segunda-feira, 4 de julho de 2022

10 HOMENS MAIS RICOS DO MUNDO TÊM RIQUEZA EQUIVALENTE A 3,1 BILHÕES DE PESSOAS.

 dólar

10 homens mais ricos do mundo têm riqueza equivalente a 3,1 bilhões de pessoas🙈🙈

A riqueza total dos bilionários do mundo é hoje equivalente a 13,9% do PIB global – quase três vezes maior do que o verificado em 2000 (4,4%)

  • Um novo bilionário surgiu no mundo a cada 30 horas nos últimos dois anos, durante a pandemia de Covid-19
  • O total de 2.668 bilionários – 573 a mais que em 2020 — tem uma fortuna que chega a US$ 12,7 trilhões, um aumento de US$ 3,78 trilhões.
  • O mundo poderá ter um milhão de pessoas empurradas para a pobreza extrema a cada 33 horas em 2022, quase a mesma velocidade do surgimento de novos bilionários durante a pandemia (um a cada 30 horas).

O novo estudo da Oxfam Lucrando com a dor, lançado às vésperas da reunião presencial do Fórum Econômico Mundial em Davos (Suíça), revela ainda que O total de 2.668 bilionários do mundo – 573 a mais que em 2020 — tem uma fortuna que chega a US$ 12,7 trilhões, um aumento de US$ 3,78 trilhões.

A riqueza total dos bilionários do mundo é hoje equivalente a 13,9% do PIB global – quase três vezes maior do que o verificado em 2000 (4,4%).

“O aumento das fortunas de um pequeno grupo de pessoas enquanto a maioria da população do mundo enfrenta o drama da fome, falta de acesso à saúde e à educação, falta de perspectiva de vida, é aviltante. Os valores humanos estão escorrendo pelo ralo dos privilégios e da concentração de renda, riqueza e poder”, afirma Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil.

“Esse aumento desproporcional da riqueza de poucos não é celebrável. Ao contrário, é um sinal de alerta, de urgência para que algo seja feito a fim de recolocar a humanidade nos trilhos da inclusão de todos e todas, e de resgate da dignidade de cada pessoa, independente de cor, raça/etnia, gênero, orientação sexual, religião, lugar de origem e território que habita”, diz Katia Maia.

O estudo da Oxfam também revela que as grandes empresas dos setores de energia, alimentação, tecnologia e medicamentos tiveram lucros acima da média, ao mesmo tempo que salários ficaram estagnados e os trabalhadores tendo que encarar a alta nos preços dos produtos básicos.

Setores que mais lucraram: energia, alimentos, tecnologia e medicamentos

Energia: Cinco das maiores empresas de energia (BP, Shell, TotalEnergies, Exxon e Chevron) tiveram US$ 82 bilhões de lucro em 2021 – cerca de US$ 2.600 a cada segundo. Nesse ano, essas empresas pagaram US$ 51 bilhões de dividendos a seus acionistas. Isso significa que 63% de seu lucro líquido foi diretamente para os acionistas.

Alimentos: Os bilionários desse setor tiveram sua riqueza coletiva aumentada em US$ 382 bilhões nos últimos dois anos – um aumento de 45%. Durante a pandemia 62 novos bilionários surgiram no setor. Juntamente com apenas outras três empresas, a família Cargill controla 70% do mercado agrícola global. Em 2021, a Cargill conseguiu seu maior lucro na história – US$ 5 bilhões – e deve bater essa marca em 2022. A família Cargill, sozinha, tem mais de 12 bilionários – eram 8 antes da pandemia.

Medicamentos: A pandemia ajudou a criar 40 novos bilionários na indústria farmacêutica. Empresas como Moderna e Pfizer estão lucrando US$ 1.000 a cada segundo graças ao monopólio que têm sobre as vacinas de Covid-19, apesar de o desenvolvimento desses medicamentos ter sido financiado com bilhões de dólares de dinheiro público. Essas empresas cobram dos governos valores até 24 vezes maiores do que o custo de produção desses remédios.

