quarta-feira, 16 de agosto de 2017

RECUO DO MAR

Fenômenos raros surgem no litoral e intrigam especialistas

Mancha causada por algas no litoral do Paraná.


 Foto: Lamic/CEM/UFPR 
Por Narley Resende 

Um enorme recuo da maré, o aparecimento de mamíferos sub-antárticos e duas grandes manchas escuras, com cerca de 400 metros na água do mar, estão intrigando pescadores e moradores do litoral do Paraná e de Santa Catarina.  
Esse conjunto de fenômenos raros coincidiu com um alerta de ressaca emitido no fim de semana pela Capitania dos Portos da Marinha em Paranaguá, para todo o Litoral Sul e Sudeste do país. O Aviso de Mau Tempo, que foi emitido na sexta-feira (11) e ampliado no domingo (13) termina nesta quarta-feira (16). 
O fenômeno que era esperado, o mais comum e perigoso, a ressaca, não causou danos e nenhuma ocorrência grave foi registrada nos últimos quatro dias. Mas uma séria de acontecimentos paralelos, porém, mobilizou especialistas e aguçou a curiosidade de moradores e frequentadores do litoral. Considerados raríssimos no Brasil, acontecimentos como o registro de lobos-marinhos-do-peito-branco e de um golfinho-de-óculos; de manchas quilométricas formadas por algas; e do recuo de maré baixa por uma extensão quatro vezes maior que o normal, causaram surpresa entre especialistas. Todos os fenômenos têm explicação científica e aparentemente não oferecem riscos.

Maré muito baixa e muito alta  

Em conjunto com a ressaca, o recuo da água do mar em extensão maior que o normal é explicado pela soma de dois fatores, segundo o professor de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Eduardo Gobbi.  
A ação de um campo de pressão atmosférica aliado ao vento na região levaram ao maior recuo já visto pelo especialista em 25 anos morando no Paraná. “Nunca tinha visto com tanta intensidade. O que aconteceu não é comum”, aponta. Recuo do mar em Pontal do Paraná Recuo do mar em Pontal do Paraná. 

Foto: Blog Luciane Chiarelli 
O especialista explica que a soma da maré astronômica, com influência da Lua, com os efeitos meteorológicos (maré meteorológica), causaram o recuo do mar. “O padrão de circulação atmosférica nessa região do hemisfério Sul, do Atlântico Sul, você tem em geral diversos ciclones entrando sistematicamente, permanentemente, centros de baixa pressão, gerando esses ventos famosos nessa região. 
O que aconteceu foi uma coincidência de um centro de alta pressão ter descido um pouco mais, atipicamente, e por causa disso ele empurrou um centro de baixa pressão mais pra cima. A combinação desses dois é que foi o problema”, explica. Eduardo Gobbi relaciona o recuo do mar também com a ressaca detectada pela Marinha. “O centro de baixa pressão gira no sentido anti-horário e o centro de alta pressão gira no sentido horário. Os modelos detectaram que de sexta-feira pra cá teríamos ventos muito fortes em direção à costa e essa pista levou à previsão da ressaca e ao alerta da Marinha. Só que por causa dessa combinação também entrou um vento muito forte de Norte/Nordeste, por dentro do país”. “É muito provável que esse vento fortíssimo, atuando de forma muito persistente, é quase certo que isso tenha feito com que houvesse um recuo das águas mar adentro. Chamamos de maré meteorológica. Existe a maré astronômica e os efeitos meteorológicos são muito comuns, mas não com tanta intensidade, principalmente para baixo”, observa. 
 Mancha escura Uma análise feita por técnicos do Laboratório de Ecologia e Conservação do Centro de Estudos do Mar (CEM) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) apontou, no início da tarde desta terça-feira (14), que manchas escuras vistas em uma praia de Matinhos, Superaguí e Pontal do Sul, no litoral paranaense, foram causadas por algas da espécie Anaulus australis, que é inofensiva à saúde humana e até mesmo benéfica para o bioma. A espécie foi identificada pelo especialista em algas e professor da UFPR, Luiz Mafra. As manchas apareceram no fim da tarde de segunda-feira (14) no Balneário de Albatroz. Moradores da região acionaram a Polícia Ambiental por volta das 17h30. Ao chegarem na praia, por volta das 18h, os agentes consideraram a possibilidade de que óleo poderia ter vazado de alguma embarcação ou do Porto de Paranaguá, a 30 quilômetros de Matinhos. Ao menos duas manchas – cada uma com cerca de 400 metros, com uma distância de quatro quilômetros entre elas, foram vistas. Agentes da Polícia Ambiental fizeram registros fotográficos e acionaram o Instituto Ambiental do Paraná. 

 Foto: Lamic/CEM/UFPR 

Na manhã desta terça-feira, técnicos da UFPR e agentes da Polícia Federal (PF) acompanharam policiais ambientais para vistoriar a região. Apesar da suspeita ainda persistente de que a mancha teria sido causada por poluição, especialistas consideram que o fenômeno da coloração de alguns pontos da água na praia é causado pela floração de microalgas. Isso ocorre com determinada frequência em várias regiões do mundo. Mesmo antes da confirmação de exames, a bióloga Camila Domit, do Laboratório de Ecologia e Conservação do Centro de Estudos do Mar (CEM) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), já havia apontado a floração das algas como principal hipótese. “Eu nunca tinha visto uma concentração tão grande dessas algas aqui no nosso litoral, mas é muito comum acontecer na Praia do Cassino, no Rio Grande do Sul”, diz a especialista. Amostra da água do mar. 


