terça-feira, 5 de setembro de 2017

COMO SERÁ O PROFISSIONAL DO FUTURO ?

Como será o profissional do futuro?

Soluções digitais devem mudar o mercado de trabalho. Saiba quais são os requisitos


Novas tecnologias que unem a internet das coisas com a automatização industrial já começaram a revolucionar as empresas com seus benefícios, como ganho de produtividade e competitividade. Mas esse processo, também conhecido como digitalização, vai muito além de máquinas inteligentes que conversam entre si e tomam decisões em tempo real. As novas demandas devem mudar o perfil de profissional ideal para o mercado de trabalho.
Uma das tendências é que os profissionais deixem de exercer funções repetitivas, como o encaixe de uma peça na linha de produção. “Quanto mais operacional for a função, mais chances ela tem de ser automatizada”, explica João Roncati, professor universitário e consultor empresarial da People+Strategy. Isso não significa que os colaboradores serão eliminados das linhas de produção, mas que ficarão concentrados em funções estratégicas, como o controle de projetos.

Atento ao mercado

Quem deseja se preparar para as novas exigências do mercado precisa ficar de olho nas tendências. Veja a história de Thiego Oliveira, gestor de tecnologia da informação (TI) da Fiat, em Pernambuco. Formado em engenharia da computação, já trabalhou em instituições de pesquisa, como a Fundação Oswaldo Cruz. Quando percebeu que suas áreas de interesse – inteligência artificial e análise de dados – eram úteis para os sistemas produtivos, começou a trabalhar com TI em linhas de produção de uma indústria de bebidas.
Para juntar os conhecimentos de computação com a parte industrial, decidiu fazer uma especialização em engenharia de produção. “Quando entrei na empresa, eu era analista de TI. Só que, conforme eu fiz minha pós-graduação, percebi que precisava de mais do que isso para trabalhar. Diariamente, na fábrica, eu via os mesmos problemas que aprendia na sala de aula de especialização. Tive, então, a oportunidade de colocar a teoria em prática.”
Embora tenha atingido um grau de destaque na carreira, Oliveira já planeja novos aprendizados para aumentar suas habilidades. “Uma tendência em que eu tenho muito interesse é a Indústria 4.0. Há muitas oportunidades e as empresas têm investido na área. Penso em fazer um mestrado em engenharia de sistemas, um MBA em gerenciamento de projetos ou algo relacionado à gestão de pessoas. Existem várias possibilidades, e sei que preciso definir minhas próximas metas para crescer profissionalmente.”

Conhecimento técnico

Com a entrada de novas soluções no setor produtivo, como sistemas analíticos em nuvem e gêmeos digitais na linha de produção, surge um conjunto de habilidades necessárias para lidar com a realidade industrial. “Tecnologias como internet das coisas, robótica, computação em nuvem e big data criam um cenário em que profissionais como cientistas de dados e programadores serão cada vez mais valorizados”, explica Marcelo Prim, gerente executivo de inovação e tecnologia do Senai.
Mas a formação não será o único diferencial. “Conforme um estudo do Fórum Econômico Mundial, 65% das profissões do futuro ainda nem foram inventadas. Então, não temos que nos preocupar em saber quais serão as graduações mais importantes, mas sim com quais habilidades serão exigidas”, diz Prim.
Análise de dados, programação, conhecimentos em robótica, desenvolvimento de aplicativos e integração de sistemas são algumas das habilidades importantes. Para Prim, essas aptidões são mais comuns em carreiras ligadas à tecnologia da informação e comunicação, mas até mesmo um profissional da área precisa buscar conhecimento.

Perfil analítico e multidisciplinar

A quantidade de dados sobre a produção da empresa aumentará com as novas tecnologias. Para Prim, além de entender os dados, o profissional terá que entender o que eles significam, como podem ser usados no planejamento dos negócios e como deve ser feita a comunicação dessas informações.
“Isso envolve conhecimento de áreas como administração, empreendedorismo, marketing e comunicação. O profissional do futuro é aquele que não é só um excelente engenheiro, mecânico, soldador ou eletricista, mas também uma pessoa com senso crítico, que sabe dialogar e pensar em soluções criativas.”
Além disso, a função do profissional dentro da empresa poderá não ser mais relacionada com a sua formação acadêmica. “Não adianta um engenheiro, por exemplo, aperfeiçoar apenas seu conhecimento técnico. Ele precisa estudar outras áreas para entender os resultados do seu trabalho sobre toda a cadeia de produção da empresa”, diz Roncati, da People+Strategy.

