terça-feira, 26 de setembro de 2017

CÉSIO-137 : ACIDENTE EM GOIÂNIA

Vítimas do Césio-137 seguem desamparadas 30 anos após tragédia radioativa em Goiânia

Por Juliana Ferreira, para a Articulação Antinuclear Brasileira
Uma das vítimas do Césio na audiência pública realizada dia 13 na Assembleia Legislativa de Goiás
Uma das vítimas do Césio na audiência pública realizada dia 13 na Assembleia Legislativa de Goiás
Este mês completam-se 30 anos do início do maior acidente radiológico do mundo, causado por uma cápsula de Césio-137 abandonada em um aparelho hospitalar no centro de Goiânia. As 17 gramas do elemento radioativo contaminaram pessoas, meio ambiente e causaram consequências sentidas até hoje. É uma tragédia que ainda não terminou. A Articulação Antinuclear Brasileira apoiou uma série de eventos que marcaram os 30 anos do acidente a partir do mote Césio-137 30 anos: Eu Também sou Vítima. Entre os dias 12 e 13 foram realizados um seminário e uma audiência pública sobre o tema e neles ficou patente que o Estado não prestou as devidas contas à sociedade, muito menos assistiu devidamente às vítimas de contaminação, especialmente aqueles que trabalharam na retirada dos entulhos radioativos.
Se as primeiras vítimas do césio foram contaminaram por omissão da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) e o Instituto Goiano de Radiologia, dono do aparelho radiológico abandonado; os trabalhadores e militares enviados para realizar a descontaminação foram vítimas de uma conduta criminosa do Estado, que os expuseram à radiação sem as devidas precauções e informações necessárias. Hoje, as instituições estatais querem chamá-los de heróis, título que recusaram na audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de Goiás, pois consideram não se tratar de um ato heróico quando é feito por obrigação e sem conhecimento de causa.
Os trabalhadores do Consórcio Rodoviário Intermunicipal S.A. (Crisa) foram chamados para realizar a descontaminação dos locais por onde o Césio circulou, mas achavam estar lidando com um acidente com gás. Não sabiam que se tratava de material radioativo. Muitos vieram do interior de Goiás, sem orientação, vestindo chinelos de dedo. Depois de terminado o trabalho, suas roupas eram lavadas ou reaproveitadas por suas esposas e filhas. Hoje padecem de doenças crônicas que, em muitos casos, a justiça não reconhece serem ligadas ao Césio, lutam por assistência jurídica e médica para si e seus familiares.
Grupo de trabalhadores do Crisa que atuou na descontaminação. Hoje, dos 15, só estão vivos 3.
Grupo de trabalhadores do Crisa que atuou na descontaminação. Hoje, dos 15, só estão vivos 3.
Na fala do coordenador do Fórum Permanente sobre o Acidente com o Césio-137, Julio Nascimento, “as discussões acontecem e as vítimas estão aí morrendo. Também de morte social, psicológica. Enquanto nos gabinetes as instituições estão empurrando o problema um para o outro”. Isso ficou claro na audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de Goiás, no dia 13, onde diante das inúmeras queixas apresentadas pelas vítimas, a Casa não se comprometeu com nada efetivamente além de encaminhar as demandas ao governador do estado, que não estava presente.
A jornada de eventos começou com o Seminário Césio 30 anos: Questões atuais sobre os direitos e saúde das vítimas, realizado na Asmego, dia 12 de setembro. Nele, foi feito um balanço de como está a assistência às vítimas atualmente. A engenheira civil e auditora do trabalho Fernanda Giannasi trouxe questionamentos sobre a atual classificação das vítimas em grupos de acordo com seu grau de exposição. Para ela, essa divisão é inadequada pois, de acordo com a Convenção 115 da Organização Internacional do Trabalho, ratificada pelo Brasil, somente o fato de ter ocorrido exposição à radiação já deveria gerar a necessidade de acompanhamento vitalício do trabalhador. Outro documento fundamental sobre radiação, o 7º Relatório de Efeitos Biológicos da Radiação Ionizante, elaborado em 2005 pela Academia Nacional de Ciências norte-americana, afirma que não há níveis seguros para exposição à radiação. “Essa divisão entre o grau 1,2,3,4 é discutível. Se não há grau seguro de exposição, como eu posso avaliar quem está mais ou menos prejudicado por essa exposição?”, questiona Giannasi. As vítimas do Césio hoje são divididas em 4 grupos, sendo o primeiro composto por pessoas que tenham sido incapacitadas por consequência do acidente e os demais são classificados conforme o nível de radiação recebido.
A advogada Érica Coutinho trouxe um panorama das possibilidades de reparação às vítimas. A lei estadual de Goiás Nº 10.977/89 e a lei federal Nº 9.425/96 estabelecem o pagamento de pensão vitalícia. Érica frisou que as pessoas afetadas que não tiveram seus nomes citados na lei estadual podem também pedir o reconhecimento: “É muito importante que se resgate o que significa ser vítima em um acidente dessa proporção. Embora a lei traga uma lista com alguns nomes, isso pode ser judicializado. Quem apresentar alguma patologia após o acidente também pode pleitear uma pensão vitalícia”, explica. Ela também lembra que as vítimas podem requerer indenização por danos morais.
Julio Nascimento, Chico Whitaker, Érica Coutinho e Fernanda Giannasi foram os conferencistas no dia 12 pela manhã
Julio Nascimento, Chico Whitaker, Érica Coutinho e Fernanda Giannasi foram os conferencistas no dia 12 pela manhã
