domingo, 25 de setembro de 2016

SÍRIA : ONU CONDENA ATAQUE EM ALEPO.

ONU condena ataque a comboio humanitário e armazém em Alepo, na Síria


Atentado resultou na morte de 20 civis e um funcionário da Cruz Vermelha, além da destruição da carga de ajuda humanitária contendo medicamentos e comida. “Os autores deste ato devem saber que um dia serão responsabilizados por violações de leis internacionais humanitárias e de direitos humanos”, disse o chefe humanitário da ONU.
Destruição na cidade de Aleppo, Síria. Foto: UNESCO.
Destruição na cidade de Alepo, Síria. Foto: UNESCO.
Autoridades das Nações Unidas condenaram o ataque desta segunda-feira (19) contra um comboio de ajuda humanitária da ONU e da Federação Internacional da Cruz Vermelha e Crescente Vermelho (FICV) e contra um armazém da FICV e uma clínica de saúde em Urum al-Kubra, noroeste de Alepo, na Síria.
O ataque resultou na morte de 20 civis e um funcionário da FICV, além da destruição da carga de ajuda humanitária contendo medicamentos e comida.
Os ataques aconteceram após relatos de que o exército sírio anunciou o fim do cessar-fogo. O acordo começou no dia 12 de setembro, buscando reduzir a violência por sete dias consecutivos e a garantia de acesso à ajuda humanitária.
“Notificações sobre o comboio – que ajudaria aproximadamente 78 mil pessoas – foram enviadas a todos os envolvidos no conflito, e o comboio estava claramente marcado como humanitário. Não há explicações ou desculpas, nenhum motivo ou razão para entrar em guerra com os corajosos e altruístas trabalhadores humanitários tentando auxiliar pessoas que precisam desesperadamente de ajuda”, disse o chefe humanitário da ONU, Stephen O’Brien, em declaração enviada na segunda.

Caso este cruel bombardeio tenha sido um ataque deliberado à ajuda humanitária, será considerado um crime de guerra, disse o chefe humanitário da ONU

O’Brien, que ocupa o cargo de subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários, condenou enfaticamente os ataques e afirmou estar “indignado e horrorizado com as notícias”. Ele enfatizou que leis internacionais humanitárias e de direitos humanos estabelecem responsabilidades básicas para as partes em confronto para garantir a proteção necessária a todas as organizações humanitárias, incluindo funcionários, instalações e outros recursos de ajuda humanitária.
“Caso este cruel bombardeio tenha sido um ataque deliberado à ajuda humanitária, será considerado um crime de guerra”, afirmou, exigindo uma investigação imediata, imparcial e independente do caso.
“Os autores deste ato devem saber que um dia serão responsabilizados por violações de leis internacionais humanitárias e de direitos humanos”, complementou.
O’Brien observou que apesar das perigosas e difíceis condições de operação, organizações de ajuda humanitária continuam empenhadas em seu trabalho de ajuda aos necessitados.
Ele reiterou o pedido pelo acesso incondicional, livre, rápido e contínuo às milhões de pessoas necessitadas, principalmente àquelas em locais de difícil acesso e sitiados na Síria. “Este horror precisa acabar agora, mais do que nunca”, ressaltou.

ONU suspende comboios humanitários

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, falou sobre o assunto durante a abertura do debate anual da Assembleia Geral das Nações Unidas, ressaltando que a crise na Síria está “resultando em inúmeras mortes e gerando ampla instabilidade”.
“Bem quando achamos que não poderia ficar pior, a situação fica ainda mais perversa. O cruel, brutal e aparentemente deliberado ataque ao comboio da ONU e do Crescente Vermelho é o mais recente exemplo”, afirmou o chefe da ONU.

“Ataque cruel, brutal e aparentemente deliberado”, afirma chefe da ONU

“As Nações Unidas foram forçadas a suspender comboios humanitários como resultado deste atentado. Os trabalhadores humanitários foram heróis. Aqueles que os mataram foram covardes. A responsabilização por crimes como esse é essencial”, disse o secretário-geral.
O presidente da Assembleia Geral, Peter Thomson, lembrou que a crise na Síria continua trazendo um imenso sofrimento humano, tanto para as pessoas que permanecem em condições subumanas no país quanto para as que fugiram buscando refúgio. “O ataque deliberado à equipe humanitária é uma violação flagrante do direito internacional e é moralmente inaceitável”, afirmou.
A diretora-executiva do Programa Mundial de Alimentos da ONU (PMA), Ertharin Cousin, disse estar “horrorizada” com o ataque. “Este atentado aos esforços humanitários na Síria não irá, no entanto, dissuadir o PMA de continuar agindo de forma a salvar vidas por todo o país”, disse Cousin.

