segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

SUPER-RICOS FICAM COM 82% DA RIQUEZA GERADA NO MUNDO








Metade mais pobre da população mundial não ficou com nada do que foi gerado no ano passado, diz pesquisa da Oxfam.
Cerca de 7 milhões de pessoas que compõem o grupo dos 1% mais ricos do mundo ficaram com 82% de toda riqueza global gerada em 2017, aponta um estudo divulgado nesta segunda-feira (22) pela organização não-governamental britânica Oxfam antes do Fórum Econômico Mundial, que ocorre em Davos, na Suíça.
A reportagem é de Helton Simões Gomes, publicada por G1, 22-01-2018.
A metade mais pobre da população mundial, por outro lado, não obteve nada do que foi gerado no ano passado. Esse grupo reúne 3,7 bilhões de pessoas, mostra o relatório “Recompensem o trabalho, não a riqueza”.
Para fazer seus levantamentos, a ONG britânica de combate à pobreza usa dados sobre bilionários da revista "Forbes" e informações sobre a riqueza em escala global de relatórios do banco Credit Suisse.

1 bilionário a cada 2 dias

Entre os mais ricos do mundo, há um grupo ainda mais VIP, formado apenas por bilionários. Segundo o estudo, o número de bilionários registrou o maior crescimento histórico. Entre março de 2016 e março de 2017, o mundo ganhou um novo bilionário a cada dois dias e o grupo somou 2.043 pessoas. A cada 10 deles, nove são homens, ao passo que, entre os mais pobres, a maioria é mulher.
Oxfam atribuiu o crescimento isso a dois fatores:
  • A variação positiva das principais bolsas de valores do mundo eleva o patrimônio dessas pessoas, que possuem muitos ativos financeiros. “Eles estão mais sujeitos ao sabor das variações na Bolsa”, explica Rafael Georges, coordenador de campanhas da Oxfam.
  • A quantidade de distribuição de lucros e dividendos também cresceu e ajudou a levar o patrimônio de ricos ao patamar bilionário. Mas isso, diz Georges, foi feito às custas da precarização de relações trabalhistas. O movimento, conduzido entre 2008, início da crise global, e 2012, foi realizado por cerca de 100 países. Em 2017, chegou atrasado ao Brasil, que colocou sua reforma em prática somente em novembro.

Renda

No ano passado, a riqueza da elite global aumentou em US$ 762 bilhões, quantia suficiente, segundo a Oxfam, para acabar com a pobreza extrema mais de sete vezes. Enquanto isso, a metade mais pobre da população mundial vive com renda diária entre US$ 2 a US$ 10.
De acordo com cálculos da entidade britânica, dois terços da riqueza dos bilionários é oriunda de heranças, rendimentos vindos da atuação empresarial em setores monopolizados e de vantagens adquiridas por meio de relações com os governos.

Super-ricos x super-pobres

Citando dados do banco Credit Suisse, o estudo mostra que a distância entre os muito ricos e os muito pobres continua aumentado. E, diminuí-la, exigiria um crescimento da economia que é insustentável para o meio ambiente.
Entre 1980 e 2016, o grupo 1% mais rico ficou com 27% do crescimento da renda global. No mesmo período, a metade mais pobre do mundo ficou com 13% da riqueza gerada.
Caso esse nível de desigualdade se mantenha, fazer todos passarem a ganhar US$ 5 a mais por dia necessitaria que a economia crescesse 175 vezes.

Bilionários x super-pobres

Oxfam revisou a quantidade de bilionários que detém a mesma renda de metade da população mais pobre do mundo. O relatório anterior aponta que, em 2016, só oito bilionários detinham renda equivalente à metade mais pobre do mundo.
Essa comparação é feita com base em informação do Credit Suisse, que alterou a metodologia de cálculo de patrimônio no fim do ano passado. A reavaliação constatou um aumento substancial nas posses dos mais pobres em países como ChinaÍndia e Rússia. Como são muito populosos, o número de bilionários cuja renda em 2016 equivalia à dos mais pobres ficou em 61.
Em 2017, uma maior concentração de renda no topo e um aperto mais intenso na base econômica levaram o número para cima: 42 bilionários concentram a mesma quantidade de dinheiro da metade mais pobre da população global.
Fonte : Instituto Humanitas Unisinos

FEBRE AMARELA : ENTENDA UM POUCO MAIS.

Especialistas da Fiocruz explicam vacina da febre amarela e circulação do vírus


ABr
Diante do avanço da febre amarela no país, com aumento do número de casos confirmados e de mortes, a preocupação com a doença tem aumentado e levado a uma corrida pela vacina em alguns estados. A situação levou inclusive o governo a fracionar a vacina contra a febre amarela em algumas regiões e antecipar a campanha de imunização de 19 de fevereiro para 25 de janeiro nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Especialistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) ouvidos pela Agência Brasil explicam as mudanças no protocolo de vacinação contra a doença e como ocorre a circulação do vírus no país:
Prazo da vacina
O assessor científico sênior de Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-manguinhos)/Fiocruz, Akira Homma, destaca que em 2013 a Organização Mundial de Saúde (OMS) mudou a recomendação de tomar a vacina da febre amarela a cada dez anos para uma única dose na vida. A decisão foi anunciada após uma reunião do grupo específico de vacinas da organização.
“Analisando os dados de duração de imunidade que dispunham de todo o mundo, especialmente na África, chegaram à conclusão que uma dose é o suficiente para imunizar a pessoa para a vida inteira. E essa recomendação também foi endossada pela OMS e pela Organização Pan-Americana de Saúde [Opas]. Depois, o Ministério da Saúde também adotou esse critério. É resultado de uma análise e inúmeros estudos no mundo que mostram que uma dose é o suficiente para a vida inteira”, explicou.
Cerca de 3,5 milhões de doses de vacina contra a febre amarela foram enviadas ao Brasil pelo Grupo de Coordenação Internacional para Fornecimento de Vacinas
De acordo com a Fiocruz, estudos comprovam a eficácia da dose fracionada da vacina. Foto: OMS/ONU/Divulgação 
 
