sábado, 30 de agosto de 2014

MARINA SILVA E CHICO MENDES.

'Só se Chico Mendes tivesse mudado muito apoiaria o projeto de Marina Silva'

Dercy Cunha (foto), vice-presidenta do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras de Xapuri, no Acre, que foi companheira de militância de Chico Mendes, diz que alianças de Marina impossibilitam programa de sustentabilidade.
A candidata a presidente pelo PSB, Marina Silva, causou rebuliço nas redes sociais ao explicar seu conceito de "elite" durante o último debate presidencial, transmitido pela TV Bandeirantes na terça-feira (26): na concepção da ex-senadora, a herdeira do banco Itaú Neca Setúbal, uma das "mentoras" das campanhas a presidente de Marina em 2010 e 2014, e o líder seringueiro Chico Mendes (1944-1988), com quem Marina começou sua militância, no Acre, integrariam uma mesma "elite", baseada não em elementos sociais e econômicos, mas na "coragem".
A reportagem e a entrevista é publicada por Rede Brasil Atual - RBA, 28-08-2014.
Não foi isso, no entanto, que incomodou o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Xapuri, entidade da cidade natal de Mendes onde desempenhou sua militância por melhores condições de vida para os trabalhadores da floresta e pela união com os chamados povos tradicionais, e que sedia o acervo de sua vida e luta. Para os militantes que dão continuidade à causa de Mendes, o que incomoda é a transfiguração do líder assassinato por fazendeiros de sindicalista para "ambientalista", caracterização que o sindicato, em nota oficial, afirma fazer parte da "temática ambiental capitalista".
"O companheiro Chico foi um sindicalista e não ambientalista", diz o texto. "Isso o coloca num ponto específico da luta de classes que compreendia a união dos povos tradicionais (extrativistas, indígenas, ribeirinhos) contra a expansão pecuária e madeireira, e a consequente devastação da floresta. Essa visão distorcida do Chico Mendes ambientalista foi levada para o Brasil e a outros países como forma de desqualificar e descaracterizar a classe trabalhadora do campo e fortalecer a temática capitalista ambiental que surgia."
O texto diz ainda que os trabalhadores e trabalhadoras de Xapuri "não concordam com a atual política ambiental idealizada pela candidata Marina Silva enquanto ministra do Meio Ambiente, refém de um modelo santuarista e de grandes ONGs internacionais". Para eles, "essa política prejudica a manutenção da cultura tradicional de manejo da floresta e a subsistência, e favorece empresários que, devido ao alto grau de burocratização, conseguem legalmente devastar".
Dercy Cunha, atual vice-presidenta do sindicato e presidenta da entidade antes de Chico Mendes, na década de 1980, reafirma as críticas. De acordo com ela, que conversou brevemente com a RBA durante estadia no Rio de Janeiro para participar de eventos sindicais, "as alianças da candidatura de Marina impedem que ela realize um projeto de sustentabilidade", e Mendes não a apoiaria em 2014.
Eis a entrevista:
Há desconforto dos trabalhadores de Xapuri com a forma como o legado de Chico Mendes está sendo tratado pela campanha de Marina Silva?
Sim, exatamente.
Por quais motivos?
O nome de Chico Mendes é usado de forma indevida, colocando ele em uma condição do que ele não era. Ele era um sindicalista defensor dos direitos dos trabalhadores, de melhoria de qualidade de vida, e nunca foi esse ambientalista da forma como é colocado pelos políticos.
Por que isso acontece, na sua opinião?
Porque isso rende, né? Isso, de certa forma, em termos de angariar recursos e apoios, tem importância.
Que relação a senhora teve com o Chico Mendes?
Fui a segunda presidenta do sindicato, logo depois do presidente fundador, e antes do Chico. Tivemos sempre uma relação muito boa, de muito trabalho conjunto.
Pelo que a senhora conhecia dele, acredita que ele concordaria com a forma como o legado dele surge na campanha eleitoral? Ele apoiaria Marina?
Só se ele tivesse mudado muito de opinião. Do contrário, eu imagino que ele teria a mesma postura que nós. A gente entende que, na campanha política, tudo acontece para chegar ao poder, mas as alianças e os vínculos que a Marinatem nos mostram que ela jamais teria condições de aplicar um projeto de sustentabilidade. A verdadeira sustentabilidade ofende os interesses do grande capital.
Existe alguma candidatura que contemple as demandas dos trabalhadores e trabalhadoras de Xapuri?
Olha, infelizmente, as candidaturas que representam aquilo que a gente sonha estão em desvantagem em termos de preferência. Tem algumas candidaturas que, se não mudarem ao chegar ao poder (porque o problema é quando os partidos chegam ao poder), seriam alinhadas, como as do Psol e do PSTU. São candidaturas que representam o que a gente sonha. Não orientamos votos, preferimos que as pessoas tirem suas próprias conclusões.
Entre as que estão disputando a liderança das pesquisas de opinião, há alguma mais próxima das posições do sindicato?
Não, são todas muito próximas. As propostas postas para a Amazônia, todos eles, são projetos de destruição, como as grandes obras de hidrelétricas e mineração. Isso não combina com nossos ideais.
Fonte : Instituto Humanitas Unisinos.

PERDA DE ÁGUA NAS CIDADES.

