quarta-feira, 18 de abril de 2018

A CONTRIBUIÇÃO DO DECRESCIMENTO POPULACIONAL PARA O MEIO AMBIENTE NO SÉCULO XXI.

A contribuição do decrescimento populacional para o meio ambiente no século XXI.

"O aumento da população funciona como um fermento para o aumento do consumo. A obsessão pelo crescimento demoeconômico contínuo fez a humanidade ultrapassar a capacidade de carga do Planeta. Dados de 2013 mostram que a Pegada Ecológica global está 68% acima da biocapacidade. E o déficit ecológico continua aumentando. Em breve consumiremos 2 planetas".
O alerta é de José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 16-04-2018.

Eis o artigo.

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”
Machado de Assis (Memórias póstumas de Brás Cubas)

fecundidade da população mundial caiu bastante nos 50 anos compreendidos entre 1965 e 2015. A taxa de fecundidade total (TFT) estava em torno de 5 filhos por mulher entre 1950 e 1965 e caiu para 2,5 filhos por mulher no quinquênio 2010-15. Houve uma diminuição de 2,5 filhos na TFT em meio século. Foi a maior redução já ocorrida na história da humanidade e representa um dos maiores e mais significativos fenômenos sociais de mudança de comportamento de massa já ocorridos na sociedade.
A autolimitação do tamanho da prole ocorreu de forma racional e em meio ao aumento do bem-estar médio global. Isto significa que as famílias optaram por investir na qualidade dos filhos e não na quantidade de novos membros da família. A redução da TFT não ocorreu em função da escassez de recursos, ao contrário, foram os casais com maiores níveis de educação e renda e com maior acesso à informação que lideraram a transição da fecundidade nos diversos países.
Porém, mesmo com toda a expressiva queda da TFT, a população mundial cresceu de 2,5 bilhões de habitantes em 1950 para cerca de 7,5 bilhões de habitantes em 2015. Se a taxa de fecundidade se mantiver em torno de 2,5 filhos por mulher até 2100 a população mundial poderá duplicar entre 2015 e 2100 e chegar a um número próximo de 15 bilhões de habitantes no final do século XXI.
(Fonte: EcoDebate)
Divisão de População da ONU faz várias projeções para as próximas décadas. Na projeção média a taxa de fecundidade passaria dos atuais 2,5 filhos por mulher para 2 filhos por mulher em 2100. Na projeção baixa, a TFT passaria de 2,5 filhos para 1,5 filhos por mulher em 2100. Ou seja, na hipótese da projeção média, a TFT seria reduzida em meio (0,5) filho até 2100. Na hipótese de projeção baixa, a TFT seria reduzida em um (1) filho no espaço de 85 anos, conforme mostra o gráfico acima.
Esta queda projetada pode parecer pequena para o período 2015-2100 (diante dos 2,5 filhos reduzidos entre 1965-2015), mas teria um efeito impactante sobre o volume total da população e no número de nascimentos.
O gráfico abaixo mostra que o número de nascimentos do mundo em 1950 estava, aproximadamente, em torno de 100 milhões de bebês por ano e subiu para cerca de 140 milhões de bebês no quinquênio 2010-15. Se a TFT seguir a trajetória média, conforme hipótese da Divisão de População da ONU, o número de nascimentos anuais no mundo ficará em torno de 140 milhões nas próximas décadas e atingirá 131,2 milhões no quinquênio 2095-00. Se a TFT seguir a trajetória baixa, o número de nascimentos anuais no mundo cairá progressivamente e atingirá 59 milhões no quinquênio 2095-00.
O número total de nascimentos entre 2015 e 2100, na projeção média, seria de 11,8 bilhões e na projeção baixa de 7,7 bilhões. Isto significa que se, nos 85 anos entre 2015 e 2100, a TFT cair de 2,5 para 2 filhos por mulher vão nascer 11,8 bilhões de crianças e se a TFT cair de 2,5 para 1,5 filho por mulher o número de nascimentos se reduziria para 7,7 bilhões. Uma diferença de 4,1 bilhões de crianças.
(Fonte: EcoDebate)
