domingo, 18 de novembro de 2018

SUPRIMENTO MUNDIAL DE ÁGUA DOCE PODE SER MAIS LIMITADO DO QUE SE PENSAVA ANTERIORMENTE

Suprimento mundial de água doce pode ser mais limitado do que se pensava anteriormente


Água doce : Os EUA têm menos água subterrânea fresca do que se pensava anteriormente, de acordo com pesquisa feita por cientistas da UC Santa Barbara

Por Harrison Tasoff*
A água subterrânea, que tem sido usada para irrigar colheitas, saciar gado e saciar a sede em geral por milhares de anos, continua a ser um recurso vital em todo o mundo.
Mas de acordo com pesquisas de Scott Jasechko e Debra Perrone, professores assistentes da UC Santa Barbara, e seus colegas da Universidade de Saskatchewan e da Universidade do Arizona, o suprimento mundial de água doce pode ser mais limitado do que se pensava anteriormente.
Suas descobertas, que aparecem na revista Environmental Research Letters documenta as profundidades nas quais a água subterrânea transita de fresco para salino. O estudo é o primeiro a comparar a profundidade dos poços de água subterrânea com a profundidade da água subterrânea salina que existe na escala continental.
Como o chá fermentado em uma chaleira, quanto mais tempo a água fica em contato com a rocha, mais provável é que os minerais da rocha se dissolvam nela. Isso cria um gradiente de salinidade, de água doce no topo, através de salobra e em condições salinas, à medida que você faz uma amostragem mais abaixo. Este último trabalho demonstra que a perfuração de poços cada vez mais profundos corre o risco de bombear água salgada em algumas regiões. “Em alguns lugares, a água subterrânea salina é mais rasa do que se pensava”, disse Jasechko, professor assistente da Escola Bren de Ciência e Gestão Ambiental da UC Santa Barbara.
“A principal lição deste trabalho é que as águas frescas são finitas”, continuou ele, “que o uso excessivo de água doce pode interromper a produção de alimentos, a fabricação e o abastecimento doméstico de água”.
Acrescentou Perrone, um professor assistente no programa de estudos ambientais do campus, “Combinar estudos top-down e bottom-up pode nos dar uma janela onde existe água subterrânea fresca e não contaminada, e onde esta janela está diminuindo, ou porque o teto está vindo para baixo ou o chão está chegando. ”
Além da salinidade, as atividades de petróleo e gás podem restringir a quantidade de água subterrânea utilizável que um aqüífero tem a oferecer. A maior parte dos poços convencionais de petróleo e gás chega muito abaixo da profundidade em que as pessoas perfuram a água. No entanto, as empresas de petróleo e gás geralmente descartam efluentes em poços de injeção, às vezes em profundidades onde existe água subterrânea.
“Em algumas bacias, os poços de injeção são instalados menos do que a transição da água doce para a água salobra”, disse Perrone. “Os resultados da nossa equipe sugerem que as comunidades estão competindo por recursos hídricos subterrâneos já limitados.”
“Devemos proteger as águas subterrâneas profundas e frescas”, disse Jasechko. “A água é abundante na Terra, mas apenas uma pequena parte é fresca e descongelada. Quanto mais aprendemos, menor e mais precioso que a fração fresca e não congelada parece ser ”.
Os próximos passos de pesquisa para a equipe envolvem a exploração de como a salinidade da água subterrânea e as profundidades dos poços variam em outras áreas do planeta onde a água subterrânea fornece águas vitais para beber e irrigar.
Profundidade para a água com TDS (a) <3000 e (b) <10 000 mg l- 1 com base nos valores médios em caixas de 100 m. (c) Distribuição de STD em relação ao percentil 50 e 95 das profundidades do poço de água, in Competition for shrinking window of low salinity groundwater
Profundidade para a água com TDS (a) <3000 000="" 100="" 1="" 50="" 95="" ao="" b="" base="" c="" caixas="" com="" competition="" das="" de="" dios="" distribui="" do="" e="" em="" for="" groundwater="" gua="" in="" l-="" low="" m.="" m="" mg="" nos="" o="" of="" percentil="" po="" profundidades="" rela="" salinity="" shrinking="" std="" valores="" window="">
Referência:
OPEN ACCESS
Competition for shrinking window of low salinity groundwater
Grant Ferguson1, Jennifer C McIntosh2, Debra Perrone3 and Scott Jasechko4
Published 14 November 2018 •
Environmental Research Letters, Volume 13, Number 11
http://iopscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/aae6d8/meta
* Tradução e edição de Henrique Cortez
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/11/2018

NIGÉRIA : COLAPSO AMBIENTAL E FÁBRICA DE POBREZA ?

