terça-feira, 19 de junho de 2018

ATLAS DA VIOLÊNCIA : ESTAMOS MATANDO O NOSSO FUTURO.

Atlas da Violência: Estamos matando o nosso futuro, artigo de Marco Antônio Barbosa


escultura 'não vilência'
[EcoDebate] Entra ano e sai ano a violência fica cada vez mais exposta nos noticiários. E uma parcela importante para o futuro do nosso país é a que mais sofre com esta situação: os jovens. Mais uma vez alarmante, o novo Atlas da Violência – divulgado esta semana pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Fórum Brasileiro de Segurança Pública – mostra que o Brasil alcançou a marca histórica de 62.517 homicídios no ano de 2016. Deste número, 53,7% são jovens entre 15 a 19 anos.
No país, 33.590 adolescentes saíram de casa e não voltaram em 2016, sendo que 94,6% eram do sexo masculino. Entre os homens, o crime mata mais do que qualquer doença, batendo 56,5% das causas de óbito.
Os dados também mostram como as políticas de segurança e públicas (que criam oportunidades para este público) são falhas e ineficientes. Os números aumentaram 7,4% em relação ao ano anterior. Considerando a década de 2006-2016 o país sofreu um aumento de 23,3%.
Nada efetivo foi feito para trazer segurança para as nossas crianças e isso é um problema complexo que começa na falta de investimento em educação. Sem ensino, sem oportunidade. Com isso, o crime aparece como única solução, principalmente para a parcela mais pobre da população. Isso sem contar a falta de investimento em infraestruturas básicas como saúde, moradia e transporte. Essa conta chega a um resultado muito triste. Jogamos mais uma geração na mão do crime organizado que a usa como bem entende. Que a usa como soldados.
O estudo aponta outra questão que deve ser debatida: em alguns estados o problema é ainda maior que em outros. Enquanto houve redução nestas taxas em São Paulo, por exemplo, no Rio Grande do Norte cresceu 382,2% entre 2006 e 2016. Isto é reflexo da falta de uma visão geral da situação pelos governantes. Mostra como nossos políticos federais (deputados, senadores e presidente) não conseguem coordenar políticas integradas. O crime se espalha pelas periferias, seja em uma favela ou em estados mais pobres. As facções são as mesmas do Oiapoque ao Chui e, na maioria das vezes, passam dessas fronteiras para outros países. Em contraponto, as ações de nossas polícias são cada vez mais locais. Um contraste mortal. Qualquer ação, como uma intervenção em um estado, não fará cócegas aos problemas. A questão deve ser tratada nacionalmente.
A situação é claramente preocupante, mas enquanto postergarmos as medidas de longo prazo, mais estes números baterão marcas históricas. É necessário investir nos nossos jovens hoje, para que se tornem adultos mais conscientes e ajudem a mudar o Brasil. Atualmente, a luta é ainda mais atrás. Não conseguimos deixá-los chegarem a fase adulta. O nosso futuro está morrendo na nossa frente. Como pensar em novos políticos, se não deixarmos nossos jovens crescerem?
** Marco Antônio Barbosa é especialista em segurança e diretor da CAME do Brasil. Possui mestrado em administração de empresas, MBA em finanças e diversas pós-graduações nas áreas de marketing e negócios.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/06/2018

RÚSSIA : DEMOGRAFIA

O decrescimento demográfico da Rússia, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


população total da Federação Russa
[EcoDebate] Esta semana começa a Copa do Mundo de Futebol na Rússia, que é o maior país do mundo, em termos de extensão territorial, com 17,1 milhões de km2 e tem um território duas vezes maior do que o do Brasil. Também possui uma das menores densidades demográficas do mundo, apenas 8 habitantes por km2.
A Rússia foi o país que sofreu as maiores perdas humanas durante a Primeira Guerra Mundial, que terminou em 11/11/1918 e vai completar 100 anos em 2018. Houve também uma grande mortalidade por conta da Guerra Civil e da fome na década de 1920. Em 22 de junho de 1941, a Alemanha nazista invadiu a União Soviética e jogou o país na Segunda Guerra Mundial, provocando a morte de outros milhões de russos e soviéticos. Com o fim da URSS, em dezembro de 1991, o país entrou novamente em crise e houve grande queda da esperança de vida. A Rússia do século XX foi marcada por grandes tragédias e por uma alta mortalidade.
Mas o que vai marcar a dinâmica demográfica da Rússia no século XXI é a redução das taxas de fecundidade e o decrescimento demográfico, que já vem ocorrendo desde a década de 1990. A Rússia atual é um país que já apresenta um dos maiores declínios populacionais do mundo.
Em 1950, a população da Rússia era de 102,7 milhões de habitantes (quase o dobro dos 52 milhões de brasileiros na mesma data), chegou ao pico de 148,9 milhões de habitantes em 1993, sendo 69,7 milhões de homens e 79,2 milhões de mulheres e depois caiu para 143,9 milhões em 2017. Segundo a projeção média da Divisão de População da ONU (revisão 2017), a população da Rússia deve cair para 132,7 milhões até 2050 e 124 milhões em 2100. As diversas projeções para o restante do século XXI estão apresentadas no gráfico acima.
A taxa de fecundidade total (TFT) da Rússia já era baixa em 1950, sendo de 2,85 filhos por mulher (no Brasil era mais de 6 filhos nesta época) caiu para o nível de reposição (em torno de 2,1 filhos) entre 1965 e 1990, mas despencou depois do fim da União Soviética e a desorganização do país, chegando a recorde de baixa de 1,25 filhos por mulher no quinquênio 1995-00. Depois aumentou um pouco, mas ainda se encontra em níveis baixos, estando em 1,75 filhos por mulher em 2015-20. O número médio de nascimentos anuais de crianças foi de 2,8 milhões em 1950-55, caiu ligeiramente para 2,4 milhões em 1985-90 e despencou para apenas 1,3 milhão de nascimentos em 1995-00. No quinquênio 2015-20 houve uma pequena recuperação para 1,8 milhão de nascimentos anuais (O Brasil neste período tinha cerca de 3 milhões de nascimentos anuais e o Paquistão 4,7 milhões anuais).
população da Rússia
As diversas crises de mortalidade e da natalidade fizeram a estrutura da pirâmide populacional sofrerem enormes descontinuidades, como pode ser visto no gráfico acima. Entre 1950 e 2050 as pirâmides apresentam diversos “dentes”, que devem desaparecer somente em 2100 quando a pirâmide deve apresentar um formato mais retangular e com uma estrutura etária bastante envelhecida e com menores diferenciais de gênero.
Além da baixa fecundidade a Rússia sofre com a redução da esperança de vida. A esperança de vida média de homens e mulheres era de 64,5 anos no quinquênio 1950-55 e subiu para 69,1 anos em 1985-90. Mas depois da crise econômica e social decorrente do fim da União Soviética, a esperança de vida caiu e chegou a 64,9 anos no quinquênio 2000-05. Em 2015-20 houve uma ligeira recuperação, para 71,2 anos, acima do nível de 20 anos atrás. A esperança de vida das mulheres estava em 76,8 anos, mas a esperança de vida dos homens estava em meros 65,6 anos.
Ou seja, a diferença na expectativa de vida entre os sexos era de mais de 11 anos, a maior diferença do mundo. Os altos níveis de alcoolismo dos homens explicam em grande parte estas diferenças. Nota-se que a Rússia tem um grande superávit de mulheres em relação aos homens, ao contrário, por exemplo, da China e da Índia que possuem uma razão de sexo com superioridade masculina. A sobremortalidade masculina é bastante alta.
Para enfrentar a “crise demográfica”, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, propôs incentivos à natalidade para evitar que o país veja sua população diminuir ainda mais, uma proposta com viés eleitoral anunciada antes das novas eleições para o Kremlin. Segundo Putin: “A situação demográfica na Rússia volta a ser preocupante, em primeiro lugar por razões objetivas. Devemos relançar nossas políticas para promover a natalidade e reduzir a mortalidade”. A medida mais ambiciosa das propostas do presidente russo prevê subsidiar parte dos juros das hipotecas para que as famílias tenham um segundo ou um terceiro filho a partir de janeiro de 2018.
Em termos ambientais, a Rússia tem superávit, pois a biocapacidade está acima da pegada ecológica. Mas o degelo da Sibéria pode liberar grandes quantidades de metano do permafrost, agravando o aquecimento global e a acidificação dos solos e dos oceanos.
pegada ecológica e biocapacidade na Rússia
A Rússia faz parte do grupo dos BRICS e entre os 5 países é o que possuí o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Mas as pretensões de hegemonia na antiga área da URSS faz a Rússia investir muito em gastos militares e em medidas autoritárias contra os setores da oposição. O apoio ao regime de Bashar Hafez al-Assad, na Síria, tem acirrado o conflito com os EUA, o Reino Unido e a França.
Por outro lado, uma aliança estratégica com a China e a Índia pode criar um força nova na Eurásia que desloque o centro dinâmico do mundo para a Ásia. Este triângulo estratégico pode enfraquecer a hegemonia Ocidental e acelerar o processo de Orientalização do mundo. A Rússia veria o seu prestígio aumentado.
A Copa do Mundo de Futebol, de 2018, vai colocar a Rússia em destaque nos noticiários do mundo. Vale a pena conhecer mais a realidade econômica, social e ambiental deste que é o maior país do mundo em extensão territorial e uma das civilizações mais influentes do globo.
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/06/2018

