sexta-feira, 4 de outubro de 2013

NAUFRÁGIO EM LAMPEDUSA

Um balanço impressionante do naufrágio em Lampedusa, Itália. Os primeiros cadáveres dos mais de 250 migrantes naufragados ontem, 03-10-2013, alinhados no cais do porto.
Foto: Ansa

Foi denominado como o "hangar da morte": trata-se de um local na pista do aeroporto de Lampedusa, onde foram colocados os corpos de 103 migrantes resgatados, até o momento, no mar Mediterrâneo. Sobre cada saco foi colocado um número que ajudará para que a polícia cientifica possa dar um nome aos migrantes mortos. Os policiais fotografaram todos os rostos das pessoas mortas. Os sacos foram colocados em filas duplas.
Foto: Ansa
Papa Francisco, ontem, ao receber em audiência os mais de 300 participantes do Encontro de Reitores das Universidades Pontifícias e Católicas, promovido pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz, celebrando os 50 anos da encíclica Pacem in Terris de João XXIII, referiu-se à tragédia de Lampedusa.
Visivelmente emocionado, depois de uma breve pausa no seu discurso lido, improvisou: "A palavra que vem é a palavra 'Vergonha'". E continuou, acompanhado com o gesto da mão: "É uma vergonha".
Foi um momento denso, cuja emoção contagiou toda a Sala Clementina, onde se realizava o encontro.
Hoje, dia 04-10-2013, na Sala da Espoliação, em Assis, Papa Francisco, afirmou, recordando da enésima tragédia de Lampedusa, que o dia de hoje, é "um dia de pranto".
Veja o vídeo: http://migre.me/ghfEj








RURALISTAS : OS NOVOS SENHORES DE ENGENHO DA POLÍTICA

Em depoimento, Mércio Gomes afirma que os fazendeiros se dão panca de serem os novos senhores de engenho, um poder rural absolutista com pretensões políticas nacionais
por Felipe Milanez — publicado 03/10/2013 03:15, última modificação 03/10/2013 09:28