Tecnologia: A indústria do setor produziu alguns dos homens mais ricos do mundo. Cinco das 21 maiores empresas existentes hoje são companhias de tecnologia (Apple, Microsoft, Tesla, Amazon e Alphabet). Essas cinco empresas lucraram US$ 271 bilhões em 2021, quase o dobro do resultado obtido em 2019 (antes da pandemia).

“Os super-ricos e poderosos estão lucrando com a dor e sofrimento das pessoas. Isso é inadmissível. Alguns ficaram ricos negando a bilhões de pessoas o acesso a vacinas, outros explorando a alta dos preços da comida e da energia”, afirma Katia Maia.

·        Os 10 homens mais ricos do mundo têm mais riqueza do que a combinação de 40% da população mais pobre (equivalente a 3,1 bilhões de pessoas).

·        A riqueza dos 20 maiores bilionários do mundo é mais alta do que o PIB de todos os países localizados na região da África Subsaariana.

·        Um trabalhador médio que está entre os 50% mais pobres da população mundial teria que trabalhar 112 anos para ganhar o que alguém que está no topo da pirâmide recebe em apenas 1 ano.

A Oxfam recomenda:

·        Introdução de taxas sobre lucros extraordinários dos bilionários para financiar apoio às pessoas que enfrentam os altos custos de energia e alimentação pelo mundo, bem como uma recuperação justa e sustentável da pandemia. A Argentina adotou uma taxação especial, chamada de “imposto dos milionários” e agora pensa em criar uma nova taxação, desta vez mirando os lucros obtidos por empresas de energia, e também sobre bens não declarados que estão foram do país, para pagar a dívida com o FMI.

·        Acabar com o lucro sobre a crise introduzindo um imposto temporário sobre lucro excedente de 90% das grandes corporações. A Oxfam estima que, se aplicado às 32 empresas que mais lucraram em 2020, esse novo imposto poderia gerar US$ 104 bilhões.

·        Criação de impostos permanentes sobre a riqueza para regular a extrema riqueza e o poder dos monopólios, bem como reduzir as altas emissões de carbono dos super-ricos. Um imposto anual sobre os milionários começando em apenas 2%, depois 5% para bilionários, poderia gerar US$ 2,52 trilhões por ano – o suficiente para tirar 2,3 bilhões da pobreza extrema, produzir vacinas suficientes para o mundo e oferecer serviços de saúde e proteção social para todos os habitantes de países de renda baixa e média.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 24/05/2022

TEMPESTEDE YAKECAN É MAIS UM ALERTA DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS QUE PRECISA SER OUVIDO.

 Tempestade subtropical Yakecan

Tempestade subtropical Yakecan. Imagem: Climatempo

Tempestade Yakecan é mais um alerta das mudanças climáticas que precisa ser ouvido, por Eduardo Luís Ruppenthale Eliege Fante

Além de aprofundarem as desigualdades, as políticas vigentes expõem ainda mais as populações já vulnerabilizadas, negras, quilombolas e indígenas, aos impactos oriundos das mudanças climáticas

O Fórum Econômico Mundial se realiza em Davos (22 a 26 de maio), contemplando temas como as mudanças climáticas com base no relatório “Estado do clima mundial em 2021”, da Organização Meteorológica Mundial (OMM), lançado em 18 de maio último. Data em que o Rio Grande do Sul ainda era afetado pelos impactos provocados pela Yakecan (“som dos céus” em tupi-guarani), a Tempestade Subtropical que se aproximou do continente na véspera.

O efeito do evento extremo no estado que mais assustou, talvez tenha sido as rajadas de vento entre terça e quarta (17 e 18/05), sendo que as maiores variaram entre 73,5 km/h e 95,8 km/h em alguns municípios. Pois, a previsão era de “alta probabilidade de danos e comprometimento de serviços públicos essenciais como luz e água”, quedas de árvores e postes, destelhamentos, o que chegou a ocorrer em regiões do estado, como em Tavares e MostardasOsórioTramandaí Nova Hartz. Previu-se também ressaca com elevação da maré, por causa dos ventos com o risco de superarem 100 km/h e chuva torrencial. Se não foi “exagero” da meteorologia, como alguns chegaram a sugerir, qual o alerta de Yakecan às demais forças naturais, em especial à humana? E qual a sua relação com o evento na Suíça?