Competência colaborativa

Aumentar a diversidade dentro das empresas é uma das grandes preocupações atuais. Mas, para Roncati, manter um ambiente diverso pode ser um desafio. “O funcionário precisa estar disposto a conviver com perfis de pessoas muito diferentes. É mais fácil trabalhar com pessoas que pensam igual entre si. Só que assim não se tem um ambiente inovador e com a dinâmica que as novas tecnologias exigem”, diz.
Um exemplo disso é o setor de tecnologia da informação, que será cada vez mais requisitado pelas empresas. “Nesse mercado, há uma carência de profissionais do sexo feminino, e as empresas precisam se preocupar em mudar isso. Elas devem incluir não apenas as mulheres, mas também novos perfis de funcionários em seu time. Porque, sem um estímulo à diversidade, a empresa perde competitividade”, afirma. Cabe ao profissional saber se comunicar, conviver com as diferenças e ter um bom relacionamento com todos os colegas, características cada vez mais valorizadas em ambientes digitalizados.

E as empresas?

Além das exigências, as companhias precisam garantir a atualização de seus funcionários. Para Roncati, as organizações que querem ser competitivas precisam analisar como será o mercado em que atuam no futuro. A partir daí, devem avaliar se as equipes têm as competências para atingir esses objetivos. “Caso contrário, será preciso investir em cursos para os funcionários. Se uma empresa não capacita seu funcionário, a concorrente vai sair na frente.”
Fonte : Revista EXAME

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

COREIA DO NORTE : BOMBA DE HIDROGÊNIO

Coreia do Norte anuncia teste com bomba de hidrogênio

Da EFE

Foto divulgada pela agência estatal de notícias da Coreia do Norte, a KCNA, mostra Kim Jong-un supostamente inspecionando armas nucleares em um local não revelado (EFE/Direitos reservados)
Foto divulgada hoje pela agência estatal de notícias da Coreia do Norte, a KCNA, mostra Kim Jong-un supostamente inspecionando armas nucleares em um local não reveladoEFE/EPA/KCNA/Direitos reservados

A Coreia do Norte testou hoje (3) sua bomba atômica mais potente até o momento, um artefato termonuclear ou bomba H, que, segundo o regime, pode ser instalado em um míssil intercontinental. Se confirmado, isso representa um importante e perigoso aumento de suas capacidades militares. As informações são da agência de notícias espanhola EFE.
O sexto experimento nuclear norte-coreano e segundo supostamente realizado com um artefato termonuclear culmina um período de frenética atividade armamentista por parte do regime de Kim Jong-un, após testar mais de uma dezena de mísseis balísticos desde o começo do ano, entre eles dois intercontinentais.
Essa intensificação coincidiu com a chegada de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro passado – o de hoje é o primeiro teste atômico norte-coreano sob seu mandato –, e gerou uma das piores crises de segurança na região nos últimos anos.
O novo experimento atômico ocorreu hoje (3) por volta das 12h30 (horário local, 0h30 em Brasília), quando os institutos sismológicos de Seul, Tóquio e Pequim detectaram um forte terremoto de origem aparentemente artificial devido a sua pouca profundidade e com hipocentro na província onde a Coreia do Norte realizou seu teste nuclear anterior.
Algumas horas depois, a imprensa oficial norte-coreana anunciou que o país tinha testado com "total sucesso" um artefato termonuclear que pode ser instalado em um dos seus mísseis balísticos intercontinentais (ICBM).
"O teste foi realizado com uma bomba com poder sem precedentes", disse a locutora da rede estatal KCTV Ri Chun-hee, a encarregada de dar as notícias mais importantes para o regime, acrescentando que o experimento teve "duas fases" e foi executado por ordem direta do líder Kim Jong-un.
A intensidade da detonação detectada neste domingo pelos países vizinhos e pela Organização do Tratado de Proibição Total de Testes Nucleares (CTBTO, na sua sigla em inglês) indica que se tratou de um ensaio muito mais potente que os cinco anteriores executados pelo regime.
A explosão teve uma potência estimada próxima a 100 quilotons, o que representa o quíntuplo do teste atômico norte-coreano anterior, de setembro do ano passado, e cerca de 11 vezes superior à detectada em janeiro do mesmo ano, quando Pyongyang afirmou ter testado outra bomba de hidrogênio, segundo Seul.
Uma análise posterior apontou que o teste de janeiro de 2016 foi de um artefato de características inferiores a um termonuclear, e desta vez Seul e Tóquio assinalaram que ainda estão analisando os dados recolhidos para determinar se tratou-se de uma bomba H.
O teste, em qualquer caso, volta a demonstrar que a Coreia do Norte não tem intenção de abandonar seu programa nuclear apesar da pressão sem precedentes da comunidade internacional e dos recentes apelos ao diálogo de Washington e Seul.
Japão e Coreia do Sul condenaram firmemente o experimento, executado na mesma semana em que um míssil balístico norte-coreano sobrevoou o arquipélago japonês e caiu no Pacífico, e assinalaram que estão em contato com Washington para convocar uma nova reunião do Conselho de Segurança (CS) da ONU e tentar isolar ainda mais Pyongyang.
Pequim, o principal aliado do regime norte-coreano, também expressou sua "condenação enérgica" e sua "firme denúncia" do novo desenvolvimento armamentístico, enquanto Moscou o qualificou de "séria ameaça para o mundo", insistindo em que todas as partes envolvidas no conflito na península coreana devem voltar ao diálogo.
O sexto teste nuclear norte-coreano ocorreu poucos dias antes de 9 de setembro, quando se comemora o aniversário da criação do país asiático e a mesma data na qual no ano passado aconteceu o seu quinto experimento atômico.
No começo deste domingo e antes de acontecer o teste, a imprensa estatal norte-coreana afirmou que o país tinha conseguido desenvolver com sucesso uma bomba de hidrogênio que foi carregada em um dos seus novos projéteis ICBM, e mostrou fotos de Kim Jong-un com o suposto artefato.
O teste, junto com os lançamentos de mísseis balísticos dos últimos meses, parece ter sido realizado para demonstrar com fatos que a Coreia do Norte é capaz de alcançar território americano com um míssil com carga nuclear, ainda que muitos especialistas duvidem que o país já domine esta tecnologia.

