quarta-feira, 10 de abril de 2019

HUMANIDADE CONSOME RECURSOS DA TERRA A TAXAS INSUSTENTÁVEIS.

Humanidade consome recursos da Terra a taxas insustentáveis, alerta a ONU


Humanidade consome recursos da Terra a taxas insustentáveis


George Monbiot, correspondente do jornal britânico The Guardian e conhecido por seu ativismo ambiental e político, fez um apelo surpreendente para que as pessoas no Reino Unido reduzissem o uso de carros em 90% ao longo da próxima década.
Muitos indivíduos podem se mostrar avessos a essa ideia, mas talvez ela soe um pouco menos bizarra à luz de um novo relatório da ONU Meio Ambiente sobre a taxa com que estamos abocanhando os recursos do planeta Terra.
ONU

Refinaria de petróleo na Colômbia. Foto: Flickr/Aris Gionis (cc)
Refinaria de petróleo na Colômbia. Foto: Flickr/Aris Gionis (CC)

A indústria global do automóvel necessita de quantidades enormes de metais vindos da mineração, assim como de outros recursos naturais, como a borracha. E a transição para os veículos elétricos, embora necessária para conter a poluição do ar e as emissões de gases do efeito estufa, também tem consequências adversas para a natureza — a mineração em larga escala do lítio para as baterias usadas nos veículos elétricos poderia provocar novas dores de cabeça ambientais.
O Panorama Global sobre Recursos 2019, relatório da ONU Meio Ambiente preparado pelo Painel Internacional sobre Recursos, examina as tendências em recursos naturais e nos seus padrões correspondentes de consumo desde os anos 1970. Entre as principais descobertas da pesquisa, estão as seguintes conclusões:
  • A extração e o processamento de materiais, combustíveis e alimentos contribuem com metade do total de emissões globais de gases do efeito estufa e com mais de 90% da perda da biodiversidade e do estresse hídrico;
  • A extração de recursos mais do que triplicou desde 1970, incluindo um aumento de cinco vezes no uso de minerais não metálicos e um aumento de 45% no uso de combustíveis fósseis;
  • Até 2060, o uso global de materiais poderia dobrar para 190 bilhões de toneladas (a partir dos atuais 92 bilhões), enquanto as emissões de gases do efeito estufa poderiam aumentar 43%.
Além dos transportes, outro grande consumidor de recursos é o setor de construção, que cresce rapidamente.
O cimento, o insumo fundamental para a produção de concreto, o material de construção mais usado no mundo, é uma grande fonte de gases do efeito estufa e responde por algo em torno de 8% das emissões de dióxido de carbono, de acordo com um relatório recente da Chatham House.
Tanto a produção de concreto quanto a de argila (para tijolos) incluem processos que consomem muita energia para a extração de matéria-prima, além de etapas de transporte e uso de combustíveis para o aquecimento de fornos.
A areia de qualidade para uso na construção está sendo extraída atualmente a taxas insustentáveis.
“A extração de materiais é um dos principais responsáveis pelas mudanças climáticas e perda da biodiversidade — um desafio que só vai piorar a não ser que o mundo empreenda urgentemente uma reforma sistemática do uso de recursos”, afirma o especialista em mudanças climáticas da ONU Meio Ambiente, Niklas Hagelberg. “Tal reforma é tão necessária quanto possível.”

Transição energética

Dados de 2014 do Banco Mundial mostram que 66% da energia global é fornecida por combustíveis fósseis. A diretora-executiva interina da ONU Meio Ambiente, Joyce Msuya, pediu a aceleração da transição energética, dos combustíveis fósseis — carvão, petróleo e gás — para fontes renováveis de energia, como eólica e solar.
“Precisamos ver uma mudança quase total para as fontes renováveis de energia, que têm o poder de transformar vidas e economias ao mesmo tempo em que protegem o planeta”, afirmou a dirigente em uma carta para os participantes da Assembleia da ONU para o Meio Ambiente, realizada recentemente em Nairóbi, no Quênia.
O chamado da chefe da ONU Meio Ambiente veio poucos dias após o fundo soberano da Noruega — o maior do mundo, de 1 trilhão de dólares — sinalizar que planeja vender algumas das suas ações em empresas de petróleo e gás. A manobra é um golpe simbólico na indústria dos combustíveis fósseis, que vai reverberar entre empresas de energia e seus investidores.
“Agora, mais do que nunca, uma ação urgente e sem precedentes é exigida de todas as nações” para reduzir o aquecimento global, afirma o Relatório de Lacuna de Emissões da ONU Meio Ambiente de 2018. “Para transpor a lacuna de emissões de 2030 e garantir uma descarbonização de longo prazo, os países também têm que aprimorar as suas ambições de mitigação”, acrescenta o documento.
O Painel Internacional sobre Recursos foi lançado pela ONU Meio Ambiente em 2007, para construir e compartilhar os conhecimentos necessários para melhorar o nosso uso de recursos no mundo todo. O painel é formado por cientistas eminentes, altamente qualificados em questões de gestão de recursos, tanto de países desenvolvidos quanto de países em desenvolvimento, além de integrantes da sociedade civil e de organizações industriais e internacionais.
Da ONU Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/04/2019

