segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

PIRÂMIDE GLOBAL DA RIQUEZA, DESIGUALDADE SOCIAL E AS EMISSÕES DE CO2.

Pirâmide global da riqueza, desigualdade social e as emissões de CO2, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


“O crescimento econômico e populacional está entre os mais importantes fatores do aumento das emissões de CO2 em decorrência da combustão de combustíveis fósseis”
Alerta dos cientistas mundiais sobre a emergência climática (05/11/2019)

“A mudança climática é potencialmente a maior ameaça à saúde do século 21”
Organização Mundial da Saúde (03/12/2019)

[EcoDebate] Todos os anos, desde 2010, o banco Credit Suisse publica o Relatório Global da Riqueza que é a fonte mais ampla de informações sobre o patrimônio familiar global, cobrindo não apenas os escalões superiores riqueza, mas todo o espectro de ativos patrimoniais dos ricos aos pobres. O relatório fornece uma análise detalhada do patrimônio líquido das famílias, definido como o valor dos ativos financeiros mais os ativos não financeiros (principalmente habitação) pertencentes a indivíduos adultos, menos suas dívidas.
A pirâmide global da riqueza tem mantido uma trajetória de crescimento com a continuidade de uma estrutura desigual da posse de patrimônio entre as pessoas adultas do mundo. A figura abaixo mostra como está distribuída a riqueza de USD$ 360,6 trilhões, com média de US$ 70,8 mil para os 5,09 bilhões de adultos do mundo.
A base da pirâmide, com patrimônio abaixo de USD$ 10 mil, abarca 2,88 milhões de adultos representando 56,6% dos quase 5 bilhões de pessoas adultas, com uma riqueza total de USD$ 6,3 trilhões, representando 1,8% do total de USD$ 360,6 trilhões. O grupo seguinte, pessoas com patrimônio entre 10 e 100 mil, agrupa 1,66 bilhão de adultos (32,6% do total), com uma riqueza de USD$ de 55,7 trilhões (representando 15,5% do total). O grupo de classe média alta (entre 100 mil e 1 milhão) reúne 499 milhões de adultos (9,8% do total), com patrimônio total de USD$ 140,2 trilhões (38,9% do total).
pirâmide global da riqueza 2019
Por fim, 47 milhões de multibilionários, com mais de USD$ 1 milhão de patrimônio, representando apenas 0,9% dos 5 bilhões de adultos, abarca US$ 158,3 trilhões, representando 43,9% dos USD$ 360,6 trilhões da riqueza global. Ou seja, 546 milhões de adultos (10,7%) do topo da pirâmide apropriam de 82,6% da riqueza total. Mas, apesar da desigualdade ser gritante, ela se reduziu nos últimos anos, pois nas bases da pirâmide, em 2017, havia 3,5 bilhões de adultos com patrimônio abaixo de USD$ 10 mil, representando 70,1% do total e havia 1,05 bilhão de adultos com patrimônio entre 10 mil e 100 mil, representando 21,3% do total. Estas percentagens diminuíram em 2019 e aumentou a percentagem nos dois grupos superiores.
O gráfico abaixo mostra que, em termos nominais, a riqueza global por adulto subiu de USD$ 31,4 mil no ano 2000 para USD$ 53,9 mil em 2007, caiu para USD$ 48,5 mil em 2008 e voltou a subir depois da crise financeira, atingindo USD$ 70,8 mil em 2019. Antes da crise a riqueza crescia a 8% ao ano e diminuiu o ritmo para 3,7% na atual década. Portanto, mesmo em ritmo menor, a riqueza global continua crescendo e a desigualdade, mesmo sendo muito acentuada, se reduziu ligeiramente, especialmente com o crescimento da classe média na China e na Índia.
tendência global nos ativos e dívidas por adulto: 2000-2019
