quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Pecuária ilegal devasta áreas que deveriam ser protegidas na Amazônia .

 pecuária na Amazônia

Foto: Greenpeace/IHU

De uma perspectiva indígena e da população tradicional, um ponto de não retorno ecológico e social já está acontecendo

A pecuária em fazendas ilegais devastou áreas da Amazônia, localizadas no estado do Pará, que deveriam ser protegidas para garantir a subsistência de pequenos agricultores e dos povos indígenas. É o que revela o relatório Gado Sujo, lançado neste mês de outubro pela Human Rights Watch (HRW). A análise de documentos oficiais mostrou ainda que as fazendas conseguiram comercializar o gado ilegal, colocando-o na cadeia produtiva de carne no país.

O documento detalha ainda como fazendeiros se apropriaram ilegalmente de terras, segundo a legislação brasileira, e devastaram os meios de subsistência dos agricultores do projeto Terra Nossa e da Terra Indígena Cachoeira Seca, afetando seus direitos à moradia, à terra e à cultura. De acordo com a entidade, o resultado é uma enorme pressão da pecuária ilegal sobre as comunidades locais.

“Por meio da análise de diversos documentos oficiais, descobrimos que as fazendas ilegais no Terra Nossa e na TI Cachoeira Seca estão vendendo gado para fazendas intermediárias”, relatou Luciana Téllez Chávez, pesquisadora da HRW.

As intermediárias, por sua vez, vendem para grandes frigoríficos.

Quando foi criado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em 2006, o PDS Terra Nossa tinha uma vasta floresta tropical, onde os pequenos agricultores colhiam castanhas e frutas para vender nos mercados locais.

“Agora, quase metade do projeto foi transformado em área de pastagem por grileiros. No total, três quartos da área do assentamento são ocupados ilegalmente.”

Os pequenos agricultores tentaram resistir, mas sofreram retaliações violentas por parte dos grileiros denunciados pelas atividades ilegais. “Desde 2019, quatro pessoas foram mortas, logo depois de se expressarem contra as invasões e uma liderança comunitária sobreviveu a uma tentativa de assassinato”, contou Luciana, afirmando que o governo federal está ciente das fazendas ilegais dentro do território de Terra Nossa, mas ainda não as removeu.

O Incra informou, em nota, que está realizando uma “supervisão ocupacional no assentamento Terra Nossa”. Segundo o órgão, há mais de 50 ações na Justiça Federal visando à retomada de áreas ocupadas irregularmente, sendo a maioria com liminar a favor da autarquia.

As comunidades tradicionais da Terra Indígena (TI) Cachoeira Seca caçam na floresta, pescam nos rios e coletam produtos florestais para vender nos mercados locais. No entanto, as atividades foram prejudicadas pelo aumento de invasões e das fazendas de gado ilegais instaladas naquele território.

“Vários residentes indígenas nos disseram que não vão muito longe de suas aldeias, porque são superados em números pelos grileiros. Isso está dificultando sua capacidade de transmitir seu conhecimento tradicional sobre a floresta às gerações mais jovens e colocando em risco os seus meios de subsistência”, disse a pesquisadora.

O governo federal, apontou Luciana, tem a obrigação legal de remover os ocupantes não indígenas da TI Cachoeira Seca. “Mas quase 10 anos desde sua homologação ainda não o fez. As histórias [dessas comunidades] mostram que, sem combater a impunidade por essas ilegalidades, é extremamente desafiador criar espaço para que uma bioeconomia prospere na Amazônia”, disse a pesquisadora.

Desmatamento

Os dados reunidos no relatório apontam a necessidade e a urgência de zerar o desmatamento na região amazônica, com estratégias equitativas e que considerem o saber das pessoas que vivem ali milenarmente. A avaliação é da diretora adjunta de ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), Patrícia Pinho.

“O relatório da Human Rights Watch traz a evidência de que o [PDS] Terra Nossa e a [TI] Cachoeira Seca não são uma exceção. Infelizmente, é uma realidade que permeia todo o tecido social e ecológico da floresta”, disse, sobre as violações de direitos e ilegalidades presentes nos territórios amazônicos.

Ela ressaltou que a ciência já tem mostrado que, na ausência de ações de mitigação de impactos e de adaptação global, o que se esperava para acontecer na Amazônia, a partir de 2040 e 2050, já está sendo materializado na região nos dias atuais.

