terça-feira, 16 de maio de 2017

ATIVIDADE SOBRE A CIRCULAÇÃO ATMOSFÉRICA.

Atividade de geografia.

Todos os registros devem ser feitos no caderno, o material para pesquisa são : O livro texto e a internet.

1- Desenhar o planeta Terra colocando:

* as áreas de alta e baixa pressão atmosférica, os nomes dos principais paralelos, as setas mostrando as direções da circulação dos ventos e seus respectivos nomes e os nomes das células na parte externa do desenho.

2- Conceituar :

* ventos

* áreas ciclonais e anticiclonais ( efetuando seu esquema de funcionamento)

* ventos alísios e contra alísios ( construir desenho ilustrativo e explicar a causa da formação de alguns desertos em relação aos ventos contra-alísios )

* corrente de coriolis

* brisa marítima e continental

* clima de monções

* doldrums

* nevoeiro, neblina ou cerração

* orvalho

* geada

* neve

* granizo

* virga

* chuva

Bom trabalho. 

domingo, 14 de maio de 2017

MICO-LEÃO-DOURADO REAPARECE NO RIO.

Mico-leão-dourado reaparece no Rio após mais de um século

Um mico-leão-dourado foi fotografado na Estação Biológica Fiocruz Mata Atlântica, campus avançado para pesquisas em biodiversidade e saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Jacarepaguá. A espécie de primata exclusiva da Mata Atlântica brasileira – estampada na nota de R$ 20 – foi avistada juntamente com um grupo de saguis-de-tufo-branco pelos biólogos Iuri Veríssimo e Monique Medeiros, que trabalham na gestão ambiental e no levantamento da biodiversidade da Estação Biológica da Fiocruz.
O mico-leão-dourado é uma espécie de primata exclusiva da Mata Atlântica brasileira (foto: Fiocruz Mata Atlântica)
O mico-leão-dourado é uma espécie de primata exclusiva da Mata Atlântica brasileira (foto: Fiocruz Mata Atlântica)
Segundo o biólogo responsável pela gestão ambiental do Programa de Desenvolvimento do Campus Fiocruz Mata Atlântica / Estação Biológica, Ricardo Moratelli, o próximo passo é descobrir a origem desses animais — se são remanescentes de uma população local ou se foram trazidos de outra região e soltos na área. A Estação Biológica da Fiocruz fica adjacente e parcialmente sobreposta ao Parque Estadual da Pedra Branca, que abriga a maior floresta urbana das Américas, segundo cálculos da equipe de pesquisadores, há aproximadamente 50 km2 de florestas de baixada (entre 100–300 m) bem preservadas, que são o habitat preferido do mico-leão-dourado.
Primata da Mata Atlântica
O mico-leão-dourado é uma espécie de primata exclusiva da Mata Atlântica brasileira. Os primeiros naturalistas europeus que visitaram a região do atual estado do Rio de Janeiro, entre os séculos 16 e 19, ficaram encantados com esses primatas e alguns exemplares foram prontamente coletados e enviados para a Europa, sendo formalmente descritos em 1766 pelo celebre naturalista sueco Carolus Linnaeus.
Registros do período colonial até inicio do século 19 indicam que a espécie ocorria ao longo de quase toda faixa litorânea do estado do Rio de Janeiro, incluindo o município do Rio. Devido à rápida perda de habitat ao longo dos séculos 19 e 20, a espécie foi localmente extinta na maior parte de sua área de distribuição. Até a década de 1940, a espécie ainda ocorria em Araruama e Maricá, mas logo depois ficou restrita à uma pequena região na bacia do Rio São João.
Na início da década de 1960, quando restavam cerca de 200 micos, o primatologista e conservacionista Adelmar Coimbra Filho estabeleceu as bases de um programa de salvamento para a espécie. Esse esforço se consolidou em um grande projeto de preservação, proteção e estudo do mico-leão-dourado, que desde 1992 é liderado pela Associação Mico-Leão-Dourado. Hoje, existem cerca de 3.200 micos vivendo livremente, com todas as populações concentradas em alguns poucos municípios do interior do Rio de Janeiro, sendo as maiores nas Reserva de Poço das Antas e Reserva Biológica União.
Fonte: Fiocruz
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/05/2017

sábado, 13 de maio de 2017

"NÃO EXISTE DEMOCRACIA ONDE IMPERA A CORRUPÇÃO, A INJUSTIÇA, A MENTIRA E A HIPOCRISIA "

