terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

POLUIÇÃO : O DESCATE DO LIXO PLÁSTICO

Poluição: Uma nova economia do plástico é urgente

Publicado em fevereiro 8, 2016
“No mundo todo, mais de 70% do plástico produzido é depositado em aterros ou lançado em cursos d’água”, alerta o professor e especialista em Ciências Ambientais.
Foto:www.ecologiaverde.com
poluição provocada pelo descarte inadequado do excedente gerado pela lógica do consumo exacerbado, inerente ao sistema capitalista, que alimenta a obsolescência e incentiva a substituição incessante de bens de todo tipo, é um problema conhecido. As consequências desse comportamento também são sabidas, porém ele continua recorrente. A situação se agrava quando ao examinamos o material do qual é formada a maior parte desses produtos descartados: o plástico. Pesquisas revelam que as diversas formas assumidas pelo plástico, seja a presente em garrafas PET ou nas fraldas descartáveis, levam cerca de 450 anos para se decompor na natureza. O pior é que a maior parte de todo o plástico produzido no mundo não é reutilizada e é descartada de forma inadequada, poluindo a terra e principalmente a água, tanto rios como oceanos.
Em entrevista por e-mail à IHU On-Line, o professor e especialista em Ciências Ambientais,Reinaldo Dias, chama a atenção para os dados divulgados recentemente pelo relatório “A nova economia do plástico: repensando o futuro”, elaborado pela Consultoria McKinsey & Co. e a Organização Não Governamental Ocean Conservancy e apresentado neste ano no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça. Para o pesquisador, o estudo é “um alerta para a humanidade de que estamos inviabilizando a vida marinha, sua diversidade e o enorme potencial que os oceanos possuem de produzir alimentos que amenizariam o problema da fome no mundo”.
Segundo o professor, atualmente “há cinco grandes manchas de lixo nos oceanos que podem ser vistas do espaço e que contêm cerca de 90% de resíduos plásticos. A ilha de lixo situada entre o Havaí e a Califórnia tem uma extensão de 1,4 milhão de km2. A mancha menos conhecida é a do Oceano Índico, mas acredita-se que é enorme, podendo chegar a uma extensão de 5 milhões de km2”.
Brasil, através da Lei 12.305/2010 busca regulamentar a questão do descarte de lixo instituindo a Política Nacional dos Resíduos Sólidos. Porém, da mesma forma que outras tantas leis no país, tais normas não são cumpridas. Dias aponta que “a lei havia dado prazo até agosto de 2014 para que as cidades acabassem com os lixões e aterros sem condições técnicas, no entanto até hoje menos de 40% dos municípios atingiram a meta estabelecida e se mantiver a média de crescimento do setor, o objetivo somente será atingido em 150 anos”.

