sábado, 25 de abril de 2026
quarta-feira, 22 de abril de 2026
Alguém tem dúvida dos conflitos pela água?

Recorte de mapa com a projeção do estresse hídrico para várias partes do mundo para o ano de 2050, onde observa-se a localização do Oriente Médio com potencial de severo estresse hídrico. Fonte: United Nations world water development report 4: managing water under uncertainty and risk. Paris: Unesco, 2012. p. 391. v. 2. Acesso: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000215644
“A importância da água como fonte de vida, riqueza e poder faz, portanto, com que ela seja fonte de conflito”
Artigo de Heraldo Campos*
“As águas atmosféricas, que iniciaram o ciclo hidrológico, formaram-se a partir do resfriamento e do escape de gases das rochas há mais de 3,5 bilhões de anos. Para formar essa atmosfera também um grande número de cometas, compostos essencialmente por água congelada, foi sendo capturado pela órbita da Terra num passado remoto. Deste modo o caminho das águas na crosta terrestre é bastante complexo. Por causa da energia solar, uma molécula de água, por um número infinitamente grande de estímulos, pode ser evaporada do oceano e a ele retornar precipitada pelas chuvas. Pode, também, cair sobre os continentes infiltrando-se solo abaixo, ser absorvida pelas plantas ou retornar indiretamente aos mares pelos rios e ribeirões.
Em outras palavras, a água que bebemos todos os dias é a mesma água que beberam os dinossauros há 200 milhões de anos atrás e Moisés, Jesus e Maomé nos últimos 2 mil anos. Aliás, é nas regiões de origem destes três senhores, no Oriente Médio, que o controle, a distribuição e a utilização do petróleo e da água são historicamente um motivo de tensões e de conflitos. Ali se mata há séculos pelo domínio dos dois recursos que são tratados nitidamente como mercadoria de guerra. A Terra já teve que aguentar inúmeras guerras entre os povos e passou por vários efeitos estufa ao longo de sua história geológica. Nestes efeitos estufa do passado, basicamente, a água foi alterada em seu estado físico e hoje, comprovadamente, nós seres humanos é que estamos aumentando a temperatura do planeta com o lançamento de gases à atmosfera e acelerando esse efeito.” [1]
“A importância da água como fonte de vida, riqueza e poder faz, portanto, com que ela seja fonte de conflito. Em Israel, na Cisjordânia e em Gaza, o desequilíbrio no uso da água é constante motivo de ressentimento para os palestinos. Entre as questões de fundo da Guerra dos Seis Dias (1967), estava a preocupação do governo israelense com um projeto jordaniano de desviar o curso do Rio Jordão. Israel foi em parte fundado com base na irrigação e exploração agrícola do deserto; a água é questão, e questão particularmente delicada, de segurança nacional. Ao assumir o controle da Cisjordânia em 1967, o país ganhou acesso não apenas ao rio, mas também às fontes subterrâneas da região.” [2]
Na projeção do estresse hídrico para várias partes do mundo para o ano de 2050, de acordo com estudo da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) de 2012 [3], observa-se a localização do Oriente Médio com potencial de severo estresse hídrico.
Na guerra atual no Oriente Médio, deflagrada pelos Estados Unidos e Israel, parece que além do petróleo, como um dos alvos econômicos do conflito, a água pode também estar sendo um dos panos de fundo na ocupação e na disputa dos territórios. Alguém tem dúvida?
Fontes
[1] “Matando pela água” artigo de Heraldo Campos de 08/04/2007 publicado pelo Jornal Gazeta de Ribeirão e que faz parte do e-book “Por onde a água passa – coletânea de artigos” que pode ser acessado, gratuitamente, pelo Sistema de Bibliotecas da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), nesta direção a seguir, escrevendo Heraldo Campos no campo Pesquisar: https://acervus.unicamp.br/Resultado/Listar?guid=1730017507822
[2] “Oriente Médio: disputas pela água”. Smith, Dan. O atlas do Oriente Médio: o mapeamento completo de todos os conflitos. São Paulo: Publifolha, 2008. p.132 e 133. In: Adas, M. & Adas, S. Expedições Geográficas. 2ª edição. São Paulo, Editora Moderna Ltda., 2015. 288 p.
[3] United Nations world water development report 4: managing water under uncertainty and risk. Paris: Unesco, 2012. p. 391. v. 2
https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000215644
*Heraldo Campos é geólogo (Instituto de Geociências e Ciências Exatas da UNESP, 1976), mestre em Geologia Geral e de Aplicação e doutor em Ciências (Instituto de Geociências da USP, 1987 e 1993) e pós-doutor em hidrogeologia (Universidad Politécnica de Cataluña e Escola de Engenharia de São Carlos da USP, 2000 e 2010).
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
quinta-feira, 16 de abril de 2026
Angra 3 é desnecessária e devia ser cancelada .