Estes dados mostram o impacto da queda de meio filho sobre o volume da populaçãototal, indicando que uma aceleração do ritmo da transição da fecundidade poderia reduzir imediatamente o número de nascimentos. Por exemplo, na hipótese média de projeção o número de nascimentos seria de 141 milhões no quinquênio 2015-20 e de 142,9 milhões no quinquênio 2045-50, enquanto na hipótese baixa de projeção os números seriam de 126,6 milhões e 100 milhões, respectivamente. Assim, se a TFT cair no ritmo estimado da projeção baixa haverá um bilhão de nascimentos a menos até 2050. Portanto, mesmo com a inércia demográfica, a redução seria significativa e poderia contribuir para diminuir a pressão sobre o meio ambiente.
O gráfico abaixo mostra a evolução da população mundial de 1950 a 2015 e os cenários de projeção médio e baixo. Na hipótese média, a população mundial passaria dos atuais 7,5 bilhões de habitantes para 11,2 bilhões de habitantes em 2100. Na hipótese baixa, a população mundial ficaria com 7,3 bilhões de pessoas no final do século XXI. Portanto, se houver uma queda de um filho na TFT até 2100, em relação aos 2,5 filhos do quinquênio 2010-15, o mundo pode ter uma população em 2100 menor do que a de 2015. Seriam menos 4 bilhões de pessoas em relação à projeção média da Divisão de População da ONU. Ao invés de crescimento demográfico, teríamos decrescimento demográfico.
(Fonte: EcoDebate)
Os dados acima mostram que a demografia não é destino. Mais de 90% da população global de 2100 vai nascer nos próximos 85 anos (de 2015 ao final do século). A população mundial cresceu nos últimos milênios seguindo a máxima do livro do Genesis: “Sede férteis e multiplicai-vos! Povoai e sujeitai toda a terra; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todo animal que rasteja sobre a terra!”. Porém, agora é possível evitar o crescimento exponencial ininterrupto.
aumento da população alimenta (por meio da oferta de trabalho e a demanda por consumo) o aumento da economia. O superconsumo só se sustenta porque existem pessoas consumindo. A parcela da população mundial com consumo muito elevado está em torno de 20%. Mas existe uma grande classe média (em torno de 40% da população mundial) que quer mimetizar o consumo dos ricos. E os 40% da população muito pobres também querem (e merecem) aumentar o consumo de alimentos, educação, saúde, lazer, etc.
aumento da população funciona como um fermento para o aumento do consumo. A obsessão pelo crescimento demoeconômico contínuo fez a humanidade ultrapassar a capacidade de carga do Planeta. Dados de 2013 mostram que a Pegada Ecológica globalestá 68% acima da biocapacidade. E o déficit ecológico continua aumentando. Em breve consumiremos 2 planetas.
Evidentemente, a redução do consumo é a tarefa mais urgente para reduzir a pegada ecológica. Mesmo com a rápida queda da taxa de fecundidade a população mundial vai crescer nos próximos anos. Porém, seguindo a trajetória baixa da projeção da ONUa população mundial não ultrapassaria 9 bilhões de habitantes até 2050 e diminuiria rapidamente na segunda metade do século XXI, podendo chegar em 2100 com um volume populacional menor do que o atual.
Seria um risco para todas as formas de vida do Planeta aumentar a população mundial em 4 bilhões de habitantes e aumentar a economia e a exploração da natureza. A humanidade, ao longo da história, já prejudicou bastante a saúde dos ecossistemas e vai ter que enfrentar grandes desafios nas próximas décadas, tais como: aquecimento global e ondas letais de caloraumento do nível do mar e naufrágio das áreas litorâneas, aumento dos furacõesacidificação dos oceanos, erosão dos solos, poluição das águas, crescimento das mortes por poluição do ar, redução da biodiversidade, insegurança alimentar, etc.
Menos gente significará menos sofrimento humano e não humano. Com a novidade da redução demoeconômica ficaria mais viável a recomposição dos ecossistemas e arecuperação da biodiversidade. O colapso ambiental poderá ser evitado se houver um esforço conjunto dos diversos países do mundo para colocar a humanidade em um espaço seguro, onde a redução das atividades antrópicas possa coexistir com a convivência harmoniosa com a natureza. A lição sabemos de cor, só nos resta colocá-la em prática: Sem ECOlogia saudável não há demografia viável ou ECOnomiasustentável.

ASSASSINATOS NO CAMPO BATEM NOVO RECORDE.

