terça-feira, 19 de setembro de 2017

A FOME NO MUNDO ESTÁ EM ASCENSÃO

Depois de uma década de queda, a fome volta a crescer no mundo, afirma novo relatório da ONU


Após um declínio constante por mais de uma década, a fome no mundo está novamente em ascensão, impulsionada por conflitos e mudanças climáticas. Em 2016, a fome afetou 815 milhões de pessoas ou 11% da população global.
Os dados constam na nova edição do relatório anual das Nações Unidas sobre segurança alimentar e nutricional. O documento alertou também que múltiplas formas de má nutrição ameaçam a saúde de milhões de pessoas em todo o mundo.
Metade da população centro-africana passa fome devido à intensificação de conflitos internos, desde setembro de 2015. Foto: ACNUR / H. Caux
Metade da população centro-africana passa fome devido à intensificação de conflitos internos, desde setembro de 2015. Foto: ACNUR / H. Caux
Após um declínio constante por mais de uma década, a fome no mundo está novamente em ascensão e, em 2016, afetou 815 milhões de pessoas ou 11% da população global. Os dados estão na nova edição do relatório anual das Nações Unidas sobre segurança alimentar e nutricional, lançado nesta sexta-feira (15). O documento alertou também que múltiplas formas de má nutrição ameaçam a saúde de milhões de pessoas em todo o mundo.
Esse aumento — de mais 38 milhões de pessoas em relação ao ano anterior — deve-se, em grande parte, à proliferação de conflitos violentos e mudanças climáticas, revelou o estudo “The State of Food Security and Nutrition in the World 2017” (O estado da segurança alimentar e da nutrição no mundo em 2017).
De acordo com o estudo, cerca de 155 milhões de crianças com menos de 5 anos sofrem com atraso no crescimento (estatura baixa para a idade), enquanto 52 milhões estão com peso abaixo do ideal para a estatura.
Estima-se que 41 milhões de crianças estejam com sobrepeso. A anemia entre as mulheres e a obesidade adulta também são motivos de preocupação. Essas tendências são consequências não só dos conflitos e das mudanças climáticas, mas também das profundas alterações nos hábitos alimentares e crises econômicas.
É a primeira vez que a Organização das Nações Unidas (ONU) realiza uma avaliação global sobre segurança alimentar e nutricional após a adoção da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, cujo objetivo é acabar com a fome e com todas as formas de má nutrição até 2030, sendo essa uma das principais prioridades das políticas internacionais.
O documento aponta os conflitos — cada vez mais agravados pelas mudanças climáticas — como um dos principais motivos para o ressurgimento da fome e de muitas formas de má nutrição.
“Na última década, o número de conflitos tem aumentado de forma dramática e se tornaram mais complexos e insolúveis pela natureza”, afirmaram os membros da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), do Programa Mundial de Alimentos (PMA) e da Organização Mundial da Saúde (OMS), em prólogo conjunto publicado no relatório.
Os dirigentes da ONU dizem, ainda, que esse cenário não pode ser ignorado. “Não vamos acabar com a fome e com todas as formas de má nutrição até 2030, a menos que abordemos todos os fatores que prejudicam a segurança alimentar e a nutrição no mundo. Garantir sociedades pacíficas e inclusivas é uma condição necessária para atingirmos esse objetivo”, declararam.
A fome atingiu algumas partes do Sudão do Sul por vários meses no início de 2017, e há um alto risco de que ela possa se repetir, além de surgir em outros locais afetados pelo conflito, a saber, o nordeste da Nigéria, a Somália e o Iêmen, observaram.
Especialistas indicam que, além da violência que sofrem algumas regiões, as secas ou inundações — ligadas em parte ao fenômeno El Niño —, assim como a desaceleração econômica mundial, também colaboraram para o agravamento mundial da segurança alimentar e da nutrição.

Principais dados

Fome e segurança alimentar
O número total de pessoas com fome no mundo é de 815 milhões:
– Na Ásia: 520 milhões
– Na África: 243 milhões
– Na América Latina e no Caribe: 42 milhões
Porcentagem da população mundial vítima da fome: 11%
– Ásia: 11,7%
– África: 20% (Na África Ocidental: 33,9%)
– América Latina e Caribe: 6,6%
Má nutrição em todas as suas formas
– Crianças menores de 5 anos que sofrem com atraso no crescimento (estatura baixa para idade): 155 milhões;
– Desses, os que vivem em países afetados por distintos níveis de conflitos: 122 milhões;
– Crianças menores de 5 anos que estão com o peso abaixo do ideal para a estatura: 52 milhões;
– Número de adultos obesos: 641 milhões (13% do total de adultos do planeta);
– Crianças menores de 5 anos com sobrepeso: 41 milhões;
– Mulheres em idade reprodutiva afetadas por anemia: 613 milhões (cerca de 33% do total).
Impactos dos conflitos
– Das 815 milhões de pessoas que sofrem com a fome do planeta, 489 milhões vivem em países afetados por conflitos;
– A prevalência da fome nos países afetados por conflitos varia entre 1,4% e 4,4% a mais que em outros países;
– No contexto de conflitos agravados pelas condições de fragilidade institucional e ambiental, essa prevalência é de entre 11 e 18 pontos percentuais a mais
– Pessoas que vivem em países afetados por crises prolongadas têm quase 2,5 mais chances de padecer com a subnutrição do que as que vivem em outros lugares
Relatório sobre segurança alimentar e nutricional
Esta é a primeira vez que o UNICEF e a OMS se unem a FAO, ao FIDA e ao PMA para preparar um relatório sobre o estado da segurança alimentar e nutricional no mundo.
Essa mudança é reflexo da perspectiva ampliada estabelecida pela agenda dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) sobre a fome e todas as formas de má nutrição. A Década de Ação das Nações Unidas sobre Nutrição, estabelecida em Assembleia Geral, atenta para o esforço dos governos em fixar metas e investir em medidas para abordar as múltiplas dimensões da má nutrição.
O relatório foi remodelado para adaptação aos ODS, com melhores medições para quantificar e avaliar a fome, a inclusão de indicadores sobre a segurança alimentar e seis indicadores sobre nutrição.