O relatório da OMM, referido anteriormente, informa os limites ultrapassados em 2021, através dos recordes nos indicadores cruciais da mudança climática, como concentrações de gases do efeito estufa, aumento do nível do mar, aumento da temperatura e acidificação dos oceanos, entre outros dados preocupantes. É um complemento ao Sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), publicado entre 2021 e 2022, reforçando a importância das medidas de mitigação e adaptação em torno da descarbonização da economia, principalmente, através da adoção das energias renováveis, que “são o único caminho para uma verdadeira segurança energética, para preços de eletricidade estáveis e oportunidades de emprego sustentável”. Essa foi a manifestação, no lançamento do relatório, feita pelo Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterrez.

A situação de emergência nos países mais empobrecidos, em especial no continente africano, foi lembrada por Guterres. Contudo, a vulnerabilidade dos povos é generalizada no Sul global, em função das renovadas estratégias de acumulação do capital através da espoliação dos territórios e devastação da biodiversidade. As consequências dessas estratégias vão do limite à capacidade de reprodução social dos habitantes, ao genocídio dos povos originários através das violações aos direitos, até a intensificação e aumento da frequência dos fenômenos extremos: furacão Catarina em 2004; microexplosão em Porto Alegre em 2016; microexplosões neste ano em GuaíbaIraí e sul de Porto Alegre.

Sendo assim, o foco dos poderes econômico e político globais, em Davos, sobre a descarbonização da economia, pode ser insuficiente para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. De um lado, por manter o avanço do capital sobre os bens comuns (água, ar, solo, sementes e serviços ecossistêmicos), e através da privatização dos serviços públicos (água, energia e saneamento ambiental) ao transformá-los em mercadoria. De outro lado, por proporcionar uma sobrevida aos setores, até então dependentes da energia fóssil e responsáveis pelos maiores volumes das emissões globais, como siderurgia e mineração, indústria química, geração de eletricidade e produção de fertilizantes.

Urge reconhecer a insustentabilidade do sistema capitalista, indutor do Capitaloceno, ou do Antropoceno (o nome escolhido para confirmar a era geológica a suceder o Holoceno). Por isso, as políticas dos governos, como do negacionista Bolsonaro (PL) e dos neoliberais Ranolfe/Leite (PSDB) e Sebastião Melo (MDB), níveis federal, estadual e municipal, precisam ser derrotadas nas próximas eleições.

Além de aprofundarem as desigualdades, as políticas vigentes expõem ainda mais as populações já vulnerabilizadas, negras, quilombolas e indígenas, aos impactos oriundos das mudanças climáticas. Os agravos recentes na situação dos direitos e das conquistas democráticas favorecem os de cima (1%), seja através das medidas anti-ambientais que contribuem para intensificar as causas das mudanças climáticas, seja pelo desmonte dos órgãos públicos ambientais, dos retrocessos na legislação (as “boiadas”), dos ataques à Ciência e à Educação ou do desinvestimento nas pesquisas e nas estruturas dessas áreas.

A Yakecan veio mostrar ao Rio Grande do Sul tanto o agravamento dos efeitos das mudanças climáticas, através dos impactos e dos prejuízos registrados durante a semana passada, como a distância tomada pelos poderes político e econômico globais em detrimento do que é de primeira necessidade à sociobiodiversidade planetária.

Eduardo Luís Ruppenthal é biólogo, professor da rede pública estadual, especialista em Meio Ambiente e Biodiversidade (UERGS), mestre em Desenvolvimento Rural (PGDR-UFRGS), militante do coletivo Alicerce e da Setorial Ecossocialista do PSOL/RS.

