quinta-feira, 21 de junho de 2018

ESTADOS UNIDOS ABANDONAM O CONSELHO DOS DIREITOS HUMANOS DA ONU.

ESTADOS UNIDOS ABANDONAM O CONSELHO DOS DIREITOS HUMANOS DA ONU.


Finanz und Wirtschaft
Os Estados Unidos cumpriram sua ameaça e abandonaram o Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas. O argumento é o mesmo utilizado para justificar a saída da Unesco. A Administração de Donald Trump protesta dessa maneira contra o tratamento que o órgão com sede em Genebra dá a Israel, que chama de desproporcional. O boicote coincide, além disso, com as críticas feitas às políticas migratórias norte-americanas.
A reportagem é de Sandro Pozzi, publicada por El País, 19-06-2018.
A decisão não é uma surpresa nos corredores da ONU. A embaixadora dos EUANikki Haley, já ameaçou um ano atrás com a possibilidade de abandono ao denunciar “uma campanha patológica” contra Israel. Era, portanto, uma questão de tempo até que Washington executasse sua decisão e esclarecesse se a retirada era completa. O passo foi dado, além disso, um dia depois da abertura da sessão plenária, em que será abordada a crise migratória.
Os EUA estiveram afastados do Conselho dos Direitos Humanos durante três anos, após o republicano George W. Bush votar contra sua criação em 2006. O democrata Barack Obama mudou o rumo e decidiu fazer parte em 2009. Nikki Haley exigiu depois uma reforma que facilitasse a expulsão de países com um registro pobre em direitos humanos. E mesmo que existam países como o Reino Unido que possuam essa mesma inquietação, não acreditam que abandoná-lo seja a solução.
“Nosso pedido de mudança não foi ouvido”, disse Haley. Explicou que a retirada poderia ter sido decidida imediatamente, mas disse que tentou procurar apoio entre os países que possuem os mesmos pontos de vista. “Mas não adiantou e as coisas pioraram”, afirmou. Ela citou o fato da República Democrática do Congo ter sido eleita como membro e nada ter sido dito sobre a situação na Venezuela e Irã. “Não merece esse nome”, enfatizou.
A diplomata fez o anúncio em um evento na terça-feira em Washington com o secretário de Estado, Mike Pompeo. O Governo de Donald Trump se distancia, dessa forma, do multilateralismo de seu predecessor, como fez com a Unesco, ao se retirar do Pacto do Clima de Paris, do tratado comercial do Transpacífico e do acordo nuclear com o IrãJohn Bolton, atual conselheiro de Segurança Nacional foi embaixador na ONU quando os EUA decidiram votar contra sua criação.

Encobrindo abusos

Pompeo disse que não duvida da “visão nobre” do órgão, mas afirmou que é “um pobre defensor dos direitos humanos”. E mais, acusou o conselho de “encobrir os abusos” cometidos por alguns países ao mesmo tempo que chamou de “inconcebíveis” as condenações contra Israel. O chefe da diplomacia norte-americana deixou claro, também, que os EUA tentaram durante mais de um ano reformá-lo.
Ainda que tanto Pompeo como Haley tenham criticado a atitude “hipócrita” do conselho sobre Israel, a decisão veio logo após o alto comissário Zeid Ra’ad al-Hussein chamar de “inadmissível” a política dissuasória de separar os menores que atravessam a fronteira com seus pais. Haley já alertou há duas semanas que os EUA não iriam permitir que a ONU e qualquer outra organização lhes dessem lições do que seu país deve fazer na gestão e proteção de suas fronteiras.
Os EUA votam sistematicamente em Nova York e Genebra contra as decisões críticas a Israel. Recentemente foi o único membro, ao lado da Austrália, que se opôs nesse órgão a uma resolução em que era proposta uma investigação sobre o uso excessivo da força por parte dos militares israelenses durante os protestos em Gaza. Também vetou uma resolução do Conselho de Segurança pedindo proteção aos palestinos.
O Conselho dos Direitos Humanos é integrado por 47 membros. Existem 14 países que não são considerados “livres” pela Freedom House, uma lista que inclui a Arábia Saudita, China, Cuba e a Venezuela. O secretário de Estado anterior, Rex Tillerson, também condicionou sua participação a uma reforma “considerável” e se o viés contra Israel persistisse. Nesse momento se iniciou um processo de avaliação sobre a efetividade do órgão, ainda que tenha se mostrado cético.

Críticas

A saída dos EUA se consuma dois anos depois da Rússia fracassar em sua tentativa de ser reeleita para o cargo, em uma votação vencida pela Croácia pela contagem mínima. As consequências práticas são limitadas, porque as decisões e suas políticas não são vinculantes. Mas o abandono significa que Israel perde seu principal aliado nesse órgão. Há uma discussão prevista para ser realizada em 2 de julho sobre a situação no Oriente Médio.
Kenneth Roth, diretor executivo da organização não governamental Human Rights Watch, se adiantou ao anúncio oficial emitindo uma declaração em que criticou a manobra isolacionista dos EUA. Considera que a retirada é um “triste reflexo” da política feita pela Administração de Donald Trump em matéria de direitos humanos, “em que defende os abusos de Israel” contra as críticas feitas pelo restante da comunidade internacional.
Fonte : Instituto Humanitas Unisinos.

AUMENTO DO NÍVEL DO MAR GLOBAL.