O DESASTROSO LEGADO DA COPA DO MUNDO DE FUTEBOL DE 2014.

O desastroso legado da Copa do Mundo de Futebol de 2014, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


Maracanã
[EcoDebate] Começou o circo da Copa do Mundo de Futebol, desta vez na Rússia. Quatro anos depois da última Copa (aquela famosa pelo 7X1), o Brasil está em pior situação econômica, vive um caos político e ainda está pagando pelos “elefantes brancos” que começou a construir, convive com obras inacabadas e ainda investiga a corrupção que favoreceu os espertos que souberam manipular o futebol como ópio do povo e capitalizar o mito do país do futebol de drible e ginga fáceis.
O governo vendeu a ideia de que os grandes eventos – Copa do Mundo e Olimpíada – seriam uma forma de reafirmar o desenvolvimento nacional e mostrar ao mundo que o Brasil estava preparado para ser a 4ª potência mundial. O próximo passo seria participar do Conselho de Segurança da ONU, como membro permanente ao lado de EUA, China, Rússia, Reino Unido e França (todos potências nucleares). O Brasil até começou a fazer um submarino movido a propulsão nuclear para poder navegar de forma pujante no mar das elites nucleares e defender as riquezas do pré-sal (nosso passaporte para o futuro) das ameaças da ganância imperialista.
O sonho do Brasil potência dos militares foi reciclado para o sonho do Brasil potência democrática e líder terceiro-mundista. “Com brasileiro, não há quem possa!”. Se vencemos o “complexo de vira-lata” e nos tornamos os líderes das canchas futebolísticas, por que não nos tornaríamos líderes em outros campos?
Mas como disse o ensaísta inglês Samuel Johnson (1709-1784): “O patriotismo é o último refúgio do canalha”. O patriotismo brasileiro é sempre revivido de quatro em quatro anos e não será diferente na Copa da Rússia. Porém, enquanto a seleção brasileira disputa a “honra nacional” nos gramados russos, não se deve esquecer o desastroso legado da Copa de 2014.
No Rio de Janeiro, o projeto de gentrificação do Porto Maravilha ficou pelas tabelas e está se transformando em um grande desastre financeiro. Artigo de Adriano Belisário, para o site Pública (26/02/2018) mostra que a operação do Porto Maravilha “ficou refém do seu gigantismo e enfrenta dificuldades para pagar o consórcio formado pela Odebrecht, OAS e Carioca Engenharia, que faz obras e serviços como limpeza de ruas e coleta de lixo na região”. O mecanismo financeiro para viabilizar as obras do Porto Maravilha foi a venda dos Certificados do Potencial Adicional de Construção (Cepacs) pelo fundo da Caixa Econômica (CEF), que comprou todos os títulos da prefeitura, em lote único, em 2011 por R$ 3,5 bilhões. A compra usou recursos dos trabalhadores (FGTS), com a expectativa de revendê-los mais caros no mercado para empreendedores interessados em aumentar a quantidade de andares de seus imóveis na região. O problema é que foram poucos os compradores, e os Cepacs estão encalhados.
Não há novos projetos licenciados com consumo de Cepacs no Porto Maravilha desde meados de 2015. Como resultado, o fundo controlado pela CEF declarou em maio de 2016 falta de dinheiro em caixa (iliquidez) para pagar a parceria público-privada (PPP) com as empreiteiras. Em julho de 2017, após meses sem receber, a concessionária formada por essas empresas suspendeu as atividades na região. Só 15% dos empreendimentos financiaram a operação. Entre os 77 empreendimentos do mercado imobiliário licenciados, mais da metade (48) não consumiu nem consumirá nenhum Cepac, ou seja, não injetará recursos na PPP. Em síntese, as maravilhosas promessas do Porto Maravilha ficaram pela metade e a Prefeitura do Rio terá que injetar dinheiro público para a manutenção que deveria estar sendo feita pela iniciativa privada.
Ainda no Rio, o Maracanã – “maior estádio de futebol do mundo” – que já tinha abrigado um público de duas centenas de milhares (dizem que na final da Copa de 1950, entre Brasil e Uruguai, o número de torcedores era superior a 200 mil) foi reformado, na gestão Sérgio Cabral. A reforma do estádio estava orçada em R$ 700 milhões, mas custou R$ 1,2 bilhão, e virou uma “arena” com menos de 80 mil lugares. O resultado é que os jogos no Maracanã não dão retorno financeiro para os clubes, pois o custo de manutenção e funcionamento levam toda a renda dos jogos. Desta forma, o ex-“maior estádio do mundo” fica mais fechado do que aberto ao público. Atualmente, quem circula pelo entorno do Maracanã reclama do abandono e do aumento da criminalidade. O número de roubos de celular, por exemplo, aumentou 220% se comparado com 4 anos atrás. O roubo de veículos aumentou 190%.
O Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) indicou que as obras de reforma do Maracanã para a Copa do Mundo de 2014 foram objeto de milionários superfaturamentos. O Ministério Público do Rio pediu que as construtoras Odebrecht, Andrade Gutierrez e Delta Engenharia, encarregadas das obras, restituíssem R$ 200 milhões ao Tesouro Público. O cimento foi comprado a um preço três vezes maior que o do mercado, com um impacto de R$ 23 milhões no custo. Alguns serviços, como o aluguel de gruas, foram faturados em duas vezes, revelam os documentos. Outro importante impacto no preço final foi o da substituição da cobertura das arquibancadas, cuja preservação era prevista no projeto original. O Maracanã permaneceu em estado de abandono durante três meses, devido um imbróglio político-legal entre a concessionária e o comitê organizador das Olimpíadas de 2016 e agora sobrevive aos trancos e barrancos.
Reportagem do site G1, mostra que em Belo Horizonte, obras prometidas para a Copa de 2014 ainda estão inacabadas. No Aeroporto Internacional de Confins há obras de ampliação e modernização do terminal paradas desde setembro de 2014. A empresa que opera o local desde agosto daquele ano afirma que melhorias prometidas para a Copa são responsabilidade da Infraero.
Em Cuiabá, nove obras prometidas para a Copa de 2014 seguem inacabadas, o que tem custado caro aos cofres públicos. Entre elas, está a construção do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), que já consumiu R$ 1,066 bilhão e está parada desde dezembro de 2014. Só 6 km de trilhos foram concluídos, do total de 22 km.
Em Curitiba, quatro das 13 obras prometidas para a Copa ainda não foram concluídas, três de responsabilidade do governo estadual, e duas, da Prefeitura de Curitiba. Todas elas fazem ligação entre a capital e a Região Metropolitana, como o corredor Aeroporto-Rodoferroviária, onde já foram investidos mais de R$ 44 milhões e a reforma e ampliação do Terminal do Santa Cândida.
