terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

AMAZÔNIA E AS CONSEQUÊNCIAS DAS HIDRELÉTRICAS

Amazônia: Hidrelétricas já impedem a migração de peixes e a dispersão de sedimentos, ameaçando a biodiversidade e o bem-estar de mais de 30 milhões de pessoas


Mapa da Bacia Amazônica Ocidental. Ministério dos Transportes
Mapa da Bacia Amazônica Ocidental. Ministério dos Transportes
Hidrelétricas infartam rios da Amazônia
IHU
Barragens já impedem a migração de peixes e a dispersão de sedimentos, ameaçando a biodiversidade e o bem-estar de mais de 30 milhões de pessoas.
A maior bacia hidrográfica do mundo está prestes a sofrer uma severa fragmentação se parte das 160 barragens em planejamento forem de fato construídas, afirmou uma equipe de pesquisadores dos EUA e de vários países da América do Sul em artigo publicado pela revista científica Science Advances. As hidrelétricas construídas na bacia do rio Amazonas para atender às crescentes demandas por eletricidade estão levando à extinção espécies de peixes e colocando em risco 30 milhões de habitantes que subsistem de seus rios.
A reportagem é publicada por Observatório do Clima, 02-02-2018.
O mapeamento revelou que 142 hidrelétricas de vários tamanhos já operam na região, o dobro do relatado em canais oficiais, e que elas estão causando mais impacto à natureza do que se imaginava. Os protocolos de impacto ambiental e de licenciamento apresentados pelas empresas ignoram os efeitos cumulativos de construir múltiplas barragens em uma rede fluvial ou uma bacia hidrográfica. “Se a situação continuar sem controle ou gestão integrada, os efeitos serão devastadores ao ecossistema nos próximos anos”, diz a ecologista Elizabeth Anderson, da Universidade Internacional da Flórida, em Miami, principal autora do estudo.
O impacto ambiental das hidrelétricas atinge diretamente os peixes migratórios, entre eles a dourada, um grande bagre migratório (celebrizado pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva na “crise do bagre”, em 2006), que caminha para a extinção no Peru e na Bolívia. O complexo hidrelétrico do rio Madeira impede a travessia de cardumes da foz do Amazonas até o rio Mamoré, na Bolívia.
Para dar uma ideia, pelo menos 3.500 espécies de peixe habitam os rios da Bacia Amazônica. Apenas nas cabeceiras andinas da Amazônia foram contadas 671 espécies.
As variações nas correntes dos rios e na química das águas também ameaçam os mamíferos de água doce, como os botos e as ariranhas. Durante a estação chuvosa eles costumavam avançar pela região inundada e se alimentar de frutos, mas são impedidos pelo bloqueio de rotas de migração e mudanças dos níveis da água, revela a ecóloga Sandra Bibiana Correa, da Universidade Estadual do Mississippi, nos EUA.