Comissão independente da ONU pede responsabilização

Em um outro comunicado de imprensa, a Comissão Internacional Independente de Inquérito para a Síria também condenou fortemente os ataques.
“Este atentado vem em um momento crítico, em que a livre e rápida entrega de ajuda às áreas sitiadas foi acordada como uma parte essencial do cessar-fogo mediado entre os Estados Unidos e a Rússia. Em um momento em que as partes em guerra deveriam apoiar a entrega de apoio humanitário, o fornecimento foi deliberadamente impedido ou atacado”, afirmou a Comissão.
O presidente da Comissão, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, classificou o incidente como “particularmente cruel para as pessoas na Síria, quando a prioridade deveria ser na melhoria da situação humanitária dos civis em áreas sitiadas”.
Fonte : ONUBRASIL

OS CINCO MELHORES TRANSPORTES PÚBLICOS DO MUNDO.

Os 5 melhores transportes públicos do mundo

Confira as cidades em que a qualidade da mobilidade urbana é priorizada.
22 de setembro de 2016 • Atualizado às 10 : 50
Os 5 melhores transportes públicos do mundo
Tóquio tem o sistema de transporte mais complexo e completo. | Foto: iStock by GettyImages
A qualidade do transporte público é um problema em vários países e não é novidade que na lista está incluído o Brasil. Mas, hoje vamos falar dos lugares que podem servir de inspiração. Listado pelo site Inhabitat, clique nas imagens para conferir cada uma das cidades onde estão os melhores sistemas de transporte público:
5º lugar: Moscou (Rússia)
| Foto: iStock by GettyImages
| Foto: iStock by GettyImages
Apesar de inaugurado há quase oitenta anos, em 1935, o sistema da capital russa é um dos mais pontuais do mundo. Mais de 8 milhões de passageiros utilizam diariamente o sistema ferroviário de Moscou, que tem 305 km de extensão.
4º lugar: Paris (França)
| Foto: iStock by GettyImages
| Foto: iStock by GettyImages
Independentemente de em que lugar de Paris você esteja, é possível encontrar uma estação de metro a cada 500 metros: são pelo menos 300 espalhadas pela cidade, interligando todas as áreas. E, para que as pessoas possam completar seus trajetos da melhor forma possível, a capital francesa ainda tem um sistema de aluguel de bicicletas com 1.400 estações.
3º lugar: Londres (Inglaterra)
| Foto: iStock by GettyImages
| Foto: iStock by GettyImages
A cidade do Big Ben tem o maior e mais antigo metrô do mundo. O Metropolitano de Londres, ou London Underground, que começou a operar 1863, ainda hoje é um dos mais eficientes, com 268 estações e cerca de 400 km de extensão. Além disso, a capital inglesa conta com uma vasta rede de ônibus, trens na superfície e bondes suburbanos que garantem a mobilidade diária da população londrina.
2º lugar: Nova York (Estados Unidos)
| Foto: iStock by GettyImages
| Foto: iStock by GettyImages
Na maior cidade dos EUA, as possibilidades de locomoção são muitas: ônibus, trem, metrô, bicicletas, balsas e até faixas exclusivas para pedestres fazem da cidade um dos melhores lugares do mundo para se deslocar utilizando o transporte público. Todos os sistemas funcionam 24 horas por dia, de forma a atender toda a demanda da cidade.
E o primeiríssimo lugar vai para:
1º lugar: Tóquio (Japão)
Tóquio tem o sistema de transporte mais complexo e completo. | Foto: iStock by GettyImages
| Foto: iStock by GettyImages
A capital japonesa é uma das maiores cidades do mundo e tem o sistema de transporte mais complexo – e completo – do mundo: ônibus, metrô, balsas, VLTs, BRTs, diversas formas de locomoção somam cerca de 10,5 bilhões de viagens por ano. Com uma rede tão extensa, o sistema de transporte público é a espinha dorsal da cidade e a primeira opção da população para se deslocar.
Redação CicloVivo

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A GEOPOLÍTICA TAMBÉM PASSA POR ASSIS.





