sábado, 25 de novembro de 2023

RETROCESSOS NA ARGENTINA : EMPOBRECIMENTO DE UM PAÍS QUE JÁ FOI RICO .

Retrocessos na Argentina: empobrecimento de um país que já foi rico, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Nos últimos 12 anos a Argentina se empobreceu não só em termos relativos, mas também em termos absolutos.

“As ditaduras fomentam a opressão, as ditaduras fomentam o servilismo, as ditaduras fomentam
a crueldade; mas o mais abominável é que elas fomentam a idiotia”
Jorge Luis Borges (1899-1986)

 

A Argentina estava entre os países mais ricos do mundo no início do século XX. Os argentinos tinham uma renda per capita, em 1900, equivalente à renda da Alemanha, Canadá e França e acima da renda da Itália, Espanha, Japão e bem superior à renda da maioria dos países. Só perdiam para países como EUA, Reino Unido e Suíça. Em relação ao Brasil, a Argentina tinha uma renda mais de 6 vezes maior e mais de 2 vezes em relação à renda per capita global.

Nos últimos 120 anos, a renda per capita da Argentina cresceu em termos absolutos, mas diminuiu em termos relativos. O gráfico abaixo, do “Maddison Project Database 2020”, mostra que a Argentina era mais rica do que alguns países selecionados, como o Brasil, o Japão, a Espanha e a Suécia, no início do século XX. Porém, foi superada pela Suécia na década de 1920, pelo Japão na década de 1960, pela Espanha na década de 1970 e se manteve à frente do Brasil, mas com uma diferença cada vez menor no poder de compra entre os dois grandes países da América do Sul.

renda per capita da Argentina

 

O gráfico abaixo, com dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra que a economia argentina representava 1,3% do PIB global em 1980, caiu para 0,73% em 2023 e deve ficar em 0,69% em 2028. No mesmo período, a Malásia (que tem uma população menor) passou de 0,35% em 1980, para 0,71% em 2023 e deve ficar em 0,75% em 2028. Ou seja, em cinco décadas, a economia da Argentina encolheu como percentagem do PIB global, enquanto a economia da Malásia se ampliou e ultrapassou o PIB da Argentina.

231018b percentagem do pib argentina e malásia

 

baixo crescimento econômico da Argentina é um fenômeno secular, embora o país ainda apresente um Índice de Desenvolvimento Humano bastante elevado para o padrão latino-americano, de 0,842. Mas se o crescimento da renda já estava ruim no século XX, piorou na última década, pois a renda per capita da Argentina em 2022 foi menor do que a renda per capita de 2011, segundo dados do FMI, conforme mostra o gráfico abaixo. Ou seja, nos últimos 12 anos a Argentina se empobreceu não só em termos relativos, mas também em termos absolutos. E o pior é que 2023 e 2024 deverão ser anos de recessão econômica e de empobrecimento médio da população.

231018c renda per capita argentina

 

Paralelamente ao declínio da renda per capita há um aumento da pobreza. A Pesquisa Permanente de Domicílios (EPH), do Indec, divulgada no dia 28 de agosto de 2023, indicou que a pobreza na Argentina ultrapassou a barreira dos 40% e já afeta quase 18,5 milhões de pessoas em todo o país, o que implica um salto de quase um ponto em relação à medição do final de 2022 (39,2%) e de 3,6 pontos em relação à mesmo período do ano passado. Aumentou também o nível da indigência – os mais pobres entre os pobres – que atingiu 9,3% da população, contra 8,1% em dezembro do ano passado.

Nesta conjuntura de estagnação, retrocessos e falta de perspectivas econômicas, não é de se estranhar que haja um grande descrédito dos políticos e falta de legitimidade da democracia, que deve completar 40 anos em dezembro de 2023. Há um crescente descontentamento com os dois maiores partidos políticos da Argentina, que são o Partido Justicialista (PJ), partido peronista e a União Cívica Radical (UCR), partido social-democrata fundado em 1891.

