CRQ3 divulga orientações sobre higienização e sanitização de alimentos do Produtor ao Consumidor
Foto: EBC
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), como a Covid-19 é uma doença de aquisição por vias respiratórias e a transmissão se dá por contato entre pessoas, a probabilidade de se contrair o vírus de alimentos ou de embalagens de alimentos é improvável.
No entanto, por mínima que seja, existe a chance de alguém se infectar ao tocar uma superfície, objeto ou pessoa infectada e tocar posteriormente na própria boca, nariz ou olhos. Isso pode acontecer, por exemplo, ao tocar embalagens de alimentos e posteriormente tocar em rosto, boca ou olhos.
Assim, o Conselho Regional de Química, por meio da Câmara Técnica de Alimentos e Bebidas (CTAB), reuniu especialistas de empresas e universidades para elaborar esta cartilha, com orientações para consumidores, indústria e trabalhadores da área de alimentos, como pode ser observado a seguir.
Como higienizar embalagens de alimentos?
Embalagens de alimentos que permitam limpeza úmida devem ser lavadas com água e sabão ou detergente neutro. Devem ser secas posteriormente para o rápido armazenamento de produtos refrigerados e congelados (com papel toalha, por exemplo) ou deixar secar na temperatura ambiente para produtos não perecíveis.
Procedimentos para embalagens que não podem ser lavadas
Usar um pano com álcool 70% ou solução de hipoclorito de sódio a 0,5% de cloro ativo (um copo de água sanitária a ser misturado em 4 copos de água, preparada no próprio dia) e passar na superfície das embalagens e aguardar um minuto. A água sanitária deverá estar dentro da validade.
Se as embalagens forem reutilizadas para algum propósito, devem ser lavadas com água e sabão e secadas antes do uso.
Como sanitizar alimentos que são consumidos frescos e podem ter sido manipulados nas gôndolas?
Alimentos frescos, mesmo os que não são consumidos com casca, devem ser higienizados antes do consumo, seguindo as seguintes etapas:
Pré-lavagem em água corrente e sanitização, por 10 minutos de imersão, em solução de hipoclorito de sódio com 0,01% de cloro ativo (5 mL – ou uma colher de sopa – de água sanitária que seja indicada para uso em alimentos para cada litro de água);
Enxágue em água corrente.
Que cuidados tomar ao manipular alimentos no preparo de comida?
O primeiro cuidado é com a limpeza do local, como bancada, louças e até o lixo da pia, que pode ser fonte de contaminação. Além disso, deve-se evitar a contaminação cruzada de um alimento para outro higienizando bem as mãos e utensílios.
Os procedimentos de higiene pessoal devem ser reforçados.Além de medidas rigorosas que promovam higiene frequente e eficaz das mãos, o manipulador deverá sempre utilizar touca e vestimenta limpa antes de manipular os alimentos. Na produção comercial de alimentos, é aconselhável que o manipulador também use máscara, quando recomendado.
A limpeza das mãos deve sempre acontecer após: tossir; espirrar; coçar ou assoar o nariz; coçar os olhos; tocar na boca; preparar alimentos crus (como carne, vegetais e frutas); manusear aparelho celular, dinheiro, lixo, chaves, maçanetas (entre outros objetos); ir ao sanitário; e após algum intervalo de tempo no preparo da comida.
Banhos antes do início da manipulação dos alimentos, assim como o uso de equipamentos de proteção individual (EPI), como máscaras e luvas, podem ser eficazes em reduzir a propagação do vírus durante o preparo da comida.
Máscaras e luvas devem ser trocadas após 2 horas consecutivas de uso. Mas deve-se trocar a máscara imediatamente, caso fique úmida. O procedimento correto é retirar a luva e descartar, lavar as mãos e posteriormente retirar a máscara e descartar, se for de único uso. Caso seja de tecido, acondicionar em local protegido para posterior lavagem.
Para lavar a máscara de tecido, faça a imersão da máscara em recipiente com água sanitária 0,05 % (uma parte de água sanitária comercial, de 2 a 2,5%, para 50 partes de água) por 60 minutos. Após este processo, faça 2 enxágues em água corrente. Lave em seguida com solução de 5 mL de detergente líquido em 1 L de água, para depois enxaguar duas vezes em água corrente, sem torcer a máscara de proteção respiratória.