Análise da CPT revela que assassinatos no campo batem novo recorde e atingem maior número desde 2003


A Comissão Pastoral da Terra (CPT) divulgou os dados de assassinatos em conflitos no campo no Brasil em 2017 – o maior número desde o ano de 2003. A CPT também denuncia ataques hackers que sofreu no último ano, provavelmente dentro do processo de criminalização contra as organizações sociais que tem se intensificado, e que acabou impossibilitando a conclusão e o lançamento nessa data de seu relatório anual, o “Conflitos no Campo Brasil”.
Mesmo com o atraso em sua publicação, a CPT torna públicos hoje os dados de assassinatos em conflitos no campo ocorridos no ano de 2017. Novamente esse tipo de violência bateu recorde, e atingiu o maior número desde 2003, com70 assassinatos (confira aqui a tabela). Um aumento de 15% em relação ao número de 2016. Dentre essas mortes,destacamos 4 massacres ocorridos nos estados da Bahia, Mato Grosso, Pará e Rondônia. Destacamos, ainda, a suspeita de ter ocorrido mais um massacre, de indígenas isolados, conhecidos como “índios flecheiros”, do Vale do Javari, no Amazonas, entre julho e agosto de 2017. Seriam, pelas denúncias, mais de 10 vítimas. Contudo, já que o Ministério Público Federal no Amazonas e a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), não chegaram a um consenso, e diante das poucas informações a que a CPT teve acesso, por se tratar de povos isolados, o caso não foi inserido na listagem por ora apresentada (Confira aqui a política e regras de uso dos dados da CPT).   
A CPT ressalta, todavia, que, além dos dados de assassinatos que constam nesta relação, há muitos outros que acontecem na imensidão deste país e que só a dor das famílias é que os registram. “A publicação da CPT é apenas uma amostra dos conflitos no Brasil”, dizia Dom Tomás Balduino, bispo emérito de Goiás (GO) e um dos fundadores da Pastoral.
assassinatos no campo: 2003-2017
Os assassinatos de trabalhadores e trabalhadoras rurais sem-terra, de indígenas, quilombolas, posseiros, pescadores, assentados, entre outros, tiveram um crescimento brusco a partir de 2015. O estado do Pará lidera o ranking de 2017 com 21 pessoas assassinadas, sendo 10 no Massacre de Pau D’Arco; seguido pelo estado de Rondônia, com 17, e pela Bahia, com 10 assassinatos.
ranking de assassinatos no campo em 2017
Dos 70 assassinatos em 2017, 28 ocorreram em massacres, o que corresponde a 40% do total. Em agosto de 2017, a CPT lançou uma página especial na internet (https://cptnacional.org.br/mnc/index.php) sobre os massacres no campo registrados de 1985 a 2017. Foram 46 massacres com 220 vítimas ao longo desses 32 anos. Na página é possível consultar o histórico e imagens dos casos. O estado do Pará também lidera esse ranking, com 26 massacres ao longo desses anos, que vitimaram 125 pessoas.
Assassinatos e Julgamentos
A CPT registra os dados de conflitos no campo de modo sistemático desde 1985. Entre os anos de 1985 e 2017, a CPT registrou 1.438 casos de conflitos no campo em que ocorreram assassinatos, com 1.904 vítimas. Desse total de casos,apenas 113 foram julgados, o que corresponde a 8% dos casos, em que 31 mandantes dos assassinatos e 94 executores foram condenados. Isso mostra como a impunidade ainda é um dos pilares mantenedores da violência no campo.
Nesses 32 anos, a região Norte contabiliza 658 casos com 970 vítimas. O Pará é o estado que lidera na região e no resto do país, com 466 casos e 702 vítimasMaranhão vem em segundo lugar com 168 vítimas em 157 casos. E o estado deRondônia em terceiro, com 147 pessoas assassinadas em 102 casos (Confira aqui a tabela).
Ataques hackers atrapalham conclusão do relatório anual da CPT
A partir do segundo semestre de 2017, a Secretaria Nacional da CPT, situada em Goiânia (GO), sofreu seguidos ataqueshackers, orquestrados e direcionados a setores estratégicos, que forçaram a limitação do funcionamento de seus servidores na tentativa de manter a segurança do sistema, o que acabou comprometendo o desempenho das tarefas diárias da Pastoral. O Centro de Documentação Dom Tomás Balduino, responsável pela catalogação e compilação dos dados de conflitos no campo divulgados pela entidade, foi prejudicado, atrasando o fechamento do relatório anual da CPT, o “Conflitos no Campo Brasil”, e impossibilitando o seu lançamento na data costumeira, a semana do 17 de abril, Dia Internacional de Luta Camponesa, em memória aos trabalhadores rurais sem-terra assassinados na Curva do S, em Eldorado dos Carajás, Pará, em 1996.
Esses ataques podem, também, fazer parte do processo de criminalização empreendido contra organizações e movimentos sociais de luta. O caso foi denunciado às instâncias policiais competentes e segue sob investigação. De qualquer forma, a CPT julga de extrema importância denunciar, ainda que de forma incompleta, algumas das diversas formas de violência exercidas contra os povos do campo em 2017 e chamar a atenção para os dados alarmantes que agora analisamos. Em breve será divulgado, enfim, o relatório “Conflitos no Campo Brasil 2017”, completo. A CPT aproveita para reafirmar seu compromisso com as causas do povo pobre do campo, e que não conseguirão nos calar!
Fonte: Comissão Pastoral da Terra – Secretaria Nacional
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/04/2018