As perdas de massa da camada de gelo da Antártida aumentaram o nível do mar global em 7,6 mm desde 1992


Perda de massa de gelo na Antártida aumentou
TECHNISCHE UNIVERSITÄT DRESDEN*
Antártida
As perdas de massa da camada de gelo da Antártida aumentaram o nível do mar global em 7,6 mm desde 1992, com 40% deste aumento (3,0 mm) vindo nos últimos cinco anos sozinho. Na Antártica Ocidental, as perdas em massa hoje somam cerca de 160 bilhões de toneladas por ano.
Os resultados são de uma importante avaliação climática conhecida como o Exercício Intercomparativo do Balanço de Massa da Massa de Gelo (IMBIE), e são publicados em 14 de junho na Nature . É o quadro mais completo da mudança da camada de gelo da Antártida até hoje – 84 cientistas de 44 instituições combinaram 24 pesquisas por satélite para produzir a avaliação.
Martin Horwath, professor de Geodetic Earth System Research na TU Dresden, e dois membros de seu grupo de trabalho, Ludwig Schröder e Andreas Groh, contribuíram significativamente para este estudo.
Ludwig Schröder explicou: “Os satélites do altímetro medem a elevação da superfície da camada de gelo. Analisamos os dados de cinco missões satelitais consecutivas para obter mudanças ao longo de todo o período de 25 anos de 1992 a 2017”. Schröder foi um dos apenas dois colaboradores a fornecer um conjunto de dados tão abrangente.
Andreas Groh acrescentou: “Analisar minúsculas mudanças na atração gravitacional da Terra é outro método para inferir mudanças na massa de gelo. Analisamos dados da missão do satélite GRACE. GRACE significa Gravity Recovery and Climate Experiment. Os resultados, juntamente com avaliações completas de incertezas, foram acessível através de um portal de dados aberto por um tempo. Eles foram agora incorporados ao estudo. ” O portal está disponível em data1.geo.tu-dresden.de.
Um dos dois autores principais do estudo, Dr. Erik Ivins, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA em Pasadena, Califórnia, atualmente em uma estadia de pesquisa no Instituto Prof. Horwath em TU Dresden, comentou o estudo: “A duração adicional da observação No período, o maior grupo de participantes, vários refinamentos em nossa capacidade de observação e uma capacidade melhorada de avaliar incertezas inerentes e interpretativas, cada um contribuiu para tornar este o estudo mais robusto do balanço de massa de gelo da Antártida até hoje. ”
A Antártida Ocidental sofreu a maior mudança, com as perdas de gelo aumentando de 53 bilhões de toneladas por ano na década de 1990 para 159 bilhões de toneladas por ano desde 2012. A maior parte disso veio da aceleração das enormes geleiras Pine Island e Thwaites. Na ponta norte da península da Antártica, a aceleração da geleira após o colapso da plataforma de gelo causou um aumento na perda de massa de gelo de sete bilhões de toneladas por ano na década de 1990 para 33 bilhões de toneladas por ano na década de 2010. Para a Antártica Oriental, os resultados estão sujeitos a maiores incertezas, mas indicam um estado próximo do equilíbrio nos últimos 25 anos.
* * Uma massa de um bilhão de toneladas corresponde a um quilômetro cúbico de água.
Referência:
Mass balance of the Antarctic Ice Sheet from 1992 to 2017
The IMBIE team
Nature, volume 558, pages219–222 (2018)
http://dx.doi.org/10.1038/s41586-018-0179-y
* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 19/06/2018

ANTÁRTIDA PERDEU TRÊS BILHÕES DE TONELADAS DE GELO ENTRE 1992 E 2017.