Fonte : EBC

CONFLITOS ARMADOS NO MUNDO







sábado, 2 de setembro de 2017

ESTAMOS CAMINHANDO PARA O DESAPARECIMENTO IRREVERSÍVEL DAS FLORESTAS

Estamos caminhando para o desaparecimento irreversível das florestas. Entrevista especial com Luiz Marques

IHU
Uma das evidências que confirma o “declínio” das florestas tropicais no mundo é que a “taxa de desmatamento no primeiro decênio deste século foi 62% maior que no último decênio do século passado, e desde 2011 constata-se uma aceleração dessa aceleração, sobretudo na Ásia e na Oceania”, adverte o historiador Luiz Marques à IHU On-Line.
No Brasil, afirma, embora tenha havido uma diminuição da taxa de desmatamento em quase uma década, “o desmatamento voltou a crescer, atingindo 7.989 km² nos 12 meses entre agosto de 2015 e julho de 2016”. Apenas depois da implantação do novo código florestal em 2012, informa, “houve um aumento de 75% na taxa anual de desmatamento”. Na avaliação de Marques, isso ocorreu porque “o governo de Dilma Rousseff após 2012 entregou a Amazônia e o Cerrado à sanha destruidora dos ruralistas. Só o governo de Michel Temer consegue agora nos convencer de que não há de fato um limite absoluto para a piora”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para IHU On-LineMarques explica os fatores associados ao aumento do desmatamento das florestas tropicais e assinala que a globalização do capitalismo “transformou definitivamente a alimentação em commodities, negociadas nos mercados futuros. Nesse âmbito, o avanço das pastagens para o gado bovino, estimulado pelo aumento do carnivorismo no Brasil e no mundo todo, é, de longe, a principal causa do desmatamento”. Associado a esse fator, o aumento das secas e do aquecimento global está “levando as árvores à falência hidráulica por cavitação ou embolia vegetal, um fenômeno conhecido pelo termo dieback”, diz.
Luiz Marques lembra que as florestas são “imprescindíveis para a vida no planeta” porque “são fundamentais para o ciclo do carbono, para retardar a velocidade e amenizar as mudanças climáticas, para a manutenção dos recursos hídricos, para a regularização das chuvas, para a conservação dos solos etc.”
Luiz Marques é graduado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas e doutorado em História da Arte pela École des Hautes Études en Sciences Sociales – EHESS. Atualmente é professor de História na Universidade Estadual de Campinas. É cocriador do portal Crisálida. Crises socioambientais. Labor Interdisciplinar Debate & Atualização.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Como são feitas as projeções sobre qual será o estado das florestas nos próximos anos, como 2030 e 2050?
Luiz Marques – Por definição, projeções são feitas a partir de trajetórias observadas. Qualificam-se e quantificam-se os diversos dados e fatores conhecidos dos quais a forma da curva já observada é a resultante. A partir dessa análise, que inclui aceleração, manutenção ou desaceleração, causas diretas e indiretas ou sistêmicas, respostas do próprio ecossistema às pressões observadas (sua capacidade maior ou menor ou mesmo incapacidade de regeneração), detecção de regiões de concentração do desmatamento (hotspots), demandas do mercado, legislação, entre outros muitos fatores, criam-se então cenários futuros, quando possível com determinação de sua probabilidade e com margens de erro. Estes vão desde o mais pessimista ao mais otimista, passando pela manutenção do cenário de base (business as usual).
Se continuarmos a pensar que a natureza é apenas um subsistema do sistema econômico, se continuarmos imersos em nossa ilusão antropocêntrica e hipnotizados pelo discurso hegemônico de que o crescimento econômico é a “saída”, como é ainda a crença da maior parte dos economistas, então estamos condenados a um colapso socioambiental
