sábado, 20 de setembro de 2014

IBGE: COMO CONFIAR COM TANTOS ERROS.

Erro 'grosseiro' coloca em perigo a reputação do IBGE

Instituto revisou os cálculos da Pnad após detectar problemas nas projeções de amostragem; com isso, mudaram os indicadores de desigualdade, analfabetismo e o cálculo da renda média dos brasileiros

Ana Clara Costa e Luís Lima
Tesouro
IBGE: Depois de incidente envolvendo a Pnad Contínua, erro atual risca imagem do instituto (Comstock/VEJA)
erro cometido pela equipe de técnicos que elabora a Pesquisa Nacional por Amostragens de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), coloca em risco a reputação do instituto e a confiança nos dados da própria pesquisa, realizada há 30 anos. O IBGE informou que a Pnad referente ao ano de 2013 foi publicada com erro no cálculo do peso de algumas regiões, o que resultou na divulgação de indicadores incorretos. Um deles é o índice de Gini, que mede a desigualdade, que teve de ser alterado. Fosse o erro uma exceção nos institutos de pesquisa ao longo dos últimos anos, o incidente atual não causaria tanto alarme. Ocorre que a Pnad acaba de ser revisada na sequência de outras confusões que envolvem os órgãos de estatísticas do país. A credibilidade do IBGE está em jogo, assim como a dos dados oficiais que por ele são divulgados, como o de desemprego, inflação e desigualdade.
Economistas ouvidos pelo site de VEJA classificam o erro como "grosseiro" e "primário" quando se trata de um órgão cuja única função é prover dados oficiais sobre o Brasil. Em abril, uma crise institucional foi instaurada no IBGE quando a presidente, Wasmália Bisval, afirmou que a Pnad Contínua, que calcula, entre outros índices, o de desemprego, teria sua metodologia revisada a pedido de senadores petistas. A Pnad acabara de divulgar que a taxa de desemprego de 2013 havia sido maior que a calculada pelo instituto no âmbito da Pesquisa Mensal de Emprego (PME). A possibilidade de revisão fez com que houvesse uma ameaça de debandada de técnicos da Pnad. Na sequência, uma greve teve início e foi capitaneada, justamente, por aqueles que apuravam a Pnad.
No Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), algo similar ocorreu em levantamento divulgado em março deste ano, que mostrava que 65% dos brasileiros concordariam total ou parcialmente com a ideia de que mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas. O dado correto, divulgado posteriormente, era de 26%. Reportagem do site de VEJA aponta que, além de divulgar o número incorreto em abril, o instituto também engavetou um estudo importante que mostra que a concentração de renda aumentou. A tese, curiosamente, contraria o discurso recorrente dos governos petistas. O exemplo do IBGE apenas piora a situação.
Fonte : Veja

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

MOVIMENTOS SEPARATISTAS NA EUROPA. PODEM ACONTECER?

Referendo na Escócia pode ser estopim para movimentos separatistas na Europa


 
Campanha pelo referendo na Escócia
Campanha pelo referendo na Escócia
REUTERS/Paul Hackett
Alfredo Valladão

Esta semana saberemos se a Escócia decidiu se divorciar do Reino Unido depois de mais de três séculos de casamento. Se houver rompimento, haverá choro, ranger de dentes, mas uma coisa é certa: a separação será feita de maneira civilizada como manda o figurino britânico. O problema, na verdade, não é o casal, mas os amigos do resto da Europa. O voto independentista escocês, qualquer que seja o resultado final, já está dando asas a todos os movimentos separatistas do Velho Continente.
O governo da Catalunha, com um referendo a favor da independência programado para o próximo mês de novembro, aproveitou o suspense escocês para pôr um milhão de pessoas nas ruas. Uma recente sondagem de opinião mostrou que uma maioria da população deseja a independência do País Basco. Na Itália, as províncias do Tirol do Sul e do Vêneto estão cada vez mais namorando a ideia de separação, enquanto na Bélgica a província de Flandres continua querendo formar o próprio estado soberano.

Fragmentação da União Europeia

A possibilidade de ver vários Estados europeus se fragmentarem está se transformando em realidade. E essa fragmentação não é provocada só pelos separatismos regionais. Em vários países os partidos da direita xenófoba ou as forças nacionalistas à antiga estão todos de vento em popa gritando por fronteiras soberanas e por abandonar a União Europeia.
Nas recentes eleições suecas, um partido com bases nazistas tornou-se a terceira força política nacional. Na França, a Frente Nacional é hoje o partido com maiores intenções de voto e sua líder, Marine Le Pen, cujo único programa é sair do euro e expulsar os imigrantes, tem chances de chegar à presidência da República. A Inglaterra está num “fica não fica” na Europa e até na ordenada Alemanha, um novo partido antieuropeu está ultrapassando o velho Partido Liberal.
Parafraseando Mark Twain, o anúncio da morte da União Europeia é um pouco exagerada. Desmanchar a integração europeia e a moeda única seria uma catástrofe geral. E ninguém até hoje, inclusive os mais críticos, está disposto a pagar para ver.