    Chefes e representantes das comunidades religiosas se reúnem novamente em Assis para pedir na oração o dom da paz. E também desta vez há alguns que procuram voltar a esgrimir as desgastadas acusações sobre o perigo de “sincretismo”, durante o evento inter-religioso que está sendo realizado na cidade de São Francisco. A mesma polêmica surgiu há trinta anos com a primeira jornada de oração pela paz convocada em Assis por São João Paulo II. Desde então, pretendia desviar a atenção coletiva e obscurecer a razão principal pela qual o Papa polonês convocou a cúpula inédita entre líderes religiosos: seu valor geopolítico.
    A reportagem é de Gianni Valente, publicada por Vatican Insider, 20-09-2016. A tradução é do Cepat.

    Nas análises compartilhadas pelos historiadores, João Paulo II, durante seus primeiros anos de Pontificado, com gestos concretos e solidariedade, contribuiu para abrir as primeiras frestas no muro comunista e para colocar em marcha o processo que, dez anos depois, levaria ao colapso de todo o sistema. Na época da “Reagan revolution”, a relação entre a Casa Branca e a Santa Sé era descrita pelos meios de comunicação como “Santa aliança” contra o “Império do mal”. E, nesse contexto, o próprio encontro inter-religioso de oração pela paz, convocado em Assis no dia 27 de outubro de 1986, representa também uma operação geopolítica de alto nível. O objetivo, não proclamado, era o de arrebatar do mundo comunista o léxico pacifista monopolizado durante décadas pela propaganda soviética, reivindicando para a “internacional das religiões” o compromisso pela paz. 

    “Não rezamos em vão em Assis”, disse João Paulo II, após 1989, referindo-se aos eventos daquele ano nos quais, segundo sua opinião, “Deus vicit”, venceu Deus. Palavras que aparecem citadas na biografia de Wojtyla escrita pelo historiador Andrea Riccardi, fundador da Comunità di Sant’Egidio, que teria se encarregado de manter vivo em seus encontros inter-religiosos anuais o “espírito de Assis”. Segundo Riccardi, o evento “de Assis, em 1986, revela o primado moral assumido pelo Pontificado romano com Wojtyla”. Com aquele gesto, João Paulo II reivindicava “o caráter religioso do compromisso pela paz”, porque acreditava na eficácia da oração e no “vínculo intrínseco que une uma autêntica atitude religiosa e o grande bem da paz”.

    As intenções geopolíticas do encontro inter-religioso de Assis também foram confirmadas pelo cardeal Stanislaw Dziwisz, que foi secretário pessoal do Papa polonês, em uma entrevista ao jornal italiano La Stampa, de 4 de setembro de 2006: “Havia muita ideologia no pacifismo tal e como cresceu nos países do leste”, disse nessa ocasião o cardeal polonês, e acrescentou que justamente a primeira jornada de oração de Assis “retirou a ideologia da paz e colocou a paz no centro das prioridades do mundo”.

    Durante as décadas seguintes, a simpatia com os sujeitos religiosos e as comunidades de fé (redescoberta pela Igreja católica sem cair em sincretismos e, pelo menos em parte, alimentada pelo discernimento que surgiu com o último Concílio) declinou de diferentes maneiras, nas circunstâncias e nas mudanças dos cenários globais. Na Conferência da ONU sobre a população e o desenvolvimento (de setembro de 1994), no Cairo, e na sobre a mulher, em Pequim (setembro de 1995), a Santa Sé formou uma frente comum com muitos países islâmicos a respeito de questões de bioética e moral, e entrou em colisão com a linha de Clinton. Frente à Guerra do Golfo de George Bush pai (1990-1991) e as novas intervenções estadunidenses no Oriente Médio, desencadeadas após os atentados de 11 de setembro de 2001, a Igreja católica conduzida por João Paulo II e depois por Bento XVI se distanciou das pressões dos círculos do Ocidente que queriam envolvê-la em uma chave anti-islâmica. 

    Trinta anos após Assis 1986, o Encontro Inter-religioso de Assis 2016 tem como motor a preocupação compartilhada por um mundo que vive convulsões de guerra e obscuras enfermidades, onde há décadas não existem conflitos ou atos de terror (de Sarajevo a Bagdá, passando pela Nigéria, Filipinas, Afeganistão e Indonésia) que não abeberam nos sectarismos étnicos e religiosos. Os líderes religiosos de hoje já não devem enfrentar em comum o comunismo ateu ou o secularismo relativista. Tampouco se trata de reivindicar uma presumida e desmentida “pureza” da esfera da religião frente às misérias da política e dos interesses econômicos ou de poder mundanos. 