A secagem ao ar livre pode ser realizada, desde que as máscaras de proteção estejam acondicionadas em embalagens de tecido, que também tenham sido submetidas ao mesmo processo de lavagem e desinfecção que as máscaras, garantindo que elas não apresentem contato direto com o ar. A secagem deve ser realizado de preferência sob incidência direta de luz solar e em ambiente protegido de chuvas, resíduos e trânsito de pessoas, animais e outros.
Que possíveis agentes de sanitização podem ser utilizados e como usá-los:
No âmbito da indústria de alimentos
Somente utilizar saneantes registrados na Anvisa. Por exemplo: produtos à base de cloro (hipoclorito de sódio, dicloroisocianurato, dióxido de cloro), ácido peracético, quaternário de amônio, ozônio, iodóforos e biguanidas (clorexidina e cloridrato de polihexametileno biguanida). De acordo com as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS), desinfetantes comuns com ingredientes ativos à base de quaternário de amônio e cloro podem ser utilizados, pois já há comprovações científicas na inativação do vírus da Covid-19. Sempre seguir as orientações de uso recomendadas pelos fabricantes nos rótulos dos produtos.
No âmbito do consumo doméstico
Somente utilizar saneantes de venda livre e com registro na Anvisa. Por exemplo: cloro nas formas de solução a base de hipoclorito de sódio e em pó a base de dicloroisocianurato. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda o uso de saneantes à base de cloro para inativação do vírus da Covid-19.
Dados das capitais brasileiras mostram a relação entre Covid-19 e a desigualdade
Indicadores analisam o epicentro de disseminação, a taxa de mortalidade e a disponibilidade de leitos de UTI
Por Luanda Nera
Durante a pandemia do Covid-19, o Programa Cidades Sustentáveis apresenta uma série de dados e indicadores que ajudam a entender a relação entre as causas estruturantes da desigualdade e a doença.
Nos últimos meses, as capitais se tornaram o epicentro da disseminação do novo coronavírus no Brasil. 60% das mortes e casos de Covid-19 estão nas capitais, onde 22% dos brasileiros moram. A mortalidade nas capitais é quase 3x maior do que a média do país. Ao mesmo tempo, esses são locais de atração de muitas pessoas que buscam tratamento para a doença, principalmente nas regiões Norte e Nordeste.
Fortaleza, Recife e São Luís são as cidades que, nesta ordem, apresentam a maior taxa de incidência do novo coronavírus – ou seja, a relação entre o número de casos confirmados e o total da população. São dados que se tornam ainda mais preocupantes quando se observa que essas cidades também têm muitas pessoas morando em favelas e outros assentamentos precários.
Como muitos especialistas vêm alertando, a falta de emprego, renda e acesso a bens e serviços básicos e à infraestrutura urbana de qualidade aumentam substancialmente a vulnerabilidade dessas populações aos efeitos do novo coronavírus.
As capitais brasileiras que têm mais pessoas abaixo da linha da pobreza também apresentam uma elevada taxa de mortalidade por Covid-19. Em São Luís, Recife e Manaus, onde mais de 30% da população vive abaixo da linha da pobreza (conforme definição do Banco Mundial), foram registrados mais de 40 óbitos para cada 100 mil habitantes.
Mais de 52 milhões de pessoas (25% da população) vivem em situação de extrema pobreza. Nas capitais, são mais de 8,2 milhões de pessoas em vulnerabilidade (18% da população dessas cidades). As 16 capitais com o maior percentual de pessoas abaixo da linha da pobreza concentram 27% dos casos e 28% dos óbitos pela doença no Brasil.
Além disso, a capacidade de atendimento das UTIs também tem relação direta com a mortalidade nas capitais brasileiras. O acesso à infraestrutura dos sistemas de saúde e as grandes distâncias agravam a situação da população onde a oferta de leitos de UTI é menor.
As três capitais com menor oferta de leitos de UTI estão na Região Norte, onde também se concentra grande parte das comunidades tradicionais e indígenas do país.