terça-feira, 17 de abril de 2018

É O PIOR MOMENTO DESDE A CRISE DOS MÍSSEIS

"É o pior momento desde a crise dos mísseis"diz especialista em Rússia e Estados Unidos.


A tensão atual entre EUA e Rússia é a pior desde que os dois países ficaram à beira de uma guerra nuclear na Crise dos Mísseis de 1962, diz o professor Ivan Kurilla, especialista na relação entre americanos e russos da Universidade Europeia, em São Petersburgo, na Rússia. Em sua opinião, a situação atual é mais imprevisível que o período da Guerra Fria, posterior ao conflito de 1962.
A entrevista é de Cláudia Trevisan, publicada por O Estado de S. Paulo, 12-04-2018.
Para ele, o cenário doméstico de ambos os lados aumenta a possibilidade de agravamento do conflito, ainda que não acredite em uma guerra aberta. “Quando o presidente Trump está sob pressão das elites políticas americanas, isso o torna mais imprevisível.” Putin também age com um olho no seu público interno. A seguir, trechos da entrevista concedida ao Estado.

Eis a entrevista.

O presidente Trump disse que as relações entre EUA e Rússia estão no pior patamar desde a Guerra Fria. O sr. concorda?
Nós não temos os blocos militares e a competição ideológica de antes. Na Guerra Fria, o mundo era dividido quase igualmente entre o bloco ocidental e o bloco oriental. E havia duas grandes máquinas militares. Agora, temos apenas a Rússia, que tenta desafiar todo o mundo, o que não parece colocar o perigo estratégico real de uma guerra mundial. A situação é mais semelhante à dos anos 20. Depois da Revolução Comunista de 1917, houve um período de quase dez anos em que a Rússia soviética não foi reconhecida diplomaticamente pelo Ocidente. Foi um período em que os governos ocidentais não tinham políticas para lidar com esse adversário novo, ambicioso, que havia quebrado todas as regras.
O que estamos vendo é mais imprevisível que a Guerra Fria?
Sim e essa é a pior característica da situação atual. Com certeza é mais imprevisível do que o período posterior à Crise dos Mísseis, em 1962. Depois dela, os dois países tentaram conter a agressividade mútua. A situação atual é como o “jogo da galinha” (no qual ambos os jogadores avançam na direção do outro e o que desvia perde; se nenhum desviar, os dois perdem). É muito ruim para as relações internacionais. A situação atual não é tão ruim quanto a Crise dos Mísseis, mas é a pior desde então.