O pesquisador afirma que a conscientização sobre o papel individual de cada cidadão, se responsabilizando pelo descarte correto do lixo que produz, e uma mudança na mentalidade política e econômica em relação à reutilização são os caminhos mais promissores em direção à mudança desse cenário. “A questão da reciclagem, de plástico e de outros materiais, deve ser vista dentro do contexto de formação de uma economia verde, de maior eficiência energética e na perspectiva do desenvolvimento sustentável. Nesse caso, deve ser considerada um novo nicho industrial, de transformação do lixo em riqueza”, ressalta.
Reinaldo Dias é graduado em Ciências Sociais, mestre em Ciência Política e doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. É especialista em Ciências Ambientais pela Universidade São Francisco – USF e atualmente leciona no curso de Administração do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas – CCSA da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Confira a entrevista.
Foto:www.setorenergetico.com.br
IHU On-Line – O que representam os dados do relatório “A nova economia do plástico: repensando o futuro”, elaborado pela Consultoria McKinsey & Co. e a ONG Ocean Conservancy e apresentado no Fórum de Davos?
Reinaldo Dias – Representa em primeiro lugar um alerta para a humanidade de que estamos inviabilizando a vida marinha, sua diversidade e o enorme potencial que os oceanos possuem de produzir alimentos que amenizariam o problema da fome no mundo. Em segundo lugar representa uma reafirmação da cultura do desperdício que afeta as empresas, mas também os cidadãos. É a incapacidade de pensar que os recursos são limitados e escassos, e que os espaços públicos devem ser tratados com os mesmos cuidados com que tratamos as áreas particulares.
Um terceiro ponto diz respeito à incipiente compreensão humana da nossa dependência do mundo natural, do qual dependemos totalmente, não havendo um único material em nossas casas e cidades que não tenha origem natural. Esse aparente distanciamento da cultura humana em relação à natureza deve ser combatido, pois não criamos um mundo artificial que independe do natural, eles são interdependentes e temos que realizar um intenso trabalho de educação ambiental para que todos os humanos compreendam isso.
IHU On-Line – Qual é o impacto, em termos de quantidade e potencial poluente, causado hoje ao meio ambiente pelo uso e descarte inadequado do plástico?
Reinaldo Dias – No mundo todo, mais de 70% do plástico produzido é depositado em aterros ou lançado em cursos d’água resultando em perdas enormes para alguns setores como o turismo, navegação e pesca. Além disso, também há um custo significativo para o poder público, que se vê às voltas com problemas causados pelo descarte inadequado desses materiais, como entupimento de redes de água e esgoto nas grandes cidades, causando alagamentos e destruição dos equipamentos públicos e a mortandade de peixes e outros animais de água doce e marinhos. Muitos animais ameaçados de extinção, como as diversas espécies de tartaruga, morrem em grande número asfixiados pela ingestão de plástico.
IHU On-Line – Que caminho em geral o plástico faz antes de chegar aos oceanos? De onde provém a maior parte desse material?
Reinaldo Dias – Predominantemente do descarte feito pelas pessoas, garrafas pets estão entre os mais encontrados, entre outros objetos de uso pessoal. Esse plástico das residências vai para os rios e daí para os oceanos. O aumento da conscientização das pessoas de que sua ação individual causa esse impacto no mundo natural é fundamental para combater o problema.
IHU On-Line – Qual é a área mais poluída dos oceanos? Por quê?

“Há cinco grandes manchas de lixo nos oceanos que podem ser vistas do espaço”