O mapa abaixo indica a grande diferença na riqueza global entre as nações. Os países com patrimônio acima de USD$ 100 mil estão localizados na América do Norte, Europa Ocidental, alguns países da Ásia-Pacífico e no Oriente Médio. A Suíça (USD $565 mil por adulto) lidera o ranking da riqueza, que ainda tem no top dez: Hong Kong, Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia, Singapura, Canadá, Dinamarca, Reino Unido e Holanda. Os países da África Subsaariana estão entre os mais pobres do mundo. Chama a atenção a presença da Venezuela (que já foi considerado um dos países mais ricos da América Latina) entre os países com baixa riqueza por adulto em 2019.
mapa da riqueza global 2019
Contudo, todo o montante atual de USD$ 360,6 trilhões de riqueza para 5,09 bilhões de adultos, em 2019, está sustentado em bases ambientais frágeis, pois a riqueza do ser humano (em sua forma piramidal) está alicerçada sobre bases naturais degradas pelas atividades antrópicas.
A maior ameaça à manutenção e continuidade da pirâmide global da riqueza vem das mudanças climáticas e da possibilidade de um aquecimento tão alto, para os padrões históricos, que torne muitas partes da Terra inabitáveis, eventos extremos simultâneos, com aumento dos furacões, secas, tempestades, acidificação dos solos e dos oceanos, ondas letais de calor, elevação do nível dos mares, inundações, aumento dos refugiados climáticos, etc. O impacto do aquecimento global será muito rápido e vai durar muito tempo. Isso quer dizer que os efeitos danosos da crise climática e ambiental vão se agravar com o tempo e afetar as atuais e futuras gerações.
Como mostrou Alves (13/11/2019), a população humana, que estava em 1,15 bilhão em 1880, chegou a 2 bilhões de habitantes por volta de 1930, atingiu 3 bilhões em 1960 e 4 bilhões em 1974. O ritmo de crescimento demográfico reduziu um pouco nos anos seguintes, mas manteve acréscimos de 1 bilhão de pessoas a cada 12 ou 13 anos e deve alcançar 8 bilhões de habitantes em 2023. O Produto Interno Bruto (PIB) global era, em 1880, de cerca de 2 trilhões de dólares em poder de paridade de compra (ppp), segundo os dados do Projeto Maddison, e passou para pouco mais de US$ 8 trilhões, em 1945, um crescimento médio anual de pouco mais de 2% ao ano. Mas entre 1945 e 1980 o PIB mundial passou para US$ 36 trilhões, com um crescimento médio anual acima de 4%. Este foi o período de maior emissão de CO2. Entre 1980 e 2016, o PIB global desacelerou um pouco (assim como a população) mas ultrapassou a casa de 100 trilhões de dólares (em ppp) em 2016, com um crescimento médio em torno de 3% ao ano.
Como resultado deste alto crescimento demoeconômico, as emissões globais de CO2 dispararam. As emissões que estavam abaixo de 1 bilhão de tonelada em 1880, chegou a 2 bilhões de toneladas em 1900, a 4,5 bilhões depois da Segunda Guerra e, durante os chamados “30 anos dourados” deu um salto para quase 20 bilhões de toneladas em 1980. Houve uma certa desaceleração até o ano 2000, com 24,8 bilhões de toneladas e acelerou novamente durante o superciclo das commodities até atingir 36 bilhões de toneladas em 2018.
Entre 1880 e 2018, a população mundial cresceu 6,6 vezes, as emissões de CO2 cresceram 42 vezes e o PIB cresceu 56 vezes. As emissões cresceram mais rápido do que a população, mas em ritmo menor do que a economia. Mas a associação entre o crescimento demoeconômico e a liberação de gases de efeito estufa é inquestionável. Ou seja, o aumento da riqueza per capita dos adultos do mundo – a despeito das desigualdades – aumentou muito a emissão de dióxido de carbono conforme mostra o gráfico abaixo do “The Global Carbon Project”. Nota-se que o ritmo das emissões cresceu muito durante o superciclo das commodities apresentando um crescimento de 3% ao ano na primeira década do atual século. Mesmo depois do Acordo de Paris, as emissões continuaram em ritmo forte, quando deveriam estar caindo. O aumento das emissões foi de 4% entre 2015 e 2019, quando já deveriam ter estabilizado e invertido a tendência.