Perda de água chega a quase 40% nas maiores cidades do Brasil



perda de água

A cada 10 litros de água tratada nas 100 maiores cidades do país, 3,9 litros (39,4%) se perdem em vazamentos, ligações clandestinas e outras irregularidades. O índice de perda chega a 70,4% em Porto Velho e 73,91% em Macapá. Os números são do Ranking do Saneamento, divulgado ontem (27) pelo Instituto Trata Brasil, com base em dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento de 2012.
O estudo considerou a perda no faturamento, ou seja, a diferença entre a água produzida e a efetivamente cobrada dos clientes. De acordo com o instituto, o indicador de referência para a perda de água por faturamento é 15%. Dos 100 municípios da lista, quatro possuem nível de perda menor ou igual ao patamar. Em 11 deles, as perdas superam 60% da água produzida.
De acordo com o presidente executivo da entidade, Édison Carlos, as perdas se refletem diretamente na capacidade de investimento das empresas e podem comprometer a expansão e qualidade dos serviços. “A perda é um reflexo da gestão da empresa. Qualquer autoridade que pensa em saneamento como um negócio, teria que atacar as perdas. Quando a empresa tem perdas muito altas, não consegue nem custear o próprio serviço”, avaliou. “Qualquer litro de água recuperado é um litro a mais que ele vai receber”, acrescentou.
Apesar dos registros, os municípios fazem pouco para reduzir as perdas de água por faturamento, de acordo com o estudo. Entre 2011 e 2012, mais da metade das cidades pesquisadas (51) não reduziu em nada as perdas ou até piorou os resultados no período. Segundo o Trata Brasil, os números sugerem que “diminuir perdas de água não vem sendo uma prioridade entre os municípios brasileiros”.
Apenas 10% dos municípios analisados na pesquisa registraram melhoria de mais de 10% na redução de perdas de água. Em média, de acordo com o levantamento, a melhora nas perdas dos municípios foi de apenas 0,05% na comparação entre 2011 e 2012.
As soluções, segundo Carlos, variam de acordo com o tamanho e as características de cada município. Em cidades com índices de perda muito elevados, por exemplo, a instalação de equipamentos como controladores de vazão e pressão tem reflexos rápidos na perda por vazamentos.
Em relação ao saneamento, o ranking mostra que, nos 100 maiores municípios do país, 92,2% da população têm acesso à água tratada. Em 22 das cidades, o atendimento chega a 100%, atingindo a universalização do serviço.
No entanto, os dados de coleta e tratamento de esgoto são bem inferiores. A média de população atendida por coleta de esgoto nas cidades avaliadas é 62,46%. Os números do tratamento são ainda menores: em média, 41,32% do esgoto do grupo de maiores cidades do país é tratado. Entre as 10 cidades com piores índices no quesito, três são capitais: Belém, Cuiabá e Porto Velho, sendo que as duas últimas têm tratamento de esgoto nulo.
Considerando acesso à água, coleta e tratamento de esgoto e o índice de perdas, o estudo fez um ranking com os 20 municípios com melhores e os 20 com piores resultados em saneamento. Além disso, o instituto traçou uma perspectiva de universalização dos serviços nos próximos 20 anos, como quer o governo federal, com base na evolução dos indicadores entre 2008 e 2012.
Entre as 20 cidades com melhores resultados, todas atingiram ou atingirão a meta nos próximos anos. No entanto, nos 20 municípios com piores notas, entre eles seis capitais, apenas um deve atingir a universalização se o ritmo de melhoria se mantiver. “É um dado preocupante, na medida em que a gente tem uma meta clara para duas décadas”, avalou Édison Carlos.
De acordo com o presidente do Trata Brasil, a situação só será revertida se as políticas de saneamento entrarem na agenda de prioridades dos gestores públicos e a população pressionar por avanços no setor. “Tem que ser prioridade, principalmente dos prefeitos, mesmo as cidades em que os serviços são operados por empresas estaduais. Isso não tira a responsabilidade dos prefeitos, que têm que brigar por metas mais rápidas e mais amplas. É preciso foco”, avaliou. “O eleitor, o cidadão, tem que cobrar. É investimento, não é milagre”, comparou.
Por Luana Lourenço, da Agência Brasil.

EcoDebate, 28/08/2014

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

SÃO PAULO: VOLUME MORTO DA CANTAREIRA.

Entenda o que é o volume morto do Sistema Cantareira

Nesta quinta-feira (15), água da reserva técnica começa a ser retirada.
Quantidade vai elevar nível em mais de 18% para a Grande SP, diz Sabesp.