ROBÔS E O DESEMPREGO.

Os países mais avançados no uso de robôs são os com menor desemprego, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


concentração de robôs em relação ao tamanho da força de trabalho
[EcoDebate] Os três países com maior uso de robôs em relação à força de trabalho, no mundo, são a Coreia do Sul, com 531 robôs para cada 10 mil trabalhadores, Cingapura com 398 por 10 mil e Japão com 305 por 10 mil (em quarto lugar está a Alemanha com 301 robôs para cada 10 mil trabalhadores), conforme mostra o gráfico acima, de artigo de Angus Muirhead (11/08/2017), do banco Credit Suisse.
Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), para 2016, mostram que o desemprego era de 3,5% na Coreia do Sul, 3,1% no Japão e 2,1% em Cingapura. Portanto, o nível de robotização não está correlacionado com perda de emprego nestes três países.
Esses dados contradizem a ideia de que os robôs geram desemprego?
Aparentemente sim, pelo menos nestes três casos específicos. Mas, provavelmente, se trata de um falso paradoxo, pois esses três países possuem uma situação demográfica e econômica diferente, por exemplo, do Brasil. A Espanha é também um caso diferente, pois tem 150 robôs para cada 10 mil trabalhadores e uma taxa de desemprego de 20%.
O que acontece nos 3 países asiáticos é que a População em Idade Ativa (PIA), de 20 a 64 anos, já atingiu um pico e está em fase de decrescimento. No Japão, o pico da PIA ocorreu em 1995, em Cingapura em 2010 e na Coreia do Sul em 2015 (no Brasil será em 2025).
No Japão o percentual da PIA (de 20-64 anos) cairá de 62,6% em 1995 para 46,7% em 2050. Em Cingapura cairá de 66,7% em 2010 para 51,2%, na Coreia do Sul cairá de 66,9% para 48,7% e no Brasil cairá de 62,4% em 2025 para 57,1% em 2050, conforme mostra o gráfico abaixo.

percentagem da população de 20 a 64 anos, Brasil, Coreia do Sul, Cingapura e Japão, 1950-2100
Portanto, o volume da força de trabalho no Japão, em Cingapura e na Coreia do Sul já está em declínio numérico (mas como a educação é muito boa nestes 3 países a PIA continua crescendo em qualidade). E a queda da PIA nos 3 países asiáticos será significativa até meados do século, muito maior do que no Brasil. Para a população mundial a queda da PIA será de 57,5% em 2015 para 55,9% em 2050.
A redução do tamanho da força de trabalho de um país poderia gerar escassez de mão de obra e comprometer o desempenho econômico se a produtividade ficasse estagnada. A solução poderia vir por duas frentes: 1) aumento da automação; 2) maior abertura à imigração internacional.
Acontece que, especialmente o Japão e a Coreia do Sul (nem tanto Cingapura) evitam recorrer à segunda opção e esquivam de abrir o país aos migrantes internacionais. Artigo de Daniel Moss (Bloomberg, 22/08/2017) mostra que o Japão optou pela primeira alternativa (automação) e não pela segunda alternativa (migração).
Desta forma, o uso generalizado de robôs na Coreia do Sul, Cingapura e Japão se justifica pelo novo fato demográfico, que é a queda da população em idade ativa (PIA). Os robôs não dispensariam trabalhadores, mas apenas substituindo o declínio numérico da força de trabalho e permitindo a sustentabilidade do envelhecimento populacional.
Também se justifica pelo lado econômico e o modelo de desenvolvimento adotado nestes países, que são muito voltados para a competitividade internacional e com alto grau de exportação (export-led growth). Por exemplo, enquanto o Brasil (com população de 215 milhões de habitantes) exportou apenas US$ 185 bilhões em 2016, o Japão (com 127 milhões de habitantes) exportou US$ 645 bilhões, a Coreia do Sul (com 51 milhões de habitantes) exportou US$ 495 bilhões e Cingapura (com apenas 5,6 milhões de habitantes; menor do que a cidade do Rio de Janeiro) exportou US$ 330 bilhões em 2016.
Ou seja, o avanço da robótica e do processo de automação na Coreia do Sul, Cingapura e Japão visa aumentar a produtividade interna da economia e a competitividade internacional. Estes países possuem capacidade tecnológica para o desenvolvimento da automação e usam os robôs como aliados. Segundo dados do FMI, para 2016, Cingapura tinha uma renda per capita de US$ 87,8 mil, o Japão com US$ 38,7 mil, a Coreia do Sul com US$ 37,7 mil e o Brasil com US$ 15 mil.
Adicionalmente, no Brasil, o avanço da robótica esbarra na triste realidade de 26 milhões de desempregados (no conceito amplo de desemprego do IBGE), representando uma taxa de mais de 20% da força de trabalho e na baixa inserção da economia brasileira no mercado internacional. Se as multinacionais instaladas no Brasil importarem robôs (como na indústria automobilística) o resultado pode ser completamente diferente do que está acontecendo nos três países asiáticos líderes da robótica.
Outra característica dos três países asiáticos são as altas taxas de poupança e investimento, que favorecem à inovação tecnológica e a absorção da força de trabalho. O Brasil, com baixas taxas de poupança e investimento e altas taxas de desemprego, tem uma economia moribunda e de baixa competitividade internacional. O Brasil não tem pleno emprego (pois tem mais de 26 milhões de desempregados), não tem robôs e não tem alta produtividade.
Nesse quadro, a economia brasileira está condenada a ser mera espectadora das transformações tecnológicas que estão ocorrendo em outras partes do mundo. Sem capacidade de resolver velhos problemas (como saneamento básico educação de qualidade) e sem ter os recursos para competir no contexto da Revolução 4.0, o Brasil pode ficar longe da onda de renovação dos robôs (no que ela tem de bom e de ruim) e permanecer atrasado e preso, para sempre, na “armadilha da renda média”.
Referências:
Angus Muirhead. Robotics and Automation – Creating or Taking Jobs? Credit Suisse, 11/08/2017
https://www.credit-suisse.com/corporate/en/articles/news-and-expertise/robotics-and-automation-creating-or-taking-jobs-201708.html
Daniel Moss. Aging Japan Wants Automation, Not Immigration, Bloomberg, 22/08/2017
https://www.bloomberg.com/view/articles/2017-08-22/aging-japan-wants-automation-not-immigration
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/09/2017