BRUMADINHO: EXPOSIÇÃO A METAIS PESADOS E RISCOS DE DOENÇAS CARDIOVASCULARES.

Exposição a metais pesados e riscos de doenças cardiovasculares


Área impactada em Brumadinho/MG
Área impactada em Brumadinho/MG. Foto: Divulgação/Corpo de Bombeiros de Minas Gerais / EBC
O rompimento da barragem ocorrido em Brumadinho/MG desencadeou gravíssimos prejuízos para diversas famílias. De acordo com uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz, a área das populações afetadas abrange dezenas de quilômetros no raio do Rio Paraopeba. A possibilidade de um surto de doenças já foi levantada, incluindo febre amarela, dengue, leptospirose e esquistossomose. Ademais, os efeitos em curto prazo da exposição aos metais pesados (alumínio, manganês, ferro, por exemplo) têm relação com sintomas como tontura, diarreia e vômito, devido ao impacto no sistema nervoso central.
Dentro desse contexto, o Centro de Estudos do Sistema Nervoso Autônomo, grupo de pesquisa cadastrado no CNPq vinculado à Unesp em Marília, levantou estudos que investigaram a relação da exposição aos metais pesados com riscos de doenças cardiovasculares. A intenção é alertar a população que foi e que está sendo exposta aos metais pesados oriundos do rompimento da barragem em Brumadinho-MG. É importante destacar que moradores, trabalhadores, sobreviventes, bombeiros e equipe de imprensa que se deslocaram para a região de Brumadinho se encontram nessa condição.
A exposição aos metais pesados pode ocorrer de duas maneiras: 1) Ingestão por via oral; 2) Exposição por via respiratória, pela cavidade nasal.
Por via oral, os metais pesados chegam até a corrente sanguínea após passar pelo trato gastrointestinal. Quando a exposição é por via respiratória, os metais pesados entram na corrente sanguínea por meio do contato dos alvéolos com os vasos sanguíneos, de modo que os metais pesados são depositados no sangue.
Dentro da corrente sanguínea, os metais pesados causam aumento do estresse oxidativo e peroxidação lipídica em nível celular. Deste modo, a exposição aos metais pesados afeta negativamente importantes órgãos do corpo humano.
Um grupo de pesquisadores do Japão já havia evidenciado que a exposição aos metais pesados é responsável por respostas fisiopatológicas maléficas para a célula. Dentre esses efeitos, foram observados comprometimentos da musculatura lisa dos vasos sanguíneos, facilitando o desenvolvimento de doenças vasculares.
Outra pesquisa realizada nos Estados Unidos mostrou que os vasos sanguíneos são um alvo crítico da toxicidade da exposição ao metal pesado. Além disso, foi reforçado que as ações dos metais pesados sobre os vasos sanguíneos podem desempenhar funções importantes na mediação dos efeitos fisiopatológicos em diferentes órgãos, como rins, pulmões e fígado. Essa exposição compromete significativamente o funcionamento desses órgãos.
Em 2014, dados levantados pelo Houston Methodist Research Institute apontaram que existem evidências convincentes ligando a toxicidade do metal pesado à disfunção neuronal. Nesse sentido, o comprometimento dos neurônios influencia os reflexos cardiovasculares, colaborando para o desenvolvimento de doenças como hipertensão, arritmias e acidente vascular encefálico.
Por último, mais recentemente, pesquisadores da NC State University, também dos Estados Unidos, levantaram 36 estudos epidemiológicos e indicaram o impacto negativo da exposição aos metais pesados no desenvolvimento da síndrome metabólica, que abrange quadros como diabetes, dislipidemia, obesidade e hipertensão.
Em suma, as pesquisas levantadas indicam alto grau de risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares em indivíduos expostos aos metais pesados na região de Brumadinho e ao redor do Rio Paraopeba. Portanto, é muito importante que a saúde de pessoas nessas condições seja monitorada constantemente.
* Vitor Engrácia Valenti é coordenador do Centro de Estudos do Sistema Nervoso Autônomo, cujo foco é o estudo dos aspectos fisiológicos envolvidos com a regulação do ritmo cardíaco. E-mail: vitor.valenti@unesp.br

Do UNESP Notícias, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/04/2019

ÁFRICA : OS SETE MAIORES PAÍSES.