Os rios de origem andina também deveriam exportar quantidades maciças de sedimentos, matéria orgânica e nutrientes para as terras baixas, além de contribuir com cerca de metade do fluxo anual da água doce da Amazônia. Mas esse sistema não está funcionando como o esperado, já que as barragens impedem a dispersão natural do material particulado.
Os rios amazônicos, sobretudo, servem diretamente a mais de 30 milhões de pessoas, que se alimentam de seus peixes, cultivam grãos em suas margens e sobrevivem da venda de produtos florestais. “A construção das barragens está modificando toda a dinâmica de abastecimento; desmatando áreas de floresta, alagando ou esvaziando locais estratégicos para a população”, disse Anderson.
Entre os rios afetados pela falta de conectividade estão o Napo, que nasce no Equador, atravessa o Peru e deságua na margem esquerda do Solimões; o Beni, que nasce na cordilheira dos Andes e deságua no rio Madeira, na fronteira com o Brasil; e o Mamoré, um curso de água da bacia do Amazonas que nasce da confluência do rio Chapare com o rio Mamorecillo, na Bolívia.
A análise enfatiza a necessidade urgente de maior cooperação internacional para o gerenciamento de água transfronteiriça, algo que atualmente não está no planejamento hidrelétrico da Amazônia. O estudo ainda aponta que nenhum país da Amazôniaratificou a Convenção das Nações Unidas sobre os Cursos de Águas, que se aplica ao uso de cursos de água internacionais para fins diferentes de navegação e trabalha para promover medidas de proteção, preservação e gestão de águas internacionais.
Esforços financeiros globais para proteger a riqueza biológica e cultural da Amazônia andina, segundo os pesquisadores, concentraram-se, em sua maior parte, na criação e manutenção de uma rede de áreas protegidas e territórios indígenas – e que todo esse esforço, segundo eles, pode ser frustrado pelas alterações de rios e paisagens modificadas pela construção de barragens e hidrelétricas.
O estudo ainda sugere que os recentes escândalos de corrupção econômica do Brasil têm levado empresas brasileiras a investir na construção de barragens em países andinos e que o Peru estaria cada vez mais perto de viabilizar a Hidrovia Amazônica, que envolve a dragagem e a canalização de longos trechos de rios da Amazônia, com potencial de gerar grandes perdas para o ecossistema.
(EcoDebate, 06/02/2018) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