sábado, 16 de setembro de 2017

A FÚRIA DOS FURACÕES

A fúria dos furacões e as catástrofes climáticas, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


“The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind”
Bob Dylan
trajetória do furacão Irma
[EcoDebate] Os furacões são uma maneira da Mãe Natureza dizer à humanidade que ela está brava com a espécie mais egoísta que vive sobre a Terra. Os furacões são fruto do excesso de calor do oceano e uma forma de transferir o calor do equador para os polos. Alterações nas condições de temperatura e pressão atmosférica possibilitam mudanças na direção dos ventos, que movimentam em espiral, atingindo altas velocidades, ocasionando a formação de tempestades, ciclones, tufões e furacões de várias categorias. Os meses de julho e agosto de 2017 estão entre os mais quentes da série que começou em 1880, sendo que o calor foi mais intenso no hemisfério Norte.
Os eventos climáticos extremos que atingiram o mundo nos últimos 20 dias são, de certa forma, uma antecipação de um dos capítulos do Armagedon ambiental que deve ser protagonizado, de maneira cada vez mais frequente e generalizada, no século XXI. São, também, uma negação das equivocadas ideias dos céticos negacionistas que, de maneira irresponsável, tergiversam sobre as consequências das mudanças climáticas do Antropoceno. Não foram somente os furacões que provocaram sofrimento.
Um exemplo, fortes chuvas também atingiram o sul da Ásia. Mais de 1.400 pessoas morreram na Índia, no Nepal e em Bangladesh, como resultado das inundações mais devastadoras na região, em uma década. Centenas de cidades e aldeias foram submersas pelas catastróficas inundações, afetando cerca de 40 milhões de pessoas.
Outro exemplo, o maior incêndio na história de Los Angeles começou no dia 01 de setembro de 2017. O governador da Califórnia, Jerry Brown, emitiu um estado de emergência para o condado de Los Angeles. Desde que o incêndio começou, queimou mais de 5.895 acres, forçou os residentes a evacuarem suas casas, fecharam uma rodovia interestadual e enviaram enormes plumas de fumaça no ar da cidade. Mais de 1.000 bombeiros foram mobilizados para controlar o incêndio.
Um terceiro exemplo, Freetown, a capital de Serra Leoa, no continente africano, mais de mil pessoas morreram, incluindo muitos menores de idade, em decorrência de severas inundações e um mortífero deslizamento de terra.
O mais novo exemplo, ocorre no leste asiático, onde as autoridades da China estão preparando a evacuação de meio milhão de pessoas, já que dois tufões ameaçam a costa leste, fortemente povoada do país. Taiwan cancelou voos no dia 13/09 e emitiu um aviso aos navios, enquanto o tufão Talim ameaça a ilha. Ao sul, o tufão Doksuri ameaça o sudeste da China e o Vietnã, enquanto se fortalece no Mar do Sul da China. Será o quarto tufão a atingir Macau em menos de um mês. No início da segunda semana de setembro, a tempestade trouxe inundações para a capital de Filipinas, Manila e as províncias vizinhas.
Assim, os eventos climáticos extremos se propagam pelo mundo. No início desse mês de setembro, enquanto Los Angeles ardia, Houston estava debaixo d’água. O furacão Harvey, que atingiu o sul do Texas e da Louisiana, nos EUA, na última semana de agosto, foi o desastre natural mais caro na história dos EUA, com prejuízos estimados em US$ 190 bilhões. (Alves, 04/09/2017).
Nem bem as populações da Califórnia, Texas e Louisiana (para ficar apenas no hemisfério ocidental) tentavam se recuperar destes “desastres naturais”, potencializados pelas causas antrópicas, os habitantes de várias ilhas do Caribe e da Flórida, passaram a sofrer as consequências do furacão Irma, que foi o furacão mais fortes já formado na região.
Algumas ilhas tiveram perdas devastadoras. O furacão Irma deixou cerca de 30 mortos nas ilhas do Caribe. A destruição foi impressionante em Saint Martin (nas partes francesa e holandesa), nas Ilhas Virgens americanas, nas Ilhas Virgens britânicas e no arquipélago de Anguilla, em Porto Rico e em Barbuda. Em Cuba, o furacão deixou 10 mortos e as vítimas são das províncias de Havana, Matanzas, Camagüey e Ciego de Ávila, no centro e no oeste da ilha. As regiões devastadas do Caribe entraram em estado de emergência e tiveram de contar com o apoio da França, Holanda e Reino Unido.
Nos Estados Unidos, o impacto do furacão foi sentido de maneira mais forte na Flórida, com os ventos e as tempestades atingindo todo o Estado, embora o número de mortes tenha sido pequeno, graças à intensa mobilização ocorrida antes do furacão atingir o solo. Um número estimado de 6,3 milhões de pessoas foram evacuadas, milhões ficaram sem luz e todas as atividades econômicas foram interrompidas.
Nas ilhas ao sul da Flórida, o impacto foi impressionante. Além da elevada evacuação da população, os escombros se espalharam pela Florida Keys e atingiram fortemente Key West e Key Largo. Toda a infraestrutura foi afetada e várias pontes que ligam as ilhas ao continente ficaram comprometidas.
