Geo - Conceição
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terça-feira, 16 de junho de 2026
Não existe plano B e a Terra é única casa que temos .
Enquanto multibilionários deliram com rotas de fuga para o espaço, os ecossistemas que sustentam toda a vida na Terra estão sendo destruídos em tempo real. E não há resgate chegando.

Foto: Mídia Ninja/PSOL
A ideia de colonizar Marte como plano B para o colapso ambiental é uma fantasia perigosa. O nosso único futuro ainda é e sempre será aqui na Terra.
Por Henrique Cortez*
Deixa eu te fazer uma pergunta simples, dessas que a gente evita fazer em voz alta porque a resposta incomoda demais: para onde você acha que vai quando a Terra não puder mais nos sustentar?
Marte? A Lua? Uma estação espacial flutuando no vácuo?
Se essa ideia passou pela sua cabeça ou se você já viu alguém defender isso com seriedade preciso que a gente tenha uma conversa honesta. Porque tem uma narrativa perigosa, embalada em otimismo tecnológico e financiada por fortunas inimagináveis, que merece ser desmontada com calma, mas sem rodeios.
O espaço não é um plano B. É só espaço.
O espaço é vácuo. Radiação. Temperaturas que variam de -270 °C a +120 °C dependendo de onde você está e se tem sol ou não. Não tem ar. Não tem água. Não tem solo. Não tem absolutamente nada do que qualquer forma de vida conhecida precisa para existir.
A Lua, nossa vizinha mais próxima, a apenas 384 mil quilômetros de distância, não tem atmosfera, não tem campo magnético para proteger da radiação solar e tem uma temperatura superficial que pode chegar a +127 °C durante o dia e -173 °C à noite.
Marte, o grande sonho dos bilionários do momento, é um deserto gelado com uma atmosfera tão fina que equivale a menos de 1% da pressão que temos aqui em baixo. É composta principalmente de dióxido de carbono. O solo marciano está saturado de percloratos, compostos tóxicos que destruiriam células humanas. A radiação cósmica chega à superfície sem filtro. Tempestades de poeira duram meses e cobrem o planeta inteiro.
Não existe um único ecossistema funcionando em nenhum desses lugares. Não existe um único organismo vivo confirmado. Não existe água líquida acessível. Não existe nada que nos receba.
E alguém quer ir para lá fugindo de um planeta que ainda tem florestas, rios, oceanos e ar respirável. Não é apenas um delírio, mas a mais absoluta insanidade.
A lógica ilógica
Pense bem na lógica que está embutida na ideia de “colonizar Marte como alternativa ao colapso da Terra”.
Primeiro, ela pressupõe que haverá transporte. Que foguetes , que hoje ainda explodem com regularidade nos testes, vão escalar a ponto de transportar populações inteiras para outro planeta. Só em 2025, três voos da Starship terminaram em explosão. Três. E cada missão bem-sucedida a Marte leva cerca de sete meses de viagem em microgravidade, com exposição à radiação que compromete ossos, músculos e sistema imunológico.
Segundo, ela pressupõe que haverá infraestrutura lá. Que alguém terá construído, antes da chegada dos refugiados planetários, estruturas capazes de gerar ar, água, alimento e calor suficientes para sustentar vida humana em larga escala. Em Marte. Com os recursos disponíveis em Marte, que são basicamente areia tóxica e CO₂.
Terceiro e aqui está o ponto mais honesto de todos, ela pressupõe que você estará nessa lista. Você, eu, as oito bilhões de pessoas que vivem no planeta hoje. Os quilombolas do Pará. Os pescadores do Nordeste. Os agricultores familiares do Sul. Os povos indígenas da Amazônia.
Não vão.
Se alguma coisa dessa fantasia bilionária se materializasse, seria uma saída para um grupo minúsculo e ultraseleto. Uma colônia de elite num bunker vermelho a 225 milhões de quilômetros de distância, enquanto o resto da humanidade ficaria aqui tentando sobreviver num planeta degradado.
O filme “Não Olhe Para Cima” (Don’t Look Up, 2021), por enquanto de ficção, ilustra muito bem como funcionaria uma ‘evacuação’ dos ricos e poderosos.
Riqueza não existe num planeta morto
Tem uma contradição no coração de toda essa conversa que raramente é colocada de forma direta: de nada adianta ter bilhões de dólares se não há um planeta funcionando para sustentar a cadeia produtiva que gera esses bilhões.
Riqueza é uma abstração social. Ela existe enquanto existem pessoas, trabalho, recursos naturais, alimentos, infraestrutura. Um planeta com ecossistemas em colapso não produz safras. Não produz água potável. Não produz o oxigênio que você respira. Não produz nada que possa ser convertido em moeda ou ativo financeiro.