ÁREAS DE RISCO

Áreas de Risco: Sistemas de alerta escondem crime de omissão


Foto: vitima do desastre de Teresópolis
Foto: vitima do desastre de Teresópolis. De Antonio Lacerda, EFE/Veja
[EcoDebate] Diferentemente de países com vulcanismo ativo, terremotos, furacões, tempestades tropicais cíclicas e outros poderosos agentes da Natureza, no Brasil as áreas de risco estão inequivocamente associadas a erros humanos na ocupação de terrenos geológica, geotécnica ou hidrológicamente mais sensíveis e instáveis. Por exemplo, no caso de deslizamentos são ocupados terrenos que por sua enorme suscetibilidade natural a esse tipo de fenômeno não poderiam de forma alguma ser ocupados, ou são ocupados terrenos de média e alta declividades perfeitamente passíveis de receber uma ocupação urbana, mas com o uso de técnicas construtivas e arranjos urbanísticos a eles tão inadequados que, mesmo nessa condição mais favorável, são transformados em um canteiro de áreas de risco. Aliás, as áreas de risco a deslizamentos no país são em sua grande maioria dessa natureza.
Destaque-se que nessas duas condições, como também no caso de margens de córregos e várzeas sujeitas à inundação, a criação de áreas de risco está intimamente associada à busca de terrenos mais baratos por parte da população de baixa renda, que somente dessa forma consegue fugir de aluguéis e ter sua própria moradia.
Dessa constatação, ou seja, a responsabilidade humana na instalação de áreas de risco, deduz-se que, diferentemente dos países com terremotos e vulcanismo ativo, por exemplo, no Brasil a eliminação do problema áreas de risco depende, na esmagadora maioria dos casos, apenas da decisão humana em não mais cometer os erros que estão na origem causal do problema.
Daí a importância em se distinguir o diferente papel dos sistemas de alerta naqueles países onde os fatores de risco são realmente naturais e incontroláveis e em nosso país, onde os fatores de risco são antrópicos, e, portanto, controláveis. No Brasil, o papel de um sistema de alerta deveria cumprir uma função nitidamente emergencial e provisória. Ou seja, é indispensável sua adoção enquanto ainda estejam sendo efetivadas as medidas verdadeiramente estruturais que podem e vão eliminar o risco detectado.
E quais seriam essas medidas estruturais voltadas à eliminação de riscos? Podemos assim elencá-las concisamente:
  • criterioso planejamento do crescimento urbano, impedindo-se a ocupação de terrenos com condições naturais de muito alto risco e adotando-se planos urbanísticos e técnicas construtivas corretas na ocupação de terrenos de alto e médio riscos;
  • implementação de programas de habitação popular que atendam a demanda da população de baixa renda por casa própria, reduzindo assim a pressão pela ocupação de terrenos impróprios à urbanização;
  • desocupação de áreas de muito alto risco já instaladas, com realocação dos moradores em novas habitações dignas e seguras;
  • consolidação urbanística e geotécnica de áreas de alto, médio e baixo riscos já instaladas.
Desgraçadamente, por incúria, desvios éticos e total descaso com o ser humano, essas medidas estruturais destinadas à eliminação dos riscos não recebem a mínima atenção dos três níveis de governo, o federal, o estadual e o municipal. À exceção do crescimento do número de mapeamentos de risco, com a produção de cartas de suscetibilidade, cartas de risco e cartas geotécnicas, ferramentas imprescindíveis para a gestão do risco urbano , mas apenas ferramentas, pode-se dizer que muito perto do absolutamente nada está sendo feito em matéria de implementação de medidas estruturais de real combate ao risco.
E é nesse cenário que se apresenta como um expediente oportunista de extrema crueldade humana a decisão de dotar sistemas de alerta ao risco de caráter permanente e como única medida de gestão de riscos que, pelos seus baixos custos financeiros e sua descomplexidade política, é de fato implementada. Seria muito interessante ver como as autoridades públicas responsáveis por esse crime de omissão reagiriam fossem moradores em áreas de risco e vendo-se submetidas à brutalidade de, ao som de uma alucinante sirene, ou de um torpedo no celular, sob chuva torrencial deixar suas casas às 3 horas da manhã carregando morro abaixo seus idosos, suas crianças, seus doentes e seus parentes com necessidades especiais para fugir da possibilidade de serem tragados pelo barro e pelas pedras de um deslizamento.
Geól. Álvaro Rodrigues dos Santos (santosalvaro@uol.com.br)
  • Ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas
  • Autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da Serra do Mar”, “Diálogos Geológicos”, “Cubatão”, “Enchentes e Deslizamentos: Causas e Soluções”, “Manual Básico para elaboração e uso da Carta Geotécnica”, “Cidades e Geologia”
  • Consultor em Geologia de Engenharia, Geotecnia e Meio Ambiente
  • Articulista e colaborador da EcoDebate
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 06/02/2018