Na época da decisão, segundo Homma, também havia um desabastecimento da vacina contra a febre amarela no continente africano, como ocorre atualmente em algumas regiões do Brasil. “Então, em vez de imunizar uma pessoa três ou quatro vezes, o grupo [da OMS] decidiu que era melhor imunizar a população inteira uma vez. Agora vem aparecendo a mesma situação aqui no Brasil, então o ministério [da Saúde] resolveu seguir essa recomendação da OMS”.
Após a determinação, a Fiocruz iniciou estudos clínicos para confirmar a imunização plena contra febre amarela com apenas uma dose integral da vacina. Os resultados, no entanto, devem ser conhecidos a partir de 2020.
Fracionamento
Quanto ao fracionamento das doses da vacina contra a febre amarela – medida adotada por estados como São Paulo e Rio Janeiro para ampliar a imunização –, o cientista explica a medida é emergencial, tomada quando é necessário vacinar uma população grande em um curto espaço de tempo. No caso do Brasil, o uso da dose fracionada foi decidido diante da expansão de novas áreas de risco da febre amarela nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.
“É uma área que tem 20 milhões de habitantes e é preciso vacinar todo mundo num prazo muito curto”, avalia.
Segundo ele, o método já foi usado anteriormente, na África, em 2016, quando houve uma epidemia de febre amarela no continente que deixou os países sem doses suficientes. Homma destaca que estudos conduzidos no Brasil pela Fiocruz há oito anos mostraram que a dose reduzida da vacina oferece proteção “no mesmo nível da dose total”.
Rio de Janeiro - Postos de saúde amanhecem com filas para a vacinação contra a febre amarela. ( Tânia Rêgo/Agência Brasil)
Postos de saúde amanhecem com filas para a vacinação contra a febre amarela no Rio de Janeiro. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
 
Cada frasco da vacina contra febre amarela contém cinco doses integrais, com 0,5 mililitro (ml) cada. Na dose fracionada, é aplicado 0,1 mililitro em cada pessoa.
“Quer dizer, com um frasco de cinco doses nós podemos vacinar 25 pessoas. O fracionamento é feito na hora na aplicação, essa é a vantagem. O processo de produção é o mesmo, toda a vacina é igualzinha, você faz a reconstituição da vacina da mesma forma, não muda nada. Todos os operadores já sabem fazer isso há anos. Só que, em vez de usar 0,5 ml, que é a dose plena, usando uma seringa especial vai permitir retirar 0,1ml de uma forma muito precisa”.
Restrições à vacina
 De acordo com o especialista da Fiocruz, grávidas só devem se vacinar contra a febre amarela se estiverem em uma zona endêmica, de alta circulação de vírus, e se houver recomendação médica, já que a vacina é feita com vírus vivo atenuado e pode atingir o feto. Crianças menores de 9 meses também não devem ser vacinadas, assim como idosos. Entre 9 meses e 2 anos, será aplicada a dose integral, bem em pessoas que viajarão para países que exigem a certificação internacional da vacina.
A imunização também não é recomendada para pessoas com doenças que comprometem o sistema imunológico, como aids, em tratamento quimioterápico, com doença hematológica ou que foi submetida a transplante de células-tronco.
O Laboratório de Bio-Manguinhos é o único produtor de vacina da febre amarela da América Latina e um dos quatro no mundo qualificados pela OMS. No ano passado, a produção na unidade foi de 64 milhões de doses, a pedido do Ministério da Saúde. Em anos normais, são feitas de 15 a 20 milhões de doses. Pare este ano, o ministério já solicitou cerca de 50 milhões de doses, segundo Homma.
Ciclos do vírus
O coordenador de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência da Fiocruz, Rivaldo Venâncio, explica que todos os casos registrados no Brasil atualmente são do ciclo silvestre da doença, quando o vírus circula na natureza, entre mosquitos que vivem nas copas das árvores, dos gêneros Sabethes e, principalmente, Haemagogus.
“Nas áreas de mata, o mosquito transita o vírus com primatas não humanos. Acidentalmente o homem pode ser infectado quanto adentra esses ciclos e é picado por um mosquito desses que normalmente se alimenta desses macacos. O que vemos hoje no Brasil é esse ciclo silvestre, são pessoas que acidentalmente são infectadas porque adentraram no ciclo silvestre”.
De acordo com a secretaria de Saúde mineira, 65 municípios já confirmaram mortes de macacos por febre amarela (Arquivo/Fábio Massalli)
Macacos também são infectados pelo vírus, mas não transmitem a doença. Foto: Fábio Massalli/Arquivo/Agência Brasil 
 
