segunda-feira, 16 de outubro de 2023

A AMPLIAÇÃO DO GRUPO BRICS .

A ampliação do grupo BRICS, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

*A expansão do BRICS vai trazer “novo vigor” aos países em desenvolvimento concorrentes dos países capitalistas avançados. Novas adesões devem ocorrer nos próximos anos.

O termo BRIC foi inventado pelo economista Jim O’ Neill, do banco de investimento Goldman Sachs, em 2001, com o objetivo de orientar as empresas e os investidores mundiais no sentido de obter lucro com os grandes países “emergentes” do mundo: Brasil, Rússia, Índia, China. Estes quatro países estão entre aqueles da comunidade internacional com maior território ou maior população. O termo fez grande sucesso, especialmente no período do superciclo das commodities. A primeira cúpula do BRIC aconteceu em 2009, na cidade de Ekaterinburgo, na Rússia.

Mas no acrônimo original não havia nenhum país da África, o que era politicamente incorreto e deixava todo um continente de fora. Então foi incluída a África do Sul (South África) e o termo BRIC ganhou uma letra a mais, se transformando em BRICS. Assim, dois anos depois, durante a terceira cúpula, em Sanya (China), a África do Sul passou a fazer parte do bloco. Os cinco países do grupo BRICS são muito heterogêneos e não tinham muitos pontos de unidade, além de já fazerem parte do G20 (vinte maiores economias do mundo). Portanto, havia dúvidas sobre a viabilidade e o espaço de consolidação do BRICS na governança global.

O G20 foi fundado em 1999, após a crise financeira asiática, como um fórum para os Ministros das Finanças e Governadores dos Bancos Centrais discutirem questões econômico e financeiras globais. A partir de 2008, após a crise econômica internacional iniciada com a quebra do banco Lehman Brothers, as Cúpulas do G20 passaram a ser compostas pelos Chefes de Estado e o bloco passou a ser o principal fórum para a cooperação econômica internacional.

O G20 é composto por 19 países (Argentina, África do Sul, Austrália, Arábia Saudita, Brasil, Canadá, China, Coreia do Sul, França, Alemanha, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Rússia, Reino Unido, Estados Unidos e Turquia) mais a União Europeia. Os membros do G20 representam cerca de 85% do PIB global, mais de 75% do comércio global e cerca de dois terços da população mundial.

Mas, no contexto da crescente rivalidade entre a China e os EUA e após a ocupação da Península da Crimeia pela Rússia, em 2014, o grupo BRICS passou a ser visto por muitos analistas como uma sigla geopolítica em contraponto à hegemonia do G7 – o grupo dos 7 maiores países capitalistas (EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá). Todos os países do G7 também participam do G20.

Em termos de tamanho populacional, o BRICS sempre foi muito maior do que o G7 e, nos últimos anos, já havia ultrapassado também em tamanho do Produto Interno Bruto (PIB). O gráfico abaixo, com dados do FMI, em poder de paridade de compra, mostra que, na década de 1980, o G7 representava mais de 50% do PIB global e o grupo BRICS representava pouco mais de 10% (não havia dados da Rússia). Nas décadas seguintes, o G7 encolheu e o BRICS se ampliou. Em 2020, cada um dos grupos tinha cerca de 30% do PIB global. A perspectiva para o final da atual década é o G7 com menos de 30% do PIB global e o BRICS com mais de 33%.

participação no pib global dos países do bric e do g7

 

Na 15ª cúpula do grupo BRICS, que aconteceu em Joanesburgo, de 21 a 23 de agosto de 2023, o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, anunciou a entrada de 6 novos membros. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Argentina, Egito, Irã e Etiópia foram convidados a entrar no grupo como membros plenos a partir de 1º de janeiro de 2024. Com isso, o grupo passa a ter 11 membros, com maior presença do Oriente Médio, da África e da América Latina.

O gráfico abaixo mostra a participação dos 11 países do BRICS ampliado no PIB global e a mesma comparação anterior com o grupo G7. Nota-se que o tamanho econômico dos países “emergentes” sobre os países ricos se amplia. Em 2023, o PIB do BRICS 11 representa 36,7% do PIB global, enquanto o G7 representa 29,9%. Em 2028, deve ficar em 38,3% contra 27,8%.