Nas primárias (Paso), realizadas no dia 13 de agosto de 2023, a grande surpresa foi o candidato do Libertad Avanza, Javier Milei, que obteve cerca de 30% dos votos. Na chapa Juntos por el Cambio, Patrícia Bullrich foi a pré-candidata mais votada (17%), superando seu adversário, Horacio Rodríguez Larreta (11,2%). No lado do Unión por la Patria, o vencedor foi Sergio Massa (21%) que fez a diferença sobre Juan Grabois (5,7%).

A vitória da ultradireita nas primárias da Argentina, simbolizada pelo resultado do candidato autodenominado anarcocapitalista, Javier Milei, indica que a atual oposição pode conquistar maioria no Congresso nas eleições de outubro, sendo que o peronismo teve a sua pior votação em 40 anos, desde o início da redemocratização. Os eleitores sem esperança dizem que o presidente Macri foi ruim e o presidente Alberto foi pior. Por isto, estão dispostos a dar uma chance à opção Milei.

Como sucede em países com retrocessos econômicos e sociais, o fracasso dos partidos tradicionais em debelar a crise econômica e apresentar perspectivas de melhorias no futuro, somado à corrupção estatal generalizada, favorece a ascensão de lideranças populistas contra as elites políticas e econômicas e contra a normalidade democrática.

Evidentemente, uma possível vitória de Javier Milei nas eleições presidenciais representará um “terremoto político” na América Latina, indo na contramão das políticas internacionais do atual governo brasileiro. Mas ainda é cedo para avaliar os resultados e a extensão das consequências eleitorais da democracia argentina. Em outubro haverá o primeiro turno e em novembro o segundo turno das eleições presidenciais. O futuro da Argentina está nas mãos do voto popular.

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. A população da Argentina em 2100, Ecodebate, 15/02/2013
http://www.ecodebate.com.br/2013/02/15/a-populacao-da-argentina-em-2100-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. A Ásia emergente e a América Latina submergente, Ecodebate, 06/09/2023
https://www.ecodebate.com.br/2023/09/06/a-asia-emergente-e-a-america-latina-submergente/

 

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in EcoDebate, ISSN 2446-9394

OS 12 PAÍSES COM MAIOR QUANTIDADE DE IDOSOS NO SÉCULO XXI .

Os 12 países com maior quantidade de idosos no século XXI, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A principal característica demográfica do mundo atual é o envelhecimento populacional.

A população total do mundo chegou a 1 bilhão de habitantes em 1804, a 2 bilhões em 2027, a 3 bilhões de habitantes em 1960, alcançando 8 bilhões de habitantes em 15 de novembro de 2022. O crescimento da população idosa não só acompanhou este aumento absoluto, como também aumentou em termos relativos.

Desta forma, nunca houve tantas pessoas idosas no mundo, pois a população global de idosos chegou a 1 bilhão de indivíduos com 60 anos e mais de idade em 2018 (representando 13% da população total), deve atingir 2 bilhões em 2047 (21% do total) e pode saltar para 3,1 bilhões de idosos em 2100 (30% do total), conforme mostra o gráfico abaixo, que apresenta, na linha vermelha mais cheia, a projeção média (a mais provável) dos cenários populacionais da Divisão de População da ONU.

população global acima de 60 anos

O mundo apresentou 1,1 bilhão de idosos em 2022 e os 12 países com maior quantidade de pessoas de 60 anos ou mais de idade são, por ordem decrescente: China (264,7 milhões), Índia (148,7 milhões), EUA (79,3 milhões), Japão (44,4 milhões), Rússia (32,9 milhões), Brasil em 6º lugar com 31,5 milhões, Indonésia (29,9 milhões), Paquistão (15,9 milhões), Bangladesh (15,8 milhões), México (15,5 milhões), Nigéria (10,4 milhões) e Etiópia (6,1 milhões de idosos), segundo as novas estimativas da ONU (revisão 2022).