Ser reconhecido como vítima pelo estado ou governo federal, no entanto, nem sempre é fácil. João Dias Fonseca era mecânico do Crisa e trabalhou nas máquinas que descontaminaram Goiânia. Hoje está aposentado e sofre de inúmeros problemas de saúde, já teve 3 dedos do pé amputados e custeia seu atendimento médico. Há 10 anos ele luta na justiça para ser reconhecido como vítima, mas o estado de Goiás e o Governo Federal não reconhecem o chamado “nexo causal” entre seu adoecimento e o Césio.
Aqueles que possuem o reconhecimento, por sua vez, relatam descaso no atendimento médico, valor de pensão defasado, receio de não ter o atendimento médico estendido a seus filhos e preconceito que os impede de integrar-se socialmente. “Passamos pela bateria de exames periódicos no Centro de Assistência aos Radioacidentados (Cara), mas não estamos recebendo remédios. Quem tem dinheiro para comprar, compra; quem não tem, fica sem”, afirma Suely Moraes, presidente da Associação das Vítimas do Césio.
Quando surgiu para concentrar o atendimento às vítimas do acidente, o Cara era chamado de Superintendência Leide das Neves, em homenagem a uma das primeiras vítimas fatais da tragédia, com apenas 5 anos à época. A mudança de nome é tida pelas vítimas como uma tentativa de apagar essa memória em uma intencionalidade que permeia todas as ações do estado em relação à tragédia: a busca pelo esquecimento.
Atualmente três associações fazem a defesa das vítimas do Césio em Goiânia. A Associação das Vítimas do Césio, Associação dos Militares Vítimas do Césio e a Associação dos Contaminados, Irradiados e Expostos ao Césio. Esse ano foi criado também o Fórum Permanente sobre o Acidente com o Césio 137, na tentativa de unificar as pautas e ações das três entidades, agregar apoiadores e promover a discussão na sociedade. Fernanda Giannasi reforçou em sua fala a necessidade de união entre esses atores para avançar nas reivindicações.
Goiânia e o nuclear
Apesar de convidada, a Comissão Nacional de Energia Nuclear, que promove e fiscaliza as atividades nucleares no Brasil, esteve ausente durante o seminário e também na audiência pública promovida dia 13 na Assembleia Legislativa de Goiás. O ativista Chico Whitaker declarou no seminário, dia 12, que a comissão, com suas falhas, omissões e falta de transparência, era uma inimiga em comum entre os contaminados, irradiados e expostos de Goiânia e outras comunidades impactadas pelo nuclear no Brasil: “Nós temos que trabalhar numa luta única. O que eu queria dizer, que eu tiro como conclusão, é que precisamos colocar mais gente nessa briga e transformar em uma luta nacional. Goiânia é um exemplo do que é a loucura do nuclear e queremos evitar que aconteça um desastre muito maior do que aconteceu aqui”.
Trazendo essa perspectiva de união contra o nuclear, os facilitadores da Articulação Antinuclear Brasileira, Renato Cunha e Zoraide Vilasboas compartilharam na audiência pública os problemas trazidos pela mineração de urânio em Caetité, no sudoeste baiano, onde água, ar e solo têm sido contaminados por radiação. Inês Chada relatou o medo que os moradores de Angra dos Reis (RJ) sofrem desde a instalação autoritária de duas usinas nucleares em seu município: “Estar aqui em Goiânia é ter um contato com como as vítimas do nuclear são tratadas e o descaso não me parece uma exceção. Se um acidente com uma cápsula de 17 gramas causou tantas vítimas – não sabemos nem exatamente quantas – como seria um acidente em uma usina nuclear?”, questiona.
Essa dimensão mais ampla do problema da radiação foi trazida também pela presença de Junko Watanabe, sobrevivente da bomba atômica de Hiroshima e integrante da Associação Hibakusha Brasil Pela Paz. Junko convive desde os 2 anos com os efeitos da radiação, veio a Goiânia e emocionou os goianienses com suas palavras de solidariedade às vítimas locais. “Onde quer que estejamos precisamos oferecer nosso auxílio às vítimas da radiação atômica. Devemos trabalhar para que nunca mais pessoas sejam afetadas por esse demônio desenvolvido pelo homem”, defendeu.
Reflexões sobre o Césio a partir da arte
Além do seminário e da audiência pública, outros espaços propuseram a discussão sobre o acidente e a situação das vítimas a partir de linguagens artísticas. No dia 12, pela noite, foi exibido o filme “O Suplício: Vozes de Chernobyl”, cedido pela VI Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental. Já no dia 13, na rua 57, onde iniciou-se o acidente, uma tocante performance do grupo de dança goiano Por Quá, ao som ao vivo do grupo Vida Seca, emocionou o público ao usar a dança para transmitir o pânico vivido pelas vítimas no acidente, o adoecimento e isolamento social que a contaminação causou. “Não tem nada melhor que a arte para nos mostrar o que essa tragédia provocou na existência das pessoas. No corpo e na alma”, avaliou Julio Nascimento.
Performance do coletivo de dança Por Quá, com trilha do grupo Vida Seca
Performance do coletivo de dança Por Quá, com trilha do grupo Vida Seca
A programação artística ainda segue, até o dia 21 de outubro está em cartaz, no Espaço Culturama, a exposição Hiroshima Nunca Mais. Uma realização da Sapê (Sociedade Angrense de Proteção Ecológica) que já circulou por Angra dos Reis e São Paulo, Hiroshima Nunca Mais reúne em fotos o terror causado pelo nuclear no Brasil e no mundo. O Césio-137 está retratado lá ao lado de outros terríveis acidentes e também de impactos menos conhecidos que o nuclear traz, como na mineração do urânio e na deposição do lixo nuclear. A exposição tem entrada gratuita, está aberta de segunda a sexta de 14h às 22h e sábado das 8h às 12h. É possível agendar visitas escolares guiadas através do email educativohiroshima@gmail.com. 
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/09/2017