Boa Vista, Rio Branco e Macapá são as três capitais com a pior relação de leitos de UTI por 100 mil habitantes. Boa Vista é a capital que registrou o maior aumento da mortalidade em apenas um mês: 1.975% entre os dias 27 de abril e 27 de maio. Belém (1.684%) e Porto Velho (1.200%) aparecem em seguida e em Rio Branco o crescimento do número de óbitos foi de 880%.
Emergência Climática – Modelos climáticos mais recentes mostram secas mais intensas no futuro
Por Alvin Stone*, University of New South Wales
Uma análise das novas projeções do modelo climático por pesquisadores australianos do Centro de Excelência em Extremos Climáticos da ARC mostra que o sudoeste da Austrália e partes do sul da Austrália verão secas mais longas e mais intensas devido à falta de chuva causada pelas mudanças climáticas.
Mas a Austrália não está sozinha. Em todo o mundo, várias regiões agrícolas e florestais importantes da Amazônia, Mediterrâneo e África meridional podem esperar secas mais freqüentes e intensas. Enquanto algumas regiões como a Europa central e a zona da floresta boreal são projetadas para ficarem mais úmidas e sofrerem menos secas, essas secas são projetadas para serem mais intensas quando ocorrem.
A pesquisa publicada na Geophysical Research Letters examinou a seca baseada em chuvas usando a última geração de modelos climáticos (conhecidos como CMIP6), que informará o próximo relatório de avaliação do IPCC sobre mudanças climáticas.
“Descobrimos que os novos modelos produziram os resultados mais robustos para as secas futuras até o momento e que o grau do aumento na duração e intensidade da seca estava diretamente relacionado à quantidade de gases de efeito estufa emitida na atmosfera”, disse a autora principal Dra. Anna Ukkola.
“Houve apenas pequenas mudanças nas áreas de seca em um cenário de emissões intermediárias em comparação a um caminho de altas emissões. No entanto, a mudança na magnitude da seca com um cenário de emissões mais altas foi mais acentuada, nos dizendo que a mitigação precoce dos gases de efeito estufa é importante. ”
Grande parte das pesquisas anteriores sobre secas futuras considerou apenas mudanças na precipitação média como métrica para determinar como as secas se alterariam com o aquecimento global. Isso geralmente produzia uma imagem altamente incerta.
Mas também sabemos que, com as mudanças climáticas, é provável que a precipitação se torne cada vez mais variável. Combinando métricas de variabilidade e precipitação média, o estudo aumentou a clareza sobre como as secas mudariam para algumas regiões.
Os pesquisadores descobriram que a duração das secas estava muito alinhada com as mudanças na precipitação média, mas a intensidade das secas estava muito mais ligada à combinação de precipitação média e variabilidade. Prevê-se que regiões com chuvas médias em declínio como o Mediterrâneo, a América Central e a Amazônia experimentem secas mais longas e mais frequentes. Enquanto isso, outras regiões, como as florestas boreais, deverão sofrer secas mais curtas, de acordo com o aumento da precipitação média.
No entanto, a situação é diferente apenas para a intensidade da seca, com a maioria das regiões projetadas para experimentar secas mais intensas devido à crescente variabilidade das chuvas. É importante ressaltar que os pesquisadores não conseguiram localizar nenhuma região que mostrasse uma redução na intensidade futura da seca. Mesmo regiões com aumentos de longo prazo nas chuvas, como a Europa Central, podem esperar secas mais intensas à medida que as chuvas se tornam mais variáveis.
“Prever mudanças futuras na seca é um dos maiores desafios da ciência climática, mas com esta última geração de modelos e a oportunidade de combinar diferentes métricas de seca de uma maneira mais significativa, podemos obter uma visão mais clara dos impactos futuros das mudanças climáticas” disse o Dr. Ukkola.
“No entanto, embora essas idéias se tornem mais claras a cada avanço, a mensagem que elas entregam permanece a mesma – quanto mais cedo agirmos na redução de nossas emissões, menor será o sofrimento econômico e social que enfrentaremos no futuro.”