Mas como a dinâmica demográfica é diferenciada nos diversos países a quantidade de idosos e ordem nacional devem se modificar ao longo do século XXI. Em 2050, a quantidade global de idosos deve alcançar 2,1 bilhões de pessoas com 60 anos e mais de idade e não haverá alteração na ordem dos 3 primeiros lugares: China (509,4 milhões), Índia (347,6 milhões) e EUA (111,1 milhões). A Indonésia (com 64,9 milhões) pula para o 4º lugar. O Brasil fica em 5º lugar em 2050 com 66,5 milhões de idosos. O Japão (45,3 milhões) cai para o 6º lugar e a Rússia (43,4 milhões) cai para o 7º lugar. Bangladesh (43,4 milhões) sobe para 8º lugar e em seguida aparecem Paquistão (36,6 milhões), México (35,9 milhões), Nigéria (25,1 milhões) e Etiópia (18,7 milhões).

Em 2100, a quantidade global de idosos deve chegar a 3,1 bilhões de pessoas com 60 anos e mais de idade. A Índia, com 552 milhões de idosos, passa a ocupar a liderança, superando a China com 361,6 milhões de idosos. Os EUA manterão o 3º lugar com 143,2 milhões. O Paquistão (112,6 milhões) ficará em 4º lugar, a Nigéria (96,7 milhões) em 5º, a Indonésia (93,9 milhões) em 6º lugar e a Etiópia dará um pulo para o 7º lugar com 78,3 milhões. O Brasil deve ficar no 8º lugar com 73,3 milhões de idosos. Em seguida aparecem Bangladesh (68,1 milhões), México (47,9 milhões), Rússia (37,8 milhões) e, por último, o Japão com 32,9 milhões de idosos no final do século.

países com maior quantidade de idosos

Os gráficos abaixo mostram a evolução da população de 60 anos e mais de idade, entre 1950 e 2100, para os mesmos 12 países. Nota-se que em algumas nações a população idosa, assim com a população total, atinge um pico e depois decresce até 2100. A China deve atingir um número máximo de 518 milhões de idosos em 2054, decrescendo para 361,6 milhões em 2100. O Japão deve atingir o máximo de 47,3 milhões de idosos em 2038, diminuindo para 32,9 milhões em 2100.

A Rússia deve chegar a 43,8 milhões de idosos em 2052 e decrescer para 37,8 milhões em 2100. O Brasil deve atingir um montante máximo de 78,9 milhões de idosos em 2072, reduzindo para 73,3 milhões em 2100. O México atingirá o pico em 2081 com 50,2 milhões de idosos, caindo para 47,9 milhões em 2100 e Bangladesh terá o pico de 69,8 milhões em 2089, caindo para 68,1 milhões de idosos em 2100. Os demais países vão ter um crescimento contínuo da população idosa no restante do século.

países com maior quantidade de idosos

 

aumento da proporção de idosos no mundo e nos países é uma tendência inexorável do século XXI. Em 1960 o mundo tinha 3 bilhões de habitantes e 236 milhões de idosos (representando 7,8% do total populacional). No ano 2100 o mundo terá 10,3 bilhões de habitantes e 3,1 bilhões de idosos (representando 30% do total). No final do atual século, entre os 12 países considerados, a Nigéria terá a menor proporção de idosos, com 17,7%. O Brasil terá 40% da população idosa e o Japão será o país mais envelhecido com 44,6% da população com 60 anos e mais de idade.

O envelhecimento populacional ocorre em função da queda da taxa de natalidade e do aumento da longevidade e, neste sentido, representa uma conquista da humanidade. Em 2100, a expectativa de vida ao nascer deve chegar a 82 anos no mundo, a 88 anos no Brasil e a 94 anos no Japão.

As pessoas terão uma vida mais longa e terão mais tempo para realizar os seus sonhos e contribuir com a sociedade. O grande desafio das próximas 8 décadas é transformar este “tsunami grisalho” em um envelhecimento saudável e ativo, para que todas as gerações possam prosperar e ter uma vida melhor e com maior bem-estar humano e ambiental.