Mércio Gomes é antropólogo, discípulo de Darcy Ribeiro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), deu aula também na Universidade Federal Fluminense e na Unicamp. Como antropólogo, Gomes desenvolveu trabalhos no Maranhão, entre os povos Guajajara e Awa-Guajá e publicou os livros Os índios e o Brasil (2012) e Antropologia Hiperdialética (2011), ambos pela Contexto. Foi presidente da Funai entre setembro de 2003 a março de 2007. Durante sua gestão ocorreu o massacre de garimpeiros na terra indígena Roosevelt, onde índios cinta-larga vivem um conflito com garimpeiros de diamante. Na ocasião, os índios mataram 29 garimpeiros, e os garimpeiros revidaram matando um indígena. Foi, também, quando o ex-presidente Lula homologou a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em 2005, e ocorreu o licenciamento das usinas hidrelétricas no rio Madeira, o Complexo Madeira, de Santo Antônio e Jirau, que impactam diretamente povos indígenas, inclusive em isolamento voluntário. As polêmicas usinas do Madeira foram as primeiras da série de usinas que o governo passou a construir na Amazônia como parte do programa de desenvolvimento PAC, que inclui também Belo Monte, no rio Xingu, entre diversas outras. Como jornalista, eu editei a revista Brasil Indígena, publicação da Funai, também durante a sua gestão.
Ao invés de responder a entrevista, Gomes preferiu escrever o depoimento abaixo, baseado nas questões propostas aos outros ex-presidentes para essa série de entrevistas. Segundo ele, "os fazendeiros se dão panca de serem os novos senhores de engenho, um poder rural absolutista e com pretensões políticas nacionais".
Mércio Gomes
É estarrecedor ver e acompanhar a campanha anti-indígena atual. Cada dia é uma agonia. Os fazendeiros e seus acólitos estão em guerra ofensiva contra os índios, como ocorreu em diversas épocas no Brasil, e não se envergonham de aplicar métodos suasórios de todas as espécies, desde aliciar índios até pressionar o governo diretamente e atentar contra a Constituição.
Parte dos motivos dessa ofensiva está no fato de que o agronegócio está dando muito lucro e portanto se expande em todas as regiões que pode; parece não ter limites – nem ecológicos, nem econômicos, nem sociais. Por isso a terra está muito valorizada e as perspectivas de crescimento são grandes e seguras a médio prazo. Diante de seu peso no PIB, os fazendeiros se dão panca de serem os novos senhores de engenho, um poder rural absolutista e com pretensões políticas nacionais. Estão de garras afiadas para uma guerra de fim dos tempos.
Outra parte dos motivos se deve à incapacidade do governo (ministérios da Justiça e Casa Civil, bem como a própria Funai) de responder a esse ímpeto anti-indígena. Às vezes dá a impressão que só vê com bons olhos o lado dos fazendeiros, mas finge que está com os índios. Em consequência, de propósito ou burramente, o governo tem incitado a gana dos fazendeiros e iludido os índios.
Primeiro, diminuiu a capacidade de ação indigenista da Funai ao extinguir os postos indígenas e assim retirar seu contingente de indigenistas do contato direto e permanente com os índios. Os fazendeiros viram isso como uma abertura à sua presença nas áreas indígenas. No mesmo ato que pretendia reestruturar a Funai, em dezembro de 2009, aboliu algumas das administrações regionais mais estratégicas, como a de Altamira (como intuito de facilitar o aceito dos índios sobre Belo Monte), a de Porto Velho, as do Paraná, Pernambuco, Mato Grosso, Maranhão, Pará e até no Amapá – e piorou a situação indígena como um todo. Hoje os índios sentem que não têm mais a Funai ao seu lado – o que seja talvez a pior herança desse governo para os índios.
Segundo, provocou os fazendeiros à briga renhida ao emitir desastrosamente uma série de atos demarcatórios sem a devida capacidade de levá-los a bom termo. Por exemplo, criou cinco grupos de trabalho para o Mato Grosso do Sul que diziam que iriam demarcar entre 600.000 e 1.000.000 de hectares como terras indígenas, algo impossível nas condições atuais e até no passado recente. O atual governador do Rio Grande do Sul, quando ministro da Justiça emitiu portarias declaratórias de terras em Santa Catarina e no seu estado que hoje, como governador, as renega. É evidente que os fazendeiros vêem fraqueza nesses atos e, cada vez mais se sentem poderosos para desafiar o governo. A atual ministra-chefe da Casa Civil, pré-candidata ao governo do Paraná, dita as novas regras do indigenismo brasileiro passando por cima inclusive do ministro da Justiça. A Funai segue inerme.