Os sete maiores países da África, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


população dos sete maiores países da África
[EcoDebate] Os sete maiores países da África, em termos demográficos, no ano de 2018, eram Nigéria (196 milhões de habitantes), Etiópia (108 milhões), Egito (99 milhões), República Democrática do Congo (84 milhões), Tanzânia (59 milhões), África do Sul (57 milhões) e Quênia (51 milhões).
Mas como mostra o gráfico acima, com dados da projeção média da Divisão de População da ONU, esta ordem vai mudar nos próximos 40 anos. A Nigéria continuará sendo o país mais populoso da África e será o terceiro mais populoso do mundo até 2045, quando terá 371 milhões de habitantes. A Etiópia, com 179 milhões em 2045, continuará sendo o segundo país africano em termos populacionais. A República Democrática do Congo alcançará o terceiro lugar (177 milhões) em 2045, ultrapassando o Egito que deverá ficar com 146 milhões (quarto lugar). A Tanzânia com 123 milhões ficará em quinto lugar. O Quênia, com 88 milhões de habitantes em 2045 ficará em sexto lugar e a África do Sul, com 71 milhões, cairá para o sétimo lugar. Em 2015, os 7 países, em conjunto, tinham uma população de 607 milhões e devem saltar para 1,16 bilhão de habitantes em 2045.
Em termos econômicos, segundo dados do FMI, em poder de paridade de compra (ppp), o país que tinha o maior Produto Interno Bruto (PIB) do continente, em 1980, era a África do Sul (US$ 135 bilhões). Em segundo lugar vinha o Egito (US$ 91 bilhões). O FMI não tem dados para a Nigéria na década de 1980 (mas provavelmente ela estava em terceiro lugar). A RD Congo vinha em quarto lugar com US$ 20 bilhões. O Quênia (com US$ 16 bilhões) estava em quinto, a Tanzânia com 11 bilhões estava em sexto e a Etiópia com US$ 10,7 bilhões estava em sétimo lugar. Em 1990 esta ordem não tinha mudado.
Mas em 2020, o FMI aponta o Egito em primeiro lugar, com PIB de US$ 1,5 trilhão, a Nigéria em segundo (US$ 1,3 trilhão) e a África do Sul, com US$ 857 bilhões em terceiro lugar. Em quarto lugar, com PIB de US$ 271 bilhões, aparece a Etiópia (que em 1980 estava em sétimo lugar). A Etiópia é, ao longo dos anos 2000, o país com maior crescimento econômico do continente africano e pode ultrapassar a África do Sul nos próximos 20 anos. Em quinto lugar a Tanzânia (US$ 209 bilhões), em sexto o Quênia com PIB de US$ 206 bilhões e em sétimo a RD do Congo com somente US$ 82 bilhões. No conjunto, os sete maiores países da África terão um PIB de US$ 4,4 trilhões em 2020 (equivalente ao PIB da Indonésia).
PIB dos sete maiores países da África
O país com a maior renda per capita é a África do Sul, que manteve um nível acima de US$ 10 mil durante quase todo o período entre 1980 e 2020, mas teve uma renda praticamente estagnada e deve ser ultrapassada pelo Egito em 2020, com renda pouco acima de US$ 12 mil (o Brasil deve ter uma renda per capita de US$ 15 mil em 2020). Em terceiro lugar vem a Nigéria, com renda entre US$ 6 mil e US$ 5 mil na última década (mas com viés de baixa). Em quarto e quinto lugares aparecem o Quênia (US$ 3,5 mil) e a Tanzânia (US$ 3,4 mil), em 2020. Em sexto lugar está a Etiópia com renda per capita de US$ 2,4 mil, em 2020 (embora seja o país que apresenta o maior crescimento da renda per capita). Por último, aparece a República Democrática do Congo com somente US$ 741 mil, em 2020.
Em geral, os países com maiores taxas de crescimento demográfico são os que apresentam menor crescimento da renda per capita, com exceção da África do Sul, que apresenta as menores taxas de crescimento, tanto da população, quanto da economia. O melhor desempenho nas duas últimas décadas é da Etiópia, que é chamada a “China da África”. A República Democrática do Congo tem o pior desempenho e é claramente um país preso na armadilha da extrema pobreza. Quênia e Tanzânia também são países presos à armadilha da pobreza e a Nigéria é o país com o maior número absoluto de pessoas em situação de pobreza e de extrema pobreza.
renda per capita dos sete maiores países da África
Dos sete maiores países da África, nota-se uma tendência de alto crescimento demográfico (com exceção da África do Sul) e de baixo crescimento econômico (com exceção da Etiópia nas duas últimas décadas). A população destes sete países vai, praticamente, dobrar até 2045, trazendo sérios desafios para a redução da pobreza e para a conservação do meio ambiente. A África do Sul e o Egito lutam para atingir o estágio de renda média, enquanto os demais países lutam para sair da pobreza e a República Democrática do Congo luta para abandonar a situação de extrema pobreza.
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/04/2019