emissões globais de CO2 fóssil
Evidentemente, este aumento das emissões de CO2 variam conforme o padrão de riqueza dos países e, de forma geral, os países mais poluidores seguem o mapa anterior da riqueza global. Contudo, os países ricos emitiam muito mais CO2 no século passado, pois no século XXI são os países em desenvolvimento que lideram a emissão de gases de efeito estufa. As emissões de CO2 se espalharam pelos 4 cantos do mundo e ameaçam o controle do aquecimento global 
emissões globais e nacionais de CO2
Fica cada vez mais evidente que é impossível continuar retirando riqueza da natureza e devolvendo poluição e resíduos sólidos como se o meio ambiente fosse um grande aterro sanitário e a atmosfera fosse uma sauna funcionando 24 horas, 365 dias por ano. O fato é que os recursos e a capacidade de regeneração da Terra são finitos, mas as necessidades e as expectativas humanas são infinitas. Ou se amplia um, ou se reduz o outro. Como não há Planeta B, é a continuidade da geração de riqueza que precisa ser limitada.
O mundo não deveria continuar ampliando a pirâmide da riqueza e do consumo e, sim, construir relações menores, mais horizontais, simples e justas entre as pessoas e entre as pessoas e o meio ambiente. O mundo está em emergência climática e é cada vez mais provável uma catástrofe ambiental num horizonte não muito distante. O Egito antigo construiu pirâmides magníficas, mas o regime dos Faraós fracassou e desapareceu, deixando no deserto apenas a estrutura daquilo que um dia foi uma civilização próspera.
Segundo Vaclav Smil, no livro “Growth: From Microorganisms to Megacities” (2019), o mundo atual enfrenta uma singularidade crucial, pois há apenas um único planeta cujos recursos alimentaram o crescimento espetacular da civilização humana e que agora estão se esgotando. A “corrida do ouro” que enriqueceu toda a humanidade, mas especialmente aquelas parcelas do topo da pirâmide global, está terminando sem mais o brilho infinito dos recursos naturais e com fluxos crescentes de poluição e uma grande montanha de rejeitos.
Em síntese, a pirâmide da riqueza humana tem crescido e se ampliado – intrinsecamente de maneira desigual – e a partir da pauperização dos ecossistemas. Não é improvável, que em algum momento, a pirâmide possa afundar por falta de sustentação ecológica ou possa implodir por falta de justiça redistributiva em sua arquitetura social.
José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382
Referências:
ALVES, JED. Países ricos emitem mais CO2, mas as emissões crescem mais nos países emergentes, Ecodebate, 26/09/2018
https://www.ecodebate.com.br/2018/09/26/paises-ricos-emitem-mais-co2-mas-as-emissoes-crescem-mais-nos-paises-emergentes-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
VACLAV SMIL. Growth: From Microorganisms to Megacities, The MIT Press, 2019
http://vaclavsmil.com/2019/09/17/growth-from-microorganisms-to-megacities/
Friedlingstein, P. et. al. Global Carbon Budget 2019, Earth Syst. Sci. Data, 11, 1783–1838, https://doi.org/10.5194/essd-11-1783-2019, 2019.
https://www.earth-syst-sci-data.net/11/1783/2019/#section14
Carbon Budget 2019: An annual update of the global carbon budget and trends, 04/12/2019
https://www.globalcarbonproject.org/carbonbudget/index.htm
The Credit Suisse Global Wealth Report 2019. Zurich, Switzerland. 2019
https://www.credit-suisse.com/about-us/en/reports-research/global-wealth-report.html