Referência:
Ukkola, A. M., De Kauwe, M. G., Roderick, M. L., Abramowitz, G., & Pitman, A. J.. ( 2020). Robust future changes in meteorological drought in CMIP6 projections despite uncertainty in precipitation. Geophysical Research Letters, 47, e2020GL087820. https://doi.org/10.1029/2020GL087820
OMS decide continuar teste com cloroquina para o tratamento contra a COVID-19
Durante entrevista com jornalistas, nesta quarta-feira (3), o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, contou que a comissão examinadora não considera a taxa de mortalidade uma razão para suspender os testes da cloroquina. O que significa, portanto, que os testes com o medicamento hidroxicloroquina para tratar a COVID-19 vão continuar.
Ao todo, mais de 200 medicamentos estão sendo analisados para determinar a eficácia no tratamento do novo coronavírus.
Até o momento, já foram recrutados mais de 3,5 mil pacientes em 35 países para esses ensaios clínicos.
Campanha contra a COVID-19 na Venezuela. Casos estão aumentando na América Latina. Foto: Ocha/Gema Cortes
Durante entrevista com jornalistas, nesta quarta-feira (3), o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Ghebreyesus, contou que a comissão examinadora não considera a taxa de mortalidade uma razão para suspender os testes da cloroquina. O que significa, portanto, que os testes com o medicamento hidroxicloroquina para tratar a COVID-19 vão continuar.
Ao todo, mais de 200 medicamentos estão sendo analisados para determinar a eficácia no tratamento do novo coronavírus.
Até o momento, já foram recrutados mais de 3,5 mil pacientes em 35 países para esses ensaios clínicos.
A OMS havia decidido suspender a análise devido ao número de óbitos relacionados ao uso da cloroquina em pacientes da pandemia, mas repensou a medida. Os testes estão sendo coordenados pelo Grupo Executivo do Ensaio Solidariedade.
Ao se referir à atual pandemia da COVID-19, Tedros relatou que o mundo notificou mais de 100 mil casos nos últimos cinco dias. A região das Américas continua liderando o número de novas infecções enquanto na Europa, a quantidade de contaminações começa a baixar.
América do Sul e América Central Tedros disse que a situação é mais preocupante na América do Sul e na parte central do continente, onde o número de casos acelera.
Na terça-feira (2), a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) reforçou a necessidade urgente de manter as medidas de isolamento social para frear a doença.
A OMS também emitiu novas diretrizes sobre a COVID-19 em crianças, formas de vigilância e um protocolo para os agentes de saúde, que se contaminam com o vírus.
A organização também analisa aspectos éticos sobre o uso de tecnologia digital no rastreamento da COVID-19 e como eles interferem com o direito à privacidade e sigilo dos pacientes.
Cursos para 3 milhões Além disso, a organização está atualizando detalhes sobre o uso da telemedicina ou o atendimento online de pacientes.
Milhões de trabalhadores de saúde continuam sendo treinados em todo o mundo para empregar as recomendações. A plataforma da OMS sobre o tema já recebeu 3 milhões de matrículas para treinamentos sobre a COVID-19.
Ao todo, estão sendo oferecidos 12 cursos em 27 línguas.
Ebola O chefe da OMS também falou sobre uma outra crise de saúde, um ressurgimento do vírus ebola no noroeste da República Democrática do Congo, na África, que já matou quatro pessoas na província de Equatorial.
A agência enviou cerca de 50 pessoas da OMS e organizações parceiras para a região com doses da vacina contra o ebola e kits de testagem.
O Unicef também enviou mais de 30 trabalhadores para a área atingida. Uma das vítimas fatais nos oito casos detectados era uma adolescente.
Destinação de resíduos a lixões e aterros irregulares pode colaborar para a disseminação do Coronavírus, artigo de Paulo Moura
[EcoDebate] Em meio à luta contra a pandemia do novo Coronavírus, é de grande importância que se discuta também a questão ambiental, com foco especial na destinação final dos resíduos. Quando tratamos de assuntos como a presença de lixões e de aterros controlados, estamos falando também da facilitação da propagação do vírus e da dificuldade em se ter condições adequadas de higiene. Todo o cenário ambiental se reflete também na saúde.
Segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos 2018/2019 da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), o Brasil destinou a lixões ou aterros controlados 29,5 milhões de toneladas de resíduos, 40,5% do total produzido, em mais de 3 mil municípios. Os perigos dessa prática são inúmeros, como a poluição do ar e da água, emissão de gases do efeito estufa, atração de vetores e risco de incêndios.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos, de 2010, previu que todos os lixões do país deveriam ser extintos até 2014. Infelizmente, por conta da falta de prioridade no enfrentamento do problema, da ausência de financiamentos, de busca por soluções conjuntas com outros municípios e de parcerias público-privada, essa meta ainda está longe de ser realizada. No ano passado, a proposta de estender os prazos para a extinção dos lixões em todos os municípios do país entre 2021 e 2024 foi aprovada pela Câmara dos Deputados, mas ainda está em tramitação pelo Senado Federal.
A existência de lixões a céu aberto traz problemas ainda maiores em tempos de Coronavírus. Afinal, diversos catadores que tiram seu sustento destes locais podem se contaminar com o vírus, já que não há qualquer tipo de proteção. Populações que vivem em áreas próximas a lixões ou aterros irregulares são afetadas diretamente pelos lixões especialmente por conta dos fortes odores e da atração de vetores que podem causar doenças diversas. Em um momento em que muitas pessoas têm sofrido dificuldades para serem atendidas no Sistema Único de Saúde, esse pode ser um problema adicional. Além disso, o chorume vindo do lixo pode contaminar o solo e a água que é extremamente importante para a nossa higiene e proteção durante esse período. Soma-se a isso a falta de saneamento básico adequado e temos um cenário ainda mais complexo.
Ao invés de destinarmos os resíduos aos lixões, após esgotadas as possibilidades de reciclagem e tratamento, devemos direcioná-los aos aterros sanitários, locais regulamentados que possuem sistemas de drenagem do chorume e do gás metano (que pode ser reaproveitado) e que gera renda e empregos formais a trabalhadores. Nesse caso, os trabalhadores possuem todo o cuidado no tratamento dos resíduos, o que evitaria a propagação por parte do Coronavírus e outras doenças. Outro ponto de grande importância é a necessidade de ampliar a coleta seletiva em todos os municípios brasileiros e estimular a reciclagem e a logística reversa de materiais diversos. Com a realização desses processos, é possível reutilizar materiais como matéria-prima e evitar que sejam descartados incorretamente na natureza.
Os lixões fazem parte de um problema histórico de difícil resolução no Brasil por conta da falta de investimentos, de interesse por parte do poder público e das condições precárias em que muitos brasileiros vivem. Discutir a gestão e a destinação de resíduos sólidos em locais adequados traz benefícios para a qualidade de vida da população não apenas em relação ao meio ambiente, mas também à saúde, condições de moradia, saneamento básico, empregos e oportunidades.
*Paulo Moura é analista da Coordenação de Sustentabilidade da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) e membro do Comitê Técnico do Instituto Paranaense de Reciclagem (InPAR)
Não consegue ‘ver’ o aumento do nível do mar? Você está procurando no lugar errado
Alan Buis*, Laboratório de Propulsão a Jato da NASA
Recentemente, fiquei em um adorável apartamento de férias no extremo leste de Ocean Isle Beach, uma pequena cidade na costa sul da Carolina do Norte, não muito longe de Myrtle Beach, Carolina do Sul. Localizada em uma ilha barreira de 8 quilômetros de comprimento, a comunidade é separada do continente pela Hidrovia Intracostal do Atlântico e pelas savanas do pântano. É um agradável resort à beira-mar, com restaurantes, comodidades turísticas e fileiras e muitas fileiras de palafitas, muitas na praia. Meu quarto dava para pequenas dunas de areia e chegava ao cintilante Atlântico, que, na maré alta, diminuía e corria não muito mais longe do que a poucos passos de distância. Do meu ponto de vista, não havia pistas de que o mar aqui nem sempre fosse um vizinho amigável.