Reinaldo Dias – Todos os mares apresentam correntes que se movem-se na forma de uma espiral e, na medida que avançam, vão concentrando todos os resíduos que encontram no caminho, formando ilhas ou manchas de lixo marinho, constituído principalmente de material plástico.
Há cinco grandes manchas de lixo nos oceanos que podem ser vistas do espaço e que contêm cerca de 90% de resíduos plásticos. A ilha de lixo situada entre o Havaí e a Califórnia tem uma extensão de 1,4 milhão de km2. A mancha menos conhecida é a do Oceano Índico, mas acredita-se que é enorme, podendo chegar a uma extensão de 5 milhões de km2.
IHU On-Line – De que forma o Brasil trata da questão do descarte adequado do lixo? Como estão as políticas para este setor? E em outros países, quais tratam desse tema de maneira melhor e pior no planeta?
Reinaldo Dias – O Brasil possui a Lei 12.305 de 2010 que instituiu a Política Nacional dos Resíduos Sólidos, que se fosse cumprida estaríamos numa situação bem melhor do que estamos agora. A lei havia dado prazo até agosto de 2014 para que as cidades acabassem com os lixões e aterros sem condições técnicas, no entanto até hoje menos de 40% dos municípios atingiram a meta estabelecida e se mantiver a média de crescimento do setor, o objetivo somente será atingido em 150 anos. O problema somente será resolvido com vontade política e amadurecimento da população em relação à necessidade de destinação correta do lixo.
política pública da destinação de lixo no Brasil deveria dar um enfoque central na educação ambiental ampla, precisa ser uma política efetiva de Estado, sem improvisos. Um dos países que enfrenta melhor o problema é a Alemanha, em termos de eficiência e sendo considerada a campeã da reciclagem. Nesse país, dos resíduos gerados, 45% são reciclados38% queimados e 17%são destinados à compostagem. A política europeia para o lixo está focada no slogan “lixo pode virar ouro”, que incentiva a criação de negócios relacionados com o reaproveitamento dos resíduos descartados.
Os países com a situação mais deplorável no que diz respeito ao tratamento do lixo são inúmeros, sendo impossível identificar o pior. É importante destacar a contribuição negativa dos países desenvolvidos ao descartarem seu lixo em países em desenvolvimento, principalmente localizados na África e na Ásia, neste último caso com destaque para Bangladesh, que recebe em suas praias grande quantidade de material depositado por navios originados de países ricos.
IHU On-Line – No caso do Brasil, há dados sobre a situação dos rios quanto à poluição com lixo?
Reinaldo Dias – Os dados são específicos para determinados rios que chamam mais atenção, como o Tiete ou Pinheiros em São Paulo, mas a situação se repete em todo o país, principalmente nas cidades. É facilmente encontrável na Internet cenas de acúmulo de milhares de garrafas PET e outros materiais em determinados pontos dos rios. Alguns cursos d’água se assemelham mais aesgotos a céu aberto irradiando mau cheiro, fenômeno comum em todas as capitais brasileiras. Infelizmente esta é a situação, que somente será resolvida com a ação efetiva do poder público, punindo empresas que contaminam e aumentando o nível de conscientização da população sobre o problema.
IHU On-Line – É possível encontrar uma alternativa ao uso do plástico? Quais são as variáveis envolvidas nesse processo?
Reinaldo Dias – O plástico tornou-se um componente essencial na nossa vida, é difícil encontrar no ambiente humano algum lugar onde não haja esse tipo de material. O que pode ser feito sempre é um melhor uso, com a responsabilidade compartilhada do seu descarte entre fabricantes, comerciantes e consumidores. Outro movimento deve ser a adoção, em alguns produtos, de plásticos formados por material biodegradável, que ameniza seus impactos ao meio ambiente, como por exemplo, nas sacolas utilizadas no comércio.
IHU On-Line – No mundo, o Brasil é o campeão na reciclagem de latas, reciclando 98% do total produzido no país. Por que ainda não se tem índices de reutilização como estes para o plástico?
Reinaldo Dias – Este é um bom exemplo de como pode ser encontrada uma solução no contexto do atual modo de produção capitalista, que é o vigente. A reciclagem das latas de alumínio foi transformada num bom negócio, sendo menor o custo de sua reciclagem do que a sua obtenção diretamente na natureza.
plástico deve trilhar o mesmo caminho, tem que viabilizar negócios rentáveis que gerarão empregos e contribuirão para o meio ambiente. A questão é que a relação custo-benefício está desfavorável para que isto aconteça, pois a principal matéria-prima para o plástico, que é o petróleo, está em queda livre, com preços cada vez menores, o que barateia o seu custo de produção. Neste caso, a solução seria a criação de políticas de incentivo ao setor, maior profissionalização dos empreendedores com a adoção de métodos de gestão adequados para o setor e geração de empregos decentes, pois ocorre neste campo muita exploração de mão-de-obra, com a justificativa de que se está oferecendo trabalho para pessoas necessitadas. Isso tudo deve ser permeado sempre, e fundamentalmente, pelo aumento da conscientização, o que implica em políticas públicas amplas de educação ambiental.
IHU On-Line – De que maneira a reciclagem, além de contribuir para a preservação do ambiente, pode também exercer uma função social?
Reinaldo Dias – Como havia mencionado anteriormente, temos que enfrentar o problema de que muitos programas de reciclagem de plástico envolvem uma exploração da mão-de-obra, buscando neste caso a redução de custos. Isto contraria frontalmente a proposta de sustentabilidade que envolve a reciclagem e a formação de uma economia circular, pois se foca somente no aspecto econômico e marginalmente no ambiental e social. A reciclagem pode exercer um importante papel social, como mostra o exemplo da União Europeia onde o tratamento de resíduos emprega mais de dois milhões de pessoas e com uma receita estimada em mais de 145 bilhões de euros.