Terceiro, foram tantas as provocações e burrices criadas por ingênuos e não tão ingênuos diretores da Funai nos processos de demarcação, desde 2007, que o STF resolveu emitir as instruções mais anti-demarcatórias já feitas no Brasil desde o Império. As ressalvas estabelecidas por ocasião da reiteração da homologação da T.I. Raposa Serra do Sol, em 19 de março de 2009, se levadas a cabo, inviabilizam qualquer tentativa de demarcar novas terras indígenas, especialmente em estados onde a terra está super-valorizada, como são aqueles em que vivem precisamente os índios Guarani e os Kaingang, os que detêm a menor quantidade de terras proporcional às suas populações.
Quarto, o clima cultural brasileiro virou de favorável aos índios, no começo deste século, para anti-indígena, tanto na imprensa quanto na opinião pública mais difusa. Os fazendeiros estão nadando de braçadas nesse mar revolto. Quanto mais confusão e provocações, melhor para eles.
Enfim, é difícil reverter um quadro tão desastroso como esse só com fingidas boas intenções. Evidentemente que o governo não sabe o quê fazer da Funai. Ela não faz o que o governo quer, quando o governo precisa. Na verdade, está esperando que os índios peçam a sua extinção, como o pediram as ONGs alguns anos atrás. O governo sabe que não pode extinguir a Funai, pois seria abandonar os índios à legislação estadual, provocando um desastre de proporções catastróficas. Ademais, legalmente o governo precisa da Funai para diversas ações, tais como conceder licença de aproveitamento de recursos hídricos ou minerários que afetam terras indígenas; quando os índios não querem esses projetos, o governo joga pesado e aí chama a Funai para fazer o trabalho sujo. Só que encontra obstáculos na consciência dos indigenistas da Funai, daí apelar para os contratos de terceiros, em geral partidários amigos.
Para resolver as demandas sobre terras, o governo está contando com a decisão  final do STF em forma de respostas a alguns embargos declaratórios sobre as ressalvas demarcatórias. Tentou antecipar esse ato fazendo a AGU emitir o Decreto 303, mas recuou. Agora aguarda. Os tribunais federais também aguardam essa decisão para resolver dezenas de pendências de atos demarcatórios mal feitos. O  tempo trabalha em favor do governo anti-indígena e dos fazendeiros.
Por sua vez, o governo se prepara para promulgar novas políticas que favorecerão atividades do desenvolvimento econômico mais grosseiro possível, como a mineração em terras indígenas. Sua estratégia é de aliciar alguns índios e indigenistas e passar o trator por cima de quem não aceitar. Além de fazendeiros, missionários e ongueiros, teremos agora os mineradores como os novos indigenistas brasileiros.
Para aliviar um pouco a tensão que passa na situação indigenista atual, o governo e seu lado na Funai entretém os índios com reuniões e seminários sobre os temas mais banais ou mais afetos à demagogia e gastam um bom dinheiro num embuste chamado PNGATI, um verborrágico programa de "proteção" e "gestão" de terras indígenas que só favorece a contratação de consultores. Nada de relevante sairá desse programa, mas os índios são convocados a anuir com seus planos e a participar como pupilos a aprender o quê não haverá.
Enquanto isso, as tais ONGs indigenistas que levaram a Funai à sua atual situação periclitante fica tocando tambores de guerra contra fantasmas. A tal PEC 215, evidentemente uma proposta imprópria e obviamente anti-constitucional que não passará por qualquer comissão de constituição, virou um espantalho de verdade depois que as ONGs a ressuscitaram de uma medíocre gaveta parlamentar, levando o movimento indígena a se jogar contra tal embuste como se fosse contra as naus de Cabral. Com isso o movimento indígena e os jejunos antropólogos são desviados do verdadeiro problema que está acontecendo às suas vistas: o desembarque do governo federal de suas atribuições constitucionais de proteger e assistir os povos indígenas, respeitando suas culturas e demarcando suas terras.
 Fonte Carta Capital/ Blog do Felipe Milanez