Foto: Polícia Federal 

As manchas da floração, geralmente marrons, pretas ou vermelhas, aparecem pelo acumulo na superfície da água de pequenas algas, vistas somente no microscópio. Essas microalgas, que normalmente ficam no fundo do mar, são trazidas para cima pelas ondas, ventos e chuva, entre outros fatores. “O efeito das ondas estimula toda reprodução dela. Ela (a alga) chega com as correntes mais frias, é comum de inverno, e reproduz de maneira mais intensa por conta desses efeitos de ressaca”, explica. Saúde humana O fenômeno não oferece riscos à saúde dos banhistas. Entretanto, as pessoas devem evitar as áreas com manchas, pois nelas podem estar alojados outros tipos de microrganismos que causam irritações na pele. Camila Domit explica que não é o caso da mancha atual. Para os pescadores as microalgas são benéficas, já que atraem para a superfície peixes em busca de alimento. “Essa espécie não é tóxica, não temos nenhum relato de que possa causar algum dano à saúde humana ou à saúde da fauna. Pelo contrário, é uma das espécies principais para alimentar a tainha, por exemplo, várias espécies de peixes, baleias. Entre as algas presentes nas amostras, 98% é composto por Anaulus”, afirma. Com a presença das algas, a água fica mais escura e deve permanecer assim por vários dias. “A floração está muito grande. Ela começou em Albatroz, mas não está só em lá. Hoje a gente monitorou a mancha de Betaras até Praia de Leste”. As manchas serão monitoradas e serão realizadas coletas em cada quilômetro por onde ela passar. “As pessoas podem ficar bem tranquilas, não há registro de danos à saúde. O que pode ficar é um cheiro mais forte na água”, explica Domit. 
 O resultado de exames em amostras coletadas por técnicos do Instituto Ambiental do Paraná (IAP) deve ser obtido somente em 15 dias. Mamíferos Junto com os fenômenos de inverno que aconteceram simultaneamente nesta semana no Litoral Sul, a presença de mamíferos raros chamou atenção. “Desde Santa Catarina até aqui no Paraná houve várias ocorrências de espécies de mamíferos marinhos que são sub antárticos, agora, nas últimas semanas. Aqui no Paraná, tivemos o lobo marinho sub antártico, característico de regiões bem ao Sul, então não temos ocorrências todos os anos”, diz Camila Domit.  
Um lobo-marinho-do-peito-branco (arctocephalus tropicalis), que vive em águas subantárticas, apareceu nesta terça-feira (15) em Santa Catarina. A espécie não costuma aparecer em águas brasileiras. Além disso, um golfinho-de-óculos (phocoena dioptrica) apareceu morto no dia 31 de julho, em Navegantes (SC). Esse foi o segundo registro do animal no litoral brasileiro. O primeiro aconteceu há 20 anos. “Em Santa Catarina chegou hoje um lobinho sub antártico, um lobo macho, e eles tiveram uma espécie de golfinho que foi o segundo registro no Brasil, que tinha sido registrado uma única vez 20 anos atrás, que é um golfinho super diferente”. Conforme os especialistas, tudo isso é causado por uma série de eventos oceanográficos, que estão trazendo uma contribuição de águas mais frias e com isso uma ocorrência maior de invertebrados, como de vertebrados, que não são característicos, que são raros no Brasil, além de fenômenos algas, um conjunto de coisas por efeito do La Nina, que consiste na diminuição da temperatura da superfície das águas do Oceano Pacífico Tropical Central e Oriental. Lobo-marinho-do-peito-branco. 

Foto: LEC/CEM/UFPR

Golfinho-de-óculos vive em águas mais frias e raramente é visto no Brasil (Foto: Projeto de Monitoramento de Praias) Golfinho-de-óculos vive em águas mais frias e raramente é visto no Brasil (Foto: Projeto de Monitoramento de Praias)

Fonte : ParanáPortal

terça-feira, 15 de agosto de 2017

CANADÁ

CANADÁ NA VISÃO DO ALUNO.

ESTADOS UNIDOS : INTOLERÂNCIA E RACISMO.

Intolerância, racismo às claras e fuzis à mostra: O que vi (e senti) no maior protesto movido pelo ódio em décadas nos EUA