Na febre amarela urbana, sem registros no Brasil desde 1942, os infectados são os humanos e os vetores são os mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus. No mundo, o registro mais recente de grande número de casos de febre amarela urbana ocorreu em Angola, em 2016, quando morreram mais de 350 pessoas.
Segundo Rivaldo Venâncio, por causa da proximidade de algumas cidades com regiões de Mata Atlântica, com zonas de floresta, há risco de reintrodução do vírus da febre amarela em áreas urbanas. O especialista explica que os macacos não transmitem a doença e que são aliados na detecção da circulação do vírus porque servem de alerta.
“Os macacos que adoecem infectados pelo vírus da febre amarela servem como uma sirene para os epidemiologistas e autoridades sanitárias saberem que naquela região está circulando o vírus. Os macacos são nossos amigos, eles, diretamente, não infectam o ser humano em hipótese alguma. No ciclo urbano também, o humano não transmite diretamente para outro, é necessário o mosquito transmissor”.
Surtos
Segundo Venâncio, surtos de febre amarela costumam se repetir a cada oito ou dez anos e uma das hipóteses é que os ciclos estejam relacionadas a mudanças no meio ambiente. “Alguns pesquisadores apontam a influência da ampliação das fronteiras agrícolas do país, onde passamos a cultivar soja e outras coisas, por exemplo, em Tocantins e no interior do Nordeste, Centro-Oeste, que estaria forçando a movimentação dos primatas e com eles os mosquitos que deles se alimentam. Outros falam que, para além da ampliação da fronteira agrícola, o uso do maquinário, presença humana e uso de agrotóxicos também estaria forçando essa movimentação. Outros pesquisadores falam nas alterações climáticas, dentre as quais uma certa mudança no padrão das chuvas e de elevação de temperaturas, o chamado aquecimento global”, lista.
Segundo o coordenador da Fiocruz, pesquisas também investigam a ligação entre o avanço atual da febre amarela no país e o rompimento Barragem de Fundão, da mineradora Samarco, em novembro de 2015, em Mariana (MG), que liberou cerca de 60 milhões de metros cúbicos de rejeito no Rio Doce.
Sintomas e transmissão
Causada por vírus e transmitida por vetores, a febre amarela é uma doença infecciosa grave. Os sintomas aparecem de forma repentina, com febre alta, calafrios, cansaço, dor de cabeça, dor muscular, náuseas e vômitos por cerca de três dias. Na forma mais grave da doença pode ocorrer insuficiências hepática e renal, icterícia (olhos e pele amarelados), hemorragia e cansaço intenso.
De acordo com a OMS, há registros da doença em 47 países das Américas do Sul e Central e da África. A transmissão é feita por mosquitos em áreas urbanas ou silvestres. Em áreas florestais, o vetor é principalmente o mosquito Haemagogus e no meio urbano a febre amarela é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, o mesmo da dengue.
Ao ser picada por um mosquito infectado e contrair o vírus, a pessoa pode se tornar fonte de infecção em locais com a presença dos mosquitos vetores, já que a doença não é transmitida diretamente de uma pessoa para outra. O vírus da febre amarela também atinge outros vertebrados, como macacos, que podem desenvolver a forma silvestre da doença sem apresentar sintomas, mas com carga viral suficiente para infectar mosquitos
Por Akemi Nitahara, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/01/2018