Do G1 São Paulo

Nível acumulado de água no Sistema Cantareira, que abastece a população da Grande São Paulo, chegou a 8,4%, segundo medição divulgada pela Sabesp na quarta-feira (14). Na imagem, reservatório na região de Joanópolis.  (Foto: Denny Cesare/ Estadão Conteúdo)Nível acumulado de água no Sistema Cantareira chegou a 8,4% (Foto: Denny Cesare/Estadão Conteúdo)
Asequência de quedas no nível das represas do Sistema Cantareira, principal fornecedor de água para a população da Grande São Paulo, fez com que o governo de São Paulo procurasse saídas para uma possível falta do recurso. Na quarta-feira (14), o sistema chegou a 8,4% de sua capacidade, um recorde histórico negativo que vem sendo quebrado a cada dia.
Após descartar o racionamento como solução, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) iniciou obras para captar uma reserva técnica chamada "volume morto", que fica abaixo do nível das comportas. Nesta quinta-feira (15), essa água começa a ser retirada com a ajuda de bombas flutuantes. Confira, abaixo, perguntas e respostas sobre o volume morto.
O que é?
O volume morto é um reservatório com 400 milhões de metros cúbicos de água situado abaixo das comportas das represas do Sistema Cantareira. Conhecida também como reserva técnica, essa água nunca foi utilizada para atender a população.
Por que usar essa água?
A Região Metropolitana de São Paulo enfrenta uma crise de abastecimento por causa da falta de chuvas e dos consequentes recordes de queda no nível do Cantareira. O governo do estado tentou fazer desvios para usar a água de outras represas, mas essas manobras não foram suficientes para atender toda a população da Grande São Paulo. Após o nível do sistema atingir um patamar preocupante, a Sabesp começou a fazer obras para conseguir bombear a água do volume morto.
Por que o nível do reservatório ficou tão baixo?
Segundo o governo paulista, o mês de janeiro teve apenas 87,8 milímetros de chuva, o pior índice em 84 anos – a média histórica é de 260 milímetros. Para a oposição, a falta de investimentos na ampliação do Cantareira provocou o atual colapso.
Que investimento foi feito para retirar o volume morto?
Orçada em R$ 80 milhões, a obra da Sabesp inclui 3 km de tubulações e sete bombas flutuantes para tornar útil a reserva de 400 milhões de metros cúbicos de água que fica abaixo do nível das comportas.

Por que a reserva nunca foi usada?
O volume morto nunca foi utilizado porque o sistema de bombeamento não chegava a uma profundidade tão grande. Desde 17 de março, porém, a Sabesp começou um serviço emergencial para retirar essa água. As obras ficaram prontas nesta quinta-feira.
Quantas pessoas o Cantareira abastece?
O sistema atende uma população de 8,45 milhões de pessoas na capital paulista e Região Metropolitana. Mais 1,41 milhão de pessoas que não são abastecidas pela Sabesp também recebem água da represa.

Qual será a nova capacidade do Cantareira?
Com o uso do volume morto, a quantidade de água será suficiente para elevar o nível do sistema em mais de 18%, segundo estimam os técnicos da Sabesp. No fundo do reservatório, restariam sem uso outros 10% do volume morto.
Quanto tempo dura o volume morto?
Com essa reserva técnica, a Grande São Paulo terá abastecimento garantido até, pelo menos, novembro, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA).

Essa água é boa para consumo?
Especialistas dizem que o volume morto pode estar contaminado, inclusive com metais pesados, sendo impróprio para beber. Já o governo paulista afirma que foram feitos testes que comprovaram a qualidade desse recurso.
A conta de água ficará mais cara?
O consumidor que gastar acima da média mensal pagará 30% a mais, segundo proposta do governo paulista que deve ser regulamentada pela Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (Arsesp). Ainda não há previsão para o início da cobrança. Já os consumidores de 31 cidades da Região Metropolitana atendidas pela Sabesp que conseguirem economizar 20% receberão um desconto de 30% na conta.
Volume morto concentra cerca de 28% da capacidade do sistema. Serão usados 18,2%. (Foto: Reprodução/TV Globo)Volume morto concentra 28% da capacidade do Sistema Cantareira, e inicialmente serão usados 18,2%. Essa reserva técnica fica abaixo do nível das comportas, e bombas flutuantes serão utilizadas para captação da água (Ilustração: Reprodução/TV Globo)Fonte : G1

terça-feira, 26 de agosto de 2014

ELEIÇÃO COMPROMETIDA COM O AGRONEGÓCIO.

