estatística os que ainda não foram encontrados. Em novembro, 12 brasileiros desapareceram no mar, depois de saírem das Bahamas. No mesmo mês, pai e filho que viajavam juntos sumiram no deserto do Arizona. Outro teve o mesmo destino no Texas.
No início de agosto, Fernandes saiu de Conselheiro Pena, cidade mineira de 20 mil habitantes, em direção a São Paulo. No dia 4 daquele mês, voou para o México, onde aguardou a ordem dos coiotes para cruzar o Rio Grande, que separa os dois países. O sinal verde veio no domingo, dia 13. Na segunda-feira, um parente que vive nos EUArecebeu uma mensagem de voz no WhatsApp: “Maycon morreu, comecem a procurá-lo”. Acionada, a Patrulha da Fronteira encontrou o corpo na noite do mesmo dia.
Pessoas que estavam no seu grupo disseram à família que Fernandes começou a passar mal no domingo, vomitou três vezes e morreu. Ele tinha 24 anos.
"Eu tenho de ir, porque aqui não tenho futuro", repetia ele, segundo um parente que falou com o Estado sob anonimato, por viver sem documentos nos EUA. Casado com Renata há pouco mais de dois anos, Maycon era o filho mais velho de Cristina. Desempregado há meses, ele cobria férias como vendedor, segundo o parente.
Seu corpo foi levado para Laredo, no Texas, e ainda não foi liberado. A família não tem os US$ 12 mil (R$ 38 mil) para seu traslado ao Brasil e iniciou uma campanha online para arrecadar fundos. Como muitos dos que tentam a sorte nos Estados UnidosFernandes não falava inglês e havia estudado só até o ensino médio.
A temperatura no deserto no sul do Texas e do Arizona se aproxima dos 40ºC no verão americano e chega ao pico em agosto. O sol é inclemente e o risco de desidratação, imenso. A travessia pode durar dias, dependendo da região e do acerto com o coiote. Muitos não levam água suficiente e acabam padecendo no caminho.
“O que está matando esses meninos não são os coiotes nem os traficantes, mas a natureza. As pessoas não têm ideia do calor que faz na fronteira”, disse Dornelas D., que ajudou a família de Lucas Batista Passos a encontrar seu corpo depois de ele desaparecer no deserto do Texas no fim de abril.
Passos decidiu atravessar a fronteira de maneira clandestina depois de seu pedido de visto ter sido negado duas vezes. O mineiro concordou em pagar quase US$ 7 mil (R$ 22 mil) para o coiote que organizou a viagem. No dia 4 de abril, ele pegou um voo para o México, onde esperou 24 dias antes de cruzar a fronteira. A última foto que mandou para o irmão no Brasil mostrava que havia perdido peso.
No dia 28 de abril, Passos disse a parentes que sairia às 19 horas de Díaz Ordaz, no México, em direção ao EUA. Sete horas depois, a família conseguiu entrar em contato pelo WhatsApp com uma das pessoas que viajavam com ele. Passos teve dores terríveis nas pernas, não conseguiu mais andar e ficou para trás, informou. O brasileiro de 30 anos havia saído de Teófilo Otoni, em Minas Gerais, com destino à Carolina do Norte, onde nunca chegou.
Da cidade mineira, a família tentava descobrir seu paradeiro nos EUA. A esperança era a de que ele tivesse sido preso pela Patrulha de Fronteira e colocado em um centro de detenção. A expectativa foi reforçada pela presença de um brasileiro de nome quase idêntico em uma prisão no Texas.
Sem conseguir entrar em contato com o Lucas que estava detido nem obter informações sobre o Lucas verdadeiro, a família pediu ajuda a Dornelas por meio de uma amiga comum, 11 dias após o desaparecimento. Com pedaços de informações dadas por dois de seus companheiros de viagem, ela montou um quebra-cabeças que ajudou a polícia a localizar o corpo. Dornelas descobriu que Passos não estava em McAllen, como haviam dito os coiotes, mas em La Grulla, a 42 km de distância.
No dia 12 de junho, ela recebeu a notícia de que o corpo havia sido encontrado. A causa da morte foi desidratação. “Ninguém da minha família pensava que ele tivesse morrido. Acreditávamos que ele estivesse preso, sem poder dar notícias”, disse sua irmã, Andréia Batista Passos, que estava grávida de oito meses quando ele desapareceu. “Quando soube, senti desespero, angústia, dor, culpa. Depois, senti tristeza pelas circunstâncias em que ele morreu, em pensar que ele passou sede, fome e morreu só, em uma terra distante.”
(Gráfico: O Estado de S. Paulo)