Antártida perdeu três bilhões de toneladas de gelo entre 1992 e 2017

A camada de gelo da Antártida perdeu cerca de três bilhões de toneladas entre 1992 e 2017, de acordo com uma análise da revista Nature, publicou um total de cinco estudos esta semana sobre a evolução, estado atual e futuro deste continente. Este derretimento resulta em uma elevação média do nível do mar de cerca de oito milímetros. O processo acelerou nos últimos cinco anos.
Por Servicio de Información y Noticias Científicas (SINC)
Particionamento de uma plataforma de gelo na Antártida / Ian Phillips, Divisão Antártica Australiana
Particionamento de uma plataforma de gelo na Antártida / Ian Phillips, Divisão Antártica Australiana
O comportamento do gelo antártico, que contém água suficiente para elevar o nível do mar em 58 metros em todo o mundo, é um indicador-chave da mudança climática. O monitoramento atual, assim como o balanço de suas perdas e ganhos de massa, permitirão estimar as possíveis mudanças futuras deste continente.
Desde 1989, mais de 150 cálculos da perda de massa de gelo da Antártida foram feitos. Um estudo conduzido pela Universidade de Leeds (Reino Unido), com a participação de 84 cientistas de 44 organizações internacionais, combinou 24 avaliações de satélite para concluir que a perda de gelo na Antártida subiram os níveis globais do mar 7 6 mm desde 1992. Dois quintos deste aumento (3 mm) ocorreram nos últimos cinco anos. O trabalho é publicado na revista Nature .
“Há muito que suspeitávamos que as alterações no clima da Terra afectariam as camadas de gelo polar e, graças aos satélites, podemos agora controlar com confiança as suas perdas e a contribuição global para o nível do mar”, explica Andrew Shepherd, professor a Universidade de Leeds.
As conclusões são o resultado de avaliação climática conhecida como exercício de comparação do balanço de massa da calota de gelo (Imbie, por sua sigla em Inglês) e fornecer o quadro mais completo da mudança no gelo da Antártida ao namorar
Antes de 2012, a Antarctica teria perdido uma taxa constante de 76 bilhões de toneladas por ano, uma contribuição de 0,2 mm por ano para o aumento do nível do mar. No entanto, desde então, houve um aumento acentuado. Entre 2012 e 2017, o continente perdeu 219 bilhões de toneladas por ano, uma contribuição anual de 0,6 mm no nível do mar.
“De acordo com nossa análise, tem havido um aumento gradual em perdas de gelo na Antártida na última década, eo continente está causando níveis do mar a subir mais rapidamente hoje do que em qualquer momento nos últimos 25 Isso tem que ser motivo de preocupação para os governos em que confiamos para proteger nossas cidades e comunidades costeiras “, destacam os autores.
Um continente que pode afundar o resto
A Antártida armazena água congelada suficiente para elevar o nível do mar global em 58 metros. Saber quanto gelo está perdendo é fundamental para entender os impactos da mudança climática agora e no futuro.
“Este é o estudo mais forte sobre o balanço de massa do gelo da Antártida até à data,” diz Erik Ivins, um pesquisador do Jet Propulsion Laboratory da NASA, na Califórnia.
A perda de gelo acelerada no continente como um aumento inteiro é uma combinação do estado de geleiras no oeste da Antártida e da Península Antártica, e reduziu o crescimento da camada de gelo na Antártida Oriental.
Antártica Ocidental experimentou a maior mudança, com perdas de gelo de 53 bilhões de toneladas por ano na década de 1990 a 159 bilhões de toneladas por ano desde 2012. A maioria vem das imensas geleiras em Pine Island e Thwaites, Eles estão derretendo rapidamente devido ao derretimento dos oceanos.
No extremo norte do continente, o colapso da plataforma de gelo na Península Antártica provocou um aumento de 25 bilhões de toneladas por ano. A camada de gelo da Antártida Oriental permaneceu em estado de equilíbrio nos últimos 25 anos, com uma média de 5 bilhões de toneladas de gelo por ano.
Josef Aschbacher, Diretor do Programa de Observação da Terra da ESA, disse: “CryoSat e Sentinel-1 estão fazendo um elemento essencial para a compreensão de como as camadas de gelo contribuição responder à mudança climática e afetar o nível do mar, que é um grande preocupe-se.
“Os satélites nos deram uma imagem surpreendente do que está mudando Antarctica. Os satélites comprimento de registro agora nos permite identificar as regiões que sofreram perdas sofridas gelo há mais de uma década”, disse Pippa Whitehouse, pesquisadora da Universidade de Durham.