Crise de representação política

Os próprios escoceses e os catalães querem soberania, mas também querem ser aceitos imediatamente nas instituições europeias supranacionais. Entenda quem puder. Só que esse renascer dos nacionalismos pequenos ou grandes não é nada trivial. A administração da tradicional tensão entre os estados nacionais europeus e as instituições supranacionais em Bruxelas está cada vez mais cabeluda. Pela simples razão que a crise econômica nos últimos seis anos vem destruindo a confiança dos cidadãos nos seus dirigentes, nacionais ou europeus.
Essa crise da representação política tem mais a ver com a economia do que com os nacionalismos propriamente ditos. Tanto as províncias quanto os estados mais prósperos não estão mais a fim de continuar pagando pelos outros e acham que podem se virar melhor sozinhos. Esse rechaço da solidariedade nacional ou dentro da própria União é reflexo da globalização econômica.
Nenhum governo nacional tem condições de controlar e ainda menos influenciar de maneira decisiva sua economia doméstica ou as decisões dos grandes atores industriais ou financeiros. E Bruxelas também está paralisada. Os fluxos financeiros e as cadeias de produção transnacionais escapam às decisões dos poderes políticos.
 O sucesso econômico e a luta contra o desemprego dependem da capacidade de encontrar “nichos” inovadores dentro dessas grandes cadeias de valor globais. E esses nichos dependem da promoção de pequenos pólos de produção regionais, utilizando as melhores tecnologias possíveis, por autoridades locais com muitos meios e autonomia necessária para isto.
Não é por nada que as províncias mais ricas e bem situadas acham que podem se virar melhor sem o peso de seus governos nacionais. Faz sentido, só que a fragmentação política egoísta também favorece os conflitos. E não podemos esquecer que terríveis e sangrentas guerras civis e entre estados são sempre possíveis e até prováveis na Europa. E que no último meio século foi a integração europeia que impediu essas tragédias. Será que a Escócia tem vocação para estopim?
Fonte : www.portugues.rfi.fr/geral/20140916-mundo-agora

PLEBISCITO NA ESCÓCIA.