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

SUICÍDIOS NO BRASIL : PRINCIPAIS CAUSAS

Por que o suicídio não para de crescer no Brasil?

A taxa cresceu 60% desde os anos 1980. E os motivos são os esperados: instabilidade econômica e fragilidade social


Primeiro a boa notícia: o Brasil não é um país no qual o suicídio é comum. Somos apenas a 113ª nação no ranking das mortes auto-infligidas – e com uma taxa 5 vezes menor do que o campeão, a Guiana. Agora a notícia não tão boa assim: o suicídio está crescendo por aqui. Dos 172 países que enviam dados à Organização Mundial da Saúde, somente 28 registraram aumento nos índices de suicídio nos últimos anos. E nós somos um deles: a oitava nação com mais casos em termos absolutos. Nossa taxa subiu 60% desde 1980 e contabilizamos 11.821 mortes no último levantamento global em 2012. Se incluirmos as mortes não declaradas na conta, a perspectiva é ainda pior com 30% mais casos e tudo indica que continuaremos subindo no ranking. Mas por quê?
“O Brasil é uma sociedade em ebulição. E sabemos que os números de suicídio aumentam em sociedades com crise política e econômica”, diz o psiquiatra Neury Botega, professor do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Unicamp, um dos maiores especialistas no assunto. “Foi assim nos países da antiga União Soviética antes da implosão do comunismo. E tem sido assim no Brasil”, completa.
Se a crise econômica que assola o país com mais força desde 2015 parece ser um fator recente, a pobreza não é.  O suicídio tem uma forte correlação com a pobreza: 75% das mortes por ocorre em países de baixa e média renda. Dentro do Brasil, acontece o mesmo: os estados que mais registraram aumento de casos estão no Norte e Nordeste – regiões com os maiores índices de pobreza do país.
Às margens do Rio Negro, a 850 km de Manaus, fica São Gabriel da Cachoeira (AM), a cidade onde mais pessoas se matam no Brasil. O município, de maioria indígena, tem um índice de 51,2 suicídios para cada 100 mil, um claro exemplo da vulnerabilidade dessa parcela da população.
Índios apresentam de duas a sete vezes mais chances de cometer suicídio que outros brasileiros: locais de assentamento de comunidades indígenas têm as maiores taxas do Brasil. O ato não se explica com um motivo singular, mas uma soma de fatores que, no caso, incluem conflitos relacionados à demarcação de terras, perda da identidade cultural e falta de acesso à saúde mental.
Na ponta do país, outro gargalo: agricultores no Rio Grande do Sul. “O histórico de suicídios em famílias alemãs, a forma como a monocultura do tabaco vinculado a monopólios industriais ocorre em pequenas propriedades familiares, a depressão ligada ao uso de agrotóxicos, a baixa escolaridade, o endividamento, abuso de álcool, a maior incidência de transtornos mentais e a defesa da honra em uma cultura patriarcal são algumas das condições estudadas”, afirma Botega em seu livro Crise Suicida.
Não à toa, Três Passos (RS) e Três de Maio (RS), municípios cuja principal atividade econômica é a agricultura, estão entre as cinco cidades com os índices de suicídio mais altos do Brasil. Todas da lista têm menos de 40 mil habitantes, o que confirma que o aumento dos casos em cidades médias e pequenas e alerta para a necessidade de prevenção nesses lugares.
Assim, há um fator que, infelizmente, consegue prever a ocorrência desse tipo de morte: a fragilidade social. Além dos povos indígenas e de pequenos agricultores, presidiários e moradores de rua também têm de 2 a 7 vezes mais probabilidade de se matar.