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O ALUNO E A AVALIAÇÃO...


Siga os 5 passos e veja se está preparado para as provas do Enem . MUNDO VESTIBULAR

Fonte : Mundo Vestibular

AQUECIMENTO GLOBAL - IPCC

Aquecimento global e mudanças climáticas extremas, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Aquecimento global e mudanças climáticas extremas

[EcoDebate] Existem pessoas que ignoram os desastres ambientais causados pelos seres humanos e não acreditam no aquecimento global. Mas segundo os cientistas do National ClimaticData Center (NOAA/USA), a temperatura média global sobre superfíciesterrestres e oceânicas para agosto 2013 ficou empatado com o mesmo mês de 2005, como o quarto mais quente agosto desde manutenção de registros que começaram em 1880.Também marcou o 35º agosto consecutivo e 342º mês consecutivo(mais de 28 anos), com uma temperatura global acima da média do século 20.O último registro, emagosto, abaixo da média da temperatura global foi em agosto de 1978,a última temperatura abaixo da média global de qualquer mês foi em fevereiro de 1985.
Evidentemente, os autodenominados céticos do clima (ou “negacionistas”), tentam desconsiderar a realidade ou reinterpretá-la para tentar mostrar que o aquecimento global não é fruto das atividades humanas, muito menos fruto da queima dos combustíveis fósseis, da liberação do gás metano e do desmatamento. As poderosas indústrias do petróleo e dos produtos químicos, assim como o fundamentalismo de mercado, não tem medido esforços para confundir a cabeça da opinião pública e manter os políticos longe das ações públicas visando a construção de uma sociedade de baixo carbono e de baixo impacto antrópico sobre o meio ambiente.
Porém, as principais academias de ciência do mundo já lançaram um manifesto expressando a preocupação com o aquecimento global. De cerca de 12 mil estudos acadêmicos (com revisão científica por pares) sobre o tema, em 20 anos, 97% confirmam os efeitos deletérios do aumento da temperatura média do Planeta. Até o Banco Mundial divulgou um relatório mostrando porque devemos evitar um aquecimento de 4 graus centígrados.
Embora o ritmo do aquecimento tenha desacelerado desde o pico ocorrido em 1998 (o chamado hiato), cada década tem sido mais quente do que a anterior. Evidentemente, são muitos os fatores que afetam o clima e não apenas a concentração de gases de efeito estufa (GEE). Seria ótimo que houvesse uma estabilização do aquecimento global, mas a análise de longo prazo indica que o efeito estufa é real e tende a se agravar.
A perda do gelo dos polos, por exemplo, pode ter consequências dramáticas para o Planeta. O permafrost – tipo de solo encontrado na região do Ártico – contém uma grande reserva de metano, gás-estufa 30 vezes mais potente que o dióxido de carbono. Se a liberação do gás metano (CH4) para a atmosfera for acelerada pelo degelo do Ártico, poderá haver uma aceleração acentuada e cumulativa do aquecimento global, com o aumento do nível dos oceanos e a diminuição das áreas de cultivo na foz dos principais rios do mundo, devido ao processo de salinização provocado pelo avanço do mar.
O fato é que o crescimento da população e da economia tem acelerado a queima de combustíveis fósseis, o desmatamento, a destruição de ecossistemas, o aumento da erosão dos solos, a desertificação, a acidificação dos oceanos, a redução dos recifes de corais, a diminuição da biodiversidade e o uso abusivo das fontes de água potável e dos aquíferos. Mas ao invés de mudar o modelo antrópico de exploração e dominação da natureza, os esforços internacionais (como a última reunião do G-20 em São Petersburgo) são realizados no sentido de acelerar o crescimento econômico e aumentar a demanda agregada por bens de consumo e serviços.
O resultado imediato tem sido o aumento dos eventos climáticos extremos , incluindo ondas de calor e tempestades, com o aumento do número dos refugiados do clima. A agricultura e a aquacultura seriam prejudicadas, afentando a produção de comida, o que dificultaria a capacidade de alimentar os cerca de 7 bilhões de pessoas da população atual e os bilhões de habitantes a mais que virão até o final do século.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas ( IPCC na sigla em inglês), divulgou no dia 27 de setembro de 2013, o seu 5º relatório sobre o clima que aumenta o grau de certeza dos cientistas em relação à responsabilidade do homem no aquecimento global. O texto afirma que há mais de 95% (extremamente provável) de chance de que a humanidade causou a maior parte da elevação média de temperatura registrada entre 1951 e 2010, que está na faixa entre 0,5 a 1,3 grau ( o 4º relatório falava em mais de 90% de chances). Outra constatação importante é que o nível dos oceanos aumentou 19 centímetros entre 1901 e 2010.
O IPCC diz ainda que há ao menos 66% de chance de a temperatura global aumentar pelo menos 2º Centígrados até 2100 em comparação ao período pré-industrial, caso a queima de combustíveis fósseis continue no ritmo atual e não sejam aplicadas quaisquer políticas climáticas consequentes. Na continuidade dos altos índices de emissões de GEE, o nível do mar pode aumentar entre 45 e 82 centímetros, prejudicando regiões costeiras do planeta. O gelo do Ártico pode retroceder até 94% durante o verão no Hemisfério Norte.
O relatório faz previsões de que a temperatura no planeta pode aumentar entre 0,3º C e 1,7º C (no cenário mais brando, com menos emissões e mais políticas climáticas proativas por parte dos governos e da sociedade civil) e entre 2,6º C 4,8º C, considerado o pior cenário, aquele em que não há controle do lançamento de gases-estufa. A temperatura da superfície do oceano teve aumento de 0,11º C por década entre 1971 e 2010, havendo acidificação das águas oceânicas, fator que pode provoca a redução do estoque de peixes e da biodiversidade.