Há várias projeções em pauta. Em geral, as projeções de curto prazo (15 a 35 anos) e, portanto, de maior confiabilidade, convergem para um quadro de declínio continuado, ou mesmo de ainda maior aceleração, da área, da integridade, da funcionalidade e da resiliência das florestas em escala global. O WWF, por exemplo, projeta que os cinco países asiáticos banhados pelo rio Mekong — CambodiaLaosMyanmarTailândia e Vietnã —, que perderam em média um terço de suas florestas nos últimos 35 anos, poderão ter em 2030, a se manter o ritmo atual da devastação, apenas entre 10% e 20% de sua cobertura florestal original (veja-se “Saving Forests at Risk”. WWF Living Forests Report. Capítulo 5). A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico – OCDE afirma: “As florestas primárias, mais ricas em biodiversidade, devem perder até 2050 13% de sua área. As florestas primárias (…) têm decaído e estima-se que diminuirão constantemente até 2050, mantido o cenário de base” (veja-se: OECD Environmental Outlook to 2050: The Consequences of Inaction, 2012, pp. 22 e 157).
IHU On-Line – Qual é a situação das florestas tropicais no Brasil em comparação com a situação mundial?
Luiz Marques – O declínio das florestas tropicais como um todo está se acelerando. Trata-se de uma situação extremamente grave. A taxa de desmatamento no primeiro decênio deste século foi 62% maior que no último decênio do século passado, e desde 2011 constata-se uma aceleração dessa aceleração, sobretudo na Ásia e na Oceania. No que se refere ao Brasil, após uma diminuição notável da taxa de desmatamento da Amazônia entre 2004 e 2012 (de 27.774 km², entre agosto de 2003 e julho de 2004, para 4.656 km² entre agosto de 2011 a julho de 2012, segundo dados do INPE), o desmatamento voltou a crescer, atingindo 7.989 km² nos 12 meses entre agosto de 2015 e julho de 2016. Desde a implantação do novo código florestal em 2012, houve um aumento de 75% na taxa anual de desmatamento. O governo de Dilma Rousseff após 2012 entregou a Amazônia e o Cerrado à sanha destruidora dos ruralistas. Só o governo de Michel Temer consegue agora nos convencer de que não há de fato um limite absoluto para a piora.
IHU On-Line – No Brasil, as florestas tropicais são responsáveis por que percentual da cobertura vegetal do país?
Historicamente, na Amazônia, mais de 80% do desmatamento é causado pela pecuária
Luiz Marques – Depende do que se entende por florestas tropicais e do momento escolhido para definir essa porcentagem. Apenas no que se refere à floresta amazônica, dados do IBGE/PRODES para o período 1970-2013 indicam uma perda da ordem de 22% de sua área, 763 mil km² ou, por amor de precisão, 762.979 km². Em julho de 2016, totalizamos uma perda total, por corte raso, de 782.187 km². A cada ano, portanto, esse percentual diminui significativamente. Até 2020, teremos provavelmente perdido pouco mais ou menos de 800 mil km², mantida a trajetória atual. E isso sem falar na destruição já ocorrida de cerca de metade da área do Cerrado, e da destruição da Caatinga e dos resíduos da Mata Atlântica.
IHU On-Line – O senhor aponta, como causas do declínio das florestas, pelo menos duas razões: o avanço da fronteira agropecuária e o sistema climático. Pode nos explicar por que e de que modo esses dois eventos têm implicações diretas sobre as florestas?
Luiz Marques – Na realidade, os fatores são múltiplos. Mas o mais importante é a globalização do capitalismo que transformou definitivamente a alimentação em commodities, negociadas nos mercados futuros. Nesse âmbito, o avanço das pastagens para o gado bovino, estimulado pelo aumento do carnivorismo no Brasil e no mundo todo, é, de longe, a principal causa do desmatamento. Historicamente, na Amazônia, mais de 80% do desmatamento é causado pela pecuária, e a figura abaixo mostra a íntima correlação entre pecuária e desmatamento nessa região entre 1988 e 2004.
pecuária na Amazônia(Gráfico: MPF)
Mas, além do desmatamento por corte raso, para dar lugar à soja e ao pasto, outros fatores concorrem para a destruição das florestas: as hidrelétricas, a mineração, a extração de madeira, a caça, o tráfico de espécies silvestres, as estradas e o avanço da urbanização e da indústria do turismo. Esses fatores causam degradação e fragmentação das florestas, aumento das linhas de borda, maior exposição à insolação e ao ressecamento pelos ventos e maior vulnerabilidade a incêndios (na maior parte provocados por fazendeiros) e defaunação, com diminuição dos animais dispersores de sementes.