A próxima peça do quebra-cabeça é entender os processos que impulsionam essa mudança. “Para fazer isso, devemos continuar a observar de perto a camada de gelo, mas também devemos olhar para trás no tempo e tentar entender como ela respondeu às mudanças climáticas passadas”, acrescenta Whitehouse. Quatro outros estudos publicados na mesma edição da revista Nature analisaram diferentes períodos do continente congelado
Referencias bibliográficas:
“Mass balance of the Antarctic Ice Sheet from 1992 to 2017”
https://www.nature.com/articles/s41586-018-0179-y
“Antarctic and global climate history viewed from ice cores”
https://www.nature.com/articles/s41586-018-0179-y
“The global influence of localized dynamics in the Southern Ocean”
https://www.nature.com/articles/s41586-018-0179-y
“Trends and connections across the Antarctic cryosphere”
https://www.nature.com/articles/s41586-018-0179-y
“Choosing the future of Antarctica”
https://www.nature.com/articles/s41586-018-0179-y
Do Servicio de Información y Noticias Científicas (SINC), in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 19/06/2018

terça-feira, 19 de junho de 2018

ATLAS DA VIOLÊNCIA : ESTAMOS MATANDO O NOSSO FUTURO.

Atlas da Violência: Estamos matando o nosso futuro, artigo de Marco Antônio Barbosa


escultura 'não vilência'
[EcoDebate] Entra ano e sai ano a violência fica cada vez mais exposta nos noticiários. E uma parcela importante para o futuro do nosso país é a que mais sofre com esta situação: os jovens. Mais uma vez alarmante, o novo Atlas da Violência – divulgado esta semana pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Fórum Brasileiro de Segurança Pública – mostra que o Brasil alcançou a marca histórica de 62.517 homicídios no ano de 2016. Deste número, 53,7% são jovens entre 15 a 19 anos.
No país, 33.590 adolescentes saíram de casa e não voltaram em 2016, sendo que 94,6% eram do sexo masculino. Entre os homens, o crime mata mais do que qualquer doença, batendo 56,5% das causas de óbito.
Os dados também mostram como as políticas de segurança e públicas (que criam oportunidades para este público) são falhas e ineficientes. Os números aumentaram 7,4% em relação ao ano anterior. Considerando a década de 2006-2016 o país sofreu um aumento de 23,3%.
Nada efetivo foi feito para trazer segurança para as nossas crianças e isso é um problema complexo que começa na falta de investimento em educação. Sem ensino, sem oportunidade. Com isso, o crime aparece como única solução, principalmente para a parcela mais pobre da população. Isso sem contar a falta de investimento em infraestruturas básicas como saúde, moradia e transporte. Essa conta chega a um resultado muito triste. Jogamos mais uma geração na mão do crime organizado que a usa como bem entende. Que a usa como soldados.
O estudo aponta outra questão que deve ser debatida: em alguns estados o problema é ainda maior que em outros. Enquanto houve redução nestas taxas em São Paulo, por exemplo, no Rio Grande do Norte cresceu 382,2% entre 2006 e 2016. Isto é reflexo da falta de uma visão geral da situação pelos governantes. Mostra como nossos políticos federais (deputados, senadores e presidente) não conseguem coordenar políticas integradas. O crime se espalha pelas periferias, seja em uma favela ou em estados mais pobres. As facções são as mesmas do Oiapoque ao Chui e, na maioria das vezes, passam dessas fronteiras para outros países. Em contraponto, as ações de nossas polícias são cada vez mais locais. Um contraste mortal. Qualquer ação, como uma intervenção em um estado, não fará cócegas aos problemas. A questão deve ser tratada nacionalmente.
A situação é claramente preocupante, mas enquanto postergarmos as medidas de longo prazo, mais estes números baterão marcas históricas. É necessário investir nos nossos jovens hoje, para que se tornem adultos mais conscientes e ajudem a mudar o Brasil. Atualmente, a luta é ainda mais atrás. Não conseguimos deixá-los chegarem a fase adulta. O nosso futuro está morrendo na nossa frente. Como pensar em novos políticos, se não deixarmos nossos jovens crescerem?
** Marco Antônio Barbosa é especialista em segurança e diretor da CAME do Brasil. Possui mestrado em administração de empresas, MBA em finanças e diversas pós-graduações nas áreas de marketing e negócios.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/06/2018