230824b participação no pib global dos países do bric e do g7

 

Evidentemente, a ampliação do grupo fortalece o BRICS em relação ao G7 e mesmo em relação ao G20. Ficou de fora a Indonésia que é o 4º maior país do mundo em termos demográficos. Mas houve a inclusão de países que não pertencem ao G20, como Emirados Árabes Unidos, Egito, Etiópia e Irã. Destes, a inclusão do Irã no mesmo grupo que participa a Arábia Saudita é uma novidade. Recentemente, com a intermediação da diplomacia chinesa, o Irã e a Arábia Saudita, os dois grandes produtores de petróleo e rivais políticos no Oriente Médio, concordaram em restabelecer relações e reabrir suas respectivas embaixadas. A presença do Irã no BRICS 11 fortalece a China e enfraquece os EUA e o G7.

Existe muito debate quanto à ampliação do BRICS e o que isto representa para a correlação de forças internacionais. Alguns analistas dizem que a ampliação do BRICS vai fortalecer o multilateralismo e garantir maior direito de voz aos países em desenvolvimento. O bloco ampliado com 11 países, apelidado de Brics Plus, poderia alcançar 42% da economia global antes de 2040, o dobro dos 21% do G7. Sem dúvida, a liderança Ocidental sairia enfraquecida.

Outros analistas consideram que a expansão do BRICS se encaixa na disputa entre o “Consenso de Washington” versus o “Consenso de Beijing” (Alves, 2010). Ou seja, os países do G7 seriam mais orientados pelo livre mercado e pelas instituições da democracia burguesa e os países do BRICS 11 (liderados pela China) seriam mais orientados pela intervenção estatal e pelas instituições iliberais.

Indubitavelmente, a expansão do BRICS vai trazer “novo vigor” aos países em desenvolvimento concorrentes dos países capitalistas avançados. Novas adesões devem ocorrer nos próximos anos. Com efeito, o “Sul Global” sai fortalecido. Mas não será simples coordenar as ações do BRICS, especialmente porque os dois grandes países, em termos populacionais e econômicos – a China e a Índia – não se entendem em vários assuntos e possuem estratégias geopolíticas diferenciadas.

Decerto, não há um denominador comum entre os 11 países do BRICS plus. Nem há uma transparente formulação quanto aos objetivos a serem alcançados. Muita coisa ainda vai ser definida nos próximos anos.

A única certeza é que não chegamos ao fim da história e que não existe um regime político único que irá prevalecer nas próximas décadas do século XXI.

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. O Consenso de Beijing e a mudança de hegemonia, Ecodebate, 16/03/2010
http://www.ecodebate.com.br/2010/03/16/o-consenso-de-beijing-e-a-mudanca-de-hegemonia-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. A ascensão da China, a disputa pela Eurásia e a Armadilha de Tucídides. Entrevista especial com José Eustáquio Diniz Alves, IHU, Patrícia Fachin, 21 Junho 2018
http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/580107-a-ascensao-da-china-a-disputa-pela-eurasia-e-a-armadilha-de-tucidides-entrevista-especial-com-jose-eustaquio-diniz-alves

 

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in EcoDebate, ISSN 2446-9394

GELEIRAS DOS ANDES ENCOLHERAM 42% DESDE 1990 .

Geleiras dos Andes encolheram 42% desde 1990

Mudanças climáticas e aumento das queimadas na Amazônia entre as causas da perda de quase metade da superfície das geleiras nos Andes nos últimos 30 anos

Estudo do MapBiomas Amazônia aponta que as Geleiras dos Andes tropicais encolheram 42% entre 1990 e 2020, passando de um máximo de 2.429,38 km2 para apenas 1.409,11 km2. Esse crescimento sem precedentes da perda de geleiras, tanto em extensão quanto em volume, pode ser atribuído às mudanças climáticas e a fatores não climáticos como o aumento das queimadas florestais nos últimos anos na Amazônia, que geram carbono negro que pode acelerar o recuo das geleiras.

degelo dos andes

 

As geleiras dos Andes tropicais estão passando por uma rápida redução, com potenciais impactos ambientais, culturais e econômicos para as populações locais, alerta um artigo científico publicado na revista Remote Sensing por especialistas da iniciativa MapBiomas Amazônia em colaboração com a Universidade Nacional Agrária La Molina, o Instituto de Pesquisas em Glaciares e Ecossistemas de Montanha, ambos do Peru, e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, do Brasil.