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/12/2019

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

ANA LANÇA RELATÓRIO DE SEGURANÇA DE BARRAGENS 2018 : BARRAGENS CRÍTICAS AUMENTAM 51%.

ANA lança Relatório de Segurança de Barragens 2018; Barragens críticas aumentaram 51%



O Relatório de Segurança de Barragens 2018, divulgado ontem (11) pela Agência Nacional de Água (ANA), lista 68 barragens classificadas como “críticas”, isto é, com algum comprometimento estrutural importante.

O número representa um aumento de 51% em relação a 2017, quando o relatório apontou 45 estruturas com essa classificação. Em 2016, foram registradas 25.
ABr
De acordo com o órgão, esse aumento não significa necessariamente que o número de barragens que causam preocupação seja maior. “Pode refletir maior inclusão de dados, bem como expansão das atividades de fiscalização”, diz a ANA em nota.
Foram listados nesse relatório 17.604 barragens. Destas, 4.830 reúnem as características necessárias para que estejam sujeitas a cumprir uma série de medidas previstas na Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB), tais como a elaboração de um plano de segurança.
Considerando apenas estas 4.830 barragens, 1.742 são usadas para irrigação, 990 para abastecimento humano, 687 para hidrelétrica e 492 para contenção de rejeitos da mineração. Há ainda estruturas voltadas para a dessedentação animal, recreação, aquicultura, entre outros. Entre as mineradoras, a Vale é a que aparece com o maior número de estruturas enquadradas no PNSB: são 120.

Informações de órgãos de fiscalização

Os dados contidos no Relatório de Segurança de Barragens 2018 são coletados a partir do Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens (SNISB). Ele reúne informações registradas por órgãos nacionais e estaduais responsáveis pela fiscalização da segurança de barragens no país.
Das 68 estruturas que geraram preocupações, 41 pertencem a órgãos e entidades públicas, seja na esfera federal (18), estadual (18) ou municipal (4). Entre as 45 que foram consideradas críticas em 2017, 25 permanecem na lista de 2018 e 20 foram retiradas. Os órgãos também apresentam as razões de suas preocupações com estas estruturas.
“A maioria das barragens que preocupam os fiscalizadores de todo o país, entre órgãos estaduais e federais, tem problemas de baixo nível de conservação da estrutura da barragem. No entanto, existem outros motivos para a classificação preocupante, como insuficiência do vertedor ou ausência de empreendedor”, informa a ANA.

Minas Gerais

Em Minas Gerais, estão quatro barragens críticas, sendo duas delas voltadas para a contenção de rejeitos da mineração, ambas de responsabilidade da empresa Mundo Mineração. O relatório registra que elas estão abandonadas. O estado vivenciou duas grandes tragédias com barragens de mineração. Em 2015, no município de Mariana (MG), uma estrutura da Samarco causou 19 mortes e, em janeiro deste ano, em Brumadinho (MG), uma ruptura em complexo minerário da Vale tirou a vida de mais de 250 pessoas.
A própria Vale é responsável por uma das quatro barragens críticas situadas em Minas. Não se trata, porém, de uma estrutura de armazenamento de rejeitos minerários. É Pequena Central Hidrelétrica Mello, situada em Rio Preto (MG). Em março, o risco de rompimento fez a mineradora retirar de suas casas 29 pessoas que viviam nas proximidades. Evacuações também foram realizadas pela Vale nos arredores de quatro barragens que atingiram nível de emergência 3, que é acionado quando há possibilidade iminente de ruptura. Nenhuma dessas estruturas está listada como crítica no documento divulgado pela ANA.

Risco

Em relação à edição de 2017, o novo relatório também registra um aumento de 26% das barragens classificadas simultaneamente com Dano Potencial Associado (DPA) alto e Categoria de Risco (CRI) alto. São 909 estruturas no país com essa condição.
Ter DPA alto significa que, em caso de rompimento, pode haver perdas de vidas humanas e grandes impactos econômicos, sociais e ambientais. Não significa, porém, que a barragem possui algum risco de ruptura. Isso será revelado pela CRI, que tem relação com o estado de conservação e com o atendimento ao plano de segurança da estrutura.
Os dados de acidentes também são incluídos no relatório. Ele registra três casos de rompimentos de barragens, mas nenhuma envolvendo mineração. Em apenas uma dessas ocorrências, na Fazenda Boa Sorte em Paragominas (PA), houve mortes: duas crianças foram levadas pela enxurrada. Como os dados dizem respeito a eventos ocorridos em 2018, a tragédia ocorrida em Brumadinho no dia 25 de janeiro deste ano será listada no próximo relatório.
relatório de segurança de barragens 2018
Nota da redação EcoDebate: Acesse o RSB na íntegra.

Por Léo Rodrigues, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/12/2019

ZONEAMENTO ECOLÓGICO-ECONÔMICO.