Em Brasília, ainda há cinco obras prometidas para a Copa atrasadas, entre elas a urbanização do entorno do estádio Mané Garrincha e a construção do VLT entre o Aeroporto de Brasília e o Plano Piloto. Em 2012, o governo do DF desistiu de entregar o entorno do estádio a tempo para a Copa. O projeto do VLT foi cancelado definitivamente em 2015.
Em Fortaleza, a entrega da expansão do Aeroporto Pinto Martins foi cancelada em maio de 2014. O Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) que iria cruzar 22 bairros também não foi entregue e, em alguns pontos da obra, moradores convivem com transtornos há seis anos.
Em Manaus, o BRT, sistema de ônibus rápido, seria o principal meio de transporte para os torcedores até a Arena da Amazônia. Porém, em 2012, o governo estadual e a prefeitura desistiram de entregar a obra para a Copa, alegando atraso na liberação de recursos para o projeto. Até hoje a obra ainda nem foi licitada. Dos três Centros de Atendimento aos Turistas prometidos para a Copa, um está com as obras paradas e os outros nem saíram do papel.
Em Natal, pelo menos quatro obras previstas para a Copa ainda não foram entregues. A mais atrasada é a reforma e padronização de 55 km de calçadas nas avenidas que dão acesso à Arena das Dunas, na Zona Sul da cidade. A obra dos acessos ao Aeroporto Internacional Governador Aluízio Alves (bastante distante do centro da cidade) ainda deve ser entregue, mas de maneira parcial.
Em Porto Alegre, a obra na Avenida Cristóvão Colombo está parada desde que o consócio que ganhou a concorrência desistiu do contrato alegando dificuldades financeiras. Das 18 obras previstas para a Copa de 2014 na capital gaúcha, dez estão atrasadas e duas nem começaram.
Em Recife, cinco das obras de mobilidade prometidas para a Copa ainda não foram entregues. Além disso, o governo do estado rescindiu no ano passado o contrato para construir a Cidade da Copa, projeto apresentado como primeiro modelo de cidade inteligente no Brasil.
Em Salvador, as reformas no aeroporto internacional da capital baiana se arrastam até hoje. Houve troca de administração da Infraero para uma empresa francesa, que ainda irá concluir a nova área de check-in. A implementação do BRT na cidade chegou a estar na lista das obras prometidas para a Copa de 2014, mas foi retirada porque não ficaria pronta a tempo.
Em São Paulo, a Linha 17-Ouro do monotrilho, que chegou a ter a inauguração anunciada para antes da Copa de 2014, até hoje não teve nenhuma estação entregue. O projeto foi retirado da lista de obras do Mundial por causa da mudança do estádio da Copa para Itaquera, na Zona Leste. Desde então, os valores da obra aumentaram, e os prazos foram sucessivamente ampliados.
A megalomaníaca proposta de fazer ou reformar 12 estádios de futebol para a Copa do Mundo de 2014 só se justifica pelo interesse daqueles políticos e empreiteiros que visavam lucrar com a corrupção das obras superfaturadas. Cidades com Manaus, Cuiabá, Brasília e Natal nem possuem times na primeira divisão do campeonato brasileiro. As obras feitas estão ociosas, as obras inacabadas dão prejuízos e transtornos e toda a população brasileira foi onerada com o desperdício do dinheiro público e a ineficiência das construções. O grande destaque foram os protestos de rua contra a Copa, contra a ilusão midiática dos grandes eventos e contra a manipulação do mito da “pátria de chuteiras” e a paixão cega pelo futebol.
Em 2015 estourou o escândalo da Fifa, quando 7 dirigentes da entidade máxima do futebol foram presos na Suíça, após serem acusados por suspeitas de corrupção envolvendo um montante de até US$ 150 milhões. A Fifa se mostrou uma das entidades mais corruptas do mundo. Três brasileiros foram implicados no esquema de corrupção, de acordo com o departamento de Justiça dos EUA. O ex-presidente da CBF José Maria Marin, José Hawilla, dono da Traffic Group (que morreu recentemente) e José Lazaro Margulies, proprietário das empresas Valente Corp. e Somerton Ltda. A CBF e a Fifa saíram com a imagem totalmente arranhadas e a população já percebe que há “algo de podre” no reino do futebol.
Outra revelação que veio a público recentemente foram os casos de abusos sexuais. Em campanha do Sindicato de Atletas de São Paulo, 33 atletas e ex-profissionais, entre eles Edu Dracena e Moisés (Palmeiras), Rodrigo Caio e Diego Lugano (São Paulo), Felipe (Porto-POR), Cicinho (Brasiliense) e Giovanni, ídolo do Santos na década de noventa, fazem um alerta sobre assédio e abuso sexual de crianças e adolescentes em categorias de base. Um vídeo com depoimentos dos jogadores e a hashtag #chegadeabuso é o primeiro passo da campanha, que deve se desdobrar em ações preventivas nos clubes ao longo do ano, segundo o jornal El País.
Quatro anos depois da Copa do Mundo de 2014, muitas verdades vieram à tona sobre o circo do futebol enquanto as promessas do Brasil grande foram afogadas em uma crise econômica sem precedentes. O déficit fiscal brasileiro é monstruoso e a dívida pública cresce de maneira explosiva. O país não tem dinheiro para investimento em infraestrutura e o desemprego atingiu níveis astronômicos. A violência é desesperadora. O exército que veio garantir a “paz” durante a Copa e a Olimpíada, agora voltou para fazer uma intervenção no Rio de Janeiro, que teve até a paralisação do trenzinho da Urca pela primeira vez na história.
Mas os interesses comerciais do “patriotismo canalha” (na expressão de Samuel Johnson) vão tentar fazer o povo brasileiro mergulhar no ufanismo do futebol tupiniquim e torcer mais uma vez para a “seleção canarinha” da “Pátria de chuteiras”, esquecendo que a Copa de 2014, foi um fracasso dentro e fora dos campos. Porém, a beleza do futebol está em reconhecer a vitória de quem joga melhor e mais bonito, sem a carga pesada da manipulação do nacionalismo idiota.
Referências:
G1. Quatro anos depois, ainda há obras prometidas para Copa no Brasil inacabadas em 11 das 12 cidades-sede, 23/05/2018
https://g1.globo.com/economia/noticia/quatro-anos-depois-ainda-ha-obras-prometidas-para-copa-no-brasil-inacabadas-em-11-das-12-cidades-sede.ghtml
Adriano Belisário. Porto Maravilha corre o risco de parar novamente em 2018, Pública, 26/02/2018
https://apublica.org/2018/02/porto-maravilha-corre-o-risco-de-parar-novamente-em-2018/
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/06/2018