Entenda o curioso plebiscito separatista escocês. 18/09/2014

A Escócia não possui um hino oficial. Mas, se o plebiscito marcado para o dia 18 de setembro de 2014 resultar na vitória dos defensores da independência escocesa, é bem provável que o hino Flor da Escócia venha a ser o escolhido para tal finalidade. A letra é uma espécie de elegio aos combatentes escoceses na histórica Batalha de Bannockburn, ocorrida em 1314, na qual se antagonizaram as tropas inglesas de Eduardo II e as forças de Robert Bruce, um senhor feudal escocês, que liderou vários clãs em favor da independência da Escócia.
Quem assistiu ao filme Coração valente, que teve Mel Gibson como ator principal, pode recordar da cena de encerramento, quando Robert Bruce combate as forças inglesas e faz renascer a esperança escocesa por uma pátria livre dos dominadores ingleses.
Esses fatos históricos infelizmente foram retirados de seu contexto e de suas dimensões temporais. A indústria do cinema, o interesse particular de Mel Gibson em achincalhar com os ingleses (o que ele fez em outros filmes, comoO patriota e Galípoli), a ação de líderes independentistas escoceses (especialmente ativos nos últimos 30 anos) e uma parcela engajada de historiadores fez com que se construísse um mito sobre a identidade nacional escocesa. Diga-se de passagem que esse não é um privilégio da Escócia. O insuspeito historiador marxista britânico Eric Hosbawm, em seu livro A Invenção das Tradições, expôs o processo de construção das “tradições nacionais” na Europa do século XIX e primeira metade do século XX. Jovens nações como a Alemanha e a Itália precisavam justificar-se historicamente e demonstrar a antiguidade de seus laços com os povos que ocupavam seus territórios atuais. Até em reação a isso, em França, Inglaterra e Escócia semelhantes processos entraram em marcha.
Ainda com base em Eric Hobstawm, torna-se possível acompanhar o surgimento de “tradições” como o kilt (o saiote escocês), o tartan (os padrões em xadrez, usados nos tecidos de procedência escocesa) e até mesmo a gaita de foles. Nenhum desses objetos foi uma criação genuína e antiga da Escócia, mas apropriação de tradições alheias ou formulações originais dos séculos XVIII e XIX, com finalidades comerciais ou nacionalistas.
No período do Romantismo, com o surgimento dos autores nativistas, comosir Walter Scott, o ideal de um passado escocês foi transfigurado para a literatura. Chegou-se ao ponto de se acreditar em uma mistificação, que foram os poemas fraudulentamente criados por James Macpherson e atribuídos a uma personagem inexistente dos tempos gaélicos.
A vitória escocesa em 1314 deveria ser vista como um combate entre senhores feudais, que não possuíam com grande clareza a noção sobre estados soberanos. Afinal, o rei Eduardo também se considerava mais um nobre normando, com pretensões ao trono de França, do que um soberano autocrata das então pobres e pouco rentáveis terras das ilhas britânicas. Diferentemente, contudo, foi a união pessoal das coroas inglesa e escocesa, ocorrida em 1603, quando o rei Jaime VI, da Escócia, tornou-se também Jaime I, rei da Inglaterra, por uma daquelas intrincadas operações de sucessão dinástica tão comuns na Europa medieval e moderna. Lembrem-se da união ibérica, que arrastou Portugal para o domínio espanhol, após a morte fatídica de D. Sebastião, na Batalha de Alcácer-Quibir.
Com a união pessoal das coroas escocesa e inglesa, sob a regência de uma dinastia da Escócia, um escocês governou as ilhas britânicas até 1649, quando Carlos I, o sucessor de Jaime I, foi levado ao cadafalso após a Guerra Civil inglesa, liderada por Oliver Cromwell.
A morte de Oliver Cromwell, o Lord Protector e ditador britânico em sua curta experiência republicana, levou ao fim da chamada Commonwealth of England, graças à restauração da dinastia Stuart. O novo rei Carlos II, filho do decapitado Carlos I, era um homem pragmático e não cometeria os erros de seu pai. Sua habilidade foi coadjuvada por sua esposa, a portuguesa Catarina de Bragança, uma mulher extremamente conscienciosa de seu papel na monarquia recém-restaurada e que trouxe para a Inglaterra o hábito de se beber chá, introduzido em Portugal pelos navegadores das Índias. A propósito, esta é outra “tradição inventada”, pois nada tem de genuinamente inglesa.
Com a morte de Carlos II, que não deixou filhos legítimos, as coroas inglesa, escocesa e irlandesa foram herdadas, ainda em regime de união pessoal, por Jaime II. O novo rei Stuart não possuía as qualidades de seu finado irmão. Influenciado pelo partido francês e católico, ele pretendia restaurar o catolicismo no reino, esquecendo a trágica e sangrenta implantação da Igreja Anglicana desde os tempos de Henrique VIII e de Elizabeth I. Com a perda de apoio da nobreza, do clero anglicano e da burguesia, os Stuart perderam a tríplice coroa, após o sucesso da Revolução Gloriosa de 1688, que trouxe para as ilhas britânicas o príncipe Guilherme de Orange e sua esposa Maria, uma duquesa descendente da escocesa Maria Stuart.
Os novos reis inauguram uma nova dinastia na Inglaterra, Escócia e Irlanda, embora o deposto Jaime II permanecesse em luta para reaver o trono e isso gerou, até o final do século XVII, uma enorme resistência na Escócia aos novos monarcas, inclusive com escaramuças e combates esporádicos de tropas legais aos Stuart.
Muito bem, toda essa longa história de sucessões dinásticas serve para esclarecer que a união pessoal das coroas inglesa e escocesa gerou uma curiosa situação de domínio de reis escoceses sobre os ingleses. Nem mesmo os novos reis Guilherme e Maria podem ser apontados como uma ruptura desse modelo, pois Maria era uma descendente Stuart.
Nos anos de 1701 e 1707 foram baixados dois importantes atos do Parlamento, que modificaram de vez a estrutura jurídica dos reinos da Inglaterra, Escócia e Irlanda. O primeiro deles é o Act of Settlement de 1701. Como Guilherme e Maria não deixaram descendentes e seus herdeiros naturais seriam seus primos Stuart, agora convertidos ao catolicismo, o Parlamento da Inglaterra aprovou esse ato que teve por finalidade resolver a sucessão das coroas inglesa e escocesa. Há diversos artigos nesse ato, muitos dos quais o afastamento definitivo dos Stuart da sucessão real e a proibição, até hoje em vigor, de que um católico assuma o trono do reino.