Zoneamento ecológico-econômico, artigo de Roberto Naime


artigo
[EcoDebate] Dentre as tantas características marcantes do Brasil, sua diversidade é destaque do ponto de vista ambiental. É composta por diferentes ecossistemas, em distintos estágios de conservação. Sob o aspecto social, também é um complexo de diferentes grupos humanos, com territorialidades próprias e conflitantes entre si.
Do ponto de vista econômico, testemunha processos produtivos em constante mudança e, em relação ao espectro político, é marcado por um entrelaçamento de interesses de diferenciados segmentos, nas esferas nacional, regional e local.
No entanto, é importante tratar essa diferenciação interna das diversas regiões do País como uma potencialidade, e não como um problema. Quando da formulação de soluções aos problemas nacionais, é preciso considerar como grande potencial brasileiro sua diversidade regional, com potencialidades latentes a serem apoiadas em cada lugar.
Neste contexto, o Estado adquire papel fundamental para dinamizar o território, sem agredir suas identidades e estimulando ações articuladas a partir de uma visão estratégica em escala nacional, evitando-se a intensificação das desigualdades nacionais.
Nesse cenário, é essencial uma visão estratégica do território nacional para a articulação política e para objetivar metas de crescimento econômico e de combate à desigualdade social, aliada à conservação dos recursos naturais.
Deve haver não apenas uma conexão entre a elaboração e a execução de um plano nacional e de planos de desenvolvimento regional e planejamento territorial, pela União e de planos estaduais e municipais, mas também em relação à atuação dos entes federados na proteção do meio ambiente e na promoção do desenvolvimento e da integração social.
Essa visão estratégica tem como elemento central uma preocupação com a retomada do território enquanto quadro ativo de integração do arcabouço produtivo, social e ambiental.
Este resgate busca também, ao se estabelecer o território como base das demandas sociais, superar a visão setorial e tornar mais fácil a compreensão das causas dos problemas a serem enfrentados e a priorização das ações a serem implementadas.
No que se refere ao planejamento governamental como um todo, há uma série de instrumentos e iniciativas em andamento que guardam significativas possibilidades de impactar positivamente a dinâmica sócio-produtiva do País, contribuindo para a atenuação e redução das desigualdades intra e inter-regionais.
O planejamento ambiental territorial apresenta relações essenciais não somente com o desenvolvimento regional, mas também com o desenvolvimento do País, de forma mais ampla. Enquanto condiciona e expressa o desenvolvimento histórico do País, seu desdobramento e redefinição exigem horizontes temporais que não se esgotam no curto prazo.
Como instrumento de regulação das tendências de distribuição de atividades produtivas e equipamentos, diante de objetivos estratégicos e como produto de articulação institucional e de negociações entre atores significativos, o planejamento ambiental territorial oferece subsídios para enfrentar graves problemas sociais e pode servir de base à própria legitimação do Estado.
Neste contexto, o zoneamento ecológico-econômico (ZEE), instrumento da Política Nacional do Meio Ambiente regulamentado pelo decreto nº 4.297/2002, tem sido utilizado pelo poder público com projetos realizados em diversas escalas de trabalho e em frações do território nacional.
Municípios, estados da federação e órgãos federais têm executado ZEEs e avançado na conexão entre os produtos gerados e os instrumentos de políticas públicas, com o objetivo de efetivar ações de planejamento ambiental e territorial.
Em linhas gerais, o ZEE tem como objetivo viabilizar o desenvolvimento sustentável a partir da compatibilização do desenvolvimento socioeconômico com a proteção ambiental.
Parte do diagnóstico dos meios físico, socioeconômico e jurídico-institucional e da compatibilização de cenários com vocações naturais para a proposição de diretrizes legais e programáticas para cada unidade territorial identificada, estabelecendo ações voltadas à mitigação ou correção de impactos ambientais danosos porventura ocorridos.
De fato, dadas as especificidades econômicas, sociais, ambientais e culturais existentes, as vulnerabilidades e as potencialidades também são distintas, e o padrão de desenvolvimento não pode ser uniforme. Uma característica do ZEE é justamente valorizar essas particularidades, que se traduzem no estabelecimento de alternativas de uso e gestão que oportunizam as vantagens competitivas do território considerado.
Como exposto no decreto federal nº 4.297/2002:
Art. 2º O ZEE, instrumento de organização do território a ser obrigatoriamente seguido na implantação de planos, obras e atividades públicas e privadas, estabelece medidas e padrões de proteção ambiental destinados a assegurar a qualidade ambiental, dos recursos hídricos e do solo e a conservação da biodiversidade, garantindo o desenvolvimento sustentável e a melhoria das condições de vida da população.
Art. 3º O ZEE tem por objetivo geral organizar, de forma vinculada, as decisões dos agentes públicos e privados quanto a planos, programas, projetos e atividades que, direta ou indiretamente, utilizem recursos naturais, assegurando a plena manutenção do capital e dos serviços ambientais dos ecossistemas.
Parágrafo único. O ZEE, na distribuição espacial das atividades econômicas, levará em conta a importância ecológica, as limitações e as fragilidades dos ecossistemas, estabelecendo vedações, restrições e alternativas de exploração do território e determinando, quando for o caso, inclusive a relocalização de atividades incompatíveis com suas diretrizes gerais.
Ou seja, o ZEE busca contribuir para racionalizar o uso e a gestão do território, reduzindo as ações predatórias e apontando as atividades mais adaptadas às particularidades de cada região, melhorando a capacidade de percepção das inter-relações entre os diversos componentes da realidade e elevando a eficácia e efetividade dos planos, programas e políticas, públicos e privados, que incidem sobre um determinado território, espacializando os mesmos de acordo com as especificidades ou características observadas.
Não basta estabelecer um rigoroso planejamento e ordenamento territorial, concebido segundo os objetivos da conservação ambiental, do desenvolvimento econômico e da justiça social, se isso não for acompanhado da criação e do fortalecimento de novas condições institucionais e financeiras que concorram para sua implementação, com uma integração horizontal, vertical e temporal das diversas ações que atuam num dado território, como ressalta site do Ministério do Meio Ambiente.
Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Aposentado do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.
Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/12/2019