O furacão Irma é o mais forte já registrado na bacia Atlântica. Passou três dias como um furacão da categoria 5, o furacão mais longo da categoria 5 desde o início das medições via satélite. Nenhum fenômeno anterior manteve os ventos 185 mph ou acima como o Irma (total de 37 horas). Isso provocou a maior evacuação da história da Flórida e, potencialmente, a maior nos EUA. Como tempestade tropical o Irma atingiu os Estados da Geórgia e Carolinas (do Sul e do Norte), ampliando o rastro de destruição.
Os prejuízos econômicos ainda estão sendo contabilizados, mas embora seja de grandes proporções, deve ficar abaixo dos custos gerados pelos furacões Katrina e Harvey. Na previsão de o furacão atingir em cheio Miami, as estimativas apontavam um custo de US$ 200 bilhões. Mas, em termos materiais, as novas previsões estimam que o Irma trará um prejuízo de US$ 50 bilhões nos Estados Unidos e de US$ 170 bilhões no total (The Guardian).
De qualquer forma, é inédito o fato de dois furacões de categoria 4 ou 5 atingirem os Estados Unidos, em um curto espaços de semanas, provocando tantos danos econômicos. Evidentemente, todos estes desastres foram potencializados pelo aquecimento global que eleva a temperatura das águas oceânicas e aumenta a evaporação. O furacão mostra sua fúria por meio de fortes ventos, pesadas tempestades e elevação das marés.
Também é inédito que três furacões (Irma, José e Kátia) tenham se formado na Bacia do Atlântico Oeste, entre os dias 6 e 9 de setembro de 2017. Isto mostra as possibilidades de destruição destes eventos extremos, potencializados pelas mudanças climáticas (Sem contar o terremoto que atingiu os Estados de Oaxaca, Chiapas e Tabasco, no México, no dia 07/09 e provocou a morte de quase 100 pessoas). Os custos sociais dos eventos ambientais tendem a crescer.
3 furacões (Irma, José e Kátia) no Atlântico
Ajustando pela inflação, quatro dos cinco anos com os eventos climáticos extremos com mais de um bilhão de dólares, nos Estados Unidos, ocorreram desde 2010. A NOAA estima que o dano total – que inclui alívio de desastres, pagamentos do seguro público, danos materiais e interrupções às empresas – de todos os desastres naturais de 1980 a julho de 2017 totalizou US$ 1,2 trilhão. (Esse número inclui apenas desastres que causaram mais de US$ 1 bilhão de danos). Crescem as ações na justiça com as empresas poluidoras (como as petroleiras) que ganham com o lucro privado e socializam os prejuízos com os contribuintes de dentro e fora dos EUA.
A poluição e a voracidade humana por ocupação de espaço está sendo colocada em xeque pelos eventos climáticos extremos e pela elevação do nível dos oceanos. Diversas áreas já podem ser consideradas inabitáveis e outras estão ficando impróprias para as atividades econômicas, tornando-se deseconômicas. O aumento da capacidade de carga demoeconômica está provocando não apenas um holocausto biológico, mas, também, áreas ecúmenas estão se tornando, inospitamente, anecúmenas (Alves, 08/09/2017).
Infelizmente, tudo isto tende a ser o novo normal diante da realidade das mudanças climáticas. A natureza, que sempre forneceu os recursos para a riqueza e a prosperidade humana, agora começa a cobrar o preço de tantas agressões provocadas pelo crescimento das atividades antrópicas. Sem dúvida, a civilização não terá um encargo fácil ao lidar com o desequilíbrio homeostático do Planeta.
Referências:
ALVES, JED. O trilema da sustentabilidade o decrescimento demoeconômico, 22º Congresso Brasileiro de Economia, BH, 08/09/2017
https://pt.scribd.com/document/358390999/O-trilema-da-sustentabilidade-e-decrescimento-demoeconomico
ALVES, JED. O Furacão Harvey e os desastres climáticos no Antropoceno, Ecodebate, RJ, 04/09/2017
https://www.ecodebate.com.br/2017/09/04/o-furacao-harvey-e-os-desastres-climaticos-no-antropoceno-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
Georgina Gustin. Damage from Hurricane Irma, Harvey Add to Growing U.S. Costs of Climate Change, Inside Climate News, 11/09/2017
https://insideclimatenews.org/news/11092017/hurricanes-irma-harvey-damages-cost-climate-change-global-warming-government-warnings
How Irma unfolded: the hurricane by the numbers, The Guardian, 11/09/2017
Elizabeth Kolbert: An Honest Conversation About Climate Change Is Needed in Wake of Irma and Harvey, Democracy Now!, 11/09/2017
https://www.ecowatch.com/kolbert-climate-change-2484012460.html
Eric Holthaus. Harvey and Irma aren’t natural disasters. They’re climate change disasters. Grist, Sep 11, 2017
https://grist.org/article/harvey-and-irma-arent-natural-disasters-theyre-climate-change-disasters/
Jim Baird. Fueling the Planet with Hurricanes, The energy Collective, September 13, 2017
http://www.theenergycollective.com/jim-baird/2412453/fueling-planet-hurricanes
Photos: what Hurricane Irma’s destruction in the Caribbean looks like on the ground, Vox, 11/09/2017
https://www.vox.com/science-and-health/2017/9/7/16264390/photos-hurricane-irma-destruction
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/09/2017