O segundo foi o Act of Union de 1707, que eliminou o regime de união pessoal das coroas e unificou Inglaterra e Escócia sob um novo estatuto político, que fez nascer o Reino da Grã-Bretanha, com um parlamento único em Westminster e a união aduaneira entre as duas nações. Nesse arranjo, a questão religiosa foi preservada. A influência católica na Escócia entrava em franco declínio, especialmente com as chances cada vez mais remotas de uma restauração Stuart, e a igreja independente escocesa, de matriz puritana e presbiteriana, e mais radical que a Igreja da Inglaterra, ganhou ampla autonomia. Os representantes escoceses passaram a integrar a Câmara dos Lordes e a Câmara dos Comuns, com participação cada vez mais crescente ao longo dos séculos seguintes. O sistema jurídico escocês também foi conservado. Até hoje, por exemplo, o Direito escocês não pode ser qualificado como de common law e sim como romano-germânico.
A unificação, em verdade, atendeu a um desejo dos próprios escoceses, que se encontravam profundamente endividados no início do século XVIII, e ao interesse dos ingleses em eliminar a possibilidade de um conflito dinástico no território das ilhas britânicas, o que já se mostrara desastroso em séculos antecedentes.
A união de 1707 preservou-se até aos dias atuais. No entanto, no século XX, os movimentos separatistas escoceses ganharam novo fôlego. Durante a Segunda Guerra Mundial, parte da elite escocesa simpatizou com a ideia da derrota da Grã-Bretanha. Isso está registrado nas obras de Evelyn Waugh. Com a criação da Comunidade Econômica Europeia e, depois, da União Europeia, houve um novo impulso para o movimento pró-independência da Escócia. É desnecessário citar os vários exemplos dessa situação em território europeu, para não se falar das secessões ocorridas na Europa do Leste, após a queda dos regimes comunistas. Catalunha, Córsega, Norte da Itália, País Basco e Flandres são apenas alguns exemplos dessa onda que se propaga pelo continente europeu há algumas décadas com enorme intensidade.
A base política do independentismo na Escócia é o Scottish National Party, fundado em 1934, o que diz muito sobre o estado de ânimos na década de 1930 em face dos movimentos radicais surgidos no período na Europa, e que teve seu primeiro representante eleito no Parlamento britânico apenas em 1967, o que também se conecta com o crescimento dos grupos separatistas no segundo pós-guerra.
O movimento separatista cresceu nos últimos 30 anos, mesmo com uma sucessão de políticos escoceses, a maior parte deles ligada ao Partido Trabalhista, ocupando posições de enorme relevo no Governo britânico, como Tony Blair e Gordon Brown, para se citar os mais recentes.
A edição do Scotland Act 1998 pode ser referido como um marco no avanço do separatismo, embora seus idealizadores pensassem que as concessões feitas nesse ato parlamentar tivessem o poder de conter suas pretensões. Em linhas gerais, a reforma constitucional de 1998, levada a efeito pelo governo do primeiro-ministro trabalhista Tony Blair, permitiu a criação de um executivo escocês e a restauração de um parlamento local para a Escócia, formado exclusivamente por representantes daquele país.
A sede por autonomia não foi aplacada com o Ato da Escócia de 1998. Como geralmente ocorre nesses processos de tentativa de conter as pretensões separatistas com concessões parciais, os vitoriosos só reconhecem em suas conquistas o valor de sua política de alta pressão.
Na atualidade, as forças pró-independência são constituídas de membros da elite política escocesa e da maior parte da juventude, que encara na ruptura com o Reino Unido um caminho mais fácil de ascensão. Parte considerável dos setores econômicos e da intelectualidade, além de movimentos de militância tradicionalista, colocam-se contrariamente à separação, por temerem a perda de relevância do novo país no cenário internacional e em face dos riscos de perturbação econômica advindos do custeio de Forças Armadas, serviços diplomáticos e da burocracia interna do novo Estado, além da perda da libra e da incerteza quanto a uma admissão na zona do euro.
Some-se a tudo isso a circunstância de ter o Reino Unido, desde os anos 1990, uma das mais medíocres elites políticas de sua história. Primeiros-ministros trabalhistas como Tony Blair, que deixou o cargo como um contumaz mistificador no caso das “armas de destruição em massa” do Iraque, e Gordon Brown, conhecido por sua obtusidade, rivalizam nesse quesito com o atual David Cameron, do Partido Conservador, um dos líderes mais apagados e sem brilho da longa tradição parlamentar britânica. Não fica atrás no campo das limitações o atuar líder da oposição trabalhista Ed Miliband.
A incompetência política e a arrogância dos citados líderes britânicos permitiu que houvesse, nas últimas semanas, uma drástica mudança nas sondagens de opinião pública quanto ao resultado do plebiscito. No dia 11 de setembro de 2014, como forma de diminuir a força dos separatistas, o Governo da coalização conservador-liberal-democrata anunciou medidas pós-plebiscito para ampliar a descentralização de competências político-administrativas no Reino Unido. Em mais uma demonstração de despreparo e de visão de Estado, essa proclamação só gerou reações do País de Gales e da Irlanda do Norte, os parceiros menores do Reino Unido, em busca de tratamento isonômico.
No País de Gales, as forças independentistas já se organizam para pedir um plebiscito à semelhança da Escócia. Espera-se para breve que movimentos separatistas dentro da própria Inglaterra, que se consideram herdeiros dos antigos povos bretões, conquistados pelos romanos, reivindiquem sua autonomia.
Como expectadores desses inusitados processos de rediscussão da soberania na Europa, a única esperança é a de que isso não chegue ao Brasil.
Fonte : Consultor Jurídico  www.conjur.com.br