Nigéria: colapso ambiental e fábrica de pobreza? artigo de José Eustáquio Diniz Alves



pegada ecológica e biocapacidade - Nigéria
[EcoDebate] A Nigéria é a nação mais populosa da África e, atualmente, a sétima com maior número de habitantes do mundo. A população da Nigéria em 2018 está estimada em 195,9 milhões de pessoas, devendo atingir 419 milhões em 2050 (ultrapassando os Estados Unidos e tornando-se a terceira nação mais populosa do mundo) e podendo chegar a 794 milhões de habitantes em 2100, segundo as projeções médias da Divisão de População da ONU. A Nigéria deve ultrapassar o tamanho demográfico do Brasil e do Paquistão no primeiro quinquênio da próxima década, se tornado a quinta maior população do mundo.
O território da Nigéria tem 924 mil km2 (equivalente à área do estado do Mato Grosso), sendo que um terço do país é formado por florestas e bosques, outro terço formado por savanas e o restante é semiárido e compõe o limite sul do deserto do Saara. A densidade demográfica era de 42 hab/ km2, em 1950, passou para 215 hab/ km2, em 2018, e pode chegar a 872 hab/ km2, em 2100.
Ou seja, a Nigéria pode chegar ao final do atual século com um volume populacional superior ao de toda a Europa, que tem uma densidade demográfica de 34 hab/ km2 (A Alemanha tem uma densidade demográfica de 235 hab/ km2).
Portanto, a Nigéria é um país muito populoso, com alta densidade demográfica e com limitados recursos naturais. O gráfico acima, com dados da Footprint Network, mostra que a pegada ecológica per capita da Nigéria era de 0,9 hectare global (gha), em 1961, subiu para 1,37 gha em 2006 e diminuiu para 1,12 gha, em 2014. Ou seja, a pegada ecológica (proxy para o padrão de consumo) subiu ligeiramente entre 1961 e 2014, mostrando uma certa estagnação no nível de consumo. A pegada ecológica da Nigéria é 2,5 vezes menor do que a pegada ecológica per capita mundial (de 2,84 gha). Todavia, mesmo com este padrão de consumo baixo, a biocapacidade per capita é ainda menor e caiu de 1,12 gha em 1961, para somente 0,7 gha em 2014. Esta queda ocorreu, fundamentalmente devido ao crescimento populacional, pois a biocapacidade per capita foi diminuindo na medida que crescia o denominador do coeficiente. Desta forma, a Nigéria apresentou, em 2014, um déficit ambiental de 60%.
O gráfico abaixo, com dados do FMI (WEO, abri de 2018), mostra que a população da Nigéria cresce em torno de 2,8% ao ano. Na primeira década dos anos 2000, a economia apresentou um crescimento elevado devido ao superciclo das commodities, particularmente, à elevação do preço do petróleo. Mas, na atual década (2011-20), o ritmo de crescimento ficou pouco acima do ritmo de crescimento da população entre 2011 e 2015 e deve ficar abaixo do crescimento populacional entre 2016 e 2023. Ou seja, a renda per capita da Nigéria está diminuindo após a recessão de 2016 e não há perspectiva de melhora pela frente.
crescimento da população e variação anual do PIB da Nigéria
A situação de estresse econômico e ambiental agrava a situação de pobreza do país. Artigo de Kazeem (25/06/2018) mostra que a Nigéria está em uma armadilha do baixo crescimento econômico (em um quadro de alto crescimento demográfico) e está se transformado em uma fábrica de geração de pessoas pobres. A taxa de nigerianos vivendo em situação de extrema pobreza está em torno de 50% e também não tem perspectiva de melhora nos próximos anos.
Isto quer dizer que há cerca de 100 milhões de pessoas vivendo na extrema pobreza na Nigéria atualmente e este número pode ultrapassar 200 milhões até 2050. A cidade de Lagos, com cerca de 20 milhões de pessoas na região metropolitana, é uma das megacidades mais vulneráveis à elevação do nível do mar. Milhões de pessoas ficarão desalojadas pela invasão das águas salgadas.
As mudanças climáticas devem dificultar a luta para vencer a miséria. Não só a Nigéria, mas o mundo, terá dificuldade para cumprir o objetivo 1 (“Erradicação da Pobreza”) dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que pretende “Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares” até 2030.
A Combinação de crise econômica, crise ambiental e alto crescimento demográfico tende a fazer explodir a extrema pobreza, condenando milhões de pessoas ao sofrimento e fazendo do mundo um lugar mais perigoso e inóspito para se viver.
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
Referências:
ALVES, JED. Os desafios da África Subsaariana em sete figuras. Ecodebate, 16/06/2017
https://www.ecodebate.com.br/2017/06/16/os-desafios-da-africa-subsaariana-em-sete-figuras-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
ALVES, JED. Cidades mais ameaçadas pelo aumento do nível do mar, Ecodebate, 26/09/2016
https://www.ecodebate.com.br/2016/09/26/cidades-mais-ameacadas-pelo-aumento-do-nivel-do-mar-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
Yomi Kazeem. Nigeria has become the poverty capital of the world, Quartz Africa, 25/06/2018
https://qz.com/1313380/nigerias-has-the-highest-rate-of-extreme-poverty-globally/
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/11/2018