    A frente da “guerra em pedaços”, citada constantemente pelo Papa Francisco, não contrapõe as diferentes religiões. A linha da frente passa transversalmente por todas as sociedades e comunidades de fé. Em cada família religiosa distingue entre o povo dos crentes que confiam o desejo de paz a Deus e as tropas seletas dos “facilitadores do Apocalipse”. Demonstra que a guerra é entre o mundo e os que querem “acelerar” o fim do mundo, sem descuidar dos lucros que aumentam com o tráfico de armas. 

    O Papa Francisco repete que uma via de escape para sair da espiral do auto aniquilamento promovida pelas agências do terror só pode ser buscada junto e não “contra” os demais. E também segue contra a corrente em relação às estratégias que pretendem intimidar, humilhar e isolar indiscriminadamente a multidão orante do islã. O “Papa Francisco”, conforme disse em Assis, domingo passado, Mohammed Sammak, conselheiro político do Grão-Mufti do Líbano, “se propôs como líder espiritual para toda a humanidade, quando disse que não há nenhuma religião criminosa, mas há criminosos em todas as religiões”.
    Fonte : Instituto Humanitas Unisinos

    BAUMAN: "AS GUERRAS RELIGIOSAS? APENAS UMA DAS OFERTAS DO MERCADO"


    colunastortas.com.br
    "As guerras religiosas? Apenas uma das ofertas do mercado." Encontramos em Assis, antes do seu discurso, Zygmunt Bauman, o mais importante estudioso da sociedade pós-moderna, que contou em páginas memoráveis a angústia do homem contemporâneo. E ele nos fala sobre o desafio do diálogo.
    A reportagem é de Stefania Falasca, publicada no jornal Avvenire, 20-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

    Eis a entrevista.

    Professor, a sua intuição sobre a pós-modernidade líquida continua oferecendo um olhar lúcido sobre o tempo presente. Mas, nessa liquidez, registra-se uma explosão de nacionalismos, identitarismos religiosos. Como podem ser explicados?

    Comecemos pelo problema da guerra. O nosso mundo contemporâneo não vive uma guerra orgânica, mas fragmentada. Guerras de interesse, por dinheiro, por recursos, para governar as nações. Eu não a chamo de guerra religiosa. Existem outros que querem que seja uma guerra religiosa. Eu não pertenço àqueles que querem levar a acreditar que seja uma guerra entre religiões. É preciso estar atento para não seguir a mentalidade corrente. Especialmente a mentalidade introduzida pelo cientista político de plantão, pela mídia, por aqueles que querem obter consenso, dizendo aquilo que eles queriam ouvir. Você sabe muito bem que, em um mundo permeado pelo medo, este penetra a sociedade. O medo tem as suas raízes na ansiedade das pessoas, e, embora tenhamos situações de grande bem-estar, vivemos em um grande medo, o medo de perder posições. As pessoas têm medo de ter medo, mesmo sem se darem uma explicação do motivo. E esse medo tão móvel, inexpressivo, que não explica a sua origem, é um ótimo capital para todos aqueles que querem utilizá-lo por motivos políticos ou comerciais. Assim, falar de guerras e de guerras religiosas é apenas uma das ofertas do mercado.

    Ao pânico das guerras religiosas, soma-se o das migrações. Ainda há alguns anos, Umberto Eco dizia que, para aqueles que queriam capitalizar sobre o medo das pessoas, o problema da emigração tinha chegado como um presente do céu...

    Sim, é verdade. Guerras religiosas e imigração são nomes diferentes dados hoje para explorar esse medo vago e incerto, mal expressado e mal compreendido. No entanto, estamos aqui cometendo um erro existencial, confundindo dois fenômenos diferentes: um é o fenômeno das migrações, e o outro é o fenômeno da imigração, como observouUmberto Eco. Não são um fenômeno, são dois fenômenos diferentes. A imigração é a companheira da história moderna. O Estado moderno, a formação do Estado é também uma história de imigração. O capital precisa do trabalho, o trabalho precisa do capital. As migrações, ao contrário, são algo diferente, são um processo natural que não pode ser controlado, que segue o seu próprio caminho.

    Como o senhor acha que podemos encontrar um equilíbrio para esses fenômenos?