Eliege Fante é jornalista, mestra e doutora em Comunicação e Informação pelo PPGCOM-UFRGS, é associada ao Núcleo de Ecojornalistas do RS.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/05/2022

QUE OS SINTOMAS VOLTEM A SER DRAMAS.

 artigo de opinião

Que os sintomas voltem a ser dramas, artigo de Montserrat Martins

“A função do terapeuta é fazer com que os sintomas voltem a ser dramas existenciais”
Maurizio Andolfi

Se você sente palpitações, sua frio e acha que vai morrer do coração, mas os médicos não encontram nada de errado nos seus exames, você está tendo um episódio de síndrome do pânico, uma das formas mais frequentes de ansiedade aguda nos dias de hoje.

Palpitações, suor, medo de morrer, são o que se chama de “sintomas”, enquanto a síndrome do pânico é o diagnóstico do seu tipo de transtorno.

O que psiquiatras e psicólogos sabem é que os seus sintomas, antes de se tornarem sintomas, eram angústias, temores, conflitos, ou seja, emoções e pensamentos desagradáveis que você queria evitar, por isso eles foram tirados do seu pensamento e depositados no seu inconsciente.

Quando Anfolfi diz que “a função do terapeuta é fazer com que os sintomas voltem a ser dramas existenciais” ele está dizendo que para que a terapia funcione é preciso descobrir o que está “´por trás” daquelas palpitações, do suor, do medo de morrer.

Trazer os conteúdos do inconsciente à tona, durante a terapia, para serem examinados num ambiente de empatia, onde se possam encontrar outras alternativas existenciais para aqueles sentimentos e ideias desagradáveis.

Se chama de “repressão” o mecanismo psicológico que faz com que uma vivência desagradável, em vez de ser resolvida, vá ser depositada, “escondida”, no inconsciente. Isso acontece desde a infância, são os sentimentos e pensamentos “não aceitos” no ambiente em que você vive que são reprimidos e você “se esquece” deles, mas eles estão lá no fundo, bem guardados.

Uma criança se sente frágil e vulnerável diante dos adultos, necessita de afeto, cuidados, aceitação, assim começamos é que surge a “incongruência” entre o que vivenciamos e o que temos consciência. Por exemplo, não gostamos de algo, mas não é permitido não gostar. Ou o contrário, gostamos de algo, mas é “feio” gostar. Imagine qualquer coisa que você gostasse ou não na sua infância, mas isso não era permitido a você.

Lembro de uma sessão de terapia de família onde um paciente já adulto contava seus sintomas e o psiquiatra respondeu assim: “Isso não é nada, diante de ver sua mãe colocar o seu padrasto para dentro de casa”. O terapeuta captara os sentimentos de ciúmes do filho diante do novo relacionamento da mãe, mas ter ciúmes da mãe não era aceito socialmente.

Os exemplos são infinitos, pense nas suas emoções reprimidas, pense nos seus dramas existenciais, pense nos seus sintomas e observe se há uma associação entre as duas coisas. Os medicamentos e a psicoterapia são métodos para resolver sofrimentos que se apresentam como sintomas psiquiátricos mas que tem como pano de fundo sofrimentos humanos, profundamente humanos.

Montserrat Martins é Médico Psiquiatra

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/05/2022

VARÍOLA DOS MACACOS- ENTENDA O QUE É E SEUS SINTOMAS.

 Varíola dos macacos – entenda o que é e seus sintomas

Varíola dos macacos é causada por um vírus que infecta macacos, mas que incidentalmente pode contaminar humanos. Saiba o que é, seus sintomas e tratamento

O trauma naturalmente causado por uma pandemia acaba por deixar muitas pessoas preocupadas quando veem, logo em seguida, alertas sobre o surgimento de uma doença em locais onde antes ela não era detectada. É o que ocorreu após notícias de que humanos se contaminaram com a chamada varíola dos macacos, doença que é endêmica em países africanos, mas sua disseminação para países não endêmicos, como na Europa e nos Estados Unidos, causou apreensão. Até agora, existem mais de 200 casos confirmados ou suspeitos em cerca de 20 países onde o vírus não circulava anteriormente.

Diante dessa situação, a Agência Brasil consultou fontes e especialistas para elucidarem eventuais dúvidas sobre o que é a varíola dos macacos, bem como sobre sintomas, riscos, formas de contágio e sobre o histórico dessa doença que recentemente tem causado tanta preocupação nas pessoas.