TENDÊNCIAS NEGLIGENCIADAS NA PRECIPITAÇÃO ANUAL REVELAM RISCOS SUBESTIMADOS EM TODO O MUNDO.

Tendências negligenciadas na precipitação anual revelam riscos subestimados em todo o mundo


Uma reanálise das tendências anuais mundiais de precipitação demonstra que o risco para os sistemas humanos e ambientais tem sido subestimado.

Como resultado, pesquisadores encontraram que mais de 38% da população global e mais de 44% da área terrestre experimentaram tendências de precipitação negligenciadas.
University of Maine*
chuva
Chuva. Foto: EBC
Abordagens de análise de tendências convencionais examinam mudanças na precipitação média anual ao longo do tempo, e erroneamente assumem que mudanças na alta e baixa precipitação seguem o mesmo caminho, de acordo com Anne Lausier, doutoranda em engenharia civil e ambiental da UMaine e bolsista de pesquisa de pós-graduação da National Science Foundation. Shaleen Jain, professor associado de engenharia civil e ambiental.
O registo histórico da precipitação anual é resumido pela função de distribuição de probabilidade (PDF), onde a frequência com que a precipitação ocorre dentro de um determinado intervalo ocorre e a probabilidade de excedência (não-excedência) acima (abaixo) de um dado limite pode ser facilmente estimada .
Em seu artigo, “Overlooked Trends in Observed Global Annual Precipitation Reveal Underestimated Risks”, publicado na revista Scientific Reports, Lausier e Jain apresentam uma tipologia de tendência inovadora usando regressão quantílica e oferecem uma análise abrangente das tendências negligenciadas em todo o mundo.
Sua tipologia de tendência, em vez de se concentrar apenas nas tendências de média e mediana, estende as análises para as caudas superior e inferior do PDF para avaliar a influência combinada do risco e da variabilidade em vários limiares.
As tendências mais negligenciadas incluem um aumento do risco de condições extremas de umidade e aumento da variabilidade encontrados em partes do centro-oeste dos Estados Unidos, norte do Canadá, centro-sul da Ásia e Indonésia – regiões que abrigam quase 860 milhões de pessoas.
Por outro lado, a nova análise abrangente encontrou 840 milhões de pessoas expostas a um risco reduzido de condições de chuva, particularmente na África Austral, América do Sul e partes do norte da Ásia, indicando uma diminuição na incidência de totais anuais elevados.
Estima-se que 630 milhões de pessoas são afetadas por um risco aumentado de condições de seca em partes do sul da Europa, oeste dos EUA, sul do Canadá e norte da África.
Mais de 40% das áreas agrícolas de sequeiro do mundo estão expostas a tendências negligenciadas, incluindo partes da África meridional e ocidental e do centro-oeste dos EUA.
“A adaptação humana à mudança climática requer a compreensão da probabilidade de sofrer impactos prejudiciais”, escrevem Lausier e Jain. “Miscaracterização de riscos para sistemas humanos e ambientais pode subestimar a urgência da adaptação climática ou levar a estratégias inadequadas. Nossos resultados mostram que a população significativa e as áreas de terra na escala global correspondem às mudanças no risco e na variabilidade da precipitação, e são descaracterizadas pelas abordagens convencionais. ”
“Estimativas de risco não confiáveis ou errôneas são uma preocupação especial para contextos e comunidades mais vulneráveis”, dizem os pesquisadores. “Nossos resultados ressaltam como as tendências negligenciadas em termos de extensão espacial, regionalidade e severidade têm implicações para uma série de sistemas humanos e ambientais. A aplicação de nossa abordagem em futuros estudos climáticos permitirá a avaliação de riscos em metas de adaptação mais adequadas ”.
Referência:
Overlooked Trends in Observed Global Annual Precipitation Reveal Underestimated Risks
Anne M. Lausier & Shaleen Jain
Scientific Reportsvolume 8, Article number: 16746 (2018)
https://doi.org/10.1038/s41598-018-34993-5
* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 14/11/2018