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

OPERAÇÃO CANAÃ DESMONTA SONHO DA "TERRA PROMETIDA"

Trabalho Escravo: Operação de resgate visa seita religiosa que atuava em municípios mineiros, baianos e paulistas


trabalho análogo a escravidão
Operação Canaã desmonta sonho da “terra prometida” por seita para trabalhadores – Número de resgatados pode chegar a 900 de acordo com estimativa da Polícia Federal
Trabalhadores em condição análoga à de escravo foram resgatados nesta terça-feira (6) em 15 municípios de Minas Gerais, São Paulo e Bahia. Em uma avaliação preliminar da Polícia Federal, haveria cerca de 900 pessoas trabalhando de forma irregular. Como a ação ainda está em andamento, o número deve sofrer alteração. Foi uma das maiores operações de resgate já realizadas no país nos últimos anos. Pelo menos 22 pessoas foram presas.
Batizada de Operação Canaã – A Colheita Final, a ação envolveu 58 auditores-fiscais do Ministério do Trabalho integrantes do Grupo Especial de Fiscalização Móvel e das superintendências dos três estados, mais 220 policiais federais. O grupo cumpriu 22 mandados de prisão preventiva, 17 de interdição de estabelecimento comercial e 42 de busca e apreensão.
O nome da Operação é uma referência bíblica à terra prometida, já que os trabalhadores teriam sido aliciados por dirigentes de uma seita religiosa conhecida como Comunidade Evangélica Jesus, a verdade que marca. Eles teriam sido abordados na sede da igreja na capital paulistana, onde teriam sido convencidos a doar os bens para as associações controladas pela organização e convencidos a mudar-se para uma comunidade, onde todos os bens móveis e imóveis seriam compartilhados.
Após serem induzidos, os fiéis doutrinados foram levados para zonas rurais e urbanas em Minas Gerais (Contagem, Caxambu, Betim, Andrelândia, Minduri, Madre de Deus, São Vicente de Minas, Pouso Alegre e Poços de Caldas), na Bahia (Ibotirama, Luiz Eduardo Magalhães, Wanderley e Barra) e em São Paulo (capital). Eles trabalhavam em lavouras e em estabelecimentos comerciais como oficinas mecânicas, postos de gasolina, pastelarias, confecções e restaurantes, todos comandados pelos líderes da seita.
Investigação
O chefe do Grupo Especial de Fiscalização Móvel do Ministério do Trabalho, Maurício Krepsky Fagundes, explica que a operação desta terça foi resultado de uma investigação conduzida pela Polícia Federal. Um dos itens que mais chamou à atenção dos policiais foi o crescimento do patrimônio pessoal dos líderes da seita e o aumento dos fiéis agregados nos últimos cinco anos.
“Desde 2013, tem sido feito um trabalho de inteligência para achar os locais onde os aliciados trabalhavam, as fraudes praticadas pela organização criminosa e, principalmente, a caracterização do crime de tráfico de pessoas”, destaca Maurício.
O chefe da equipe de fiscalização do Ministério espera que a operação contribua para o fim das operações da seita. As atividades comerciais de estabelecimentos pertencentes ao grupo já foram encerradas. E os auditores-fiscais do MTb seguem ouvindo todos os trabalhadores encontrados durante a operação para saber detalhes do que ocorria com cada um deles nas áreas onde foram encontradas as irregularidades.
Nos casos onde for confirmado o trabalho escravo, serão feitos os cálculos dos direitos trabalhistas, que deverão ser pagos pelas empresas criadas pela seita retroativamente desde a data em que os trabalhadores começaram a prestar os serviços. Os trabalhadores também serão encaminhados ao Programa de Seguro-Desemprego para Resgatados.
Histórico
A Operação Canaã teve origem em 2013, quando ocorreu o resgate de 348 trabalhadores na União Agropecuária Novo Horizonte S.A. e em empresas urbanas. O relatório dessa ação fiscal gerou uma ação penal do Ministério Público Federal (MPF), que determinou o retorno dos auditores-fiscais e dos agentes da PF aos locais investigados para averiguar a situação atual.
Na Polícia Federal, a investigação teve início quando a seita estava migrando de São Paulo para Minas Gerais. Em 2015, foi desencadeada sua segunda fase: “De volta para Canaã”, quando foram presos temporariamente cinco dos líderes da seita.
A deflagração desta terça-feira representa a terceira fase da operação, com a prisão preventiva de 22 líderes da seita que, segundo a Polícia Federal, poderão cumprir até 42 anos de prisão, se condenados. O líder da seita, conhecido como Pastor Cícero, está foragido.
Informe do Ministério do Trabalho, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 07/02/2018

SANTA CATARINA E OS GARIMPOS ILEGAIS NA AMAZÔNIA.

Ibama apreende 430 kg de mercúrio e suspende importadora em SC, que abasteceria garimpos ilegais na Amazônia


Ibama

Agentes do Ibama vistoriam galpão de empresa responsável pela importação irregular de mercúrio em SC
Agentes do Ibama vistoriam galpão de empresa responsável pela importação irregular de mercúrio em SC. Foto: Ibama