O ANO DE 2017 FOI O TERCEIRO MAIS QUENTE DO ANTROPOCENO

O ano de 2017 foi o terceiro mais quente do Antropoceno

ano de 2017 foi o terceiro mais quente desde o início dos registros em 1880
[EcoDebate] O ano de 2017 foi o terceiro mais quente, desde o início da série histórica, dos registros da temperatura da superfície do Planeta, que começou em 1880. Muitas pessoas falaram do frio extremo que aconteceu na costa leste dos EUA e em outros lugares do mundo como contestação do aquecimento global. Mas no mesmo período a costa oeste dos EUA estava batendo recordes de temperaturas elevadas, assim como Sydney, na Austrália e vários outros lugares do globo.
O fato é que os quatro anos mais quentes desde o início do Antropoceno (época em que os humanos se transformaram em uma força global de desequilíbrio climático e destruição da vida na Terra) aconteceram nos últimos quatro anos, sendo que em 2014 o aumento da temperatura foi de 0,74º Celsius, em relação à média do século XX, 2015 foi de 0,90º C, 2016 de 0,94º C e 2017 foi de 0,84º C. O quinto ano mais quente foi 2010 com 0,70º C e o ano mais quente do século XX foi 1998, com 0,63º C, conforme pode ser visto no gráfico acima da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA na sigla em inglês).
Quando se considera como base o período pré-industrial a medição do aquecimento mostra um número ainda mais preocupante. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), a temperatura média global da superfície em 2017 foi de aproximadamente 1,1º Celsius acima da era pré-industrial. A OMM usa o período 1880-1900 como período de referência para as condições pré-industriais. O gráfico acima mostra que a temperatura média de 1880 a 1900 estava cerca de 0,25º C abaixo da média do século XX.
Isto faz com que a temperatura global da atual década esteja pouco mais de 1º C acima do nível do período pré-industrial. Dezesseis dos dezessete anos mais quentes do Antropoceno estão no século XXI (a única exceção é 1998). Nota-se que o aquecimento global se acelerou nas últimas 5 décadas. Entre 1970 e 2017 a variação média por década foi de 0,18%. Neste ritmo, o limite de 1,5º C estabelecido pelo Acordo de Paris será ultrapassado antes de 2040 e o limite de 2º C será ultrapassado antes de 2070. As consequências podem ser desastrosas e catastróficas.
Outra coisa que chama a atenção no dado de 2017 é que a temperatura elevada ocorreu na ausência do fenômeno El Niño. Desta forma, considerando os anos sem El Niño, o ano de 2017 foi o mais quente da série histórica.
O gráfico abaixo mostra as tendências do aquecimento para cada tipo de ano, segundo os fenômenos – La Niña, El Niño e neutro. A tendência global de aquecimento da superfície entre 1964 e 2017 é de 0,17-0,18º C por década. Artigo de Dana Nuccitelli, no jornal The Guardian (02/01/2018) mostra que as condições neutras de El Niño e o nível de atividade solar em 1972 foram bastante semelhantes aos de 2017. Entretanto, 45 anos depois, o ano passado foi 0,9º C mais quente do que 1972.
el nino/la nina global surface temperature influence
O aquecimento global é a principal ameaça ao avanço civilizacional e também à biodiversidade do Planeta. Quanto mais subirem as temperaturas maiores serão os efeitos negativos sobre o bem-estar humano e não humano. Mas mesmo sabendo que os problemas serão maiores no fututo, isto não quer dizer que os danos já não ocorram no presente.
Nos Estados Unidos (EUA), no ano passado, houve 16 desastres climáticos com perdas individuais superiores a US$ 1 bilhão, segundo a NOAA. No total, os custos foram de aproximadamente US$ 306 bilhões. O último ano com desastres tão caros nos EUA foi 2005, com perdas de US$ 215 bilhões (em grande parte devido aos furacões Katrina, Wilma e Rita). Os desastres mais caros de 2017 foram a temporada de incêndios no oeste, com custos totais de US $ 18 bilhões; o furacão Harvey que teve custos totais de US $ 125 bilhões; os furacões Maria e Irma tiveram custos totais de US$ 90 bilhões e US$ 50 bilhões, respectivamente. Diversos outros países tiveram grandes prejuízos com os desastres climáticos em 2017.
Todavia, os danos do aquecimento global tentem a crescer exponencialmente nas próximas décadas. Por exemplo, mais de um quarto da superfície terrestre da Terra se tornará “significativamente” mais seca na medida em que a temperatura se aproximar de 2º C. Isto terá um grande impacto sobre a produção de comida e sobre a segurança alimentar. A acidificação dos oceanos poderá reduzir drasticamente a vida marinha já sobrecarregada pela sobrepesca e a poluição.
O aumento da temperatura vai tornar mais críticas as ondas letais de calor, provocando muitas mortes, especialmente nas áreas mais úmidas. O corpo do ser humano e dos mamíferos possuem limites para suportar o calor intenso. Até os aviões não podem voar com temperaturas muito altas e o ar rarefeito. A saúde da população pode ainda ser afetada com doenças, como a febre amarela, a dengue, o câncer, a malária e a esquistossomose, etc. Diversas regiões do Planeta (em especial nos trópicos) podem virar áreas inabitáveis.
O aquecimento também provoca o degelo dos polos, da Groenlândia e dos glaciares, elevando o nível dos oceanos, o que ameaça mais de 2 bilhões de pessoas que vivem em áreas costeiras de até 2 metros em relação ao nível médio do mar. Áreas urbanas e agrícolas podem ficar debaixo da água salgada, provocando destruição, fome e grande número de refugiados do clima.
No novo cenário climático, deve ocorrer com mais frequência os fenômenos extremos, como grandes secas, grandes tempestades e a ocorrência de furações, tufões e ciclones. O exemplo de Porto Rico, que sofreu danos irreparáveis em 2017, pode servir de alerta para outros países que estão menosprezando os efeitos do aquecimento global.
Os últimos 4 anos foram os mais quentes do Antropoceno e o ano de 2017 foi o mais quente sem a presença do El Niño. O mundo continua queimando combustíveis fósseis e liberando metano na agropecuária. Continua também desmatando e destruindo os ecossistemas. Desta forma, cresce a concentração de gases de efeito estufa e aumenta o nível de CO2 na atmosfera, que, em 2017, foi de 406,53 partes por milhão (ppm), e está aumentando 2,5 ppm ao ano. O nível seguro é 350 ppm.
Se este quadro não começar a ser revertido nos próximos 3 anos, o colapso ambiental pode se tornar inevitável. No longo prazo, pode ser o apocalipse para a biodiversidade e para a humanidade.
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/01/2018

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

FEBRE AMARELA : DOSE FRACIONADA DA VACINA

Febre amarela: dose fracionada da vacina imuniza por oito anos diz pesquisa do Bio-Manguinhos/Fiocruz


Por Pamela Lang (Agência Fiocruz de Notícias)
A estratégia anunciada pelo Ministério da Saúde (MS), na última terça-feira (9/1), de fracionar a vacina de febre amarela para três estados brasileiros teve como base um estudo da Fiocruz, realizado pelo seu Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz), que comprova que 1/5 da dose da vacina gera uma proteção equivalente à da dose padrão por oito anos.
A pesquisa com doses fracionadas da vacina de febre amarela teve início em 2009, com a aplicação de diferentes dosagens em 900 voluntários de um estudo clínico (foto: Bio-Manguinhos/Fiocruz)
A pesquisa com doses fracionadas da vacina de febre amarela teve início em 2009, com a aplicação de diferentes dosagens em 900 voluntários de um estudo clínico (foto: Bio-Manguinhos/Fiocruz)