MONITORAMENTO DO IBGE REVELA QUE O PAÍS PERDEU 7,5% DE SUAS FLORESTAS ENTRE 2000 E 2016.

Monitoramento do IBGE revela que o país perdeu 7,5% de suas florestas entre 2000 e 2016


Desmatamento – A nova versão do Monitoramento da Cobertura e Uso da Terra do Brasil, publicação divulgada hoje pelo IBGE, mostra que o país perdeu 7,5% de sua vegetação florestal em 17 anos. No ano 2000, essa área, equivalente a 4.017.505 km2, passou para 3.719.801 km2, em 2016.
O estudo mostra também que, de 2014 a 2016, mais de 62 mil km2 do território nacional sofreram algum tipo de alteração. Nesse mesmo período, houve redução das áreas de vegetação natural e expansão das áreas agrícolas e da silvicultura, porém em um ritmo mais lento que o verificado em levantamentos anteriores.
As novas áreas de pastagem se concentram principalmente nas bordas do bioma amazônico. Já a expansão da área agrícola aconteceu no sudeste de Rondônia, na região de Paragominas (PA), no eixo entre os municípios de Campo Grande (MS) e Cassilândia (MS), e na região da campanha gaúcha (RS).
Evolução da cobertura e uso da terra em Mato Grosso – 2000 e 2016
Segundo a supervisora de Cobertura e Uso da Terra do IBGE, Ana Clara Alencar, a partir dos dados de uso e cobertura da terra é possível conhecer a dinâmica de ocupação e utilização da terra, bem como acompanhar a evolução e a transformação do território brasileiro. “Além disso, pode permitir a integração com todos os outros indicadores sociais e econômicos”, complementou.
Os resultados divulgados nesta edição trazem dados para os anos 2000, 2010, 2012, 2014 e 2016.
Repórter: Raquel de Paula (estagiária sob supervisão)
magem: Licia Rubinstein/Agência IBGE Notícias
Arte: J.C. Rodrigues
Do IBGE, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/11/2018

CIENTISTAS IDENTIFICAM O MECANISMO DE DESACELERAÇÃO DO AQUECIMENTO GLOBAL NO INÍCIO DOS ANOS 2000.

Cientistas identificam o mecanismo de desaceleração do aquecimento global no início dos anos 2000


