quinta-feira, 23 de julho de 2026
sábado, 18 de julho de 2026
sexta-feira, 17 de julho de 2026
Custo ambiental da inteligência artificial: pegada de carbono, água e terra .
O rápido crescimento da IA impulsiona um enorme consumo de energia, água e terra, aumentando os desafios ambientais e de equidade em toda a sua infraestrutura global
► Relatório UNU-INWEH: Aczel, M., Chamanara, S., Matin, M., Farsi, A., Marwala, T., Madani, K. (2026). Environmental Cost of AI’s Energy Use: Carbon, Water and Land Footprints. United Nations University Institute for Water, Environment and Health (UNU-INWEH), Richmond Hill, Ontario, Canada. doi: 10.53328/INR26RMA002
O relatório Environmental Cost of AI’s Energy Use: Carbon, Water and Land Footprints (Custo Ambiental da Inteligência Artificial: Pegadas de Carbono, Água e Terra, do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde) da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH), em seu 30º aniversário, examina uma das consequências menos exploradas da rápida expansão da IA: as pegadas ambientais da energia necessária para alimentá-la.
À medida que a inteligência artificial se incorpora às economias, aos serviços públicos, à pesquisa, à comunicação e à vida cotidiana, ela depende de uma infraestrutura física crescente de centros de dados, chips avançados, sistemas de refrigeração, redes elétricas, recursos hídricos, terras e cadeias de suprimento de minerais críticos. O relatório mostra que a IA não é apenas uma tecnologia digital, mas também um sistema material com custos ambientais mensuráveis.
O relatório vai além de uma perspectiva focada apenas no carbono, quantificando as pegadas de carbono, água e terra associadas à eletricidade usada para treinar, implantar e operar sistemas de IA em larga escala. Sua principal conclusão é que os custos ambientais da IA dependem não apenas da quantidade de eletricidade consumida, mas também de onde essa eletricidade é gerada e quais fontes de energia a alimentam.
Cada quilowatt-hora usado pela IA acarreta implicações de carbono, água e terra, e essas pegadas nem sempre se movem na mesma direção: eletricidade com baixo teor de carbono não significa automaticamente baixo consumo de água ou de terra. O relatório também mostra que a pegada da IA é moldada tanto por grandes tendências de infraestrutura, incluindo o rápido crescimento de data centers, quanto por padrões de uso cotidianos, como a escolha do modelo, o tamanho da saída, a modalidade e o uso crescente de geração de texto, imagem e vídeo.
É importante destacar que o relatório enquadra a pegada ambiental da IA como um desafio de governança e justiça, e não apenas como um problema técnico. Os benefícios da IA frequentemente transcendem fronteiras e setores, enquanto os impactos ambientais decorrentes da localização de data centers, da demanda por eletricidade, da captação de água, do uso da terra, da extração mineral e do lixo eletrônico podem se concentrar em comunidades e regiões específicas.
Para lidar com esses riscos, o relatório defende um ecossistema de IA responsável, fundamentado na transparência, na eficiência desde a concepção, na equidade e justiça ambiental, na responsabilidade pelo ciclo de vida, na cooperação global e no uso sustentável.
Ao tornar visíveis e comparáveis as pegadas de carbono, água e terra da IA, o relatório fornece uma base prática para a integração da IA no planejamento energético, climático, hídrico e de uso da terra, garantindo que a inovação avance sem transferir os custos ambientais para as comunidades vulneráveis.
Fonte: United Nations University
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
É urgente resfriar nossas cidades .

Entre ilhas de calor, ar-condicionado e energia solar, o planejamento urbano virou questão de sobrevivência
Enquanto especialistas já falam em “desastre térmico” para 2026, repensar como resfriamos as cidades brasileiras deixou de ser luxo e virou prioridade.
Morando no Rio de Janeiro, há mais de 30 anos, percebo claramente que a cidade está cada vez mais quente. Não é o calor de praia, aquele que a gente escolhe enfrentar de sunga e protetor solar. É o calor que sobe do asfalto às seis da tarde, que não dá trégua nem depois que o sol se põe, que faz o ventilador girar a noite inteira sem realmente resfriar nada.