CRESCE O NÚMERO DE HOMICÍDIOS NO BRASIL EM MEIO À CRISE SOCIAL.

Cresce o número de homicídios no Brasil em meio à crise social, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


“Artigo III: Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”
Declaração Universal dos Direitos Humanos, ONU: 10/12/1948

Homicídios: Brasil x Mundo
[EcoDebate]No mundo da diversão e da manipulação midiática do futebol como ópio do povo, o Brasil estreou na Copa da Rússia com empate contra a Suíça. A superioridade brasileira só não prevaleceu porque o juiz não marcou uma falta contra o Brasil e nem um pênalti a favor. Tirando estes erros do juiz, dizem os analistas ufanistas, o Brasil se mostrou, no gramado, muito superior à Suíça.
Mas na vida real e no dia a dia da dinâmica social, o Brasil perde de 62 x 1 para o país alpino, pois a taxa de homicídio brasileira foi de 31,3 mortes para cada 100 mil habitantes, em 2016, enquanto a taxa da Suíça foi de 0,5 mortes para cada 100 mil habitantes, segundo o relatório World Health Statistics 2018, da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Na verdade, o Brasil tem ficado entre os 10 países mais violentos do mundo e desrespeitado, cotidianamente, o Artigo III da Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU: 10/12/1948), que diz: “Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”.
A tabela abaixo, mostra que o Brasil ocupa a sétima posição no ranking dos homicídios das Américas e a nona posição no mundo. O primeiro lugar, em 2016, ficou com Honduras, com 55,5 mortes para cada 100 mil habitantes, o segundo lugar ficou com a Venezuela com 49,2 mortes. Os únicos dois países africanos entre as 10 maiores taxas de homicídios são Lesoto, com 35 mortes e África do Sul, com 33,1 mortes. Oito dos 10 países mais violentos do mundo são da América Latina e Caribe (ALC), que se firma como a continente mais desigual (em termos sociais e de concentração de renda) e mais violento do mundo. Não por coincidência, existe alta correlação entre desigualdade social e violência.
 taxa de homicídios nos 10 países mais violentos, 2016
O número absoluto de homicídios no Brasil, em 2016, foi de 62.517 mortes, segundo o Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde (SIM/MS). Este número, é muito maior do que o número de mortes dos Estados Unidos nos 15 anos da Guerra do Vietnã. A figura acima mostra que o número de mortes por homicídio no Brasil foi maior do que a soma dos homicídios em 154 países, no mesmo ano. E nestes 154 países estão China, EUA e Indonésia que são países com maior população do que o Brasil. Ou seja, a posição do Brasil é vergonhosa e preocupante, pois, além de desrespeitar os direitos humanos, representa um grande custo econômico, social e psicológico para as famílias e para o país.
O mais alarmante é que a taxa de homicídio não é somente alta, mas ela está em elevação durante os últimos 10 anos. O número de pessoas mortas por causas violentas estava abaixo de 50 mil em 2006 e 2007 (taxa abaixo de 27 por mil), ultrapassou a marca de 50 mil em 2008 e manteve uma média acima de 60 mil entre 2014 e 2016 (taxa superior a 30 por mil), nos anos de recessão econômica e de aumento do desemprego.
Brasil: número e taxa de homicídios (2006 a 2016)
Este aumento do número e do percentual de homicídios, apresentado pelo Atlas da Violência 2018, produzido pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), torna-se mais dramático quando se percebe que em algumas Unidades da Federação as taxas que estão acima daquelas consideradas maiores do mundo. A primeira tabela abaixo mostra que Sergipe apresentou uma taxa de 64,7 mortes para cada 100 mil habitantes, em 2016, percentual muito maior do que as 55,5 mortes para cada 100 mil habitantes de Honduras, o país campeão mundial em violência letal. A tabela seguinte mostra que o Rio de Janeiro, com 6.053 mortes foi a UF com maior número absoluto de homicídios, em 2016. 
Brasil: taxa de homicídios por unidade da federação
taxa de homicídios por unidade da federação
Esta taxa escandalosa, que coloca o Brasil no topo dos países mais violentos do mundo, é ainda mais dramática quando se considera que incide especialmente sobre os jovens e os negros. A taxa de homicídios de negros (pretos e pardos) no Brasil foi de 40,2, enquanto a de não negros (brancos, amarelos e indígenas) ficou em 16 por 100 mil habitantes. O gráfico abaixo, também do Atlas da Violência 2018, mostra que no Brasil, a taxa de homicídios de jovens de 15 a 29 anos, em 2016, foi de 65,5 mortes para cada 100 mil pessoas. Foram assassinados 33.590 jovens (15-29 anos), sendo 94,6% do sexo masculino, o que representa um aumento de 7,4% em relação ao ano anterior.
Este é o lado mais perverso, pois cria uma juventude perdida, que está fora das escolas e não consegue se inserir no mercado de trabalho e acaba sendo promotora e vítima de uma violência kafikiana e que está comprometendo o futuro do Brasil. A tabela abaixo mostra que a taxa de homicídio entre os jovens brasileiros está acima de 100 mortes para cada 100 mil indivíduos em Sergipe (142,7), Rio Grande do Norte (125,6), Alagoas (122,4), Bahia (114,3), Pernambuco (105,4) e Amapá (101,4). As menores taxas estão em Santa Catarina (27,2) e São Paulo (19,0).

Brasil: taxa de homicídios de jovens
As mortes violentas não só reduzem a esperança de vida e a razão de sexo (devido ao “Homencídio”), mas alteram também a dinâmica da economia, da sociedade e das famílias, ao interromper de forma precoce o ciclo de vida das pessoas e ao impedir que jovens – homens e mulheres – possam melhor contribuir para o desenvolvimento social e cultural das nações. O impacto nas famílias é enorme, pois muitos pais perdem os filhos, filhos perdem os pais, esposas perdem os maridos, irmãos perdem parentes e cônjuges perdem seus companheiros, quebrando as relações interfamiliares. Um país que vê passivamente sua juventude ser morta de forma violenta é injusto no presente e tem seu futuro comprometido irremediavelmente.
O artigo “A validade da explicação demográfica para a tendência recente do homicídio de homens jovens em quatro regiões metropolitanas brasileiras (2002-2012)”, de (MANETTA e ALVES, 2018), mostra que a transição demográfica e a superação da onda jovem contribui para a redução das taxas de homicídios, mas o bom desempenho do mercado de trabalho e a geração de oportunidades para os jovens está entre os principais determinantes para a prevalência de menores taxas de violência letal.
Referências:
MANETTA, Alex; ALVES, JED. A validade da explicação demográfica para a tendência recente do homicídio de homens jovens em quatro regiões metropolitanas brasileiras (2002-2012), Ideias, Campinas, SP, v.9, n.1, AOP, jan./jun. 2018
https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/ideias/article/view/8652691/18147
MOTTA, Aydano André. Melhor ficar no futebol – porque no resto…, Colabora, 16/06/2018
https://projetocolabora.com.br/educacao/melhor-ficar-no-futebol-porque-no-resto/
WHO. World health statistics 2018: monitoring health for the SDGs, sustainable development goals, 2018 http://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/272596/9789241565585-eng.pdf?ua=1&ua=1
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/06/2018

A PERDA DE GELO NA ANTÁRTICA ESTÁ CONTRIBUINDO CADA VEZ MAIS PARA A ELEVAÇÃO GLOBAL DO NÍVEL DO MAR.

A perda de gelo na Antártica está contribuindo cada vez mais para a elevação global do nível do mar

University of California, Irvine*
A coautora Isabella Velicogna, professora de ciência do sistema da Terra da UCI, mostrada aqui na Groenlândia com o coautor Eric Rignot, também professor de Ciência do Sistema Terrestre da UCI. Foto de Maria Stenzel, para a UCI
A coautora Isabella Velicogna, professora de ciência do sistema da Terra da UCI, mostrada aqui na Groenlândia com o coautor Eric Rignot, também professor de Ciência do Sistema Terrestre da UCI. Foto de Maria Stenzel, para a UCI
A perda de gelo na Antártida fez com que o nível do mar subisse 7,6 milímetros desde 1992, com 40% do aumento ocorrendo apenas nos últimos cinco anos, de acordo com uma equipe de 84 cientistas. incluindo especialistas em liderança disciplinar da Universidade da Califórnia, em Irvine.
Sua avaliação das condições na Antártida é baseada em dados combinados de 24 pesquisas por satélite e atualizações das descobertas de 2012. Os resultados do projeto – conhecido como Exercício de Comparação Comparativa do Balanço de Massa da Massa de Gelo – foram publicados hoje na revista Nature .
Eles mostram que antes de 2012, a Antárctica perdeu gelo a uma taxa constante de 76 bilhões de toneladas por ano – uma contribuição de 0,2 mm por ano para o aumento do nível do mar. Mas desde então, houve um aumento de três vezes. Entre 2012 e 2017, o continente perdeu anualmente 219 bilhões de toneladas de gelo – uma contribuição ao nível do mar de 0,6 mm por ano.
“As medições de gravidade da missão GRACE [Gravity Recovery & Climate Experiment] nos ajudam a rastrear a perda de massa de gelo nas regiões polares e os impactos no nível do mar em pontos ao redor do planeta”, disse a coautora Isabella Velicogna, professora de Sistema Terrestre da UCI. Ciência. “Os dados dos satélites gêmeos do GRACE nos mostram não apenas que existe um problema, mas que ele está crescendo em gravidade a cada ano que passa”.
O GRACE é uma missão conjunta da NASA e do Centro Aeroespacial Alemão .
A Antarctica armazena água congelada suficiente para elevar os níveis do mar global em 58 metros, e saber quanto gelo está perdendo é fundamental para entender os efeitos da mudança climática hoje e no futuro.
A perda de gelo do continente como um todo é uma combinação de aumento do derretimento na Antártida Ocidental e na Península Antártica, com um pequeno sinal do manto de gelo na Antártica Oriental.
A Antártida Ocidental experimentou a maior mudança, com perdas de gelo crescendo de 53 bilhões de toneladas por ano na década de 1990 para 159 bilhões de toneladas anuais desde 2012. A maior parte veio das imensas geleiras Pine Island e Thwaites, que estão recuando rapidamente devido ao degelo águas oceânicas.
No extremo norte do continente, o colapso da plataforma de gelo na Península Antártica provocou um aumento de 25 bilhões de toneladas na perda de gelo desde o início dos anos 2000. Acredita-se que o manto de gelo do leste da Antártica permaneceu relativamente estável nos últimos 25 anos.
“Com o número de estudos científicos focados nesta região, as ferramentas tecnológicas que temos à disposição e conjuntos de dados que abrangem várias décadas, temos uma imagem inequívoca do que está acontecendo na Antártida”, disse o co-autor Eric Rignot, Donald Bren Professor e cadeira de ciência do sistema da Terra na UCI. “Estamos confiantes em nossa compreensão da mudança da massa de gelo na Antártida e seu impacto no nível do mar. Vemos esses resultados como outro alarme de toque para desacelerar o aquecimento do nosso planeta ”.
Rignot, que liderou os estudos sobre o orçamento da massa de gelo para a avaliação, e Velicogna, que dirigiu a medição da gravidade, também atuam como cientistas pesquisadores no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA. O projeto foi apoiado pela NASA e pela Agência Espacial Européia.
* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/06/2018

PRÉ-SAL, MUDANÇAS CLIMÁTICAS E O EMPOBRECIMENTO DO NORDESTE.