Aquecimento global e mudanças climáticas extremas

Ou seja, segundo o novo relatório do IPCC:
- a temperatura global do Planeta aumentou 0,85º C entre 1880 e 2012;
- há 95% de chance de que o ser humano seja o principal agente causador do aquecimento;
- no pior cenário de emissões de GEE, a temperatura pode subir 4,8º C até 2100;
- neste cenário mais dramático, o nível do mar pode aumentar 82 cm até 2100;
- gelo do Ártico pode retroceder 94% até 2100 durante o verão;
- O degelo da Antártica e do alto das montanhas deve aumentar, reduzindo os fluxos de água potável;
- aumento dos eventos climáticos extremos , incluindo ondas de calor, seca e tempestades.
Desta forma, o IPCC lançou uma dura advertência sobre a realidade do aquecimento global e, consequentemente, uma dura advertência contra o estilo de desenvolvimento baseado na queima de combustíveis fósseis e na continuidade de um modelo de produção e consumo que, além de ser injusto socialmente, é incompatível com a saúde dos ecossistemas e a continuidade da rica diversidade da vida na Terra.
Referências:
World Bank. Turn Down the Heat: Why a 4°C Warmer World Must be Avoided.Washington DC, 2012
Blunden, J.and D. S. Arndt, (Eds): State of the Climate in 2012. Bull. Amer. Meteor. Soc., 94 (8), S1–S238, 2013http://www.oco.noaa.gov/resources/Documents/BAMS_SoC2012.pdf
Rubens Ricupero. É inevitável o suicídio coletivo? Folha de São Paulo, 27/05/2013
Nicholas Stern. World leaders must co-operate on talks for strong new climate change deal. The Observer. 21 September 2013
IPCC WGI AR5. Climate Change 2013: The Physical Science Basis, 27/09/2013
IPCC. Summary for policymakers, 27/09/2013
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

EcoDebate, 02/10/2013

AÇÃO DO HOMEM...AÇÃO ANTRÓPICA...

Influência humana é principal causa do aquecimento global, reitera o 5º relatório do IPCC


5º relatório do IPCC

Relatório divulgado na sexta-feira (27) pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) mostra que a influência humana no clima é a principal causa do aquecimento global observado desde meados do século 20. O aumento das temperaturas é evidente e cada uma das últimas três décadas tem sido sucessivamente mais quente, informa o Sumário para os Formuladores de Políticas do Grupo de Trabalho 1 do IPCC.
“O relatório concluiu que a temperatura da atmosfera e dos oceanos se elevou, a quantidade de neve e de gelo diminuiu e que o nível do mar e de concentração de gases de efeito estufa aumentou”, destacou um dos coordenadores do documento, Qin Dahe.
Segundo o texto, há 95% de probabilidade de que mais da metade da elevação média da temperatura da Terra entre 1951 e 2010 tenham sido causadas pelo homem. Os gases de efeito estufa contribuíram para o aquecimento entre 0,5 e 1,3 graus Celsius (ºC) no período entre 1951 e 2010. “A continuada emissão de gases de efeito estufa vai causar mais aquecimento e mudanças climáticas. Limitar a mudança climática vai requerer substanciais e sustentadas reduções das emissões de gases de efeito estufa”, disse Thomas Stocker, outro coordenador do documento.
O relatório ressalta que, até o fim do século 21, há pelo menos 66% de chance de a temperatura global se elevar pelo menos 2ºC em comparação com o período entre 1850 e 1900. “A mudança na temperatura da superfície da Terra no final do século 21 pode exceder 1,5ºC no melhor cenário e, provavelmente, deve exceder 2ºC nos dois piores cenários”, disse Stocker. Na pior das possibilidades, a temperatura pode alcançar 4,8ºC até 2100.
Ele acrescentou que ondas de calor muito provavelmente vão ocorrer com mais frequência e devem durar mais tempo. “Com o aquecimento do planeta, esperamos ver regiões úmidas recebendo mais chuvas e regiões secas recebendo menos chuvas, apesar de existirem exceções”, disse o cientista.
O documento elaborado por 259 cientistas de 39 países apresentado em Estocolmo, na Suécia, mostrou que a elevação da temperatura dos oceanos até cem metros de profundidade pode variar entre 0,6 ºC e 2 ºC até 2100. Além disso, devido ao aumento do degelo dos glaciares, o nível do mar deve subir entre 26 a 55 centímetros considerando o melhor cenário e, entre 45 a 82 centímetros, no pior cenário. O gelo do Ártico pode diminuir até 94% durante o verão no Hemisfério Norte até 2100.
“Com o aquecimento dos oceanos e a redução dos glaciares, o nível global dos mares vai continuar a subir, mas em um ritmo mais rápido do que experimentamos nos últimos 40 anos”, disse o pesquisador Qin Dahe.
De acordo com o documento, as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso aumentaram para níveis sem precedentes nos últimos 800 mil anos. As concentrações de dióxido de carbono subiram 40% desde a época pré-industrial (desde 1750), principalmente devido às emissões provenientes da queima de combustíveis fósseis. Segundo Stocker, como resultado das emissões passadas, presentes e futuras de dióxido de carbono, a mudança climática é um fato. “Os efeitos no clima vão persistir por muitos séculos mesmo que as emissões parem”, concluiu o cientista.
O IPCC foi criado em 1988 pela Organização das Nações Unidas (ONU) e reúne milhares de cientistas de diversos países. Já foram publicados quatro relatórios. A divulgação completa do quinto documento, incluindo os trabalhos dos grupos 2 e 3, deverá ocorrer até 2014. Nesta sexta-feira, foi lançado o documento do Grupo de Trabalho 1, que trata dos aspectos científicos das mudanças climáticas. Os dados do IPCC servirão de base para as negociações climáticas internacionais.
Edição: Talita Cavalcante
Reportagem de Ana Cristina Campos, da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate, 01/10/2013