"Durante quatro horas, homens com suásticas tatuadas no crânio e bandeiras confederadas (símbolo do grupo que lutou na guerra civil americana por manter a escravidão) trocavam socos, pauladas e cusparadas com jovens vestindo máscaras e carregando bastões de madeira e sprays de pimenta", relata em depoimento o jornalista Ricardo Senra para a BBC Brasil, 13-08-2017, sobre os acontecimentos em Charlottesville.
Eis o depoimento.
Quando propus minha ida neste fim de semana a Charlottesville, uma cidade universitária de 50 mil habitantes ao sul de Washington, nos Estados Unidos, minha ideia era conhecer os diferentes matizes da nova direita americana após a eleição de Donald Trump.
O protesto "Unite the Right", ou "Unir a Direita", até então não tinha muito espaço na imprensa. Alguns blogs chamavam atenção para o ato, alguns com elogios à celebração do orgulho e nacionalismo americano, outros com críticas à segregação que estes valores podem carregar.
Meu vagão no trem era heterogêneo. Famílias voltavam para a cidade com bebês para o almoço de domingo com os avós, estudantes vinham reencontrar pais e namorados, um ou outro jornalista fingia que estava ali por coincidência e achava que estava sendo discreto mexendo em seus computadores, tablets e celulares freneticamente (eu era um deles).
Quatro homens chamavam atenção na fileira ao lado. Carecas, fortes, cheios de tatuagens, vestindo calça bege e camisa branca, eles conversavam sobre algo sério - e me olhavam muito feio quando eu tentava ler seus lábios, que sussurravam e me deixavam pescar apenas palavras soltas. Uma delas foi "hate" - ou ódio.
Pois foi exatamente ódio o que eu encontrei nas horas seguintes.
Enquanto desfazia a mala, li no Twitter boatos de uma possível demonstração-surpresa dos manifestantes, que haviam feito um acordo com a prefeitura para desfilar pela cidade só no dia seguinte.
Era sexta-feira à noite e eu corri para a Universidade de Virginia, ao norte do centro da cidadezinha de casarões preservados e praças com monumentos antigos. O campus estava escuro, vultos andavam de um lado para o outro em busca de algum sinal.
Um grupo de aproximadamente 20 homens subiu em passo acelerado em direção ao jardim interno. A 50 metros de distância, um grupo menor os seguia. Corri até eles pela penumbra.
O segundo bloco era formado por estudantes que escreviam para um site local. Anne, uma jovem de uns 20 anos, no máximo, me explicou: "São eles. Estão tentando nos despistar e andando em círculos".
Em 15 minutos eu entenderia o que ela quis dizer com "eles". Depois de circular todos os cantos do campus, um dos homens gritou: "Vamos!"
Eles começaram a correr. Sabiam que nós os seguíamos e não diziam nada. Corremos por quase 10 minutos até chegar ao alto de um vale.
"Eles" estavam lá embaixo. Centenas de homens e mulheres, incluindo algumas crianças, se organizavam em filas, rindo alto e brincando entre si enquanto acendiam tochas. Estava muito escuro e a luz das tochas de madeira tingia de vermelho o gramado, onde estudantes normalmente jogam beisebol e futebol americano.
Um homem com tom agressivo começa a falar no megafone. "Alinhem-se agora! Duas filas! Todos! Agora!"
A linha iluminada pelas tochas já alcançava o horizonte quando eles começaram a marchar. "Vocês não vão nos substituir!", "Judeus não vão nos substituir!", "Vidas brancas importam!", gritavam, bradando também ofensas a gays e estrangeiros.
"Sou nazista, sim", "A negra está assustada", "Suma daqui, viadinho", "Ele não é americano". Os gritos raivosos, partindo do meio das tochas que homenageavam a Ku Klux Klan (grupo racista que promoveu linchamentos, enforcamentos e assassinatos de negros), bastões de baseball e socos ingleses.
A caminhada terminou com uma briga generalizada com estudantes que tentaram impedi-los de se aproximar da estátua de Thomas Jefferson, terceiro presidente americano, em frente ao prédio principal da universidade.
Mas tudo isso era só um prenúncio do que aconteceria no dia seguinte, o sábado da marcha oficial. Acordei com gritos na praça ao lado do hotel: "Escória racista!".
Ali, grupos antifascistas - opositores aos supremacistas brancos, em muitos casos também agressivos e radicais - se reuniam para contra-atacar. Nascida e criada em Charlottesville, a senhora que servia o café da manhã comentava com a gerente.
"O Manny disse que está assustado. Acredita que mandaram ele vestir a farda e vir trabalhar?"
Depois descobri que Manny é policial aposentado há quase dez anos. Ele havia dito que os colegas temiam pelo pior, porque a quantidade de homens se aglomerando nas praças da cidade só crescia.
"Manny disse que só uma tempestade seria capaz de controlar isso aqui", contou a cozinheira. A previsão do tempo de fato indicava chuvas durante todo o dia.
Mas não se confirmou. Durante quatro horas, homens com suásticas tatuadas no crânio e bandeiras confederadas (símbolo do grupo que lutou na guerra civil americana por manter a escravidão) trocavam socos, pauladas e cusparadas com jovens vestindo máscaras e carregando bastões de madeira e sprays de pimenta.
Eles se batiam até sangrar, e policiais como o velho Manny assistiam a tudo de longe, visivelmente impotentes diante de grupos numerosos, estimados entre 2 e 6 mil pessoas, segundo a mídia local. Os nacionalistas, neonazistas, supremacistas brancos e simpatizantes se concentravam na praça, em torno da estátua do general confederado Robert E. Lee, um dos principais defensores da escravidão.
Antifascistas, punks, anarquistas e simpatizantes (incluindo hippies de roupas coloridas e tranças como os que vimos nos vídeos de Woodstock) ficavam do lado de fora. Para entrar na praça, os nacionalistas precisavam atravessar um paredão formado por antifascistas. Durante o caminho saltavam ofensas pesadas de ambos os lados, e volta e meia os ataques verbais se tornavam físicos.
Fui pego de surpresa em uma dessas escaladas violentas. Eu tentava filmar o encontro entre os grupos, quando uma briga generalizada começou. Nacionalistas fechavam os olhos e batiam com bandeiras em tudo o que viam pela frente e antifascistas faziam o mesmo com sprays de pimenta.
O spray me atingiu pelo corpo todo - e por uns três minutos eu não enxergava nada e corria, tentando sair da pancadaria. Alguém me puxou com força e me carregou. Eu não tinha ideia de quem era e temia o que fariam comigo. "Calma, calma, você vai ficar bem".
"A jovem fazia parte de um grupo de estudantes voluntários que levavam materiais de primeiros-socorros, água e comida para atender a feridos. Eles passaram vinagre no meu rosto e um produto que até agora não entendi qual é - mas tirou o ardor dos meus olhos na hora. Eles me salvaram no meio da confusão.
Voltei à cobertura para a BBC Brasil e o que mais impressionava a meu redor, mesmo a mim, brasileiro, era a quantidade de armas. Grupos uniformizados, representando os dois lados dos protestos, carregavam pistolas e fuzis, com cintos repletos de munição.
Na Virginia, quem tem porte de armas e determinados tipos de licença pode circular pelas cidades exibindo o armamento. A combinação entre a primeira e a segunda emendas da Constituição americana - liberdade de expressão e direito ao porte de armas, respectivamente - faziam em Charlottesville uma combinação tensa.
O medo era que, a qualquer momento, alguém disparasse e um tiroteio de proporções imensas deixasse uma multidão de feridos. Felizmente, isso não aconteceu. O governador declarou estado de emergência, e em poucos minutos helicópteros, tanques e centenas de policiais de diferentes grupos, incluindo a Força Nacional, chegaram à cidade e ordenaram a saída dos grupos nacionalistas da praça. Eles seguiram em fila para uma estrada que leva para o subúrbio local.
Pelo megafone, a polícia dizia: "Evacuem a área. Evacuem a área. Quem continuar aqui será preso."
A maior parte das ruas do centro foi bloqueada e eu fiquei preso em um quarteirão, sem poder ir até o hotel - único lugar onde eu poderia plugar meu computador numa tomada, já que todo o comércio estava fechado.
Nesse momento, pela segunda vez, encontrei uma onda inspiradora de solidariedade em meio ao ódio que pontuou o fim de semana em Charlottesville. Grupos de moradores, muitos deles idosos, circulavam pelas poucas ruas liberadas, oferecendo garrafas de água gelada e pacotinhos com batatas chips e amendoins.
"Se hidrate, se alimente", diziam, sorrindo. "Quanto custa?", perguntei automaticamente, achando que eram vendedores ambulantes. "Fazemos por amor", respondeu a senhora de cabelos brancos e avental azul, dando um tapinha em minhas costas.
Dois homens com tatuagens de símbolos nacionalistas estavam sentados em um canto, mexendo no celular. O grupo foi até eles também: "Beba água. Se hidrate. Se alimente".
Passaram-se duas horas até que as ruas do centro fossem abertas novamente. Não demorou até que os grupos que tentavam circular voltassem a se reunir.
Quando tudo parecia mais calmo, tentei seguir um pequeno grupo de nacionalistas que se dirigia até um estacionamento para entrar na van que os trouxe a cidade. Nesse momento, um carro cinza, completamente destruído, passou em alta velocidade.
Alguns antifascistas aplaudiram, achando que o carro do nacionalista havia sido depredado. Estavam errados. A duas quadras de onde estávamos, uma multidão gritava após o carro ter atropelado dezenas de pessoas e fugido em marcha ré, para depois acelerar em fuga em frente ao estacionamento onde eu estava.
Quatro ambulâncias chegaram rápido - pessoas ensanguentadas eram carregadas, parentes e amigos choravam em desespero e a polícia tentava, à força, isolar o local. Mais tarde soubemos: Heather Heyer, uma mulher de 32 anos, morreu atropelada (no domingo três mortes foram confirmadas), enquanto outras 19 pessoas ficaram feridas.
A cidade foi novamente evacuada por algumas horas. Anoiteceu, e a rua de pedestres do centro histórico, que na véspera estava lotada de estudantes comendo e bebendo animados, antes de entrar nas boates locais, estava deserta. Jornalistas e policiais eram os únicos a ir e vir, sempre em busca de "algo novo".
No local do atropelamento, um grupo de jovens acendia velas e trazia flores. Eles se organizaram em roda e começaram a rezar, abraçados.
A chuva prevista para a manhã daquele sábado enfim começou a cair. Inicialmente leve, uma garoa, depois mais pesada - o que lentamente esvaziou o centro por completo.
Charlottesville estava de luto.
Na manhã deste domingo, moradores varriam calçadas e tentavam recomeçar. No café da manhã do hotel, a cozinheira conversava com a gerente.
"Manny ainda não acordou, coitado. Está em choque. Sue (sua esposa) disse que ele não dorme tanto há 30 anos."
Fonte : Instituto Humanitas Unisinos