FURACÃO IRMA E O AUMENTO DE TEMPERATURA GLOBAL

Cientistas relacionam a incidência de furacões mais destrutivos, como o Irma, ao aumento da temperatura global


ABr
Furacão Irma sobre o Caribe, o mais forte registrado no Oceano Atlântico
Furacão Irma sobre o Caribe, o mais forte registrado no Oceano Atlântico. Foto: Divulgação/Nasa
 
A ocorrência este mês de dois furacões em um prazo de uma semana – o Harvey, no  Texas, e o Irma, em países do Caribe e da Flórida – reacendeu o debate sobre as mudanças climáticas e trouxe novas críticas ao posicionamento da gestão Trump. A maior parte da comunidade científica americana relaciona a incidência de furacões mais destrutivos ao aumento da temperutura global.
Um estudo chamado Relatório Especial Ciência e Clima, do Programa de Investigação da Mudança Global dos Estados Unidos (CSSR, a sigla em Inglês), que reune cientistas da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica  (NOAA), da Nasa e de mais 11 agências federais do país, afirma que a atividade humana contribui para o aumento da temperatura global e, consequentemente, a incidência de furacões.
No estudo, a incidência de furacões mais destrutivos é usada como evidência de que é “muito provável que mais da metade do aumento das temperaturas, ao longo das últimas quatro décadas, foram causadas pela atividade humana.
Miami - Árvore caída na pista devido aos fortes ventos das primeiras chuvas ligadas ao Furacão Irma em Miami
Miami – Árvore caída na pista devido aos fortes ventos das primeiras chuvas ligadas ao Furacão Irma em Miami. Foto: Latif Kassidi/EFE
 
O relatório é parte da Avaliação Nacional do Clima e começou a ser feito durante o mandato de Bill Clinton, em 1990.  Em junho, o estudo foi publicado pela comunidade científica, que encaminhou o relatório para avaliação da Casa Branca. Até então, a administração Trump não se pronunciou.
As conclusões batem de frente com a ideologia defendida por Donald Trump – de que não é possível comprovar que o aquecimento global é consequência da interferência humana.
Union of Concerned Scientist (UCS, a sigla em inglês para a União dos Cientistas preocupados com o clima), uma entidade que reúne especialistas norte-americanos, também publicou em sua página um artigo em que afirma haver probabilidade de ocorrerem mais furacões destrutivos, como o Irma, que afetaram milhões de comunidades e colocaram estruturas em risco.
Estudos sobre os furacões e o aquecimento global já foram desenvolvidos várias vezes pela comunidade científica americana. A UCS trouxe o assunto à tona novamente por ocasião da passagem do Irma – já são mais de 60 mortes confirmadas e algumas ilhas destruídas no Caribe – Antigua e Barbuda, San Martin, Ilhas Virgens Americanas, e Turks e Caikus (território britânico).
Além das ilhas devastadas, são registrados enormes prejuízos financeiros – ainda não totalmente contabilizados – para praticamente todos os países e territórios caribenhos: Porto Rico (EUA), República Dominicana, Haiti, Cuba e Bahamas.
No continente, os Estados Unidos tiveram nove estados afetados, entre eles a Flórida, que teve todo o seu território atingido.
A UCS lembra que “para as comunidades costeiras, as cicatrizes sociais, econômicas e físicas deixadas por grandes furacões, como o Irma, são devastadoras”.
Os cientistas reafirmaram que os furacões são parte natural do sistema climático. Lembraram, no entanto, que as pesquisas recentes sugerem  o aumento de seu poder destrutivo, ou intensidade, desde a década de 1970, em particular na região do Atlântico Norte.
Medidas do potencial de destruição de furacões, calculadas a partir de sua força ao longo da vida útil, também mostram uma duplicação desse potencial nas últimas décadas. Um exemplo é o de um furacão que se mantém em níveis 4  e 5 (mais destrutivos) na escala Saffir-Simpson (que vai de 1 a 5) por mais tempo, causando mais danos.
Não só os furacões no Atlântico estão se intensificando, os tufões do Oceano Pacífico também estão atingindo a Ásia de maneira mais feroz.
Impacto oceânico
Cientistas ligados a UCS afirmam que os oceanos absorveram  93% do excesso de energia gerada pelo aquecimento global entre 1970 e 2010. Dessa maneira, foi possível observar a intensificação da atividade de furações em algumas regiões.
água do mar invade a cidade após passagem do furacão Irma
Passagem do furacão Irma pela província holandesa de Philipsburg, na ilha de San Martín – Foto: EFE/Gerben Van Es/Min. Defesa Holanda
 