A gestão Dilma-Temer gerou o pior octênio da história brasileira, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Não existe democracia onde impera a corrupção, a injustiça, a mentira e a hipocrisia”
Mauro Roberto
taxas anuais de crescimento do PIB
[EcoDebate] O Brasil apodreceu. Este é o título de um artigo do jornalista Clovis Rossi na Folha, em abril de 2017. Ele expressa bem o que tem ocorrido no país nos últimos anos e a descrença que atinge até a grande imprensa. A maioria dos políticos e seus partidos estão envolvidos em algum escândalo de corrupção. Os presidentes das grandes empreiteiras estão na cadeia ou em prisão domiciliar. A Petrobras está quebrada. A Vale atolada no mar de lama que também sufoca os rios e as matas de Minas Gerais e do Espírito Santo. O desemprego bate todos os recordes. Há um esgarçamento do tecido social. As condições ambientais se deterioram. A violência se banaliza. E a economia, no período republicano, nunca este tão ruim. A Nova República já nasceu velha e debilitada e o Brasil perde espaço na economia internacional desde o início dos anos 80.
O Brasil viveu uma década perdida entre 1981 e 1990, quando houve, pela primeira vez na história da República, uma redução da renda per capita em um período decenal. O governo Figueiredo – de triste memória – enterrou o legado de grande crescimento da época áurea da ditadura. Os governos Sarney e Collor deixaram uma herança de hiperinflação, pobreza e desigualdades sociais. Os governos Itamar e FHC (1992-2002) conseguiram estabilizar os preços de bens e serviços depois do Plano Real e até promoveram a volta de um crescimento modesto, mas positivo (do ponto de vista do crescimento do PIB e não das condições ambientais). Houve pequena redução da pobreza e da desigualdade social neste período.
O governo Lula, aproveitando os ventos favoráveis do superciclo das commodities, conseguiu elevar o crescimento do PIB para níveis superiores às décadas de 1980 e 1990, mas bem inferiores do que a década de 1970. A especificidade do governo Lula foi criar expectativas positivas. O período mais saudável ocorreu nos anos de 2004 a 2008, quando houve, num ambiente democrático, o crescimento econômico, a redução da pobreza, a redução das desigualdades sociais, a redução das dívidas públicas interna e externa, crescentes saldos comerciais, crescentes superávits primários nas contas públicas, aumento das reservas cambiais e maior presença construtiva do Brasil no cenário internacional (na época, escrevi um artigo chamando este período de “quinquênio virtuoso”, Alves, 2009). O lado mais negativo foi o aumento da corrupção e a utilização de truques macroeconômicos, em 2009 e 2010, para turbinar a economia e influenciar os resultados das eleições de 2010. A primeira década do terceiro milênio foi melhor do que a última década do segundo milênio. Mas diversos problemas estruturais vieram à luz na década seguinte, quando o presidencialismo de coalizão mostrou o lado perverso do sistema político brasileiro.
A chapa Dilma-Temer eleita em 2010 e reeleita em 2014 promoveu, considerando tanto os 6 anos já decorridos (sexênio), como os sete anos em curso (septênio) ou os possíveis oitos anos de gestão (2011 a 2018), o pior desempenho para um período de seis, sete ou oito anos (octênio) desde 1901, quando se tem dados confiáveis registrados. O gráfico acima mostra (nas linhas azuis) as taxas anuais de crescimento do PIB no Brasil entre 1901 e 2018, enquanto a média móvel de oito anos (linha vermelha) mostra todos os octênios do período. As séries históricas são do Ipeadata (de 1901 a 1999) e do IBGE (de 2000 a 2016), com as atualizações mais recentes. Para os anos de 2017 e 2018 utilizamos as projeções do FMI (WEO, abril de 2017). O que se conclui é que o Brasil vive a sua mais longa e profunda recessão da história. Vive também a sua segunda década perdida, pois haverá redução da renda per capita entre 2011 e 2020.
Diante desse quadro surreal e trágico, a Dilma culpa o Temer e o Temer culpa a Dilma pelo desastre catastrófico da economia brasileira. O PT, que, normalmente, não gosta de fazer autocrítica, culpa todo mundo, menos os seus próprios erros. Mas a verdade é que os dois presidentes foram eleitos na mesma chapa e tiveram o mesmo número de votos. Sem o apoio do PMDB e das milhares de prefeituras pemedebistas, Dilma não chegaria à Presidência da República. E sem a força política do PT junto aos movimentos sociais, o PMDB, pelo voto direto, jamais chegaria ao Planalto. Além disto, as investigações do TSE mostram que houve financiamento ilícito na campanha de 2014 (assim como nas anteriores), eleições essas que já são registradas pela ciência política como o maior estelionato eleitoral da história política do país. É incrível como os dois partidos – junto aos aliados – se locupletaram para promover o maior desastre econômico da República. Eu, que votei nulo no segundo turno das eleições de 2014, tenho total liberdade para criticar as duas gestões, tanto a que foi impedida, como a que ocupou o espaço central.
Além de tudo, a recessão não pode ser considerada uma “medida amarga que vai curar o paciente”. O Brasil está não só vivendo 4 anos de grande queda na renda per capita (entre 2014 e 2017), mas também está vivendo um total desarranjo das contas públicas. Desde o início do século os sucessivos governos apresentaram superávit primário, medida que reduzia o déficit nominal (quando se contabiliza as despesas com juros) e evitava o descontrole da dívida pública. Mas para garantir a reeleição de 2014 a gestão Dilma-Temer gastou mais do que arrecadou em 2014 (as ações populistas visando a reeleição foram descaradas), exagerou na “contabilidade criativa”, nas “pedaladas fiscais” e deixou um triste legado para a gestão seguinte.
Assim, a bomba fiscal armada na primeira gestão Dilma-Temer explodiu na segunda gestão da dupla. O resultado foi um aprofundamento do déficit primário e o maior déficit nominal (de -10,3% do PIB) da história brasileira. O Brasil virou o patinho feio da economia internacional. Todos os problemas sociais se agravaram e a violência se banalizou no país. O gráfico abaixo, com dados do FMI, mostra que o superávit primário só estará de volta na próxima década e que o déficit nominal vai diminuir, mas vai continuar elevado pelo menos até os 200 anos da Independência, em 2022.
Superávit(déficit) primário e déficit nominal no Brasil: 2010--2022
Os números do mercado formal de trabalho, do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do MTE, estão no vermelho à, praticamente, 28 meses (com exceção de março de 2015 e fevereiro de 2017). Os números são assustadores, pois, nesse período, foram eliminados 3,6 milhões de postos de trabalho formal, o que dá uma média de 130 mil empregos perdidos por mês ou 4,3 mil empregos formais eliminados por dia. A crise econômica brasileira fechou um grande número de postos de trabalho com carteira assinada entre dezembro de 2014 (logo após as eleições que elegeram Dilma-Temer) e 2017.
Para o mercado de trabalho como um todo, o desemprego aberto atingiu números alarmantes, pois gerou 14,2 milhões de pessoas procurando alguma vaga, no primeiro trimestre de 2017, o que significa uma taxa de 13,7%, segundo a PNAD Continua do IBGE. Numa medida ainda mais ampla, a “Taxa Composta da Subutilização da Força de Trabalho” está em torno de 23%, significando cerca de 25 milhões de pessoas desocupadas, desalentadas ou subutilizadas. Este desperdício da força de trabalho brasileira significa uma renda menor disponível para as famílias e também a criação de uma geração perdida, pois a juventude brasileira está sem alternativas para o futuro.
comportamento do emprego formal no Brasil: dez/2014 a mar/2017
Dados da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), em colaboração com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que o desemprego na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) atingiu o maior nível da história, com 2,066 milhões de pessoas procurando trabalho em março de 2017. Nunca o desemprego foi tão alto na RMSP. De 17,9 milhões de pessoas em idade ativa, apenas 9,1 milhões estavam ocupadas (uma taxa de 50,9%). Ou seja, só a metade das pessoas em idade produtiva estavam ocupadas. Mesmo assim era grande a quantidade de pessoas subempregadas e atuando na informalidade. Não há bônus demográfico que resista a estes números.
Tudo isto só confirma que a saúde da economia brasileira está capenga. A produção industrial brasileira terminou o ano passado 6,6% menor que 2015, o que conferiu o terceiro ano de resultado negativo para o setor. Em 2015, a queda foi de 8,3% e, em 2014, de 3%, segundo dados do IBGE. Assim, o processo de desindustrialização compromete o futuro da economia e a geração de emprego para absorver a força de trabalho mais escolarizada.
Pesquisa Datafolha, divulgada dia 30/04/2017, mostra que a impopularidade do governo Michel Temer cresceu e já é comparável à de Dilma Rousseff, há um ano, às vésperas da abertura do processo de impeachment que acabou por cassá-la em 2016. Neste quadro desalentador, um montante de 85% da população brasileira quer eleições diretas já! O país está atolado na estagnação e na insatisfação.
Assim, não é exagero dizer que “o Brasil apodreceu”. A operação Lava-Jato deixa claro que “Há algo de podre no reino da Dinamarca”. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pode cassar a chapa Dilma-Temer, em função das irregularidades no financiamento da última campanha eleitoral. Contudo, antes mesmo de qualquer resultado oficial, tanto Dilma, como Temer já foram rejeitados pela população e a opinião pública, em função do estelionato eleitoral de 2014. Está na hora de o Brasil virar essa triste página da história.
Referências:
ALVES, JED. O quinquênio virtuoso: 2004-2008, Aparte, IE/UFRJ, 07/06/2009
http://www.ie.ufrj.br/aparte/pdfs/quiquenio_virtuoso_07jun09.pdf
ALVES, JED. O paradoxo das baixas taxas de desemprego em 2013 e 2014, Ecodebate, 10/03/2017 https://www.ecodebate.com.br/2017/03/10/o-paradoxo-das-baixas-taxas-de-desemprego-em-2013-e-2014-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
 José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
 in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/05/2017