O mesmo acontece com gays e bissexuais, cujas taxas de suicídio são 5 vezes maior do que no restante da população. Enquanto essas pessoas continuarem sofrendo preconceito e não tiverem acesso aos métodos de prevenção – como acompanhamento psicológico e psiquiátrico – nada indica que nossas taxas vão parar de subir.
Fonte : Revista Superinteressante

domingo, 24 de setembro de 2017

ESCRAVIDÃO MODERNA E O TRABALHO INFANTIL

Escravidão moderna afeta 40 milhões de pessoas no mundo; trabalho infantil atinge 152 milhões


Uma nova pesquisa da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Fundação Walk Free, em parceria com a Organização Internacional para as Migrações (OIM), revela a verdadeira escala da escravidão moderna em todo o mundo.
Os dados, lançados nesta terça-feira (19) durante a Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova Iorque, mostram que mais de 40 milhões de pessoas foram vítimas da escravidão moderna em 2016 globalmente. Além disso, a OIT também lançou uma nova estimativa de que cerca de 152 milhões de crianças entre 5 e 17 anos foram submetidas ao trabalho infantil no mesmo ano.
Menino é vítima de trabalho forçado no Paquistão. Foto: OIT/M.Crozet
Uma nova pesquisa da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Fundação Walk Free, em parceria com a Organização Internacional para as Migrações (OIM), revela a verdadeira escala da escravidão moderna em todo o mundo. Os dados, lançados nesta terça-feira (19) durante a Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova Iorque, mostram que mais de 40 milhões de pessoas foram vítimas da escravidão moderna em 2016 globalmente. Além disso, a OIT também lançou uma nova estimativa de que cerca de 152 milhões de crianças entre 5 e 17 anos foram submetidas ao trabalho infantil no mesmo ano.
As novas estimativas mostram que as mulheres e as meninas são as mais afetadas pela escravidão moderna, chegando a quase 29 milhões ou 71% do total. As mulheres representam 99% das vítimas do trabalho forçado na indústria comercial do sexo e 84% dos casamentos forçados.
A pesquisa revela que, entre as 40 milhões de vítimas da escravidão moderna, cerca de 25 milhões foram submetidas a trabalho forçado e 15 milhões foram forçadas a se casar.
O trabalho infantil continua concentrado principalmente na agricultura (70,9%). Um em cada cinco trabalhadores infantis trabalha no setor de serviços (17,1%), enquanto que 11,9% dos trabalhadores infantis trabalham na indústria.
“A mensagem que a OIT está enviando hoje – junto com nossos parceiros da Aliança 8.7 – é muito clara: o mundo não estará em posição de alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a menos que aumentemos de maneira dramática os nossos esforços para combater esses problemas. Essas novas estimativas globais podem ajudar a moldar e desenvolver intervenções para prevenir o trabalho forçado e o trabalho infantil”, disse o diretor-geral da OIT, Guy Ryder.
“O fato de que, como sociedade, ainda tenhamos 40 milhões de pessoas na escravidão moderna é uma vergonha para todos nós. Se considerarmos os resultados dos últimos cinco anos, para os quais coletamos dados, 89 milhões de pessoas tiveram alguma experiência de escravidão moderna, por períodos de tempo que variam de alguns dias a cinco anos. Isso fala diretamente com a discriminação e a desigualdade enraizadas profundamente em nosso mundo atual, associadas a uma tolerância chocante da exploração. Isso precisa parar. Todos nós temos um papel a desempenhar na mudança dessa realidade – empresas, governos, sociedade civil, cada um de nós”, afirmou o presidente e fundador da Fundação Walk Free, Andrew Forrest.