O furacão é um fenômeno formado pelo aquecimento das águas oceânicas. Temperaturas marítimas superiores a 27º graus causam a evaporação da água que sobe aquecida em forma de vapor até as nuvens. O contato do vapor quente e do ar frio da atmosfera provoca correntes de ar que se descolam em movimento circular e formato de cone.
Os níveis do mar também estão subindo,  porque com os oceanos mais quentes,  água do mar se expande. Essa expansão segundo a UCS, combinada ao derretimento do gelo na Terra, causou um aumento médio global de aproximadamente 8 polegadas (20 cm)  do nível do mar, desde 1880.
A tendência esperada é de aceleração desse processo nas próximas décadas. Níveis do mar mais elevados na região costeira e a água mais aquecida poderão proporcionar furacões destrutivos, como o Katrina (2005), o Harvey ou Irma.
Impacto econômico
O impacto econômico será sentido massivamente, como vem ocorrendo nos últimos anos. afetando milhares de pessoas. Só nos Estados Unidos, 100 milhões de pessoas vivem em municípios litorâneos – cerca de um terço da população total.
Furacões mais potentes causaram perdas humanas, perdas econômicas para o Estado, a iniciativa privada e a população em geral.
Houston cidade do Texas foi fortemente afetada pela tempestade tropical Harvey
Houston – Cidade do Texas foi fortemente afetada pela tempestade tropical Harvey. Foto: divulgação do Dpt Militar do Texas/Tim Puitt/EPA/EFE
 
Nos Estados Unidos, o impacto do Harvey foi bastante sentido pelas indústrias petrolíferas da costa do Texas. O abastecimento comprometido deixou os preços da gasolina mais altos e e a falta do produto foi sentida durante a passagem do furacão pela Flórida.
Foi preciso que o governo do estado garantisse abastecimento nas estradas para a população que tentava deixar as áreas atingidas e que não conseguia abastecer os carros nos postos das rodovias.
Por Leandra Felipe, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/09/2017

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

OCEANOS : MONITORAMENTO DO AUMENTO DE CALOR


Monitoramento do calor oceânico registra o aquecimento global

Institute of Atmospheric Physics, Chinese Academy of Sciences*
Atividades antrópicas liberaram dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa, e o resultado é um acúmulo de calor no sistema climático da Terra, comumente referido como “aquecimento global”. “Quão rápido é o aquecimento da Terra?” é uma questão chave para os tomadores de decisão, cientistas e público em geral. 
Monitoramento do calor oceânico registra o aquecimento global
Medições de concentração de calor oceânico (OHC) e dióxido de carbono atmosférico (CO 2 ) desde 1958, mostradas como meios de funcionamento de 12 meses. A linha preta representa o aquecimento do oceano para os 2.000 metros superiores do oceano e o sombreado vermelho claro representa o intervalo de confiança de 95%. A concentração de CO 2 observada no Observatório Mauna Loa é exibida em azul claro. Os valores médios para 2015-2016 são destacados com uma estrela vermelha. O OHC é relativo a uma linha de base 1960-2015. Os dados de calor do oceano são de Cheng et al. [2017], e a informação sobre CO 2 é da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica . CRÉDITO: Lijing Cheng
A temperatura média global da superfície tem sido amplamente utilizada como uma medida-chave do aquecimento global. No entanto, um novo estudo publicado no Eos, da American Geophysical Union, propôs uma melhor maneira de medir o aquecimento global: o monitoramento da mudança da concentração do calor oceânico e aumento do nível do mar. Os autores provêm de uma variedade de comunidades internacionais, incluindo China (Instituto de Física Atmosférica, Academia Chinesa de Ciências), EUA (NCAR, NOAA e Universidade de São Tomás) e França (Mercator Ocean).
Para determinar quão rápido a Terra está acumulando calor, os cientistas se concentram no desequilíbrio energético da Terra (EEI): a diferença entre a radiação solar recebida e a radiação de longa distância (térmica). Aumentos na EEI são diretamente atribuíveis a atividades humanas que aumentam o dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa na atmosfera. O calor extra atraído pelo aumento dos gases de efeito estufa termina principalmente nos oceanos (mais de 90% são armazenados lá). Por isso, para medir o aquecimento global, temos que medir o aquecimento do oceano.
Por outro lado, a amplitude do sinal de aquecimento global em comparação com a variabilidade natural (ruído) define o quão bem uma métrica rastreia o aquecimento global. Este estudo mostra que a evolução temporal da concentração do calor do oceano possui uma relação sinal / ruído relativamente alta; portanto, exige 3,9 anos para separar a tendência de aquecimento global da variabilidade natural. Da mesma forma, para o aumento do nível do mar, 4,6 anos são suficientes para detectar o sinal de mudança climática. Em contraste, devido ao clima, El Niño – Oscilação do Sul e outras variações naturais incorporadas no registro global global da temperatura da superfície, os cientistas precisam de pelo menos 27 anos de dados para detectar uma tendência robusta. Um excelente exemplo é o período 1998-2013, quando a energia foi redistribuída dentro do sistema da Terra e o aumento da temperatura média global da superfície desacelerou.
Este estudo sugere que as mudanças na concentração de calor oceânico, o componente dominante do desequilíbrio energético da Terra, devem ser uma métrica fundamental, juntamente com o aumento do nível do mar. Com base nas recentes melhorias das tecnologias de monitoramento oceânico, especialmente depois de 2005 através de flutuadores autônomos chamados Argo e metodologias avançadas para reconstruir o histórico histórico de temperatura do oceano, os cientistas conseguiram quantificar as mudanças da concentração do calor oceânico desde 1960, mesmo que haja uma grande quantidade de registros de instrumentos históricos mais dispersos antes de 2005. O aumento do nível do mar é mais conhecido desde 1993, quando os altímetros foram lançados em satélites para permitir observações de mudança de nível do mar a uma precisão milimétrica.
De acordo com as estimativas mais atualizadas, os 10 anos mais quentes do oceano (indicados pela mudança de OHC nos 2000 m superiores) são todos na década mais recente após 2006, com 2015-2016 o período mais quente entre os últimos 77 anos. O armazenamento de calor no oceano equivale a um aumento de 30,4 × 10 22 Joules (J) desde 1960, igual a uma taxa de aquecimento de 0,33 Watts por metro quadrado (W m -2 ) em média em toda a superfície da Terra – e 0,61 W m -2 depois de 1992. Para comparação, o aumento do teor de calor oceânico observado desde 1992 nos 2000 metros superiores é cerca de 2000 vezes a geração líquida total de eletricidade por empresas de serviços públicos dos EUA em 2015.
É evidente que cientistas e modeladores que procuram sinais de aquecimento global devem acompanhar a quantidade de calor que o oceano armazenou em qualquer momento, ou seja, o conteúdo de calor oceânico, bem como o aumento do nível do mar. Localmente, nos trópicos, o conteúdo de calor do oceano se relaciona diretamente com a atividade dos furacões. O conteúdo de calor oceânico é um sinal vital do nosso planeta e informa decisões sociais sobre adaptação e mitigação das mudanças climáticas.
* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 14/09/2017