“De uma perspectiva indígena e da população tradicional, um ponto de não retorno ecológico e social já está acontecendo”, disse Patrícia.

Diretor da HRW no Brasil, César Muñoz destacou a importância da COP30, que ocorrerá no Pará, para discussão sobre os combustíveis fósseis e uma transição energética justa que proteja os direitos humanos. “O aumento da temperatura e as mudanças do clima estão afetando os direitos à vida, à saúde e à alimentação da população na Amazônia, no Brasil e no mundo”, disse.

“Precisamos de ação. Na COP29, não houve acordo sobre a eliminação gradual de combustíveis fósseis e não houve progresso significativo em direção à limitação do aumento da temperatura em 1,5° C, que foi a meta estabelecida em Paris”, lembrou. Para ele, os planos climáticos nacionais apresentados na cúpula climática precisam ser concretos, com cronogramas para que atinjam suas metas.

Recomendações

O mecanismo de rastreabilidade para o gado é uma medida fundamental no país, recomenda a organização. “Isso tornaria muito mais difícil para fazendas ilegais, como as do Terras Rurais e da TI Cachoeira Seca, cometerem fraudes”, avaliou Luciana, pesquisadora da organização internacional. Ela ressalta a importância de que todos os estados adotem a medida, porque “a lavagem de gado não é limitada por fronteiras estaduais e precisa de uma solução federal.”

O Ministério da Agricultura anunciou, em 2024, que exigiria de todos os estados brasileiros a implementação de sistemas de rastreabilidade, mas eles teriam até 2032 para isso. “Considerando os alertas de que estamos próximos de atingir o ponto de não retorno, é preciso perguntar se a Amazônia brasileira pode esperar até lá”, alertou a pesquisadora.

Outra recomendação da entidade é que o governo federal tome medidas rápidas para retomar as áreas ocupadas ilegalmente dentro do PDS Terra Nossa e da TI Cachoeira Seca, entre com ações judiciais contra os responsáveis pelas ocupações e uso ilegais das terras para que reparem o dano causado. Além disso, que desenvolva projetos para restaurar as florestas e apoiar seus meios de subsistência sustentáveis.

Além do Incra, a Agência Brasil solicitou posicionamento da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), do Ministério da Agricultura e Pecuária, do Ministério dos Povos Indígenas e do Ministério do Meio Ambiente, mas ainda aguarda retorno.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública e o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, informou que a demanda deveria ser direcionada a outras pastas.

Citação
EcoDebate, . (2025). Pecuária ilegal devasta áreas que deveriam ser protegidas na Amazônia. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2025/10/23/pecuaria-ilegal-devasta-areas-que-deveriam-ser-protegidas-na-amazonia/ (Acessado em novembro 13, 2025 at 15:27)

Por Camila Boehm, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394

Desmatamento na Amazônia enfraquece os rios voadores, diminuindo as chuvas pelo Brasil .

 O caminho dos rios voadores

O caminho dos rios voadores. Fonte: Projeto Rios Voadores

O que o estudo sobre desmatamento na Amazônia como causa da seca ensina sobre os rios voadores

Publicado na Nature Communications, o estudo liderado por pesquisadores da USP revela que 74,5% da redução das chuvas e 16,5% do aumento das temperaturas na Amazônia são consequência direta do desmatamento. A pesquisa explica, com base em dados inéditos, como a perda da floresta enfraquece os chamados rios voadores, correntes de vapor que irrigam boa parte do Brasil.

Por Moura Leite Netto

Os rios voadores são invisíveis aos olhos, mas determinam o ritmo das chuvas, da produção agrícola e até da economia brasileira. São massas gigantescas de vapor d’água que se formam na atmosfera sobre a Amazônia e viajam milhares de quilômetros, transportando umidade da floresta até o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país. Trata-se de um fenômeno ao qual a floresta age como uma imensa bomba d’água, captando a umidade que chega do oceano e devolvendo-a à atmosfera por meio da evapotranspiração. Quando esse ciclo se rompe, o clima de todo o continente se desorganiza.

“Os rios voadores são enormes correntes atmosféricas de vapor de água que se deslocam da Amazônia em direção ao Sudeste, ao Sul e ao Centro-Oeste do Brasil”, explica o professor Marco Aurélio de Menezes Franco, do Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG-USP). “Esse vapor entra na floresta pelos ventos vindos do oceano e é recirculado graças à evapotranspiração das árvores. Quando desmatamos, cortamos esse fluxo vital de umidade”, resume.