Poder econômico do agronegócio deixa sociedade refém de seus interesses

O agronegócio é hoje o setor que mais oferece doações de campanhas aos candidatos à Presidência da República. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), até o momento os 11 candidatos já arrecadaram um total de R$ 31,2 milhões, sendo que cerca de 40% dessas doações vieram de setores ligados ao agronegócio.
A reportagem é de Maura Silva, publicada na Página do MST, 25-08-2014.
A maior doação recebida, até agora, veio da JBS, responsável em repassar R$ 11 milhões de reais ao comitê de campanha dos três candidatos mais bem colocados: Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) com R$ 5 milhões cada, e o PSB, agora com Marina Silva, com R$ 1 milhão.
Na mesma linha estão outras empresas do agroindústria, como Seara (R$1 milhão), Coopersucar (R$ 1 milhão),Laticínios Bela Vista Ltda (R$ 350.000), Agropecuária Nova Guaxupé Ltda (R$ 15 mil) e Fazenda Lua Nova Ltda (R$ 15 mil).
Esses números mostram que a dependência financeira dos partidos ainda dita as regras quando o assunto é plataforma política.
Não à toa, em recente sabatina realizada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), os principais candidatos à Presidência da República, Dilma Rousseff e Aécio Neves, destacaram em sua plataforma de campanha pontos que só tendem a beneficiar o setor.
Cada um, a sua maneira, fez questão de tranquilizar os empresários do agronegócio com promessas que vão da criação de um “Superministério da Agricultura” até a aprovação de um pacote exclusivo de decisões que beneficiará a esfera agropecuária.
Implicações
Os recursos privados constituem a principal fonte do financiamento de campanhas. Na prática, o financiamento privado acaba afrontando o artigo 14 da Constituição Federal, que diz que “a soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei”.
Para Gilmar Mauro, da coordenação nacional do MST, esse é um processo recorrente a todas as eleições.
“O apoio privado é um vicio eleitoral, as eleições estão terceirizadas. Todo parlamento é comprado, e vai responder a quem pagou, ou seja, a quem mais contribuiu. É uma eleição completamente comprometida, quem decide é o Capital”, diz.
Uma relação de confiança é estabelecida entre o agronegócio e os possíveis governos, uma vez que já é possível saber com antecedência quais partidos serão possivelmente eleitos.
Para Gilmar, isso permite que o agronegócio não tenha seus interesses ameaçados em pelas reivindicações feitas por movimento sociais e ambientais.
“Essa é uma lógica que impede a participação popular no processo eleitoral, o que só contribui para o desinteresse cada vez maior da população brasileira. O atual modelo agroexportador seguido pelo Brasil também favorece os grandes investimentos privados. É um pleito não democrático”, salienta.
Para o Sem Terra, apenas com ações que sustentem a Reforma Política, como o caso do Plebiscito Popular por uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político – que acontecerá entre os dias 1 a 7 de setembro – é que o cenário será modificado.
“O nosso sistema econômico beneficia o agronegócio. Criou-se uma espécie de dependência com o setor. Esses investimentos nada mais são do que uma retribuição por todas as facilidades que o governo federal tem concedido ao setor nos últimos anos. É preciso uma Reforma Política ampla, que estimule de fato a participação popular. Só assim, o povo será impelido a viver ativamente a política. Se dependermos dos atuais trâmites impostos pelo governo nada tende a mudar”, finaliza.
Para o professor em sociologia da Universidade Federal de Brasília (UnB)Sérgio Sauer, é difícil desvincular as doações privadas dos benefícios futuros que esses grupos e empresas tendem a receber.
“Doações de empresas, de qualquer setor da economia, sempre trazem algum tipo de compromisso, seja ele direto ou não. Cria-se um mecanismo, uma necessidade de troca. Um favor que mais cedo ou mais tarde alguém terá que pagar”.
Prova disso é o crescimento de grupos como a JBS, que só entre os anos de 2006 e 2009 multiplicou seu faturamento em 1900%, e que consegue do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) vertiginosos empréstimos e investimentos, bem como maior participação em programas subsidiados, como o Programa de Investimentos Sustentáveis (PIS).
Segundo o professor, essa situação reforça a narrativa de que esse é o setor que mais gera riquezas, mas consolida uma economia pouco sustentável, baseada na exportação de recursos naturais.
“Na atual conjuntura, os apoios do agronegócio feitos em suas diferentes facetas geram compromissos políticos e exigem apoio ao setor, reforçando especialmente as demandas por desoneração fiscal e por mais investimentos em infraestrutura”, finaliza.
Fonte : Instituto Humanitas Unisinos

GETÚLIO VARGAS.