Se você mora em uma metrópole brasileira, provavelmente sabe exatamente do que estou falando e, nos últimos anos, esse calor tem chegado mais cedo, ficado mais tempo e batido mais recordes.
Não é impressão. O Brasil viveu dez ondas de calor em 2024, oito em 2023 e sete em 2025, mesmo sem a ajuda do El Niño. E agora, com a possível formação de um “Super El Niño” na segunda metade de 2026, meteorologistas já falam abertamente em recordes de temperatura pela frente. Virou comum ouvir especialistas descreverem o fenômeno como um “desastre térmico”: um tipo de tragédia que não aparece em imagens de enchente ou deslizamento, mas que se instala silenciosamente nos hospitais, nas casas superaquecidas e na rotina de quem trabalha na rua.
E é justamente nas cidades que esse problema fica mais evidente. Foi pensando nisso, revisitando um rascunho de ideias que eu vinha anotando sobre o tema e as matérias que já publicamos, que resolvi organizar essas reflexões neste texto.
É claro que não tenho a pretensão de esgotar o assunto e nem esse é o objetivo. Mas acho que podemos refletir juntos.
O que são as ilhas de calor e porque elas pioram tudo
Se você já sentiu que o seu bairro parece “mais quente” do que o parque ou a praia mais próxima? Chamamos isso de ilha de calor, o fenômeno pelo qual áreas com muito concreto, asfalto e pouca vegetação retêm e irradiam calor de forma muito mais intensa do que regiões mais verdes ao redor. Bairros com trânsito intenso, prédios colados uns nos outros e quase nenhuma árvore acabam registrando temperaturas visivelmente mais altas do que zonas rurais ou parques próximos.
O problema é que as grandes cidades brasileiras ainda carregam fragilidades enormes nesse campo. Falta arborização, faltam estratégias estruturadas de resfriamento urbano, e sobra concreto.
Um levantamento recente mostrou que a maioria dos municípios brasileiros ainda não tem sequer um plano de ação formal para lidar com o calor extremo e isso apesar de o risco recair, de forma desproporcional, sobre idosos, pessoas com doenças crônicas e moradores de regiões mais vulneráveis, como aponta a Fiocruz.
Resfriamento passivo
Antes de pensarmos em qualquer solução tecnológica, existe algo mais simples e mais barato, que costuma ficar em segundo plano no debate público: o resfriamento passivo. Isso significa investir em arborização urbana de verdade, em telhados e fachadas mais claras (que refletem calor em vez de absorvê-lo), em corredores de ventilação entre os prédios, em mais áreas permeáveis e menos asfalto.
É um tipo de solução que não aparece em nenhuma inauguração vistosa, mas que muda a temperatura de um bairro inteiro em poucos graus, o que pode ser suficiente para reduzir internações, mortes prematuras e o sofrimento silencioso de quem não tem para onde fugir do calor.
O planejamento urbano brasileiro precisa tratar isso como infraestrutura essencial, no mesmo patamar de saneamento ou transporte, e não como um projeto paisagístico opcional.
O ar-condicionado, alívio que também é armadilha
Só que o resfriamento passivo, sozinho, não dá conta de tudo, especialmente em dias de onda de calor extrema, quando a temperatura simplesmente não cede nem à noite. É aí que entra o resfriamento ativo, e o ar-condicionado se torna, para muita gente, a única forma de sobreviver ao verão com dignidade.
O problema é que essa solução carrega um efeito colateral perigoso. Quanto mais calor, mais gente liga o ar-condicionado, e mais pressão isso coloca sobre um sistema elétrico que já opera no limite em horários de pico.
O resultado é uma equação desconfortável com mais consumo de energia, mais sobrecarga na geração e na distribuição, e contas de luz mais caras justamente para quem menos pode pagar por elas.
A desigualdade é uma questão central e precisamos focar também na justiça energética. A “pobreza de resfriamento” nos lembra, de forma irrefutável, que a luta contra as mudanças climáticas é, no fundo, uma luta por justiça social. O clima não aquece de forma igualitária. Ele aquece os que já têm menos proteção, já vivem nas margens, já carregam o peso de um sistema que historicamente ignorou suas necessidades.