Agentes do Ibama apreenderam 430 quilos de mercúrio e suspenderam as atividades de uma empresa do setor químico em Joinville (SC) responsável pela importação irregular do produto. Investigação realizada pelo Instituto em três estados aponta que o mercúrio abasteceria garimpos ilegais na Amazônia.
Os responsáveis foram autuados em R$ 1,5 milhão pela venda ilegal e por prestar informações falsas. Maior importadora de mercúrio do país, a empresa comercializou 6,8 toneladas da substância nos últimos três anos.
Os agentes ambientais constataram que a importadora simulava a venda e o transporte de mercúrio para uma empresa de fachada em Várzea Grande (MT). No endereço do suposto comprador, informado ao Ibama no Cadastro Técnico Federal (CTF), funciona uma mercearia.
“As investigações agora serão direcionadas para os receptadores e responsáveis pelo transporte”, diz o analista ambiental Bruno Barbosa. Está prevista a chegada ao país de um navio do Oriente Médio com mais duas toneladas do produto. A empresa foi notificada pelo Ibama e deverá prestar todas as informações relacionadas à carga.
O uso indiscriminado de mercúrio é nocivo à saúde e causa graves problemas ambientais. Sua persistência no meio ambiente, associada à tendência de bioacumulação e à propagação atmosférica de longa distância, causa preocupação à comunidade internacional. O Brasil é um dos signatários da Convenção de Minamata, da Organização das Nações Unidas (ONU), que restringe o uso do mercúrio com o objetivo de proteger a saúde humana e o meio ambiente.
Sem o controle adequado, o metal é negociado clandestinamente para a exploração ilegal de ouro. No garimpo, o mercúrio usado para separar o ouro de outros minerais é carreado para corpos hídricos, o que resulta na contaminação de toda a cadeia alimentar.
“O comércio clandestino de mercúrio fomenta o garimpo ilegal, que resulta na destruição da Amazônia e do modo de vida dos povos da floresta”, afirma o coordenador-geral de Fiscalização Ambiental, Renê Luiz de Oliveira.
Os relatórios da operação serão encaminhados ao Ministério Público Federal (MPF) e à Polícia Federal (PF) para apuração no âmbito criminal.
Do Ibama, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 07/02/2018

AUDIÊNCIAS PÚBLICAS DISCUTEM A CRIAÇÃO DA MAIOR RESERVA MARINHA DO ATLÂNTICO

Audiências públicas discutem a criação da maior reserva marinha do Atlântico

Audiências públicas discutem, nesta semana, criação de Unidades de Conservação que podem elevar de 1,5% para cerca de 20% a parcela de ecossistemas costeiros-marinhos protegidos no Brasil


Ilha de Trindade, na parte litorânea do PNSB - foto: Thalita Monfort
Ilha de Trindade, na parte litorânea do PNSB – foto: Thalita Monfort / ICMBio