O aquecimento global nunca parou nos últimos cem anos

Institute of Atmospheric Physics, Chinese Academy of Sciences*
aquecimento global tem sido atribuído ao aumento persistente dos gases de efeito estufa atmosféricos (GEEs), especialmente em CO 2 , desde 1870, o início da Revolução Industrial. No entanto, a tendência ascendente na temperatura média global da superfície (GMST) diminuiu ou até mesmo parou durante a primeira década do século XXI, embora os níveis de CO 2 continuassem a subir e atingissem quase 400 ppm em 2013.
Este episódio tem sido tipicamente denominado o hiato do aquecimento global ou desaceleração no aquecimento. O hiato é caracterizado como uma tendência quase zero ao longo de um período. Detecção descobriu que o hiato apareceu durante 2001-2013 / 2002-2012 com variabilidade interanual extremamente fraca em algumas sequências GMST, e a desaceleração nos outros.
O hiato é frequentemente atribuído à variabilidade climática interna, forçamento externo ou ambos, envolvendo um aumento de aerossóis na estratosfera durante o período de 2000-2010, a fase negativa da Oscilação Interdecadal do Pacífico (IPO) acompanhava ventos intensificados, absorção extensa de calor pelo oceano profundo ou um número extremamente baixo de manchas solares durante o último ciclo de atividade solar.
Um novo estudo do Instituto de Física Atmosférica da Academia Chinesa de Ciências revela que o aquecimento global nunca parou nos últimos cem anos, com taxa máxima de mudança após a Segunda Grande Guerra Mundial e uma taxa quase constante (0,08 o C / 10a) durante a Segunda Guerra Mundial. últimas três décadas. No entanto, o principal resfriamento contra o aquecimento global vem da variabilidade interanual da temperatura que coincide com a variabilidade da temperatura da superfície do mar no Pacífico equatorial médio-oriental. Portanto, o hiato é apenas um equilíbrio decadal entre o aquecimento global e o resfriamento resultante da temperatura anômala da superfície do mar no Pacífico equatorial.
O hiato terminou em 2014, quando um novo evento de El Niño Oscilação Sul (ENSO) foi desenvolvido na região equatorial do leste do Pacífico, causando um rápido aquecimento na Terra. Por outro lado, a oscilação climática multidecadal segue um caminho descendente com aumento no resfriamento.
“Nosso estudo sugere que as condições climáticas futuras provavelmente dependerão da competição entre o resfriamento multidecadal e o aquecimento global se o ciclo climático multidecadal se repetir, como foi experimentado durante a segunda metade do século XX”, diz o Dr. DAI Xingang, o principal autor do estudo.
Anomalias na temperatura média da superfície global (GMST)
Anomalias na temperatura média da superfície global (GMST) com referência ao período 1961-1990 e seus desvios padrão (STDEVs). ( a ) A corrida de 3 anos significa GMSTs de 1980–2016 e ( b ) os STDEVs de 13 anos em GMSTs do HadCRUT4, Cowtan & Way, NOAA-antigo, NOAA-novo, GISTEMP, ERA-Interim e NCEP- Conjuntos de dados R2. Os números foram gerados usando o Excel
Referência:
Dai Xin-Gang and Wang ping. 2018. Identifying the early 2000s hiatus associated with internal climate variability[J]. Scientific Reports, 8: 13602 (https://www.nature.com/articles/s41598-018-31862-z ).
*Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/11/2018

O BÔNUS DEMOGRÁFICO : POPULAÇÃO TOTAL E POPULAÇÃO EM IDADE ATIVA NO BRASIL.

O bônus demográfico: população total e população em idade ativa no Brasil, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