DESSALINIZADOR SOLAR DE BAIXO CUSTO É ALTERNATIVA DE ÁGUA POTÁVEL NO SEMIÁRIDO.

Dessalinizador solar de baixo custo é alternativa de água potável no semiárido


Dessalinizador solar de baixo custo é alternativa de água potável no semiárido
Dessalinizador solar de baixo custo. Foto: EBC
Um dessalinizador solar de baixo custo de implantação e manutenção, com capacidade para produzir água potável sem uso de eletricidade e livre de produtos químicos, é alternativa para famílias do semiárido da Paraíba, que enfrentam longas estiagens e sofrem com escassez de água de boa qualidade.
O modelo já atendeu a cerca de 300 famílias e está disponível em um banco de tecnologias online para ser replicado em qualquer parte do país e ajudar a solucionar a falta de acesso à água potável.
Resultado da parceria da Cooperativa de Trabalho Múltiplo de Apoio às Organizações de Autopromoção e da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), o dessalinizador aproveita o potencial solar da região e atende a assentamentos de agricultores familiares desde 2015. O modelo foi reconhecido como tecnologia social pela Fundação Banco do Brasil (FBB), chegando a ser premiado pela entidade em 2017.
“A ideia [do dessalinizador] parte do princípio de que vivemos no semiárido. Os poços que a gente perfura, quase em sua totalidade, têm água salobra, água salgada, o que não serve para o consumo humano. Então, desenvolvemos junto com a UEPB essa tecnologia para exatamente fazer com que essa água salgada se tornasse uma água ideal para o consumo humano”, contou Jonas Marques de Araújo Neto, presidente da cooperativa.
“O primeiro impacto que o dessalinizador gerou foi maior solidariedade ainda entre eles [agricultores], porque um dessalinizador desse serve para quatro ou cinco famílias, não é uma questão individual. Dá uma média de 80 litros de água por dia, que é distribuída entre eles. Nós [da cooperativa] não temos o menor poder sobre isso, eles é que têm o verdadeiro poder e eles é quem dizem como vai ser dividida essa água”, disse, ao acrescentar que esse modelo fortalece a comunidade.
Além disso, ele destacou a importância do consumo de água potável para a saúde. “Você chega em um hospital público e pergunta: ‘depois dessa história do dessalinizador, quantas crianças apareceram aqui com dor de barriga, com subnutrição?’. Eles vão dizer para você, sem sombra de dúvida, que diminuiu muito”.
Outro benefício da implementação dessa tecnologia é que as pessoas conseguem manter seu modo de vida no semiárido, desenvolver as atividades e sustentar as famílias sem precisar migrar para conseguir oferta de água potável, nem recorrer a subempregos nos centros urbanos. “Isso faz com que as pessoas consigam ficar nas suas terras, consigam habitar o semiárido”.
O dessalinizador consiste em uma caixa construída com placas pré-moldadas de concreto e cobertura de vidro que deixa passar a radiação solar. Dessa forma, a construção possibilita o aumento da temperatura dentro da caixa e a evaporação da água armazenada em uma lona encerada, conhecida como lona de caminhão.
Tecnologias sociais
Responsável por um Banco de Tecnologias Sociais – uma base de dados com mais de 900 soluções para problemas sociais nascidas da sabedoria popular e do conhecimento científico – a fundação já beneficiou cerca de 130 mil pessoas no país, em 444 municípios, por meio de um total de 389 projetos, de acordo com relatório divulgado pela instituição na última semana. Os projetos tiveram investimento total de R$ 156,3 milhões.
Todas as tecnologias sociais do banco fazem referência aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Organização das Nações Unidas (ONU). As inscrições estão abertas para certificação de novas tecnologias sociais até o dia 21 deste mês, com a possibilidade de concorrerem a prêmios em dinheiro. Podem participar entidades sem fins lucrativos, do Brasil ou de outros países da América Latina ou do Caribe.
Por Camila Boehm, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 08/04/2019