Qual é o risco de confronto entre EUA e Rússia na Síria?
O risco existe. Eu espero, como todo mundo, que não haja confronto militar real. A pior coisa que pode acontecer é o disparo de mísseis pelos Estados Unidos na Síria e sua interceptação pela Rússia. Mas não espero uma guerra aberta. Eu cresci no fim da Guerra Fria e não creio que uma guerra entre Rússia e Estados Unidos seja possível. Um grande confronto entre os dois países será nuclear e todo mundo cresceu com o temor da guerra nuclear. Ninguém quer isso.
Qual o impacto da personalidade de Trump sobre a imprevisibilidade atual?
Quando o presidente Trump está sob pressão das elites políticas americanas, isso o torna mais imprevisível. Parte da elite política dos EUA continua a usar a chamada interferência da Rússia nas eleições e as conexões de Trump com a Rússia para limitar sua habilidade de definir sua própria política externa. Não me refiro apenas à imprevisibilidade de Trump como pessoa, mas ao fato de que seu embate contra grande parte das elites americanas torna a política externa dos EUA muito mais imprevisível. Do lado russo, também há fatores domésticos, especialmente desde a recente reeleição do presidente Putin. Nos dois casos, questões domésticas jogam um papel muito mais importante do que o que está acontecendo na Síria. Claro que a Síria cria o pretexto para um conflito, mas a escalada foi provocada não pela Síria, mas foi provocada pela construção da imagem do inimigo, tanto nos EUA quanto na Rússia.
Se os EUA atacarem a Síria, a Rússia vai responder?
Não tenho como prever. Mas Putin repetiu, nas entrevistas que concedeu depois de sua reeleição, que ele não gosta de fazer concessões. A ideia é que qualquer concessão leva à derrota. Por isso, é difícil esperar que ele faça concessões, a menos que haja uma maneira de permitir que ele saia da situação com dignidade.
Qual o grau de preocupação dos russos com essa crise?
As pessoas estão muito preocupadas, a julgar pelo que eu vejo nas mídias sociais. Hoje é o segundo dia seguido em que a possibilidade de um confronto entre a Rússia e os EUA é o principal tópico na internet. De 80% a 90% dos comentários no Facebook russo e em outras mídias falam sobre o assunto. É algo que todo mundo está discutindo. Ninguém quer uma guerra.
Fonte : Instituto Humanitas Unisinos

SÍDROME BURNOUT NO AMBIENTE ACADÊMICO

Síndrome burnout no ambiente acadêmico, artigo de Lucas Penchel


estresse
Foto: EBC
[EcoDebate] No Brasil, uma pesquisa feita pela sede brasileira da International Stress Magagement Association (Isma), em 2016, com mil profissionais, mostrou que 72% dos entrevistados sofriam com estresse, sendo que 30% deles apresentavam síndrome de burnout. Definida por Herbert J. Freudenberger como “(…) um estado de esgotamento físico e mental cuja causa está intimamente ligada à vida profissional“, o distúrbio envolve, principalmente a busca pelo reconhecimento e o foco no trabalho como fonte exclusiva de prazer e sucesso.
Apesar de estar presente em várias áreas profissionais, o esgotamento profissional parece assombrar mais àqueles que escolheram medicina como profissão, como pude observar por natureza própria. Segundo relatório feito pelo Medscape Physician Lifestyle Report, em 2015, 46% dos médicos entrevistados nos Estados Unidos possuem a síndrome burnout. Embora alarmante, a pesquisa não é uma surpresa. A cobrança por resultados e a pressão para conseguir entrar na universidade de medicina são pontos que mereciam uma atenção maior por parte das autoridades relacionadas ao assunto; seja Governo ou instituição.
Na primeira edição de 2017 do Sistema de Seleção Unificada (SISU) na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o curso de medicina foi o mais disputado, alcançando a marca de 13.084 inscrições para 320 vagas; ou seja, cerca de 654 candidatos para cada vaga disponibilizada. Por conta da alta procura pela vaga, a nota de corte para ampla concorrência, por exemplo, foi de 811,70. Além da concorrência acirrada por vaga em uma universidade pública, aqueles que optam por faculdade privada têm que enfrentar o valor altíssimo das mensalidades e dos gastos com materiais e livros. Ambos os casos, a abdicação da vida social é inevitável, devido ao alto número de trabalhos, provas e residência.
Muitos não aguentam o elevado nível de cobrança e apresentam quadros de ansiedade, depressão, vícios ou, até mesmo, suicídio. Somente neste primeiro trimestre, uma faculdade privada de Minas Gerais perdeu dois estudantes de medicina – um do nono período e o outro do quarto – vítimas de suicídio. Sendo que no ano passado, 2017, mais dois alunos da mesma faculdade tiraram a própria vida.
É de senso comum o alto nível de complexidade e responsabilidade que envolve o dia-a-dia de um médico. Porém medidas precisam ser estudadas e aplicadas em prol do bem-estar físico e mental dos graduandos. Precisa-se tratar o assunto desde o início para evitar o surgimento do burnout, visto que é o sintoma mais frequente e a porta de entrada para consequências, muitas vezes, irrevogáveis.
Em suma, trabalhar melhor o quadro de horários e das provas, propor carga horária justa, instituir atividades paralelas que promovam “relaxamento” e oferecer ajuda psicológica já será um grande avanço em relação ao caso. As taxas alarmantes burnout nas faculdades de medicina certamente diminuiriam e os alunos se sentiriam acolhidos e apoiados de certa forma.
Lucas Penchel, médico nutrólogo e diretor da Clínica Penchel.
Colaboração de Iara Valério, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/04/2018