Médico infectologista do Hospital Universitário de Brasília (UnB), André Bon trata de tranquilizar os mais preocupados. “De maneira pouco frequente essa doença é grave. A maior gravidade foi observada em casos de surtos na África, onde a população tinha um percentual de pacientes desnutridos e uma população com HIV descontrolado bastante importante”, explica o especialista.

Segundo ele, no início dos anos 2000 houve um surto da doença nos Estados Unidos. “O número de óbitos foi zero, mostrando que, talvez, com uma assistência adequada, identificação precoce e manejo adequado em uma população saudável, não tenhamos grandes repercussões em termos de gravidade”.

O grupo que corre maior risco são as crianças. Quando a contaminação abrange grávidas, o risco de complicações é maior, podendo chegar a varíola congênita ou até mesmo à morte do bebê.

Uma publicação do Instituto Butantan ajuda a esclarecer e detalhar o que vem a ser a varíola dos macacos. De acordo com o material, a varíola dos macacos é uma “zoonose silvestre” que, apesar de em geral ocorrer em florestas africanas, teve também relatos de ocorrência na Europa, nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália e, mais recentemente, na Argentina.

Histórico e ocorrências

A varíola dos macacos foi descoberta pela primeira vez em 1958, quando dois surtos de uma doença semelhante à varíola ocorreram em colônias de macacos mantidos para pesquisa. O primeiro caso humano dessa variante foi registrado em 1970 no |Congo. Posteriormente, foi relatada em humanos em outros países da África Central e Ocidental.

“A varíola dos macacos ressurgiu na Nigéria em 2017, após mais de 40 anos sem casos relatados. Desde então, houve mais de 450 casos relatados no país africano e, pelo menos, oito casos exportados internacionalmente”, complementa a publicação recentemente divulgada pelo instituto.

Segundo o instituto, entre 2018 e 2021 foram relatados sete casos de varíola dos macacos no Reino Unido, principalmente em pessoas com histórico de viagens para países endêmicos. “Mas somente este ano, nove casos já foram confirmados, seis deles sem relação com viagens”.

Varíola dos macacos, monkeypox
Portugal confirmou mais de 20 casos de varíola dos macacos – REUTERS/Dado Ruvic

Casos recentes

Portugal confirmou mais de 20 casos, enquanto a Espanha relatou pelo menos 30. Há também pelo menos um caso confirmado nos Estados Unidos, no Canadá, na Alemanha, na Bélgica, na França e na Austrália, segundo a imprensa e os governos locais, conforme informado pelo Butantan.

“Neste possível surto de 2022, o primeiro caso foi identificado na Inglaterra em um homem que desenvolveu lesões na pele em 5 de maio, foi internado em um hospital de Londres, depois transferido para um centro especializado em doenças infecciosas até a varíola dos macacos ser confirmada em 12 de maio. Outro caso havia desenvolvido as mesmas lesões na pele em 30 de abril, e a doença foi confirmada em 13 de maio”, informou o Butantan.

Mais quatro casos foram confirmados pelo governo britânico no dia 15 de maio, e, no dia 18, mais dois casos foram informados – nenhum deles envolvendo alguém que tivesse viajado ou tido contado com pessoas que viajaram, o que indica possível transmissão comunitária da doença.

Dois tipos

De acordo com o instituto, esse tipo de varíola é causada por um vírus que infecta macacos, mas que incidentalmente pode contaminar humanos. “Existem dois tipos de vírus da varíola dos macacos: o da África Ocidental e o da Bacia do Congo (África Central). Embora a infecção pelo vírus da varíola dos macacos na África Ocidental às vezes leve a doenças graves em alguns indivíduos, a doença geralmente é autolimitada (que não exige tratamento)”, explica o instituto.