“O preconceito em relação ao manuseio do lixo deve dar lugar a uma abordagem de máxima reutilização dos materiais descartados”

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Reinaldo Dias – A questão da reciclagem, de plástico e de outros materiais, deve ser vista dentro do contexto de formação de uma economia verde, de maior eficiência energética e na perspectiva do desenvolvimento sustentável. Nesse caso, deve ser considerada um novo nicho industrial, de transformação do lixo em riqueza. Acontece que para que isto ocorra deve haver uma mudança de mentalidade, que pode começar nas universidades, incentivando a criação de startups voltadas para a reutilização de materiais descartados como negócio viável. Os estudantes devem aprender a ver o lixo como uma mina de múltiplos materiais que foram retirados da natureza e que podem ser reutilizados com diminuição de custo de fabricação.
Um bom exemplo ocorreu na reunião do clima, a COP21 que aconteceu em Paris em dezembro de 2015. Nesse evento a Adidas e a “Parley for the Oceans”, uma organização sem fins lucrativos que visa a proteção dos oceanos, apresentaram um calçado esportivo inovador que possui sua parte superior e uma sola impressa em 3D, fabricadas com resíduos plásticos dos oceanos. A iniciativa, além de contribuir para a diminuição da contaminação nos oceanos, cria um produto que já nasce com uma imagem positiva sancionada pela sociedade.
preconceito em relação ao manuseio do lixo deve dar lugar a uma abordagem de máxima reutilização dos materiais descartados. Cabe aos empreendedores tornar o negócio viável adotando soluções criativas para cada caso: plásticosalumíniopapel, metaisprodutos eletrônicos etc. O desafio é este para as universidades: geração de empreendedores que veem o lixo como fonte de riqueza, um dos componentes de um sistema circular e não como um produto final de um sistema linear que ainda é predominante em nossa economia.
(Por Leslie Chaves)
(EcoDebate, 08/02/2016) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

MATA SECUNDÁRIA É ESPONJA DE CARBONO.