Sobre os dados

As novas estimativas globais são um esforço coletivo dos membros da Aliança 8.7, a parceria mundial para acabar com o trabalho forçado, a escravidão moderna, o tráfico de pessoas e o trabalho infantil, que reúne parceiros-chave representando governos, organizações das Nações Unidas, setor privado, organizações de empregadores e trabalhadores e sociedade civil, a fim de atingir a Meta 8.7 da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável.
Os dados estão publicados em dois relatórios:
– Estimativas Globais da Escravidão Moderna: trabalho forçado e casamento forçado, elaborado em conjunto pela OIT e pela Fundação Walk Free, em parceria com a OIM;
– Estimativas Globais de Trabalho Infantil: resultados e tendências 2012-2016, elaborado pela OIT.
Os dados estão disponíveis em www.alliance87.org/2017ge.

Notas aos Editores

Escravidão moderna
Existem cerca de 40 milhões de pessoas presas na escravidão moderna. Mulheres e meninas são afetadas desproporcionalmente, chegando a quase 29 milhões ou 71% do total. Uma em cada quatro vítimas da escravidão moderna são crianças (cerca de 10 milhões). Por volta de 37% (ou 5,7 milhões) das pessoas forçadas a casar eram crianças.
Trabalho forçado
Cerca de 25 milhões de pessoas estavam em situação de trabalho forçado em qualquer momento em 2016. Fora isso, 16 milhões de pessoas estavam em situação de exploração de trabalho forçado no setor privado, como trabalho doméstico, construção e agricultura. Além disso, cerca de 5 milhões de pessoas estavam em situação de exploração sexual forçada, e pouco mais de 4 milhões de pessoas (ou 16% do total) estavam em situação de trabalho forçado imposto por autoridades de governos.
Casamento forçado
Estima-se que 15,4 milhões de pessoas viviam em casamentos forçados em qualquer momento de 2016. Desse total, 6,5 milhões de casos ocorreram nos últimos cinco anos (de 2012 a 2016). O restante começou antes desse período, mas continuou durante ele. Mais de um terço de todas as vítimas do casamento forçado eram crianças no momento em que se casaram, e quase todas essas crianças vítimas eram meninas.
Trabalho infantil
Um total de 152 milhões de crianças — 64 milhões de meninas e 88 milhões de meninos — estão sujeitas ao trabalho infantil, representando quase uma em cada dez crianças no mundo. O maior número de crianças de 5 a 17 anos envolvidas em trabalho infantil foi encontrado na África (72,1 milhões), seguida da Ásia e do Pacífico (62 milhões), das Américas (10,7 milhões), da Europa e da Ásia Central (5,5 milhões) e dos Estados Árabes (1,2 milhões).
Aproximadamente um terço das crianças de 5 a 14 anos envolvidas em trabalho infantil estão fora do sistema educacional. Além disso, entre as crianças que realizam trabalhos perigosos, 38% das que têm de 5 a 14 anos e quase dois terços das que têm de 15 a 17 anos trabalham mais de 43 horas por semana.

Sobre a Aliança 8.7

A Aliança 8.7 é uma parceria global estratégica comprometida com a conquista da Meta 8.7 da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável, que pede ao mundo para “tomar medidas imediatas e eficazes para erradicar o trabalho forçado, acabar com a escravidão moderna e o tráfico de pessoas, e assegurar a proibição e eliminação das piores formas de trabalho infantil, incluindo recrutamento e utilização de crianças-soldado, e até 2025 acabar com o trabalho infantil em todas as suas formas”.
Além da Meta 8.7, a Aliança 8.7 também procura atingir outras Metas relacionadas (5.2, 16.2, 16.3 e 16.a), através do alinhamento de esforços globais, regionais e nacionais, da aceleração de cronogramas, do compartilhamento de conhecimento, e do impulsionamento da inovação e de recursos.