segunda-feira, 16 de abril de 2018

ANÁLISE DE DADOS INDICA ENFRAQUECIMENTO DA CIRCULAÇÃO OCEÂNICA DO ATLÂNTICO

Análise de dados indica o enfraquecimento da circulação oceânica do Atlântico


Potsdam Institute for Climate Impact Research — PIK*
Análise de dados indica o enfraquecimento da circulação oceânica do Atlântico

A circulação do Atlântico – um dos mais importantes sistemas de transporte de calor da Terra, bombeando água morna para o norte e água fria para o sul – é mais fraca hoje do que em qualquer outro período em mais de 1000 anos.
A análise dos dados da temperatura da superfície do mar fornece novas evidências de que essa importante circulação oceânica diminuiu cerca de 15% desde meados do século 20, de acordo com um estudo publicado na renomada revista Nature por uma equipe internacional de cientistas. A mudança climática provocada pelo homem é um dos principais suspeitos para essas observações preocupantes.
“Detectamos um padrão específico de resfriamento oceânico ao sul da Groenlândia e um aquecimento incomum na costa dos Estados Unidos – o que é altamente característico para uma desaceleração da circulação do Atlântico, também chamada de Gulf Stream System”, diz Levke Caesar, do Instituto Potsdam. para a Pesquisa de Impacto Climático (PIK). “É praticamente como uma impressão digital de um enfraquecimento dessas correntes oceânicas.”
À medida que as correntes diminuem, elas trazem menos calor para o norte, causando um resfriamento generalizado do Atlântico Norte – a única região oceânica que se resfriou diante do aquecimento global. Ao mesmo tempo, a Corrente do Golfo se desloca para o norte e se aproxima da costa e aquece as águas ao longo da metade norte da costa atlântica dos EUA.
“Aquela região aqueceu mais rápido do que a maioria das outras partes do oceano nas últimas décadas”, diz o coautor Vincent Saba, do Laboratório da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA), em Princeton, EUA. “Esse padrão específico de temperatura do oceano foi projetado por simulações de computador de alta resolução, como resposta ao aumento dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera – agora isso foi confirmado por medidas”.
Medições da temperatura da superfície do mar confirmam simulações de computador
Durante décadas, os cientistas investigaram a dinâmica da circulação do Atlântico. Simulações de computador geralmente predizem que ele enfraquecerá em resposta ao aquecimento global causado pelo homem. Mas se isso já está acontecendo, até agora não ficou claro, devido à falta de medições de corrente contínua de longo prazo. “A evidência que agora podemos fornecer é a mais robusta até hoje”, diz Stefan Rahmstorf, do Instituto Potsdam, que concebeu o estudo. “Analisamos todos os dados disponíveis sobre a temperatura da superfície do mar, incluindo dados do final do século XIX até o presente.”
“O padrão de tendência específico que encontramos nas medições parece exatamente o que é previsto por simulações de computador, como resultado de uma desaceleração no Sistema da Corrente do Golfo, e não vejo outra explicação plausível para isso”, diz Rahmstorf. Na verdade, não é apenas o padrão no espaço que coincide entre simulação de computador e observações, mas também a mudança com as estações do ano.
O aquecimento global provavelmente provoca as mudanças – os efeitos são de longo alcance
O enfraquecimento é causado por uma série de fatores que podem estar ligados ao aquecimento global causado pelos gases de efeito estufa da queima de carvão, petróleo e gás.
A inversão do Atlântico é impulsionada pelas diferenças na densidade da água oceânica: quando a água quente e, portanto, mais leve, viaja do sul para o norte, fica mais fria e mais densa e pesada – afundando-se em camadas oceânicas mais profundas e fluindo de volta para o sul. “Mas com o aquecimento global, o aumento das chuvas, bem como a degelo do gelo do mar Ártico e da camada de gelo da Groenlândia, estão diluindo as águas do Atlântico Norte, reduzindo a salinidade. Menos água salgada é menos densa e, portanto, menos pesada – o que dificulta que a água afunde da superfície até a profundidade ”, explica Alexander Robinson, da Universidade de Madri, coautor do estudo.