O estudo aponta que entre 1990 e 2020 foi constatada uma perda de 42% da cobertura das geleiras tropicais andinas, que passou de um máximo de 2.429,38 km2 para apenas 1.409,11 km2. O recuo registrado nas últimas três décadas equivale a quase metade da extensão das geleiras tropicais andinas registrada em 1990. Esse crescimento sem precedentes da perda de geleiras, tanto em extensão quanto em volume, pode ser atribuído às mudanças climáticas e a fatores não climáticos como o aumento das queimadas florestais nos últimos anos na Amazônia, que geram carbono negro que pode acelerar o recuo das geleiras ao entrar na superfície das geleiras.

“A queima das florestas gera carbono negro, que acelera o recuo das geleiras quando entra em contato com sua superfície”, explica Efrain Turpo, que liderou o estudo. Turpo destaca que a perda de geleiras afeta a integridade dos ecossistemas que dependem do ciclo da água, agricultura, abastecimento de água potável, geração de eletricidade, turismo, entre outros. Maria Olga Borja, coautora do artigo, reforça a importância de reduzir as emissões que se originam na destruição de florestas para dar lugar a outros usos da terra, como agricultura e pecuária. O estudo ressalta ainda a urgência de os governos nacionais tomarem medidas decisivas para combater a crise climática, incluindo políticas e programas de adaptação às alterações climáticas, nomeadamente em bacias com geleiras, de forma a reduzir os impactos do degelo.

As geleiras tropicais andinas estão localizadas entre o Trópico de Câncer e o Trópico de Capricórnio (entre as latitudes 23?N e 23?S) dentro da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT). O ritmo de mudança é rápido, com uma perda média anual de 28,42 km2. As mais afetadas foram as geleiras que estão a menos de 5.000 metros acima do nível do mar, que em 30 anos perderam quase 80,25% de sua área. A aceleração foi mais significativa a partir de 1995, quando a perda da Bacia Amazônica supera a de outras bacias. Em 2020 elas possuíam uma área aproximada de 869,59 km2.

Ao cobrir toda a região dos Andes tropicais em 36 anos de mapeamento anual, este estudo do MapBiomas Amazônia pode ser considerado o mais abrangente atualmente disponível, diz Raúl Espinoza, coautor do trabalho.

Os países mais afetados

países mais afetados pelo degelo dos Andes

 

As geleiras tropicais andinas estão presentes, com extensões muito variadas, em todos os países andinos. Aqueles com as maiores áreas são Peru (72,76%), Bolívia (20,35%) e Equador (3,89%). As maiores áreas glaciais, 44,75% do total, ocorrem na faixa entre -14° a -10° latitude, que contém as Cordilheiras Peruanas Blanca, Vilcanota, Vilcabamba e Urubamba. Nesses países, o recuo das geleiras em 2020 em relação a 1990 foi de 41,19% no Peru, de 42,61% na Bolívia e de 36,37% no Equador.
Colômbia, Chile e Argentina juntos respondem por 6,89% da cobertura das geleiras tropicais andinas (3,89%, 2,18%, 0,78% e 0,04%, respectivamente). A Venezuela tem percentual inferior a 0,01%, ou cerca de 0,03 km2. Apesar disso, teve uma perda de cobertura em 2020 em relação a 1990 de 96,93%. Na Colômbia, esse percentual foi de 60,19%; no Chile, de 47,24%; e na Argentina, de 45,47%.

Além dos impactos ambientais e econômicos, a retração das geleiras leva à perda de bens culturais, uma vez que as montanhas nevadas são de especial valor para as populações locais. “As populações dos países andinos vivem ainda hoje uma simbiose única entre o telúrico, o emocional e o natural, de modo que suas montanhas nevadas ao longo da Cordilheira dos Andes formam parte de sua visão de mundo, envolvendo mitos, lendas e práticas sociais e culturais ancestrais que sobrevivem até hoje, então a perda das geleiras representa um impacto em sua vida material e simbólica cotidiana”, aponta o sociólogo Raúl Borja Núñez.

Metodologia

Espinoza destaca a abordagem metodológica inovadora utilizada, uma vez que a extensão das geleiras foi derivada por meio de algoritmos de classificação semiautomatizados aplicados a dados de satélite. Ele afirma que isso tem sido possível graças aos avanços em termos de acessibilidade e continuidade temporal dos dados de satélite e ao desenvolvimento de plataformas de computação em nuvem.

“A análise do MapBiomas Amazônia apresenta uma nova compreensão das mudanças que as geleiras estão experimentando anualmente em diferentes áreas da cordilheira tropical dos Andes, conhecimento que é vital para uma melhor gestão dos recursos hídricos e adaptação às mudanças climáticas das populações andinas”, afirma Maria Olga Borja, coautora do artigo. Graças aos avanços nos últimos anos na acessibilidade e continuidade temporal dos dados de satélite e no desenvolvimento de plataformas
de computação em nuvem, como o Google Earth Engine, foi possível mapear a evolução histórica da mudança das geleiras.