Um curto passeio pela praia rapidamente forneceu uma perspectiva totalmente diferente. A apenas algumas dezenas de metros, enormes sacos de areia estavam empilhados no alto, protegendo várias casas do mar. Enquanto eu caminhava, logo me vi diante de casas que estavam empoleiradas literalmente acima das ondas na maré alta.
O extremo leste de Ocean Isle Beach, Carolina do Norte, sofreu uma erosão costeira significativa ao longo dos anos, o que resultou na perda e na realocação de várias casas. Crédito: NASA / JPL-Caltech
O nível do mar na região costeira em torno de Ocean Isle Beach, Carolina do Norte, aumentou cerca de 7,6 centímetros (3 polegadas) desde o início dos anos 80. A elevação do nível do mar corroe as costas, tornando-as mais vulneráveis às inundações. Crédito: NASA / JPL-Caltech
Passei por uma mulher passeando com seu cachorro e perguntei sobre as casas. “Havia duas ruas de casas em frente a essas casas”, ela me disse. “Agora eles estão à beira-mar.”
Acontece que as casas no extremo leste de Ocean Isle Beach foram vítimas de erosão costeira, o que é comum na maioria das praias da Carolina do Norte e em todo o mundo. Uma praia em erosão pode perder vários metros de areia por ano. Obviamente, tempestades, incluindo furacões, podem resultar em rápida erosão das praias. Mas há também erosão crônica a longo prazo, causada por mudanças no fornecimento de areia para uma praia e no nível relativo do mar (quanto a altura do oceano sobe ou desce em relação à terra em um local específico). Registros mostram que o nível do mar nesta parte do litoral da Carolina do Norte aumentou cerca de 7,6 centímetros (3 polegadas) desde o início dos anos 80. De acordo com o Programa de Pesquisa sobre Mudanças Globais dos EUA, a erosão costeira resulta em perdas de propriedades costeiras dos EUA de cerca de meio bilhão de dólares por ano na forma de estruturas danificadas e terras perdidas .
O caso de Ocean Isle Beach ilustra um paradoxo chave sobre a elevação do nível do mar: como ocorre de forma relativamente lenta, pode ser fácil pensar que não está acontecendo. Mas como o oceanógrafo e cientista climático Josh Willis do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA em Pasadena, Califórnia, me disse, se você não está vendo, simplesmente não está olhando no lugar certo.
“Graças aos dados do satélite e da maré, sabemos que o nível do mar está subindo cerca de 3,3 milímetros (0,13 polegadas) por ano, uma taxa que cresce mais 1 milímetro por ano a cada década”, disse Willis. “A cada ano, o aquecimento global está adicionando atualmente 750 gigatoneladas de água ao oceano – o suficiente para cobrir meu estado natal no Texas, com cerca de 1 metro de profundidade. Não podemos realmente observar alguns milímetros do aumento do nível do mar por ano apenas olhando o oceano por causa das ondas, marés, etc. Mas podemos definitivamente ver os efeitos dele, tanto a curto quanto a longo prazo. ”
Este mapa ilustra os níveis de risco que a elevação do nível do mar representa ao longo da costa sudeste dos EUA, levando em consideração a suscetibilidade a medidas de mudança e adaptação. O Índice de Vulnerabilidade Costeira usado aqui é baseado na amplitude das marés, altura das ondas, declive costeiro, mudança de linha da costa, forma e processos da terra e taxa histórica de aumento relativo do nível do mar. Crédito: US Global Change Research Program (2014)
Avaliação nacional da vulnerabilidade costeira da elevação do nível do mar: costas do Atlântico, Pacífico e Golfo do México. Crédito: USGS
Willis disse que o aumento do nível do mar acelera e agrava a erosão costeira natural que ocorre continuamente em locais como Ocean Isle Beach. “O aumento do nível do mar literalmente desaparece no litoral, tornando-o mais vulnerável às inundações”, disse ele. “Enquanto as inundações acontecem naturalmente, é o aumento do nível do mar que as leva a começar gradualmente a superar barreiras naturais – como áreas úmidas, florestas de mangue e pântanos de água salgada – e até barreiras criadas pelo homem que normalmente protegem as áreas costeiras do mundo contra inundações. De repente, aquela inundação da qual você costumava se proteger agora está acabando com você.