    A solução oferecida pelos governos é a de estreitar cada vez mais a corda das possibilidades de imigração. Mas a nossa sociedade já é irreversivelmente cosmopolita, multicultural e multirreligiosa. O sociólogo Ulrich Beck diz que vivemos em uma condição cosmopolita de interdependência e de troca em nível planetário, mas sequer começamos a desenvolver a consciência disso. E gerimos esse momento com os instrumentos dos nossos antepassados... É uma armadilha, um desafio a ser enfrentado. Nós não podemos voltar atrás e escapar de viver juntos.

    Como nos integrarmos sem aumentar a hostilidade, sem separar os povos?

    É a pergunta fundamental da nossa época. Também não podemos negar que estamos em um estado de guerra, e, provavelmente, essa guerra também será longa. Mas o nosso futuro não é construído por aqueles que se apresentam como "homens fortes", que oferecem e sugerem aparentes soluções instantâneas, como construir muros, por exemplo, desembainhando a arma milagrosa que resolve todos os problemas, enquanto o problema permanece. A única personalidade contemporânea que leva adiante essas questões com realismo e que as faz chegar a cada pessoa é o Papa Francisco. No seu discurso à Europa, ele fala de diálogo para reconstruir a tessitura da sociedade, da justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho que não representam mera caridade, mas uma obrigação moral. Passar da economia líquida para uma posição que permita o acesso à terra com o trabalho. De uma cultura que privilegie o diálogo como parte da educação. Mas, atenção, ele repete: diálogo-educação.

    Por que, na sua opinião, o papa está convencido de que essa é a palavra que não devemos nos cansar de repetir? Afinal, o que é o diálogo?

    Ensinar a aprender. O oposto das conversas comuns que dividem as pessoas: umas certas, outras erradas. Entrar em diálogo significa superar o limiar do espelho, ensinar a aprender a se enriquecer com a diversidade do outro. Ao contrário dos seminários acadêmicos, dos debates públicos ou das discussões partidárias, no diálogo não há perdedores, mas apenas vencedores. Trata-se de uma revolução cultural em relação ao mundo em que se envelhece e se morre antes de crescer. É a verdadeira revolução cultural em relação àquilo que estamos acostumados a fazer e é o que permite repensar a nossa época. A aquisição dessa cultura não permite receitas ou escapatórias fáceis, ela exige e passa pela educação que requer investimentos de longo prazo. Nós devemos nos concentrar nos objetivos de longo prazo. E esse é o pensamento do Papa Francisco. O diálogo não é um café instantâneo, não dá efeitos imediatos, porque é a paciência, a perseverança, a profundidade. Ao caminho que ele indica, eu acrescentaria uma única palavra: assim seja, amém.
    Fonte : Instituto Humanitas Unisinos

    PARANÁ : ARAUCÁRIA CAMINHA PARA EXTNÇÃO.