Consultor Jurídico

  • ISSN 1809-2829 www.conjur.com.br

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

ONDE VAMOS PARAR ?

DESIGUALDADE NO BRASIL.

Falta transparência na divulgação de números sobre desigualdade no Brasil

Palácio do Planalto prometeu, mas não enviou os dados ao economista francês Thomas Piketty, um dos maiores especialistas no tema e autor do livro 'O Capital no Século XXI', que será lançado no Brasil em novembro

Ana Clara Costa
Desigualdade: transparência sobre dados é colocada em xeque
Desigualdade: transparência sobre dados é colocada em xeque (Felipe Dana / AP/VEJA)
Os dados históricos e atuais das declarações de Imposto de Renda de Pessoa Física (IRPF) da população brasileira são necessários para que se apure com precisão a distribuição de renda no país. Contudo, o governo se nega a divulgá-los. O economista francês Thomas Piketty, célebre autor do livro O Capital no Século XXI, que será lançado em português pela editora Intrínseca em novembro, tentou conseguir tais números para computá-los em seu livro, mas não obteve sucesso. Em maio deste ano, quando a obra se tornou um best-seller, Piketty disse, em entrevista a VEJA, que o governo brasileiro havia retomado o contato e decidira enviar os dados. Quatro meses se passaram e o economista nada recebeu. "O governo prometeu dar acesso aos dados de imposto, mas, infelizmente, nada foi entregue até agora. Como consequência, não pude incluir o Brasil em nossa base de dados. Espero que essa situação mude. Afinal, é importante dar mais transparência aos dados de desigualdade, especialmente num país onde ela é tão presente, como o Brasil", afirmou Piketty.
Procurada pela reportagem de VEJA para esclarecer as razões do sigilo, a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República não retornou o pedido de entrevista. Mas isso não significa que a SAE não disponha de tais números. Ao tomar conhecimento do método de Piketty, que avalia a concentração de renda e a desigualdade com base em informações tributárias enviadas pelos contribuintes à Receita, a SAE encomendou ao Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em meados de junho, uma pesquisa semelhante. Ela está pronta. Porém, engavetada. Ocorre que os dados apurados não são lá os mais animadores para o governo, pois apontam que os 5% mais endinheirados do Brasil aumentaram sua participação no bolo da distribuição de renda: ela passou de 40% em 2006 para 44% em 2012, segundo dados aos quais o site de VEJA teve acesso.
O estudo está pronto desde agosto, mas sem previsão de divulgação. A base para a tese de Piketty sobre a desigualdade é a relação r>g , segundo a qual a renda sobre o capital (r) é sempre maior que o crescimento econômico (g). Partindo dessa fórmula simples, o francês constata que não há como escapar do aumento da desigualdade, já que a renda sobre o capital sempre crescerá num ritmo mais rápido que o crescimento econômico. Na prática, Piketty quer mostrar que aqueles que já possuem um patrimônio, seja por herança, investimentos ou bônus, tendem a enriquecer de forma mais rápida do que os que ganham sua renda por meio do trabalho. 
Um projeto de lei de autoria do deputado petista Cláudio Puty, que tramita na Câmara desde junho, tem por objetivo tornar públicos os dados consolidados dos contribuintes. A ideia foi dada a Puty pelo economista e ex-secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa. Contudo, ainda não há previsão de votação, sobretudo porque sequer foi distribuído nas comissões de Finanças e Cidadania e Justiça. "A melhor maneira de avaliar o rendimento do capital é pelo Imposto de Renda. E é possível organizar isso num relatório sem identificar ninguém", afirma Barbosa. O economista detalha como se pode ter acesso aos dados e, mesmo assim, manter o sigilo fiscal. "Cada 1% no levantamento deve corresponder ao consolidado de 260 mil pessoas. Nós não sabemos a distribuição da renda do capital e da riqueza no Brasil. E é uma pena porque essa informação existe e está no IR", diz.
Transparência zero — O estudo do Ipea não é o único engavetado pelo governo recentemente. O Ministério da Educação também havia concluído o levantamento do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) no início do mês, e só o divulgou depois que o jornal O Globo questionou a demora. O Ideb mostrou que, nos resultados gerais, o Brasil não havia atingido suas metas de avanço na Educação Fundamental. 
Outro problema institucional se deu no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no levantamento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. Destinada a substituir a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), a Pnad Contínua foi suspensa quando apurou uma taxa de desemprego superior à que era mostrada pela PME. Mais precisa, a Pnad coleta dados em mais de mil municípios. Já a PME avalia apenas seis regiões metropolitanas. À época, a suspensão da pesquisa criou uma crise institucional no Instituto, que culminou na ameaça de debandada de seus técnicos, que acusavam o governo de ingerência. À crise se seguiu a uma greve terminada apenas em agosto. Resultado: desde abril o país não conhece sua taxa de desemprego.
(Com reportagem de Luís Lima)
Fonte : Revista Veja