quinta-feira, 11 de maio de 2017

ATUAL CRISE NO SISTEMA POLÍTICO.

CRISE NO SISTEMA POLÍTICO.
Rodrigo Guimarães Nunes (PUC-Rio) pertence a uma jovem geração de intelectuais não imbricada com os resquícios de uma forma de enxergar e fazer política que, aos poucos, vai exigindo uma mudança de postura analítica e conceitual. Com uma cabeça bem formada, própria daqueles que extraem da filosofia ótimos exercícios para o pensar, não titubeia quando desafiado a utilizar essa capacidade para analisar a conjuntura brasileira. Foi com essa disposição que, no último dia 06 de maio, apresentou o tema A crise da representação política e os dilemas da esquerda brasileira, pelo ciclo de debates Brasil: conjuntura, dilemas e possibilidades, promovido pelo CEPAT, em parceria com o Núcleo de Direitos Humanos da PUCPRCáritas Regional Paraná, e apoio do IHU, na cidade de Curitiba.
Com grande versatilidade, Nunes transitou de um tema a outro de sua abordagem, estabelecendo relações e limites, desde um quadro mais global da atual crise da representação política até a especificidade das questões internas que o país brasileiro atravessa. Quando precisou, foi contundente na análise dos dilemas da esquerda brasileira.
A crise da representação política é uma realidade na maioria dos países, provocada por uma fissura, que só tem aumentado, entre os desejos da sociedade e as alternativas viáveis oferecidas pelo mercado eleitoral. Em termos de posições políticas, vive-se um desmoronamento do centro, que atinge muito mais a esquerda que a direita. Os quadros da direita são mais voláteis e mais ou menos se equivalem. Já a esquerda, diante da instauração de uma crise, necessita de maior tempo para sua regeneração, pois possui uma base social organizada, que demanda um trabalho articulado das forças sociais. Contudo, a crise faz crescer os dois polos radicais, o da extrema-esquerda e, do outro lado, o da extrema-direita, cuja ascensão mundial já se fez notória.
Os cidadãos representados vivem o dilema entre insistir em “optar pelo mal menor” ou rejeitar totalmente o sistema, na expectativa de uma futura reforma do mesmo. Tal questão vai além da crise de um projeto político, pois esta se resolve com a alternância de poder, ao passo que a crise da representação demora muito mais tempo para se resolver, dado o corporativismo da classe política, que engessa as possibilidades.
Muito cauteloso em suas análises, Nunes evita as ciladas de uma leitura simplista da realidade dos representados. No caso brasileiro, é categórico ao rejeitar as comparações fáceis entre a sociedade brasileira e o Congresso Nacional, como se o último fosse simplesmente uma expressão simétrica da primeira. Inclusive, constata que muitas análises fazem bastante confusão com adjetivações à sociedade, que facilmente passa a ser considerada de direita, conservadora, liberal, etc. A realidade social é muito mais complexa e os agentes nela envolvidos se movem a partir de diferentes enfoques, nem sempre coincidentes com as rápidas análises de momento. Nesse sentido, é um erro analítico enxergar a movimentação política como o simples resultado de uma ascensão conservadora na sociedade brasileira, pois oferece uma visão distorcida da realidade, tratando como fato consumado o que ainda está em disputa e retira da esquerda sua parcela de responsabilidade sobre a atual conjuntura.
É preciso lembrar que a maioria da população é contra o programa antipopular do atual governo pós-impeachment, que só fez aumentar a descrença no sistema político. Há uma quantidade expressiva de pessoas que defendem a universalização da qualidade dos serviços públicos e que são liberais nos costumes. Além disso, a grande maioria das pessoas não tem uma noção ideológica definida, estando muito mais preocupadas com os possíveis resultados da gestão pública.