Sobre a Organização Internacional do Trabalho (OIT)

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) é a agência das Nações Unidas para o mundo do trabalho. Ela estabelece as normas internacionais do trabalho, promove os direitos no trabalho e encoraja oportunidades de emprego decente, além do aprimoramento da proteção social e do fortalecimento do diálogo sobre questões relacionadas ao trabalho. A OIT tem uma estrutura única, reunindo governos, representantes de empregadores e trabalhadores. Foi fundada em 1919 e tem 187 Estados-membros.

Sobre a Fundação Walk Free

A Fundação Walk Free é uma organização internacional de direitos humanos fundada por Andrew e Nicola Forrest. Ela luta pelo fim da escravidão moderna no mundo. A Fundação fornece as informações e capacidades necessárias para os países combaterem a escravidão em suas jurisdições. A Fundação Walk Free trabalha com governos (Global Slavery Index), empresas/corporações (Bali Process Business Forum) e religiões mundiais (Global Freedom Network).

Sobre a Organização Internacional para Migração (OIM)

Fundada em 1951, a OIM é a agência de migração das Nações Unidas. Ela é a principal organização intergovernamental no campo da migração e trabalha em estreita colaboração com parceiros governamentais, intergovernamentais e não governamentais. Com 166 Estados-membros e outros oito Estados que possuem status de observadores, além de escritórios em mais de 100 países, a OIM dedica-se a promover a migração humana e ordenada em benefício de todos. Ela faz isso fornecendo serviços e recomendações aos governos e aos migrantes.

Contatos para a imprensa

Organização Internacional do Trabalho (OIT)
• Escritório da OIT no Brasil: Ana Paula Canestrelli, canestrelli@ilo.org /tel +55 (61) 2106-4625.
• Departamento de Comunicação e Informação Pública da OIT em Genebra: newsroom@ilo.org / tel + 4122 799-7912.
Walk Free Foundation: Martina Ucnikova, mucnikova@minderoo.com.au /tel +61 428 997 881.
Organização Internacional para Migração (OIM): Leonard Doyle, ldoyle@iom.int /tel: +41 79 285 71 23.
Fonte : ONUBR

MAIOR CRISE MIGRATÓRIA DESDE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL


Na Assembleia Geral das Nações Unidas, presidentes e ministros europeus discursaram em favor de formas estruturadas e justas de prevenção de conflitos. As preocupações em comum foram os ataques terroristas e a ameaça do uso de armas nucleares.
Diante da maior crise migratória desde a segunda guerra mundial, os líderes pediram tratamento humano para centenas de milhares de refugiados que chegam ao continente, bem como a gestão ordenada dos fluxos de migrantes.
Durante o debate geral da Assembleia Geral das Nações Unidas, iniciado na última terça (19), presidentes e ministros europeus discursaram em favor de formas estruturadas e justas de prevenção de conflitos. As preocupações em comum foram os ataques terroristas e a ameaça do uso de armas nucleares.
Diante da maior crise migratória desde a segunda guerra mundial, os líderes pediram tratamento humano para centenas de milhares de refugiados que chegam ao continente, bem como a gestão ordenada dos fluxos de migrantes.
No segundo dia do debate de alto nível da Assembleia Geral, na quarta (20), o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, ressaltou que a ONU deve aumentar o enfrentamento de muitos desafios globais, incluindo o deslocamento forçado e o terrorismo.
Tusk disse que a União Europeia (UE) continuará recebendo pessoas que precisam de proteção. Ele fez ainda um apelo à comunidade internacional para assumir a responsabilidade pela proteção dos refugiados e pela migração irregular.
“O seu envolvimento é necessário agora, tanto em termos de dinheiro para assistência humanitária como para mais reassentamento para os deslocados por conflitos na Síria, no Iêmen, em Mianmar e especialmente em toda a África”, disse ele à Assembleia.
No contexto de repetidos ataques terroristas, ele ressaltou a necessidade de um fortalecimento constante da luta global contra o extremismo violento, inclusive em um movimento contra a radicalização.
Ele reiterou o seu pedido aos líderes muçulmanos do mundo para se manterem fortes contra o extremismo islâmico, como um verdadeiro apoio na luta contra o terrorismo. “Em resumo”, o presidente disse que “devemos estar mais determinados do que eles”.