O AVANÇO DOS EVANGÉLICOS.

O avanço dos evangélicos, artigo de Gaudêncio Torquato



artigo de opinião

[EcoDebate] BBB: bancadas do boi, da bala e da bíblia. A sigla é bastante conhecida e tende a ganhar mais fôlego nos próximos tempos. Fiquemos com esta última, começando com a hipótese: a bancada evangélica vai se fortalecer no governo Bolsonaro, na esteira do crescimento do evangelismo no Brasil.
Um conjunto de elementos sinaliza nessa direção: vínculo forte que os evangélicos têm com os valores conservadores, matriz do ideário governamental; grande bancada parlamentar, que soma cerca de 200 deputados e 10 senadores; prestígio que o presidente confere aos evangélicos, frequentando cultos, recebendo bênçãos de pastores. Sua esposa, Michelle, é intérprete de libras nos cultos dominicais da Igreja Batista Atitude, no Rio. Já a cerimônia religiosa da união do casal foi oficiada pelo pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus.
Que fenômenos explicam a expansão dos evangélicos no território, que hoje se aproximam de 24% da população, enquanto os católicos caem para a faixa dos 62%, de acordo com o IBGE? O que se sabe é que o evangelismo se apresenta como uma entidade viva, tocando diretamente no coração dos fiéis, renovando a liturgia, movimentando plateias, falando de problemas cotidianos e mostrando a trilha para os participantes usufruírem, desde já, os bens terrenos.
Desse modo, a pobreza pode ser revertida por atos e disposição de cada um. Já a Igreja Católica tem na pobreza um dos eixos de sua pregação. Ao tomar posse, o papa Francisco teria dito: “como eu gostaria de uma Igreja pobre, para os pobres.” A menção aos pobres é referência a São Francisco de Assis, cuja vida foi dedicada à pobreza. O papa escolheu o nome de Francisco para evocar o santo. Sem esquecer que Cristo nasceu numa manjedoura.
Entre as teses sobre o evangelismo, particularmente sobre a vertente pentecostal, movimento de renovação cristã que dá ênfase à união com o Espírito Santo, há um texto interessante do pesquisador Brand Arenari. O foco da mensagem pentecostal é a promessa de integrar indivíduos à dinâmica central da sociedade, o que inclui as noções de inclusão, ascensão social e modelos de vida individuais. Escopo que encontra guarida na Teoria da Prosperidade, pela qual as pessoas podem ter acesso “às maravilhas do mundo moderno”, aqui e agora. “O sofrimento não tem mais valores positivos”, encontrados em outras doutrinas, aduz Brand.
Condição para se galgar o edifício da melhoria de vida é o seio familiar. No pentecostalismo, a família assume o papel de um “banco de créditos afetivos, morais e cognitivos”. Preservar a família é, portanto, um dos eixos do credo, com suas “células” que acompanham a dinâmica da vida de seus membros. Indivíduos disciplinados, orientados para o estudo e o trabalho, acabam encontrando a receita do “sucesso”.
Olhemos para os cárceres abarrotados. Quem leva aos presos a mensagem de esperança, de voltar a uma vida saudável, com acesso aos bens materiais, contanto que sigam preceitos e determinadas linhas de comportamento? As igrejas evangélicas. Sob essa crença, presos saem dos cárceres com uma bíblia na mão.