A riqueza dos mais ricos do mundo depende, em última instância, da mesma biosfera que os mais pobres dependem. A diferença é que os ricos têm mais tempo, mais acesso a soluções paliativas, como bunkers, filtros de ar, água engarrafada, propriedades em altitudes seguras. Mas é um adiamento, não uma solução.
Num planeta morto, nenhuma conta bancária tem valor. Nenhuma ação na bolsa tem valor. Nenhuma propriedade tem valor. É o colapso do único sistema que importa, o ecológico.
Onde estamos de verdade?
Aqui é importante ser preciso para não cair no alarmismo vazio, que paralisa tanto quanto a negação.
Ainda não chegamos ao ponto de colapso. Ainda não ultrapassamos todos os pontos de não retorno. Ainda existem florestas. Ainda existem rios. Ainda existem ecossistemas funcionando. E isso importa porque significa que ainda há margem para agir.
Mas estamos nos aproximando de limiares críticos com uma velocidade que os dados mais recentes tornam cada vez mais difícil de ignorar. A perda de biodiversidade deixou de ser um fenômeno localizado para se tornar um processo sistêmico. Anfíbios, os animais mais sensíveis às alterações ambientais, uma espécie de termômetro da saúde dos ecossistemas, estão apresentando quedas populacionais rápidas e contínuas em todo o mundo. Aquíferos estão sendo esgotados. O solo agrícola está sendo degradado. A temperatura média do planeta segue subindo.
O cientista Carlos Nobre, um dos maiores especialistas mundiais no clima da Amazônia, tem repetido que o planeta está “quase em colapso”. Não é catastrofismo. É leitura de dados.
E enquanto isso, a conversa pública em muitos espaços ainda gira em torno de se as mudanças climáticas são reais. Estamos, coletivamente, perdendo um tempo que não temos.
O delírio que custa muito caro
Não é inocente a narrativa de que existe um plano B espacial. Ela tem consequências reais.
Ela desloca atenção e recursos. Cada bilhão investido em foguetes que explodem poderia financiar reflorestamento, transição energética, pesquisa em regeneração de solos, proteção de aquíferos, desenvolvimento de tecnologias de adaptação para populações vulneráveis.
Ela cria uma ilusão de saída que desobriga. Se existe uma solução tecnológica mágica no horizonte, seja colonizar Marte, seja alguma geoengenharia mirabolante, fica psicologicamente mais fácil não mudar o presente. É o mesmo mecanismo cognitivo que leva pessoas a não fazer checkups médicos porque “a medicina vai avançar”. Só que aqui as apostas são a biosfera inteira.
E ela concentra poder e narrativa. Quando o debate sobre o futuro da humanidade é travado nos termos propostos por um punhado de multibilionários, cujo interesse imediato não é necessariamente alinhar com o do restante dos oito bilhões de nós, alguma coisa no processo democrático de decidir coletivamente esse futuro está profundamente quebrada.
O que precisamos não é de foguetes
Precisamos de algo muito mais difícil e muito menos cinematográfico do que colonizar outro planeta.
Precisamos de decisões políticas que efetivamente limitem a destruição dos ecossistemas. De sistemas econômicos que não dependam do consumo infinito de recursos finitos. De distribuição mais justa dos recursos existentes, o que reduziria a pressão sobre os mais vulneráveis e sobre a própria natureza. De ciência aplicada à regeneração de florestas, de solos, de populações de espécies ameaçadas. De cidades que funcionem de forma mais integrada com os ciclos naturais ao redor delas.
Isso não é poesia. É engenharia. É política. É economia. É o tipo de trabalho que não rende manchete de capa com foguete em chamas ao fundo, mas que é o único que efetivamente muda alguma coisa.
O nosso futuro continua aqui. Não como resignação, mas como o reconhecimento mais lúcido que a gente pode ter: este é o único planeta com as condições para nos sustentar, e ele ainda tem condições de seguir fazendo isso se a gente parar, agora, de fazer o que estamos fazendo.
Não existe evacuação planejada. Não existe frota de resgate vindo. Não existe Planeta B.
Existe este aqui, ainda vivo, ainda possível. E existe o que a gente decide fazer com ele.
* Henrique Cortez, jornalista e ambientalista. Editor do EcoDebate.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
Poluição dos oceanos começa nos rios e efluentes .
Antes de chegar ao mar, a poluição percorre cidades, indústrias e sistemas de saneamento que nem sempre conseguem tratar corretamente a água descartada
Por Stefani Quaresma
O Dia Mundial dos Oceanos, celebrado em 8 de junho, costuma chamar atenção para imagens de praias sujas, ilhas de plástico e animais marinhos afetados por resíduos. No entanto, parte importante desse problema começa longe da faixa de areia.
A poluição que chega ao mar percorre um caminho anterior, formado por rios, córregos, redes de drenagem, estações de tratamento e efluentes lançados de forma inadequada.