É a mesma história em todo o mundo. Você pode não conseguir perceber o subir do nível do mar na praia local, mas seus efeitos estão sendo sentidos de várias maneiras. Willis diz que uma boa regra geral é que cada centímetro do aumento do nível do mar resulta na perda de cerca de 2,5 metros (100 polegadas) de praia, embora estudos recentes sugiram que as perdas de praia em todo o mundo possam ocorrer ainda mais rapidamente.
Atualmente, o nível do mar global não apenas aumenta cerca de 3,3 milímetros (0,13 polegadas) por ano, mas sua taxa de aumento também está se acelerando ao longo do tempo, em cerca de 1 milímetro (0,04 polegadas) por ano, aproximadamente a cada década. Crédito: NASA / JPL-Caltech. Dados de Church e White (2006).
Em muitos lugares, o aumento do nível do mar tornou as paredes do mar erguidas décadas atrás para lidar com as inundações de 100 anos inadequadas. Inundações que costumavam ocorrer uma vez por século agora estão acontecendo uma vez por década. Você também pode ver os impactos do aumento do nível do mar refletidos em danos graduais à infraestrutura, como as condições das estradas costeiras, como a Pacific Coast Highway, na Califórnia, que luta continuamente contra os efeitos da erosão costeira.
Outro fenômeno que muitas pessoas estão enfrentando com mais frequência, mas que podem não necessariamente achar que é o impacto do aumento do nível do mar, é a inundação da maré alta, também conhecida como inundação “incômoda” ou “dia ensolarado”. Esse tipo de inundação, geralmente de nível baixo, ocorre durante o ano todo durante as marés altas. Seus efeitos variam de inconvenientes ao público, como o fechamento de estradas, empresas e escolas, a danos à infraestrutura a longo prazo e a inundações provocadas por tempestades. O aumento do nível do mar relacionado ao clima é o principal contribuinte para as inundações da maré alta, assim como a perda de barreiras costeiras naturais. Outro colaborador é o afundamento de terras costeiras devido a ajustes relacionados ao final da última Era Glacial, tectônica, compactação de sedimentos e outros processos dinâmicos. Nos Estados Unidos, as inundações da maré alta são especialmente comuns ao longo das costas leste e do golfo. Nas últimas duas décadas, sua frequência aumentou aproximadamente 50%; 100% se você voltar três décadas.
Um exemplo de um paredão moderno em Ventnor, na Ilha de Wight, Inglaterra. Em muitos lugares do mundo, a elevação do nível do mar tornou as paredes do mar erguidas décadas atrás para lidar com as inundações de 100 anos inadequadas. Crédito: Domínio público
Fort Lauderdale, Flórida, corre o risco de subir o nível do mar e experimenta inundações na maré alta. Crédito: Dave / Flickr Creative Commons / CC BY 2.0
Maré alta costeira, ou inundação de rua “incômodo” em Norfolk, Virgínia. Crédito: D. Loftis / VIMS. CC BY-NC-ND 2.0
Norfolk, Virgínia, é um bom exemplo. Norfolk, lar da maior base naval do mundo, é um dos vários municípios da região de Hampton Roads, na Virgínia, com uma população de mais de 1,8 milhão de habitantes. No 20 th século, o nível do mar em relação a terra em Norfolk aumentou entre 4 e 5 milímetros (0,16 a 0,2 polegadas) por ano, em parte porque a terra nesta região está a afundar, uma vez que continua a adaptar-se à fusão do gelo Laurentide folha que a cobriu durante a última Era do Gelo. Nas últimas duas décadas, as inundações da maré alta aqui se aceleraram rapidamente e agora ocorrem cerca de 10 dias por ano, causando inundações no centro de Norfolk.