Projetemos esse cenário sobre a textura social e o terreno da política. A inferência é clara: núcleos populacionais, a partir das camadas pobres, essas que formam um anel em torno do centro das cidades, se identificam com um ideário próximo às suas necessidades materiais e espirituais. Antes do Reino dos Céus, os crentes têm de enfrentar as agruras do Reino terreno, que estão ali no bairro onde moram com suas famílias carentes.
Em suma, a receita do pentecostalismo é não se conformar com a pobreza. Daí o aceno a melhores dias. O discurso é: o indivíduo é dono do seu destino e, assim, pode direcionar sua vida. Sob esse preceito, é razoável prever que pentecostais e outras igrejas evangélicas se expandam em progressão geométrica enquanto a Igreja do papa Francisco sofre uma diminuição.
Dito isto, convém lembrar que o governo do presidente Bolsonaro se inclina na direção dos evangélicos. Apesar de católico, identifica-se melhor com essas igrejas. Ele já prometeu nomear para o STF um ministro “terrivelmente evangélico”. A bancada da bíblia, com seus fiéis, se infiltra nas malhas do Estado, fazendo emergir o debate: o Estado é ou não laico? Terá o evangelismo influência em demasia na condução do Estado brasileiro? Perguntas que vão abrir o debate.
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter@gaudtorquato

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/12/2019

EMERGÊNCIA CLIMÁTICA : AQUECIMENTO DO ÁRTICO PODE TER CONSEQUÊNCIAS GLOBAIS.

Emergência Climática: Aquecimento do Ártico pode ter consequências globais


degelo no Ártico
Por Orion Rummler*, Axion
permafrost de degelo do Ártico pode liberar cerca de 300 a 600 milhões de toneladas de carbono líquido na atmosfera a cada ano, de acordo com o Arctic Report Card 2019 da NOAA divulgado terça-feira.
Por que é importante: as conseqüências das mudanças no clima do Ártico – aceleradas pelo aquecimento da temperatura do ar e pela diminuição do gelo do mar – resultarão em “padrões climáticos alterados, aumento das emissões de gases de efeito estufa e aumento do nível do mar”, relata o Washington Post .
  • O aquecimento da temperatura do ar está “provocando mudanças no ambiente do Ártico que afetam ecossistemas e comunidades em escala regional e global”, diz o relatório.
Detalhes: A camada de gelo da Groenlândia está contribuindo para o aumento médio global do nível do mar, perdendo cerca de 267 bilhões de toneladas métricas de gelo a cada ano.
  • As condições de aquecimento no Ártico promovem a conversão do carbono armazenado no permafrost em gases de efeito estufa.
  • O gelo marinho do Ártico está diminuindo de espessura, tornando-o cada vez mais vulnerável ao aquecimento do ar e dos oceanos.
  • Em maio de 2019, foi a quinta menor cobertura de neve do Ártico norte-americano nos 53 anos desde o início da gravação, enquanto a cobertura de neve de junho foi a terceira mais baixa.

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/12/2019

COP25 : PAÍSES COMO BRASIL,CHINA E ARÁBIA SAUDITA AINDA RELUTAM EM ALTERAR O ACORDO DE PARIS.