população total e população em idade ativa (PIA), Brasil
[EcoDebate] O IBGE divulgou as novas projeções da população brasileira, no dia 25 de julho de 2018, confirmando as tendências da transição demográfica e do envelhecimento populacional, mas com algumas ligeiras modificações que tem incentivado o debate sobre a dinâmica populacional brasileira e, em especial, sobre a mensuração do importante período em que a estrutura etária favorece o desenvolvimento humano e a qualidade de vida da população.
A transição demográfica (passagem de altas para baixas taxas de mortalidade e natalidade) leva necessariamente a uma mudança da estrutura etária que, por sua vez, cria uma janela de oportunidade demográfica, que se constitui em uma oportunidade única na história para garantir um salto no padrão de vida dos habitantes de cada país. Esta janela, também é denominada bônus ou dividendo demográfico.
O gráfico acima, com os dados da projeção 2018 do IBGE, mostra alguns marcos da dinâmica demográfica brasileira. Entre 2010 e 2017, a População em Idade Ativa (PIA) passou de 132,5 milhões de pessoas para 143,6 milhões, enquanto, no mesmo período, a população total passou de 194,9 milhões para 206,8 milhões. Em 2010, a PIA representava 68% da população total, passando para 69,5% em 2017. Isto quer dizer que a PIA (quantidade de pessoas em idade ativa) crescia mais rápido do que a população total do país, melhorando a relação potencial entre “produtores efetivos” e “consumidores efetivos”. Ou seja, a janela de oportunidade estava se abrindo.
A PIA (15-64 anos) vai continuar crescendo até o ano de 2037, quando deve alcançar o seu pico de 152,9 milhões de pessoas. Neste ano, a PIA representará 66,3% da população total. Ou seja, a PIA continua crescendo, mas em ritmo inferior ao conjunto da população. Isto quer dizer que a janela de oportunidade começar a se fechar, saindo da situação de maior abertura, em 2017, para o fechamento total em 2037. Esta data marcará o fim do bônus demográfico, pois, a partir de 2038, a PIA vai ter decrescimento não só relativo, mas também absoluto. A PIA passará de 152,9 milhões de pessoas (representando 66,3% da população), em 2037, para 136,5 milhões de pessoas (representando 59,8% da população), em 2060. O número de brasileiros atingirá o pico populacional em 2047, com 233,2 milhões, decrescendo para 228,3 milhões de habitantes em 2060.
Todos estes números mostram que a janela de oportunidade demográfica começou a se abrir no início da década de 1970, chegou em sua abertura máxima em 2017 (considerando a PIA 15-64 anos), iniciando o fechamento a partir de 2018 e cerrando totalmente em 2037, quando a PIA inicia uma queda em termos absolutos, embora a população total continuará crescendo até 2047.
Em síntese, o bônus demográfico no Brasil (considerando a relação entre a PIA e a população total) teve início em 1970, apresentou uma contribuição crescente para o desenvolvimento brasileiro até 2017, terá uma contribuição decrescente até 2037 e chegará ao fim em 2038.
Portanto, o país tem menos de 20 anos para aproveitar os efeitos positivos da estrutura etária e avançar com as condições de saúde, educação e mercado de trabalho para dar um salto na qualidade de vida da população. Um país só consegue enriquecer antes de envelhecer. O Brasil tem pouco tempo para mostrar que pode ter um futuro de prosperidade.
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
Referências:
ALVES, J. E. D. . A polêmica Malthus versus Condorcet reavaliada à luz da transição demográfica. Textos para Discussão. Escola Nacional de Ciências Estatísticas, Rio de Janeiro, v. 4, p. 1-56, 2002.http://www.ence.ibge.gov.br/images/ence/doc/publicacoes/textos_para_discussao/texto_4.pdf
ALVES , J. E. D. O Bônus Demográfico e o crescimento econômico no Brasil. Rio de Janeiro, Aparte, Inclusão Social em Debate, IE-UFRJ, 06/12/2004. Disponível em:
ALVES, J. E. D., BRUNO, M. A. P. População e crescimento econômico de longo prazo no Brasil: como aproveitar a janela de oportunidade demográfica? In: XV Encontro Nacional de Estudos Populacionais, 2006, Caxambu. Anais do XV Encontro Nacional de Estudos Populacionais. Campinas: ABEP, 2006.http://www.abep.nepo.unicamp.br/encontro2006/docspdf/ABEP2006_302.pdf
ALVES , J. E. D. A transição demográfica e a janela de oportunidade. Braudel Papers. São Paulo, v.1, p.1 – 13, 2008. http://fernandonogueiracosta.files.wordpress.com/2010/08/transicao_demografica.pdf
ALVES, José Eustáquio Diniz. Como medir o tempo de duração do Bônus Demográfico?
Instituto Fernand Braudel de Economia Internacional, São Paulo, p.1-4, maio 2008.
ALVES, J. E. D., VASCONCELOS, D. CARVALHO, A.A., Estrutura etária, bônus demográfico e população economicamente ativa: cenários de longo prazo e suas implicações para o mercado de trabalho. Texto para Discussão, 10, Cepal/IPEA, Brasília, pp. 1-38, 2010. Disponível em:
ALVES, JED, A janela de oportunidade demográfica do Brasil, Recife, Revista Coletiva, FJN, No 14, mai/ago, 2014 http://www.coletiva.org/site/index.php?option=com_k2&view=item&layout=item&id=198&Itemid=76
ALVES, JED. O fim do bônus demográfico e o processo de envelhecimento no Brasil. São Paulo, Revista Portal de Divulgação, n. 45, Ano V. Jun/jul/ago, pp: 6-17, 2015
IBGE: Projeção da População (revisão 2018), Rio de Janeiro, 25/07/2018
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/11/2018

SANEAMENTO E VIOLÊNCIA ARMADA SÃO DISTRIBUÍDOS DE MANEIRA DESIGUAL NOS TERRITÓRIOS.

Saneamento e violência armada são distribuídos de maneira desigual nos territórios


Saneamento e violência armada – O que determina o quê?