Pré-sal, mudanças climáticas e o empobrecimento do Nordeste


refinaria
Por 350.org Brasil e América Latina

Como a nova lei que deu subsídios bilionários à indústria do petróleo vai agravar a pobreza na região mais vulnerável do Brasil

O petróleo das camadas profundas do pré-sal não só não trouxe o boom econômico tão propagandeado pelo governo federal, como está sendo entregue de bandeja para petroleiras multinacionais bilionárias. Para atrair o investimento dessas empresas, o governo aprovou em dezembro passado uma renúncia fiscal sem precedentes, que vale até 2040 e custará aos cofres públicos brasileiros, numa estimativa conservadora, pelo menos R$1 trilhão. A Lei nº 13.586, antiga MP 795/2017, impactará severamente o repasse de verba para os estados e municípios, principalmente da região Nordeste, a mais pobre e mais vulnerável do país.
Um estudo que analisa as implicações da nova lei, realizado pelo engenheiro mecânico e ex-consultor legislativo da Câmara dos Deputados, Paulo César Ribeiro Lima, em parceria com a 350.org Brasil, revela que a flexibilidade e abrangência das deduções previstas na lei podem gerar uma perda de arrecadação do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) de respectivamente R$ 735 bilhões e R$ 265 bilhões para União, estados e municípios.
Somente considerando a isenção da base de cálculo do IRPF, a perda de recursos para os estados e municípios brasileiros pode ser de R$ 338 bilhões. No caso da região Nordeste, a ausência de repasses do IRPJ poderá significar uma perda de receita de R$ 141,4 bilhões. Para a União, a perda total, contando IRPJ e CSLL, seria de R$ 662 bilhões. Se forem consideradas outras deduções, como bônus de assinatura, bens arrendados e impairments(danos, deterioração ou prejuízos), esse número pode ser ainda maior. Segundo Lima, portanto, com a nova lei o pré-sal passa a ser um “agente de empobrecimento do Nordeste”.
Essa mesma receita poderia ser direcionada para projetos sociais ou mesmo políticas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Com o montante de R$1 trilhão, por exemplo, o governo poderia garantir o investimento em, pelo menos, mais trinta anos no Bolsa Família, o maior programa de combate à pobreza do país. Ou então, com os 338 bilhões tirados dos estados e municípios, poderiam ser instaladas pelo menos 22,5 milhões de sistemas de energia solar fotovoltaica de 2,2 Kwp para residências médias com 3 a 4 moradores.
Assim sendo, a tão celebrada descoberta do pré-sal não só contraria os compromissos de combate ao aquecimento global e redução das emissões de gases do efeito estufa assumidos pelo Brasil no âmbito do Acordo de Paris, como também pode significar um empobrecimento ainda maior dos estados e municípios brasileiros e, principalmente, nordestinos, justamente os que mais sofrem com os impactos das alterações no clima. Estas, por sua vez, têm como principais causadores no mundo, ironicamente, os próprios combustíveis fósseis.
“O governo brasileiro está fazendo o oposto do que deveria. Em vez de iniciar a transição para uma economia de baixo carbono, continua priorizando os combustíveis fósseis e de quebra ainda está empobrecendo sua própria população, especialmente as pessoas que vivem nas áreas mais vulneráveis do país. Todo esse montante está sendo efetivamente retirado de potenciais programas sociais ou relacionados a energias limpas. Isto é um assalto aos cofres públicos, não uma política de governo”, afirmou Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora da 350.org Brasil e América Latina.
Ela lembrou ainda a responsabilidade da indústria do petróleo – e do próprio governo brasileiro, que as incentiva – na crise climática global. “Em vez de receber subsídios, essas empresas deveriam pagar por todos os danos que causam ao clima e às populações em todo o mundo. O governo precisa deixar de incentivar esse padrão destrutivo e fazer uma mudança permanente para um modelo de desenvolvimento sustentável, com justiça climática e social, baseado em uma matriz energética limpa, renovável, livre e acessível para todos”, frisou Nicole.
4a Rodada de Partilha e outros leilões à vista
Nesta quinta-feira (07), a Agência Nacional de Petróleo e Gás (ANP) realizou, no Rio de Janeiro, a 4a Rodada de Partilha de Produção, para venda de blocos do pré-sal, com expectativa de arrecadação de R$3,2 bilhões. Foram ofertadas quatro áreas para exploração – Itaimbezinho, Três Marias, Dois Irmãos e Uirapurunas -, localizadas nas bacias de Campos e Santos. Três delas foram arrematadas, com um total de R$3,15 bilhões arrecadados. Itaimbezinho, o bloco menos valioso da rodada, foi o único que não teve nenhum interessado. A Petrobras perdeu para petroleiras estrangeiras em duas áreas, mas exerceu seu direito de preferência e entrou nos consórcios vencedores com participação de 30%.
Não satisfeito, o plano do governo é leiloar nos próximos anos ainda mais blocos para exploração do pré-sal. Se extraído, todo esse petróleo tornará impossível alcançar as metas globais do Acordo de Paris. Estima-se que os campos de pré-sal contenham o equivalente a 176 bilhões de barris de petróleo bruto, ou 74,8 bilhões de toneladas de CO2, o que representa 7% do total de gases que ainda podem ser emitidos pela humanidade, considerando a meta para manter o aquecimento global abaixo de 2°C.
Elaborada pelo Ministério da Fazenda e enviada ao Legislativo em 17 de agosto sem nenhuma avaliação do Ministério do Meio Ambiente (MMA), a antiga Medida Provisória nº 795, mais conhecida como MP do Trilhão,propôs a renúncia fiscal e a criação de regime tributário especial para “atividades de exploração, desenvolvimento e produção de petróleo, de gás natural e de outros hidrocarbonetos fluidos”. A MP foi aprovada no Congresso em 13 de dezembro e sancionada no dia 29 do mesmo mês.
Além de todo o impacto aos cofres públicos e ao clima do planeta, a lei ainda é incoerente com outras leis federais. Segundo Paulo César Lima, antes da promulgação da lei, os royalties do pré-sal e os bônus de assinatura não poderiam ser deduzidos em razão do art. 42 da Lei nº 12.351/2010. Além disso, a Lei de Diretrizes Orçamentárias impõe de forma explícita o limite máximo de 5 anos para concessão de benefícios fiscais, enquanto que o artigo 7º da nova lei estende esse benefício por mais de 20 anos.
Colaboração de Nathália Clark, da 350.org Brasil e América Latina, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/06/2018

segunda-feira, 11 de junho de 2018

FRACO B-RIC-S, FORTE RIC: O TRIÂNGULO ESTRATÉGICO QUE DESAFIA OS EUA E O OCIDENTE

Fraco B-RIC-S, forte RIC: o triângulo estratégico que desafia os EUA e o Ocidente, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


“Você não pode mudar o vento, mas pode ajustar as velas do barco
para chegar onde quer”
Confúcio (551 a.C. – 479 a.C.)