Essa conexão é essencial para entender por que a proteção dos oceanos depende também da qualidade da água tratada em áreas urbanas, rurais e industriais. Quando resíduos domésticos, químicos, orgânicos ou industriais chegam aos rios sem tratamento adequado, eles seguem o fluxo natural das bacias hidrográficas até alcançar represas, estuários e zonas costeiras.
O resultado aparece em diferentes formas: aumento da carga orgânica, proliferação de algas, redução do oxigênio na água, contaminação por metais, presença de microplásticos e degradação de habitats marinhos. Por isso, discutir oceanos também exige falar sobre saneamento, controle de efluentes e tecnologias usadas para tornar a água mais segura antes do descarte ou do reúso.
O papel do tratamento de água no controle da poluição
O tratamento de água e efluentes é uma das etapas mais importantes para reduzir a pressão sobre rios e mares. Em sistemas bem estruturados, a água passa por processos físicos, químicos e biológicos capazes de remover partículas, matéria orgânica, microrganismos e substâncias que poderiam comprometer o ambiente.
No caso do abastecimento público, o tratamento busca tornar a água própria para consumo, seguindo padrões de potabilidade definidos pelas autoridades sanitárias. Já no tratamento de efluentes, o objetivo é reduzir a carga poluidora antes que a água retorne ao meio ambiente ou seja reaproveitada em atividades industriais, agrícolas ou operacionais.
Nesse contexto, produtos químicos coagulantes têm papel relevante. Eles ajudam a agrupar partículas muito pequenas que ficariam dispersas na água, facilitando sua remoção nas etapas seguintes, como decantação e filtração. Essa etapa é decisiva para melhorar a turbidez, reduzir impurezas e aumentar a eficiência do processo.
É nesse ponto que pode ser citado o policloreto de alumínio 10, utilizado em determinados sistemas de tratamento como agente coagulante. Sua aplicação deve ocorrer com controle técnico, dosagem adequada e acompanhamento de parâmetros como pH, turbidez, alcalinidade e características do efluente. O uso correto contribui para a remoção de sólidos suspensos e para a melhoria da qualidade da água tratada.
Efluentes industriais exigem controle rigoroso
A indústria tem participação importante nesse debate porque diversos segmentos geram efluentes com características específicas. Alimentos, bebidas, papel e celulose, mineração, química, têxtil, metalurgia e construção civil podem produzir águas residuais com alta carga orgânica, cor, óleos, graxas, sedimentos ou compostos químicos.
Quando esses efluentes não passam por tratamento adequado, o impacto ambiental pode ser expressivo. Rios contaminados perdem capacidade de autodepuração, a biodiversidade aquática é prejudicada e comunidades que dependem da água para pesca, lazer ou abastecimento ficam mais vulneráveis.
Por isso, o controle começa dentro das empresas. É necessário mapear os pontos de geração de efluentes, monitorar a qualidade da água descartada, manter estações de tratamento em funcionamento adequado e cumprir as normas ambientais aplicáveis. A adoção de tecnologias mais eficientes não deve ser vista apenas como obrigação regulatória, mas como parte da responsabilidade ambiental do negócio.
A prevenção começa antes do descarte
Reduzir a poluição dos oceanos exige uma abordagem preventiva. Isso significa evitar que resíduos cheguem aos rios, ampliar a coleta e o tratamento de esgoto, fiscalizar descartes irregulares, melhorar a gestão de resíduos sólidos e incentivar o reúso de água sempre que tecnicamente viável.
O tratamento não corrige todos os danos quando a contaminação já se espalhou pelo ambiente. Por isso, a prevenção é mais eficiente e menos custosa do que a recuperação de rios degradados ou ecossistemas marinhos afetados.
Também é importante considerar que a qualidade da água depende de decisões integradas. Poder público, empresas, produtores rurais e população têm responsabilidades diferentes, mas complementares. A destinação correta de resíduos, a manutenção de redes de esgoto, o controle de produtos químicos e a escolha de insumos adequados para tratamento fazem parte da mesma cadeia de proteção.
Proteger os oceanos é cuidar da água desde a origem
O Dia Mundial dos Oceanos reforça que o mar não começa apenas na praia. Ele recebe o reflexo do que acontece nas cidades, nas indústrias, nos rios e nos sistemas de saneamento. Cada efluente tratado corretamente representa menos carga poluidora seguindo em direção aos ecossistemas aquáticos.
Ao incluir o tratamento de água no centro dessa discussão, a data ganha um sentido mais amplo e prático. Cuidar dos oceanos passa por melhorar a infraestrutura de saneamento, modernizar processos industriais, adotar insumos adequados e ampliar o compromisso com a qualidade da água em todas as etapas do seu ciclo.
A proteção marinha, portanto, começa antes da chegada ao litoral. Ela começa na forma como a água é captada, usada, tratada e devolvida ao ambiente.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394