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O ÚLTIMO SÉCULO DAS FLORESTAS TROPICAIS.

O último século das florestas tropicais? Análise de Luiz Marques (IFCH/Unicamp)


Jornal da UNICAMP
“As florestas são o lar de mais de 80% de todas as espécies terrestres” [I]A maior parte dessa biodiversidade concentra-se nas florestas tropicais [II]. Há estimativas de que as florestas tropicais podem abrigar mais da metade das espécies terrestres do planeta, grande parte delas vivendo na canópia das árvores. E. O. Wilson, por exemplo, contou 43 diferentes espécies de formigas em uma única árvore na Amazônia peruana, algo equivalente à diversidade de espécies de formigas em todo o Reino Unido. Segundo estimativas, haveria entre 40 mil e 50 mil diferentes espécies de árvores nas florestas tropicais da América do Sul, da África e da Ásia. Um único hectare dessas florestas pode abrigar mais de 480 espécies diferentes de árvores. Mais de 1.300 espécies de borboletas foram documentadas num parque florestal do Peru, ao passo que a Europa toda possui menos de 400 espécies de borboletas [III].
Foto: Reprodução
Se definirmos florestas tropicais como formações florestais entre os trópicos (ou próximas deles), com dossel ou canópia (a cobertura formada pelas copas das árvores que se tocam) cobrindo 75% do terreno, então essas florestas estendem-se hoje por bem menos de 10% da superfície terrestre [IV]. Há algumas décadas, E. O. Wilson considerava que as florestas tropicais recobriam cerca de 7% da superfície terrestre, estimativa corroborada por Claude Martin, em cuja monografia de 2015 se lê que por volta de 1800, “a área coberta por florestas tropicais era ainda próxima dos cerca de 16 milhões de km2, considerados sua máxima extensão original. (…) Hoje, [dados de 2010], menos da metade dessa área permanece como floresta intocada – ninguém sabe exatamente quanto – e cerca de outro um quarto sobrevive como floresta fragmentada e degradada” [V].
Aceleração do desmatamento no século XXI
Um estudo baseado em 20 anos de dados satelitares (1990-2010), coletados em 34 países, mostra forte aceleração do desmatamento líquido (desmatamento bruto menos reflorestamento): “a taxa de perda de floresta nos trópicos aumentou em 62% na primeira década do milênio em relação aos anos 1990”[vi]. A figura 1 captura bem a curva dessa aceleração nos anos 2001-2014.