RIC / Eurásia

[EcoDebate] Neste momento em que os líderes dos Estados Unidos (EUA) e da Coreia do Norte vão se encontrar em uma histórica reunião em Cingapura, em 12 de junho (dia dos namorados no Brasil), não se pode ignorar o papel desempenhado na governança global pelo triângulo estratégico formado por Rússia, Índia e China (RIC), países que constituem o núcleo central do B-RIC-S.
O termo BRIC foi inventado, em 2001, pelo economista Jim O’ Neill, do banco de investimento Goldman Sachs, com o objetivo de orientar as empresas e os investidores mundiais como ganhar dinheiro com os grandes países “emergentes” do mundo: Brasil, Rússia, Índia, China. Estes quatro países estão entre aqueles da comunidade internacional com maior população e/ou maior território.
O termo fez grande sucesso, especialmente no período do superciclo das commodities, que possibilitou um crescimento da economia dos países “emergentes” em relação aos países “avançados”. Mas no acrônimo original não havia nenhum país da África, o que era politicamente incorreto. Então foi incluída a África do Sul (South África) e o termo BRIC ganhou uma letra a mais, se transformando em BRICS. O incrível é que a ideia dos BRICS tenha sido criada pelo setor financeiro internacional para fortalecer a hegemonia Ocidental global, mas pode servir para acelerar a Orientalização do mundo.
Ou seja, os “alunos” superaram os mestres e os BRICS passaram a ser uma organização autônoma e atuante na governança internacional, abrindo espaço para a aproximação mais estreita entre Rússia, Índia e China (RIC), inclusive desafiando a hegemonia dos Estados Unidos (EUA) e da Europa. Contudo, Brasil e África do Sul (o começo e o fim da sigla BRICS) são dois países em crise econômica e política e que não possuem a fortaleza do conjunto formado pela tríade “peso econômico – influência política – capacidade bélica”. Vladimir Putin, Xi Jinping e Narendra Modi são três líderes fortes e com amplo controle de seus países, enquanto a África do Sul destituiu o presidente Jacob Zuma e Lula está impedido de disputar as eleições de 2018 no Brasil. Desta forma, o que importa de fato no grupo B-RIC-S são os três países do meio que são gigantes econômicos, políticos e possuem grande arsenal nuclear.
Desta forma, o grupo RIC (Rússia, Índia e China) é o seleto triângulo formado pelos dois países mais populosos do mundo e o país mais extenso do globo. Estes 3 países são os grandes atores da Eurásia – que é a área de território contínuo mais extensa do mundo e que abriga a maior parte da economia internacional. Dominar a Eurásia é o primeiro passo para o domínio global do Planeta.
Ironicamente, a Europa começou a dominar a Eurásia depois da queda de Constantinopla, conquistada pelos Turcos Otomanos, sob comando do sultão Maomé II, em 29 de maio de 1453. O fim da rota (terrestre) da seda, forçou os europeus à aventura das grandes navegações que culminou com o domínio dos mares e, posteriormente, com o predomínio econômico do Ocidente sobre o Oriente.
Nos últimos 250 anos, desde o início da Revolução Industrial e Energética (meados do século XVIII), a Europa e os países de descendência anglo-saxônica (como Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia) passaram a liderar o desenvolvimento econômico, científico e tecnológico e assumiram a vanguarda do processo civilizatório, em sua forma pragmática de acumulação incessante de capital e riqueza e no estabelecimento de um regime político fundado na democracia liberal. A arquitetura da hegemonia Ocidental foi fundada na argamassa que uniu as normas econômicas do mercado e os princípios políticos da democracia burguesa.
Mas a hegemonia Ocidental está sendo desafiada pelo triângulo estratégico formado pela sigla RIC. O grupo Rússia, Índia e China – sob liderança desta última – está reconfigurando um novo tipo de globalização com base em um projeto diferente do modelo da economia de mercado e da democracia liberal. Está em gestação o século da Ásia e a Orientalização do mundo.
No manifesto comunista, Marx e Engels, destacaram a força do capitalismo ocidental: “Os preços baratos das suas mercadorias são a artilharia pesada com que deita por terra todas as muralhas da China”. Hoje em dia são as mercadorias baratas feitas dentro das muralhas da China que invadem o mundo. E mais do que isto, a implementação da iniciativa “Um cinturão, uma rota” (One Belt, One Road – OBOR) pretende criar uma grande infraestrutura mundial para interligar a China com o mundo e fazer fluir de maneira mais efetiva as mercadorias “Made in China”, além de permitir a “diplomacia da infraestrutura”, tão requisitada pelos desenvolvimentistas de todo o mundo e nacionalidades. Além disto a China exporta capitais, compra empresas e terras pelo mundo afora e ocupa um lugar de destaque na transformação da matriz energética e na indústria dos carros elétricos. A China também pretende ser a líder da Revolução 4.0.
Artigo de Helen Davidson (The Guardian, 15/05/2018), mostra como a China utiliza as suas enormes reservas para emprestar dinheiro para as nações carentes de recursos e infraestrutura. Ela chama isto de “diplomacia dos livros de dívida”. É um novo tipo de dependência que ocorre sem ocupação e sem o colonialismo tradicional, mas que mantém os países sob a órbita de influência de uma espécie de “imperialismo chinês”.
A conquista prioritária chinesa está localizada na Eurásia, que é a área territorial que une a Europa e a Ásia. Sua extensão territorial é de 54,8 milhões de km² (mais de seis vezes o tamanho do Brasil) e possui uma população de quase 5 bilhões de habitantes (cerca de dois terços da população mundial). Quem controlar a Eurásia, controlará o mundo.
Na década de 1950, a aliança entre a União Soviética (URSS) e a China parecia que prosperaria, ainda nos tempos de Josef Stalin (1878-1953) e Mao Tsé-Tung (1893-1976). Mas com a ascensão de Nikita Khrushchov (1894-1971) e a visita do presidente dos Estados Unidos (EUA), Richard Nixon (1913-1994), à Pequim, a China se afastou da URSS e se aproximou comercialmente dos EUA. Ao mesmo tempo em que a China se afastava da URSS, a Índia – durante a Guerra Fria – manteve uma forte relação comercial, militar, econômica e diplomática. Portanto, os três países que hoje formam o grupo RIC já estiveram em lados opostos no cenário das alianças internacionais.