Mudanças climáticas

Estamos caminhando para o desaparecimento ou degradação irreversível desses ecossistemas num horizonte de tempo que não ultrapassa, em muitos casos, a primeira metade do século
E há, enfim, as mudanças climáticas, em particular a ação combinada do aquecimento global e de secas maiores e mais recorrentes. Associados à ação destrutiva direta do agronegócio, das corporações mineradoras e de outras corporações, esses fatores climáticos estão levando as árvores à falência hidráulica por cavitação ou embolia vegetal, um fenômeno conhecido pelo termo dieback. Temperaturas mais elevadas (que fazem aumentar a transpiração das árvores) e/ou maior carência de água no solo levam as raízes das árvores a bombear mais intensamente água ao longo de seu sistema vascular. Uma consequência importante desse mais intenso bombeamento é a formação de bolhas de ar em seus xilemas (o tecido por onde circula a seiva), que diminuem ou bloqueiam a condução hidráulica.
O exame de 226 espécies de árvores pertencentes a diversos tipos de florestas de 81 diferentes latitudes do planeta mostra que 70% delas já operam com estreitas margens de segurança em relação à diminuição da umidade, de modo que a intensificação das secas em várias regiões do globo prevista pelos modelos climáticos pode lhes ser letal. “Todas as árvores e todas as florestas do globo”, afirma Hervé Cochard, um ecofisiologista da Université Blaise Pascal de Clermont-Ferrand e do Institut National de Recherche Agronomique – INRA de Avignon, “estão vivendo no limite de sua ruptura hidráulica. Há, portanto, uma convergência funcional global da resposta desses ecossistemas às secas”.
Em suma, estamos caminhando para o desaparecimento ou degradação irreversível desses ecossistemas num horizonte de tempo que não ultrapassa, em muitos casos, a primeira metade do século.
IHU On-Line – É possível conciliar a preservação das florestas com o desenvolvimento da agropecuária? O que seria adequado para o caso brasileiro nesse sentido?
A única solução é a adoção de outro regime alimentar, uma alimentação sem carne ou com muito menos carne, o que traria, de resto, benefícios tangíveis à saúde humana
Luiz Marques – Não há quadratura do círculo. A “solução”, por vezes proposta, de confinamento do gado bovino implica, além de um sofrimento ainda maior desses animais, algo a meu ver eticamente inaceitável, uma alimentação baseada em ração, o que supõe um aumento da área agrícola para o cultivo dessa ração (com mais desmatamento), além de uso crescente de hormônios e antibióticos “preventivos”, problemas insuperáveis de gestão dos resíduos, entre outros. A única solução é a adoção de outro regime alimentar, uma alimentação sem carne ou com muito menos carne, o que traria, de resto, benefícios tangíveis à saúde humana.
IHU On-Line – Em um artigo recente, o senhor informa que a perda anual de florestas nos países tropicais, com exceção do Brasil e da Indonésia, praticamente dobrou nesses 14 anos, passando de pouco mais de 31 mil km² em 2001 para pouco mais de 61 mil km² em 2014. Quais são as razões desse aumento? Como esses países estão lidando com essa questão?
Luiz Marques – No caso da Ásia e da Oceania, os fatores preponderantes são o cultivo do óleo de palma e a extração de madeira. Também na África esses fatores começam a atuar de modo expressivo, à medida que o continente se insere no agronegócio global. As políticas adotadas pelos países concernidos devem ser avaliadas por seus efeitos. A se admitir que sejam mais que simples propaganda, não são objetivamente, ao menos até agora e num futuro previsível, de natureza a inverter a curva do desmatamento.
IHU On-Line – Vários estudos chamam atenção para a diminuição do número de florestas no mundo. Quais são as implicações práticas da redução florestal?
Luiz Marques – Em 2014, a FAO lançou um documento chamado “Não podemos viver sem florestas”. É a simples e incontornável verdade. As florestas são imprescindíveis para a vida no planeta. Não apenas por serem o lar de (ainda) 80% da biodiversidade terrestre, mas porque são fundamentais para o ciclo do carbono, para retardar a velocidade e amenizar as mudanças climáticas, para a manutenção dos recursos hídricos, para a regularização das chuvas, para a conservação dos solos etc. Nosso sistema econômico, baseado no imperativo da expansão e do lucro, tem destruído as florestas a uma velocidade vertiginosa, sem perceber, em sua ganância, arrogância e ignorância, que estamos destruindo os alicerces sobre os quais a biosfera, e portanto nossas sociedades, se sustentam.
IHU On-Line – Que tipo de ação global poderia ser adotada para reverter o atual prognóstico em relação às florestas? O Acordo de Paris, do ponto de vista climático, lhe parece uma boa iniciativa?
Uma ação global capaz de nos desviar da trajetória de colapso da biosfera e de mudanças climáticas catastróficas deve começar pela admissão da extrema gravidade das crises socioambientais contemporâneas
Luiz Marques – Em seu compromisso (INDC) firmado no Acordo de Paris, o Brasil prometeu zerar o desmatamento ilegal e restaurar 120 mil km² de florestas até 2030. O custo dessa restauração foi recentemente avaliado entre 30 e 50 bilhões de reais. Não é nada se pensarmos na relação custo/benefício. Mas alguém acredita que o Estado brasileiro, se continuar dominado pelo agronegócio e por outros interesses corporativos, cumprirá essas promessas? Só os que amam se autoenganar.