PRODUÇÃO AGRÍCOLA BASEADA NO USO INDISCRIMINADO DE PESTICIDAS AFETA OS POLINIZADORES NATURAIS.

Produção agrícola baseada no uso indiscriminado de pesticidas afeta os polinizadores naturais


Uso indiscriminado de pesticidas afeta os polinizadores

Morte de meio bilhão de abelhas é consequência de agrotóxicos

Por Caroline Aragaki, da Rádio USP.
abelha
Abelha – Foto: Marcos Santos/USP
Em três meses, meio bilhão de abelhas foram encontradas mortas no Brasil. É o que aponta o levantamento da Agência Pública e Repórter Brasil. O professor Tiago Maurício Francoy, do curso de Licenciatura em Ciências da Natureza da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP e especialista em abelhas, explica por que isso está acontecendo e qual alerta temos que ter diante da estatística.
“O que acontece é que as abelhas precisam buscar néctar e pólen das flores e elas acabam visitando as plantações, e esse uso de agrotóxicos, que aqui no Brasil está se tornando cada vez mais intenso e prejudicial, acaba por levar à morte essas abelhas”, afirma Francoy.
O regimento de agrotóxicos no Brasil está indo em direção contrária ao que os países desenvolvidos estão fazendo. “Esses agrotóxicos estão banidos na Europa e nos Estados Unidos há muito tempo já. E aqui, no Brasil, estamos seguindo o caminho inverso e liberando cada vez mais agrotóxicos.”
O especialista pontua que a morte das abelhas provavelmente é maior do que apenas meio bilhão em três meses, “porque quem está fazendo essa conta de quantas abelhas morreram são os apicultores, é quem vai todo dia à colmeia e vê que a abelha morreu. Mas o que acontece é que nós temos ainda uma diversidade de abelhas nativas, tanto sociais quanto solitárias, que estão morrendo silenciosamente, sem ninguém se dar conta, por viverem em matas ou entornos.”
A importância das abelhas vai muito além da produção de mel, tendo o papel fundamental de polinização. “As abelhas no mundo são responsáveis pela polinização de 75% de todas as plantas com flores que nós temos disponíveis no planeta.”
O uso indiscriminado de agrotóxicos na produção agrícola gera um ciclo vicioso. “A gente usa o agrotóxico para tentar fazer com que menos pragas vão às plantações para devastar aquelas plantações, só que, junto com as pragas morrem também os insetos benéficos. E aí você diminui a produtividade, porque tira o polinizador. E aí você desmata mais o entorno, diminui a área onde a abelha pode morar, usa mais agrotóxico para tentar aumentar a plantação. Só que você diminui a população de polinizadores e diminui também a produção, e assim vai…”, explica o especialista.
Além da produção agrícola, as abelhas também são importantes para as áreas verdes, de preservação ambiental. “Em qualquer área de preservação, sem abelhas você tem uma queda brusca na reprodução dessas plantas, e isso leva a uma diminuição na produção de frutos, do tamanho da área verde… e aí entra numa cadeia destrutiva, porque a planta é alimento de herbívoro, herbívoro é alimento de carnívoro. Se você começa a diminuir um, você vai afetar a cadeia inteirinha.”
A EACH está desenvolvendo um trabalho de conscientização sobre abelhas nativas sem ferrão, chamadas de jataía, que são sociais e também produzem mel. “A vantagem é que, por não terem ferrão, você consegue criar essas abelhas no fundo de casa. Então, estamos começando agora uma série de cursos que nós vamos ministrar na USP Leste, justamente para ensinar a população em geral a criar essas abelhas. Obviamente nosso intuito é de preservação, mas também demonstrar à população a parte da importância e também deles poderem explorar numa espécie de agricultura familiar e tirar até uma renda do mel produzido dessas abelhas.”
Tocador de áudio

Da Rádio USP, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 08/04/2019

TELHADOS REFLEXIVOS PODEM REDUZIR O EFEITO DE ILHA DE CALOR URBANO E SALVAR VIDAS DURANTE AS ONDAS DE CALOR.