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

http://g1.globo.com/hora1/edicoes/2017/09/14.html#!v/6146999

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

ONU AVALIA O FURACÃO IRMA

ONU avalia que furacão Irma quebrou ‘uma série de recordes’

Ventos iniciados na quinta-feira ultrapassaram os 297 km/h por 37 horas consecutivas; especialistas preveem aumento da frequência de furacões de categorias 4 ou 5 durante o século 21.

Menino observa estragos do Furacão em Nágua, República Dominicana. Foto: Unicef
Menino observa estragos do Furacão em Nágua, República Dominicana. Foto: Unicef
Da ONU News em Nova Iorque.
O furacão Irma “quebrou uma série de recordes” e já é considerado o mais forte do Atlântico fora do Caribe e Golfo do México, segundo a ONU. O furacão teve ventos que ultrapassaram os 297 quilômetros por hora durante 37 horas. Com isso, o Irma torna-se o furacão de maior intensidade até agora. A informação é da ONU News.
Para chegar às conclusões, a Organização Mundial de Meteorologia (OMM), em Genebra, usou dados obtidos por especialistas em tempestades tropicais da Universidade do Estado de Colorado.
De acordo com a informação, o Irma também gerou a maior energia ciclônica acumulada do que as oito primeiras tempestades combinadas desta temporada de furacões do Atlântico, desde o Arlene até o furacão Harvey.
Falando a jornalistas, porta-vozes de agências da ONU afirmaram que as reservas alimentares de contingência enviadas para o Haiti são suficientes para atemder mais de 150 mil pessoas em um mês e que os caminhões conseguiram chegar ao norte do país.
De acordo com especialistas, simulações recentes revelaram que há uma possibilidade de aumento da frequência de furacões de categorias 4 ou 5 e de registos de clima mais quente durante o século 21. O Irma foi um dos três furacões ativos semana passada na região da bacia atlântica, juntamente com o José e o Cátia, numa “situação rara mas não sem precedentes”. O mesmo ocorreu em em 1967, 1980, 1995, 1998 e 2010.
As ilhas baixas do Caribe que incluem São Martinho, St. Maarten e Barbuda, bastante atingidas, declararam estados de emergência nas áreas afetadas.
Da ABr, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/09/2017

sábado, 9 de setembro de 2017

TAXA DE FECUNDIDADE : CENÁRIOS E O FUTURO DAS POPULAÇÃO MUNDIAL

Cenários da queda da fecundidade e o futuro da população mundial, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