terça-feira, 16 de setembro de 2014

SUNITAS X ALAUÍTAS

Mundo islâmico

Alauítas: a minoria síria que mata por temer ser aniquilada

Entenda as origens da etnia do ditador Bashar Assad, suas divergências com a maioria sunita e o apoio aparentemente cego dos parceiros Irã, Rússia e China

Cecília Araújo
Enterro de massa das vítimas do massacre das forças sírias em Hula
Enterro de massa das vítimas do massacre das forças sírias em Hula (Reuters/VEJA)
Com armas pesadas, tanques e helicópteros, as forças do ditador Bashar Assad mataram mais de 200 pessoas em Treimsa, na província de Hama, na última quinta-feira. No dia seguinte, o emissário internacional Kofi Annan condenou as "atrocidades", dizendo-se "horrorizado" e "consternado" com o número de mortos. Para o Conselho Nacional Sírio (CNS), a principal coalizão opositora, o massacre é "o mais infame dos genocídios cometidos pelo regime sírio". Desde março, os opositores do regime protestam para derrubar Assad, e os conflitos no país já deixaram, de acordo com a ONU, cerca de 10.000 mortos - ativistas falam em mais de 17 mil. Um dos principais motivos para a dificuldade de se chegar a um acordo com o governo é a origem religiosa dessa guerra civil: a minoria alauíta - da qual Assad faz parte - teme ser arrancada do poder pela maioria sunita, que promete buscar uma revanche igualmente sangrenta.
Na década de 1920, a França estabeleceu a Síria como seu protetorado - uma espécie de colônia moderna. Na tentativa de enfraquecer a unidade árabe no Oriente Médio, tentou instaurar microestados na região, que seriam autogovernados por diferentes grupos étnicos, inclusive as minorias alauíta, cristã e drusa. A preocupação da França era a de evitar o fortalecimento da maioria sunita em um país tão diverso em termos étnicos e religiosos. Ainda assim, as minorias se mantiveram relativamente sufocadas politicamente até a década de 1960, quando dois golpes de estado finalmente colocaram os alauítas no poder. Sob o império Otomano, os únicos alauítas tolerados nas cidades eram os empregados domésticos. Até o início do século, a maioria deles não passava de montanheses que serviam à burguesia sunita. Só nos anos 1950 muitos passaram a integrar academias militares e na década de 1970 aderiram à ideologia pan-arabista e laica do partido Baath - atualmente no poder.