Eurásia

Mas com o fim da URSS e o fim da Guerra Fria a conjuntura mudou e a China se aproximou da Rússia. Recentemente, a China forneceu cobertura diplomática para a Rússia no Conselho de Segurança das Nações Unidas após a anexação da Crimeia em 2014, enquanto a Rússia foi expulsa do G8 (G7 mais a Rússia). Moscou e Pequim também trabalharam conjuntamente para bloquear o apoio da ONU à intervenção contra o regime de Assad na Síria e para se oporem a mais destacamentos militares dos EUA na península coreana, enquanto buscam laços bilaterais mais estreitos com respeito a vendas de armas, acordos de energia e desenvolvimento de forças armadas. Os dois países realizaram exercícios navais combinados no sul da China e nos mares Bálticos e no Mar do Japão, áreas em que as tensões chinesa e russa com os EUA.
A Rússia forma uma aliança política e militar, de fato, com o Irã e, de forma conjunta, ambos apoiam o regime de Bashar al-Assad da Síria. A China apoia esta aliança que é fundamental para a influência na Ásia Central. Embora tenham divergências entre si, o que une Rússia, Irã e China é que os três estão tentando enfraquecer, cada qual à sua maneira, uma ordem internacional construída sobre o domínio dos EUA e seus parceiros ocidentais.
Artigo de Donald Gasper (SCMP, 22/05/2018) mostra que a iniciativa OBOR está conquistando os países da Ásia central e avança rumo à Europa Ocidental. Em maio, o presidente Xi Jinping se reuniu com o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, que estava na China para participar de uma reunião dos ministros das Relações Exteriores da Organização de Cooperação de Xangai no final de abril, visando a cooperação da China com a União Econômica da Eurásia – bloco comercial que foi criado em 2015 entre a Arménia, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguizistão e a Federação Russa – e que tem um mercado integrado de mais de 183 milhões de pessoas e um produto interno bruto (em termos de paridade de poder de compra) de mais de US $ 4 trilhões.
Um acordo de cooperação comercial e econômica entre a China e a União Econômica Eurásia foi assinado em maio de 2018. Este acordo é um divisor de águas e um avanço significativo nas ambições da China de levar as mercadorias chinesas por todo o continente Euroasiático.
Mas o ponto de mutação da correlação de forças no sentido de fortalecer o triângulo de gigantes é a união da Rússia e China com a Índia. O relacionamento entre Índia e Rússia é profundo e multifacetado. A Rússia forneceu uma parte significativa do equipamento militar da Índia, está fornecendo a maioria dos reatores nucleares e continua a desempenhar um papel significativo no complexo industrial-militar da Índia, incluindo programas de mísseis balísticos e submarinos.
Já a relação bilateral China-Índia é cheia de disputas de fronteiras não resolvidas e da desconfiança indiana com patrocínio chinês ao Paquistão e a crescente presença marítima da China na região do Oceano Índico. Mas esses problemas estão sendo gerenciados entre as partes e podem ser resolvidos nos próximos 10 a 20 anos. Em setembro passado, o primeiro-ministro Narendra Modi e o presidente chinês Xi Jinping disseram que “buscariam um acordo antecipado para a questão da fronteira”, sendo que os dois países nomearam novos enviados para ajudar a administrar a disputa. Nos dias 27 e 28 de abril, Narendra Modi, e o presidente chinês, Xi Jinping, fizeram uma reunião de cúpula informal, na cidade de Wuhan, visando dar um salto de qualidade na relação bilateral.
No dia 21 de maio de 2018, Narendra Modi viajou à Rússia (em Sochi, no Mar Negro) para se encontrar com o presidente Vladimir Putin e disse: “A Rússia é a antiga amiga da Índia.
Compartilhamos laços históricos de longa data e o sr. Presidente é meu amigo pessoal e amigo da Índia”. O objetivo da viagem foi reforçar as relações com o maior parceiro comercial da Índia. Em um comunicado, o Ministério das Relações Exteriores da Índia (MEA) disse que Putin e Modi concordaram que os dois países “têm um papel importante a desempenhar em contribuir para uma ordem mundial aberta e equitativa”.
No dia 01 de junho, Narendra Modi discursou na Cúpula de Segurança do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS) na Ásia – O Diálogo Shangri-La (SLD) – que é um fórum de segurança intergovernamental, realizado anualmente por um think tank independente, o IISS, que conta com a presença de ministros da defesa, chefes de ministérios e chefes militares de 28 estados da Ásia-Pacífico. O fórum recebe o nome de Shangri-La, em referência ao Hotel em Cingapura, onde a Cúpula é realizada desde 2002.
Na Cúpula SLD, o primeiro-ministro indiano tomou uma posição intermediária entre os EUA e a China. Modi fez eco aos apelos dos EUA por “liberdade de navegação, comércio desimpedido e solução pacífica de disputas de acordo com o direito internacional” e atacou governos que colocaram outras nações sob “ônus impossíveis de dívida”, palavras que foram consideradas como críticas à política chinesa no Mar da China Meridional e em relação aos projetos de infraestrutura da iniciativa “Um Cinturão uma Rota” (OBOR). Porém Modi nada disse sobre se juntar aos EUA, Japão e Austrália – um grupo conhecido como Quad – em um desafio mais pesado à expansão regional da China. Ao contrário, ele disse que a “Ásia e o mundo terão um futuro melhor quando a Índia e a China trabalharem juntas em confiança e sensibilidade, sensíveis aos interesses de cada um”. Portanto, Modi ficou muito mais próximo de Xi e Putin, do que de Trump.
A Índia tem tido um papel importante na consolidação do grupo RIC. Todos os três países têm uma forte preferência por uma ordem mundial multipolar e pela diluição da hegemonia americana. Rússia, Índia e China consideram que o princípio da soberania do Estado é a norma proeminente das relações internacionais, tem uma inclinação mercantil para suas políticas econômicas e já cooperam em muitas dessas questões por meio do agrupamento do BRICS.
Enquanto isto, a emergência da China como superpotência coloca diversos desafios à hegemonia dos EUA. Matéria de Lioman Lima, na BBC (03/06/2018), descreve o plano naval da China para superar os EUA e controlar o Pacífico até 2030. A matéria cita James Fanell, ex-diretor de inteligência da Sexta Frota dos Estados Unidos, apresentou em maio diante do Congresso americano um relatório de 64 páginas em que garante que a China desenvolve atualmente um plano para ter, em um futuro não muito distante, uma marinha duas vezes maior que a dos Estados Unidos. Isto desafia os interesses americanos na região, aumentando as possibilidades da ocorrência da Armadilha de Tucídides.
Aliás, houve um “choque de culturas” nessa 17ª Cúpula de segurança de Shangri-La, de junho de 2018, quando houve agressões verbais entre membros das delegações americanas e chinesas. Zhou Bo, coronel sênior e diretor do Centro de Cooperação de Segurança da Comissão Militar Central da China, rebateu às recentes afirmações do Secretário de Defesa dos EUA, James Mattis e disse que “São os EUA que estão militarizando o Mar do Sul da China, não a China”, como descrito no artigo de Catherine Wong (04/06/2018).

China vs EUA

Artigo de Minxin Pei (06/06/2018) mostra que, embora os EUA ainda não tenham formulado uma nova política para a China, a direção de sua abordagem é clara. A mais recente Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, divulgada em dezembro passado, e a Estratégia Nacional de Defesa, divulgada em janeiro, indicam que os EUA veem a China como “poder revisionista” e estão determinados a conter os esforços chineses na região.
Mas a política errática do presidente Donald Trump não favorece a manutenção da hegemonia americana na governança global. Nos dia 8 e 9 de junho, o G7 (grupo formado pelas grandes economia capitalistas – Estados Unidos, Canadá, França, Reino Unido, Alemanha, Japão e Itália) se reuniu em Charlevoix, no Canadá, mas o destaque foi o aumento da tensão entre os aliados do G7. Os outros 6 membros estão insatisfeitos com a saída dos EUA do Acordo de Paris e do Acordo nuclear com o Irã, além de estarem revoltados com a guerra comercial promovida por Trump, inclusive os países do NAFTA – Acordo de Livre Comércio da América do Norte (North American Free Trade Agreement – em inglês).
Assim, enquanto o G7 (que está virando G6 contra 1) se encontrou no Ocidente, em meio às disputas internas geradas por Donald Trump, que não assinou o comunicado conjunto da Cúpula de Charlevoix e ainda acusou o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau de ser fraco e desonesto, os países asiáticos se encontravam no Oriente, na 18ª cúpula da Organização de Cooperação de Shanghai (OCS), na cidade chinesa de Qingdao, nos dias 9 e 10 de junho de 2018. A cúpula reúne os líderes dos estados membros e observadores da OCS, assim como chefes de organizações internacionais. Será a primeira cúpula da OCS depois de a Índia e o Paquistão serem aceitos como membros plenos em junho de 2017 na cúpula de Astana, no Cazaquistão. Depois da expansão, os oito membros plenos da OCS são China, Índia, Cazaquistão, Quirguistão, Paquistão, Rússia, Tadjiquistão e Uzbequistão. A OCS também tem quatro estados observadores e seis parceiros de diálogo.
Os oito países membros respondem por mais de 60% do território eurasiático, quase metade da população global e cerca de 30% do PIB mundial (em ppp). O PIB da OCS é maior do que o PIB do G7.
Além da Declaração de Qingdao, mais de 10 acordos nas áreas de segurança, cooperação econômica e intercâmbios entre pessoas foram assinados durante a cúpula, que teve a presença da trinca Vladimir Putin, Narendra Modi e Xi Jinping (os líderes do triângulo estratégico), além de Hassan Rohani, presidente do Irã. O Espírito de Shanghai de confiança mútua, benefício mútuo, igualdade, consulta, respeito a civilizações diversas e busca do desenvolvimento comum, foi reafirmado na Declaração de Qingdao. O presidente Xi Jinping disse que “A cúpula de Qingdao é um novo ponto de partida para nós. Juntos, vamos içar a vela do Espírito de Xangai, quebrar ondas e iniciar uma nova viagem para nossa organização”.
Conseguir a unidade da OCS, mesmo tendo Índia e Paquistão como membros plenos foi uma grande conquista. Outro sinal da cooperação crescente entre a China e a Índia, aconteceu no dia 09/06, paralelo à cúpula OCS, quando os dois países decidiram resolver a disputa sobre o rio Brahmaputra, propenso a enchentes, que flui do Tibete para Bangladesh. Isto pode evitar uma “guerra da água” em decorrência do degelo dos glaciares do Tibete.