Crônica de um suicídio anunciado

"O quadro se deteriorou a partir de maio de 1954, quando ele desafiou as forças conservadoras ao decretar a duplicação do salário mínimo. No discurso em que fez o anúncio, Getúlio ainda espicaçou seus críticos ao saudar João Goulart, ex-ministro do Trabalho, que fora afastado justamente depois de tentar aprovar essa medida", escreve Oscar Pilagallo, jornalista e autor de "A História do Brasil no Século 20", em artigo publicado pelo jornal Valor, 22-08-2014.
Eis o artigo.
O suicídio de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, foi uma decisão gestada em pelo menos um quarto de século, o período em que, como revolucionário, ditador, eleitor decisivo e presidente consagrado nas urnas, ele deu as cartas na política brasileira. No terceiro volume da biografia do líder mais influente da República, Lira Neto mostra que, há 60 anos, ao puxar o gatilho do seu Colt calibre 32, ele punha em prática a alternativa várias vezes descartada desde o dia em que foi catapultado para a cena nacional.
"Quando confrontado com situações-limite", escreve o autor, "já dera sinais de que a hipótese de autoimolação seria, no seu entender, a única forma de responder com alguma decência aos agressores." Lira Neto procura entender sua motivação: "Não se tratava da ideia fixa de um homem depressivo. Para Getúlio, a possibilidade do sacrifício pessoal era relacionada a uma questão de brio, de preservação da honra, de um sentido heroico de posteridade".
Seguindo trilha aberta pela pesquisadora Maria Celina D'Araujo, em texto publicado por ocasião dos 50 anos da morte de Getúlio, o biógrafo calça a conclusão num histórico de bilhetes, anotações e cartas.
O primeiro registro de "teor abertamente fatalista" foi redigido no seu diário em 3 de outubro de 1930, data da eclosão do movimento civil-militar por ele liderado, que pôs fim a quatro décadas de política oligárquica da Primeira República. Naquele dia, Getúlio escreveu: "Sinto que só o sacrifício da vida poderá resgatar o erro de um fracasso".
A menção seguinte seria feita dois anos mais tarde, em 10 de julho de 1932, um dia depois do início da Revolução Constitucionalista de São Paulo. Sentindo-se traído, Getúlio anotou, no esboço de uma provável carta de despedida, que se não pudesse morrer como soldado, em razão da "ignomínia duma revolução branca", escolheria "a única solução digna para não cair em desonra, nem sair pelo ridículo". Para Lira Neto, "a mensagem apontava para um gesto de resistência ativa, na qual a apresentação do próprio cadáver funcionaria como a melhor insígnia de altivez e coragem".
Dez anos depois, em plena Segunda Guerra, o então ditador voltaria a considerar o suicídio, na avaliação do biógrafo. Em 19 de janeiro de 1942, Getúlio garantiu, a um representante dos Estados Unidos, que o Brasil usaria sua posição estratégica na América Latina para conter uma possível invasão nazista no continente. E disse ao interlocutor, de acordo com seu diário: "Nessa decisão eu jogava minha vida, porque não sobreviveria a um desastre para a minha pátria".
Com tais precedentes, Getúlio poderia muito bem ter pensado mais uma vez em tirar a própria vida em 1945, depois da humilhação de ter sido deposto. Pelo menos, essa é a hipótese de Lira Neto, construída a partir de uma solicitação de Getúlio à filha Alzira, de que lhe enviasse do Rio para a estância gaúcha em que se exilara dois frascos de um tranquilizante que, em dosagem alta, poderia ter efeito letal.
Olhados em retrospectiva, esses eventos ajudam a entender a decisão de Getúlio de se matar com um tiro no peito. Não foi um gesto impensado, uma atitude desesperada tomada no calor da hora. Ao contrário, ele teria mentalmente se preparado para esse fim.
Em agosto de 1954, como acontecera nas situações anteriores, Getúlio vivia novamente a perspectiva de ser escorraçado do poder, em decorrência de um acúmulo de acusações que iam de casos de corrupção à responsabilidade por um assassinato.
Erguendo a bandeira do trabalhismo, o presidente enfrentava uma oposição feroz dos liberais desde que, em 1950, foi reconduzido à chefia do governo. Mas o quadro se deteriorou a partir de maio de 1954, quando ele desafiou as forças conservadoras ao decretar a duplicação do salário mínimo. No discurso em que fez o anúncio, Getúlio ainda espicaçou seus críticos ao saudar João Goulart, ex-ministro do Trabalho, que fora afastado justamente depois de tentar aprovar essa medida.
Na sequência, o presidente enfrentou um pedido de impeachment na Câmara dos Deputados e, mais grave, a intensificação dos ataques histriônicos de Carlos Lacerda, a voz mais audível da UDN (União Democrática Nacional), com direito a palanque numa das principais rádios do Distrito Federal, na qual reverberava os artigos virulentos que escrevia em seu jornal, a "Tribuna da Imprensa".
O calvário de Getúlio começou em 5 de agosto, quando Lacerda foi alvo de um atentado em que morreu o major da Aeronáutica Rubens Vaz, um dos jovens oficiais que voluntariamente faziam a segurança do jornalista. Ainda com um pé sangrando do tiro que o alvejou, Lacerda escreveu sobre Getúlio: "Ele é o responsável intelectual por esse crime".
As primeiras investigações identificaram que os tiros haviam sido disparados por um pistoleiro contratado por um integrante da guarda pessoal do presidente, que, para piorar, era compadre de Gregório Fortunato, responsável por sua segurança. Embora Getúlio não estivesse a par do plano do atentado, a conexão entre o assassino e o Palácio do Catete, a sede do governo, estava feita.
Nos dias seguintes, o noticiário foi dominado pelas investigações realizadas na Base Aérea do Galeão, e não nas instâncias normais da Justiça, uma vez que a vítima fatal pertencia à Aeronáutica. Os investigadores agiam com tamanha independência que a base passou a ser chamada de República do Galeão.
Getúlio previu o pior. Em 13 de agosto, escreveu o que parecia um bilhete de suicida. "Deixo à sanha dos meus inimigos o legado da minha morte", anotou à mão. O texto foi parar nas mãos de Alzira, que o interpelou. Getúlio desconversou, disse que aquilo era só "um desabafo".
A carta que estava na mesa era a renúncia exigida pela cúpula militar. Getúlio não tinha nada nas mãos para contrapor aos adversários. No dia 23, a "Última Hora", único jornal que o apoiava, deu na manchete uma declaração sua: "Só morto sairei do Catete!"
A promessa seria cumprida na manhã do dia seguinte, depois de uma noite sem dormir, quando fez, numa reunião com o ministério, uma última tentativa de reverter o desfecho. Derrotado, recolheu-se aos seus aposentos e, num gesto ensaiado havia muito tempo, apontou o revólver contra o coração.
Fonte : Instituto Humanitas Unisinos.

sábado, 23 de agosto de 2014

DESMATAMENTO : ILEGAL E DESNECESSÁRIO.