Nesta quinta-feira (08/02), será realizada na Assembleia Legislativa do Estado do Espírito Santo Audiência Pública para debater a criação de Unidades de Conservação (UC) que ampliam a proteção de área marinha na localidade do arquipélago Trindade e Martim Vaz, a cerca de 1.000 quilômetros a leste de Vitória (ES).
O ponto remoto, localizado no oceano Atlântico, tem sido objeto de estudos de pesquisadores da Associação Ambiental Voz da Natureza, Universidade Federal do Espírito Santo, e outras instituições, com apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, e revelado descobertas de extrema importância para a vida marinha brasileira. Em outubro do ano passado, a Fundação Grupo Boticário realizou, em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Ministério do Meio Ambiente (MMA), um seminário para apresentar e discutir propostas de criação de Áreas Protegidas Marinhas. “Na ocasião, discutimos esse e outros projetos, com o objetivo de unir forças para que o Brasil atinja o compromisso assumido internacionalmente de proteção dos seus ecossistemas marinhos e costeiros, o que tem se mostrado possível. Graças ao desdobramento do evento, tornamos visível a área aos olhos do Governo”, analisa o Coordenador de Ciência e Conservação da Fundação Grupo Boticário, Emerson Oliveira.
A Cadeia Vitória-Trindade é composta por cerca de 30 montes submarinos de origem vulcânica, que formam uma cordilheira submersa na costa do Espírito Santo. De acordo com o grupo de pesquisadores, liderados por Hudson Pinheiro, a reserva teria cerca de 450 mil quilômetros quadrados. A cordilheira conta com a maior variedade de espécies que vivem em recifes, dentre todas as ilhas brasileiras. Ao todo, já foram registadas 270 espécies de peixes recifais – destas, 13 espécies são endêmicas (restritas ao local) e 24 delas ameaçadas de extinção -, uma das mais altas taxas de diversidade entre todas as ilhas do Atlântico. Além disso, o local conta com cerca de 140 tipos de moluscos, 28 de esponjas, 87 de peixes de mar aberto, 17 de tubarões e 12 de golfinhos e baleias.
No momento, oito pesquisadores envolvidos no projeto estão embarcados em uma expedição que pretende ultrapassar, pela primeira vez, o maior ponto alcançado no fundo do mar local (até agora foram alcançados 80 metros de profundidade). Abaixo dessa zona, os pesquisadores esperam encontrar espécies distintas das vistas até agora. “A região em questão pode tornar-se uma das maiores reservas marinhas do Atlântico e boa parte do que se sabe sobre a biodiversidade da região foi descoberta por meio de projetos apoiados pela Fundação Grupo Boticário”, recorda Emerson.
A audiência pública é uma das etapas necessárias para a criação de UCs e está prevista na Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). Na ocasião, serão ouvidas as opiniões dos diferentes setores da sociedade interessados no tema e apresentados os estudos que fundamentam a formalização das Unidades. A expectativa é que, após o encontro, o Ministério do Meio Ambiente encaminhe à Presidência da República as minutas de decretos para a criação dessas Unidades de Conservação, o que deve acontecer até o fim de março.
Mais áreas marinhas protegidas
Além do arquipélago Trindade e Martim Vaz outra área também está inserida no processo de criação das novas unidades de conservação marinhas. Os arquipélagos São Pedro e São Paulo, localizados na parte central do oceano Atlântico Equatorial formam o menor e mais isolado arquipélago tropical do planeta. As ilhas são ricas em biodiversidade, com espécies de fauna e flora endêmicas ou ameaçadas de extinção, e cumprem uma função estratégica na delimitação e proteção do mar territorial brasileiro. Essa área também está sendo discutida e a audiência pública foi realizada nesta quarta-feira (07/02), na Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco.
O estabelecimento de novas Unidades de Conservação está entre as medidas necessárias para o alcance das Metas de Aichi previstas no Plano Estratégico de Biodiversidade. “Um dos compromissos, inserido na meta 11 de Aichi, é que, até 2020 sejam protegidos pelo menos 10% da área marinha. Atualmente, a percentagem de proteção no Brasil é de 1,5% e, após a criação dessas UCs, o Brasil certamente ultrapassará essa meta”, destaca Emerson Oliveira. Informações divulgadas pelo ICMBio reforçam ainda que a área de proteção marinha brasileira passaria a atingir cerca de 25% da zona econômica exclusiva (ZEE).
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 08/02/2018

CHINA VAI RECICLAR PLÁSTICO.

China decide deixar de importar plástico para reciclar, deixando países como Reino Unido e Estados Unidos com menos soluções