Objetivos do Desenvolvimento Sustentável

O mesmo pode-se dizer do Objetivo 15 dos nobres 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, também assinado em 2015 pelo Brasil. Esse Objetivo propõe um manejo sustentável das florestas, combate à desertificação, reverter a degradação do solo e a perda da biodiversidade. Nada disso é atingível no quadro atual das relações de força entre os interesses da sociedade e os interesses dos grandes conglomerados que dominam os fluxos estratégicos de investimento. Uma ação global capaz de nos desviar da trajetória de colapso da biosfera e de mudanças climáticas catastróficas deve começar pela admissão da extrema gravidade das crises socioambientais contemporâneas. Adotar essa premissa significa se compenetrar de que há risco real, crescente e iminente de inviabilização de qualquer sociedade organizada já no horizonte dos próximos decênios. Significa entender, de fato (e não apenas em palavras), que o futuro da atual geração e das próximas será pior ou muito pior que o presente se não tomarmos em mãos nosso destino, o que supõe arrebatá-lo do controle das elites econômicas. Se de fato entendermos que o que está em jogo é a existência mesma de nossas sociedades neste século, as soluções políticas e tecnológicas aparecerão.
Essas soluções passam todas, em todo o caso, por uma democratização radical da sociedade. Mas se continuarmos a pensar que a natureza é apenas um subsistema do sistema econômico, se continuarmos imersos em nossa ilusão antropocêntrica e hipnotizados pelo discurso hegemônico de que o crescimento econômico é a “saída”, como é ainda a crença da maior parte dos economistas, então estamos condenados a um colapso socioambiental de proporções ainda imponderáveis, mas, de qualquer forma, terrivelmente doloroso para os jovens de hoje.
 (EcoDebate, 01/09/2017) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

A MAIOR SECA EM 90 ANOS DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO SÃO FRANCISCO

Vazão de reservatórios do São Francisco é reduzida novamente, em maior seca em quase 90 anos

ABr
Sobradinho - No maior reservatório do Nordeste, o nível da água atingiu o menor patamar dos quase 40 anos da barragem de Sobradinho (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
Na barragem de Sobradinho, o maior reservatório do Nordeste, o volume útil caiu de 9,8% no dia 1º de agosto para 7,8% no dia 30. Foto: Marcello Casal Jr/Arquivo/Agência Brasil
 
Na maior seca da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco em quase 90 anos de medição oficial, a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) reduziu ontem (31) a vazão de reservatórios do Velho Chico a partir da Usina de Xingó, entre Alagoas e Sergipe, de 600 metros cúbicos (m³) por segundo para 580 m³ por segundo. A vazão regular de Xingó era de 1.300 m³ por segundo em 2012, início da estiagem que se prolonga até agora.
A decisão foi tomada, na última segunda-feira (28), em reunião para avaliar a operação dos reservatórios. O objetivo, de acordo com a Chesf, é fazer um teste para avaliar “eventuais impactos aos usuários”, em especial para a captação de água para abastecimento. Depois dessa avaliação, uma nova redução para 550 m³ por segundo está programada em data ainda não divulgada, com base em autorização da Agência Nacional de Águas (ANA) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
De acordo com o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), o São Francisco é responsável por 70% da disponibilidade hídrica da Região Nordeste e do norte de Minas Gerais. A redução pretende evitar maior prejuízo ao abastecimento de água, em especial para consumo humano, de acordo com a Chesf.
O volume de água dos reservatórios do São Francisco vêm diminuindo sucessivamente. O maior reservatório do Nordeste, o de Sobradinho, na Bahia, por exemplo, caiu de 9,8% de volume útil no dia 1º de agosto para 7,8% na última medição disponível no sistema da Chesf de ontem (30). O objetivo da redução de vazão é impedir um colapso ao menos até novembro, quando começa o período chuvoso em parte da Bacia do São Francisco.
Essa redução vêm ocorrendo ao longo dos anos de estiagem. No ano passado, o Rio São Francisco tinha alcançado a menor vazão histórica desde 1979, quando o Reservatório de Sobradinho foi inaugurado.
Impactos colaterais
Se a medida emergencial pretende garantir o abastecimento, o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco aponta que existem efeitos colaterias para a vitalidade do rio e para as populações ribeirinhas. O presidente da organização, Anivaldo Mirada, diz que a redução é uma situação “sem muitas alternativas de saída” neste momento, mas lista os problemas decorrentes da liberação cada vez menor de água para o curso do rio.
Na parte de abastecimento, por exemplo, a diminuição do nível do São Francisco impacta nos pontos de captação da água tanto para consumo humano como para irrigação. “Tem sido feito um acompanhamento permanente desse processo e a questão tem sido resolvida com o uso de bombas flutuantes para captação de água”, disse.
Outro impacto é o avanço do mar na foz do São Francisco, que aumenta a salinidade do rio e compromete a qualidade da água especialmente do município de Piaçabuçu, em Alagoas, e Brejo Grande, em Sergipe. Miranda diz que não só o abastecimento fica comprometido, mas o problema vira uma questão de saúde pública. Há prejuízo ainda na navegação de embarcações e na pesca artesanal.
“Essa navegação de pequeno e médio porte tem sido garantida. Claro que as travessias ficam mais longas, é preciso maior habilidade, mas não houve nenhuma interrupção em grande escala”, diz o presidente do comitê.
Revitalização
Para reverter a necessidade de sucessivas reduções de vazão e impedir os impactos colaterais, Anivaldo Miranda diz que é necessário uma “união” de entes públicos e da sociedade para a revitalização da bacia hidrográfica do São Francisco. Na avaliação do presidente do comitê, o projeto nacional para essa recuperação “a rigor, ainda não saiu do papel”
“É preciso trabalhar pela recarga de aquíferos, combate à erosão, preservação de mata ciliar, fazer programas de melhoria da qualidade da água, saneamento básico dos municípios ribeirinhos. Sobretudo paralisar de forma imediata o desmatamento de dois biomas fundamentais: a caatinga e sobretudo o cerrado”, diz.
Por Sumaia Villela, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/09/2017