‘O poder público precisa parar essa fábrica insana de desmatamento ilegal e desnecessário’, entrevista com Paulo Barreto

Publicado em agosto 21, 2014 por 


desmatamento

Na semana em que publica uma série de textos sobre as eleições para o governo do Pará, o site Mídia e Desmatamento na Amazônia entrevistou o engenheiro florestal Paulo Barreto, pesquisador sênior do Instituto Homem e Meio Ambiente na Amazônia (Imazon), prestigiosa entidade não-governamental sediada em Belém (PA). O aproveitamento econômico das extensas áreas sem utilização econômica, a especulação e a regularização fundiária e o aumento do desmatamento em 2013 foram os principais tópicos abordados.
Existe uma grande área desmatada e ociosa no Pará, onde seria possível expandir a pecuária. O que é preciso para que essa área se torne produtiva?
A Embrapa e o Inpe estimaram que, em 2010, havia cerca de cinco milhões de hectares de pastos sujos e capoeiras, pasto com regeneração florestal, o que equivalia a um terço do total de pasto no Pará. Considerando apenas o potencial natural, somente uma parte desta área deveria ser dedicada à produção agropecuária, enquanto outra parte deveria voltar a ser floresta nativa. Essa parte que deveria ser floresta é constituída por áreas com baixo potencial agropecuário por motivos como relevo muito acidentado ou devido à inundação do solo. O fato de que o pasto está sujo mostra que já está ocorrendo regeneração natural da floresta. Assim, basta deixar regenerar, impedindo incêndios. Talvez cerca de 30% da área de pastos sujos esteja em áreas que deveriam voltar a ser floresta.
Na parte com melhor potencial agropecuário seria possível a produção pecuária, agrícola ou florestal. Em geral, é necessário melhorar o solo, incluindo a calagem (aplicação de calcário) e adubação. A produção nestas áreas pode ser lucrativa, mas é necessário investimento relativamente alto. Além disso, precisaria melhorar a infraestrutura, especialmente as estradas, pois é necessário trazer insumos como o adubo e pessoal especializado, pelo menos para treinar o pessoal local. Um impedimento para investir é a falta de documentos das terras. Sem, isso o crédito fica mais difícil por falta de garantia, além do que o próprio posseiro tem menos confiança em fazer grandes investimentos na área. Ele prefere apenas extrair os recursos do solo até eles se esgotarem. Finalmente, a área desmatada e mal usada é grande demais, o que torna inviável aproveitar tudo de uma vez. Não haveria demanda para tanta produção se toda a área fosse recuperada e faltaria gente treinada para aplicar as melhores práticas. Portanto, a recuperação tem que ser gradativa.
Ou seja, a pecuária na Amazônia precisa se modernizar, receber investimentos, mas boa parte das fazendas são fruto de um processo de apropriação ilegal de terras públicas. Como sair desse impasse?
Este é um nó complicado, mas os governantes têm que ter a coragem de desatá-lo. Para facilitar os investimentos e, portanto, aumentar a produção, é necessário documentar as terras. Porém, teria que regularizar as posses de forma que não estimulasse novas ocupações. Para isso, o governo deveria acelerar a regularização destes imóveis, mas sem subsídios – ou seja, o governo teria que cobrar o preço de mercado pelas terras em vez doá-las ou vendê-las por um preço abaixo do mercado, como tem feito. Enquanto não regulariza, o governo deveria cobrar um aluguel pelas áreas para evitar a continuação do subsídio que incentiva novas ocupações. Se o governo regularizar as terras de maneira subsidiada, continuará a corrida violenta e devastadora para ocupar e desmatar áreas em excesso na região. Como o problema é muito amplo, o governo deveria priorizar a regularização nos municípios que já reduziram o desmatamento e que têm uma grande parte já registrada noCadastro Ambiental Rural (CAR). Assim, além de resolver o problema fundiário, premiaria quem já demonstrou compromisso em melhorar a gestão ambiental.
Há várias iniciativas em curso no Pará que conciliam esforços de governo, prefeituras e terceiro setor para por fim ao desmatamento. Como tem reagido as entidades que representam setores econômicos que induzem o desmatamento no estado? Elas têm colaborado de fato, aderiram a esse esforço?