RÚSSIA : DEMOGRAFIA

O decrescimento demográfico da Rússia, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


população total da Federação Russa
[EcoDebate] Esta semana começa a Copa do Mundo de Futebol na Rússia, que é o maior país do mundo, em termos de extensão territorial, com 17,1 milhões de km2 e tem um território duas vezes maior do que o do Brasil. Também possui uma das menores densidades demográficas do mundo, apenas 8 habitantes por km2.
A Rússia foi o país que sofreu as maiores perdas humanas durante a Primeira Guerra Mundial, que terminou em 11/11/1918 e vai completar 100 anos em 2018. Houve também uma grande mortalidade por conta da Guerra Civil e da fome na década de 1920. Em 22 de junho de 1941, a Alemanha nazista invadiu a União Soviética e jogou o país na Segunda Guerra Mundial, provocando a morte de outros milhões de russos e soviéticos. Com o fim da URSS, em dezembro de 1991, o país entrou novamente em crise e houve grande queda da esperança de vida. A Rússia do século XX foi marcada por grandes tragédias e por uma alta mortalidade.
Mas o que vai marcar a dinâmica demográfica da Rússia no século XXI é a redução das taxas de fecundidade e o decrescimento demográfico, que já vem ocorrendo desde a década de 1990. A Rússia atual é um país que já apresenta um dos maiores declínios populacionais do mundo.
Em 1950, a população da Rússia era de 102,7 milhões de habitantes (quase o dobro dos 52 milhões de brasileiros na mesma data), chegou ao pico de 148,9 milhões de habitantes em 1993, sendo 69,7 milhões de homens e 79,2 milhões de mulheres e depois caiu para 143,9 milhões em 2017. Segundo a projeção média da Divisão de População da ONU (revisão 2017), a população da Rússia deve cair para 132,7 milhões até 2050 e 124 milhões em 2100. As diversas projeções para o restante do século XXI estão apresentadas no gráfico acima.
A taxa de fecundidade total (TFT) da Rússia já era baixa em 1950, sendo de 2,85 filhos por mulher (no Brasil era mais de 6 filhos nesta época) caiu para o nível de reposição (em torno de 2,1 filhos) entre 1965 e 1990, mas despencou depois do fim da União Soviética e a desorganização do país, chegando a recorde de baixa de 1,25 filhos por mulher no quinquênio 1995-00. Depois aumentou um pouco, mas ainda se encontra em níveis baixos, estando em 1,75 filhos por mulher em 2015-20. O número médio de nascimentos anuais de crianças foi de 2,8 milhões em 1950-55, caiu ligeiramente para 2,4 milhões em 1985-90 e despencou para apenas 1,3 milhão de nascimentos em 1995-00. No quinquênio 2015-20 houve uma pequena recuperação para 1,8 milhão de nascimentos anuais (O Brasil neste período tinha cerca de 3 milhões de nascimentos anuais e o Paquistão 4,7 milhões anuais).
população da Rússia
As diversas crises de mortalidade e da natalidade fizeram a estrutura da pirâmide populacional sofrerem enormes descontinuidades, como pode ser visto no gráfico acima. Entre 1950 e 2050 as pirâmides apresentam diversos “dentes”, que devem desaparecer somente em 2100 quando a pirâmide deve apresentar um formato mais retangular e com uma estrutura etária bastante envelhecida e com menores diferenciais de gênero.
Além da baixa fecundidade a Rússia sofre com a redução da esperança de vida. A esperança de vida média de homens e mulheres era de 64,5 anos no quinquênio 1950-55 e subiu para 69,1 anos em 1985-90. Mas depois da crise econômica e social decorrente do fim da União Soviética, a esperança de vida caiu e chegou a 64,9 anos no quinquênio 2000-05. Em 2015-20 houve uma ligeira recuperação, para 71,2 anos, acima do nível de 20 anos atrás. A esperança de vida das mulheres estava em 76,8 anos, mas a esperança de vida dos homens estava em meros 65,6 anos.
Ou seja, a diferença na expectativa de vida entre os sexos era de mais de 11 anos, a maior diferença do mundo. Os altos níveis de alcoolismo dos homens explicam em grande parte estas diferenças. Nota-se que a Rússia tem um grande superávit de mulheres em relação aos homens, ao contrário, por exemplo, da China e da Índia que possuem uma razão de sexo com superioridade masculina. A sobremortalidade masculina é bastante alta.
Para enfrentar a “crise demográfica”, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, propôs incentivos à natalidade para evitar que o país veja sua população diminuir ainda mais, uma proposta com viés eleitoral anunciada antes das novas eleições para o Kremlin. Segundo Putin: “A situação demográfica na Rússia volta a ser preocupante, em primeiro lugar por razões objetivas. Devemos relançar nossas políticas para promover a natalidade e reduzir a mortalidade”. A medida mais ambiciosa das propostas do presidente russo prevê subsidiar parte dos juros das hipotecas para que as famílias tenham um segundo ou um terceiro filho a partir de janeiro de 2018.
Em termos ambientais, a Rússia tem superávit, pois a biocapacidade está acima da pegada ecológica. Mas o degelo da Sibéria pode liberar grandes quantidades de metano do permafrost, agravando o aquecimento global e a acidificação dos solos e dos oceanos.
pegada ecológica e biocapacidade na Rússia
A Rússia faz parte do grupo dos BRICS e entre os 5 países é o que possuí o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Mas as pretensões de hegemonia na antiga área da URSS faz a Rússia investir muito em gastos militares e em medidas autoritárias contra os setores da oposição. O apoio ao regime de Bashar Hafez al-Assad, na Síria, tem acirrado o conflito com os EUA, o Reino Unido e a França.
Por outro lado, uma aliança estratégica com a China e a Índia pode criar um força nova na Eurásia que desloque o centro dinâmico do mundo para a Ásia. Este triângulo estratégico pode enfraquecer a hegemonia Ocidental e acelerar o processo de Orientalização do mundo. A Rússia veria o seu prestígio aumentado.
A Copa do Mundo de Futebol, de 2018, vai colocar a Rússia em destaque nos noticiários do mundo. Vale a pena conhecer mais a realidade econômica, social e ambiental deste que é o maior país do mundo em extensão territorial e uma das civilizações mais influentes do globo.
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/06/2018