Houve longos debates sobre se a circulação do Atlântico poderia entrar em colapso, sendo um elemento decisivo no sistema da Terra. O presente estudo não considera o destino futuro dessa circulação, mas analisa como ela mudou nos últimos cem anos. No entanto, Robinson adverte: “Se não pararmos rapidamente o aquecimento global, devemos esperar mais uma desaceleração a longo prazo da circulação do Atlântico. Estamos apenas começando a entender as consequências desse processo sem precedentes – mas elas podem ser perturbadoras ”.
Vários estudos mostraram, por exemplo, que uma desaceleração da circulação do Atlântico exacerba a elevação do nível do mar na costa dos Estados Unidos, em cidades como Nova York e Boston. Outros mostram que a mudança associada nas temperaturas da superfície do Atlântico afeta os padrões climáticos da Europa, como o rastro de tempestades vindas do Atlântico. Especificamente, a onda de calor europeia do verão de 2015 esteve ligada ao frio recorde no Atlântico norte naquele ano – este efeito aparentemente paradoxal ocorre porque um Atlântico norte frio promove um padrão de pressão de ar que canaliza o ar quente do sul para a Europa.
Os resultados são amplamente apoiados pelo estudo do passado da Terra na mesma edição da Nature
Os resultados são apoiados e colocados em uma perspectiva de longo prazo por um segundo estudo realizado por uma equipe em torno de David Thornalley, da University College London, publicado na mesma edição da Nature. Esta análise importante examina o clima passado da Terra – usando informações que estão, por exemplo, enterradas no fundo do oceano, na composição de sedimentos -reconstruir as mudanças no Atlântico ao longo dos últimos 1.600 anos.
Os dados paleoclimáticos fornecem confirmação independente para conclusões anteriores de que a recente fraqueza da circulação é sem precedentes, pelo menos por mais de um milênio.
A evolução da inversão do Atlântico no último milênio deduzida de evidências indiretas de temperaturas abaixo da superfície quase coincide exatamente com a encontrada anteriormente por Rahmstorf e colegas em 2015 – o que é bastante notável, dado que o novo estudo é baseado em sedimentos oceânicos, enquanto o estudo anterior rede de evidências encontradas na superfície da terra, como dados do núcleo de gelo e anéis de árvores.
“Várias linhas de evidência estão se unindo agora, apontando para o mesmo enfraquecimento desde os anos 50”, diz Rahmstorf: “O resfriamento subpolar do Atlântico, o aquecimento da costa do Golfo, os dados de Thornalley para as temperaturas do subsolo no Atlântico, e dados anteriores de corais do mar profundo mostrando mudanças na massa de água no Golfo do Maine. ”
O estudo de Thornalley também sugere que uma parte da circulação do Atlântico – o fluxo profundo da água do mar de Labrador – foi afetada há 150 anos pelo aquecimento e pelo derretimento do gelo no final da “Pequena Idade do Gelo”. Isso ilustra a sensibilidade da circulação ao aquecimento e à entrada de água doce – algo que está acontecendo de novo agora com o aquecimento causado pelo homem e a aceleração do derretimento da Groenlândia.
No entanto, a julgar pelos dados das temperaturas passadas do subsolo, este evento há 150 anos não foi associado a uma redução global tão profunda no transporte de calor no oceano Atlântico como o aquecimento dos gases de efeito estufa de combustíveis fósseis que ocorreu principalmente desde 1950 -um aquecimento global que é maior do que em qualquer outro tempo na história da civilização humana.
Referência: Levke Caesar, Stefan Rahmstorf, Alexander Robinson, Georg Feulner, Vincent Saba (2018): Observed fingerprint of a weakening Atlantic Ocean overturning circulation. Nature [DOI: 10.1038/s41586-018-0006-5]
http://dx.doi.org/10.1038/s41586-018-0006-5
* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/04/2018