André Bon descreve essa varíola como uma “doença febril” aguda, que ocorre de forma parecida à da varíola humana. “O paciente pode ter febre, dor no corpo e, dias depois, apresentar manchas, pápulas [pequenas lesões sólidas que aparecem na pele] que evoluem para vesículas [bolha contendo líquido no interior] ate formar pústulas [bolinhas com pus] e crostas [formação a partir de líquido seroso, pus ou sangue seco]”.

De acordo com o Butantan, é comum também dor de cabeça, nos músculos e nas costas. As lesões na pele se desenvolvem inicialmente no rosto para, depois, se espalhar para outras partes do corpo, inclusive genitais. “Parecem as lesões da catapora ou da sífilis, até formarem uma crosta, que depois cai”, detalha. Casos mais leves podem passar despercebidos e representar um risco de transmissão de pessoa para pessoa.

Paciente durante investigação de varíola de macaco.
Varíolas dos macacos causa pequenas lesões na pele – CDC/BRIAN W.J. MAHY

Transmissão e prevenção

No geral, a varíola dos macacos pode ser transmitida pelo contato com gotículas exaladas por alguém infectado (humano ou animal) ou pelo contato com as lesões na pele causadas pela doença ou por materiais contaminados, como roupas e lençóis, informa o Butantan. Uma medida para evitar a exposição ao vírus é a higienização das mãos com água e sabão ou álcool gel.

O médico infectologista do HUB diz que a principal forma de prevenção dessa doença – enquanto ainda apresenta “poucos casos no mundo” e está “sem necessidade de alarde” – tem como protagonistas autoridades de saúde. “Elas precisam estar em alerta para a identificação de casos, isolamento desses casos e para o rastreamento dos contatos”, disse.

“Obviamente a utilização de máscaras, como temos feitos por causa da covid-19 por ser doença de transição respiratória por gotículas e evitar contato com lesões infectadas é o mais importante nesse contexto”, enfatiza Bon ao explicar que a varíola dos macacos é menos transmissível do que a versão comum.

O Butantan ressalta que residentes e viajantes de países endêmicos devem evitar o contato com animais doentes (vivos ou mortos) que possam abrigar o vírus da varíola dos macacos (roedores, marsupiais e primatas). Devem também “abster-se de comer ou manusear caça selvagem”.

O período de incubação da varíola dos macacos costuma ser de seis a 13 dias, mas pode variar de cinco a 21 dias, conforme relato do Butantan. Por isso pessoas infectadas precisam ficar isoladas e em observação por 21 dias.

Vacinas

André Bon explica que as vacinas contra varíola comum protegem também contra a varíola dos macacos. Ele, no entanto, destaca que não há vacinas disponíveis no mercado neste momento.

“Há apenas cepas guardadas para se for necessário voltarem a ser reproduzidas. Vale lembrar que a forma como a vacina da varíola era feita antigamente não é mais utilizada no mundo. Era uma metodologia um pouco mais antiga e atrasada. Hoje temos formas mais tecnológicas e seguras de se fazer a vacina, caso venha a ser necessário”, disse o médico infectologista.

Bon descarta a imediata necessidade de vacina no atual momento, uma vez que não há número de casos que justifiquem pressa. “O importante agora é fazer a observação de casos suspeitos”, disse.

O Butantan confirma que a vacinação contra a varíola comum tem se mostrado bastante eficiente contra a varíola dos macacos. “Embora uma vacina (MVA-BN) e um tratamento específico (tecovirimat) tenham sido aprovados para a varíola, em 2019 e 2022, respectivamente, essas contramedidas ainda não estão amplamente disponíveis”.

“Populações em todo o mundo com idade inferior a 40 ou 50 anos não tomam mais a vacina, cuja proteção era oferecida por programas anteriores de vacinação contra a varíola, porque estas campanhas foram descontinuadas”, informou o instituto.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 29/05/2022

domingo, 3 de julho de 2022

AS ENERGIAS RENOVÁVEIS BATERAM RECORDES DE CRESCIMENTO EM 2021.