As crenças dos alauítas

A doutrina alauíta - uma variante heterodoxa e esotérica do xiismo - foi elaborada no Iraque no século IX por Mohammad ben Nusseir, discípulo do 10º imã Ali Hadi, que entrou em dissidência. Assim como os xiitas, que veneram Ali, primo e genro do profeta Maomé, os alauítas o idolatram. Para eles, Maomé não é mais que um véu que esconde "a essência" encarnada por Ali. O terceiro personagem desta trindade é Salman Pak, um companheiro de Maomé considerado a "porta" do conhecimento. Seus seguidores acreditam na reencarnação, em geral carecem de mesquitas, ignoram o jejum e a peregrinação a Meca, toleram o álcool e suas mulheres não utilizam véu. Celebram as festas muçulmanas e também as cristãs. A minoria é tida por herética e mesmo como não-muçulmana por diversas correntes sunitas.
Em 1971, o alauíta Hafez Assad - pai do atual governante, Bashar Assad - se tornou presidente, permanecendo como tal por longos 30 anos. Desde então, os alauítas, que representam apenas 12% dos 22 milhões de sírios, passaram a privilegiar outras minorias, fortalecendo sua relação com os cristãos ortodoxos (10% da população) e os drusos (3%) e ofuscando a importância dos sunitas, majoritários (74%) - o que despertou a ira desses. Com o passar do tempo, as minorias se tornaram mais ricas, ganharam um papel de relevância nas forças armadas e ocuparam postos importantes no estado. Aos poucos, foi sedimentada uma imensa rede de favorecimentos, que funcionou ao longo das últimas décadas apesar da insatisfação da maioria. Até que esse sistema se transformou em uma verdadeira ditadura, levando os sunitas ao limite da tolerância.
Temendo uma revolta sunita, os Assad se armaram com um sistema "antigolpe de estado", com ênfase no Exército e nos serviços secretos. Foi criado um aparato de segurança para controlar a população, o Mukhabarat (Agência de Inteligência, em árabe). No país, há diferentes agências de inteligência que vigiam umas às outras, o que impede a formação de um golpe de estado. Além disso, os serviços secretos estão sempre de olho em forças de oposição, ainda que incipientes. Recentemente - com a repressão sangrenta do regime alauíta contra os opositores -, a luta se tornou identitária: cada um por sua própria preservação e existência.
Roula Naeimeh / Reuters
Disputa entre sunitas em alauítas no Líbano
Disputa entre sunitas em alauítas no Líbano
Medo - Prestes a serem arrancados do poder, os alauítas temem o aniquilamento de sua comunidade - medo compartilhado por cristãos e drusos, que ainda apoiam o regime. “O que está em jogo para os grupos minoritários é sua própria identidade. A sensação é de que sua existência está em risco. Isso faz com que o enfrentamento com os sunitas seja tão duro”, diz Danny Zahreddine, coordenador do curso de Relações Internacionais da PUC Minas. “Implantar um processo de transição poderia criar salvaguardas para os alauítas, mas eles têm medo de deixar o poder.” Ao mesmo tempo, os sunitas estão vendo dezenas de milhares dos seus morrerem com a violência do regime. “É uma questão existencial para ambos os lados”, diz o acadêmico. Esse medo extrapolou a fronteira da Síria e tem provocado disputas étnicas entre sunitas e alauítas também em Trípoli, a segunda maior cidade do Líbano.

Enquanto a economia síria é dominada por grupos privilegiados e ligações políticas, o país não tem capacidade de criar empregos para uma população jovem e empobrecida. Qualquer tentativa de repartição de poderes implicaria o fim da hegemonia alauíta. Para se salvar, as unidades militares de elite compostas ou controladas pelos alauítas lutam para não acabar como os harkis, soldados que durante a guerra da Argélia lutaram com o Exército francês e foram massacrados após a independência e obrigados a se exilar na França. O desafio ao poder dos Assad também é comparado às revoltas lideradas pela Irmandade Muçulmana entre 1979 e 1982, que culminaram no massacre de  milhares de opositores na cidade de Hama. Especialistas acreditam que, no caso da queda de Assad do poder, os alauítas tentariam recuar para a região costeira e criar um enclave independente.
Oportunismo - Para se manter no poder, Assad se apoia em alianças internacionais: as potências orientais se negam a condenar o regime apesar da crescente pressão internacional. Do ponto de vista político, para a Rússia e a China, a Síria é como o último bastião de resistência à influência dos Estados Unidos no Oriente Médio. Por priorizar o comércio com as potências orientais em detrimento das ocidentais, o governo sírio se tornou um contraponto estratégico na região. “Há certo grau de oportunismo político por parte das elites políticas dentro da própria Síria e das potências orientais que apoiam o país. Se a briga fosse apenas em torno das etnias e religiões, provavelmente a Rússia e a China não iriam vetar as punições aprovadas por outros países da comunidade internacional. Para eles, a disputa é política: entre ocidentais e orientais”, explica Zahreddine. Enquanto isso, aqueles que aprovam uma intervenção ocidental têm  motivações que não são apenas humanitárias, mas estratégicas - como enfraquecer o Irã na região. 
Apesar de disputar com a Síria o posto de grande liderança antiamericana e anti-israelense no Oriente Médio, o Irã teme que a Turquia participe de uma campanha encabeçada pelos EUA, juntamente com a Arábia Saudita, o Catar e outros países, para derrubar Assad e isolar ainda mais os iranianos na região. O fim do regime de Assad abriria espaço para a ação liderada pelos Estados Unidos com o objetivo de diminuir consideravelmente a influência geopolítica do Irã. O atual governo de Damasco parece a única esperança para os aiatolás manterem essa influência. Além dos iranianos, o Hezbollah libanês também é um aliado local da Síria. O grupo recebeu apoio durante sua criação e agora - já praticamente independente - serve como apoio terrorista. Uma eventual desagregação política na Síria alteraria a força relativa dos aliados libaneses de Damasco, xiitas do Hezbollah e drusos, afetando ainda a sorte dos islamitas sunitas do Hamas em Gaza.
Kofi Annan e Ban Ki-moon já alertaram o governo sobre sua responsabilidade diante de uma "provável" guerra civil - para muitos, ela já está acontecendo. A pressão é crescente e, até agora, o governo de Assad apenas tentou realizar pequenas reformas que de nada adiantaram. O regime nunca deu um passo para resolver a principal questão síria: a distribuição de poder. O controle repressor da minoria, que abafa as demais facções políticas e étnicas, é insustentável. Enquanto uma solução política parece impossível, a União Europeia e os Estados Unidos se encontram diante do dilema de negociar com uma Síria cada vez mais orientada pela aliança com o Irã.
Fonte : Revista Veja

