terça-feira, 14 de janeiro de 2020

ANTROPOCENO : A ERA DO COLAPSO AMBIENTAL.

Antropoceno: a Era do colapso ambiental, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


Estamos em um carro gigante, acelerando na direção de uma parede de tijolos e
todo mundo fica discutindo sobre onde cada um vai sentar”
David Suzuki
antropoceno
[EcoDebate] O Homo sapiens surgiu e se espalhou pelo mundo no período geológico do Pleistoceno, mas foi no Holoceno que floresceu a civilização e a espécie humana se tornou uma força onipresente no território global. A população mundial era de cerca de 5 milhões de habitantes no início do período Holoceno, há cerca de 12 mil anos. A estabilidade climática do Holoceno propiciou o florescimento do desenvolvimento econômico e social e o ser humano expandiu as atividades agrícolas, a domesticação dos animais, construiu cidades e montou uma máquina de produção e consumo de bens e serviços jamais vista nos 4,5 bilhões de anos da Terra.
O crescimento da população e da produção foi de tal ordem que prêmio Nobel de Química, Paul Crutzen, avaliando o grau do impacto destruidor das atividades humanas sobre a natureza afirmou que o mundo entrou em uma nova era geológica, a do ANTROPOCENO, que significa “época da dominação humana”. Representa um novo período da história do Planeta, em que o ser humano se tornou a força impulsionadora da degradação ambiental e o vetor de ações que são catalisadoras de uma provável catástrofe ecológica.
A Terra entrou em uma espiral da morte. A 6ª extinção em massa das espécies e a crise climática são as ameaças mais urgentes do nosso tempo. E o tempo para reverter esta espiral da morte está se esgotando. Será necessária uma ação radical para salvar a vida no Planeta. O progresso demoeconômico tem gerado externalidades negativas para o meio ambiente.
O Antropoceno é uma Era sincrônica à modernidade urbano-industrial. A Revolução Industrial e Energética que teve início na Europa no último quartel do século XVIII deu início ao uso generalizado de combustíveis fósseis e à produção em massa de mercadorias e meios de subsistência, possibilitando uma expansão exponencial das atividades antrópicas.
Em 250 anos, a economia global cresceu 135 vezes, a população mundial cresceu 9,2 vezes e a renda per capita cresceu 15 vezes. Este crescimento demoeconômico foi maior do que o de todo o período dos 200 mil anos anteriores, desde o surgimento do Homo sapiens. Mas todo o crescimento e enriquecimento humano ocorreu às custas do encolhimento e empobrecimento do meio ambiente. O conjunto das atividades antrópicas ultrapassou a capacidade de carga da Terra e a Pegada Ecológica da humanidade extrapolou a Biocapacidade do Planeta. A dívida do ser humano com a natureza cresce a cada dia e a degradação ambiental pode, no limite, destruir a base ecológica que sustenta a economia e a sobrevivência humana.
crescimento da economia, da população e da renda per capita mundial: 1770-2020
No Antropoceno, a humanidade danificou o equilíbrio homeostático existente em todas as áreas naturais. Alterou a química da atmosfera, promoveu a acidificação dos solos e das águas, poluiu rios, lagos e os oceanos, reduziu a disponibilidade de água potável, ultrapassou a capacidade de carga da Terra e está promovendo uma grande extinção em massa das espécies. O egoísmo, a gula e a ganância humana provoca danos irreparáveis e um ecocídio generalizado, que pode se transformar em suicídio.
As emissões de gases de efeito estufa (GEE) romperam com o nível de concentração de CO2 na atmosfera, de no máximo 280 partes por milhão (ppm) prevalecente durante todo o Holoceno, e, em 2019, já está acima de 410 ppm e subindo cerca de 2,5 ppm ao ano, na atual década.
Com mais GEE na atmosfera, a temperatura média tem subido e a Terra está acima de um grau mais quente do que o período pré-industrial, podendo iniciar um período de descontrole climático. Esta possibilidade foi aventada em estudo de Steffen e colegas (2018) que indicou que a Terra pode entrar em uma situação com clima tão quente que pode elevar as temperaturas médias globais a até cinco graus Celsius acima das temperaturas pré-industriais. Isto teria várias implicações, como acidificação dos solos e das águas e aumentos no nível dos oceanos entre 10 e 60 metros.
O estudo mostra que o aquecimento global causado pelas atividades antrópicas de 2º Celsius pode desencadear outros processos de retroalimentação, podendo desencadear a liberação incontrolável na atmosfera do carbono armazenado no permafrost, nas calotas polares, etc. Em função do efeito dominó, as “esponjas” que absorviam carbono podem se tornar fontes de emissão de CO2 e piorar significativamente os problemas do aquecimento global. Isto provocaria o fenômeno “Terra Estufa”, o que levaria à temperatura ao recorde dos últimos 1,2 milhão de anos. Os seja, caso este cenário se torne realidade, seria algo parecido com o apocalipse para a vida humana e não humana no Planeta.
Para avaliar os piores cenários do aquecimento global, o jornalista David Wallace-Wells publicou, o livro “The Uninhabitable Earth: Life After Warming” (fevereiro de 2019), mostrando que o aquecimento global vai ser abrangente, terá um impacto muito rápido e vai durar muito tempo. Isto quer dizer que os efeitos danosos das mudanças climáticas vão se agravar com o tempo e, embora todas as gerações já estejam sendo atingidas, são as crianças e jovens que nasceram no século XXI que vão sentir as maiores consequências do colapso ambiental. As ondas de calor vão deixar diversas áreas da Terra inabitáveis.
Artigo de Camilo Mora et. al., “Broad threat to humanity from cumulative climate hazards intensified by greenhouse gas emissions”, publicado na prestigiosa revista Nature Climate Change (19/11/2018), mostra que as mudanças climáticas trarão múltiplos desastres de uma só vez. “Enfrentar essas mudanças climáticas será como entrar em uma briga com Mike Tyson, Schwarzenegger, Stallone e Jackie Chan – tudo ao mesmo tempo”, disse o principal autor do estudo, que descreve os inúmeros impactos que devem atingir a civilização nos próximos anos.
impactos dos riscos climáticos sobre a humanidade
No total, os pesquisadores identificaram 467 maneiras distintas em que a sociedade já está sendo impactada pelo aumento dos extremos climáticos e, em seguida, expuseram como essas ameaças provavelmente se acumularão umas nas outras nas próximas décadas (ver gráfico abaixo). Se algo não for feito para reduzir drasticamente as emissões de gases do efeito estufa, em vez de lidar com um único grande risco de cada vez, as pessoas em todo o mundo podem ser forçadas a lidar com três a seis ao mesmo tempo.
A solução mais simples e barata para evitar o aquecimento global seria o aumento da cobertura vegetal do mundo para funcionar como absorvedores de carbono. Mas está acontecendo o contrário. Existiam 6 trilhões de árvores no mundo e este número cai pela metade. A humanidade já destruiu a metade de todas as árvores do planeta desde o avanço exponencial da pegada ecológica da civilização, segundo um estudo da Universidade de Yale, publicado pela revista científica Nature, conforme estudo de Crowther et al (Nature, 2015). Mas o pior é que os seres humanos estão destruindo 15 bilhões de árvores por ano, enquanto o aparecimento de novas árvores e o reflorestamento é de somente 5 bilhões de unidades. Ou seja, o Planeta está perdendo 10 bilhões de árvores por ano e pode eliminar todo o estoque de 3 trilhões de árvores em 300 anos. O Brasil é o país que mais desmata e menos refloresta, além de bater todos os recordes de desmatamento em 2019.