As energias renováveis bateram recordes de crescimento em 2021, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

O mundo precisa urgentemente descarbonizar a economia e recuperar os ecossistemas, além de ampliar as áreas anecúmenas e promover o bem-estar de todas as espécies vivas do Planeta

As energias renováveis bateram recordes de crescimento em 2021, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). Apesar dos persistentes desafios gerados pelo rompimento das cadeias de suprimentos dos insumos industriais provocado pela pandemia da covid-19, os incrementos de capacidade da energia renovável aumentaram 6% e quebraram mais um recorde, atingindo cerca de 295 GW (cerca de 20 usinas de Itaipu). Esse crescimento é um pouco maior do que o previsto no ano passado pela própria IEA.

Cabe destacar que este crescimento ocorreu antes da invasão russa da Ucrânia e deixa claro que o avanço da transição energética ocorre principalmente em períodos de paz e não de guerra. Superar a Era dos combustíveis fósseis é urgente para diminuir a emissão de gases de efeito estufa, implementar a chamada “carbonização reversa” e evitar um aquecimento global catastrófico.

Globalmente, houve um declínio de 17% nas adições anuais de capacidade eólica em 2021. Porém, isto foi compensado por um aumento na energia solar fotovoltaica e crescimento nas instalações hidrelétricas. A expansão de bioenergia, energia solar concentrada (CSP) e geotérmica ficou estável em 2021 em comparação com 2020. Em termos de velocidade de crescimento, o aumento ano a ano da capacidade renovável em 2021 foi mais lento, após um salto excepcional em 2020, conforme mostra o gráfico abaixo.

aumento global da capacidade produtiva das energias renováveis

 

A China manteve a liderança isolada na participação de mercado das novas implantações em 2021, respondendo por 46% das adições de capacidade renovável em todo o mundo. No entanto, a nova capacidade chinesa diminuiu 2% em relação ao ano anterior, conforme mostra o gráfico abaixo. A Europa ocupa o segundo lugar no aumento da capacidade instalada, bem atrás da China, mas à frente dos Estados Unidos. A Índia tem avançado, mas bem atrás da China, da Europa e dos EUA. O mesmo pode-se dizer da América Latina. Mas de modo geral há um avanço das energias renováveis em todo o mundo.

capacidade instalada das energias renováveis por países e regiões

 

Em meio à crise energética global e ao agravamento da emergência climática, a ONU e seus parceiros lançaram em maio de 2022 duas novas iniciativas para acelerar a ação para alcançar energia limpa e acessível para todos e a meta ambiciosa de emissões líquidas zero de carbono. O Plano de Ação da ONU-Energia para 2025 cumpre os compromissos assumidos em uma reunião de alto nível em setembro, que estabeleceu um roteiro global para acesso e transição à energia até o final da década, além de contribuir para emissões líquidas zero até 2050. Uma Energy Compact Action Network também foi lançada para combinar governos que buscam apoio para suas metas de energia limpa com governos e empresas que já prometeram mais de US$ 600 bilhões em assistência.

Contudo, mesmo que o mundo consiga chegar a 100% de energia renovável em 2050, a concentração de CO2 na atmosfera (que chegou a 421 ppm em maio de 2022) pode ultrapassar 500 ppm até 2050 e tornar o aquecimento global incontrolável nos limites necessários para evitar uma tragédia ambiental e civilizacional.

De fato, o mundo baseado na energia renovável é não só desejável com é inevitável. Por isto se diz: “O futuro será renovável ou não haverá futuro”. Porém, embora o avanço das energias renováveis seja um fato auspicioso e esteja ocorrendo num ritmo mais rápido do que o previsto no início do atual século, a humanidade continua queimando hidrocarbonetos e aumentando as emissões de gases de efeito estufa a uma taxa alarmante.

Não é simples fazer a transição energética. Um estudo publicado na revista Nature Climate Change (2022), disse que a taxa de mudança necessária para enfrentar a crise climática é tão grande que o rápido colapso das indústrias de combustíveis fósseis apresenta grandes riscos de transição. Os pesquisadores estimaram que os projetos de petróleo e gás existentes no valor de US$ 1,4 trilhão perderiam seu valor se o mundo se movesse decisivamente para reduzir as emissões de carbono e limitar o aquecimento global a 2°C. Ao rastrear muitos milhares de projetos através de 1,8 milhão de empresas até seus proprietários finais, a equipe descobriu que a maioria das perdas seria suportada por pessoas individuais por meio de suas pensões, fundos de investimento e participações acionárias.