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

APLICATIVO PARA TIRAR DÚVIDAS : LÍNGUA PORTUGUESA




Academia Brasileira de Letras (ABL) lança aplicativo que permite tirar dúvidas da língua portuguesa com rapidez


ABL
A Academia Brasileira de Letras (ABL) lançou um aplicativo gratuito de consulta ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp). Com ele, é possível ter acesso em smartphones tablets aos quase 400 mil verbetes que já seguem as novas regras previstas no Acordo Ortográfico.  É uma solução rápida para tirar dúvidas de como se escreve alguma palavra.
O aplicativo pode ser baixado em dispositivos Android, pelo Google Play, e em dispositivos da Apple, pela App Store. Um dos recursos do aplicativo é o de autocompletar-se. Quando a pessoa começa a digitar uma palavra, automaticamente aparece uma listagem de possíveis resultados na tela, e ela poderá encontrar a exibição do vocábulo antes mesmo de terminar a redação de tal termo. É possível também aumentar a letra, para facilitar a leitura.
“A vantagem é que tendo uma dúvida qualquer a respeito de ortografia, pode-se estar no metrô, na rua, onde estiver, com um celular ou tablet, em poucos segundos tem-se a resposta de como se escreve a palavra”, explica o presidente da ABL, Geraldo Holanda Cavalcanti. Segundo ele, a tendência do mundo é a composição entre o que é impresso e o que é digitalizado. Utilizando-se dessa ferramenta, a Academia poderá “prestar serviço a um número cada vez maior de usuários, especialmente os estudantes”.
A expectativa é grande em torno da nova ferramenta. De acordo com Cavalcanti, aproximadamente 1,6 mil perguntas sobre gramática ou ortografia são feitas mensalmente no espaço online  ABL Responde. “Todos aqueles que tiverem questões de ortografia poderão obter agora a resposta rapidamente”.
Há poucos dias no ar, o aplicativo tem avaliação 4,7 de uma potuação máxima 5, no Google Play. Os comentários são elogiosos: “Sempre usei no site, mas essa opção é maravilhosa”, diz uma usuária. Outra, ressalta: “Esperava há muito tempo por esse aplicativo”. Há também sugestões de melhora, como a possibilidade de se copiar, no próprio dispositvo, as palavras com a ortografia correta.
O sistema de busca do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa está na quinta edição, de 2009, e contém 381 mil verbetes, com as respectivas classificações gramaticais e outras informações conforme descrito no Acordo Ortográfico. Trata-se, em uma definição simples, da ortografia oficial das palavras da língua portuguesa.
Sobre se antecipar a obriGatoriedade das novas regras ortográficas, que só poderão ser cobradas a partir de 1.º de janeiro de 2016, Cavalcanti diz que as mudanças já são uma realidade: “Todos já adotaram a nova ortografia, os jornais, os livros escolares, os livros editados. Todos fazem constar que seguem a nova ortografia”.
Por Mariana Tokarnia, da Agência Brasil, no EcoDebate, 15/09/2014