Participantes do debate "A crise da representação política e os dilemas da esquerda brasileira". (Foto: Ana Paula Abranoski)
Para tentar elucidar o atual momento político, Nunes retomou as Manifestações de Junho de 2013, afirmando que as mesmas escancaram uma crise da representação política que já existia e que, nesse momento, persiste em grau agravado. Nelas atuaram cinco atores ou forças sociais:
1) Uma nova geração política à esquerda do Partido dos Trabalhadores (PT);
2) Uma pequena direita ideológica, mas muito bem organizada;
3) Pessoas que não eram de direita, mas que naquele momento comungavam com suas aspirações, por exemplo, com o antipetismo, que parece ser um significante vazio que congrega por aproximação à direita;
4) Os governistas que chegaram tarde demais, mas que interferiram por fora;
5) Por fim, um grande número de pessoas, novos atores políticos, que nunca tinham ido às ruas, mas que se manifestaram amplamente, de diferentes maneiras, empunhando suas bandeiras.
Nesse cenário ímpar, a nova direita foi a que mais soube se beneficiar com as manifestações, encontrando interlocutores dentro do sistema político. Para Nunes, enquanto os jovens da direita foram recebidos com tapetes vermelhos pelos representantes do sistema político, os jovens da esquerda apanharam da polícia, com uma rigorosa repressão. Hipoteticamente, o desfecho ideal daquele momento político do país deveria ter sido o encontro entre a nova geração militante à esquerda com aqueles inéditos atores políticos que, infelizmente, desde a sua irrupção em 2013, não se tem mais notícias.
Para Nunes, o momento atual oscila entre o cinismo e a revolta dos cidadãos. A questão é: persistirá a descrença generalizada, arrastando a crise ou haverá um novo episódio ‘selvagem’ como foram as Manifestações de Junho de 2013? Não há clareza a respeito de quem e como será possível mobilizar este mal-estar generalizado.
A curto prazo, parece que o lulismo se beneficiará da atual conjuntura, mas isso não significa, de forma alguma, uma solução para a crise, ao contrário, é justamente o sintoma da crise. Para Nunes, o fato de Lula (alguém que pode ser preso a qualquer momento) aparecer como o salvador da lavoura, e talvez do sistema político como um todo, é a prova sintomática da crise que se vivencia. O lulismo foi dependente de condições econômicas e políticas que já não existem mais. Tal saída é apenas paliativa, em um arranjo que busca uma acomodação do sistema a curto prazo, mas que é incapaz de estancar a atual hemorragia. É bem provável que, com o passar do tempo, o lulismo saia de cena e sem o mesmo, na opinião de Nunes, o próprio PT estará morto.
A crise da representação é uma crise do poder constituído, que não pode contar com a solução por ele próprio (por dentro do sistema). Em se tratando da esquerda como um todo, um de seus desafios é quebrar o monopólio da representação política do PT. Utilizando uma linguagem metafórica, Nunes considera que a esquerda possui uma relação monogâmica com o PT, mas, ao contrário, o PT não possui uma relação monogâmica com a esquerda. Em sua opinião, este momento abre a possibilidade para que a esquerda tenha uma relação de promiscuidade virtuosa com diferentes grupos e faça diferentes experimentações. Como exemplo de uma experimentação, citou o caso da eleição da vereadora mais votada em Belo Horizonte, na última eleição, Áurea Carolina, negra e feminista, pelo movimento Cidade que queremos, a partir de diversos grupos que negociaram a candidatura utilizando a legenda do PSOL.
Nunes listou uma série de possíveis iniciativas que, a seu ver, poderiam melhorar a relação entre representante e representado. Entre elas, acabar com o monopólio dos partidos políticos, possibilitando candidaturas independentes e a criação de plataformas cidadãs; criar instituições que garantam o controle dos representantes pelos representados, já que não se deve esperar chegar o dia em que todos os políticos serão honestos; instituir condições de revogabilidade de todos os mandatos; colocar limites para o número de mandatos, não permitindo que o indivíduo seja carreirista na política; ampliar o debate sobre a reforma política e reforçar as bases organizadas.
Se a experiência das Manifestações de Junho de 2013, em certa medida, trouxe elementos traumáticos, Nunes não hesita em defender a necessidade de superação, construindo bases, voltando à organização popular, consciente que somente o burburinho pelas redes sociais não constrói compromisso coletivo. As redes socais possuem muitas possibilidades, mas junto a elas é preciso criar condições para que se tenha bases organizadas e estratégias comuns. Nesse sentido, a ideia de ecologia organizacional, com a valorização da complementaridade, parece ser valiosa. Diferente da perspectiva que busca unificar tudo, onde todos fazem o mesmo, esta vê como benéfico para o processo de transformação social tudo o que ocorre de favorável nos diferentes grupos e movimentos, que se complementam. Como bem salientou Nunes, todo movimento é uma ecologia e uma ecologia deve ser preservada.
Fonte : Instituto Humanitas Unisinos

OS CINCO ANOS MAIS QUENTES.