O DESASTROSO LEGADO DA COPA DO MUNDO DE FUTEBOL DE 2014.

O desastroso legado da Copa do Mundo de Futebol de 2014, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


Maracanã
[EcoDebate] Começou o circo da Copa do Mundo de Futebol, desta vez na Rússia. Quatro anos depois da última Copa (aquela famosa pelo 7X1), o Brasil está em pior situação econômica, vive um caos político e ainda está pagando pelos “elefantes brancos” que começou a construir, convive com obras inacabadas e ainda investiga a corrupção que favoreceu os espertos que souberam manipular o futebol como ópio do povo e capitalizar o mito do país do futebol de drible e ginga fáceis.
O governo vendeu a ideia de que os grandes eventos – Copa do Mundo e Olimpíada – seriam uma forma de reafirmar o desenvolvimento nacional e mostrar ao mundo que o Brasil estava preparado para ser a 4ª potência mundial. O próximo passo seria participar do Conselho de Segurança da ONU, como membro permanente ao lado de EUA, China, Rússia, Reino Unido e França (todos potências nucleares). O Brasil até começou a fazer um submarino movido a propulsão nuclear para poder navegar de forma pujante no mar das elites nucleares e defender as riquezas do pré-sal (nosso passaporte para o futuro) das ameaças da ganância imperialista.
O sonho do Brasil potência dos militares foi reciclado para o sonho do Brasil potência democrática e líder terceiro-mundista. “Com brasileiro, não há quem possa!”. Se vencemos o “complexo de vira-lata” e nos tornamos os líderes das canchas futebolísticas, por que não nos tornaríamos líderes em outros campos?
Mas como disse o ensaísta inglês Samuel Johnson (1709-1784): “O patriotismo é o último refúgio do canalha”. O patriotismo brasileiro é sempre revivido de quatro em quatro anos e não será diferente na Copa da Rússia. Porém, enquanto a seleção brasileira disputa a “honra nacional” nos gramados russos, não se deve esquecer o desastroso legado da Copa de 2014.
No Rio de Janeiro, o projeto de gentrificação do Porto Maravilha ficou pelas tabelas e está se transformando em um grande desastre financeiro. Artigo de Adriano Belisário, para o site Pública (26/02/2018) mostra que a operação do Porto Maravilha “ficou refém do seu gigantismo e enfrenta dificuldades para pagar o consórcio formado pela Odebrecht, OAS e Carioca Engenharia, que faz obras e serviços como limpeza de ruas e coleta de lixo na região”. O mecanismo financeiro para viabilizar as obras do Porto Maravilha foi a venda dos Certificados do Potencial Adicional de Construção (Cepacs) pelo fundo da Caixa Econômica (CEF), que comprou todos os títulos da prefeitura, em lote único, em 2011 por R$ 3,5 bilhões. A compra usou recursos dos trabalhadores (FGTS), com a expectativa de revendê-los mais caros no mercado para empreendedores interessados em aumentar a quantidade de andares de seus imóveis na região. O problema é que foram poucos os compradores, e os Cepacs estão encalhados.
Não há novos projetos licenciados com consumo de Cepacs no Porto Maravilha desde meados de 2015. Como resultado, o fundo controlado pela CEF declarou em maio de 2016 falta de dinheiro em caixa (iliquidez) para pagar a parceria público-privada (PPP) com as empreiteiras. Em julho de 2017, após meses sem receber, a concessionária formada por essas empresas suspendeu as atividades na região. Só 15% dos empreendimentos financiaram a operação. Entre os 77 empreendimentos do mercado imobiliário licenciados, mais da metade (48) não consumiu nem consumirá nenhum Cepac, ou seja, não injetará recursos na PPP. Em síntese, as maravilhosas promessas do Porto Maravilha ficaram pela metade e a Prefeitura do Rio terá que injetar dinheiro público para a manutenção que deveria estar sendo feita pela iniciativa privada.
Ainda no Rio, o Maracanã – “maior estádio de futebol do mundo” – que já tinha abrigado um público de duas centenas de milhares (dizem que na final da Copa de 1950, entre Brasil e Uruguai, o número de torcedores era superior a 200 mil) foi reformado, na gestão Sérgio Cabral. A reforma do estádio estava orçada em R$ 700 milhões, mas custou R$ 1,2 bilhão, e virou uma “arena” com menos de 80 mil lugares. O resultado é que os jogos no Maracanã não dão retorno financeiro para os clubes, pois o custo de manutenção e funcionamento levam toda a renda dos jogos. Desta forma, o ex-“maior estádio do mundo” fica mais fechado do que aberto ao público. Atualmente, quem circula pelo entorno do Maracanã reclama do abandono e do aumento da criminalidade. O número de roubos de celular, por exemplo, aumentou 220% se comparado com 4 anos atrás. O roubo de veículos aumentou 190%.
O Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) indicou que as obras de reforma do Maracanã para a Copa do Mundo de 2014 foram objeto de milionários superfaturamentos. O Ministério Público do Rio pediu que as construtoras Odebrecht, Andrade Gutierrez e Delta Engenharia, encarregadas das obras, restituíssem R$ 200 milhões ao Tesouro Público. O cimento foi comprado a um preço três vezes maior que o do mercado, com um impacto de R$ 23 milhões no custo. Alguns serviços, como o aluguel de gruas, foram faturados em duas vezes, revelam os documentos. Outro importante impacto no preço final foi o da substituição da cobertura das arquibancadas, cuja preservação era prevista no projeto original. O Maracanã permaneceu em estado de abandono durante três meses, devido um imbróglio político-legal entre a concessionária e o comitê organizador das Olimpíadas de 2016 e agora sobrevive aos trancos e barrancos.
Reportagem do site G1, mostra que em Belo Horizonte, obras prometidas para a Copa de 2014 ainda estão inacabadas. No Aeroporto Internacional de Confins há obras de ampliação e modernização do terminal paradas desde setembro de 2014. A empresa que opera o local desde agosto daquele ano afirma que melhorias prometidas para a Copa são responsabilidade da Infraero.
Em Cuiabá, nove obras prometidas para a Copa de 2014 seguem inacabadas, o que tem custado caro aos cofres públicos. Entre elas, está a construção do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), que já consumiu R$ 1,066 bilhão e está parada desde dezembro de 2014. Só 6 km de trilhos foram concluídos, do total de 22 km.
Em Curitiba, quatro das 13 obras prometidas para a Copa ainda não foram concluídas, três de responsabilidade do governo estadual, e duas, da Prefeitura de Curitiba. Todas elas fazem ligação entre a capital e a Região Metropolitana, como o corredor Aeroporto-Rodoferroviária, onde já foram investidos mais de R$ 44 milhões e a reforma e ampliação do Terminal do Santa Cândida.