Durante o anúncio do ministro da Saúde, Ricardo Barros, a presidente da Fundação, Nísia Trindade Lima, reforçou a importância estratégica da Fundação nas áreas de produção, pesquisa e vigilância. “A Fiocruz tem o papel não apenas de produzir as vacinas de febre amarela, mas também de produzir o conhecimento científico necessário para tomadas de decisão e atuar em estratégias de vigilância, que são fundamentais para o debate de novos estudos”, explicou.
A pesquisa com doses fracionadas da vacina de febre amarela teve início em 2009, com a aplicação de diferentes dosagens em 900 voluntários de um estudo clínico. A iniciativa teve financiamento da organização britânica Wellcome Trust e apoio da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Em 2017, os mesmos voluntários foram chamados para participar de uma segunda etapa da pesquisa que avaliou a soropositividade, ou seja, a imunidade que eles ainda tinham após o período de oito anos. Da amostra inicial, foram analisados dados de 319 participantes.
Os resultados apontaram que mesmo com a aplicação da dose fracionada em 1/5 da dose padrão, a vacina de febre amarela de Bio-Manguinhos/Fiocruz ainda sustentava a proteção similar à inicial. A dose fracionada em 1/5 não é, portanto, mais fraca que a dose padrão. Isso acontece porque, apesar de fracionada, a dose ainda induz o organismo a produzir anticorpos em níveis necessários à proteção contra a doença.
“Verificamos que a potência da vacina excede o mínimo suficiente para induzir a produção de anticorpos no organismo necessários à imunização. Com uma potência mais baixa, como uma fração de 1/5, por exemplo, conseguimos obter o mesmo efeito”, explica um dos autores do estudo e pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), Luíz Antônio Camacho.
Outro ponto importante para entender a segurança do uso da dose fracionada está relacionado à concentração viral da dose padrão. A OMS exige uma concentração mínima de 1 mil UI (unidades internacionais) para que a vacina seja considerada eficaz. A vacina padrão de Bio-Manguinhos tem uma concentração de cerca de 27 mil UI. Ou seja, quando se fala em fracionar a potência da vacina em 1/5, trata-se de uma dose com concentração viral ainda cinco vezes maior do que a mínima exigida pela OMS.
“O produtor precisa fazer uma vacina com concentração maior do que a exigida pela OMS, porque distribuímos essa vacina a lugares distantes, em que, muitas vezes, ela vai ser transportada em condições adversas, quando, por exemplo, ela tem que ser transportada de barco para o interior da Amazônia. Temos que garantir que, mesmo com algum nível de perda, ela chegará ao final de sua validade, de três anos, com uma concentração viral acima da exigida para imunização. O lote a ser fracionado é recente e será distribuído em centros urbanos. Há dados mostrando que a vacina tem boa estabilidade quando estocada, transportada e conservada nas condições adequadas da maioria das unidades de saúde. Nosso estudo ainda prevê uma margem maior. Verificamos que fracionando a dose em até 1/9, as pessoas ainda estão imunizadas após oito anos. Ou seja, quando tenho 1/5 da dose, estamos bem acima do nível necessário para uma imunização segura, segundo os parâmetros da OMS”, explica Camacho.
A primeira etapa desse estudo, em 2009, já foi capaz de dar suporte à estratégia de uso de doses fracionadas, adotada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), para o controle da epidemia na República Democrática do Congo. Na época, as vacinas utilizadas para esse fracionamento também foram produzidas pela Fiocruz. Apesar de haver quatro laboratórios no mundo certificados para a produção de vacinas de febre amarela, vale destacar que a OMS autorizou o fracionamento apenas de vacinas fabricadas e distribuídas por Bio-Manguinhos/Fiocruz, o maior fornecedor do mundo.
Segundo a presidente da Fiocruz, os estudos não param. “O que demonstramos até agora é que nesse período de tempo é absolutamente seguro fracionar a dose da vacina. Quando se fala em oito anos, não quer dizer que a vacina só dura oito anos. Quer dizer que está comprovado que, após oito anos, esse grupo manteve a soropositividade, ou seja, a proteção contra doença. Mas os estudos seguirão e poderemos continuar avaliando o tempo de duração da imunidade dessas pessoas”, afirma Nísia Trindade Lima.
Vacinação
Gestantes, crianças de nove meses a menores de dois anos e pessoas com condições clínicas especiais não são indicados para receber a dose fracionada, por falta de estudos específicos, e receberão, assim, a dose padrão.
“A dose fracionada é para uso emergencial, quando precisamos vacinar um grande número de pessoas num curto espaço de tempo. A vacina é a mesma que vem sendo usada na rotina e em campanhas de vacinação. Em vez de usar 0,5 ml, usa-se 0,1ml. No futuro, com o estudo de dose resposta em crianças menores de dois anos, se observarmos os mesmos resultados que observamos em adultos, poderemos mudar, junto à Anvisa, a potência da vacina. Mas enquanto não fazemos esse estudo, não podemos alterar a formulação da vacina. E ainda vamos levar alguns anos para mostrar que os resultados são os mesmos para todas as faixas etárias”, explica o assessor científico de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Akira Homma.
Em caso de viagens internacionais, o viajante também deve tomar a dose padrão, e apresentar o comprovante de viagem no ato da vacinação.
A vacina, com dose padrão ou fracionada, é contraindicada para pacientes em tratamento de câncer, pessoas com imunossupressão e com reação alérgica grave à proteína do ovo.
A campanha do Ministério da Saúde terá duração de 15 dias e mobilizará a população do Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia. Em São Paulo, a vacinação será realizada em 52 municípios. A meta é vacinar 6,3 milhões de pessoas entre 3 e 24 de fevereiro. No Rio de Janeiro, a vacinação será realizada em 15 municípios, com meta de 10 milhões de pessoas vacinadas. Na Bahia, a vacinação será realizada em oito municípios, com meta de 3,3 milhões de imunizados. O período de vacinação dos dois últimos estados é entre 19 de fevereiro a 9 de março.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/01/2018

QUEIMADAS : IMPACTO NO CLIMA E NA SAÚDE.