Uma parte do setor, incluindo produtores, parte da indústria e o varejo já entenderam que é inaceitável continuar desmatamento ilegalmente. Esse entendimento ocorreu devido pressões legais, como multas, embargos e confisco de gado, além de pressões do mercado, como boicotes e demandas por compromissos ambientais impulsionados por campanhas ambientalistas. Por isso, hoje há sindicatos rurais, frigoríficos e cadeias de supermercados envolvidas em projetos para melhorar a produção e evitar o desmatamento. Estas iniciativas contam com apoio de profissionais experientes em boas práticas agropecuárias e de restauração florestal. Ao mesmo tempo, uma parte do setor ainda se beneficia de práticas como o desmatamento para a apropriação de terras públicas, vulgarmente chamada degrilagem. Assim, esses agentes procuram dificultar a disseminação das boas práticas, tentando desacreditá-las e bloquear as pressões contra o desmatamento.
Como parte do controle do desmatamento, 61,27% dos imóveis rurais do Pará já aderiram ao CAR e, em tese devem, fazer a adequação ambiental segundo o novo Código Florestal. No entanto, o desmatamento no estado, em 2013, subiu 37% em relação a 2012. Por que isso ocorreu?
Em geral, o contexto ficou mais favorável ao desmatamento em toda a Amazônia, onde o desmatamento aumentou 28%. Primeiro, porque o preço de produtos agropecuários aumentou, o que torna a produção mais atrativa. Segundo, porque houve o enfraquecimento das regras ambientais. O Código Florestal novo anistiou parte do desmatamento ilegal, cerca de 29 milhões de hectares no Brasil, criando a sensação de que a lei ambiental no final das contas não vai pegar. O governo federal também reduziu unidades de conservação no Pará para atender a pressão de ocupantes ilegais e para facilitar a instalação de hidrelétricas no Tapajós. Infelizmente, ainda ocorre desmatamento em áreas já registradas no CAR mostrando que o governo estadual não está fiscalizando como deveria.
Finalmente, o acordo dos frigoríficos que se comprometeram a comprar apenas de áreas sem desmatamento ilegal cadastradas no CAR ainda é limitado. Recentemente, um comprador de gado declarou que é possível burlar o acordo, pois quem não está cadastrado vende por meio de uma fazenda cadastrada. Além disso, o acordo trata apenas das fazendas que vendem o boi gordo, ou seja pronto para o abate, diretamente para os frigoríficos. Mas, muitas destas fazendas de engorda compram bezerros e novilhos de outras, chamadas de fazendas de cria e recria. Os frigoríficos não controlam as fazendas de cria e recria. Assim, uma parte expressiva das fazendas pode desmatar ilegalmente e continuar vendendo, seja por meio de fraude ou porque estão livres do acordo pela carne legal. Portanto, os acordos devem ser ampliados e melhor implementados.
Em uma reportagem publicada há algumas semanas, você afirmou: “Não precisamos mais desmatar no Brasil, mas, para isso, o governo tem que ir além da fiscalização”. O que o governo federal deve fazer para ir além da fiscalização?
A fiscalização é essencial. Porém, é importante corrigir falhas gravíssimas que incentivam o desmatamento desnecessário, especialmente a especulação fundiária. A especulação é facilitada por regras que beneficiam quem descumpre a lei. Ainda existem muitas florestas na Amazônia que são terras públicas. Como o governo não toma conta destas áreas, muita gente ganha dinheiro tomando posse ilegalmente destas terras, seja para produzir ou para vender no futuro. A forma mais clara de demonstrar que tem a posse, é desmatar para evitar que outros ocupem.
A ocupação continua sendo atrativa por dois motivos. Embora a ocupação seja originalmente ilegal, o poder público é pressionado pelos posseiros (incluindo aqueles que são políticos) e aprova regras que permitem regularizar as posses ilegais até uma certa data. Atualmente, a data é dezembro de 2008. Além do mais, a regularização geralmente prevê facilidades, como a doação de terras ou a venda por preços abaixo do mercado. Quando o governo tenta retomar estas posses, os processos tendem a ser muito longos e, pior ainda, há juízes que dizem que o posseiro só pode ser removido se receber uma indenização pelas benfeitorias. Ironicamente, o principal item considerado como benfeitoria é a área desmatada ilegalmente.
Portanto, o poder público tem que parar essa fábrica insana de desmatamento ilegal e desnecessário. Para isso, tem que parar de legalizar posse ilegal; tem que parar de doar e vender terra por preço abaixo do mercado e tem que parar de considerar desmatamento ilegal como benfeitoria.
Outra forma de desestimular a especulação é cobrar efetivamente o Imposto sobre a Propriedade Territorial RuralO ITR estabelece alíquotas maiores para imóveis com baixo grau de utilização para evitar que as pessoas ocupem grandes áreas sem produzir. Entretanto, um técnico da Receita Federal estimou que, em 2002, a arrecadação atingiu apenas 6% do valor potencial no Brasil. O Ministério do Meio Ambiente deveria convencer a Casa Civil a convocar os outros setores do governo responsáveis pelas políticas fundiárias e fiscais a ajudarem no combate ao desmatamento.
EcoDebate, 21/08/2014