Além do mais, existem muitas dúvidas se o aumento da capacidade instalada de energias renováveis será capaz de funcionar em uma rede inteligente global. Gail Tverberg (30/01/2017) considera que existe muita ilusão sendo vendida em nome das energias “limpas”. Embora, sem dúvida, o avanço da transição energética é melhor do que a dependência dos combustíveis fósseis. O sol e o vento são recursos naturais abundantes e renováveis, mas, certamente, não podem fazer milagres e nem evitar o imperativo do metabolismo entrópico, como ensina a escola da Economia Ecológica.

A humanidade já ultrapassou a capacidade de carga do Planeta. Como alertou o ambientalista Ted Trainer (2012), as energias renováveis não são suficientes para manter o crescimento exponencial da expectativa das pessoas por um alto padrão de consumo conspícuo. Trainer prega um mundo mais frugal, com decrescimento demoeconômico, onde as pessoas adotem um estilo de vida com base nos princípios da Simplicidade Voluntária.

O mundo precisa urgentemente descarbonizar a economia e recuperar os ecossistemas, além de ampliar as áreas anecúmenas e promover o bem-estar de todas as espécies vivas do Planeta. Zerar o desmatamento e as queimadas, plantar árvores e recuperar as florestas é uma necessidade urgente.

Acima de tudo, a mudança da matriz energética é uma condição necessária, mas não suficiente para enfrentar a crise climática e ecológica. É também uma condição necessária, mas não suficiente para evitar as guerras pelo petróleo. Evidentemente, a revolução econômica e comportamental para salvar a vida no Planeta vai muito além do simples crescimento das energias renováveis. Mas não haverá um mundo pacífico e sustentável se não for planejado o fim do mundo dos combustíveis fósseis e dos privilégios sociais que o petróleo sustenta.

A humanidade já superou a capacidade de carga da Terra e aumenta a probabilidade de um colapso sistêmico global. A Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgou um relatório em maio de 2022, mostrando que houve recorde negativo em quatro indicadores-chave da crise climática: concentrações de gases de efeito estufa, aumento do nível do mar, calor e acidificação dos oceanos. Assim, o mundo precisa de um decrescimento demoeconômico global e a transição energética é um passo essencial para o processo de descarbonização da economia.

Relatório da consultoria Deloitte, mostra que se o mundo agir imediatamente para atingir rapidamente emissões líquidas zero até meados do século, limitando o aquecimento global a até 1,5°C até o final do século, a transformação da economia prepararia o mundo para um crescimento econômico mais forte até 2070. Tal transformação poderia aumentar o tamanho da economia mundial em US$ 43 trilhões em termos de valor presente líquido de 2021-2070.

Ao contrário, se a mudança climática não for controlada ela pode custar à economia global US$ 178 trilhões em termos de valor presente líquido de 2021-2070. Os custos humanos seriam muito maiores: falta de comida e água, perda de empregos, piora da saúde e do bem-estar, redução do padrão de vida.

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. Ascensão e queda da civilização dos combustíveis fósseis, Ecodebate, 02/04/2014
http://www.ecodebate.com.br/2014/04/02/ascensao-e-queda-da-civilizacao-dos-combustiveis-fosseis-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

Gail Tverberg. The “Wind and Solar Will Save Us” Delusion, Our Finite World, 30/01/2017
https://ourfiniteworld.com/2017/01/30/the-wind-and-solar-will-save-us-delusion/

Ted Trainer. Can Renewable Energy Sustain Consumer Society, 2012
https://simplicityinstitute.org/wp-content/uploads/2011/04/CanRenewableEnergySustainConsumerSocietiesTrainer.pdf

IEA. Renewable Energy Market Update, International Energy Agency, May 2022
https://www.iea.org/reports/renewable-energy-market-update-may-2022/renewable-electricity

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in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/05/2022