Foto: Reprodução
Perda florestal em hecares nos países tropicais, 2001 – 2014.
Fonte: Rhett A. Butler, “The year in rainforests: 2015”. Mongabay, 29/XII/2015

A tendência trienal sintetizada na linha laranja mostra que enquanto em 2001, perderam-se pouco mais de 60 mil km2 de florestas tropicais, em 2014, a perda foi de 99 mil km2. Entre 2001 e 2004, o Brasil perdeu mais florestas que todos os países tropicais juntos, mas a partir de 2011, embora o desmatamento no Brasil venha recrudescendo desde 2012, outros países tropicais tomam a dianteira, tornando-se os maiores responsáveis por essa aceleração, como mostra a figura 2.
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A perda anual de florestas nos países tropicais (menos Brasil e Indonésia) praticamente dobrou nesses 14 anos, passando de pouco mais de 31 mil km2 em 2001 para pouco mais de 61 mil km2 em 2014. Na Indonésia, o desmatamento, embora evolua em zigue-zague desde 2009, mantém-se entre 11 mil e 21 mil km2 por ano desde 2004, com remoção nesse período de 10% de sua cobertura florestal [VII]. Em Sumatra, as bacias hidrográficas perderam 22% de sua cobertura florestal (80 mil km2) entre 2000 e 2014 [VIII]. A aceleração mais recente verificou-se particularmente na África Ocidental, na bacia do Mekong e nas florestas de Pápua Nova Guiné, onde houve um salto de 70% entre 2014 e 2015, com um desmatamento apenas neste último ano de 18 mil km2, como mostra a figura 3.
Foto: Reprodução
O último século das florestas tropicais?
Como visto acima, Claude Martin avalia que em 2010 já havíamos destruído mais da metade da extensão original (~16 milhões de km2) das florestas tropicais e degradado um quarto dela. Em 2001, o Earth Observatory da NASA lançou a seguinte advertência: “Se a taxa atual de desmatamento continuar, as florestas tropicais desaparecerão dentro de 100 anos, provocando efeitos desconhecidos sobre o clima global e eliminando a maioria das espécies vegetais e animais no planeta” [IX]. Em 2003, Peter J. Bryant confirmava esse prognóstico. A prosseguir essa taxa, escrevia então, “a Tailândia não terá mais florestas em 25 anos” [X]. Infelizmente, como se vê, essa taxa de desmatamento não apenas continuou, mas se acelerou nos últimos 16 anos e, de fato, as florestas primárias da Tailândia – que ainda em 1950 recobriam 70% de seu território – já desapareceram praticamente por completo, o que levou as grandes madeireiras a se voltarem para as florestas de Mianmar [XI].
A causa primeira do declínio atual das florestas tropicais é obviamente o avanço da fronteira agropecuária, impulsionado pela globalização do capitalismo e por uma rede muito interconectada de megacorporações que controlam toda a cadeia alimentar, dos insumos ao consumo final. Mas outra causa desse declínio começa a surgir no horizonte. Ela é sistêmica, isto é, decorre do sistema climático e da maior vulnerabilidade das florestas degradadas: aquecimento, secas, aumento das bordas, ressecamento por exposição aos ventos, maior insolação e maior combustibilidade das florestas fragmentadas, perda de espécies funcionais à sua conservação etc. Não por acaso, um inventário em 21 países publicado em 2015 mostra que “a maior parte das 40 mil espécies de árvores tropicais podem ser agora consideradas como globalmente ameaçadas de extinção” [XII].
Amazônia, perto do “ponto crítico”
No que se refere especificamente à Amazônia, esse inventário, coordenado por Hans ter Steege, afirma: “Ao menos 36% e até 57% de todas as espécies de árvores da Amazônia devem provavelmente ser consideradas como globalmente ameaçadas segundo os critérios da IUCN [União Internacional para a Conservação da Natureza]. Se confirmados, esses resultados aumentarão em 22% o número de espécies vegetais ameaçadas no planeta”. Esse é mais um indicador, entre tantos, a aumentar a probabilidade de estarmos muito perto de um ponto crítico (tipping point), um ponto de não retorno, vale dizer, de declínio irreversível de ao menos toda a parte leste e sul da floresta amazônica. Num estudo de 2012, muito citado, Anthony D. Barnosky e 21 colegas partiam do fato bem conhecido de que “sistemas ecológicos transitam abruptamente e irreversivelmente de um estado para outro, quando levados a cruzar limiares críticos”, para avançar a ideia de que “o ecossistema global como um todo pode reagir da mesma maneira e está se aproximando de uma transição crítica em escala planetária como resultado da influência humana” [XIII]. Indagado por Maria Guimarães e Carlos Fioravanti, da revista da Fapesp, se, mantida a atual trajetória, a Amazônia poderia atingir esse ponto crítico, Thomas Lovejoy respondeu: “Sim. Não sabemos precisamente onde se situa esse ponto, mas creio que ele está em algum lugar próximo do atual nível de desmatamento”. E acrescentou: “A ciência a esse respeito é imprecisa; entretanto, a situação está provavelmente próxima de um ponto crítico, além do qual a floresta se transformará numa forma diferente de vegetação, do tipo savana, na parte sul e leste da Amazônia”.
Ninguém melhor que Antônio Donato Nobre, do INPE, descreveu a aceleração em direção a esse ponto crítico na região brasileira da Amazônia. É preciso citar extensamente esse texto de 2014: “Nos últimos 40 anos, 763.000 km² da floresta foram destruídos. Isso significa duas vezes a área da Alemanha. É preciso imaginar um trator com uma lâmina de 3 metros de comprimento, evoluindo a 756 km/h durante quarenta anos sem interrupção: uma espécie de máquina de fim do mundo. Segundo o conjunto das estimativas, isso representa 42 bilhões de árvores destruídas, isto é, duas mil árvores derrubadas por minuto ou 3 milhões por dia. É uma cifra difícil de imaginar por sua monstruosidade. E aqui falamos apenas de corte raso. Raramente se evocam as florestas degradadas pelo homem, essas zonas que as fotos dos satélites não distinguem e onde não restam senão algumas árvores que mascaram um desmatamento mais gradual. Trata-se neste caso de regiões inteiras nas quais a floresta não é mais funcional e não age mais como um ecossistema. Segundo os índices de degradação colhidos entre 2007 e 2010, essa zona cobre 1,3 milhão de km2, de modo que a área de corte raso e a de degradação representam juntas cerca de dois milhões de km2, ou seja 40% da floresta amazônica brasileira” [XIV].
O assassinato das florestas tropicais e de seus povos
Desde a implantação do Código Florestal em 2012, houve um aumento de 75% do desmatamento na Amazônia [XV] e tão somente de agosto de 2014 a julho de 2016, removeram-se mais 14.196 km2 da floresta amazônica, vale dizer, metade do que perdemos em 2004, o ano em que mais se desmatou a Amazônia, ou uma área equivalente a dois terços da superfície de Sergipe. De 2012 a 2016, a aliança de Dilma Rousseff com os desmatadores representou uma verdadeira traição aos interesses populares, traição cujas consequências não se fizeram esperar. Como mostrou o último relatório da ONG inglesa, Global Witness [XVI], entre 2010 e 2016 houve no Brasil 200 assassinatos documentados e tipificados de camponeses, índios e ativistas, perpetrados a mando do agronegócio, de madeireiras e de outros interesses corporativos, sendo 49 apenas em 2016. Sob a presidência da chapa Dilma Rousseff – Michel Temer, o Brasil conquistou e manteve uma inconteste liderança em assassinatos de índios, camponeses e ativistas em defesa de suas terras e da floresta [XVII], como mostra a figura 4.