terça-feira, 1 de outubro de 2013

PRIVATIZAÇÃO DAS ÁGUAS.

Privatização das águas e a desilusão dos pescadores artesanais. Entrevista especial com Elionice Sacramento

Com a privatização das águas, “não só os pescadores serão prejudicados, mas a sociedade de modo geral, porque vai haver um processo de diminuição da pesca artesanal”, adverte a integrante do Movimento dos Pescadores e Pescadoras artesanais.
Foto: http://bit.ly/1fNDm5V
Responsável por 70% da produção de pescado no país, a pesca artesanal está ameaçada pelo Projeto do Ministério da Pesca e da Aquicultura, denominado pelo movimento dos pescadores e pescadoras tradicionais de “privatização das águas públicas dos mares”.
Trata-se da Cessão de águas Públicas lançada em editais no mês de junho (Licitações: 11/2013- 12/2013-13/2013-14/2013), que transfere determinada área do mar para grupos que pretendem cultivar uma determinada espécie de peixe. Segundo a integrante do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais, Elionice Sacramento, já serão privatizadas áreas em cinco estados brasileiros, sendo “três áreas no Ceará, 26 no Rio Grande do Norte, duas em Pernambuco, 16 no Maranhão e 22 na Bahia, as quais são historicamente utilizadas pelos pescadores e pescadoras artesanais”.
Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone, Elionice enfatiza que “quando o Ministério da Pesca foi criado, na primeira gestão do governo Lula, os pescadores no Brasil apoiaram sua criação com a ilusão de que esseMinistério atenderia a pesca artesanal”. Com o passar do tempo, acentua, o órgão passou a adotar políticas “que fortaleciam mais a aquicultura, ou seja, o processo de criação de pescados em cativeiro, e os empresários, que têm relação com essa atividade, sem considerar o trabalho dos pescadores artesanais do Brasil”.