Telhados reflexivos podem reduzir o efeito de ilha de calor urbano e salvar vidas durante as ondas de calor


Um novo estudo de modelagem da Universidade de Oxford e colaboradores estimou como a mudança da refletividade dos telhados pode ajudar a manter as cidades mais frias durante as ondas de calor e reduzir as taxas de mortalidade classificadas pelo calor.
University of Oxford*
calor
Foto: EBC
As cidades são geralmente alguns graus mais quentes do que o campo, devido ao efeito de ilha de calor urbana. Este efeito é causado, em parte, pela falta de umidade e vegetação nas cidades, em comparação com as paisagens rurais, e porque os materiais de construção urbanos armazenam o calor. Durante as ondas de calor, as temperaturas diurnas podem ficar perigosamente altas nas cidades, levando a sérios efeitos à saúde e aumentando o risco de mortalidade.
A ideia dos telhados “frescos” é tornar as superfícies dos telhados mais refletivas à luz solar (por exemplo, pintando os telhados de uma cor mais clara), reduzindo assim as temperaturas locais.
Os cientistas usaram um modelo climático regional para analisar como as temperaturas mudaram na cidade de estudo de Birmingham e West Midlands, dependendo da extensão da implantação do telhado fresco. Eles observaram os verões quentes de 2003 e 2006, e descobriram que a intensidade da ilha de calor urbana (a diferença de temperatura entre a cidade e a zona rural) chegava a 9 ° C para a cidade de Birmingham.
Trabalhos anteriores mostraram que o calor extra associado à ilha de calor urbana é responsável por cerca de 40-50% da mortalidade relacionada ao calor nas West Midlands durante as ondas de calor.
Este último estudo, publicado na Environment International , sugere que a implementação de telhados frios em toda a cidade pode reduzir as temperaturas locais máximas durante o dia em até 3°C durante uma onda de calor. Essa redução na temperatura poderia compensar em torno de 25% da mortalidade relacionada ao calor associada à ilha de calor urbana durante uma onda de calor.
O efeito de ilha de calor urbano é mais pronunciado durante a noite, porque os materiais urbanos liberam lentamente seu calor armazenado durante a noite, no entanto, os maiores benefícios dos telhados frios foram vistos durante a parte mais quente do dia, onde a luz solar era refletida. O tipo de edifício também fez a diferença: modificar apenas metade de todos os edifícios industriais e comerciais teve o mesmo impacto na redução das temperaturas do que em modificar todos os edifícios residenciais de alta intensidade.
A co-autora Clare Heaviside, do Instituto de Mudança Ambiental da Universidade de Oxford, comenta: “A mudança climática e a crescente urbanização significam que as populações futuras têm maior risco de superaquecimento nas cidades, embora as intervenções em escala urbana e de construção tenham o potencial de reduzir esse risco.
“Estudos de modelagem como este podem ajudar a determinar os métodos mais eficazes para implementar a fim de reduzir os riscos à saúde em nossas cidades no futuro
Referência:
Potential benefits of cool roofs in reducing heat-related mortality during heatwaves in a European city
H.L.Macintyre, C.Heaviside
Environment International
Volume 127, June 2019, Pages 430-441
https://doi.org/10.1016/j.envint.2019.02.065

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 08/04/2019

A QUEDA DA FECUNDIDADE NOS ESTADOS UNIDOS.

A queda da fecundidade nos EUA, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