Foto: Reprodução
Fonte: Global Witness, “On dangerous ground”, 2016

Carnivorismo, a causa final
Historicamente, na Amazônia, mais de 80% do desmatamento é causado pela pecuária e a figura 6 mostra a íntima correlação entre pecuária e desmatamento nessa região entre 1988 e 2004.
Foto: Reprodução
Um estudo recente do Imazon mostra a extrema concentração econômica da indústria da carne na Amazônia: apenas 128 frigoríficos, pertencentes a 99 empresas são responsáveis por 93% do abate anual do gado amazônico. E o conjunto das regiões de influência desses 128 frigoríficos (isto é, as fazendas fornecedoras de animais para esses frigoríficos) “abrange a quase totalidade das áreas embargadas pelo Ibama e 88% do desmatamento ocorrido na Amazônia entre 2010 e 2015”. O estudo afirma ainda que “se entre 2016 e 2018 a taxa de desmatamento recente se repetir, 90% das novas perdas de floresta estarão dentro da área de influência de compra de 128 frigoríficos” [XVIII].
João Meirelles, diretor do Instituto Peabirú, vem de há muito demostrando que nosso carnivorismo é a principal causa do desmatamento amazônico [XIX]. De fato, dado que consumimos no país cerca de 80% da carne bovina amazônica [XX] e dado que, para satisfazer a uma demanda interna anual de 30 kg per capita (2015), o rebanho bovino da Amazônia saltou de 1,5 para 64 milhões de cabeças, de 1964 a 2004, atingindo 85 milhões em 2016, segue-se que somos nós, consumidores brasileiros, a principal “causa final” do desmatamento da Amazônia. O carnivorismo atual causa malefícios demonstráveis à saúde humana, sofrimentos indizíveis a esses animais musicais, delicados e muito inteligentes [XXI], e, enfim, é a principal razão de ser da destruição da floresta amazônica e do Cerrado.