Floresta regenerada é esponja de carbono

Publicado em fevereiro 5, 2016 
Estudo de consórcio internacional que inclui cientistas brasileiros mostra que vegetação secundária na América Latina absorve 11 vezes mais CO2 do ar que matas amazônicas maduras
Por Claudio Angelo, do Observatório do Clima
As florestas secundárias, que rebrotam após o desmatamento de uma área, são conhecidas pelo nome algo pejorativo de capoeiras. A palavra vem do tupi e significa, literalmente, “mato que não é mais”. Vistas como pobres em biodiversidade e jamais tão ricas em estoque de carbono quanto uma floresta primária – a tal “mata virgem”–, as capoeiras são frequentemente desprezadas e outra vez desmatadas. Um estudo lançado hoje, porém, deve ajudar a reduzir esse preconceito.
Um consórcio internacional de cientistas, que inclui gente de diversas instituições de pesquisa do Brasil, acaba de publicar no periódico Nature a maior análise já feita sobre o padrão de crescimento das florestas secundárias na chamada região neotropical, que vai do México ao Estado de São Paulo. Eles concluíram que as capoeiras demoram, em média, apenas 66 anos para repor 90% da biomassa (portanto, do estoque de carbono) que possuíam antes do desmatamento. E mais: uma floresta em regeneração sequestra 11 vezes mais carbono do que uma mata virgem na Amazônia.
“Esta é a primeira estimativa da resiliência das florestas secundárias. Sempre houve muita dúvida sobre a taxa de crescimento e a resiliência dessas florestas”, disse ao OC o engenheiro florestal Daniel Piotto, professor da Universidade Federal do Sul da Bahia. Ele é coautor do trabalho, coordenado pelo holandês Lourens Poorter, da Universidade de Wageningen.
A importância das capoeiras da América Latina para o ciclo do carbono e, portanto, para o clima, é evidente. Somente na Amazônia, 22% de toda a área desmatada é ocupada por matas em regeneração, segundo dados do Terraclass, do Inpe. Esse número é provavelmente ainda maior na Mata Atlântica, que tem menos de 10% de sua cobertura florestal original.
No entanto, essa importância nunca havia sido traduzida em números antes. Estudos pontuais mostravam ora que as florestas poderiam entrar em colapso a partir de um certo grau de desmatamento, ora que o crescimento de uma floresta secundária era lento demais para fazer alguma diferença no clima no curto prazo.
“Meus estudos na Zona Bragantina, no leste do Pará, mostravam um tempo de recuperação de 150 anos. Estudos feitos na Venezuela chegavam a 250 anos. A meta-análise [o novo estudo] aponta 66 anos”, diz Ima Vieira, pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi e uma das maiores especialistas em florestas secundárias do país. Ela também é coautora do trabalho, realizado pelo consórcio autointitulado Amantes da Floresta Secundária – ou “2ndFOR” (“SecondFor”, em inglês), para os menos íntimos.
Os dados anteriores não estão necessariamente errados. O que acontece é que há uma variação gigantesca de tempo de regeneração dentro da zona neotropical, com capoeiras crescendo mais rápido em regiões onde chove mais e onde há mais florestas intactas em volta.
“De posse dessa taxa de crescimento, será possível fazer previsões sobre o potencial de mitigação [de emissões de gases de efeito estufa] das florestas secundárias”, afirma Piotto. O 2ndFOR já está fazendo essas contas.
MAPA
O consórcio integrou tanto dados coletados pelos pesquisadores em campo quanto resultados de análises anteriores, e produziu um mapa mostrando em que regiões as capoeiras absorvem mais carbono e onde absorvem menos. O mapa poderá ser usado pelos formuladores de políticas públicas para priorizar a conservação em florestas de baixa resiliência e incentivar a regeneração em regiões de crescimento rápido da capoeira.
capoeira
Imagem mostra velocidade de regeneração, medida em biomassa acumulada em 20 anos. Quanto maior o círculo preto, maior a taxa de crescimento da floresta

A princípio a notícia é ruim para a Mata Atlântica, já que sua reposição de biomassa é até 70% mais lenta que na Amazônia – e é justamente ali que há mais florestas precisando de regeneração. Piotto diz que isso seria olhar apenas metade do quadro. “Há muito mais áreas disponíveis para recuperar na Mata Atlântica do que na Amazônia”, afirma.
O estudo deverá ter também implicações para o cumprimento da meta do Brasil para o Acordo de Paris. A chamada INDC aposta na recuperação de florestas como forma de sequestrar carbono e compensar o que se emite pelo desmatamento legal na Amazônia. O leste do Pará é uma das regiões onde mais vale a pena deixar o mato crescer.
Mas isso só se deixarem mesmo o mato crescer. “Se essas florestas vão resistir no campo depende de questões políticas e institucionais que vão além da nossa pesquisa”, afirma Ima Vieira. “No que depender dos produtores rurais, não vão, porque eles as veem como empecilho.”
O Pará é o único Estado da Amazônia que tem uma lei que protege as capoeiras, definindo estágios de sucessão (crescimento) e vedando o desmatamento em capoeiras de crescimento avançado.
Mesmo no Pará, Vieira estima que 50% das capoeiras sejam recentes – portanto, passíveis de desmatamento legal.
Segundo a pesquisadora, preservar as florestas secundárias é importante, mas fundamental mesmo é não desmatar as primárias. “A capoeira não vai recuperar a biodiversidade”, diz. “Elas levam 66 anos em média para recuperar 90% da biomassa, mas 70 anos para recuperar 35% das espécies de árvores nativas.”

in EcoDebate, 05/02/2016

AEDES AEGYPTI : FALHA NA GESTÃO PREVENTIVA PÚBLICA E DA SOCIEDADE.