TRATAMENTO FÍSICO-QUÍMICOS DE ÁGUA.

Tratamentos físico-químicos de água, artigo de Roberto Naime

Publicado em agosto 21, 2014 por 
saneamento
Tanques usados nas quatro fases do processo de tratamento de água da Estação do Guaraú, em São Paulo: coagulação, floculação, decantação e filtração (Foto: Anne Vigna/A Pública)

[EcoDebate] Os tratamentos físico-químicos de água são divididos em uma série de procedimentos, denominados de processos unitários, cujos principais podem ser assim resumidos:
1. Peneiramento: tem por finalidade remover os materiais sólidos suspensos nas águas residuárias, em geral os materiais com granulometrias superiores a 0,25mm; existem peneiras estáticas onde os efluentes fluem na parte superior, passando por uma tela onde os materiais grosseiros são recolhidos e seguindo para as demais fases do tratamento; outro tipo são as peneiras rotativas onde o efluente passa por um defletor, alcança a peneira, atravessa por fendas, sendo recolhido na parte inferior, sendo os materiais sólidos removidos por uma lâmina raspadora e enviados para um vaso coletor;
2. Resfriamento: destina-se a resfriar os efluentes para não prejudicar os processos de floculação ou solubilização posteriores, pois efluentes como os da indústria têxtil são muito quentes; outro motivo é a legislação federal que determina limite máximo de 40ºC para lançamentos de efluentes em corpos de água. Para o resfriamento de água são utilizados tanques de equalização para pequenas bateladas e torres de resfriamento e pulverização de ar para quantidades maiores;
3. Gradeamento: em geral se associam ao peneiramento, mas são refinamentos na remoção de sólidos que visam impedir que materiais sólidos produzam danos em sistemas de bombas, registros, válvulas de retenção, tubulações e outros equipamentos; são empregadas grades simples, estes dimensionamentos podem ser encontrados em Nunes, 1993 e em bibliografias clássicas como Imhoff e Imhoff, 1986;
4. Desaneração: as caixas de retenção de areia tem como objetivo principal reter as substâncias inertes, como areias e sólidos minerais sedimentáveis, originários de águas residuárias, que provem da lavagem de frutas, pisos ou esgotos sanitários. Por exemplo; é muito importante a remoção destas partículas sólidas para a proteção de bombas, válvulas de retenção, registros e canalizações, evitando entupimentos e abrasão;
5. Retenção de Gordura: as caixas retentoras de gordura são destinadas a reterem os materiais que sofrem flotação natural e são muito utilizadas em estações de tratamento de águas residuárias de frigoríficos, curtumes, laticínios, matadouros, etc. Com frequência, em matadouros e curtumes a gordura recuperada tem valor comercial. A caixa deve permitir manutenção do líquido em condições de estabilidade para que as partículas a serem removidas percorram desde o fundo até a superfície líquida, em geral em tempo de detenção de 3 a 5 minutos (Nunes, 1993);
6. Retenção de Óleo: são utilizadas caixas de separação água/óleo, cuja principal função é a remoção de óleo das águas residuárias provenientes de postos de lavagem e lubrificação de veículos, oficinas mecânicas, etc. Utilizam o mesmo princípio das caixas retentoras de gordura, pois o óleo tem densidade menor que a água e tende a flotar, permanecendo na superfície líquida e sendo removido;
7. Equalização: é a denominação de um processo que tem como principal finalidade regular a vazão do efluente que está sendo tratado, pois nos restantes processos o volume deve ser constante com o efluente homogeneizado e tornando uniformes os valores de pH, temperatura, turbidez, sólidos, DBO e DQO, cor, etc. Para obtenção da equalização deve ser mantido um volume mínimo de tanque, denominado profundidade “morta”, não inferior a 30% do volume útil do tanque. Desta forma estão protegidas bombas, fazendo com que não funcionem a seco; o nível mínimo é controlado automaticamente com a instalação de boia conectada com a bomba, que desliga quando o nível desejado for atingido;
8. Correção do pH: a correção de pH deve ser realizada para manutenção da eficiência dos processos de tratamento; efluentes têxteis são alcalinos e necessitam adição de acidificantes, como ácido sulfúrico e gás carbônico, para evitar que águas com elevada dureza gerem incrustações e deposições em canalizações causando danos às estações. Ao contrário, efluentes com pH ácido devem sofrer adição de cal ou outro agente basificante para manutenção da eficácia dos procedimentos;
9. Mistura Rápida: as adições de coagulante para mistura junto aos efluentes objetivando o tratamento, provocam hidrolisação, que é a reação com os álcalis, formando hidróxidos que são denominados “gel” produzindo íons positivos na solução. Estes corpos poderão provocar desestabilização das cargas negativas dos coloides, reduzindo os materiais ao ponto isoelétrico e permitindo com a aglomeração das partículas, a formação dos flocos que poderão ser separados através de decantação, flotação e filtração. Para que a velocidade da mistura seja rápida são utilizados misturadores mecânicos ou hidráulicos, que fazem a dispersão dos coagulantes na massa líquida com energias específica suficiente para dispersão total (mistura lenta).
10. Floculação: é a fase mais importante do tratamento, com a remoção dos poluentes, mas é necessário que todos os processos unitários sejam eficientes para se obter bons resultados nesta fase. Após a coagulação no tanque de mistura rápida, o efluente passará para a unidade de floculação ou mistura lenta, com baixos gradientes de velocidade. Esse procedimento objetiva possibilitar a formação de coágulos maiores, denominados flocos, que ocorrem com a colisão das partículas, de forma que possam aumentar o peso suficientemente para haver boa sedimentação e remoção por decantação;
11. Decantação: quando a quantidade e a densidade de flocos registrar quantidade de sólidos sedimentáveis suficientes, as impurezas devem ser recolhidas por decantação, sendo removidas dos efluentes líquidos. Os decantadores são dimensionados em função das taxas de escoamento, conforme o tipo e as características dos efluentes, geralmente tem formatos cônicos redondos ou piramidais invertidos;
12. Flotação: é o processo de separação de materiais de peso específico diferente, os mais levem flutuam; frequentemente são adicionadas substâncias como sulfato de alumínio, cloreto férrico e polieletrólito, para aumentar a floculação e melhorar a eficiência do tratamento;
13. Adensamento do Lodo: o material sólido resultante do tratamento físico-químico da água denomina-se lodo; seria o mesmo que dissolver terra argilosa num copo de água e após deixar a terra argilosa decantar com a água parada, isto é o lodo. No caso do lodo resultante do fundo dos decantadores, poderão ser encontradas concentrações de partículas sólidas, que se forem expressivas, poderão necessitar de unidades de adensamento, que eliminam o excesso de água, aumentando a concentração de sólidos. Atualmente o lodo das ETEs e ETAs é destinado para valas de reservação e acondicionamento definitivo de resíduos de classes I ou II;
Processos com tratamentos químicos específicos já foram desenvolvidos para recuperação de Cromo em efluentes de curtumes, oxidação de sulfetos, oxidação de cianetos, redução do cromo hexavalente, neutralização de efluentes ácidos ou alcalinos e remoção de metais pesados.
Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.
EcoDebate, 21/08/2014