Além do aquecimento global e da perda de cobertura florestal, a humanidade está degradando os solos e as fontes de água potável. O relatório “Climate Change and Land”, do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, publicado dia 08 de agosto de 2019, mostra que existe um efeito perverso de retroalimentação entre a produção de alimentos e o aquecimento global. O relatório mostrou que o crescimento da população mundial e o aumento do consumo per capita de alimentos (ração, fibra, madeira e energia) têm causado taxas sem precedentes de uso de terra e água doce, com a agricultura atualmente respondendo por cerca de 70% do uso global de água doce.
O relatório diz que, se o aquecimento global ultrapassar o limite de 2ºC estabelecido pelo Acordo de Paris, provavelmente as terras férteis se transformarão em desertos, as infraestruturas vão se desmoronar com o degelo do permafrost, e a seca e os fenômenos meteorológicos extremos colocarão em risco o sistema alimentar. Já estão aumentando as queimadas, os incêndios florestais e a frequência e a intensidade dos furacões, tufões e ciclones.
Enquanto cresce a população humana e seus efeitos negativos sobre o Sistema Terra, as populações não humanas definham e são arrasadas. A jornalista Elizabeth Kolbert, no livro The Sixth Extinctiondocumenta o processo de extinção das espécies que ocorre com o avanço da civilização. O Ecocídio é um crime que acontece contra as espécies animais e vegetais do Planeta. Esse crime se espalha no mundo em uma escala maciça e a cada dia fica pior. O desaparecimento ou grande redução dos insetos e, em especial, das abelhas ameaça a agricultura e a vida selvagem, pois não há reprodução da flora sem os polinizadores.
O último Relatório Planeta Vivo (2018) divulgado pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF), mostra que o avanço da produção e consumo da humanidade tem provocado uma degradação generalizada dos ecossistemas globais e gerado uma aniquilação da vida selvagem: as populações de vertebrados silvestres, como mamíferos, pássaros, peixes, répteis e anfíbios, sofreram uma redução de 60% entre 1970 e 2014. Confirmando o impacto devastador das atividades humanas sobre a natureza, a Plataforma Intergovernamental para Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, na sigla em inglês), da ONU, mostrou que há 1 milhão de espécies ameaçadas de extinção. O relatório elaborado nos últimos três anos, e divulgado em maio de 2019, fez uma avaliação do ecossistema mundial, com base na análise de 15 mil materiais de referência.
Estudo do Centro Nacional Breakthrough para a Restauração do Clima, um think-tank em Melbourne, Austrália (Barrie, 2019), descreve as mudanças climáticas como “uma ameaça existencial de médio prazo à civilização humana”. O documento argumenta que os “resultados extremamente sérios” das ameaças à segurança, relacionadas ao clima são, com frequência, muito mais prováveis do que o convencionalmente assumido, mas quase impossível de quantificar porque “estão fora da experiência humana dos últimos mil anos”. Na atual trajetória, adverte o relatório: “os sistemas planetário e humano devem atingir um ‘ponto de não retorno’ até meados do século, no qual a perspectiva de uma Terra praticamente inabitável leva ao colapso das nações e da ordem internacional.
Portanto, o avanço do progresso humano tem seus limites no processo de empobrecimento do meio ambiente. A ideia utópica de uma harmonia entre o crescimento da população e o desenvolvimento está se transformando em uma distopia, pois o desenvolvimento sustentável virou um oximoro.
A Divisão de População da ONU estima que até 2100 a população mundial deve atingir cerca de 11 bilhões de habitantes e além dos problemas ambientais, existem todos os problemas de desigualdades sociais que tornam o mundo um barril de pólvora. Toda a humanidade perderá, mas o apartheid social será reforçado pelo apartheid climático, pois os pobres pagarão um preço proporcionalmente maior pelos danos causados principalmente pelos ricos (Alves, 2015).
O fato é que vivemos numa sociedade de risco que gera negatividades crescentes. Assim como o desenvolvimento sustentável se tornou uma contradição em termos, o tripé da sustentabilidade virou um trilema, segundo Martine e Alves (2015). Uma “Terra estufa” e com menos biodiversidade será não só um lugar arriscado para se habitar, mas o Planeta pode ter maiores extensões territoriais cada vez mais inabitáveis.
O aquecimento global, a extinção das espécies a redução da biodiversidade, além da perda de fertilidade dos solos, numa situação de críse hídrica, pode ser prenúncio de um colapso ambiental e social. O professor Jem Bendell: “A mudança climática é agora uma emergência planetária que representa uma ameaça existencial para a humanidade”. Ele prevê um colapso ecológico acontecendo no curto prazo temporal de uma geração.
Segundo Kevin Casey (20/11/2019), o modelo de desenvolvimento e o crescimento demoeconômico são as verdadeiras causas da crise climática e ambiental atual. Ele diz: “O crescimento econômico precisa do crescimento populacional para se sustentar. Mas quando um planeta empobrecido não pode mais carregar o fardo de uma população inflada e suas infinitas demandas, o crescimento não passa de uma ilusão perigosa. A ‘economia saudável’ de hoje é a miséria distópica de amanhã”.
Na história e na natureza, não é incomum a plenitude e a morte coincidirem no tempo. Assim, também não é despropositado supor que o Antropoceno – época da dominação antrópica – possa ser também o começo do fim da Era humana.
José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382
Referências:
ALVES, JED. A crise do capital no século XXI: choque ambiental e choque marxista. Salvador, Revista Dialética Edição 7, vol 6, ano 5, junho de 2015 http://revistadialetica.com.br/wp-content/uploads/2016/04/005-a-crise-do-capital-no-seculo-xxi.pdf
Camilo Mora et. al. Broad threat to humanity from cumulative climate hazards intensified by greenhouse gas emissions, Nature climate change, 19/11/2018
Chris Barrie. Can we think in new ways about the existential human security risks driven by the climate crisis? Centro Nacional Breakthrough para a Restauração do Clima, Melbourne, 30/05/2019 http://www.climatecodered.org/2019/05/can-we-think-in-new-ways-about.html
Crowther, T.W., H.B. Glick, K.R. Covey, + 30 authors. Mapping tree density at a global scale. Nature 525, 201–205, 2015 https://www.nature.com/articles/nature14967?proof=true
David Wallace-Wells. The Uninhabitable Earth: Life After Warming, 2019
IPCC. Climate Change and Land. An IPCC Special Report on climate change, desertification, land
degradation, sustainable land management, food security, and greenhouse gas fluxes in terrestrial ecosystems, 08/08/2019
MARTINE, G. ALVES, JED. Economia, sociedade e meio ambiente no século 21: tripé ou trilema da sustentabilidade? R. bras. Est. Pop. Rebep, n. 32, v. 3, Rio de Janeiro, 2015 (em português e em inglês) http://www.scielo.br/pdf/rbepop/2015nahead/0102-3098-rbepop-S0102-3098201500000027P.pdf
MARTINE, G. ALVES, JED. “Disarray in Global Governance and Climate Change Chaos”, R. bras. Est. Pop., v.36, 1-30, e0075, 2019 https://www.rebep.org.br/revista/article/view/1317/1001
Steffen et. al. Trajectories of the Earth System in the Anthropocene, PNAS August 6, 2018. 06/08/2018 http://www.pnas.org/content/early/2018/07/31/1810141115
Jem Bendell. Deep Adaptation: A Map for Navigating Climate Tragedy, IFLAS Occasional Paper, 27 July 27th 20181 http://lifeworth.com/DeepAdaptation-pt.pdf
Kevin Casey. Why climate change is an irrelevance, economic growth is a myth and sustainability is forty years too late. Global Comment, 20/11/2019

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/01/2020

EMERGÊNCIA CLIMÁTICA : ESTUDO CONFIRMA QUE OS MODELOS CLIMÁTICOS ESTÃO ACERTANDO AS PROJEÇÕES DE AQUECIMENTO FUTURO.

Emergência Climática: Estudo confirma que os modelos climáticos estão acertando as projeções de aquecimento futuro


Por Alan Buis*, Laboratório de Propulsão a Jato da NASA
Uma animação de uma simulação de modelo climático do GISS (Instituto Goddard de Estudos Espaciais) feita para o Quarto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, mostrando anomalias médias de cinco anos da temperatura do ar da superfície em graus Celsius, em graus Celsius, de 1880 a 2100. A anomalia de temperatura é uma medida de quanto está mais quente ou mais frio em um local e tempo específicos do que a temperatura média de longo prazo, definida como a temperatura média no período de 30 anos entre 1951 e 1980. As áreas azuis representam áreas frias e amarelo e amarelo. áreas vermelhas representam áreas mais quentes. O número no canto superior direito representa a anomalia média global. Crédito: Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA
Há um velho ditado que diz que “a prova está no pudim”, significando que você só pode realmente avaliar a qualidade de algo depois de testado. É o caso dos modelos climáticos: simulações matemáticas por computador dos vários fatores que interagem para afetar o clima da Terra, como nossa atmosfera, oceano, gelo, superfície terrestre e o Sol.
Durante décadas, as pessoas se perguntaram legitimamente o desempenho dos modelos climáticos na previsão de condições climáticas futuras. Com base na física sólida e na melhor compreensão do sistema terrestre disponível, eles habilmente reproduzem os dados observados. No entanto, eles têm uma ampla resposta ao aumento dos níveis de dióxido de carbono e muitas incertezas permanecem nos detalhes. A marca registrada da boa ciência, no entanto, é a capacidade de fazer previsões testáveis, e os modelos climáticos vêm fazendo previsões desde a década de 1970. Quão confiáveis ??eles têm sido?
Agora, uma nova avaliação dos modelos climáticos globais usados ??para projetar as futuras temperaturas médias globais da superfície da Terra nos últimos meio século responde a essa pergunta: a maioria dos modelos tem sido bastante precisa.
modelos utilizados no 4º Relatório de Avaliação do IPCC
Os modelos utilizados no 4º Relatório de Avaliação do IPCC podem ser avaliados comparando as previsões de aproximadamente 20 anos com o que realmente aconteceu. Nesta figura, o conjunto de vários modelos e a média de todos os modelos são plotados ao lado do Índice de Temperatura da Superfície do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA (GISS) (GISTEMP) . Os fatores climáticos eram conhecidos pelo período de ‘hindcast’ (antes de 2000) e previstos para o período posterior. As temperaturas são plotadas em relação a uma linha de base 1980-1999. Crédito: Gavin Schmidt

Em um estudo aceito para publicação na revista Geophysical Research Letters, uma equipe de pesquisa liderada por Zeke Hausfather, da Universidade da Califórnia, Berkeley, conduziu uma avaliação sistemática do desempenho de modelos climáticos anteriores. A equipe comparou 17 projeções de modelos cada vez mais sofisticadas da temperatura média global desenvolvidas entre 1970 e 2007, incluindo algumas originalmente desenvolvidas pela NASA, com mudanças reais na temperatura global observadas até o final de 2017. Os dados de temperatura observacionais vieram de várias fontes, incluindo Goddard da NASA Séries temporais do Institute for Space Studies Analysis (GISTEMP), uma estimativa da mudança global da temperatura da superfície.
Os resultados: 10 das projeções do modelo coincidiram com as observações. Além disso, depois de considerar as diferenças entre as mudanças modeladas e reais no dióxido de carbono atmosférico e outros fatores que impulsionam o clima, o número aumentou para 14. Os autores não encontraram evidências de que os modelos climáticos tenham avaliado sistematicamente superestimado ou subestimado o aquecimento durante o período de suas projeções. .
“Os resultados deste estudo de modelos climáticos anteriores reforçam a confiança dos cientistas de que tanto eles quanto os modelos climáticos mais avançados de hoje estão habilmente projetando o aquecimento global”, disse o co-autor do estudo Gavin Schmidt, diretor do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA. Iorque. “Esta pesquisa pode ajudar a resolver a confusão pública sobre o desempenho de esforços anteriores de modelagem climática”.
Os cientistas usam modelos climáticos para entender melhor como o clima da Terra mudou no passado, como está mudando agora e para prever tendências climáticas futuras. As tendências da temperatura global estão entre as previsões mais significativas, uma vez que o aquecimento global tem efeitos generalizados, está diretamente ligado a acordos internacionais para mitigar o aquecimento climático futuro e possui os registros observacionais mais longos e precisos. Outras variáveis climáticas são previstas nos modelos mais novos e complexos, e essas previsões também precisam ser avaliadas.
Para corresponder com sucesso a novos dados observacionais, as projeções do modelo climático precisam encapsular a física do clima e também fazer previsões precisas sobre os níveis futuros de emissão de dióxido de carbono e outros fatores que afetam o clima, como variabilidade solar, vulcões, outras emissões naturais e produzidas pelo homem de gases de efeito estufa e aerossóis. A contabilização deste estudo das diferenças entre as emissões projetadas e reais e outros fatores permitiu uma avaliação mais focada da representação dos modelos do sistema climático da Terra.
Schmidt diz que os modelos climáticos percorreram um longo caminho desde os modelos simples de balanço de energia e circulação geral da década de 1960 e início dos anos 70 aos atuais modelos de circulação geral cada vez mais em alta resolução e abrangentes. “O fato de muitos dos modelos climáticos mais antigos que analisamos projetar com precisão as temperaturas globais subsequentes é particularmente impressionante, dada a evidência observacional limitada de aquecimento que os cientistas tiveram na década de 1970, quando a Terra estava esfriando por algumas décadas”, disse ele.
Os autores afirmam que, embora a relativa simplicidade dos modelos analisados torne obsoletas as projeções climáticas, eles ainda podem ser úteis na verificação de métodos usados para avaliar os atuais modelos climáticos de última geração, como os usados nos Estados Unidos. Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, sexto relatório, a ser lançado em 2022.
“À medida que as projeções do modelo climático amadurecem, mais sinais emergiram do ruído da variabilidade natural que permite a avaliação retrospectiva de outros aspectos dos modelos climáticos – por exemplo, no gelo do Ártico e no conteúdo de calor do oceano”, disse Schmidt. “Mas são as tendências de temperatura nas quais as pessoas ainda tendem a se concentrar.”

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/01/2020

O HÁBITO DA LEITURA E SEU IMPACTO NO DESENVOLVIMENTO.

O hábito da leitura e seu impacto no desenvolvimento, artigo de Luiz Alberto Machado


livros
Foto: EBC
[EcoDebate] Criado em 7 de janeiro de 1928, pelo poeta e jornalista Demócrito Rocha. O Dia do Leitor é uma homenagem à fundação do jornal cearense “O Povo”. O Jornal ficou conhecido por combater a corrupção e divulgar fatos políticos. Nele existia um suplemento chamado “Maracajá” que se tornou um espaço de divulgação do movimento modernista literário cearense na época. As obras de Demócrito Rocha são de grande importância para a cultural regional. O autor pertenceu à Academia Cearense de Letras, enquanto era vivo.
Os últimos dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em maio de 2018, apontaram que a taxa de analfabetismo da população com 15 anos ou mais de idade é de 7% em 2017. Esse número representa 11,5 milhões de brasileiros que não sabem ler e escrever. O índice estipulado pelo Plano Nacional de Educação (PNE) para 2015 foi de 6,5% da população.
A pesquisa mostrou melhora nos números de leitores no Brasil. Em 2011, 50% se declararam não leitores, isto é, não tinham lido nenhum livro nos últimos três meses. Já em 2015, o percentual de não leitores caiu para 44%, enquanto 56% da população declarou ter lido, inteiro ou em partes, pelo menos um livro no trimestre. O índice também apontou que o brasileiro lê, em média, 4,96 livros por ano, sendo que apenas 2,43 dessas obras foram terminadas.
O economista e professo Luiz Alberto Machado, listou algumas fatores importantes referentes ao hábito da leitura e seu impacto no desenvolvimento.

1. O fato

O recém-divulgado Anuário Brasileiro da Educação Básica, organizado pelo movimento Todos pela Educação, traz uma série de números que impressionam por sua magnitude. Analisando generalizadamente os números do Anuário, constata-se que os avanços são maiores no plano quantitativo do que no qualitativo.
Neste último plano, o que mais me preocupa é o baixo aproveitamento em aspectos essenciais como leitura e matemática. Menos da metade dos alunos atingiu níveis de proficiência considerados adequados ao fim do terceiro ano do ensino fundamental em leitura e matemática. Em relação à escrita, um terço dos alunos apresentou níveis insuficientes. As deficiências são mais acentuadas nas crianças de nível socioeconômico mais baixo.
“Ignorar os desafios reais da educação básica – adverte o Todos pela Educação – é também fechar os olhos à grave realidade socioeconômica, de falta de competitividade tecnológica, científica e produtiva que vivenciamos. […] Trata-se, principalmente, de reconhecer a urgência dos problemas, buscar aprender com as iniciativas de sucesso, entender os grandes números e contextualizá-los na realidade de cada localidade.” A educação precisa, com urgência, de um projeto estratégico. A crise de aprendizagem é a negação de um horizonte mais justo e mais humano para as novas gerações.
A mim, particularmente, preocupa a deficiência em leitura, uma vez que ela tem efeito multiplicador. Quem não lê satisfatoriamente, não consegue interpretar o enunciado de questões de qualquer outra disciplina, o que explica, seguramente, maus resultados em matemática, ciências, geografia ou história.
Mais de 35 anos dedicados ao ensino de diversas disciplinas nos cursos de ciências econômicas, engenharia e tecnologia dão-me segurança suficiente para concluir dessa forma.

2. A boa prática

Desde 2000, o Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial tem dedicado bastante atenção ao programa “Círculos de Leitura”, realizando encontros com grupos de até 15 alunos de escolas da rede pública para ler, discutir e produzir textos a partir de obras clássicas da literatura brasileira e universal. Dessa forma, busca apoiar o jovem no desenvolvimento de sua identidade, cidadania e relacionamento com a comunidade. A leitura e debate em grupo criam um espaço para adolescentes que querem compartilhar experiências e ampliar o universo de conhecimento por meio das palavras e do vínculo com o outro. Durante a prática dos Círculos de Leitura, emergem os “multiplicadores” – jovens que se destacam pelo talento, dedicação, ambição e potencial de liderança. No método desenvolvido pela psicanalista Catalina Pagés, coordenadora do programa, cabe ao multiplicador conduzir as práticas de leitura em que os estudantes se sentam em pequenas rodas e leem em voz alta, com pausas para reflexão em grupo.
Em 2011, uma das palestras intituladas Das quadras para a vida, ministradas com meu filho, e que deram origem ao livro com o mesmo título, foi dirigida a participantes desse projeto, envolvendo alunos e multiplicadores. Na ocasião, ficamos impressionados com o interesse e o envolvimento dos participantes.
No ano passado, ao completar 18 anos, o programa lançou um livro comemorativo, do qual foram extraídos muitos dos depoimentos deste artigo.
Neyr Maria Freitas Rodrigues Palmeira, superintendente escolar da 19ª Crede, em Juazeiro do Norte, região do Cariri, no estado do Ceará, afirma:
A metodologia e as estratégias dos Círculos contribuem para o rompimento de antigo paradigma no qual o aluno era concebido como mero receptor de informação, passando a atuar de forma autônoma na construção do conhecimento. Esperamos que as ações do programa Círculos de Leitura sejam cada vez mais fortalecidas e sistematizadas pela nossa rede educacional.
Aline Jacó pertence a um grupo que se tornou conhecido como “os jovens do Ceará”, que têm vencido barreiras econômicas e geográficas, contribuindo para escrever uma página nova desse estado que tanto sofreu com a seca em décadas passadas. Seu depoimento ilustra bem a importância que os Círculos de Leitura tiveram em sua vida:
Minha vivência nos Círculos de Leitura foi fundamental, pois me proporcionou também o amadurecimento e a coragem suficientes para adiantar o Ensino Médio e ir para a faculdade. Fui para a universidade e continuei atuando como multiplicadora voluntária em três locais: em minha escola, em uma escola infantil de minha cidade e em um centro de detenção de menores. Essa última experiência foi enriquecedora, pois com ela aprendi que, realmente, “as paixões alegres são mais fortes que as tristes” e que o prazer de ler em grupo é maior que os erros do passado.
As coordenadoras do programa Círculos de Leitura, Catalina Pagés e Maria Aparecida Lamas, resumiram bem um dos objetivos do programa numa carta a uma professora, elogiando a capacidade de compreensão de seus alunos após a leitura de Fernão Capelo Gaivota:
A ideia de perfeição, que também emergiu no grupo, remeteu-nos a uma palavra de origem grega: aretê. […] Aretê significa ‘perfeição, excelência, nobreza’. É uma palavra que expressa o conceito grego de fazer bem feito, o bom cumprimento da tarefa a que nos dedicamos. O fazer bem-feito nos leva ao encontro da nossa essência. E, segundo Sócrates, esse fazer bem-feito, que nos faz descobrir nossa essência, é fonte de uma intensa alegria.

3. A relevância da leitura

Michèle Petit, pesquisadora do Laboratório de Dinâmicas Sociais e Recomposição dos Espaços, do CNRS, da França, com profundo conhecimento de causa, dá grande ênfase à relevância da leitura na vida de qualquer sociedade.
O que está em jogo na leitura – sobretudo entre os jovens, para quem ler não é algo natural – não me parece se reduzir a uma questão “social”. Parece, a meu ver, aproximar-se da democratização profunda de uma sociedade.
Uma cidadania ativa – não devemos esquecer isso – não é algo que cai do céu, é algo que se constrói. A leitura pode contribuir em todos os aspectos que mencionei: acesso ao conhecimento, apropriação da língua, construção de si mesmo, extensão do horizonte de referência, desenvolvimento de novas formas de sociabilidade… e em outros que com certeza estou esquecendo. Por meio da difusão da leitura, cria-se um certo número de condições propícias para o exercício ativo da cidadania. Propícias, necessárias, mas não suficientes. Mais uma vez, não sejamos ingênuos. Se existe uma leitura que auxilia a simbolizar, a se mover, a sair do lugar e a se abrir para o mundo, existe também uma outra que só conduz aos prazeres da regressão. E se alguns textos nos transformam, há uma grande quantidade que, na melhor das hipóteses, apenas nos distraem.

4. Outras considerações

A exemplo da especialista Michèle Petit, ainda que sem um centésimo de seu conhecimento, também considero muito importantes experiências como os círculos de leitura, as bienais dos livros e os festivais literários, cujo número, felizmente, de acordo com informações que me foram prestadas pelo professor Jair Marcatti, cresce ano a ano nas diversas partes do País. A mais famosa e mais conhecida é a Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, mas outras iniciativas dessa natureza são também merecedoras de destaque, como fica claro no depoimento que se segue, do consagrado Ignácio de Loyola Brandão a respeito do Encontro de Autores Paraibanos, coordenado pela União Brasileira de Escritores, realizado em João Pessoa:
Em uma semana, a cidade conviveu em três eventos com livros, gêneros e autores os mais diferentes. O que reforça a afirmação que faço sempre: coisas mudam, fala-se muito de livros, secretarias estaduais ou municipais de Educação e Cultura, centros culturais, associações agem, faculdades e escolas realizam.
O experimentado jornalista Lourival Sant’Anna, num excelente artigo para o caderno Aliás de O Estado de S. Paulo, chamou atenção para um aspecto extremamente importante representado pela oportunidade de participação no Círculos de Leitura para quem vive na periferia de uma cidade como a de São Paulo:
Quem vive na periferia se sente muitas vezes intimidado de ir para os bairros mais ricos, onde estão os chamados “equipamentos culturais”. Desde pegar o ônibus ou o trem para atravessar São Paulo até entrar nesses espaços que, ainda que “públicos”, não parecem feitos para os mais pobres, é uma aventura para quem mora nos extremos da cidade. A leitura de clássicos e a companhia de jovens como eles os encorajam a fazer essa travessia, que coincide com sua transição para a vida adulta.

5. Fundamentação teórica

Como economista e educador, sempre me interessei pelos economistas que se dedicaram à pesquisa do impacto econômico da educação, que justificaram o surgimento da expressão teoria do capital humano, que, de certa forma, dá sustentação teórica às reflexões deste artigo.
Embora outros nomes tenham anteriormente se preocupado com o tema, identifico em Alfred Marshall, para quem “o mais valioso de todos os capitais é o que se investe em seres humanos”, o economista que primeiro soube compreender o enorme significado da educação para o desenvolvimento das nações em pleno final do século XIX. Outros importantes economistas deram sequência ao exame da relação entre educação e desenvolvimento, entre os quais os laureados com o Nobel de Economia: Theodore Schultz (1979), Gary Becker (1992) e James Heckman (2000). No Brasil, têm se debruçado sobre o tema, entre outros, Eduardo Giannetti, Fabio Giambiagi e Ricardo Paes de Barros.

6. À guisa de conclusão

Para concluir, reproduzo as palavras de Patrícia Guedes, atualmente no Itaú Cultural, mas que acompanhou, como colaboradora do Instituto Fernand Braudel, o surgimento do programa Círculos de Leitura.
Quando penso em cada jovem, tocado pelos Círculos de Leitura, ao longo desses 18 anos, e nos caminhos de cada um, penso nessa sensibilidade que fortalece. É dela que falava o jovem herói Aliosha Karamazov, de Dostoiévski, quando antes de partir explica a um grupo de crianças que uma boa lembrança fica para sempre guardada em nós, mesmo quando dela, já adultos, nos esquecemos. Ela fica à nossa espera, até que possa vir ao nosso auxílio mais tarde, quando a vida nos trouxer tribulações, medos e surpresas. Protetora, assim como Palas Atenas protegeu Ulisses e Telêmaco em suas travessias. Que nos próximos 18 anos mais crianças e jovens brasileiros possam ter essa boa e guardiã lembrança de um Círculo de Leitura, para sempre os acompanhando no caminho.
Que assim seja Patrícia. O Brasil ganhará muito com isso!
Luiz Alberto Machado é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Mackenzie, com mestrado em Criatividade e Inovação pela Universidade Fernando Pessoa, em Portugal. Dedicou-se à atividade acadêmica e à consultoria. É diretor da SAM – Souza Aranha Machado Consultoria e Produções Artísticas – consultor da Fundação Espaço Democrático e conselheiro da FEI – Fundação Educacional Inaciana “Pe. Sabóia de Medeiros” – e da Fundação Brasil Criativo.

Referências bibliográficas
BRANDÃO, Ignácio de Loyola. O mel de Ocara: ler, viajar, comer. São Paulo. Global, 2013.
CRISE de aprendizagem. O Estado de S. Paulo, 30 de julho de 2019, p. A 3.
MACHADO, Luiz Alberto; MACHADO, Guga. Das quadras para a vida: lições do esporte nas relações pessoais e profissionais. São Paulo: Trevisan Editora, 2018.
MARSHALL, Alfred. Princípios de economia: tratado introdutório. Tradução revista de Rômulo de Almeida e Ottolmy Strauch; introdução de Ottolmy Strauch. São Paulo: Abril Cultural, 1982. (Os Economistas).
PAGÉS, Catalinas; LAMAS, Maria Aparecida (Organizadoras). Círculos de leitura: a arte do encontro. São Paulo: Recriar Editorial, 2018.
PETIT. Michèle. Os jovens e a leitura: uma nova perspectiva. Tradução de Celina Olga de Souza. São Paulo: Editora 34, 2009.
SANT’ANNA, Lourival. ‘A sublime linguagem te ensinaram’. O Estado de S. Paulo, 10 de janeiro de 2016, p. E 4.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/01/2020

CONCENTRAÇÃO DE CO2 NA ATMOSFERA BATE RECORDE HISTÓRICO EM 2019.

Concentração de CO2 na atmosfera bate recorde histórico em 2019, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


“Até 2100, 73,9% da população do mundo enfrentará ondas letais de calor,
pelo menos 20 dias por ano” IPCC (2018)

[EcoDebate] Nos últimos 250 anos houve um progresso fantástico da humanidade, com redução da mortalidade infantil, aumento da esperança de vida, avanços significativos no nível de educação e melhoria nas condições de moradia e no padrão de consumo. Mas tudo isto teve um custo ambiental terrível. As externalidades econômicas se acumularam neste período. Hoje, o mundo vive uma emergência climática devido ao aumento imemorial da temperatura do Planeta. O vetor principal do aumento do efeito estufa é a emissão de CO2 decorrente da queima de combustíveis fósseis e de outras atividades antrópicas que liberam gases de efeito estufa (GEE).
Turbinada pelos combustíveis fósseis, a economia global cresceu 135 vezes, a população mundial cresceu 9,2 vezes e a renda per capita cresceu 14,7 vezes, entre 1770 e 2020. Os ganhos sociais foram tremendos, mas os custos ambientais foram funestos. O conjunto das atividades antrópicas ultrapassou a capacidade de carga da Terra e a Pegada Ecológica da humanidade extrapolou a Biocapacidade do Planeta.
As emissões globais de CO2 estavam em 2 bilhões de toneladas em 1900, passaram para 6 bilhões de toneladas em 1950, chegaram a 25 bilhões de toneladas no ano 2000 e atingiram 37 bilhões de toneladas em 2019. Em consequência, a concentração de CO2 que estava abaixo de 280 partes por milhão (ppm) antes da Revolução Industrial e Energética, iniciou uma trajetória de aumento ininterrupto. A concentração de CO2 na atmosfera chegou a 300 ppm em 1920, atingiu 310 ppm em 1950, 350 ppm em 1987, 400 ppm em 2015 e chegou a 411,4 ppm em 2019, conforme mostra a curva de Keeling do gráfico abaixo.
Variação da concentração de CO2 na atmosfera
Na primeira década do século XXI, a concentração de CO2 aumentava 2 ppm ao ano e na segunda década (2010-2019) passou a aumentar 2,47 ppm ao ano. O mundo caminha para uma situação inusitada e dramática de agravamento do efeito estufa.
Variação da concentração de CO2 na atmosfera, em Mauna Loa
Não existem mais dúvidas que o aquecimento global é provocado pela emissão de gases de efeito estufa, decorrentes das atividades antrópicas. Os últimos 6 anos (2014-19) foram os mais quentes já registrados e a década 2011-20 é a mais quente desde 1880. A atmosfera do Planeta está ficando mais quente e isto tem um impacto devastador em diversos aspectos, pois vai deixar amplas áreas da Terra inapropriadas para a vida humana e não humana.
O desafio da contemporalidade é reduzir as emissões de GEE e reduzir a concentração de CO2 na atmosfera de 411,4 ppm em 2019 para menos de 350 ppm (que é o nível seguro para evitar o descontrole do aquecimento global) o mais rápido possível.
Em 2019, maior concentração de CO2 na história humana
A crise climática significa clima instável e com variações extremas. Mais furacões. Mais secas. Mais inundações. Mais incêndios e queimadas. Mais mortes relacionadas ao calor. Haverá mais doenças infecciosas à medida que os insetos se deslocarem para o norte. O Ártico poderá ficar sem gelo no verão e a passagem do Norte poderá ficar aberta a maior parte do ano. O nível do mar aumentará alguns metros à medida que as prateleiras de gelo dos polos derretem, produzindo maiores tempestades e inundações mais intensas em áreas baixas ao redor do mundo. Milhões de pessoas serão forçadas a mudar de área ou país. A agricultura terá perda de produtividade e a insegurança alimentar deve aumentar.
Portanto, não há como negar que a maior concentração de CO2 está relacionada com maiores temperaturas na Terra. O Copernicus Climate Change Service anunciou no dia 08 de janeiro que 2019 foi o segundo ano mais quente da série histórica (abaixo apenas de 2016) e os últimos 5 anos foram os mais quentes já registrados, ficando entre 1,1º C E 1,2º C em relação ao período pré-industrial. Mas alguns locais aquecem em ritmo mais rápido como o Alasca.
As ocorrências de desastres climáticos se espalham. As chuvas torrenciais que caíram na véspera de Ano Novo causaram inundações e deslizamentos de terra na região de Jacarta. Mais de 60 pessoas morreram e mais de 170 mil pessoas que viviam nos bairros mais atingidos foram para abrigos temporários. Na cidade do Rio de Janeiro a sensação térmica chegou a 55º C no dia 11 de janeiro de 2019.
Outro exemplo de aquecimento excessivo ocorre na Austrália, onde as altas temperaturas, o tempo seco e os ventos estão espalhando os incêndios e transformando a ilha em um inferno. A área devastada pelas chamas se aproxima de 100.000 km². Dezenas de pessoas morreram, mais de duas centenas de milhares tiveram de abandonar suas casas e estima-se que mais de 1 bilhão de animais foram mortos.
Tempestades, secas e queimadas em várias partes do mundo mostram que os pontos de inflexão climáticos já estão sendo ultrapassados e uma nova realidade de catástrofes ambientais deve ocorrer de Leste a Oeste e de Norte a Sul. O fato é que a queima de combustíveis fósseis e o aumento geral das emissões de gases de efeito estufa estão acelerando o aquecimento global e tornando diversas partes da Terra inóspitas ou até inabitáveis.
José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/01/2020

domingo, 5 de janeiro de 2020

2019 FOI PROVAVELMENTE O SEGUNDO ANO MAIS QUENTE DA HISTÓRIA.

2019 foi provavelmente o segundo ano mais quente da história


Está quase na hora de concluir oficialmente que 2019 foi o segundo ano mais quente em registros de temperatura que remontam ao século XIX.


2019 foi provavelmente o segundo ano mais quente da históriaDirigindo a notícia: “Parece quase certo (> 99% de probabilidade) que 2019 será o segundo ano mais quente desde o início das medições em 1850, atrás apenas do calor excepcional de 2016”, confirmou o grupo de pesquisa Berkeley Earth há alguns dias .
Por que é importante: O comentário em sua análise das temperaturas de novembro é a evidência mais recente da tendência de aquecimento a longo prazo decorrente das emissões de gases de efeito estufa induzidas pelo homem.
É consistente com outras análises que mostram que provavelmente 2019 terminará como o segundo mais quente. A NASA está programada para anunciar uma descoberta semelhante ainda este mês.
O quadro geral: “Com a década chegando ao fim, [fica] claro que o período de 2010-2019 foi a década mais quente que o mundo viu desde que os registros começaram em meados dos anos 1850. Era cerca de 0,19 ° C mais quente que nos anos 2000 e 1,1C mais quente que o período pré-industrial “, twittou Zeke Hausfather, da Berkeley Earth, na véspera de Ano Novo.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 03/01/2020

FUTURO DA ÍNDIA : O PAÍS MAIS POPULOSO DO MUNDO E SEM ÁGUA POTÁVEL.

Futuro da Índia: o país mais populoso do mundo e sem água potável, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


“Precisamos nos preocupar com a explosão populacional”
Narendra Modi, 15/08/2019

[EcoDebate] A população indiana era de 376 milhões de habitantes em 1950, representando 14,8% da população mundial de 2,5 bilhões de habitantes, ficando atrás apenas da população chinesa que era de 554 milhões de habitantes. No ano 2000, a China chegou a 1,29 bilhão de habitantes, e a Índia chegou a 1,1 bilhão, representando 17,2% da população mundial de 6,1 bilhões de habitantes. Na segunda metade do século XX, a população da Índia cresceu em ritmo superior ao ritmo de crescimento da população da China e da média mundial.
Atualmente, a Índia está perto de se tornar o país mais populoso do mundo. Segundo as projeções médias da Divisão de População da ONU, a Índia deve ultrapassar a China em 2027, quando a primeira deve estar com 1,47 bilhão e a segunda com 1,46 bilhão de habitantes. A população da Índia representará 17,6% da população mundial de 8,3 bilhões de habitantes em 2027. No restante do século a população indiana continuará acima da população chinesa, mas deve crescer menos do que a média mundial. O pico da população indiana ocorrerá no ano de 2059, com 1,65 bilhão de habitantes. Em 2100, a China terá uma população de 1,06 bilhão e a Índia 1,45 bilhão de habitantes, representando 13,3% da população global de 10,9 bilhões de habitantes.
população da China e da Índia
Portanto, a Índia será o país mais populoso do mundo a partir de 2027 e, mesmo apresentando um decrescimento a partir de 2059, se manterá no topo da lista dos países com maior volume demográfico, devendo manter um montante populacional mais do que o dobro da população da América Latina e Caribe (ALC), na segunda metade do século XXI.
A economia da Índia é também uma das que mais crescem no mundo. Em 1980, o PIB indiano (em poder de paridade de compra) representava apenas 2,9% do PIB global. Mas em 2019 já representava 8,1% do PIB global. Apesar de ser um país de renda média baixa, a Índia tem conseguido reduzir a pobreza e a mortalidade infantil e tem aumentado a renda per capita e a esperança de vida.
Contudo, o crescimento demoeconômico tem ocorrido às custas do empobrecimento do meio ambiente. A Índia tem as cidades mais poluídas do mundo e os agricultores indianos sofrem com a degradação ecológica. A crise ambiental pode comprometer o futuro do país.
Um dos problemas mais sérios é a falta d’água e o estresse hídrico. Artigo de Saikat Datta, no site Asia Times (02/07/2019), mostra que a Índia está caminhando para um “apocalipse da água” e vislumbra um futuro sombrio. O autor mostra que a combinação de mudanças climáticas, más políticas e falta de governança está levando a Índia a uma crise catastrófica da água que ameaça a estabilidade no sul da Ásia.
Estudos recentes documentam que as geleiras que alimentam os rios do subcontinente indiano recuam rapidamente, enquanto o rápido esgotamento das águas subterrâneas representa um desafio existencial para a agricultura. As monções do sudoeste continuam sendo a maior fonte de água na região. As monções levam a uma combinação de fontes de água que sustentam a economia, incluindo geleiras, irrigação de superfície e água subterrânea. Mas a redundância e o excedente tem desaparecido deste sistema, outrora abundante. Em seu lugar, há escassez galopante.
Estudos científicos indicam que se a temperatura global subir 2,7º C, metade das geleiras do Himalaia desaparecerá. E se a atual taxa de aquecimento global continuar e as temperaturas subirem 6 graus centígrados, dois terços das geleiras derreterão. Isso tem implicações dramáticas para a Índia, China, Paquistão, Nepal e Bangladesh.
O artigo também mostra que se o derretimento das geleiras é uma má notícia, a perspectiva é pior quando se trata de águas subterrâneas que é a maior fonte de água no Sul da Ásia. No entanto, a maioria dos governos se recusa a aceitar isso como uma realidade. Como resultado, há uma sucessão de políticas ruins que pioraram as coisas. Estudos indicam que 21 grandes cidades indianas ficarão sem água nos próximos anos.
De fato, o estresse hídrico já está presente na realidade indiana. A Índia testemunhou inúmeras secas e dificuldades socioeconômicas nas últimas décadas, mas agora são agravadas pelas mudanças climáticas.
Matéria de Vinayak Bhat, no site The Print (06/07/2019) mostra que diversas cidades são vítimas da escassez de água, especialmente água potável. Os exemplos abaixo são realmente alarmantes:
Chennai, a capital de Tamil Nadu, a sexta maior cidade da Índia, vive momentos dramáticos. Imagens de satélite do mesmo dia com um ano de intervalo – 15 de junho de 2018 e 2019 – são a prova do problema. O nível da água no lago Puzhal, um reservatório alimentado pela chuva que contribui para o fornecimento de água potável à cidade, apresenta um forte contraste entre dois momentos no tempo.
Puzhal Lake
A cidade de Bhopal, no centro da Índia, situada no cinturão de ondas de calor, tem seus níveis de água se esgotando extraordinariamente rápido, agravado devido ao gerenciamento inadequado da água. O lago Bhojtal, conhecido como Upper Lake, é uma das principais fontes de água da cidade. O lago está espalhado por 2.400 hectares e pode armazenar mais de 360 bilhões de litros de água a uma profundidade média aproximada de 15m. Mas as imagens de satélite tiradas em maio de 2017 e junho de 2019 mostram a diferença alarmante nos níveis de água do lago que, agora, mal cobre 700 hectares.
Bhojtal
A cidade de Latur, que fica na região de Marathwada, em Maharashtra, está uma das regiões mais secas da Índia. As imagens do lago Kava (que é alimentado pela chuva), de junho de 2018 e 2019, , mostram o quão ruim a situação ficou com a crise hídrica. O lago, com 80 hectares, secou completamente, e a única opção para os cidadãos é a água fornecida pelos trens.
Kava Lake
O maior lago de Bengaluru, Bellandur, faz parte do sistema de drenagem da cidade. Imagens de satélite a partir de 2001 indicam como a invasão reduziu o tamanho do lago Bellandur. Ele costumava cobrir mais de 1.000 hectares, mas agora está reduzido para cerca de 40 hectares.
Bellandur Lake
Os climatologistas preveem um cenário mais dramático no futuro. No verão de 2019, a Índia foi atingida por uma onda de calor e as temperaturas ultrapassaram 50º C no norte do país. Pelo menos 100 pessoas morreram devido às temperaturas excessivas. Neste ritmo, várias partes do país podem ficar inabitáveis e sem água, pois está cada vez mais difícil conciliar o crescimento demoeconômico com a preservação do meio ambiente.
A Índia já é o terceiro maio emissor de gases de efeito estufa (GEE), atrás da China e dos Estados Unidos. Na próxima década emitirá mais do que todos os países juntos da União Europeia e pode ultrapassar os EUA. Na Cúpula da Ação Climática da ONU, ocorrida entre 21 e 23 de setembro de 2019, o país não se comprometeu com a emissão líquida zero de GEE até 2050, pois embora esteja investindo muito em energias renováveis, também continua investindo nas indústrias altamente poluidoras de carvão.
A Índia já teve uma das civilizações mais importantes da história. O país tenta voltar a ser protagonista no cenário internacional e tenta dar um salto no desenvolvimento, melhorando a qualidade de vida para os seus habitantes. Mas a crise hídrica e a degradação ambiental já estão impactando as taxas de crescimento econômico e podem inviabilizar o sonho de uma Índia prospera e sem pobreza no futuro.
José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:
ALVES, JED. População da Índia: bônus demográfico e envelhecimento, Ecodebate, 12/07/2019
https://www.ecodebate.com.br/2019/07/12/populacao-da-india-bonus-demografico-e-envelhecimento-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
Saikat Datta. India staring at a water apocalypse, Asia Times, 02/07/2019
https://www.asiatimes.com/2019/07/article/india-staring-at-a-water-apocalypse/
Vinayak Bhat. It’s not just Chennai, India’s drying lakes crisis has spread far and wide, The Print, 06/07/2019
https://theprint.in/india/its-not-just-chennai-indias-drying-lakes-crisis-has-spread-far-and-wide/259494/

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 03/01/2020