CRISE ECONÔMICA E A QUEDA NA GERAÇÃO DE LIXO

Crise econômica diminui geração de lixo pela primeira vez em 13 anos


lixo
Foto: EBC
A geração de lixo no Brasil reduziu 2,04% em 2016 na comparação com 2015, segundo panorama divulgado ontem (31) pela Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Foram gerados 78,3 milhões de toneladas de resíduos sólidos no ano passado.
Carlos Silva Filho, presidente da Abrelpe, não atribuiu a redução do lixo à conscientização ambiental da população, mas à crise. “É a primeira vez que temos decréscimo de resíduos sólidos no Brasil desde 2003, fruto da crise econômica, que afetou diretamente o poder de compra da população e trouxe, como consequência, o menor descarte de resíduos sólidos.”
Outro aspecto negativo atribuído à recessão econômica foi o aumento do uso de lixões, com 2.976 ainda presentes em todo o país. Tiveram destinação inadequada, em 2016, 81 mil toneladas de lixo. O uso de lixões a céu aberto cresceu de 17,2% em 2015 para 17,4% no ano passado.
Os aterros controlados, que ainda existem no país, são semelhantes a lixões, por vezes cercados, com cobertura de terra para esconder os resíduos, mas sem captação de gás e chorume. Houve ligeiro aumento, passando de 24,1% em 2015 para 24,2% no ano passado. O tratamento de lixo ideal, em aterro sanitário, feito em ambiente confinado para reduzir o volume de resíduos conforme os anos, caiu de 58,7% para 58,4%.
Sete municípios, não revelados pelo panorama, abandonaram o uso de aterros sanitários e passaram a usar lixões, em razão da redução de receitas municipais. O custo do uso de aterro gira em torno de R$ 90 a R$ 100 por tonelada. “É uma economia burra, pois deixa de pagar o aterro, mas, automaticamente, vai contaminar o meio ambiente e a pessoas, vai pagar mais no Sistema Único de Saúde”, disse o presidente da Abrelpe.
Segundo o panorama, 96 milhões de pessoas terão a saúde afetada por contaminação dos lixões. “São doenças como alergias, infecções estomacais, doenças causadas por vetores que se proliferam no lixo como dengue, zika, chikungunya, câncer, pressão arterial. Bastante preocupante.”
A coleta seletiva no Brasil estava presente em 69,3% em 2015, e registrou ligeiro aumento em 2016, passando a 69,6%. Entre as regiões brasileiras, o Sul foi o que mais implementou coleta seletiva (89,8%), seguido pelo Sudeste (87,2%), Norte (58,4%), Nordeste (49,6%) e Contro-Oeste (43,3%).
Por Fernanda Cruz, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/09/2017

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

EXPLORAÇÃO DE TRABALHADORES BOLIVIANOS.

Justiça processa responsáveis pela marca Gregory por submeter bolivianos a condição análoga à de escravo