[EcoDebate] A taxa de fecundidade total (TFT) nos Estados Unidos (EUA) estava em torno de 7 filhos por mulher nas primeiras décadas depois da Independência do país (em 1776). Mas ela caiu ao longo do século XIX e chegou ao nível mais baixo da série histórica (em torno de 2 filhos por mulher) durante a grande depressão dos anos de 1930. Com o fim da Segunda Guerra e com o boom econômico que se seguiu a TFT chegou ao redor de 3,5 filhos por mulher entre 1950 e 1965.
Mas a TFT voltou a cair e chegou a 2 filhos por mulher no quinquênio 1970-75 e a 1,77 filho por mulher no quinquênio 1975-80 (menor nível em toda a história americana). Nos anos seguintes houve uma ligeira recuperação e a TFT ficou em torno de 2 filhos por mulher entre 1990 e 2010. Mas com a recessão de 2008/09, a TFT ficou em 1,88 filho por mulher, no quinquênio 2010-15. A Divisão de População da ONU estima que a TFT vai aumentar ligeiramente no restante do século, conforme mostra o gráfico abaixo, permanecendo em torno de 2 filhos por mulher.
taxa de fecundidade total nos EUAContudo, o futuro pode não repetir o passado e os EUA podem estar iniciando uma Era de baixa fecundidade. Dados do CDC (Centers for Disease Control and Prevention) mostram que a taxa de fecundidade geral (número de nascimentos por 1000 mulheres de 15-44 anos) dos EUA continua caindo mesmo em 2017 e 2018, que foram anos de grande desempenho econômico. A tabela abaixo mostra que a taxa de fecundidade geral caiu de 62,5 no primeiro quadrimestre de 2016 para 59,8 no segundo quadrimestre de 2018 (o nível mais baixo da história).
As taxas específicas, conforme o gráfico abaixo, mostram que a fecundidade continua caindo nas idades de 15 a 29 anos. Entre as adolescentes (15-19 anos) a taxa caiu de 21,8 no primeiro quadrimestre de 2016 para 18,1 no segundo quadrimestre de 2018. No mesmo período, entre as jovens de 20-24 anos a queda foi de 76,2 para 69,8 e entre as mulheres de 25-29 anos a redução foi de 103,7 para 96,7 nascimentos para cada 1000 mulheres.
No grupo 20-34 anos a queda foi bem menor, passando de 102,0 para 100,1 entre o primeiro quadrimestre de 2016 para o segundo quadrimestre de 2018. Isto quer dizer que a cúspide da fecundidade passou da coorte de 25-29 anos para 30-34 anos. Ou seja, está havendo um envelhecimento da estrutura por idade da fecundidade. Isto fica claro ao verificar que entre as idades de 35 a 44 anos também houve ligeiro aumento da taxa de fecundidade geral.
a queda da fecundidade nos EUA
O gráfico abaixo deixa mais claro o processo de envelhecimento da estrutura etária da fecundidade. Nota-se que no grupo adolescente (15-19 anos) a taxa específica de fecundidade estava acima de 50 por mil em 1990 e caiu para menos de 20 por mil em 2017. Os grupos etários acima de 30 anos apresentaram taxas crescentes, enquanto os grupos etários com menos de 30 anos apresentaram taxas declinantes. No início da década de 1990, as maiores taxas estavam nos grupos 20-24 e 25-29 anos, mas em 2017 a cúspide ficou no grupo 30-34 anos.
taxa geral de fecundidade, por idade da mãe, EUA
Estudos e pesquisas recentes mostram que a fecundidade nos EUA deve continuar diminuindo, pois cresce o número de pessoas que não desejam ter filhos. Artigo de Frejka (2017) mostra que o número de mulheres no final do período reprodutivo sem filho (childless) subiu de cerca de 7% no início da década de 1970 para cerca de 15% na primeira década do século XXI. Pesquisa do Instituto PEW mostra que 71% das pessoas com menos de 50 anos e com filhos nos EUA não querem ter novas crianças e, entre os adultos sem filhos, na mesma faixa etária, 37% dizem que não esperam jamais formar uma prole (serão childlessness).
Tudo indica que a projeção da ONU está superestimada e dificilmente a TFT ficará em torno de 2 filhos por mulher ao longo do século XX. O mais provável é uma fecundidade abaixo de 1,8 filho por mulher nas próximas décadas.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Referências:
Gretchen Livingston and Juliana Menasce Horowitz. Most parents – and many non-parents – don’t expect to have kids in the future, PEW, 02/12/2018
http://www.pewresearch.org/fact-tank/2018/12/12/most-parents-and-many-non-parents-dont-expect-to-have-kids-in-the-future/
Frejka, T. 2017. Childlessness in the United States. In: Kreyenfeld, M. and Konietzka, D. (eds.). Childlessness in Europe: Contexts, causes, and consequences. Cham: Springer International: p. 159-179. Doi: 10.1007/978-3-319- 44667-7_7.
https://www.researchgate.net/publication/311349695_Childlessness_in_the_United_States
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 08/04/2019