Os cinco anos mais quentes do Antropoceno, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

os cinco anos mais quentes e o ano mais frio da série: 1880-2017
[EcoDebate] O Antropoceno é uma época geológica marcada pelo domínio da influência do ser humano sobre a biosfera e tem como uma de suas caracterizadas (negativas) fundamentais o aquecimento global. O rápido crescimento econômico e o insustentável padrão de produção e consumo da humanidade está esquentando, literalmente, o Planeta.
Em relação à temperatura média do século XX, o ano de 1908 ficou com temperatura de -0,44º C., abaixo da média do século. O ano mais quente do século XX foi 1998, com 0,63º C acima da média. Porém, o século XXI apresenta recordes contínuos de aquecimento. Em 2010, a temperatura ficou 0,70º C acima da média, 2014 com 0,74º C, 2015 com 0,90º C e 2016 com o recorde absoluto de 0,94º C. O ano de 2016 ficou cerca de 1,4º C mais quente do que o ano de 1908. Dezesseis dos dezessete anos mais quentes ocorreram no século XXI.
Tudo indica que o ano de 2017 será um pouco menos quente do que 2016, mas poderá ser o segundo ou terceiro ano mais quente da série. Em 2017, as temperaturas ficaram acima da média do século XX em 0,89º C em janeiro, 0,98º C em fevereiro e 1,05º C em março. Estes números são espantosos para um período sem a presença do fenômeno El Niño.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) informou a temperatura do mês de março de 2017 é totalmente inesperada para um período considerado “normal”. O El Niño é “caracterizado por temperaturas oceânicas excepcionalmente quentes no Pacífico Equatorial”, o que faz aumentar a temperatura global, elevando o aquecimento global subjacente a longo prazo. Então, quando um mês vê temperaturas climáticas recordes na ausência de um El Niño, isso é um sinal de que a tendência do aquecimento global tem adquirido ritmo próprio e com redução das flutuações.
global surface temperature departures
A temperatura tem subido 0,18º C., por década. Isto significa, que no ritmo atual, a temperatura pode ultrapassar 3º C, em 2100, em relação ao período pré-industrial. A última vez que a temperatura global chegou neste patamar o nível dos oceanos subiu mais de 6 metros. Tal fenômeno afetaria a vida de bilhões de pessoas que vivem nas áreas litorâneas e reduziria muito as áreas de cultivo de alimentos. Também haveria a perda de vida marinha devido à acidificação.
O aumento do degelo do Ártico, Antártica, Groenlândia e glaciares tem se acelerado conforme mostram inúmeras pesquisas e reportagens. Um evento dramático é o rompimento da Plataforma Larsen C, na Antártica. A figura abaixo mostra que uma enorme fenda está próxima de romper e liberar um iceberg quase do tamanho da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
Larsen C Ice Shelf
A figura também mostra que a fenda está crescendo de forma acelerada e já atinge o tamanho de 180 quilômetros. No final do ano passado, ela cresceu de repente em cerca de 18 quilômetros. Faltam apenas 20 quilômetros para deslocar o iceberg do restante da prateleira de gelo. Dados de satélite, de maio de 2017, revelaram um segundo ramo da fenda, de cerca de 15 quilômetros de comprimento, que está se movendo em direção à borda da plataforma. Este é um exemplo atual como o aquecimento global vai provocar um grande degelo dos polos e acelerar a elevação do nível do mar.
Aquecimento global acima de 2º C pode gerar enormes desastres, grande quantidade de refugiados do clima e uma epidemia de fome. Para evitar uma catástrofe de tal dimensão é preciso uma rápida redução das emissões de gases de efeito estufa e uma descarbonização crescente da economia.
Referência:
Press Association. Antarctic iceberg the size of South Wales could break off at ANY TIME as new images reveal the rift has spread, Mailonline, 02/05/2017
http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-4465600/Giant-Antarctic-iceberg-hanging-thread.html
NOAA. Global Climate Report – March 2017
https://www.ncdc.noaa.gov/sotc/global/201703
 José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
 in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/05/2017

segunda-feira, 8 de maio de 2017

BALANÇO DA RADIAÇÃO SOLAR.

BALANÇO DA RADIAÇÃO SOLAR





sábado, 6 de maio de 2017

9 VERDADES E 1 MENTIRA SOBRE DOENÇAS CARDIOVASCULARES

9 verdades e 1 mentira sobre doenças cardiovasculares

saúde
Inspirado na corrente “9 verdades e 1 mentira”, que circula pelo Facebook, a Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP) elenca alguns fatores de risco para doenças cardíacas
Em 2016, ocorreram 349 mil óbitos por doenças cardiovasculares no Brasil, um aumento de 1,39% em relação a 2015. Mesmo sabendo da importância da prevenção e sobre os fatores de risco que desencadeiam doenças cardiovasculares, algumas pessoas não conseguem aderir uma rotina e hábitos alimentares mais saudáveis.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que, a cada ano, 17,3 milhões de pessoas falecem em todo o mundo vítimas de doenças cardiovasculares. A estimativa para 2030 é preocupante, pois o total de óbitos deverá chegar a 23,6 milhões.
Confira, a seguir, as verdades e a mentira sobre doenças cardiovasculares:
Etnia – Existem fatores de risco não evitáveis, controláveis ou tratáveis, como a etnia. Certos grupos étnicos têm maior risco para desenvolver doenças cardiovasculares.
Hipertensão – A Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) ou Pressão Alta (PA), sozinha, é a principal causa de doenças do coração, dos rins, de Acidente Vascular Cerebral, de comprometimento das artérias e dos olhos, além de matar mais que doenças como câncer e até mesmo a AIDS.
História familiar – Se familiares próximos, como pais e irmãos, têm ou tiveram problemas do coração, as pessoas têm mais chances de desenvolver as mesmas doenças. Este é mais um fator de risco não evitável, controlável ou tratável, mas serve de alerta para os membros da família.
Idade – Com o envelhecimento, aumentam os problemas que afetam a saúde do coração e, consequentemente, os riscos de desenvolver doenças também aumentam. Outro fator de risco não evitável, controlável ou tratável, mas serve de alerta para os membros da família.
Estresse excessivo – Consequência do ritmo da vida moderna, o estresse é inevitável e é preciso aprender a conviver porque também está relacionado ao aumento do risco cardíaco.
Bebida alcoólica – O consumo excessivo de álcool pode ser danoso à saúde do coração e está relacionado ao desenvolvimento de hipertensão, alteração no ritmo do coração e aumento de peso.
Colesterol elevado – Elemento importante para vários processos orgânicos, entre eles, a formação das células, a produção de hormônios, de vitamina D e de ácidos que ajudam a digerir as gorduras. O problema é que o ser humano necessita apenas de uma pequena quantidade de colesterol no sangue, produzida quase que totalmente pelo fígado. O excedente acaba se acumulando nas paredes das artérias, aumentando o risco de problemas cardiovasculares, como infarto do miocárdio ou acidente vascular cerebral.
Sedentarismo – A falta de atividade física é importante fator de risco para as doenças cardiovasculares. O sedentarismo contribui para o desenvolvimento de hipertensão arterial, obesidade, diabetes, colesterol elevado e outras doenças.
Tabagismo – A maior causa evitável de mortes no mundo é o tabagismo. Os fumantes têm o risco de morte súbita até quatro vezes maior do que não fumantes. O vício do cigarro aumenta as chances de ter infarto do miocárdio, Acidente Vascular Cerebral, conhecido como derrame, angina e outras doenças, como câncer.
Apenas obesos têm problemas no coração – A obesidade é apenas um dos fatores que fazem acelerar o processo de aterosclerose coronária, podendo aumentar a chance de o indivíduo desenvolver hipertensão arterial, diabetes e doença cardíaca, mas as pessoas magras também podem ser afetadas, principalmente se tiverem fatores de risco.
Fonte: Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP)
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/05/2017