Por Maíra Mathias – EPSJV/Fiocruz
esgoto
“A relação do saneamento com saúde não é óbvia”, observou Alexandre Pessoa, professor-pesquisador da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) para uma plateia repleta de estudantes da educação de jovens e adultos, a EJA.
O mesmo poderia ser dito da violência, tema candente no debate público normalmente vinculado à segurança, mas raramente abordado como problema de saúde. ‘Violência, condições de moradia e saneamento: o SUS e a importância da determinação social da saúde’ foi o tema da mesa-redonda que contou com a participação de Leonardo Bueno, da Cooperação Social da Presidência da Fiocruz. O debate fechou o primeiro dia do seminário internacional que comemorou os 30 anos do Sistema Único, os 10 anos da revista Poli e os 30 anos do curso técnico de nível médio da EPSJV entre 29 e 31 de outubro.

No cotidiano da vida

Para Alexandre Pessoa, o objetivo do saneamento é promover a saúde ambiental e humana. “Mas no mundo real essas coisas estão juntas? Não como deveriam”, lamentou o engenheiro sanitarista, dando um exemplo concreto de como são indissociáveis. “Você está com um ‘bicho no bucho’ – uma parasitose, uma giárdia, uma lombriga. Você trata, mas volta para casa, e pega a doença de novo. São as doenças de estimação”, brincou. Isso acontece, explicou, porque as condições de moradia e saneamento não se alteram com um simples vermífugo. “O valão continua lá”, disse.
A constatação de que as coisas estão vinculadas, frisou, é feita por qualquer morador de uma comunidade que sofra com a inexistência de rede de esgoto ou uma drenagem, condições para que as chuvas se transformem em um grande problema, com inundações. Segundo o engenheiro, é dos territórios que devem vir também as soluções. Não as responsabilidades por infraestrutura adequada – pois estas são do poder público. Mas a mobilização social para pressionar por obras e uma reflexão coletiva sobre o melhor manejo da água e do lixo, por exemplo. “Sem organização não tem saúde”, alertou.
Pessoa também ponderou que, às vezes, mesmo com muita fiscalização, as obras do poder público podem ter uma qualidade ruim e deu como exemplo a primeira fase do Projeto de Aceleração do Crescimento (PAC I) em Manguinhos, que até hoje causa alagamentos nas casas dos moradores. O afastamento da realidade do território e das necessidades reais da população, motivado muitas vezes pela pressa em concluir as obras, por exemplo, causa, na opinião do engenheiro sanitarista, outros obstáculos para  uma concepção de saneamento mais próxima do cotidiano das comunidades. Ele deu como exemplo ‘dicas’ de especialistas nos programas de televisão, que recomendam aos moradores que não saiam de casa quando chove para, assim, evitar pegar doenças veiculadas pelas águas sujas, como leptospirose. “Mas o morador tem que desobstruir a galeria de drenagem senão a água de esgoto vai entrar na casa dele…”, contestou. Nesses casos, o professor acha melhor abrir um diálogo franco, falar quais são os riscos e o que se pode fazer para que eles sejam reduzidos, como usar sacos plásticos nos pés e tomar um banho com muito sabão e, se houver disponibilidade, álcool.
O engenheiro, defensor do caráter público e estatal das companhias de saneamento, fez críticas à lógica que orienta as obras de esgotamento sanitário. Ele mostrou o mapa de um projeto de despoluição da Baía de Guanabara, em que se pode ver traçados de troncos coletores de esgoto. Alguns, como os que ligam bairros como Grajaú e Tijuca, saíram do papel. Outros, como os que beneficiariam comunidades como Maré e Manguinhos, nunca andaram. O mais triste é que essas comunidades ficam bem mais perto da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Alegria do que Grajaú e Tijuca. “Me parece que tem um corte social. Saneamento é para todos, as comunidades de baixa renda tinham que ser priorizadas. O saneamento acaba contribuindo para a desigualdade, ao invés de reverter a desigualdade”, lamentou. E o argumento da Cedae, de acordo com ele, é que fazer as obras nos bairros é mais barato do que nas favelas. “Óbvio que é mais barato, mas isso não é argumento porque estamos falando de um déficit histórico. O critério para intervenção nas tubulações tem que ser a saúde pública”, argumentou ele, afirmando que para que seja defendida, a Cedae precisa se comportar como uma estrutura a serviço do interesse público. “Saneamento [feito] dessa forma pode ser uma violência de Estado”, afirmou.