Elionice Sacramento é integrante do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais.
Confira a entrevista.
Foto: http://bit.ly/1avWeSZ
IHU On-Line - O que caracteriza a privatização das águas públicas e qual é o objetivo desta privatização? Em que consiste essa política desenvolvida pelo Ministério da Pesca e Aquicultura?
Elionice Sacramento – Queria dizer que quando oMinistério da Pesca foi criado, na primeira gestão do governo Lula, os pescadores no Brasil apoiaram sua criação com a ilusão de que esse Ministério atenderia a pesca artesanal. Depois percebemos que ele estava adotando políticas que fortaleciam mais a aquicultura, ou seja, o processo de criação de pescados em cativeiro, e os empresários, que têm relação com essa atividade, sem considerar o trabalho dos pescadores artesanais do Brasil. Então, o governo passou a ver o Ministério como um espaço de promoção política de alguns deputados, tanto que se criou um esquema de corrupção muito grande no Ministério no que diz respeito à documentação de pescadores. Daí para frente começamos a ouvir falar em um projeto de privatização das águas públicas.
Em junho, foi lançado no país um edital para a privatização de áreas de quatro estados brasileiros, ou seja, serão privatizadas três áreas no Ceará, 26 no Rio Grande do Norte, duas em Pernambuco, 16 no Maranhão e 22 na Bahia, as quais são historicamente utilizadas pelos pescadores e pescadoras artesanais. Trata-se de um modelo que passa por cima das comunidades tradicionais que utilizam aquele espaço com uma relação de respeito com o mar e que interessa às forças capitalistas.
IHU On-Line - Como funciona esse processo de privatização das águas?
Elionice Sacramento – Foi lançado um edital, os interessados demonstram seus interesses, concorrem a esses espaços. Após a licitação, o grupo interessado terá direito de fazer uso daquele espaço durante 20 anos e pagar uma quantia mínima aos cofres públicos.
IHU On-Line - O que a privatização das águas públicas significa para as comunidades tradicionais, especialmente, as pesqueiras? Além das comunidades, quem mais será prejudicado com a privatização desses espaços?
Elionice Sacramento – Não só os pescadores serão prejudicados, mas a sociedade de modo geral, porque vai haver um processo de diminuição da pesca artesanal. Então, os turistas serão prejudicados, e o comércio dessas regiões também, porque esses pescados que são produzidos em cativeiro são pescados para exportação, e não para uso nacional. Por outro lado, haverá um processo de desequilíbrio do meio ambiente, porque espécies estranhas serão cultivada no mar, e o lixo produzido por elas ficará no mar.
Sem contar que os pescadores e pescadoras artesanais desempenham um papel fundamental no Brasil. Nós somos guardiões de uma tradição milenar, somos produtores de alimento, porque 70% de todo pescado produzido no país vem da pesca artesanal. Então, essa tradição só se manteve durante tantos anos porque estabelecemos com a natureza uma relação de completo respeito, uma relação de amor, mas principalmente uma relação de dependência e de respeito.
Respeitamos os períodos de reposição dos peixes, e agimos de acordo com a determinação da natureza. Esses processos industriais não têm respeito com nada. Eles atropelam tudo, desmontam processos de organização que já existem nas comunidades.
IHU On-Line - Já existem editais lançados para a compra de corpos d’águas em alguns estados. Do ponto de vista legal, como o movimento vem contestando os editais e esse processo de privatização?
Elionice Sacramento – Esse edital lançado em junho feriu algumas leis e alguns acordos internacionais. Por exemplo, o princípio de consulta às comunidades tradicionais não foi cumprido.
Então, as comunidades que fazem uso desses espaços não foram consultadas sobre esse processo de privatização das águas públicas. E isso já é motivo de ilegalidade do processo.
Quando o edital foi lançado na Bahia, o ministro em exercício à época não quis ouvir os integrantes do movimento e disse que apenas uma pessoa poderia falar. Quando nós nos negamos a aceitar essa proposta, o ministro levantou e disse que não ficava no encontro. Não houve nenhum tipo de diálogo com a comunidade. Por outro lado, nós visitamos a Secretaria de Patrimônio da União, que foi quem regularizou as áreas da água para ceder ao Ministério da Pesca, e questionamos por que os territórios não estão sendo cedidos aos pescadores, e sim para a apicultura. Segundo as pessoas que nos receberam, existia a Secretaria de Patrimônio da União desconhecia o porquê de essas áreas não serem destinadas para a pesca artesanal.
Então, entramos com um recurso contestando a ilegalidade do processo, fomos até a 6ª Câmara Federal, procuramos a Promotora Deborah Duprat, e também outros cinco promotores. Todos receberam esse processo com muita indignação.
IHU On-Line - Os editais determinam que as empresas vencedoras das licitações devem promover um número mínimo de empregos. Como você enxerga esse ponto específico?
Elionice Sacramento – A maioria dos empreendimentos, quando chegam às comunidades, apontam a justificativa de que vão gerar empregos. Por conta disso, esses empreendimentos acabam recebendo a aceitação de políticos e de pessoas que não têm vocação para a pesca. Só que isso é enganação. Temos muita clareza de que o discurso do emprego não é verdadeiro, até porque o processo que querem implementar é muito industrial.
IHU On-Line - Quais apoios são importantes no processo de luta para impedir a privatização das águas públicas?
Elionice Sacramento - Nós estamos em campanha pela própria ação e regularização dos territórios pesqueiros. Nessa campanha foi pensado um projeto de iniciativa popular onde a sociedade brasileira vai dizer, através de assinaturas, se concorda que o território pesqueiro seja protegido. Também temos divulgado o trabalho dos pescadores, porque somos invisível nesse país. Parece que a sociedade não sabe de onde vem o peixe que gostamos de comer.
IHU On-Line - Você gostaria de acrescentar algo?
Elionice Sacramento - Gostaria de sugerir que as pessoas acessem o nosso blog, assinem o abaixo assinado pelaCampanha da Regulamentação dos Territórios Pesqueiros, e compreendam a importância da pesca artesanal e dos pescadores e pescadoras.
Fonte : Instituto Humanitas Unisinos