AUMENTO DE SUICÍDIO ENTRE OS JOVENS NO BRASIL E NO MUNDO.

Suicídio entre jovens hoje é um fenômeno mundial e uma questão de saúde pública

Para o psiquiatra assistente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP, Cristiano Cardoso Moreira, o aumento do suicídio na população jovem hoje é um fenômeno mundial e uma questão de saúde pública. O psiquiatra afirma que atualmente um dos principais fatores de risco para o suicídio é o consumo de drogas. “Existe uma ligação muito grande entre o aumento de suicídio e o aumento do consumo de drogas e também do bullying.”
Cultura da individualização deixa os jovens mais vulneráveis à questão do suicídio – Foto: Flickr-CC
Cultura da individualização deixa os jovens mais vulneráveis à questão do suicídio – Foto: Flickr-CC
Dados divulgados recentemente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que o Brasil é o país com maior número de pessoas com transtorno de ansiedade e o quinto em número de pessoas com depressão.
E um dos resultados desses recordes é outro número assustador. A BBC Brasil divulgou, recentemente, que, entre 1980 e 2014, a taxa de suicídio entre jovens no País aumentou 27,2%.
Segundo o médico Cristiano Cardoso Moreira, o estilo de vida atual, como o maior acesso a meios letais, como medicamentos e armas, facilita de alguma forma comportamentos como o suicídio. “As pessoas estão cada vez mais individualizadas e se juntam em grupos e redes que autoalimentam esse pensamento de morte e deixam os jovens mais vulneráveis à questão do suicídio.”
Para o médico, a rede social pode ser usada tanto para o bem, como encontrar profissionais para ajudá-los, como para o mal, quando da inserção em grupos que induzem o jovem a ter atitudes autodestrutivas. Moreira lembra que os jogos virtuais que ganharam os noticiários nos últimos dias atingem pessoas que já se encontram em vulnerabilidade e aquelas que estão em situação de risco, como pessoas com depressão.
Para o psiquiatra, é importante que os pais saibam o que os filhos estão fazendo na internet e fiquem atentos a comportamentos de isolamento e a mudanças abruptas de atitudes, por exemplo. “Os pais hoje estão correndo muito e não vendo o que os filhos estão fazendo, especialmente na internet.” Lembrou que é possível prevenir o suicídio, observando o comportamento dos jovens e incentivando-os a buscar ajuda: “90% dos suicídios têm ligação com algum transtorno mental passível de tratamento”.
Para o profissional, a rede pública de saúde, principalmente no Brasil, tem poucos serviços e o profissional de forma geral é pouco capacitado no assunto. “O suicídio não deveria ser um assunto exclusivo da psiquiatria. A formação dos profissionais da saúde deveria focar a prevenção e como lidar com alguém que tentou ou que tem a ideia de querer suicidar-se ou machucar-se. Ainda temos um tabu muito grande sobre esse assunto, mesmo entre os profissionais de saúde.”
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/05/2017

REFORMA DA PREVIDÊNCIA.

“Se é para fazer economia, é com as aposentadorias mais altas que ela precisa ser feita”