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referência:
ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século XXI (com a colaboração de GALIZA, F), ENS, maio de 2022
https://ens.edu.br:81/arquivos/Livro%20Demografia%20e%20Economia_digital_2.pdf

 

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in EcoDebate, ISSN 2446-9394

DERRETIMENTO DA ANTÁRTIDA OCIDENTAL É INEVITÁVEL .

Derretimento da Antártida Ocidental é inevitável, diz estudo

Um novo estudo da British Antarctic Survey (BAS) afirma que o derretimento da camada de gelo da Antártida Ocidental não pode ser evitado neste século, mesmo que as emissões de gases de efeito estufa sejam reduzidas drasticamente.

 

Resumo:

  • O artigo discute um estudo que prevê o aumento do derretimento da camada de gelo da Antártida Ocidental no século 21, independentemente do cenário de emissões de carbono.
  • O estudo usou simulações de computador para projetar o futuro da camada de gelo, que contém gelo suficiente para elevar o nível do mar em até cinco metros.
  • O estudo mostra que o derretimento aumentará três vezes mais rápido do que no século 20, devido ao aquecimento do Mar de Amundsen, que afeta as plataformas de gelo flutuantes que estabilizam as geleiras do interior.
  • O estudo alerta para as consequências graves do derretimento da camada de gelo para as comunidades costeiras em todo o mundo e defende a adaptação às mudanças e a continuação dos esforços para limitar o aquecimento global e proteger a Antártida.

 

O estudo, publicado na revista Nature Climate Change, usou simulações de computador para projetar o futuro da camada de gelo, que contém gelo suficiente para elevar o nível do mar em até cinco metros.

Os resultados mostraram que o derretimento aumentará três vezes mais rápido do que no século 20, independentemente do cenário de emissões. Os cientistas alertam que isso terá consequências graves para as comunidades costeiras em todo o mundo e que é preciso se adaptar às mudanças. Eles também defendem a continuação dos esforços para limitar o aquecimento global e proteger a Antártida.

A equipe simulou quatro cenários futuros do século 21, além de um cenário histórico do thséculo 20. Os cenários futuros estabilizaram o aumento da temperatura global nas metas estabelecidas pelo Acordo de Paris, 1,5oC e 2oC, ou seguiram cenários padrão para emissões médias e altas de carbono.

Todos os cenários resultaram em um aquecimento futuro significativo e generalizado do Mar de Amundsen e aumento do derretimento de suas plataformas de gelo. Os três cenários de menor alcance seguiram caminhos quase idênticos ao longo do século 21. Mesmo no melhor cenário, o aquecimento do Mar de Amundsen acelerou por cerca de um fator de três, e o derretimento das plataformas de gelo flutuantes que estabilizam as geleiras do interior seguiram, embora tenha começado a se achatar até o final do século.

O pior cenário teve mais derretimento da plataforma de gelo do que os outros, mas somente depois de 2045. Os autores aceão que este cenário de alto combustível fóssil, onde as emissões aumentam rapidamente, é considerado improvável de ocorrer.

Este estudo apresenta projeções futuras preocupantes do derretimento da plataforma de gelo do Mar Amundsen, mas não prejudica a importância da mitigação na limitação dos impactos das mudanças climáticas.

Antártida Ocidental - Temperatura do oceano nos cinco cenários principais.
Temperatura do oceano nos cinco cenários principais.
A temperatura é média sobre a plataforma continental e a faixa de profundidade de 200 a 700 m, e uma média de corrida de 2 anos é aplicada. Para cada cenário, a linha sólida denota a média do conjunto, enquanto a região sombreada mostra a faixa completa do conjunto. Linhas verticais tracejadas mostram o início de cenários futuros (2006) e o momento em que o RCP 8.5 diverge dos outros três cenários (2045). In “Unavoidable future increase in West Antarctic ice-shelf melting over the twenty-first century

 

Referência:

Naughten, K.A., Holland, P.R. & De Rydt, J. Unavoidable future increase in West Antarctic ice-shelf melting over the twenty-first century. Nat. Clim. Chang. (2023). https://doi.org/10.1038/s41558-023-01818-x https://www.nature.com/articles/s41558-023-01818-x

 

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