Umidade em movimento

O conceito dos rios voadores, amplamente estudado desde os anos 1990, tem ganhado novo peso diante das evidências científicas mais recentes. O artigo publicado por Franco e colegas na revista Nature Communications, assinado também por pesquisadores do Instituto de Física da USP, MapBiomas e Max Planck Institute for Chemistry, quantifica pela primeira vez o impacto do desmatamento sobre as chuvas e as temperaturas da Amazônia e, portanto, sobre o funcionamento desses “rios invisíveis” que regam o país.

Ao analisar dados de 35 anos (1985–2020) em 29 áreas da Amazônia Legal, os cientistas conseguiram separar o efeito das mudanças climáticas globais do efeito local do desmatamento. O resultado aponta que 74,5% da redução de chuvas durante a estação seca e 16,5% do aumento da temperatura máxima da região são explicados pela perda de floresta, não por fenômenos globais.

O estudo, publicado em setembro de 2025, mostra que as regiões mais devastadas (o chamado “arco do desmatamento”, que se estende do sul do Pará ao norte do Mato Grosso)  concentram os impactos mais severos. A perda de vegetação reduziu em média 21 milímetros de chuva por estação seca, enquanto a temperatura máxima subiu 2 °C nas últimas três décadas e meia. “Quando removemos a floresta, eliminamos o principal produtor de vapor d’água da Amazônia”, observa Franco. “É como desligar uma usina hidrológica continental”.

Efeito dominó sobre o agronegócio

Os efeitos desse desequilíbrio já são perceptíveis fora da Amazônia. As massas úmidas que antes abasteciam o Centro-Oeste e o Sudeste estão enfraquecendo, afetando o regime de chuvas e a rentabilidade das lavouras. “Os produtores rurais já sentem no bolso o impacto do desmatamento. As safrinhas (aquelas plantações de entressafra) estão cada vez menos rentáveis porque as chuvas estão diminuindo”, afirma o pesquisador.

Ele explica que o Brasil é um dos poucos países onde há cultivo de duas safras no mesmo ano graças ao transporte quase contínuo de umidade proveniente da floresta. “Quando esse fluxo se reduz, o risco de seca aumenta e as safrinhas deixam de ser viáveis. Isso afeta diretamente a economia nacional, porque a agricultura brasileira depende desses rios voadores”, destaca.

Entre as culturas mais ameaçadas estão soja, cana-de-açúcar e sorgo, que predominam nas regiões mais próximas ao Cerrado e ao arco do desmatamento. “São áreas que têm avançado cada vez mais para dentro do bioma amazônico, o que cria um paradoxo: o agronegócio expande a fronteira agrícola destruindo justamente o sistema climático que o sustenta”, observa Franco.

Os dados do estudo revelam uma transição em curso. A Amazônia, tradicionalmente úmida, pode estar evoluindo para um regime climático mais parecido com o do Cerrado e, em cenários extremos, até com o da Caatinga. “Nossos resultados mostram que, se o ritmo atual de desmatamento continuar, o bioma amazônico pode sofrer uma transformação climática profunda, tornando-se mais seco e quente. Em 2035, poderemos ter um aumento adicional de 0,6 °C na temperatura máxima e uma redução de mais 7 milímetros de chuva por estação seca”, afirma o pesquisador, citando as projeções da equipe. O estudo destaca também que os efeitos mais intensos ocorrem logo no início da devastação: entre 10% e 40% de perda de floresta, os impactos sobre as chuvas são mais dramáticos. “Isso significa que cada hectare preservado nas áreas ainda intactas tem um valor climático imenso. O efeito não é linear: o começo do desmatamento é o mais destrutivo”, explica.

A floresta como infraestrutura climática

Na prática, a Amazônia atua como uma infraestrutura natural do clima. As árvores extraem água do solo e a devolvem à atmosfera em forma de vapor, que condensa e alimenta as chuvas no continente. “A floresta captura dióxido de carbono, transforma esse carbono em biomassa e libera vapor d’água. Quando a derrubamos, perdemos não apenas a sombra e o carbono fixado, mas a própria máquina de evapotranspiração que sustenta o ciclo das águas”, explica Franco

Ele enfatiza que a destruição da floresta não se restringe à Amazônia. “O desmatamento afeta diretamente o regime de chuvas do Sudeste e do Sul, regiões que dependem do transporte de umidade da floresta. Quando esse transporte diminui, as chuvas escasseiam e as temperaturas sobem, aumentando o risco de estiagens severas”, afirma.