    Árvore Símbolo Do Paraná, Araucária Caminha Para Extinção

    Araucária. Foto: Divulgação
    Araucária. Foto: Divulgação

    A araucária, árvore símbolo do Paraná, está entre as espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção e com alto risco de desaparecimento na natureza em um futuro próximo. Faz parte da lista de espécies ameaçadas de extinção da IUCN (The World Conservation Union – A União Internacional para Conservação da Natureza) e da Lista Oficial de Espécies da Flora Brasileira Ameaçada de Extinção do IBAMA – Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. De vulnerável, em 1998 e 2000, a Araucaria Angustifolia passou para a categoria ?criticamente em perigo? em 2006.
    Pesquisas indicam que a Floresta com Araucária já perdeu aproximadamente 97% de sua área original, o que compromete totalmente a variabilidade genética da araucária. Esse quadro se deve, dentre outros fatores, à conversão das áreas de florestas nativas (Floresta com Araucária) para a agricultura, ao crescimento das cidades e ao uso da madeira. Em 2001, mapa do Ministério do Meio Ambiente já mostrava que áreas de floresta com araucária em estágio avançado de conservação não passavam de 0,8% (66 mil hectares) de remanescentes. O Paraná já chegou a ter 8 milhões de hectares cobertos por Floresta com Araucária. Hoje a situação é muito mais grave.
    Restauração
    Preocupada com a condição da Araucaria angustifolia, a professora de gestão ambiental da Universidade Positivo, Leila Maranho, propõe a criação e implantação de projetos de recuperação das áreas degradadas antes ocupadas pela Floresta com Araucária permitam a restauração de processos biológicos e genéticos. Ela sugere também que a restauração de floresta com araucária contribuirá com o resgate da cultura local, tais como lendas, contos, estórias, culinária, arte, entre outros. ?Um aspecto merecedor de destaque é a forte depauperação das características culturais associadas ao uso de espécies nativas desse bioma, principalmente da araucária?, observa.
    Para o diretor executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, Clóvis Borges, a Floresta com Araucária continua sendo visada para exploração pela existência de madeira com valor econômico, não só a araucária mais outras muitas espécies. ?E embora ilegal e sem sustentação técnica, há esforços políticos pressionando o poder público a facilitar a degradação dessas áreas a partir, inclusive, de licenciamentos ocorridos nos últimos anos e que são bastante contestáveis em termos de legalidade?, denuncia.
    União de esforços
    A professora Leila coloca que empresas, organizações, instituições e poder público devem unir esforços para aumentar o número de áreas protegidas de Floresta com Araucária, investir em pesquisa, fiscalizar e aplicar a legislação em áreas nativas desmatadas, fatores imprescindíveis para evitar que a espécie desapareça de vez. Borges complementa que, para proteger os remanescentes que já existem, mesmo que estejam muito fragmentados, devem ser criadas novas Unidades de Conservação públicas e privadas. Além disso, devem ser estabelecidas políticas públicas que permitam a valorização de áreas nativas bem conservadas para o proprietário privado, a partir de diferentes mecanismos de PSA – Pagamento por Serviços Ambientais.
    Resgate e conservação
    Para contornar a situação da araucária existem inúmeros projetos que visam o reflorestamento e uso sustentável, programas de resgate e conservação da araucária, projeto de uso e conservação da araucária na agricultura familiar e criação e implantação de Unidades de Conservação em áreas de Floresta com Araucária, lista a professora Leila.
    Borges avalia que há muito pouca coisa ocorrendo nos dias de hoje de fato voltada à conservação da natureza, o que implica não só na busca da conservação da araucária como de todo o ecossistema a que pertence a Floresta com Araucária. Um exemplo de ação concreta de proteção de áreas naturais remanescentes desse ecossistema é o programa Desmatamento Evitado, desenvolvido pela SPVS. Em 12 anos de operação, os resultados apontam para um sucesso de mais de 36% de Reservas Particulares do Patrimônio Natural, criadas e manejadas, em relação ao número de proprietários apoiados ao longo do período.
    A Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Mata do Uru é um exemplo. Mantida pelo Grupo Positivo, por meio do Instituto Positivo em parceria com a SPVS e família Campanholo, fica região da Lapa (PR), a área de cerca de 128 hectares, ao lado de quase 300 hectares do Parque Estadual do Monge, abriga uma área preservada de Floresta com Araucária. Lá é realizado o Programa de Educação Ambiental, que convida os visitantes a conhecer a fundo a Floresta com Araucária e todas as suas peculiaridades.
    Controvérsias
    No entanto, de acordo com Borges, existe um conjunto amplo de atividades que não estão direcionadas à conservação da biodiversidade envolvendo a espécie Araucaria angustifolia e que não devem ser interpretados equivocadamente. ?Estímulos ao plantio de araucária para finalidades econômicas é um trabalho paralelo, que pode ser admitido, mas que é secundário em relação a ações diretas de conservação de áreas naturais?, acentua.
    Também ocorrem muitas iniciativas relacionadas ao “manejo sustentável” de araucária, pleiteando a exploração das árvores maiores nos últimos remanescentes como a “única forma de conservação” existente. ?Uma afirmação mentirosa e demagógica, mas que politicamente é aceita em setores de órgãos ambientais do governo e na própria academia em situações isoladas?, reclama Borges.
    Por fim, a intensificação de ações e projetos de conservação e preservação da espécie é condição obrigatória para que a araucária sobreviva. Caso contrário, num prazo não muito longo, a espécie será uma imagem bordada na bandeira do Paraná e vista e conhecida apenas em fotografias e livros didáticos.
    Sobre o Instituto Positivo
    Alinhado à estratégia de sustentabilidade e em consonância com a principal vocação do Grupo Positivo, o Instituto Positivo tem a Educação como foco prioritário. Ele articula e promove iniciativas que contribuam para o aumento da qualidade da educação básica do país, direcionando os seus investimentos para ações sustentáveis e estruturantes. O IP atua por meio de três frentes: Fortalecimento da Gestão Municipal para a Educação, Produção e Disseminação de Conhecimento e Mobilização Social Estruturada.
    Sobre a Rede de Especialistas de Conservação da Natureza
    A Rede de Especialistas de Conservação da Natureza é uma reunião de profissionais, de referência nacional e internacional, que atuam em áreas relacionadas à proteção da biodiversidade e assuntos correlatos, com o objetivo de estimular a divulgação de posicionamentos em defesa da conservação da natureza brasileira. A Rede foi constituída em 2014, por iniciativa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.
    Sobre o Programa Desmatamento Evitado
    Anteriormente chamado de Programa de Adoção de Floresta com Araucária, o Programa Desmatamento Evitado é um exemplo de ação bem sucedida envolvendo a iniciativa privada para a conservação de áreas naturais ameaçadas. Iniciado em 2003, o Programa apresenta como principal objetivo a conservação dos últimos remanescentes em bom estado de conservação da Floresta com Araucária, estabelecendo um mecanismo de ?adoção de áreas?, em que a SPVS identifica e cadastra proprietários, os aproximando de empresas interessadas em apoiá-los, bem como a conservação dos remanescentes em suas propriedades. Em 2007, o Programa ganhou escala por meio de novas parcerias firmadas e, desde então, apresenta um resultado de mais de 4.500 hectares de remanescentes e cerca de 33 propriedades apoiadas ? distribuídas nos três estados do sul do Brasil ? viabilizadas pelo apoio de 17 instituições.
    Sobre a SPVS
    A Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) é uma instituição brasileira, fundada em 1984, em Curitiba. É reconhecida como uma das organizações não-governamentais conservacionistas mais atuantes no Brasil. Uma das características mais acentuadas das atividades desenvolvidas pela SPVS diz respeito à inovação, como prática para incorporar valor às ações de conservação de natureza, estabelecer uma conceituação adequada sobre o tema e dar escala para uma agenda de iniciativas que hoje começam a ser incorporadas nos negócios e percebidas como essenciais às atividades econômicas e à qualidade de vida das pessoas.
    in EcoDebate, 21/09/2016