G7

Antes da 18ª cúpula OCS, no dia 08/06, Vladimir Putin fez questão de visitar Xi Jinping, para retribuir o fato de que o presidente chinês ter sido o único líder estrangeiro com quem o chefe de Estado russo celebrou seu aniversário. Nesta reunião, Xi e Putin assinaram acordos de cooperação, o estabelecimento de um fundo de investimento industrial dotado de 1 bilhão de dólares e a construção, pelos russos, de quatro centrais nucleares em território chinês. Os dois países querem estimular também sua relação comercial, que ainda está muito longe de alcançar a meta oficial de 200 bilhões de dólares para 2020. No encontro bilateral, também discutiram longamente a situação na península coreana.
Neste xadrez econômico e político, tem destaque a situação da Coreia do Norte e as propostas para o fim formal da guerra e a “completa desnuclearização” da península coreana. Rússia, Índia e China acompanham de perto o encontro entre Donald Trump e Kim Jong-un, enquanto Brasil e África do Sul (ou outros membros do BRICS) estão distantes dos novos arranjos do leste asiático. De fato, as negociações avançaram rapidamente no leste asiático e a reunião intercoreana entre o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, e o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, no dia 27 de abril de 2018, foi um marco importante para deslanchar o processo de paz na península e para que ser resolva a questão das armas nucleares da região. Neste meio tempo Kim Jong-um teve duas reuniões na China, com o presidente Xi Jinping. O acordo da Coreia do Norte com os EUA pode contribuir para a paz na região, mas também pode acelerar ainda mais o processo de ascensão do século da Ásia, pois a menor presença de tropas americanas na Coreia do Sul deixaria um espaço aberto para o avanço da China.
O posicionamento dos EUA tem sido confuso, pois enquanto busca a paz com a Coreia do Norte, o país rompeu o acordo nuclear com o Irã, se alinharam com os setores fundamentalistas de Israel. A reunião de 12 de junho, no Hotel Capella, na ilha de Sentosa, em Singapura pode ser uma grande oportunidade para a paz mundial. O problema é que Trump nunca segue planos ou conselhos diplomáticos (com aconteceu na reunião do G7 no Canadá). Ao descrever como lidará com Kim Jong-un, disse: “meu toque, meu sentimento, é o que faço”. Trump disse que qualquer acordo com o líder norte-coreano será “no impulso do momento”. Ou seja, a reunião pode ser um sucesso ou um fracasso, a depender do humor de Donald Trump. O certo é que Putin, Xi e Modi (líderes do triângulo estratégico) estão acompanhando de perto o que vai acontecer em Cingapura e tem grande interesse na estabilização da Coreia do Norte e na menor presença americana na região.
O fato é que os EUA – com ou sem Donald Trump – estão em declínio militar, econômico e político na Ásia, enquanto a Casa Branca está dividindo as próprias bases da aliança ocidental. O aclamado livro do jovem jornalista vencedor do prêmio Pulitzer, Ronan Farrow, “War on Peace: The End of Diplomacy and the Decline of American Influence” traça um agudo cenário do colapso da diplomacia americana e a abdicação da liderança global pela postura do “America First” do presidente Donald Trump. Ele mostra como a diplomacia americana está em declínio no mundo, o que abre espaço para o engrandecimento da diplomacia do triângulo RIC. No passado já se falou da “Chimerica” como uma hegemonia compartilhada entre a China e a América. Mas a “Chimerica” virou uma quimera e a China busca parceiros na Eurásia.
Como já mostrei em outro artigo (Alves, 09/05/2018) a economia internacional está mudando de eixo e a ordem construída pela Ocidentalização do mundo tende a ser superada por uma outra ordem centrada na Orientalização do mundo. Como mostra o professor Graham Allison, toda mudança de hegemonia global cria instabilidade entre as potências emergentes e submergente. O perigo de uma guerra é definido pelo conceito “Armadilha de Tucídides”, pois nos últimos 500 anos, houve dezesseis mudanças de hegemonia global e a guerra estourou em doze delas.
Talvez a mudança de hegemonia possa ocorrer de forma, relativamente pacífica. Mas, sem dúvida, o triângulo estratégico que desafia os EUA e o Ocidente tem levado vantagem e está mais bem posicionado para os desafios do futuro. Se a aliança do grupo RIC prosperar, o Brasil e a África do Sul (nos BRICS), serão coadjuvantes e, no máximo, vão assistir de perto a mudança de hegemonia global e a ascensão do século asiático, liderado pela China. Um acordo entre os EUA e a Coreia do Norte pode ser bom para todo o mundo, podendo aliviar as tensões na Ásia, mas, sem dúvida, vai fortalecer o triângulo estratégico, assim como a liderança chinesa. Como disse Richard Heydarian (09/06/2018): “O que está claro é que a rápida ascensão da China está redefinindo a ordem asiática como nunca antes nos tempos modernos”.
Referência:
ALVES, JED. A aliança China-Índia (Chíndia) e a ascensão do século asiático, Ecodebate, 04/05/2018
https://www.ecodebate.com.br/2018/05/04/a-alianca-china-india-chindia-e-a-ascensao-do-seculo-asiatico-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
Mark Landler. Trump Orders Pentagon to Consider Reducing U.S. Forces in South Korea, NYT, 03/05/18
https://www.nytimes.com/2018/05/03/world/asia/trump-troops-south-korea.html
Ronan Farrow. War on Peace: The End of Diplomacy and the Decline of American Influence, 2018
https://www.amazon.com/War-Peace-Diplomacy-American-Influence/dp/0393652106
Helen Davidson. Warning sounded over China’s ‘debtbook diplomacy’, The Guardian, 15/05/2018
https://www.theguardian.com/world/2018/may/15/warning-sounded-over-chinas-debtbook-diplomacy
Peter Coy, Kevin Hamlin, Keith Zhai, Enda Curran, Andrew Mayeda. The U.S.-China Rivalry Is Just Getting Started, Bloomberg, 17/05/2018
https://www.bloomberg.com/news/articles/2018-05-17/the-u-s-china-rivalry-is-just-getting-started
Donald Gasper. How China’s Belt and Road Initiative can extend its reach to the edge of the European Union. SCMP, 22/05/2018
http://www.scmp.com/comment/insight-opinion/article/2147129/how-chinas-belt-and-road-initiative-can-extend-its-reach
The IISS Shangri-La Dialogue The Asia Security Summit
https://www.iiss.org/en/events/shangri-la-dialogue
Lioman Lima. O plano naval da China para superar os EUA e controlar o Pacífico até 2030, BBC, 03/06/2018
http://www.bbc.com/portuguese/internacional-44320969
Catherine Wong. At Western-led summit, Chinese find controversy and a clash of cultures, SCMP, 04/06/2018
http://www.scmp.com/news/china/diplomacy-defence/article/2149061/western-led-summit-chinese-find-controversy-and-clash
Mark J. Valencia. South China Sea tensions: does the US have an endgame, beyond war? SCMP, 06/06/2018 http://www.scmp.com/comment/insight-opinion/united-states/article/2149366/south-china-sea-tensions-does-us-have-endgame
MINXIN PEI. The Shape of Sino-American Conflict, Project Syndicate, Jun 6, 2018
https://www.project-syndicate.org/commentary/us-china-trade-war-strategic-conflict-by-minxin-pei-2018-06
Kinling Lo. What to look for when the leaders of China, Russia, Iran and India meet for this year’s Shanghai Cooperation Organisation summit, SCMP, 08 June, 2018
http://www.scmp.com/news/china/diplomacy-defence/article/2149811/what-look-when-leaders-china-russia-iran-and-india-meet
Richard Heydarian. The Shangri-La Dialogue takeaway: China’s rapid rise is redefining the Asian order like never before, SCMP, 09 June, 2018
http://www.scmp.com/news/china/diplomacy-defence/article/2150001/shangri-la-dialogue-takeaway-chinas-rapid-rise
Wendy Wu; Kinling Lo. Xi Jinping sends unity message at regional security summit in China after G7 disarray, SCMP, 10/06/2018
http://www.scmp.com/news/china/diplomacy-defence/article/2150117/xi-jinping-sends-unity-message-regional-security-summit

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/06/2018