“Alcançar, até 2015, o acesso universal à saúde reprodutiva”
Meta # 5B, ODM
taxa de crescimento natural, anual, da população do mundo
[EcoDebate] A população mundial acelerou o crescimento desde o início da Revolução Industrial e Energética, ocorrida no final do século XVIII, quando passou de 1 bilhão de habitantes por volta do ano 1800 para 2 bilhões em 1930, 3 bilhões em 1960 e 4 bilhões em 1974. Entre 1800 e 1930 o crescimento natural da população mundial foi de 0,5% ao ano; passou para 1,4% ao ano entre 1930 e 1960; e para 2,1% aa entre 1960 e 1974, quando atingiu as maiores taxas de crescimento da história humana. Entre 1974 e 1987 o crescimento anual caiu para 1,6% aa, para 1,4% aa entre 1987 e 1999 e para 1,29% aa entre 1999 e 2011.
O gráfico acima mostra que o pico das taxas de crescimento da população mundial ocorreu no quinquênio 1965-1970. Os países menos desenvolvidos (aqueles de renda média) acompanharam a tendência da população mundial, mas em um ritmo um pouco mais elevado. Os países mais desenvolvidos (aqueles de alta renda) apresentam ritmos declinantes de crescimento desde o quinquênio 1955-60 e estão com a população praticamente estabilidade desde o início do século XXI. Mas são os países muito menos desenvolvidos (aqueles de renda baixa) que apresentam grande crescimento demográfico, chegando a apresentar taxas de quase 3% ao ano na década de 1980 e, embora tenha desacelerado um pouco, ainda possuíam taxas de crescimento em torno de 2,5% ao ano no quinquênio 2010-15.
O gráfico abaixo mostra que as taxas de fecundidade da Europa e América do Norte ficaram abaixo do nível de reposição (TFT = 2,1 filhos por mulher) a partir da década de 1970. A Ásia e a América Latina tiveram uma grande queda da fecundidade depois de 1970, mas ainda estão acima do nível de reposição. E a TFT da África só começou a cair nos anos de 1980 e ainda estão em níveis bastante elevados, significando alto crescimento demográfico.
taxas de fecundidade (TFT) para o mundo e regiões: 1950-2100
As taxas de fecundidade total (TFT) do mundo subiram ligeiramente entre 1950 e 1965, mas tiveram uma queda expressiva entre 1970 e o ano 2000, quando caíram de cerca de 5 filhos por mulher para 2,7 filhos por mulher. A TFT foi reduzida quase pela metade em 30 anos. Contudo, a queda se desacelerou nos anos 2000 e estava em 2,52 filhos por mulher no quinquênio 2010-15. Ou seja, em 15 anos o declínio foi de somente 0,2 filho por mulher, enquanto no período 1970-2000 o declínio foi de 2,3 filhos por mulher.
taxa de fecundidade total (TFT) mundial, segundo cenários de projeção: 1950-2100
A divisão de população da ONU (revisão 2017) indica que a TFT vai continuar caindo em ritmo lento, na hipótese média de projeção, e deve ficar em 2 filhos por mulher em 2100. Nesta trajetória, a população mundial vai continuar crescendo durante todo o século XXI. Porém, se a TFT acelerar o ritmo de queda (como mostra a projeção baixa da ONU), alcançando 1,5 filho por mulher em 2100, então haveria um declínio da população mundial. Nota-se que a diferença entre a projeção média e as projeções baixa e alta é de apenas 0,5 filho (meio filho em média).
Pequenas diferenças na TFT podem parecer irrelevantes, mas possuem um grande impacto sobre o volume da população no longo prazo, como mostra o gráfico abaixo. Se a TFT seguir a projeção alta (ficando com 2,5 filhos por mulher em 2100) então a população mundial será de quase 17 bilhões de habitantes em 2100. Se a TFT seguir a projeção média (2 filhos por mulher em 2100) então a população mundial será de 11,2 bilhões de habitantes no final do século. Mas se o declínio da TFT se acelerar, seguindo a projeção baixa (do gráfico acima) e atingir 1,5 filho por mulher em 2100, então a população mundial subiria até o pico de 8,8 bilhões de habitantes em 2053 e depois decresceria para 7,2 bilhões em 2100. Portanto, uma diferença de apenas 0,5 filho por mulher pode fazer a população mundial variar de algo em torno de 17 bilhões (na projeção alta) a 7 bilhões de habitantes no final do atual século (na projeção baixa).
cenários da polulação mundial, segundo níveis de fecundidade: 1950-2100
Estes dados das projeções demográficas da Divisão de População da ONU mostram que não existe nenhum determinismo sobre o futuro da população mundial. Se a queda das taxas de fecundidade se acelerarem nos próximos anos e décadas, a população mundial pode ter um volume em 2100 menor do que o número atual de habitantes do globo.
A queda da TFT pode ocorrer totalmente dentro dos marcos dos direitos reprodutivos. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que, no mundo, existem mais de 225 milhões de mulheres em período reprodutivo sem acesso aos métodos de regulação da fecundidade. O número de gravidez indesejada é alto. A meta # 5B dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) dizia: “Alcançar, até 2015, o acesso universal à saúde reprodutiva”. Esta meta não foi alcançada. Agora, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) também colocam como meta a universalização dos serviços de saúde sexual e reprodutiva até 2030. Evidentemente, esta procrastinação não é boa para a saúde das mulheres e nem para os bebês que nascem de uma gravidez indesejada e vão correr riscos cada vez maiores diante dos desafios econômicos, sociais e ambientais. Por exemplo, o surto dos casos de microcefalia no Brasil, diante da epidemia de zika, poderia ser evitado se houvesse bons serviços de saúde reprodutiva no país.
O ser humano tem livre arbítrio e pode construir o futuro com mais ou menos gente. A humanidade pode escolher o caminho do maior ou do menor crescimento demográfico, desde que haja respeito aos direitos sexuais e reprodutivos e a regulação da fecundidade seja uma escolha livre dos casais e das pessoas.
Qualquer que seja a decisão será preciso levar em consideração as condições ambientais do Planeta, a sobrevivência das demais espécies, a manutenção da biodiversidade e a saúde dos ecossistemas. O progresso civilizacional tem ocorrido às custas de um holocausto biológico. A humanidade já ultrapassou a capacidade de carga do Planeta. A redução das taxas de fecundidade – que levariam a uma redução da população até o ano 2100 – pode ser um passo importante para a sobrevivência da vida no Planeta.
Mas não basta apenas o decrescimento demográfico. É preciso também decrescer as atividades econômicas mais danosas ao meio ambiente e colocar a Pegada Ecológica em equilíbrio com a biocapacidade da Terra. No Holoceno havia estabilidade climática. No Antropoceno, depois da grande aceleração das atividades antrópicas, as condições de vida na biosfera se degradaram e, no ritmo atual, as futuras gerações de humanos e não humanos podem receber de herança um habitat inabitável e inóspito.
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
 in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 08/09/2017