    quarta-feira, 21 de setembro de 2016

    "GRANDE MURALHA DE CALAIS " FRANÇA


    Grã-Bretanha vai construir muro para proteger acessos a Calais


    Mundo


    O acampamento da "Selva" vendo-se ao fundo parte da vedação erguida em 2014 para separar o acampamento da estrada de acesso ao porto de Calais
     | 

    A medida foi anunciada esta quarta-feira e os trabalhos deverão começar já no fim do mês, ficando completos no fim do ano. Visa resguardar a auto-estrada e impedir migrantes de atacarem e provocarem acidentes com veículos ligeiros para tentar tomar de assalto os caminhões e atrelados que a usam com destino à Grã-Bretanha.

    Aos deputados britânicos, o ministro da Imigração, Robert Goodwill, explicou que a segurança vai ser reforçada em Calais, "com equipamento melhor", depois de múltiplos casos de  ataques a condutores de caminhões ou a carros de turistas e até de jornalistas.

    O muro deverá ter quatro metros de altura e estender-se por um quilômetro ao longo dos dois lados da principal auto-estrada que liga ao porto de Calais. A zona tornou-se a primeira linha de defesa das fronteiras britânicas contra a vaga migratória. Não foi avançada uma estimativa de custos mas alguns relatórios sugerem que possa chegar aos 1.9 milhões de libras, inteiramente pagos pelos contribuintes britânicos através de um pacote de 17 milhões de libras para novas medidas de segurança anti-migração, acordado em março pelos governos da França e da Grã-Bretanha.

    Já chamada a "Grande Muralha de Calais", o muro não vem substituir a vedação de metal já existente, construída pela Grã-Bretanha ao abrigo de um acordo franco-britânico assinado em setembro de 2014.

    Os ataques das últimas semanas começam precisamente onde acaba a vedação e o muro deverá impedir os migrantes de invadir a estrada, repondo a segurança e a ordem na circulação.

    A iniciativa está contudo a ser criticada como uma panaceia que não resolve a situação.

    Richard Burnett, presidente executivo da Associação Road Haulage, considera o plano "um mau uso do dinheiro dos contribuintes". Afirma que o financiamento do muro seria "muito melhor empregue no reforço da segurança ao longo das estradas circundantes".