Energia solar urbana
É exatamente aqui que a energia solar urbana deixa de ser só uma boa ideia de sustentabilidade e passa a ser uma resposta estrutural ao problema. O Brasil já ultrapassou a marca de 46 gigawatts de capacidade solar instalada, e a maior parte dela, mais de 37 GW, vem justamente da geração distribuída dos telhados solares residenciais e comerciais espalhados por milhões de imóveis pelo país.
Cada telhado com painéis solares é, na prática, uma pequena usina que ajuda a aliviar a rede exatamente quando ela mais precisa: nos dias quentes, quando o sol que aquece a cidade também está gerando energia para resfriá-la. É um ciclo elegante, quase poético, o mesmo sol que castiga também pode aliviar, desde que a gente saiba aproveitá-lo.
Claro, o cenário não é isento de desafios. O aumento na cobrança do chamado “Fio B” (que remunera a distribuidora pelo uso da rede) e a alta de impostos de importação sobre painéis e equipamentos têm encarecido novos projetos em 2026.
Outro desafio é o “curtailment”. Segundo Heitor Scalambrini Costa, a expansão descontrolada de parques renováveis sem infraestrutura de transmissão adequada gera paradoxo: Brasil tem energia, mas não consegue aproveitá-la.
O curtailment é a redução intencional da geração de energia, especialmente em usinas de fontes renováveis como eólica e solar, quando a produção excede a capacidade de consumo ou transmissão do sistema.
Ainda assim, mesmo com vários ajustes necessários, especialistas do setor continuam considerando a energia solar residencial vantajosa a médio prazo, com retorno do investimento entre três e sete anos, dependendo da região e do porte do sistema.
Baterias e armazenamento: a peça que ainda falta
Se os telhados solares resolvem parte do problema, ainda falta uma peça importante: o que fazer com toda essa energia depois que o sol se põe, justamente no fim da tarde, quando o calor acumulado no dia ainda pede ar-condicionado e a rede elétrica entra no seu horário de pico.
É aí que entram as usinas de armazenamento em baterias, os chamados sistemas BESS. Elas guardam o excedente de energia solar gerado durante o dia para usá-lo (ou despachá-lo para a rede) justamente nos momentos de maior demanda, funcionando como um amortecedor para todo o sistema elétrico.
O mercado brasileiro de armazenamento cresceu 140% em instalações residenciais e comerciais só entre 2024 e 2025, e o país já se prepara para o primeiro grande leilão de reserva de capacidade dedicado a baterias, com potencial de reduzir o uso de termelétricas mais caras e poluentes justamente nos picos de consumo causados pelo calor.
Ainda é uma tecnologia em fase de amadurecimento no Brasil, com custos e questões regulatórias por resolver. Mas a direção é clara de que as cidades resilientes ao calor extremo vão precisar de painéis solares nos telhados e de baterias guardando essa energia para os momentos certos, sob pena de repetirmos, verão após verão, o mesmo ciclo de apagões, contas mais caras e sistemas no limite.
O calor não vai esperar o planejamento ficar pronto
Volto àquela caminhada no fim de tarde com a qual comecei este texto. Toda vez que sinto o calor subindo do chão, penso em quantas escolhas de décadas passadas; a árvore que não foi plantada, o rio que virou avenida, o prédio que tapou a ventilação de um quarteirão inteiro, se acumulam naquele instante de desconforto. E penso também que ainda dá tempo de escolher diferente.
Resfriar as cidades brasileiras diante de ondas de calor cada vez mais frequentes não vai depender de uma única solução mágica. Vai exigir arborização e resfriamento passivo, pensados como política pública séria, uso inteligente e acessível do ar-condicionado, e um investimento inteligente em energia solar urbana e armazenamento em baterias, capazes de sustentar essa demanda sem sobrecarregar o sistema, nem pesar ainda mais no bolso de quem já sente o calor com mais intensidade.
O verão que vem e os que virão depois dele não vão esperar.
Henrique Cortez, jornalista e ambientalista,
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