sábado, 26 de agosto de 2017

MUDANÇAS CLIMÁTICAS : ADAPTAÇÃO DAS CIDADES

Não adaptar as cidades às mudanças climáticas sairá no mínimo cinco vezes mais caro


Por Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP
Estudo do Projeto Metrópole, com Santos como modelo, considerou apenas prejuízos imobiliários. Pesquisadores estimam que, se nada for feito, perdas podem aumentar ainda mais ao se considerar áreas como saúde (foto: Agência FAPESP)
Estudo do Projeto Metrópole, com Santos como modelo, considerou apenas prejuízos imobiliários. Pesquisadores estimam que, se nada for feito, perdas podem aumentar ainda mais ao se considerar áreas como saúde (foto: Agência FAPESP)
Como outras cidades costeiras, a cidade de Santos, no litoral paulista, vive uma situação que lembra a fábula da formiga e da cigarra. Com a expectativa de que o nível do mar continue a aumentar nos próximos anos, enfrenta o dilema de se adaptar ao que vem pela frente ou ter que pagar o preço alto de ressacas e inundações cada vez mais frequentes.
A adaptação às mudanças climáticas implica obras caras para o orçamento de um município. No caso de Santos, os valores estão definidos. Um amplo estudo concluiu que o custo mínimo com obras na região da Ponta da Praia de Santos e na Zona Noroeste ficaria em torno de R$ 300 milhões. Já o preço por não se adaptar às mudanças climáticas chegaria, pelo menos, à cifra de R$ 1,5 bilhão, fora todo o sofrimento causado à população.
“Mas esse custo de R$ 1,5 bilhão pode estar subestimado, uma vez que o modelo considera apenas a estrutura física de imóveis e os cálculos são baseados no seu valor venal. Se incluirmos prejuízos em outras áreas, como saúde e educação, por exemplo, o valor chegaria facilmente a R$ 3 bilhões”, disse José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e coordenador do Projeto Metrópole, à Agência FAPESP.
O cálculo faz parte do resultado final do projeto, apoiado pela FAPESP e pelo Belmont Forum, iniciativa internacional que estuda estratégias de adaptação aos impactos das mudanças climáticas em três localidades costeiras: Santos, Selsey (Inglaterra) e o condado de Broward (Flórida, Estados Unidos).
No projeto, que se encerra após quatro anos de estudos, o grupo de pesquisadores do Cemaden, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Instituto Geológico (IG) e das universidades de São Paulo (USP) e Estadual de Campinas (Unicamp) seguiu três eixos de pesquisa: estimativa de perdas econômicas e análise de capacidade adaptativa, modelagem dos extremos climáticos e impactos na saúde. Os cenários consideraram projeções para os anos de 2050 e 2100.
A análise dos impactos na saúde é uma mostra de como os impactos climáticos são amplos, atingindo diversos setores da sociedade. Nela, os pesquisadores calcularam a relação do aumento das temperaturas com a incidência de dengue. Foi observado que, quando há essa conexão, só os gastos com internação e tratamento para pacientes, em Santos, sobem em pelo menos R$ 720 mil.
“A saúde é um fator-chave que afeta diretamente a vida da população, por isso é importante ter esses dados para justificar a necessidade das medidas adaptativas. Colocamos alguns valores, mas se juntarmos todas as doenças relacionadas ao aumento de temperatura e às inundações, que desabrigam pessoas, conseguimos ver o real impacto desse problema na área da saúde”, disse Luiz Eduardo Oliveira e Cruz de Aragão, pesquisador do Inpe e integrante do projeto.
Aragão explica que o estudo de análise de risco e estratégia de adaptação identificou a conexão entre o fenômeno do El Niño e o aumento dos casos de dengue nos verões de 2010 e 2015.