O MapBiomas Amazônia utiliza tecnologia de ponta para monitorar as mudanças no uso da terra na Bacia Amazônica e monitorar as pressões sobre suas florestas e ecossistemas naturais. Essa iniciativa resulta da colaboração da Rede MapBiomas, com sede no Brasil, e da Rede Amazônica de Informações Socioambientais Georreferenciadas (RAISG), que reúne organizações civis de seis países amazônicos.

Leia o artigo completo em: https://www.mdpi.com/2072-4292/14/9/1974/htm (acesso aberto) Saiba mais sobre o projeto MapBiomas Amazônia aqui: https://amazonia.mapbiomas.org/

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/05/2022

PRODUTOS QUÍMICOS DESREGULADORES ENDÓCRINOS PODEM AUMENTAR O RISCO DE CÂNCER .

 em pauta: saúde

Produtos químicos desreguladores endócrinos podem aumentar o risco de câncer

Pesquisa indica ligação clara entre exposições a PFAS, BPA e um diagnóstico prévio de câncer.

Por Laura Kurtzman*

Num sinal de que a exposição a certos produtos químicos desreguladores endócrinos pode ter um papel no câncer da mama, ovário, pele e útero, os pesquisadores descobriram que as pessoas que desenvolveram esses tipos de câncer têm níveis significativamente mais elevados destes produtos químicos nos seus corpos.

Embora não prove que a exposição a produtos químicos como PFAS (substâncias per- e poli-fluoroalquílicas) e fenóis (incluindo BPA) tenha levado a estes diagnósticos de câncer, é um forte sinal de que podem ter um papel e devem ser mais estudados.

O estudo mostrou que, particularmente para as mulheres, uma maior exposição ao PFDE, PFNA e PFUA, compostos PFAS de cadeia longa, tinham o dobro das probabilidades de um diagnóstico prévio de melanoma.

O estudo mostrou uma ligação entre PFNA e um diagnóstico prévio de câncer uterino; e as mulheres com maior exposição a fenóis, como o BPA (utilizado em plásticos) e o 2,5-diclorofenol (um produto químico utilizado em corantes e encontrado como subproduto no tratamento de águas residuais), tinham maiores probabilidades de diagnóstico prévio de câncer do ovário.

O estudo foi conduzido por pesquisadores da UC San Francisco (UCSF), da Universidade do Sul da Califórnia (USC) e da Universidade de Michigan, todos os quais fazem parte de Centros Básicos de Ciências da Saúde Ambiental financiados pelo Instituto Nacional de Saúde.

Eles usaram dados de amostras de sangue e urina de mais de 10.000 pessoas na Pesquisa Nacional de Exame de Saúde e Nutrição (NHANES). Eles investigaram a exposição atual a fenóis e PFAS em relação a diagnósticos anteriores de câncer e exploraram disparidades raciais/étnicas nessas associações.

O estudo foi publicado no Journal of Exposure Science & Environmental Epidemiology.

PFAS são onipresentes no meio ambiente

Os PFAS contaminaram água, alimentos e pessoas através de produtos como panelas de Teflon, roupas impermeáveis, tapetes e tecidos resistentes a manchas e embalagens de alimentos. Eles são frequentemente chamados de “produtos químicos eternos” porque são resistentes à decomposição e, portanto, duram décadas no meio ambiente. Os PFAS também permanecem nos sistemas das pessoas por vários meses a anos.

O estudo também identificou diferenças raciais. Associações entre vários PFAS e canceres do ovário e do útero foram observadas apenas entre mulheres brancas, enquanto associações entre um PFAS chamado MPAH e um fenol chamado BPF e câncer da mama foram observadas apenas entre mulheres não brancas.

Laura Kurtzman possui mestrado em jornalismo e escreve sobre pesquisa básica e de saúde populacional, bem como educação.

Referência:

Cathey, A.L., Nguyen, V.K., Colacino, J.A. et al. Exploratory profiles of phenols, parabens, and per- and poly-fluoroalkyl substances among NHANES study participants in association with previous cancer diagnoses. J Expo Sci Environ Epidemiol (2023). https://doi.org/10.1038/s41370-023-00601-6

 

Henrique Cortez *, tradução e edição.

 

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in EcoDebate, ISSN 2446-9394