Em Brasília, ainda há cinco obras prometidas para a Copa atrasadas, entre elas a urbanização do entorno do estádio Mané Garrincha e a construção do VLT entre o Aeroporto de Brasília e o Plano Piloto. Em 2012, o governo do DF desistiu de entregar o entorno do estádio a tempo para a Copa. O projeto do VLT foi cancelado definitivamente em 2015.
Em Fortaleza, a entrega da expansão do Aeroporto Pinto Martins foi cancelada em maio de 2014. O Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) que iria cruzar 22 bairros também não foi entregue e, em alguns pontos da obra, moradores convivem com transtornos há seis anos.
Em Manaus, o BRT, sistema de ônibus rápido, seria o principal meio de transporte para os torcedores até a Arena da Amazônia. Porém, em 2012, o governo estadual e a prefeitura desistiram de entregar a obra para a Copa, alegando atraso na liberação de recursos para o projeto. Até hoje a obra ainda nem foi licitada. Dos três Centros de Atendimento aos Turistas prometidos para a Copa, um está com as obras paradas e os outros nem saíram do papel.
Em Natal, pelo menos quatro obras previstas para a Copa ainda não foram entregues. A mais atrasada é a reforma e padronização de 55 km de calçadas nas avenidas que dão acesso à Arena das Dunas, na Zona Sul da cidade. A obra dos acessos ao Aeroporto Internacional Governador Aluízio Alves (bastante distante do centro da cidade) ainda deve ser entregue, mas de maneira parcial.
Em Porto Alegre, a obra na Avenida Cristóvão Colombo está parada desde que o consócio que ganhou a concorrência desistiu do contrato alegando dificuldades financeiras. Das 18 obras previstas para a Copa de 2014 na capital gaúcha, dez estão atrasadas e duas nem começaram.
Em Recife, cinco das obras de mobilidade prometidas para a Copa ainda não foram entregues. Além disso, o governo do estado rescindiu no ano passado o contrato para construir a Cidade da Copa, projeto apresentado como primeiro modelo de cidade inteligente no Brasil.
Em Salvador, as reformas no aeroporto internacional da capital baiana se arrastam até hoje. Houve troca de administração da Infraero para uma empresa francesa, que ainda irá concluir a nova área de check-in. A implementação do BRT na cidade chegou a estar na lista das obras prometidas para a Copa de 2014, mas foi retirada porque não ficaria pronta a tempo.
Em São Paulo, a Linha 17-Ouro do monotrilho, que chegou a ter a inauguração anunciada para antes da Copa de 2014, até hoje não teve nenhuma estação entregue. O projeto foi retirado da lista de obras do Mundial por causa da mudança do estádio da Copa para Itaquera, na Zona Leste. Desde então, os valores da obra aumentaram, e os prazos foram sucessivamente ampliados.
A megalomaníaca proposta de fazer ou reformar 12 estádios de futebol para a Copa do Mundo de 2014 só se justifica pelo interesse daqueles políticos e empreiteiros que visavam lucrar com a corrupção das obras superfaturadas. Cidades com Manaus, Cuiabá, Brasília e Natal nem possuem times na primeira divisão do campeonato brasileiro. As obras feitas estão ociosas, as obras inacabadas dão prejuízos e transtornos e toda a população brasileira foi onerada com o desperdício do dinheiro público e a ineficiência das construções. O grande destaque foram os protestos de rua contra a Copa, contra a ilusão midiática dos grandes eventos e contra a manipulação do mito da “pátria de chuteiras” e a paixão cega pelo futebol.
Em 2015 estourou o escândalo da Fifa, quando 7 dirigentes da entidade máxima do futebol foram presos na Suíça, após serem acusados por suspeitas de corrupção envolvendo um montante de até US$ 150 milhões. A Fifa se mostrou uma das entidades mais corruptas do mundo. Três brasileiros foram implicados no esquema de corrupção, de acordo com o departamento de Justiça dos EUA. O ex-presidente da CBF José Maria Marin, José Hawilla, dono da Traffic Group (que morreu recentemente) e José Lazaro Margulies, proprietário das empresas Valente Corp. e Somerton Ltda. A CBF e a Fifa saíram com a imagem totalmente arranhadas e a população já percebe que há “algo de podre” no reino do futebol.
Outra revelação que veio a público recentemente foram os casos de abusos sexuais. Em campanha do Sindicato de Atletas de São Paulo, 33 atletas e ex-profissionais, entre eles Edu Dracena e Moisés (Palmeiras), Rodrigo Caio e Diego Lugano (São Paulo), Felipe (Porto-POR), Cicinho (Brasiliense) e Giovanni, ídolo do Santos na década de noventa, fazem um alerta sobre assédio e abuso sexual de crianças e adolescentes em categorias de base. Um vídeo com depoimentos dos jogadores e a hashtag #chegadeabuso é o primeiro passo da campanha, que deve se desdobrar em ações preventivas nos clubes ao longo do ano, segundo o jornal El País.
Quatro anos depois da Copa do Mundo de 2014, muitas verdades vieram à tona sobre o circo do futebol enquanto as promessas do Brasil grande foram afogadas em uma crise econômica sem precedentes. O déficit fiscal brasileiro é monstruoso e a dívida pública cresce de maneira explosiva. O país não tem dinheiro para investimento em infraestrutura e o desemprego atingiu níveis astronômicos. A violência é desesperadora. O exército que veio garantir a “paz” durante a Copa e a Olimpíada, agora voltou para fazer uma intervenção no Rio de Janeiro, que teve até a paralisação do trenzinho da Urca pela primeira vez na história.
Mas os interesses comerciais do “patriotismo canalha” (na expressão de Samuel Johnson) vão tentar fazer o povo brasileiro mergulhar no ufanismo do futebol tupiniquim e torcer mais uma vez para a “seleção canarinha” da “Pátria de chuteiras”, esquecendo que a Copa de 2014, foi um fracasso dentro e fora dos campos. Porém, a beleza do futebol está em reconhecer a vitória de quem joga melhor e mais bonito, sem a carga pesada da manipulação do nacionalismo idiota.
Referências:
G1. Quatro anos depois, ainda há obras prometidas para Copa no Brasil inacabadas em 11 das 12 cidades-sede, 23/05/2018
https://g1.globo.com/economia/noticia/quatro-anos-depois-ainda-ha-obras-prometidas-para-copa-no-brasil-inacabadas-em-11-das-12-cidades-sede.ghtml
Adriano Belisário. Porto Maravilha corre o risco de parar novamente em 2018, Pública, 26/02/2018
https://apublica.org/2018/02/porto-maravilha-corre-o-risco-de-parar-novamente-em-2018/
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/06/2018