COP25: Países como Brasil, China e Arábia Saudita ainda relutam em alterar o Acordo de Paris


COP25

Por Aline Robert* | EURACTIV.fr
Países como Brasil, China e Arábia Saudita estão criticando o Artigo 6 do Acordo Climático de Paris e seu mecanismo de compensação de carbono, embora não estejam atualmente pagando a “conta climática”. Os defensores do clima temem que essa postura possa enfraquecer todo o tratado.
Na COP25 deste ano, em Madri, a UE continua obcecada com a questão dos mercados de carbono no Acordo Climático de Paris, porque países como Brasil, China e Arábia Saudita querem diminuir as limitações relativas ao sistema de comércio de emissões consagrado no Artigo 6 do Acordo.
O texto fornece aos países um sistema que lhes permite cumprir suas obrigações de redução de emissões por meio de créditos de carbono, assim como o Protocolo de Kyoto.
Mas os países em desenvolvimento, que não tinham restrições de carbono até então, relutam em fortalecer os requisitos atuais do sistema. Eles estão pedindo a extensão de projetos sob o Protocolo de Kyoto, bem como uma maior flexibilidade no uso de créditos.
Por exemplo, o Brasil quer vender seus créditos de carbono e, ao mesmo tempo, contabilizá-los como reduções de emissões. Para evitar esse tipo de prática ambientalmente hostil, outros estados pretendem implantar um sistema contábil robusto e um registro global.
“Eu amo muito o Brasil e temos muito em comum em termos de proteção de nossos bens comuns. Eu acho que podemos ter um diálogo interessante. Mas no que diz respeito ao Acordo de Paris, devemos avançar, não retroceder ”, afirmou o vice-presidente da Comissão, Frans Timmermans.
O mesmo vale para a ministra de transição ecológica e inclusiva da França, Elisabeth Borne, que está visitando Madri. “Alguns países, que se acostumaram a tirar vantagem do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, precisam mudar! Certamente não assinaremos este artigo 6 a qualquer preço ”, afirmou.
Acima de tudo, a UE está comprometida em manter intacto o espírito do Acordo de Paris, cujo Artigo 2 afirma que o objetivo é alcançar emissões líquidas zero em escala global.
Essa meta acaba por condenar os créditos de carbono, uma vez que evitar as emissões de carbono deve se tornar a norma, em oposição a um luxo para os países ricos que pagariam para reduzir as emissões de CO2 em outras partes do mundo.
“A UE forneceu a principal saída para o sistema anterior, o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), que tem sido abundante em termos de suprimento, mas nunca decolou devido à falta de restrições regulatórias”, disse Emile Alberola, diretor de pesquisa na Ecoact.
Mas para os países acostumados a receber dinheiro por meio desses créditos de carbono como parte do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, é difícil engolir a pílula e considerar o início desse “dinheiro grátis” já em 2020 muito cedo.
No entanto, a integridade ambiental de alguns projetos que decolaram sob o mecanismo permanece questionável.
A China, por exemplo, acumulou milhões de dólares vendendo créditos de gases fluorados usados ​​na indústria química. Embora isso tenha aumentado a produção, o clima sofreu, já que as emissões contêm gases de efeito estufa muito potentes.
No novo sistema elaborado pelo Acordo de Paris, esse tipo de arranjo não será mais possível: em teoria, somente projetos que demonstrem reduções líquidas de emissão, em vez de emissões evitadas, devem ser aceitos.
Ainda assim, como o Artigo 6 do Acordo de Paris é “a disposição mais sensível e técnica”, de acordo com Emilie Alberola, continua sendo o único artigo que ainda não foi finalizado, mesmo que os investidores estejam esperando impacientemente a adoção das novas regras. .
Como o Chile, que deveria sediar a COP25, agora está coorganizando a cúpula climática, parece provável que o Brasil consiga impor pelo menos algumas de suas opiniões, já que o Chile não tem interesse em atrapalhar sua poderosa vizinho.
“O que procuramos são formulações abertas que permitam que interpretações técnicas sejam deixadas para mais tarde”, disse uma fonte próxima às negociações.

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/12/2019