Não existe nenhuma indicação técnica ou econômica que aponte a Angra 3 como necessária e imprescindível ao país para garantir a segurança energética
Artigo de Heitor Scalambrini Costa* e Zoraide Vilasboas**
“Não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos”
Immanuel Kant (Filosofo alemão, fundador da “Filosofia Critica”)
O consumo de eletricidade cresce em ritmo acelerado no mundo inteiro. Segundo a Agência Internacional de Energia, a demanda elétrica avança duas vezes mais rápido do que o consumo total de energia, impulsionada por carros elétricos, data centers, refrigeração e digitalização de serviços.
No Brasil, o consumo total de energia elétrica foi 531.872 GigaWatts-hora (GWh), em 2023; 561.600 (GWh), em 2024 e 562.659 (GWh), em 2025. O crescimento vem da oferta, principalmente de energias renováveis, que, por sua vez, apresentam dificuldades crescentes e desafios urgentes em relação aos impactos técnicos e socioambientais causados por políticas públicas insustentáveis.
Na matriz elétrica o país se sobressai em relação a outros países pela grande participação das fontes renováveis de energia, que em 2024 correspondeu a 88,2% do total da matriz. Segundo dados oficiais a geração hidráulica atendeu 56,1% da energia elétrica consumida em 2024, enquanto as demais fontes energéticas 43,9%. A contribuição da energia nuclear foi pouco mais de 2%, e caso Angra 3 fosse concluída até 2033, chegaria próximo a 3,5%. O que é ainda um quantitativo irrisório para bravatear a conquista da independência energética do país com Angra 3.
Estas informações importam diante das últimas declarações de setores lobistas que defendem a insanidade de terminar a construção de Angra 3, cujo início das obras ocorreu em 1981. A pressão exercida sobre o governo federal é grande principalmente pelos representantes dos interesses econômicos e geopolíticos envolvidos com a nuclearização do país, com Angra 3, com a expansão da mineração de urânio e de novas usinas atômicas.
Vale mencionar inicialmente a declaração do presidente da Aben (Associação Brasileira de Energia Nuclear, Carlos Henrique Silva Seixas) que considera “inacreditável” que ainda não se decidiu pela construção de Angra 3. Considera que caso a obra não seja concluída, o país terá um grande desperdício de R$21 bilhões de reais que já foram gastos, “jogando no lixo 11.000 equipamentos já comprados”. Afirma que R$23 bilhões seriam os recursos necessários para finalizar a obra. E como bom brasileiro, patriota, demonstrou sua indignação em relação aos gastos anuais com a usina inacabada, da ordem de R$1 bilhão, sendo 800 milhões para pagar empréstimos contraídos com a Caixa Econômica Federal e com o BNDES. E outros 200 milhões gastos com o armazenamento, vigilância e manutenção dos equipamentos já adquiridos, desde o final dos anos 80 do século passado.
Ao citar estes valores, ele omite que o custo da energia elétrica nuclear é bem mais caro (segundo BNDES, R$ 778,86/MegaWattshora – R$ 817,27/MWh) que o das fontes renováveis, 4 a 6 vezes maior, o que levaria o repasse do custo extra nas tarifas, afetando todos: consumidores, cidadãos e a economia nacional. O presidente da Aben nada falou sobre a possibilidade de readequar/reaproveitar os equipamentos, para outros usos, mais nobres que o lixo. Também de redirecionar o pessoal, cuja excelente formação técnica e científica, facilitaria a adaptação e o envolvimento com outras atividades do setor energético.
Por sua vez a Eletronuclear, subsidiária da Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional (ENBPar) operadora das usinas nucleares de Angra 1 e 2, e responsável por Angra 3, enfrenta uma situação financeira crítica no início de 2026, como declarou o diretor-presidente interino Alexandre Caporal, pressionando o governo sobre o estado atual do “colapso operacional e financeiro” da estatal, com um caixa insuficiente para honrar seus compromissos financeiros e risco de falência. Chegou a comparar a estatal à situação de insolvência dos Correios.
No atual contexto, a situação de Angra 3 chegou a um momento crítico de descrédito e inoperância administrativa que somente uma decisão responsável e corajosa decretaria a interrupção deste sumidouro do dinheiro público, que se tornou esta obra. Não se pode mais “empurrar com a barriga” a decisão sobre Angra 3.
Não existe nenhum indício, ou indicação técnica-econômica que aponte a nucleoeletricidade como necessária e imprescindível ao país para garantir a segurança energética, a sustentabilidade da matriz elétrica diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas, e atingir a modicidade tarifária. Ao contrário, é uma fonte energética “suja”, cara e perigosa.
“Em memória do prof. Célio Bermann: gratidão e lembranças”
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Heitor Scalambrini Costa * Professor associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco, graduado em Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), mestrado em Ciências e Tecnologias Nucleares na Universidade Federal de Pernambuco (DEN/UFPE) e doutorado em Energética, na Universidade de Marselha/Aix – Centro de Estudos de Cadarache/Comissariado de Energia Atômica (CEA)-França.
** Zoraide Vilasboas – Ativista socioambiental, integrante da Articulação Antinuclear Brasileira.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394