CRESCE O NÚMERO DE HOMICÍDIOS NO BRASIL EM MEIO À CRISE SOCIAL.

Cresce o número de homicídios no Brasil em meio à crise social, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


“Artigo III: Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”
Declaração Universal dos Direitos Humanos, ONU: 10/12/1948

Homicídios: Brasil x Mundo
[EcoDebate]No mundo da diversão e da manipulação midiática do futebol como ópio do povo, o Brasil estreou na Copa da Rússia com empate contra a Suíça. A superioridade brasileira só não prevaleceu porque o juiz não marcou uma falta contra o Brasil e nem um pênalti a favor. Tirando estes erros do juiz, dizem os analistas ufanistas, o Brasil se mostrou, no gramado, muito superior à Suíça.
Mas na vida real e no dia a dia da dinâmica social, o Brasil perde de 62 x 1 para o país alpino, pois a taxa de homicídio brasileira foi de 31,3 mortes para cada 100 mil habitantes, em 2016, enquanto a taxa da Suíça foi de 0,5 mortes para cada 100 mil habitantes, segundo o relatório World Health Statistics 2018, da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Na verdade, o Brasil tem ficado entre os 10 países mais violentos do mundo e desrespeitado, cotidianamente, o Artigo III da Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU: 10/12/1948), que diz: “Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”.
A tabela abaixo, mostra que o Brasil ocupa a sétima posição no ranking dos homicídios das Américas e a nona posição no mundo. O primeiro lugar, em 2016, ficou com Honduras, com 55,5 mortes para cada 100 mil habitantes, o segundo lugar ficou com a Venezuela com 49,2 mortes. Os únicos dois países africanos entre as 10 maiores taxas de homicídios são Lesoto, com 35 mortes e África do Sul, com 33,1 mortes. Oito dos 10 países mais violentos do mundo são da América Latina e Caribe (ALC), que se firma como a continente mais desigual (em termos sociais e de concentração de renda) e mais violento do mundo. Não por coincidência, existe alta correlação entre desigualdade social e violência.
 taxa de homicídios nos 10 países mais violentos, 2016
O número absoluto de homicídios no Brasil, em 2016, foi de 62.517 mortes, segundo o Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde (SIM/MS). Este número, é muito maior do que o número de mortes dos Estados Unidos nos 15 anos da Guerra do Vietnã. A figura acima mostra que o número de mortes por homicídio no Brasil foi maior do que a soma dos homicídios em 154 países, no mesmo ano. E nestes 154 países estão China, EUA e Indonésia que são países com maior população do que o Brasil. Ou seja, a posição do Brasil é vergonhosa e preocupante, pois, além de desrespeitar os direitos humanos, representa um grande custo econômico, social e psicológico para as famílias e para o país.
O mais alarmante é que a taxa de homicídio não é somente alta, mas ela está em elevação durante os últimos 10 anos. O número de pessoas mortas por causas violentas estava abaixo de 50 mil em 2006 e 2007 (taxa abaixo de 27 por mil), ultrapassou a marca de 50 mil em 2008 e manteve uma média acima de 60 mil entre 2014 e 2016 (taxa superior a 30 por mil), nos anos de recessão econômica e de aumento do desemprego.
Brasil: número e taxa de homicídios (2006 a 2016)
Este aumento do número e do percentual de homicídios, apresentado pelo Atlas da Violência 2018, produzido pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), torna-se mais dramático quando se percebe que em algumas Unidades da Federação as taxas que estão acima daquelas consideradas maiores do mundo. A primeira tabela abaixo mostra que Sergipe apresentou uma taxa de 64,7 mortes para cada 100 mil habitantes, em 2016, percentual muito maior do que as 55,5 mortes para cada 100 mil habitantes de Honduras, o país campeão mundial em violência letal. A tabela seguinte mostra que o Rio de Janeiro, com 6.053 mortes foi a UF com maior número absoluto de homicídios, em 2016. 
Brasil: taxa de homicídios por unidade da federação
taxa de homicídios por unidade da federação
Esta taxa escandalosa, que coloca o Brasil no topo dos países mais violentos do mundo, é ainda mais dramática quando se considera que incide especialmente sobre os jovens e os negros. A taxa de homicídios de negros (pretos e pardos) no Brasil foi de 40,2, enquanto a de não negros (brancos, amarelos e indígenas) ficou em 16 por 100 mil habitantes. O gráfico abaixo, também do Atlas da Violência 2018, mostra que no Brasil, a taxa de homicídios de jovens de 15 a 29 anos, em 2016, foi de 65,5 mortes para cada 100 mil pessoas. Foram assassinados 33.590 jovens (15-29 anos), sendo 94,6% do sexo masculino, o que representa um aumento de 7,4% em relação ao ano anterior.
Este é o lado mais perverso, pois cria uma juventude perdida, que está fora das escolas e não consegue se inserir no mercado de trabalho e acaba sendo promotora e vítima de uma violência kafikiana e que está comprometendo o futuro do Brasil. A tabela abaixo mostra que a taxa de homicídio entre os jovens brasileiros está acima de 100 mortes para cada 100 mil indivíduos em Sergipe (142,7), Rio Grande do Norte (125,6), Alagoas (122,4), Bahia (114,3), Pernambuco (105,4) e Amapá (101,4). As menores taxas estão em Santa Catarina (27,2) e São Paulo (19,0).

Brasil: taxa de homicídios de jovens
As mortes violentas não só reduzem a esperança de vida e a razão de sexo (devido ao “Homencídio”), mas alteram também a dinâmica da economia, da sociedade e das famílias, ao interromper de forma precoce o ciclo de vida das pessoas e ao impedir que jovens – homens e mulheres – possam melhor contribuir para o desenvolvimento social e cultural das nações. O impacto nas famílias é enorme, pois muitos pais perdem os filhos, filhos perdem os pais, esposas perdem os maridos, irmãos perdem parentes e cônjuges perdem seus companheiros, quebrando as relações interfamiliares. Um país que vê passivamente sua juventude ser morta de forma violenta é injusto no presente e tem seu futuro comprometido irremediavelmente.
O artigo “A validade da explicação demográfica para a tendência recente do homicídio de homens jovens em quatro regiões metropolitanas brasileiras (2002-2012)”, de (MANETTA e ALVES, 2018), mostra que a transição demográfica e a superação da onda jovem contribui para a redução das taxas de homicídios, mas o bom desempenho do mercado de trabalho e a geração de oportunidades para os jovens está entre os principais determinantes para a prevalência de menores taxas de violência letal.
Referências:
MANETTA, Alex; ALVES, JED. A validade da explicação demográfica para a tendência recente do homicídio de homens jovens em quatro regiões metropolitanas brasileiras (2002-2012), Ideias, Campinas, SP, v.9, n.1, AOP, jan./jun. 2018
https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/ideias/article/view/8652691/18147
MOTTA, Aydano André. Melhor ficar no futebol – porque no resto…, Colabora, 16/06/2018
https://projetocolabora.com.br/educacao/melhor-ficar-no-futebol-porque-no-resto/
WHO. World health statistics 2018: monitoring health for the SDGs, sustainable development goals, 2018 http://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/272596/9789241565585-eng.pdf?ua=1&ua=1
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/06/2018