Determinação social

Para Leonardo Bueno, da Cooperação Social Fiocruz, há diferentes tipos de violência. Mas a base de toda a violência é a desigualdade. “Quando você não tem acesso a saneamento, renda, escola, trabalho… E essa é a forma de violência que acompanha o sistema que a gente vive”, constatou. Contudo, ele reconheceu que a violência armada é a mais conhecida e, por vezes, a protagonista absoluta do debate. “Infelizmente, o Brasil é recordista em homicídios e outros impactos gerados por armas de fogo. Infelizmente, nos territórios [de favela], esse fator acaba influenciando todas as outras políticas”, disse.
Em uma análise mais detida, portanto, a participação das comunidades na política acaba sendo influenciada o tempo todo pela violência com arma de fogo – que, de fato, é complexa, seja por terem se tornado corriqueiras operações policiais com muita troca de tiros, seja porque grupos locais nos territórios estão armados.  Por vezes, alertou, a própria geografia das comunidades é alterada para responder à lógica do conflito, como quando barricadas são construídas em becos.
E, como tudo está integrado, também o saneamento experimenta reflexos dessa realidade. Leo Bueno, que é morador de Manguinhos, contou que em 2018 algumas áreas desse complexo de favelas sofreram com enchentes justamente porque as barricadas impediam o escoamento das águas pluviais. E esses pontos coincidiam com as áreas onde há muita operação policial. “Isso potencializou as enchentes. Mais de cem famílias perderam praticamente tudo. A nossa participação na política pública acaba sendo influenciada o tempo todo pela violência com arma de fogo. Você nunca elegeu nem a associação de moradores do lugar onde mora, o tempo todo a polícia e o crime estão violando, e as coisas sendo decididas na marra”, recapitulou. Desse jeito, afirmou, é difícil criar uma cultura democrática. “Não foram poucos os relatos de moradores que quiseram participar, qualificar essa política pública [o PAC] e não conseguiram”.
Em um território que nas palavras de Bueno é considerado “de exceção”, as mesmas leis que valem para a cidade não valem para a favela. E as ‘soluções’ parecem não apontar, de fato, para qualquer luz do túnel.
“Nenhum país do mundo reduziu homicídios aumentando a circulação de armas de fogo”, afirmou. Para completar: “É preciso investir na lógica da investigação e não na lógica do combate que expõe todos nós e a nossa família quando estamos indo para o trabalho, para a escola, indo para a igreja, indo curtir”.
De acordo com ele, diferentes organismos internacionais não consideram confiáveis os dados que vêm diretamente da segurança pública. “Tem mortes que não são registradas. Isso vale para mortes cometidas pelo crime e pelo Estado”, disse. Uma base mais confiável, segundo ele, é a do Ministério da Saúde, que faz o registro dos homicídios no Brasil desde 1979. “Isso avançou, mas ainda precisamos evoluir para qualificar a política pública”, defendeu.
Ele lembrou o ano de 1995, que até 2018 tinha registrado o maior número de homicídios no estado do Rio de Janeiro. Na época, o governo chegou a instituir uma gratificação para os policiais que mais atirassem que ficou conhecida como “gratificação faroeste”. Em meio à crise e aos tiroteios, contou Bueno, a Fiocruz debateu caminhos sobre o que fazer. “A maior parte da instituição defendia que a solução seria retirar a Fiocruz deste campus, ou blindar em grande parte a Fiocruz e suspender ações nos territórios nas favelas. A educação de jovens e adultos surgiu justamente para disputar essa lógica e dizer que a melhor forma de diminuir a violência é oferecer serviços para a população. Felizmente, foi essa lógica que venceu. E hoje a gente está aqui debatendo. Precisamos de mais ações de educação e saúde nos territórios como formas de diminuir a violência. Não de menos”, defendeu.
E isso, segundo ele, tem tudo a ver com o tema da mesa: determinação social da saúde. “A saúde não é um conjunto de fatores naturais. É construída socialmente, uma opção que fazemos como seres humanos e como sociedade”, explicou. Assim, a desigualdade no acesso ao saneamento e a desigualdade com que as violências são distribuídas nos territórios funcionam como uma espécie de caldo de cultura para que certas enfermidades e transtornos apareçam. “Não é genético, é social”, concluiu.
Da EPSJV/Fiocruz, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/11/2018