Foto ONU: Martine Perret - Em 2016, o país asiático importou 8 milhões de toneladas de plástico.
Foto ONU: Martine Perret – Em 2016, o país asiático importou 8 milhões de toneladas de plástico.
Alexandre Soares, da ONU News em Nova Iorque.
No fim do ano passado, a China decidiu parar de importar plástico para reciclar de outros países, deixando várias nações ocidentais à procura de soluções. A notícia foi celebrada num artigo de opinião da agência ONU Meio Ambiente, que foi assinado por Verena Balke.
Segundo ela, em nível global apenas 14% de todo o plástico é reciclado. As máquinas atuais não são capazes de separar o plástico, por isso muito deste material era comprimido e enviado para a China, onde era tratado manualmente.
Importações
Em 2016, o país asiático importou 8 milhões de toneladas de plástico.
Esta prática teve efeitos desastrosas na saúde das pessoas na China. E segundo o artigo, a nação asiática decidiu, em dezembro, terminar com estas importações. Países como os Estados Unidos e o Reino Unido têm agora de encontrar uma solução. Nestas primeiras semanas, algumas nações têm optado por enterrar o lixo ou queimá-lo, mas a agência da ONU acredita que devem ser usadas outras praticas.
Verena Balke diz que “a decisão da China não deve significar que o problema do desperdício de plástico é transferido para outros países ou enterrado em lixeiras.”
Mas este momento deve ser usado como um ponto de mudança para desenvolver práticas sustentáveis e aumentar as taxas de reciclagem em países que exportam lixo.
Políticas
Balke diz que os governos devem “usar a oportunidade para cortar o desperdício de plástico onde ele começa” e desenvolver um conjunto de políticas que ajudem a transformar as economias em motores de sustentabilidade.
A especialista diz que a investigação na área ainda é limitada, mas que a ONU Meio Ambiente e a Parceria Para a Ação pela Economia Verde, Page, lideram esta área, fornecendo dados concretos e conselhos sobre novas iniciativas.
Em 22 de fevereiro, a Page organiza um evento sobre este tema, lançando três novos documentos sobre políticas industriais ambientais.
Segundo o Worldwatch Institute, os cidadãos dos países da América do Norte e da Europa produzem, em média, 100 quilos de plástico por ano.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 09/02/2018

FLORESTAS TROPICAIS

Repensando nossa visão sobre as florestas tropicais


Caros colegas,
De vez em quando, surge um artigo que sugere rever a nossa visão de mundo. Para aqueles que estudam as florestas tropicais do mundo, o anexo – que acabou de aparecer no PNAS – é um desses papéis.
Notavelmente, a distinção antiga entre as florestas tropicais “Velho Mundo” e “Novo Mundo” é uma falsa dicotomia.
Em vez disso, as florestas tropicais podem ser agrupadas em floras “americanas” e “africanas”, que são elas mesmas bastante alinhadas de forma evolutiva.
Muito distintivo desses dois modelos é a flora “Indo-Pacífico”, que, notavelmente, inclui não apenas florestas tropicais da região da Ásia-Pacífico, mas também se estende até Madagascar e África Oriental.
Existem outras tendências notáveis: por exemplo, em todo o planeta, as florestas secas tropicais são praticamente um único modelo, em um nível amplo.
Essas descobertas manterão os biogeógrafo acordados à noite – tentando repensar como eles vêem o mundo. Em particular, a idéia de que as florestas tropicais africanas contém um elemento africano distintivo (na África Central e Ocidental) e um elemento Indo-Pacífico completamente diferente e altamente distinto (na África Oriental) é suficiente para motivar a mente, tudo por si só.
Recomendo a leitura do estudo [ ‘Phylogenetic classification of the world’s tropical forests‘ https://doi.org/10.1073/pnas.1714977115 ], do qual sou apenas um co-autor menor. Ferry Slik liderou este estudo notável.
Phylogenetic classification of the world’s tropical forests
Mapas de classificação das florestas tropicais do mundo, mostrando dois (A), três (B), quatro (C) e cinco (D) clusters. O resultado do cluster representa uma árvore de consenso de regra da maioria, com a porcentagem de vezes que cada agrupamento foi observado nas 20 análises de cluster separadas mostradas em D. Somente locais que podem ser classificados com certeza (P <0 mostrados="" n="392).</em" o="" s="">
Referência:
Phylogenetic classification of the world’s tropical forests
Proceedings of the National Academy of Sciences Feb 2018, 201714977; DOI: 10.1073/pnas.1714977115
https://doi.org/10.1073/pnas.1714977115
Cordialmente
Bill
William F. Laurance, PhD, FAA, FAAAS, FRSQ
Distinguished Research Professor
Australian Laureate & Prince Bernhard Chair in International Nature Conservation (Emeritus)
Director of the Centre for Tropical Environmental and Sustainability Science (TESS)
Director of ALERT (ALERT-conservation.org)
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 09/02/2018