Espanha

“Grandes deslocamentos de pessoas atingiram níveis sem precedentes nos últimos anos”, disse o ministro espanhol das Relações Exteriores, Alfonso María Dastis Quecedo, na 72º sessão da Assembleia Geral.
Em um discurso abrangente, abordando as principais crises mundiais, bem como o desenvolvimento e as mudanças climáticas, Dastis expressou “a sincera gratidão do povo da Espanha pelas várias manifestações sinceras de apoio e carinho que recebemos de todos os lados do mundo” após o ataque terrorista do mês passado, em Barcelona.
“O terrorismo será vencido através da unidade, da perseverança e do peso total da lei”, disse ele.

Luxemburgo

O ministro das Relações Exteriores de Luxemburgo, Jean Asselborn, disse que a ONU é o lugar apropriado para enfrentar o fenômeno da migração em massa.
“As causas são múltiplas: pressões demográficas, mudanças climáticas, conflitos, catástrofes humanitárias. Motivação econômica perfeitamente respeitável, tanto no país de origem quanto na do destino também são muitas vezes a causa desse movimento”, acrescentou.
Ele também pediu aos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU que renunciem ao uso do veto em casos de atrocidades em massa, como genocídios, crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Dinamarca

Também discursou na Assembleia Geral da ONU na última quarta (20), Ulla Tøernæs, ministra da Cooperação para o Desenvolvimento da Dinamarca. Ela destacou as ameaças e os desafios “cada vez mais interligados” que a comunidade internacional enfrenta, incluindo deslocamentos e migração irregular, bem como violações dos direitos humanos e conflitos armados.
Para ela, é necessária uma liderança e um propósito comum para orientar a ONU para romper o status quo e reformar seu sistema. “Permanecer no caminho atual não é uma opção se quisermos manter a legitimidade das Nações Unidas. A reforma fundamental e ambiciosa é o único caminho a seguir”, afirmou Tøernæs.

Finlândia

Em seu discurso, o presidente da Finlândia, Sauli Niinisto, parabenizou o foco do secretário-geral na prevenção de conflitos, defendendo que as populações marginalizadas tenham voz nos processos de paz. “Mulheres, crianças e adolescentes muitas vezes pagam o preço mais alto em conflitos, mas também podem ajudar a pavimentar uma saída para a crise”, disse ele à Assembleia.
Em relação à Coreia do Norte, Niinisto classificou o programa de armas nucleares desse país como “uma ameaça para a paz e a estabilidade globais”, que deve ser interrompido. Ao salientar a importância da continuação da unidade do Conselho de Segurança, ele ressaltou: “Esse comportamento não pode ser tolerado pela comunidade internacional”.
Niinisto expressou ainda sua forte convicção de que os desafios e ameaças globais sejam abordados pela comunidade mundial. “A paz e a segurança, os direitos humanos e o desenvolvimento pertencem a todos nós. Só juntos podemos fazer deste mundo um lugar melhor”, concluiu.

Bulgária

O presidente da Bulgária, Rumen Radev, enfatizou que seu país apoia uma onda de diplomacia pela paz que coloca a prevenção como uma prioridade geral. “A prevenção e a mediação são meios essenciais para reduzir o sofrimento humano, incluindo abordar as causas profundas dos deslocamentos forçados, reunir esforços humanitários, de desenvolvimento e de consolidação da paz”, afirmou.
O presidente destacou que os conflitos armados em muitas partes do mundo continuaram a minar a paz e os valores humanos, afirmando que “os conflitos prolongados exigem uma resposta holística da ONU que abrange a diplomacia preventiva, a mediação, a consolidação da paz e as missões políticas especiais efetivas”.

Holanda

Para o primeiro-ministro da Holanda, Mark Rutte, os problemas que o mundo enfrenta hoje, como as mudanças climáticas, a migração, o terrorismo e os crimes cibernéticos, são, por definição, internacionais. “Nenhum país pode abordá-los isoladamente. Nós precisamos um do outro. (…) Neste mundo turbulento, a importância da ONU cresce todos os dias”, disse ele à Assembleia.
O primeiro-ministro disse que “a cooperação é fundamental” quando se trata de prevenir o terrorismo e que a ONU é o principal fórum de cooperação internacional. Como um bom exemplo de cooperação, ele apontou para o Fórum Global de Contraterrorismo, dizendo que seu trabalho “não é de alto perfil – a maior parte do que acontece nos bastidores – mas poupa muitas vidas”.
A prevenção de conflitos se vincula com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que ele chama de “agenda de prevenção final” como “eles abordam os motivadores e as causas profundas da instabilidade e do conflito”.
“Investir na dignidade humana, erradicar a pobreza, promover a resiliência climática e promover o progresso econômico e social reduzirá a incidência de conflitos, instabilidade e desespero. Desenvolvimento e paz duradoura – tudo em um pacote”, afirmou Rutte.
Fonte : ONUBR