Marcelo Medeiros, professor da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e pesquisador visitante da Universidade de Yale está muito atento ao debate sobre a reforma da Previdência. Para ele, a reforma é necessária, mas não pode ser feita às pressas, nem deixar de lado as pessoas mais vulneráveis. Ele acredita que o Governo precisa rever algumas concessões, pensar em longo prazo e corrigir medidas como excluir estados e municípios da reforma.
A entrevista é de Beatriz Sanz, publicada por El País, 03-05-2027.
Eis a entrevista.
A reforma da Previdência é necessária?
Resposta. Esta reforma não vai ser definitiva. O Brasil precisa de uma reforma da Previdência agora e, provavelmente, de outra em um futuro não muito distante. Mas ser a favor de reforma não significa aceitar qualquer reforma. Não dá para ignorar que o país é muito desigual e que a Previdência reflete isso. Uma fatia pequena das aposentadorias e pensões é responsável pela maior parte do gasto previdenciário. Se é para fazer economia, é nessas aposentadorias mais altas que a economia precisa ser feita. Tratar todo mundo da mesma maneira é injusto. Os mais pobres, que entram e saem do setor informal, têm que ter mecanismos de proteção dentro da reforma, senão a carga em cima deles é excessiva. A responsabilidade fiscal tem que andar de mãos dadas com a responsabilidade social.
Este é o momento ideal para fazer a reforma?
Seria melhor se FHC ou Lula tivessem feito. Os dois tinham muito apoio popular, tentaram e avançaram, mas muito pouco. Este é um momento político ruim para discutir a Previdência. O governo está fragilizado porque, na prática, não foi eleito para isso e o Congresso está sob acusações graves, tem pouca legitimidade para mudanças constitucionais. O risco de tomar decisões sem legitimidade é que elas podem ser mais facilmente revertidas no futuro. Veja a PEC que limitou os gastos públicos, por exemplo. É o Congresso fragilizado de hoje tentando mandar no orçamento de um Congresso que ainda vai ser eleito daqui a quinze anos. É difícil políticos aceitarem isso, é provável é que a PEC seja desmontada por governos futuros.
Mas o pior não é isso. Decisões apressadas e sem convencimento generalizado criam condições para que surjam governos populistas. Na próxima década teremos um país saindo de uma recessão, com restrição a gastos públicos, pressões de natureza econômica e social, e as duas forças políticas de equilíbrio, PT e PSDB, extremamente fragilizadas internamente e externamente. Em política é difícil prever o futuro, mas o caldo de cultura para o populismo está criado. Não é o caso de um embate entre direita e esquerda, é outra coisa. Populistas não têm ideologia.
Por que você diz que a reforma não é definitiva?
Em política e economia não existe isso de tudo ou nada. Não existe reforma definitiva, porque o mundo muda e as políticas têm que acompanhar a mudança. Nosso modelo de Previdência se encaixa bem em uma sociedade em que todo mundo tem emprego estável e de carteira assinada. Funcionaria bem na Europa de antigamente. Mas o trabalho no mundo inteiro está passando por uma transição, cada vez menos gente trabalha como empregado estável. Estão crescendo os trabalhos temporários por conta própria, como se a pessoa fosse uma empresa e não um empregado. Isso tem implicações para a Previdência, pois quem faz as contribuições para financiar a Previdência são os empregados formais. Advogados e médicos são exemplos da mudança, eles trabalham como empresas individuais ou coletivas e por isso pagam bem menos à Previdência. Isso também acontece com pessoas de renda mais baixa, a empregada doméstica regular vai sendo substituída pela diarista. Se isso continuar a forma de financiamento [da Previdência] terá que ser outra, algo como o Imposto de Renda, por exemplo. Como as mudanças já estão ocorrendo, é melhor começar a pensar nelas agora.
Mas e o trabalho hoje?
mercado de trabalho no Brasil hoje tem três características que são importantes para a Previdência: muita informalidade, muita gente com renda baixa e uma diferenciação entre homens e mulheres. Muita informalidade significa que as pessoas não têm carteira assinada e, por isso, é difícil para elas contribuir para Previdência durante anos seguidos até atingir o mínimo de 25 anos para se aposentar. Renda baixa agrava o problema, pois é difícil para quem ganha pouco deixar de gastar com a família para contribuir como autônomo. Para cuidar de filhos e netos mulheres caem na informalidade ou saem do emprego durante um certo tempo e isso reduz seu tempo de contribuição, tornando mais difícil sua aposentadoria. Não se trata exatamente de uma escolha, mulheres não têm alternativas como creches e escolas em tempo integral. Combine essas coisas e a conclusão é uma só: existe uma parte grande da população brasileira que trabalha muito, mas terá grande dificuldade para cumprir 25 anos de contribuição e se aposentar. Os cálculos são de que para mais de um terço da população, esses 25 anos são tempo demais. Para as mulheres, aliás, é bem pior, quase metade terá grande dificuldade. É errado tratar todos da mesma forma, aposentadorias de baixa renda têm que ser mais acessíveis. Não é uma questão de mexer nas idades e sim nos tempos de contribuição para aposentadorias no valor mínimo.
Em um artigo escrito para a Folha de S. Paulo, economistas do governo afirmam que a reforma da Previdência tem que incluir o BPC (Benefício de Prestação Continuada) por conta de “distorções” no programa. Qual sua opinião à respeito?
Distorções no BPC não justificam reduzir seu valor. Se o BPC tem problemas administrativos, eles não vão ser resolvidos pela reforma da Previdência, tem que ser resolvido na esfera administrativa. Coisa, aliás, sobre a qual o governo não tem que reclamar, afinal ele tem o dever de administrar direito o BPC. Toda política precisa de ajustes contínuos, o BPC não é diferente. O governo se queixa de concessão por juízes, mas é preciso saber melhor o que está acontecendo. As linhas de pobreza do BPC são mais baixas que as do Bolsa Família, parte do problema pode ser que os juízes estão entendendo que isso é duro demais com idosos pobres. Não há nada de errado em levantar um debate público sobre quem merece proteção social no país e criar leis que reflitam escolhas sobre o que fazer com os idosos. Não precisa mudar a Constituição para isso. O que não pode haver é antipatia em relação à assistência social.
Então a reforma vai acabar sendo paga só pelos pobres?
Isso não é verdade. Há regras na proposta de reforma que são muito positivas e não afetam tanto os mais pobres. Um exemplo é o fim da aposentadoria por tempo de serviço. Essa medida afeta todo mundo, mas afeta mais os trabalhadores de renda mais alta. Mas existem trabalhadores de renda mais alta que estão sendo poupados sem nenhuma justificativa econômica para isso, só pelo receio de seu poder político. É muito ruim ter uma reforma dura com as mulheres e com os trabalhadores do setor informal enquanto militares e funcionários públicos de Estados e Municípios são deixados de fora. Não tem problema ter desigualdade se ela for criada para proteger os mais pobres. Mas então você cria a mesma regra para ricos e pobres e o primeiro gesto é dizer “é igual para todo mundo exceto certos grupos onde estão os mais ricos”? Não dá para começar uma reforma de forma ambígua e esperar que todo mundo confie na promessa de que esse problema vai ser enfrentado depois. Tem que haver um prazo limite para que Estados e Municípios façam suas reformas e a lei para mudar a aposentadoria dos militares tem que ser apresentada dentro do pacote político que discute a reforma geral.
A reforma da Previdência pode ter um impacto negativo na economia?
Tem impacto na economia, mas não dá para especular. As mudanças não têm grande impacto agora vão, começar a ser sentidas daqui a uma década. É difícil porque a gente não sabe como o Brasil será daqui a dez, vinte anos, principalmente no cenário atual onde a instabilidade é forte.
Como a reforma da Previdência pode impactar na vida das mulheres?
Na proposta inicial não havia preocupação alguma com as mulheres. O Congresso quer mudar isso. Se a proposta inicial não for alterada, o impacto negativo na vida das mulheres vai ser forte e não está claro que a economia feita compense. Por exemplo, há a ideia de impedir o acúmulo de aposentadorias e pensões. Isso por um lado tem que ser feito, para controlar aposentadorias muito altas. Mas precisa ser mais bem calibrado para aposentadorias de valor baixo, usando, por exemplo, um teto para o que pode ser acumulado, podendo até mesmo haver um certo desconto no valor final. Isso está sendo discutido agora e é mais sensato do que simplesmente proibir qualquer tipo de acumulação.
Tem muita gente falando de idades mínimas, mas para as mulheres mais importante que as idades são os tempos de contribuição obrigatórios, porque as mulheres saem do emprego formal para cuidar das crianças e demoram um pouco para voltar. Como isso não vai mudar facilmente, precisa ser levado em conta pela Previdência, os tempos de contribuição mínimos das mulheres têm que ser menores que os dos homens, ao menos para as aposentadorias de valor mais baixo.
Tudo isso tem um custo, portanto é preciso discutir as alternativas levando os gastos em consideração. Aliás, tem que discutir os custos dessas e das outras alternativas. A pergunta tem que ser “com custo do benefício que vamos dar para determinada categoria profissional, o que nós poderíamos fazer pelas mulheres ou pelos trabalhadores do setor informal”? A reforma foi feita correndo e não se discutiu alternativas. Não teve um debate muito claro. E é evidente que o Governo está tentando apressar o Congresso. Mas nós precisamos de uma reforma que seja socialmente e fiscalmente responsável. Uma coisa não pode existir sem a outra.
Fonte : Instituto Humanitas Unisinos