Vinte e duas vítimas foram resgatadas em oficinas de costura na cidade e Região Metropolitana de São Paulo 
A Justiça Federal em São Paulo aceitou denúncia oferecida pelo Ministério Público Federal e instaurou ação penal contra representantes legais da confecção de roupas Gregory por reduzirem trabalhadores bolivianos a condição análoga à de escravo. Além de Antonio Matos Duca e Delmira Matos Duca Giovaneli, também são réus na ação outras quatro pessoas, responsáveis pelas empresas e oficinas de costura usadas pela marca.
Ao todo, em fevereiro e março de 2012, foram resgatadas 22 vítimas submetidas a condições degradantes, jornadas exaustivas e atividades forçadas, graças à fiscalização realizada por auditores-fiscais do trabalho no âmbito de programa de erradicação do trabalho escravo urbano. Segundo o relatório fiscal que embasou a denúncia, os estabelecimentos e oficinas de costura, localizados na cidade e Região Metropolitana de São Paulo, eram contratados por fornecedores diretos da Gregory para a confecção de peças de vestuário desenvolvidas pela marca, em um sistema de quarteirização da produção.
Entre os réus estão dois bolivianos que administravam uma oficina no Jardim Peri, na zona norte da capital paulista. Cesar Antonio Morales Cardenas e seu pai Jorge Frumencio Morales Mollericon empregavam dez funcionários aliciados na Bolívia, que viviam e trabalhavam no mesmo local, junto com seus filhos. A fiscalização flagrou inclusive um bebê, com um mês de vida, que dormia entre os motores de duas máquinas de costura, em um berço improvisado com caixas de papelão. A mãe, que amamentava o filho durante a jornada de trabalho, nada recebeu durante o período que ficou no hospital após o parto e, ao retornar à oficina, voltou a trabalhar imediatamente.
Além das péssimas condições dos alojamentos, que incluíam sujeira, infiltrações, instalações sanitárias precárias e irregularidades na rede elétrica, os costureiros eram submetidos a jornadas que variavam entre 14 e 17 horas por dia. Os empregadores restringiam inclusive a locomoção das vítimas, que só podiam deixar a oficina para resolver assuntos pessoais mediante autorização prévia. Segundo a denúncia do MPF, “Cesar não costumava autorizar a saída dos trabalhadores do estabelecimento quando havia muitas encomendas e o prazo estava ‘apertado’”.
Os costureiros recebiam em média R$ 3 por peça produzida e ainda pagavam com sua força de trabalho pelas passagens utilizadas para virem da Bolívia, em uma situação de servidão por dívida. Além disso, os empregadores limitavam o uso dos salários, coagindo os funcionários a adquirirem bens essenciais na própria oficina, bem como controlavam o acesso à comida, mantendo os alimentos em uma dispensa trancada com correntes e cadeados. “Somente com muitas horas de trabalho os costureiros conseguiam auferir algum ganho, após descontados os valores de habitação e alimentação, descontos estes que sequer eram percebidos pelas vítimas”, afirma a denúncia.
INTERMEDIÁRIOS. A oficina costurava roupas exclusivamente para a Gregory e para a marca Belart, da empresa WS Modas Ltda., que pertence ao coreano Won Yong Paek, também denunciado. A WS Modas funcionava como intermediária na cadeia produtiva, pois, apesar de contratada como fornecedora direta da Gregory, não possuía capacidade técnica para confeccionar o volume de peças encomendadas e, por isso, quarteirizava a produção para a oficina de Cesar e Jorge.
O mesmo acontecia com a empresa de propriedade da denunciada Patricia Su Hyun Ha, contratada como fornecedora da Gregory, ainda que não possuísse máquinas de costura e empregados para a confecção das vestimentas. A empresária intermediava a subcontratação de outras três oficinas, localizadas na Vila Dionísia, na zona norte da capital, no Belém, na zona leste, e em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, as quais utilizavam mão de obra informal. Ao todo, 12 bolivianos atuavam nos estabelecimentos, que produziam exclusivamente peças da Gregory.
Nos locais foram encontradas infiltrações, instalações sanitárias precárias e irregularidades na rede elétrica, com grave e iminente risco de incêndio. As péssimas condições dos espaços de trabalho e moradia – que se confundiam – ameaçavam a saúde e a segurança dos empregados que, além disso, trabalhavam cerca de 15 horas por dia. Tanto Patrícia quanto Won declararam que desconheciam as condições em que as atividades eram prestadas, pois não realizaram vistoria nas oficinas contratadas. Para o MPF, isso evidencia que os denunciados assentiam ou, quando menos, aceitavam o risco de tomar serviços de pessoas submetidas a circunstâncias degradantes de trabalho.
Segundo a denúncia, as provas colhidas reforçam a responsabilidade direta da Gregory e de seus donos pela exploração de trabalhadores em condição análoga à de escravo, por meio da utilização de oficinas de costura subcontratadas. “Os responsáveis legais da Gregory ocupavam o topo de uma cadeia quarteirizada de produção de peças de vestuário, intermediada pelas empresas de confecção WS Modas Ltda. e Patricia Su Hyun Ha Ltda.. As oficinas inspecionadas prestavam, na verdade, serviços encomendados pela Gregory, sendo ela a real empregadora das vítimas resgatadas”, destaca o documento.
CRIMES. Os seis réus vão responder pelo crime de reduzir os trabalhadores a condição análoga à de escravo, conforme disposto no art. 149 do Código Penal. A pena prevista varia entre dois e oito anos de prisão para cada vítima identificada, além do pagamento de multa.
O número do processo é 0016285-42.2014.403.6181. Para consultar a tramitação, acesse http://www.jfsp.jus.br/foruns-federais/
Fonte: Procuradoria da República no Estado de S. Paulo
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 31/08/2017