    Vikki Woodfine, da empresa de advogados DWF, que trabalha com muitas transportadoras, afirma também que a "muralha" não é a melhor resposta.

    "E pouco provável que faça grande diferença a longo prazo - especialmente porque o caminho para Calais já está rodeado de barreiras e de arame farpado", afirmou. "O problema real" é a falta de policiamento, diz.

    "Reina o caos na região de Calais mas os transportadores são multados em 4.000 libras (4.757 euros) por migrante encontrado nos seus veículos", acrescentou.
    Dieppe e Dunquerque
    Em 2014, a vedação tentava impedir que cerca de 2.500 migrantes tivessem acesso ao porto e a entrada do Canal da Mancha e provocou protestos de vários grupos defensores de direitos humanos.



    Vista aérea de Calais, com o acampamento de migrantes em primeiro plano seguindo-se logo depois o porto Foto: reuters

    De então para cá a situação alterou-se radicalmente.

    A insegurança é tão grave que muitas transportadoras começaram a seguir rotas alternativas e a procurar outros portos para transportarem cargas para a Grã-Bretanha, apesar dos custos acrescidos em tempo, combustível e portagens.

    "Evitamos agora seguir até Calais. Pedimos aos motoristas que vão apanhar o barco a Dieppe, para seguir as ligações DFDS sobre o Canal da Mancha até Newhaven. São custos de transporte e de tempo suplementares, os nossos clientes nem sempre percebem, mas é a única solução que encontramos para já", explica, ao jornal La Voix du Nord, Franck Behra, diretor geral de Vecanord, uma sociedade de transportes de Auby, perto de Douai.

    "A Inglaterra é um mercado demasiado importante para nós, não podemos deixar de lá ir", acrescenta

    Dieppe tem menos ligações do que Calais e já está saturado. O porto de Dunquerque começa também a ser usado como alternativa. Mas em menor escala.

    Um protesto esta segunda-feira em Calais juntou centenas de motoristas e de agricultores a milhares de habitantes, lojistas e empresários da região, exigindo a expulsão dos migrantes.

    O Governo francês prometeu desmantelar o acampamento dos migrantes até final do ano, mas necessita de autorizações judiciais, de construir em novo centro de acolhimento em Paris e de encontrar milhares de novos lugares em centros de migrantes já existentes no resto do país.

    Mesmo essas medidas poderão não bastar. Em fevereiro de 2016 o acampamento junto a Calais foi destruído em grande parte e os seus habitantes transferidos, Meses depois o acampamento - que já funciona como uma pequena cidade sem lei - estava de novo cheio.
    Bloqueios, assaltos e acidentes
    A "Selva", como é conhecido o acampamento dos migrantes junto a Calais, acolhe já 6.900 pessoas - números do Governo. As ONG's referem 9.000. A maioria dos migrantes são oriundos do Afeganistão, do Sudão e da Etiópia.



    O seu objetivo é atravessar o Canal da Mancha e entrar na Grã-Bretanha, que consideram um Eldorado. Desde o início que tentam apanhar boleia nos caminhões de carga, muitas vezes de forma encapotada.

    Nos últimos meses, a tática, liderada por grupos organizados, alterou-se. Aos grupos de três e quatro, bloqueiam a estrada com ramos de árvores, forçando os veículos a abrandar e depois atiram objetos pesados aos para-brisas de automóveis ligeiros, forçando-os a desviar-se e provocando muitas vezes acidentes. Durante as filas assim provocadas, os migrantes tentam então subir para os caminhões.

    Muitas vezes ameaçam os motoristas com facas e correntes, forçando-os a aceder. Se a carga for de algum modo danificada os camiõnhes têm de regressar aos pontos de origem. E se chegam ao lado britânico com migrantes e estes forem apanhados no caminhão, quem paga as multas - cerca de 4.800 euros por cada migrante - é o condutor do caminhão ou a transportadora.

    A tática coloca em risco a vida de todos os envolvidos, já para não falar dos custos em forças de segurança e de vigilância, que andam num corrupio a noite inteira a limpar as barreiras e a socorrer pessoas afetadas nos acidentes.
    O artigo dos britânicos
    Na semana passada, três das vítimas dos bloqueios e ataques junto a Calais foram jornalistas britânicos, enviados pelo Mail on Sunday para avaliar o que se passa na região e na própria "Selva".