IÊMEN : VIOLAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS

Assessor da ONU sobre genocídio alerta para situação no Iêmen; 7 milhões estão à beira da fome


Representantes das Nações Unidas expressaram preocupação com as contínuas alegações de graves abusos contra os direitos humanos no Iêmen. Os relatórios revelam mortes em massa de civis – incluindo crianças –, cometidas por todas as partes em conflito. A ONU pediu um mecanismo de investigação dos crimes cometidos.
Criança corre entre edifícios danificados por ataques aéreos em Sa'ada, no Iêmen. Até agosto de 2015, a área abrigava o mercado mais antigo da cidade, com milhares de pessoas vendendo alimentos, especiarias e tecidos em lojas e barracas de rua. Foto: OCHA/Giles Clarke
Criança corre entre edifícios danificados por ataques aéreos em Sa’ada, no Iêmen. Até agosto de 2015, a área abrigava o mercado mais antigo da cidade, com milhares de pessoas vendendo alimentos, especiarias e tecidos em lojas e barracas de rua. Foto: OCHA/Giles Clarke
Representantes das Nações Unidas expressaram preocupação com as contínuas alegações de graves abusos contra os direitos humanos no Iêmen. Os números revelam mortes em massa de civis – incluindo crianças –, cometidas por todas as partes em conflito.
De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), o total de vítimas civis verificadas desde março de 2015 é de 13.920, incluindo 5.159 pessoas mortas e 8.761 feridas.
Os números reais provavelmente serão “muito maiores”, disse o escritório, observando que os ataques aéreos da coalizão são a principal causa de baixas civis, inclusive de crianças.
Além disso, a ONU estima que 17 milhões de pessoas sofrem com a insegurança alimentar, incluindo 7 milhões à beira da fome. O aumento sem precedentes da epidemia de cólera atingiu mais de 690 mil casos suspeitos, com 2.090 mortes associadas – o maior foco em um único ano.
“Pedimos à comunidade internacional – e particularmente ao Conselho de Segurança e ao Conselho de Direitos Humanos – que tome medidas para acabar com a carnificina e remediar essa crise causada pelo homem”, disse o assessor especial da ONU sobre Prevenção de Genocídios, Adama Dieng, e o assessor especial da ONU para a Responsabilidade de Proteger, Ivan Šimonovic, em um comunicado divulgado na terça-feira (19).
“A comunidade internacional tem uma responsabilidade moral e legal em apoiar a responsabilização no Iêmen. Ela deve estabelecer imediatamente um mecanismo internacional imparcial para investigar de forma abrangente as alegações de graves abusos e violações dos direitos humanos e acabar com a impunidade. Esses crimes foram cometidos por todas as partes no conflito e suas forças aliadas.”
“Os agressores devem ser punidos e a justiça deve ser feita para as vítimas. Compete à comunidade internacional deter o sofrimento que está sendo infligido à população iemenita”, disseram os assessores.
Para o ACNUDH é “muito perturbador” que civis, incluindo crianças, continuem a ser mortos em ataques levados a cabo por comitês populares afiliados aos rebeldes xiitas houthis e a unidades do exército leais ao ex-presidente Ali Abdullah Saleh, bem como à coalizão saudita.
Na última semana, o escritório confirmou a morte de três crianças, além de outras sete que ficaram feridas em ataques das forças Houthi/Saleh, na cidade de Taizz, distrito de Salah. Um ataque aéreo da coalizão no município de Ma’rib matou mais cinco crianças e sete adultos.
Esses são apenas os últimos de uma série de incidentes que demonstram “o impacto horrível em crianças e famílias e em todos os civis, da guerra brutal em curso”, disse o porta-voz do ACNUDH, Rupert Colville, a repórteres em Genebra.
“Mais uma vez, pedimos a todas as partes envolvidas para que cessem todos os ataques indiscriminados e tomem todas as precauções possíveis para distinguir adequadamente objetos militares de objetos civis, garantindo que os ataques nunca sejam dirigidos [a civis]”, disse Colville.
Fonte : ONUBR