“Tivemos uma quantidade tão grande de aumento do nível do mar no século passado que agora estamos chegando a um ponto de inflexão”, disse Ben Hamlington, um cientista pesquisador do Grupo do Nível do Mar e Gelo do JPL. “Quando muitas comunidades costeiras como Norfolk foram estabelecidas, os desenvolvedores levaram em conta onde estavam as linhas históricas da maré alta e, em seguida, adicionaram uma lacuna de segurança para contabilizar as inundações. Mas as mudanças climáticas de longo prazo estão diminuindo a lacuna de segurança e um evento de tempestade que não são mais necessários para causar inundações significativas. A combinação de aumento do nível do mar a longo prazo e variações naturais no nível do mar causadas por ciclos climáticos como El Niño e a Oscilação Decadal do Pacífico (DOP) estão levando a um aumento dramático nos eventos de inundação na maré alta. Como resultado, as comunidades costeiras devem agora levar em consideração esses diferentes ciclos climáticos naturais em seu planejamento. ”
A maior parte de Norfolk, Virgínia, lar da maior base naval dos EUA, fica a menos de 5 metros acima do nível do mar. A cidade experimenta regularmente inundações na maré alta. Crédito: Tyler Folnsbee / US Navy
Willis diz que o aumento do nível do mar está fazendo com que algumas cidades do mundo enfrentem a melhor escolha: gaste enormes somas de dinheiro para combater o aumento do nível do mar, ou literalmente abandonar o navio e se afastar. No ano passado, a Indonésia anunciou planos de mudar sua capital para o interior de Jacarta, uma cidade de 10 milhões que está afundando e sendo desafiada pela elevação do nível do mar. Nas cidades de todo o mundo, as autoridades locais estão enfrentando suas próprias batalhas. Mesmo áreas metropolitanas relativamente ricas, como o sul da Califórnia, não são imunes. Mas muitos lugares, como Bangladesh, partes do sudeste da Ásia e pequenos estados insulares, simplesmente não têm os recursos.
Vista panorâmica de Jacarta, na Indonésia, a partir do Monas National Monument. A capital, com 10 milhões de habitantes, está afundando e desafiada pelo aumento do nível do mar. Crédito: BxHxTxCx / CC BY-SA
Willis diz que a Califórnia e a costa oeste dos EUA foram poupadas dos piores efeitos do aumento do nível do mar nos últimos 20 anos. Mas isso pode estar prestes a mudar.
“Nos últimos 15 a 20 anos, observamos as águas quentes do Oceano Pacífico se afastarem da costa oeste devido a uma mudança na DOP, um padrão de flutuação oceânica de longo prazo semelhante ao El Niño / La Niña ciclos, mas que opera em uma escala muito maior, aumentando e diminuindo a cada 20 a 30 anos ”, disse ele. “Isso serviu para neutralizar os efeitos do aumento global do nível do mar, de modo que, ao longo da costa do Pacífico dos EUA, quase não vimos aumento do nível do mar nesse período. Mas esses dias acabaram. Desde o principal El Niño de 2015-16, a DOP mudou e a Costa Oeste provavelmente verá um aumento do nível do mar acima da média nos próximos 20 anos. Já estamos começando a ver isso. A Califórnia, em particular, precisa se preparar. Pudemos ver aumentos de até 1 centímetro (0,4 polegadas) por ano, mais de três vezes a taxa global. ”
As comunidades costeiras ao longo da costa oeste dos EUA, como Laguna Beach, Califórnia, provavelmente verão um aumento do nível do mar acima da média nos próximos 20 anos. Crédito: Patrick Pelster / CC BY-SA 3.0 DE
Essa taxa de aumento do nível do mar equivaleria a mais de 20 centímetros (8 polegadas) nas próximas duas décadas. Para colocar isso em perspectiva, ao longo do século passado , o nível do mar ao longo da costa da Califórnia subiu cerca de 23 centímetros (9 polegadas). Isso representará grandes desafios para muitas partes do Golden State, de San Francisco e San Diego Bays, aos portos de Long Beach e Los Angeles e às cidades do litoral de Orange County, para citar alguns. “Pensamos na Califórnia como tendo muitas falésias”, diz Willis. “Sim, mas há muitas áreas baixas onde o aumento do nível do mar causará problemas”.
Quer você queira ou não, a elevação do nível do mar é um problema global.
* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
Nota da redação: Sobre o mesmo tema sugerimos que leia, também: