quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Crise climática atinge a economia e saúde brasileira .

 

Relatório Global 2025 da Lancet Countdown

O Brasil está enfrentando uma crise de saúde pública e econômica diretamente ligada à emergência climática, com o calor extremo e a poluição do ar causando perdas de bilhões de dólares e milhares de mortes prematuras anualmente, de acordo com o novo Relatório Global 2025 da Lancet Countdown, um levantamento que monitora os vínculos entre saúde e mudança climática.

Onda de calor e colapso da produtividade

O relatório, compilado para jornalistas, detalha como a mudança climática está ceifando vidas e afetando os meios de subsistência no Brasil. Em 2024, a população brasileira foi exposta a 15,6 dias de ondas de calor cada, em média, sendo que 94% desses dias não seriam esperados sem a mudança climática.

O impacto no trabalho é devastador: em 2024, a exposição ao calor resultou em uma perda média de mais de 6,7 bilhões de horas de trabalho potencial, um aumento de 51% em comparação com o período de 1990-1999. Essa perda de produtividade se traduziu em um prejuízo financeiro potencial de US$ 17,7 bilhões, o que equivale a quase 1% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Os setores mais afetados foram o agrícola (36% das perdas) e o da construção (34%).

Aumento alarmante de mortes e doenças

O custo humano do calor está em ascensão. De 2012 a 2021, o Brasil registrou uma estimativa de 3.600 mortes anuais relacionadas ao calor, um aumento de 4,4 vezes em comparação com a década de 1990. Para a população idosa (acima de 65 anos), o valor monetário da mortalidade relacionada ao calor atingiu US$ 5,7 bilhões entre 2020 e 2024 – um aumento de 383% desde 2000–2004.

Paralelamente, a poluição atmosférica antropogênica (PM2.5) foi associada a mais de 63.000 mortes em 2022, um aumento significativo em relação às 51.000 mortes registradas em 2010. O valor monetário dessa mortalidade prematura devido à poluição do ar chegou a US$ 50 bilhões em 2022, equivalente a 2,4% do PIB. O diesel usado no setor de transporte foi identificado como o maior contribuinte individual, associado a 22.000 mortes em 2022.

As mudanças climáticas também estão ampliando a ameaça de doenças infecciosas: a adequação climática para a transmissão da dengue pelo mosquito Aedes aegypti aumentou em 30%.

Inação energética e dependência fóssil

Apesar dos riscos, o país demonstra um atraso na transição energética, o que “está custando vidas e sobrecarregando a economia”. Em 2023, o Brasil apresentou uma receita líquida negativa de carbono, gastando um total líquido de US$ 4,6 bilhões em subsídios a combustíveis fósseis.

A dependência do transporte rodoviário é marcante, com 77% da energia consumida pelo setor proveniente de combustíveis fósseis, e 0% de eletricidade em 2022. Adicionalmente, a preparação do Brasil para a transição de baixo carbono diminuiu 6,6% em 2024 em relação ao ano anterior.

Impactos ambientais extremos

Os dados ambientais refletem a gravidade da situação:

  • A área de terra que experimenta pelo menos um mês de seca extrema por ano aumentou quase 10 vezes, passando de 5,6% em 1951-1960 para 72% em 2020-2024.

  • O Brasil também viu um aumento de 10% nos dias classificados como de alto risco de incêndios florestais (média de 41 dias por ano entre 2020 e 2024), associados a uma média anual de 7.700 mortes causadas pela fumaça (PM2.5).

  • Mais de um milhão de pessoas (1.087.390) vivem atualmente a menos de 1 metro acima do nível do mar, estando em risco devido à elevação marítima.

Potenciais benefícios da transição alimentar

O relatório também aponta que mudanças nos setores de alimentação e agricultura poderiam gerar grandes benefícios para a saúde. Em 2022, a carne vermelha e laticínios foram responsáveis por 87% de todas as emissões associadas ao consumo de produtos agrícolas.

O consumo insuficiente de alimentos à base de plantas (frutas, vegetais, legumes, etc.) foi associado a 140.000 mortes em 2022, enquanto o consumo excessivo de carne vermelha, laticínios e carne processada contribuiu para 70.000 mortes.

Apesar da perda acumulada de 69 milhões de hectares de cobertura arbórea entre 2001 e 2023, há um sinal encorajador de que a tendência de desmatamento foi revertida, com uma queda de 15% na perda de cobertura arbórea entre 2022 e 2023.

Apesar da urgência dos dados, a cobertura jornalística sobre a relação entre clima e saúde no Brasil caiu 79% em 2024 em relação a 2023. O maior foco da pesquisa científica no país é sobre os impactos do clima na saúde (91% dos artigos), com pouca atenção dada à adaptação (9% dos artigos).

Com base nas informações do relatório da Lancet Countdown sobre o Brasil, os destaques mais importantes e relevantes, para descrever o impacto econômico e social das mudanças climáticas na saúde brasileira, são:

Mudança Climática

O tema central do relatório, que avalia os vínculos evolutivos entre a saúde e as alterações climáticas.

Saúde

O foco primário da avaliação, indicando que a mudança climática está “prejudicando cada vez mais a saúde”.

Ondas de Calor

Principal risco climático imediato em 2024, com 94% dos dias de onda de calor não esperados sem as mudanças climáticas.

Perda de Horas de Trabalho

Medida econômica direta do impacto do calor, totalizando 6,7 bilhões de horas potenciais perdidas em 2024.

Perda Potencial de Renda

Custo financeiro associado à perda de trabalho, atingindo US$ 17,7 bilhões (quase 1% do PIB).

Mortalidade Relacionada ao Calor

Aumento de 4,4 vezes nas mortes anuais relacionadas ao calor (3.600 anualmente, 2012-2021) e alto valor monetário da mortalidade em idosos (US$ 5,7 bilhões).

Poluição do Ar

Causa de mais de 63.000 mortes atribuíveis a PM2.5 antropogênico em 2022, com um custo monetário de US$ 50 bilhões (2,4% do PIB).

Combustíveis Fósseis

Principal motor da poluição do ar, com o setor de transporte respondendo por 77% da energia rodoviária e o Brasil alocando US$ 4,6 bilhões em subsídios em 2023.

Transição de Baixo Carbono

Atraso e falta de preparação do país; a preparação diminuiu 6,6% em 2024 em relação a 2023.

Seca Extrema

Indicador ambiental crítico; a quantidade de terra que experimenta pelo menos um mês de seca extrema aumentou quase 10 vezes (atingindo 72% em 2020-2024).

Dengue

Doença infecciosa cuja adequação climática para transmissão pelo Aedes aegypti aumentou 30%.

Alimentação e Dieta

Ligação entre o consumo de produtos agrícolas (carne vermelha e laticínios representam 87% das emissões) e a saúde (140.000 mortes por consumo insuficiente de vegetais).

Setor Agrícola

Setor economicamente vulnerável, respondendo por 36% das perdas de horas de trabalho.

Risco de Incêndios Florestais

Risco crescente (41 dias de alto risco por ano, aumento de 10%), associado a uma média anual de 7.700 mortes por fumaça (PM2.5).

 

Citação
EcoDebate, . (2025). Crise climática atinge a economia e saúde brasileira. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2025/10/29/crise-climatica-atinge-a-economia-e-saude-brasileira/ (Acessado em novembro 13, 2025 at 15:23)

 
in EcoDebate, ISSN 2446-9394

Brasil na contramão climática: Da energia fóssil a energia nuclear .

 

artigo de opinião

Enquanto se prepara para sediar COP30, país enfrenta crise de credibilidade com expansão de combustíveis fósseis e declarações belicistas sobre energia nuclear

Licença do Ibama para Petrobras perfurar na Amazônia e declaração do ministro Alexandre Silveira sobre uso bélico de energia nuclear colocam em xeque liderança climática brasileira semanas antes da COP30

 

Artigo de Heitor Scalambrini Costa
Professor associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco

A queima de combustíveis fósseis (petróleo, gás, carvão) e o desmatamento tem impulsionado as mudanças no clima, que por sua vez ameaçam a sobrevivência humana, e a própria vida no planeta pelos efeitos catastróficos resultantes, conhecidos em todos os continentes. Aliado a este flagelo que atinge a humanidade, o pacifismo caiu em desgraça, e a corrida armamentista convencional e nuclear está em alta devido às tensões internacionais, a luta pelo poder, e por territórios.

O governo brasileiro com a COP30 em Belém do Pará, em plena Amazônia, almeja a liderança climática mundial. Todavia a poucas semanas da reunião duas situações ocorreram, que desmascaram o discurso e a prática do atual governo federal. Por um lado, a autorização concedida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para a Petrobras iniciar a perfuração de um poço exploratório de petróleo (já pleiteia perfurar 3 poços com a mesma licença) na foz do rio Amazonas, em sua margem equatorial brasileira. E o outro evento foi o discurso do ministro de Minas e Energia (MME) Alexandre Silveira, que sem meias palavras propôs o uso bélico da energia nuclear, justificando como estratégia de dissuasão e de garantir a segurança nacional.

Com a licença autorizada pelo Ibama é certa a expansão da exploração do principal responsável pelas emissões de CO2, causador do aquecimento global. Segundo o presidente Lula, para amenizar esta catástrofe anunciada, afirmou “entre fazer pesquisa e tirar petróleo, leva um tempo muito grande, e é preciso novas licenças para você fazer essas coisas”. Talvez ele espere que depois da Petrobras comprovar os estudos que já indicam cerca de 10 bilhões de barris de petróleo (atualmente o Brasil tem uma reserva comprovada de 16,8 bilhões de barris) de reserva acumulada naquela bacia sedimentar, ela recue e deixe o petróleo por lá mesmo. Foi sem nenhuma dúvida, uma enorme derrota da sociedade que se mobilizou, e que em sua maioria não quer a exploração de petróleo no maior rio do mundo.

Há sérios e concretos riscos de danos socioambientais com a abertura de uma nova fronteira exploratória de petróleo na foz do rio Amazonas. Segundo a ciência se houver vazamento de petróleo o resultado será uma tragédia anunciada, que atingirá não somente o Grande Sistema Recifal da Amazônia (GARS), com uma extensão estimada de 56.000 km2 (ecossistema único e rico em biodiversidade, servindo de berçário a várias espécies de peixes), como populações indígenas, quilombolas, colônias de pescadores e suas áreas de pesca artesanal, unidades de conservação, reservas extrativistas, todas próximas à área de exploração. E com o petróleo extraído é mais CO2 na atmosfera, mais efeito estufa, mais aquecimento global, mais destruição da floresta, mais tragédias.

Esta decisão do Ibama, depois de muita pressão e constrangimento político provocado pelo ministro do MME, foi judicializada por uma coalizão composta de 8 organizações de entidades ambientais, indígenas, quilombolas e pesqueiras, cuja ação civil pública impetrada tem como alvo a União e o Ibama. Pede a paralisação imediata das atividades de perfuração e anulação da licença de exploração concedida, alegando falhas técnicas, ausência de consulta livre, prévia e informada, além de violação dos compromissos climáticos assumidos pelo país em convenções e acordos internacionais.

Outro desastre para a imagem do Brasil perante o mundo foi o discurso do ministro Alexandre Silveira, durante a posse dos novos diretores da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), no dia 5 de setembro, defendendo que o Brasil poderá precisar de armas nucleares para garantir sua soberania e defesa nacional. Assim reacendeu a discussão sobre uso pacifico e bélico da energia nuclear.

A Constituição Federal (CF) de 1988, Artigo 21, inciso XXIII, alínea “a” estabelece que: “toda atividade nuclear em território nacional somente será admitida para fins pacíficos e mediante aprovação do Congresso Nacional”. Também importante a lembrança de que o Brasil é signatário de tratados e acordos Internacionais, entre eles o Tratado de não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), o Tratado de Proscrição das Armas Nucleares na América Latina e no Caribe (conhecido como Tratado de Tlatelolco, cujo objetivo é o de garantir que a América Latina e o Caribe não tenham armas nucleares), e o Tratado para Proibição de Armas Nucleares.