MORRE EDUARDO PORTELLA, PROFESSOR E EX-MINISTRO DE EDUCAÇÃO.

Morre o escritor, professor e ex-ministro Eduardo Portella, integrante da ABL


Paulo Virgilio - Repórter da Agência Brasil
O escritor, professor ex-ministro da Educação Eduardo Portella
O escritor, professor ex-ministro da Educação Eduardo PortellaReprodução/TV Senado

Morreu hoje (2/5/17) no Rio de Janeiro, aos 84 anos, o escritor, professor e ex-ministro da Educação Eduardo Portella, ocupante da Cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras (ABL). Portella teve uma parada cardíaca no Hospital Samaritano, em Botafogo, zona sul do Rio, onde havia sido internado no domingo (30).
O corpo será velado a partir das 19h no Salão dos Poetas Românticos, no Petit Trianon, sede da ABL, no centro do Rio. Amanhã (3), às 10h30, será celebrada missa de corpo presente e, em seguida, o corpo será levado para o mausoléu da Academia, no Cemitério São João Batista, em Botafogo.
Biografia
Baiano de Salvador, nascido em 8 de outubro de 1932, Eduardo Mattos Portella fez os estudos secundários no Recife, cidade onde se formou em direito pela Universidade Federal de Pernambuco, em 1955. Ainda na capital pernambucana, começou a exercer a crítica literária, em colaborações para a imprensa local.
Ao longo da década de 1950, estudou filologia, crítica literária e literatura em instituições de Madri, Roma e Paris e publicou na Espanha seu primeiro livro, Aspectos de la poesía brasileña contemporánea. Começou a exercer o magistério na capital espanhola, na Faculdade de Letras da Universidade Central de Madri. De volta ao Brasil, foi professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Pernambuco, e mais tarde, já na capital fluminense, da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na qual conquistou todas as titulações até se tornar professor emérito.
Funcionário do Ministério da Educação e Cultura desde 1956, Eduardo Portella foi nomeado titular da pasta em 1979, no início do governo de João Figueiredo, o último presidente do regime militar. Permaneceu pouco mais de um ano à frente do ministério, do qual foi demitido por ter apoiado a greve dos professores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
Na ocasião, ficou famoso pela frase “Não sou ministro. Estou ministro”, com a qual quis demonstrar a consciência da transitoriedade da sua passagem pelo ministério do governo militar. Recebeu o apoio de intelectuais que faziam oposição ao regime, como o escritor Alceu de Amoroso Lima.
Na segunda metade da década de 1980, foi secretário estadual de Cultura no Rio de Janeiro e em 1988 foi nomeado diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), com sede em Paris. Ocupou por cinco anos consecutivos o cargo e desde 1998 coordenava o Comité Chemins de la Pensée d'Aujord'hui, da entidade.
Imortal
Eduardo Portella ingressou na Academia Brasileira de Letras em 1981, sucedendo o escritor Otávio de Faria como ocupante da Cadeira 27, que teve como fundador Joaquim Nabuco. O presidente da ABL, Domício Proença Filho, decretou luto oficial de três dias na instituição e afirmou que, “com a ausência de Eduardo Portella, perde o Brasil um excepcional pensador da cultura, um professor e crítico de alta presença e porte, e a Casa de Machado de Assis, um acadêmico de forte liderança e marcada atuação”.
A escritora Nélida Piñon, secretária-geral da ABL, destacou que Portella “era um grande mestre do pensamento brasileiro, que soube, com rara perspicácia, interpretar o fenômeno literário”. Autor de mais de 20 obras de crítica literária e ensaios, Eduardo Portella fundou e dirigiu a editora Tempo Brasileiro, responsável pela introdução no Brasil de autores como os filósofos alemães Martin Heidegger e Jurgen Habermas, entre outros pensadores.
O escritor deixou a viúva Célia Portella e uma filha, Mariana.
Edição: Luana Lourenço