[I] Cf. ONU, 2015, Transforming our world: the 2030 Agenda for Sustainable Development. Objetivo 15.
[II] Há apenas 65 anos as florestas tropicais tornaram-se objeto de estudos sistemáticos. Cf. P. W. Richards de The Tropical Rainforest. An ecological Study, 1952; Adrian Sommer, “Attempt at an assessment of the world tropical moist forests”. FAO, Committee on Forest Development in the Tropics, 1976; E. O. Wilson, The diversity of life, 1992; Claude Martin, On the Edge, 2015 (34o Report to the Club of Rome), com Prefácio de Thomas Lovejoy. Em 2010, 562 publicações e 143 trabalhos de pós-graduação haviam sido realizados a partir do grande experimento iniciado na Amazônia por Thomas Lovejoy em 1979, intitulado The Biological Dynamics of Forest Fragments Project (BDFFP). Em 2015, Lovejoy concedeu duas entrevistas sobre sua trajetória (ambas em rede) a Kevin Dennehy, “Lovejoy, ‘Godfather’ of Biodiversity”, Reflects On 50 Years in the Amazon”. Yale School of Forestry & Environmental Studies, e a Maria Guimarães e Carlos Fioravanti, “Fifty years in Amazon”, publicada pela Revista Pesquisa FAPESP, março de 2015.
[IV] Cf. Rhett Butler, “10 Rainforest facts for 2017”. Mongabay, 2/I/2017.
[V] Cf. Claude Martin, On the Edge, 2015 (34o Report to the Club of Rome).
[VI] Cf. Jeff Tollefson, “Tropical forest losses outpace UN estimates”. Nature, 26/II/2015, baseado em Do-Hyung Kim, Joseph O. Sexton & John R. Townshend, “Accelerated deforestation in the humid tropics from the 1990s to the 2000s”. Geophysical Research Letters, 7/V/2015.
[VII] Cf. “Tropical Forest Alliance 2020 Annual Report 2015-2016 Partnering to produce deforestation-free commodities” (em rede).
[VIII] Cf. Global Forest Watch Water, 30/VIII/2016, com dados sobre desmatamento em 230 bacias hidrográficas (em rede).
[IX] Cf. Cf. Gerald Urquhart, Walter Chomentowski, David Skole, Chris Barber, “Tropical deforestation”. Earth Observatory (em rede); John Vidal, “We are destroying rainforests so quickliy they may be gone in 100 years”. The Guardian, 23/I/2017.
[X] Cf. Peter J. Bryant, Biodiversity and Conservation. A hypertext book, Univ. of California Irvine, 2003.
[XII] Cf. Hans ter Steege et al. “Estimating the global conservation status of more than 15,000 Amazonian tree species”. Science Advances, 1, 10, 20/XI/2015.
[XIII] Cf. Anthony D. Barnosky et al., “Approaching a state shift in Earth’s biosphere”. Nature, 486, 7/VI/2012, pp. 52-58.
[XIV] “Il faut un effort de guerre pour reboiser l’Amazonie”. Le Monde, 24/XI/2014.
[XV] Cf. Giuliana Miranda, “Novo Código Florestal contribuiu para aumento no desmatamento”. Folha de São Paulo, 12/12/2016.
[XVI] Cf. Global Witness, Defenders of the Earth. Global killings of land and environmental defenders, julho de 2017.
[XVII] Cf. “Durante cinco anos seguidos, Brasil é o país mais perigoso para ambientalistas”. Gestão pública eficiente, 13/VII/2017.
[XVIII] Cf. Eduardo Pegurier, “Como o bife no seu prato explica o desmatamento na Amazônia”. El País, 17/VII/2017.
[XIX] Cf. João Meirelles, “Você já comeu a Amazônia hoje?” (em rede).
[XX] “Pecuária é responsável por mais de 80% do desmatamento no Brasil”, Amazônia, 6/IX/2016 (em rede).
[XXI] Cf. Carolyn Gregoire, “Cows Are Way More Intelligent Than You Probably Thought”. Huffington Post, 28/VII/2015.

Texto LUIZ MARQUES
Fotos REPRODUÇÃO | Daniel Beltra – Greenpeace
Edição de imagem LUIS PAULO SILVA
Luiz Marques é professor livre-docente do Departamento de História do IFCH /Unicamp. Pela editora da Unicamp, publicou Giorgio Vasari, Vida de Michelangelo (1568), 2011 e Capitalismo e Colapso ambiental, 2015, 2a edição, 2016. Coordena a coleção Palavra da Arte, dedicada às fontes da historiografia artística, e participa com outros colegas do coletivo Crisálida, Crises SocioAmbientais Labor Interdisciplinar Debate & Atualização (crisalida.eco.br).

Do Jornal da UNICAMP, reproduzida in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 09/08/2017

IPCC CONVOCA PARA REVISÃO DE DOCUMENTO SOBRE O AQUECIMENTO GLOBAL.

IPCC convoca especialistas para revisar documento sobre aquecimento de 1,5°C da Terra


Segundo a vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, Thelma Krug, depois de 2014, se ampliou a literatura para servir de modelo para projeções sobre aquecimento do planeta. “Os dados mostram que a temperatura continua subindo”, afirma.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) está convidando especialistas de todo o mundo a participar do processo de revisão da primeira versão do relatório especial sobre o aumento de 1,5°C da temperatura média do planeta. A revisão é um elemento-chave do processo de avaliação do IPCC, que visa garantir uma estimativa equilibrada e abrangente das últimas descobertas científicas sobre o tema.
“Esse trabalho vai permitir conhecer melhor os impactos que um aumento de 1,5°C poderá causar. Depois de 2014, se ampliou a literatura para servir de modelo para essas pesquisas e projeções. Os dados mostram que a temperatura continua subindo”, afirma a vice-presidente do IPCC, Thelma Krug, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe).
Ela lembra que, entre 1880 e 2012, a temperatura média na superfície da Terra e nos oceanos aumentou 0,85° Celsius em virtude, entre outras causas, das emissões de gases na atmosfera. “O que fazemos é projetar cenários futuros. O papel do IPCC é justamente fazer esse levantamento de tudo que os cientistas vêm publicando e explorar os conhecimentos regionais. É uma oportunidade de incluir nossas publicações no relatório mundial, de o Brasil contribuir. Temos muitas publicações interessantes geradas no país.”
O IPCC determina que o processo de revisão deve ser objetivo, aberto e transparente, envolvendo o maior número de especialistas independentes, buscando a variedade de pontos de vista, expertise e representação geográfica. “Quanto mais pudermos contribuir, mais estaremos colocando nossa visão brasileira. A maior parte da literatura cabe aos países desenvolvidos. Temos que incentivar as contribuições dos países em desenvolvimento para atingir um equilíbrio nas colaborações”, ressalta Thelma Krug.
Passo a passo
Ela explica que o relatório vai passar por três revisões. A primeira, feita por especialistas, destina-se a apontar lacunas, incluir literatura e verificar se o relatório está sendo tendencioso. No início do ano que vem, haverá outra revisão por parte dos governos, que irá gerar a segunda minuta. A revisão final, feita pelos países-membros, deve acontecer em julho de 2018, quando é produzido um sumário para a formulação de políticas públicas sobre o tema em nível global.
“Essa versão vai para a reunião do painel em 2018. Os países vão trabalhar parágrafo por parágrafo para a formulação das políticas, desde que concordem com o trabalho apresentado. Os cientistas é que vão harmonizar as propostas aos governos em função daquilo que eles defendem já estar suficientemente avançado nas pesquisas”, explica a pesquisadora.
Impactos
Segundo o relatório de 2014, as emissões de gases que provocam o efeito estufa devem ser reduzidas de 40% a 70% até 2050. “É preciso estabilizar os níveis do efeito estufa”, diz a vice-presidente do IPCC, lembrando os impactos ainda mais negativos de um aquecimento global acima de 1,5ºC: derretimento das geleiras, alteração dos ciclos biológicos, secas profundas e inundações com frequência e maior intensidade. O maior temor é o aumento do nível dos mares.
“O que se espera é que, quanto mais baixo for o aquecimento global, menores serão os impactos potenciais. Para pequenas ilhas, o aumento da temperatura fará com que elas desapareçam. Algumas dessas ilhas já estão fazendo planos de adaptação, inclusive, de migração”, alerta a pesquisadora.
Os candidatos a revisores têm até 17 de setembro para fazer o registro. Clique aqui.
Para mais informações, visite o site do IPCC.
Fonte: MCTIC
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/08/2017