As declarações do Ministro Alexandre Silveira sobre energia nuclear, atingem as raias do inverossímil, tornando esta autoridade do primeiro escalão do governo Lula, um dos mais combativos e maior defensor do uso nuclear para fins pacíficos e bélicos.

Como defensor da expansão de usinas nucleares no país propõe reatores modulares pequenos (em inglês, SMRs) na região Amazônica. Todavia omite que tanto do ponto de vista tecnológico, como econômico, enfrentam desafios importantes, sem que se tenha provado a viabilidade econômica, e nem demonstrado seu desempenho operacional. Quanto a continuar as obras da usina nuclear de Angra 3, cujo início oficial da construção foi em 1984, é o principal lobista dentro do governo federal. Obra que tem um custo para sua finalização de 23 bilhões de reais, e cujos equipamentos já comprados estão defasados, ultrapassados, não atendendo os atuais requisitos de segurança. Além da grande voracidade, pois o tesouro nacional despende anualmente 1 bilhão de reais para manutenção do canteiro de obras deste “elefante branco”.

Ao mencionar o uso da energia nuclear para fins de defesa do território e de segurança nacional, o ministro conhecido como o das “boas ideias”, também incentivou um deputado federal de extrema direita a declarar, em alto e bom som, que vai apresentar uma Projeto de Emenda Constitucional (PEC) retirando do artigo 21 da CF a exclusividade do uso pacifico da energia nuclear em território nacional, assim escancarando a possibilidade de o Brasil fabricar a sua bomba atômica. Nada mais surpreende vindo do atual Congresso Nacional, uma das piores legislaturas, infestados de safardanas agindo contra a vontade popular.

Para não desacreditar mais a luta a favor das usinas nucleares, houve uma imediata mobilização dos lobistas da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN), da Frente Parlamentar Mista da Tecnologia e Atividades Nucleares (grupo de parlamentares oportunistas que apoiam a energia nuclear no Brasil), de acadêmicos beneficiados com o programa nuclear brasileiro, da mídia corporativa; todos unânimes em atacar a proposta do parlamentar extremista. Viram nesta iniciativa como “um tiro no pé”, mais dificuldades aos seus interesses de emplacar a construção de novas usinas nucleares no país. Como é reconhecido, a energia nuclear é amplamente rejeitada pela maioria da população brasileira, e a possibilidade de o país fabricar bombas atômicas só aumentaria a rejeição popular por esta fonte de energia elétrica, e de destruição da vida.

Várias associações científicas também vieram a público para rejeitar e repudiar a proposta da “PEC da Bomba Atômica”, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a Sociedade Brasileira de Física (SBF) e a Sociedade Brasileira de Química (SBQ). Todavia nada falaram dos resíduos produzidos por usinas nucleares que podem ser usados para a fabricação de artefatos nucleares. Ser contra a fabricação de bombas atômicas, por coerência, também deve ser contra as usinas nucleares.

Inacreditável foi a interpretação que o Estadão Verifica (em parceria com o Projeto Comprova) fez da fala do ministro Silveira. Bem conhecido por suas posições reacionárias, e um ativo defensor da nucleoeletricidade no país, este jornal chegou a publicar que o ministro não falou, o que ele disse.

A lição de ambos episódios é que o tempo do ministro das “boas ideias” esgotou. Deveria se preocupar mais com outros assuntos de sua pasta ligados às páginas policiais, pela venda de licenças ambientais em Minas Gerais; e explicar melhor como se deu o interesse de um grupo empresarial, sem nenhuma experiência na área, por usinas nucleares.

 

Citação
EcoDebate, . (2025). Brasil na contramão climática: Da energia fóssil a energia nuclear. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2025/11/03/brasil-na-contramao-climatica-da-energia-fossil-a-energia-nuclear/ (Acessado em novembro 13, 2025 at 15:03)

in EcoDebate, ISSN 2446-9394