O estudo também revela que as emissões globais de gases de efeito estufa, embora dominantes no aumento das concentrações de CO₂ e metano, têm papel secundário nas mudanças locais de precipitação. Apenas 25% da redução das chuvas foi associada ao aquecimento global, enquanto 75% decorrem da devastação florestal. “Os efeitos das mudanças climáticas são globais, mas o desmatamento é um gatilho regional poderosíssimo”, diz Franco

O desafio da restauração

Para o cientista, conter o desmatamento e investir em reflorestamento são medidas urgentes. “O reflorestamento deve ser feito em larga escala, com espécies nativas e sob coordenação do governo. A Amazônia é continental, então o esforço precisa ser igualmente grande”, propõe. Ele aponta também que não se trata apenas de plantar árvores, mas de remover as pressões sobre o bioma. “É preciso combater o desmatamento criminoso, o fogo, a mineração ilegal e a expansão desordenada do gado. E, ao mesmo tempo, envolver as comunidades locais e povos indígenas, que são os verdadeiros guardiões da biodiversidade”, acrescenta

Franco também avalia que é, segundo ele, perfeitamente possível explorar economicamente a floresta de maneira sustentável. “Os produtos florestais não madeireiros, o turismo científico e a biotecnologia oferecem caminhos muito mais rentáveis e duradouros do que a devastação. Mas é preciso vontade política e planejamento”, defende.

COP30 e possível legado amazônico

A próxima Conferência do Clima da ONU (COP30), que será realizada em novembro em Belém (PA), oferece uma oportunidade histórica para o Brasil transformar evidências científicas em compromissos concretos. “É fundamental que os tomadores de decisão levem em conta esses dados. Agora, temos números: sabemos o quanto o desmatamento pesa sobre as chuvas e as temperaturas. É hora de agir com base em ciência”, afirma o professor

Segundo ele, preservar as áreas ainda intactas é a forma mais eficaz e barata de proteger o clima. “O desmatamento inicial tem impactos desproporcionais. Evitar que ele aconteça é muito mais eficiente do que tentar restaurar depois. Mas, onde já houve perda, o reflorestamento é indispensável”, reforça.

Amazônia: o coração hídrico do planeta

Embora a Amazônia seja frequentemente descrita como “o pulmão do mundo”, Franco prefere outra metáfora. “Em termos de oxigênio, essa expressão está incorreta. A floresta é, na verdade, o coração hídrico do planeta. É ela que bombeia a umidade que alimenta as chuvas e mantém o equilíbrio térmico do continente”, diz

A perda desse coração, alerta o pesquisador, compromete não apenas o regime de chuvas, mas o próprio balanço de carbono global. “O desmatamento reduz a capacidade de fixação de carbono e, pior, transforma a floresta em fonte emissora. Ou seja, além de deixar de absorver, ela passa a emitir mais CO₂, intensificando o aquecimento global”, explica.

Rios que sustentam a vida

Mais do que um fenômeno atmosférico, os rios voadores simbolizam a interdependência entre ecossistemas, economia e sociedade. “A moral da história é simples”, conclui Franco. “Sem floresta, não há rios voadores. Sem rios voadores, não há chuva. E sem chuva, não há agricultura nem estabilidade climática. Preservar a Amazônia não é uma questão regional, é uma necessidade vital para o Brasil e para o planeta”, conclui.

Artigo científico

Franco MA, Rizzo LV, Teixeira MJ, Artaxo P, Azevedo T, Lelieveld J, Nobre CA, Pöhlker C, Pöschl U, Shimbo J, Xu X, Machado LAT. How climate change and deforestation interact in the transformation of the Amazon rainforest. Nat Commun. 2025 Sep 2;16(1):7944. 

Fonte: Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo

 

Citação
EcoDebate, . (2025). Desmatamento na Amazônia enfraquece os rios voadores, diminuindo as chuvas pelo Brasil. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2025/10/28/desmatamento-na-amazonia-enfraquece-os-rios-voadores-diminuindo-as-chuvas-pelo-brasil/ (Acessado em novembro 13, 2025 at 15:25)

 
in EcoDebate, ISSN 2446-9394