“Já foi levantado que o El Niño causa aumento de temperatura e agora conseguimos relacionar esse aumento de temperatura anômalo com a proliferação dos casos de dengue. É importante essa ligação, pois conseguimos entender os padrões climáticos e suas consequências e quantificar o impacto para a cidade”, disse.
Ciência, poder público e população
Em Santos, o nível relativo do mar tem aumentado em taxas diferentes desde a década de 1940. “Com base em séries históricas, identificamos dois possíveis cenários para a cidade, um mais realista (taxa de elevação do nível relativo do mar de 0,36 cm/ano) e outro, o pior dos cenários (taxa de 0,45 cm/ano). Com base nesses dois cenários, a conclusão foi que o nível do mar pode aumentar entre 18 e 23 centímetros até 2050 e entre 36 e 45 centímetros atéem 2100”, disse Celia Regina de Gouveia Souza, pesquisadora do Instituto Geológico e participante do projeto.
O modelo também considera a ocorrência de eventos extremos, como marés meteorológicas e ressacas – cada vez mais frequentes por causa das mudanças climáticas – que resultam em um rápido aumento do nível do mar.
Segundo Gouveia Souza, que mantém um banco de dados sobre a ocorrência desses eventos extremos na Baixada Santista (1928 a 2016), observou-se um aumento considerável do número de eventos de ressaca por ano e outro aumento no número de anos consecutivos com ressacas, a partir do final da década de 1990.
“A série histórica de dados maregráficos de Santos apontou que o nível máximo atingido durante um desses eventos extremos durante a década de 2000 foi de 146 centímetros. As projeções indicam que ele poderá atingir 160 centímetros em 2050 e 166 centímetros em 2100. Com isso, a cidade ficará ainda mais suscetível e vulnerável às inundações costeiras e a erosão na praia aumentará e migrará na direção do Bairro do Embaré (Canal 4)”, disse a pesquisadora do IG.
Após analisarem os cenários de inundações costeiras para 2050 e 2100 e obterem os danos potenciais sobre os imóveis atingidos, os pesquisadores compartilharam os resultados com a população de Santos e o poder público, para a indicação das melhores medidas de adaptação.
“Nessas discussões com a população é que apareceram as opções de adaptação. Uma delas é a fortificação: construção de muros, diques e melhorar a estrutura. Em outros casos, há medidas como o engordamento da praia. Outra estratégia que vimos como necessária para Santos é a recuperação dos manguezais, que entra na categoria de adaptação baseada em ecossistema”, disse Marengo.
“As medidas escolhidas pela população foram bastante adequadas. Esperamos agora que o projeto continue a ser encampado pela população e pelo poder público. Assim, teremos uma perspectiva bastante positiva de que o cenário sombrio não vai acontecer”, disse Luci Hidalgo Nunes, pesquisadora da Unicamp e participante do projeto.
Santos, onde está o maior porto da América Latina, foi escolhida pelos pesquisadores do Projeto Metrópole como objeto de estudos não só pela relevância econômica, mas também por ser a cidade costeira brasileira com melhor qualidade de dados históricos sobre marés, chuvas, temperatura e ressacas.
“A adaptação, ainda que seja discutida pela ciência e pelos tomadores de decisão, tem que ter uma política. Tem que partir do governo. É uma ação que não pode parar e que, obviamente, tem que ter investimento. A cidade de Santos chegou a um alto nível de conscientização, com um amplo diálogo entre população, tomadores de decisão e academia. As obras devem ser feitas, pois quando isso fica apenas no papel é o pior que pode acontecer”, disse Marengo.

 in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/08/2017