DEFENDER OS BIOMAS.NÃO PODEMOS ABDICAR DE NOSSA TAREFA.

Defender os biomas brasileiros. ‘Não podemos abdicar de nossa tarefa’, alerta Roberto Malvezzi (Gogó)


IHU

Biomas Brasileiros
Biomas Brasileiros. Imagem: EBC

A riqueza e a biodiversidade nos biomas brasileiros são imensas, mas os desafios frente a sua sistemática dilapidação são gigantescos. Buscar alternativas a esse sistema predatório é mais que urgente. “Não podemos abdicar de nossa tarefa”, afirma o ambientalista Roberto Malvezzi (Gogó), filósofo, teólogo, escritor e compositor. Trata-se de alguém forjado na luta que, desde inícios dos anos 1980, enraizou-se no nordeste brasileiro. Reside em Juazeiro, na Bahia, mas percorre todo o país, promovendo encontros, debates e oficinas. Com longa passagem pela Comissão Pastoral da Terra e sempre muito ativo no trabalho de assessoria junto à CNBB, atualmente, está empenhado no fortalecimento das ações da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM)
Roberto Malvezzi esteve em Curitiba, no último sábado, dia 05, para o 4º encontro pelo ciclo de debates Brasil: conjuntura, dilemas e possibilidades. Discorreu sobre o tema Análise dos biomas brasileiros: da biodiversidade à espoliação. O ciclo é promovido pelo CEPAT, em parceria com o Núcleo de Direitos Humanos da PUCPR, Cáritas Regional Paraná e apoio do IHU.
Em sintonia com a Campanha da Fraternidade deste ano, cujo tema é Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida e o lema: Cultivar e guardar a Criação, refletiu-se a respeito da vital importância de se conhecer, preservar e lutar em defesa dos biomas. No atual estágio da exploração capitalista, é preciso vencer a cegueira e passar a enxergar que todas as formas de vida são interdependentes, estão interligadas e que uma necessita da outra. É preciso superar a visão fragmentada e, para além dos discursos de conveniência, incorporar o debate ambiental na agenda de luta pelos direitos, principalmente na agenda daqueles que estão inseridos nas causas populares e de esquerda. O debate ambiental não pode ser um apêndice ou, simplesmente, algo alheio aos projetos que se pensa para as sociedades atuais e vindouras.
Malvezzi não iniciou sua fala a partir dos imensos desafios atuais frente à espoliação de nossos biomas, mas, sim, resgatando o sentido mais profundo da vida, que é o mistério. Para além de todos os avanços científicos, a vida segue sendo um mistério. Diante de tal mistério, cabe a reverência profunda, o respeito e a acolhida de tal gratuidade.
Tendo isto presente, Malvezzi trouxe a definição de bioma: “um conjunto organizado de vidas, em um espaço contínuo, com clima semelhante, com solo semelhante e relevo semelhante”. Em seguida, destacou elementos acerca dos seis biomas brasileiros: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa. E retomando Darcy Ribeiro, fez questão de enfatizar a riqueza étnica e cultural do povo brasileiro nesses seis biomas, ressaltando a resistência das comunidades tradicionais: índios, quilombolas, ribeirinhos, etc.
Um dos grandes desafios de um país tão rico em biodiversidade como o Brasil, mas ao mesmo tempo com intensa concentração demográfica nas áreas urbanas, é fazer com que aqueles que vivem cotidianamente nas cidades compreendam que também pertencem a um bioma e que a preservação deste é vital para a continuidade da vida de todos. “Muitos só se lembram da importância da água, quando a mesma falta em sua torneira”, lembrou Malvezzi, ao destacar como a preocupação com a preservação de nossos biomas ainda passa distante das inquietações ordinárias das pessoas.
O ciclo das águas brasileiras é apenas um dos exemplos apresentados acerca da centralidade dos biomas brasileiros. A partir dele, Malvezzi enfatizou como os biomas brasileiros são interdependentes para a produção de chuvas: “Sem a Amazônia não há produção de chuvas. Sem o cerrado não há aquíferos para abastecer as bacias brasileiras. Sem a Amazônia ou o Cerrado não há o Rio São Francisco tal qual o conhecemos. Sem a Amazônia e o Cerrado a região sudeste (área de maior concentração urbana do país) se transforma em deserto”.
Abaixo, indicamos o vídeo apresentado por Roberto Malvezzi, no qual o pesquisador Antonio Donato Nobre, autor do relatório O Futuro Climático da Amazônia, explica como e por que os Rios Voadores são ligados às florestas nativas, e qual as consequências benéficas para o ciclo hidrológico da América do Sul.
(EcoDebate, 10/08/2017) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]