Estudos analisam as queimadas e seu impacto no clima e na saúde


Por Graça Portela (Icict/Fiocruz)
O ano de 2004 ficou marcado pelos 270.295 focos de incêndio em todo o país – o ápice do número de queimadas no século 21. Na época, apenas no bioma Amazônia, que ocupa cerca de 40% do território nacional e onde estão os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima, e também partes do Maranhão, Tocantins e Mato Grosso, foram 145.251 focos.
Em 2017, foram 275.120 focos de incêndio em todo o território nacional, conforme dados do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), um aumento de 1,78%. O bioma Amazônia, no entanto, teve uma pequena redução, com 132.296 focos. Contudo, não há muito o que comemorar – segundo reportagem do jornal O Globo, “o fogo aumentou em áreas de floresta natural, onde não chegava antes”, afirma Alberto Setzer, responsável pelo monitoramento de queimadas do Inpe. Ao lado, os dados das queimadas no Brasil e no bioma Amazônia, fornecidos pelo Inpe.
Em Rondônia, onde está situado o sítio sentinela do Observatório Nacional de Clima e Saúde, os focos de fogo apresentam também um número elevado. No gráfico abaixo, é possível verificar o crescimento desses focos no período entre 2012 e 2017:
Porto Velho
O sítio sentinela está localizado na capital rondonense, em Porto Velho, uma das áreas mais afetadas por conta das queimadas na região amazônica. Ele é coordenado pela pesquisadora associada do Observatório, Sandra Hacon, da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) e o pesquisador Christovam Barcellos, do Instituto de Comunicação e Informalão Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz).
Segundo a pesquisadora Hacon, desde o Programa de Integração Nacional, na década de 1970, o desmatamento na região amazônica começou a ocorrer com maior intensidade, com o processo de colonização e o incentivo de ocupação do território pelo governo federal. “Esse intenso processo de desmatamento dará lugar, mais tarde, a indústria madereira e a pecuária na região, que destrói de forma intensa e extensa o solo da Amazônia, com o desmatamento, que leva às queimadas”, explica. Mas, como as queimadas podem prejudicar à saúde da população da região? Hacon afirma que “há a emissão de material particulado, microscópico, que em sua composição tem vários compostos e elementos. Esse material particulado, principalmente, é que vai prejudicar a saúde da população da Amazônia”.
Ela chama a atenção sobre a alta taxa de desmatamento de Rondônia – cerca de 70% de seu território já havia sido desmatado para plantações e pastagens. Com isso, “aumentaram as taxas de doenças respiratórias, principalmente nos grupos vulneráveis – crianças e idosos – e pessoas com doenças pregressas, relacionadas tanto quanto às doenças respiratórias, quanto às doenças cardiovasculares”.
Em um estudo de 2013, intitulado Distribuição espaço-temporal das queimadas e internações por doenças  respiratórias em menores de cinco anos de idade em Rondônia, 2001 a 2010, das pesquisadoras Poliany Rodrigues (Ensp/Fiocruz), Eliane Ignotti  (Unemat e UFMT, ambas do Mato Grosso) e Sandra Hacon, chama a atenção de que “as áreas com maior número de focos de queimadas diferiram daquelas com as taxas mais elevadas de internações por doenças respiratórias. Isso pode demonstrar a importância do transporte deste material particulado em longas distâncias na Amazônia.
Supõe-se que a exposição aos poluentes provenientes das queimadas não necessariamente coincidiu com o local de ocorrência do foco de queimada, razão pela qual os focos de calor devem ser utilizados como indicadores indiretos de exposição”.  Além disso, as pesquisadoras recomendam que haja um “monitoramento do material particulado proveniente das queimadas na microrregião de Porto Velho, apontada neste estudo como área crítica por apresentar a maior concentração de focos de queimadas da região. Também é relevante acompanhar os indicadores de saúde sobre os impactos à saúde humana provocados pelos poluentes gerados nas queimadas, com a implantação de áreas sentinelas pelos programas de vigilância à saúde na Amazônia”.
Para se ter uma ideia do problema, as queimadas acorrem mais intensamente entre os meses de julho e outubro, sendo que em setembro, há o ápice. Imagens do satélite Modis Terra Acqua, da Nasa, entre os dias 9 e 26 de setembro de 2017, mostram a situação da região:
O site do Icict/Fiocruz levantou alguns dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), do Datasus, sobre doenças respiratórias na região de 2012 até novembro de 2017. Como no estudo das pesquisadoras, chama a atenção o número de crianças de até quatro anos, com internações derivadas de doenças respiratórias:
Respiração comprometida
Outro estudo, este de 2015, orientado por Hacon, Poluição atmosférica e seus efeitos na saúde infantil: um estudo sobre biomarcadores de estresse oxidativo em crianças e adolescentes da Amazônia Brasileira, da doutora pela Ensp/Fiocruz Beatriz Fátima Alves de Oliveira, reafirma a preocupação dos pesquisadores com os efeitos das queimadas. Seu estudo, que avaliou crianças e adolescentes de 5 a 17 anos, residentes na Amazônia Ocidental Brasileira, em especial a cidade de Porto Velho, teve como um de seus resultados o seguinte: “que a poluição do ar está associada com diversos mecanismos, tais como inflamação das vias aéreas, inflamação sistêmica e neuroinflamação, disfunção endotelial, coagulação, aterosclerose, alteração do sistema nervoso autônomo, danos de DNA e desbalanço redox”.
No trecho do vídeo Queimadas na Amazônia – uma ameaça ao ambiente e a saúde, do projeto homônimo da Ensp/Fiocruz, CNPq, Rede Clima, INCT para Mudanças Climáticas e Inova / Ensp (além de outros parceiros) (de 2012), é possível ter uma ideia dos efeitos da queimada na população, neste caso, de Rio Branco, no Acre:

Queimadas x câncer
Foram justamente os estudos do Sítio Sentinela de Porto Velho, na região, coordenados por Sandra Hacon, que ajudaram pesquisadores da USP, UFRN, Fiocruz e UFRJ, além da UFRO, que foi fundamental na logística do estudo, a demonstrarem os impactos das queimadas na floresta Amazônica e que podem ser lidos no artigo “Biomass burning in the Amazon region causes DNA damage and cell death in human lung cells”, que tem entre seus co-autores, o pesquisador do Instituto de Física da USP, Paulo Artaxo, considerado uma das maiores autoridades em análise do clima.
No estudo, os pesquisadores dão evidências de que “as partículas das queimadas ao entrarem nos pulmões aumentam a inflamação, o estresse oxidativo e causam danos genéticos nas células de pulmão humano. O dano no DNA pode ser tão grave que a célula perde a capacidade de sobreviver e morre. Ou esta célula perde o controle celular e começa a se reproduzir desordenadamente, evoluindo para câncer de pulmão”, conforme relatado pela principal autora do estudo, a pesquisadora da USP, Nilmara de Oliveira Alves. Os pesquisadores coletaram amostras do material emitido na atmosfera pelas queimadas na região próxima a Porto Velho, uma das áreas mais atingidas pelos incêndios na Amazônia.
O artigo traz evidências científicas sobre a associação entre queimadas e o risco de câncer. Considerando que as crianças o grupo mais vulnerável exposto às fumaças das queimadas, como explica a pesquisadora Nilmara Alves: “a população que está sendo exposta a esta fumaça apresenta um maior risco para o desenvolvimento do câncer de pulmão e o agravamento de doenças pré-existentes como asma, bronquite e etc.”, alerta. Para  ela, “sem dúvida, as crianças estão entre os grupos mais vulneráveis. Em concordância, estudos recentes da OMS – a Organização Mundial da Saúde – comprovaram que 1,7 milhão de crianças, com menos de 5 anos, morrem no mundo anualmente devido a poluição ambiental e os poluentes atmosféricos são um dos grandes responsáveis”.
A pesquisadora da USP, que atualmente trabalha na França em colaboração com a Agência Internacional de Pesquisa ao Câncer, com ênfase nos estudos dos impactos ambientais, reitera o risco das queimadas para a população: “O que explica estes efeitos negativos é que nesta fumaça existem partículas muito finas que são capazes de chegar ao sistema respiratório, atingir os alvéolos pulmonares e ter contato com a corrente sanguínea, sendo prejudicial para a saúde. Além disso, muitos compostos carcinogênicos estão presentes nestas emissões e as pessoas, involuntariamente, inalam estes compostos tóxicos, contribuindo para os danos nas células pulmonares”.
Os efeitos na saúde da população na maioria das vezes não são imediatos, como afirma a pesquisadora Sandra Hacon. Segundo ela, “dependerá da carga de emissão, qual é a concentração do material particulado na atmosfera. Essas pessoas que aparecem doentes, que apresentam o impacto das queimadas e da poluição atmosférica, são pessoas que já tinham problemas de saúde, mais idosas ou são crianças”, explica. Para Hacon, Aqueles que já têm problemas respiratórios e não usam os medicamentos, apresentarão  os efeitos mais rapidamente. Se eles têm problemas respiratórios e tomam medicação, possivelmente, eles vão apresentar mais tarde e, às vezes, nem apresentar”, afirma.
No vídeo abaixo, Paulo Artaxo fala sobre o trabalho que realiza e mostra o impacto das queimadas no meio ambiente e na saúde das pessoas. Suas palavras são reforçadas pelo atual diretor da Ensp/Fiocruz, Hermano de Castro, pneumologista 
 Mudança necessária
A poluição não escolhe classe social, alerta Hacon, mas ela ressalta que populações mais vulneráveis acabam sendo as maiores vítimas da poluição ambiental: “porque se você tem uma infecção respiratória, uma doença infecciosa, como consequência de uma exposição à poluição atmosférica, esse quadro vai se agravar à medida que, não há ventilação nessa casa, que várias pessoas dormem num mesmo cômodo, que essa pessoa não tenha acesso ao serviço de saúde – não só porque mora longe, mas muitas vezes, por não ter recursos para chegar ao posto de saúde na capital, onde teria mais recursos para ela – e por conta das desigualdades sociais, que são – a cada dia – maiores”.
Christovam Barcellos concorda. Para ele, os dados e as análises sobre o que está ocorrendo em Porto Velho, só ressaltam a importância de se estudar o clima e sua relação com a saúde: “as pesquisas têm levantado diversas evidências de que o clima está mudando devido à ação humana na Terra. Alguns dos efeitos estão sendo já sentidos na área de saúde e existe uma mobilização crescente em torno deste tema. A mídia e a sociedade civil estão cada vez mais atentos a este problema, que é novo e ameaçador”. Mas, população e pesquisadores  já estão alertas e começam a se mobilizar:
Ao finalizarmos a matéria, recebemos a informação que – segundo notícias publicadas na grande imprensa – na versão de um rascunho, enviado para comentários de revisores do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC/ONU), que aborda a estabilização do aquecimento global a 1,5ºC, “será preciso implementar um nível de transformação sem precedentes na área produtiva (industrial e agrícola), caso a humanidade se proponha a evitar as transformações radicais causadas pelas mudanças climáticas”. Fato que só reforça a necessidade de se ter instrumentos como o Observatório Nacional de Clma e Saúde, que permita compartilhar com a população, os gestores e outros pesquisadores informações que possam mudar essa realidade.
Esta é a segunda matéria da série Clima e Saúde, sobre as mudanças climáticas e seus efeitos na saúde do brasileiro, a partir dos estudos realizados pelo Observatório Nacional de Clima e Saúde, do Icict/Fiocruz. A próxima matéria abordará o sítio sentinela Transfronteiriço, entre a Guiana Francesa e o Brasil, que pesquisa as ocorrências de malária na região e seus impactos na população local da fronteira entre os dois países.
Leia mais sobre a série Clima e Saúde no site do Icict/Fiocruz.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/01/2018

2017 : ESTÁ ENTRE OS TRÊS ANOS MAIS QUENTES JÁ REGISTRADOS.

Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirma 2017 entre os três anos mais quentes registrados


Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirma 2017 entre os três anos mais quentes registrados

Em um claro sinal de mudanças climáticas de longo prazo causadas pelo aumento das concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa, 2015, 2016 e 2017 foram confirmados como os três anos mais quentes registrados. 2016 ainda mantém o recorde mundial, enquanto 2017 foi o ano mais quente sem um El Niño, que pode aumentar as temperaturas anuais globais.
Uma análise consolidada da Organização Meteorológica Mundial, de cinco principais conjuntos de dados internacionais, mostrou que a temperatura média global da superfície em 2017 foi de aproximadamente 1,1° Celsius acima da era pré-industrial.
O ano de 2016 continua sendo o ano mais caloroso registrado (1,2°C acima da era pré-industrial). As temperaturas médias globais em 2017 e 2015 foram 1,1°C acima dos níveis pré-industriais. Os dois anos são praticamente indistinguíveis, porque a diferença é inferior a um centésimo de grau, o que é inferior à margem de erro estatística.
“A tendência de temperatura a longo prazo é muito mais importante do que o ranking de anos individuais, e essa tendência é ascendente”, disse o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas. “Dezessete dos 18 anos mais quentes registrados foram durante este século, e o grau de aquecimento nos últimos três anos tem sido excepcional. O calor do Ártico tem sido especialmente pronunciado e isso terá repercussões profundas e duradouras no nível do mar e nos padrões climáticos em outras partes do mundo “.
A temperatura globalmente média em 2017 foi de cerca de 0,46°C acima da média de longo prazo de 1981-2010 (14,3°C). Esta linha de base de 30 anos é utilizada pelos serviços meteorológicos e hidrológicos nacionais para avaliar as médias e a variabilidade dos principais parâmetros climáticos, como temperatura, precipitação e vento, que são importantes para os setores sensíveis ao clima, como a gestão da água, energia, agricultura e saúde.
Além do aquecimento global, devido ao aumento dos níveis de gases de efeito estufa na atmosfera, o clima também tem uma variação natural devido a fenômenos como El Niño, que tem uma influência de aquecimento, e La Niña, que tem uma influência refrescante. O forte 2015/2016 El Niño contribuiu para a temperatura recorde em 2016. Em contraste, 2017 começou com um La Niña muito fraco e também terminou com um fraco La Niña.
“As temperaturas contam apenas uma pequena parte da história. O calor em 2017 foi acompanhado por clima extremo em muitos países ao redor do mundo. Os Estados Unidos da América tiveram seu ano mais caro em termos de clima e desastres climáticos, enquanto outros países viram seu desenvolvimento abrandado ou revertido por ciclones tropicais, inundações e secas “, disse o Sr. Taalas.
A OMM emitirá sua declaração completa sobre o estado do clima em 2017 em março. Este relatório fornecerá uma visão abrangente da variabilidade e tendências da temperatura, eventos de alto impacto e indicadores de longo prazo das mudanças climáticas, como o aumento das concentrações de dióxido de carbono, o gelo marinho do Ártico e da Antártida, o aumento do nível do mar e a acidificação dos oceanos. A declaração final incluirá informações enviadas por uma ampla gama de agências das Nações Unidas sobre impactos humanos, socioeconômicos e ambientais como parte de um impulso para fornecer um documento de política mais abrangente, em toda a ONU, para os decisores sobre a interação entre o clima, clima e água e os objetivos globais de desenvolvimento das Nações Unidas.
A OMM usa conjuntos de dados (baseados em dados climatológicos mensais de sites de observação) da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA e do Centro Hadley de Met Office do Reino Unido e da Unidade de Pesquisa Climática da Universidade de East Anglia nos Estados Unidos Reino.
Ele também usa conjuntos de dados de reanálise do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Porte e seu Serviço de Mudanças Climáticas de Copernicus e a Agência Meteorológica do Japão . Este método combina milhões de observações meteorológicas e marinhas, inclusive de satélites, com modelos para produzir uma reanálise completa da atmosfera. A combinação de observações com modelos permite estimar temperaturas a qualquer momento e em qualquer lugar em todo o mundo, mesmo em áreas dispersas de dados, como as regiões polares.

Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirma 2017 entre os três anos mais quentes registrados

Notas:

Os três conjuntos de dados de temperatura superficial convencionais são o conjunto de dados NOAAGlobalTemp da NOAA, o conjunto de dados HadCR Center e o Conjunto de dados HadCRUT.4.6.0.0 da Metry Hadley Centre e a unidade de pesquisa climática eo conjunto de dados GISTEMP da NASA GISS. Eles usam medidas da temperatura do ar sobre a temperatura da terra e da água do mar sobre os oceanos para estimar as anomalias de temperatura ao redor do globo. As reanálises são o ERA-Interim do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas Médias e a JRA-55 da Agência Meteorológica do Japão. Apesar da abordagem muito diferente, as estimativas das temperaturas médias globais produzidas por essas reanálises estão de acordo com os conjuntos de dados convencionais da temperatura da superfície
A OMM agora usa 1981-2010 como base para calcular as variações de temperatura nas escalas de tempo mensais, sazonais e anuais. Isso substitui a linha de base 1961-1990 usada anteriormente. O período 1981-2010 também é recomendado pela OMM para calcular o padrão climático normal para o monitoramento operacional do clima, pois é mais representativo das condições climáticas atuais. Permite um relatório consistente de informações de sistemas de satélite e de reanálise, alguns dos quais não se estendem a 1960, juntamente com conjuntos de dados tradicionais baseados em observações de superfície gerenciadas pelos Serviços Meteorológicos e Hidrológicos Nacionais dos 191 Estados Membros da OMM e territórios. Para temperaturas médias globais, o período 1981-2010 é aproximadamente 0,31 ± 0,02 ° C mais quente que o de 1961-1990. A mudança nas linhas de base não tem influência na análise de tendências.
A OMM usa o período 1880-1900 como período de referência para condições pré-industriais, permitindo que as observações instrumentais iniciais sejam usadas para estimar condições de temperatura pré-industrial.

Informe da Organização Meteorológica Mundial (OMM)*, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 19/01/2018
* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.