Aedes aegypti – lá se vão quinze anos e uma constatação: o Brasil baixou a retaguarda, artigo de Sucena Shkrada Resk


Lembro como se fosse hoje. O ano era 2002 e trabalhava como repórter no Diário do Grande ABC. Uma das pautas que mais cobri, neste período, foi com relação à epidemia de dengue e aos diversos focos do mosquito fêmea do Aedes aegypti que havia na região e no país. Em outras cidades paulistas e demais estados brasileiros, a situação era alarmante. As campanhas preventivas, o fumacê, as blitz da vigilância em saúde e a atualização de registros de casos nutriam as matérias regularmente. Praticamente quinze anos depois, com o que nos deparamos? Um quadro mais complexo, em que o inseto se tornou vetor de mais doenças e tem sua propagação facilitada por extremos climáticos, como o El Niño, que amplia a incidência de chuvas e calor, além da falha da gestão preventiva pública e da sociedade. O Brasil baixou a retaguarda e assim, abre precedentes para o perigo de retomada de aumento de casos de outras doenças, como malária e febre amarela.
A desaceleração da prioridade desta pauta na área de saúde está tendo um custo alto, que envolve também o campo científico. O investimento na pesquisa tem de ser prioridade tanto para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação como para o Ministério da Saúde.
No decorrer deste tempo, produzi outras matérias, para diferentes publicações, como na Revista Viva Saúde, sobre os testes da vacina contra a dengue em processo no Instituto Butantan (que ainda não foram produzidas e estão em fase final de testes) e artigos para o blog. Hoje o que se tem de alternativa é a vacina criada pela empresa farmacêutica francesa Sanofi Pasteur, que teve registro aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 28 de dezembro do ano passado, e que tem um custo elevado, de acordo com o ministro da Saúde, Marcelo Castro.
Neste período, o que foi possível observar é que a retaguarda do país com relação à prevenção foi diminuindo gradativamente até praticamente ficar adormecida. Saiu da agenda de prioridades do contexto dos centros urbanos, justamente onde o mosquito prevalece, por ter uma característica doméstica e se proliferar em água parada e limpa. Cada fêmea pode gerar 1.500 mosquitos.
A memória histórica também foi praticamente apagada. Até os anos 30, é interessante lembrar que o Aedes era vetor da febre amarela urbana e foi erradicado no país, em 1955. Mas a sua incidência em outros países possibilitou sua reintrodução, segundo histórico descrito pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Nos últimos anos, a incidência de casos começou a se destacar novamente nas manchetes. E hoje temos uma situação epidemiológica das mais graves, com a dengue, o zika vírus – com grande possibilidade de relação com microcefalia de fetos e casos da síndrome de Gullain-Barré, que é caracterizada por um colapso neurológico – e a febre chikungunya. Para completar, um Ministério da Saúde fragilizado pelas declarações do seu atual ministro, que disse mais recentemente que “o Brasil perdeu feio a batalha para o Aedes aegypti…”. Esta não foi a única declaração polêmica, nos últimos meses, o que causa um mal-estar quanto ao enfrentamento do problema.
Mais que cuidados ininterruptos com caixas d`água, cisternas, latas, pneus, pratinhos de vasos com água parada e calhas entupidas, estamos falando hoje de um estágio de evolução do Aedes como vetor de doenças, nunca antes visto. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que neste ano, 4 milhões de pessoas possam contrair zika vírus, nas Américas, sendo que 1,5 milhão no Brasil. Nesta escala global, 23 países já divulgaram a presença da doença. Para isso, foi criado um comitê de emergência.
Em cidades de pequeno porte como Cotriguaçu, onde vivo e trabalho há um ano no noroeste mato-grossense, o número de casos no único hospital local e no posto de saúde é assustador. Famílias inteiras estão contraindo as doenças (com predominância da dengue) e algumas desenvolvem sintomas mais graves, exigindo internação. Isto sem falar dos casos subnotificados. O corpo de profissionais é reduzido, fazendo com que um único médico, dependendo do plantão, se desdobre entre uma unidade e outra (o que já faz parte da rotina). O município só tem três médicos que atendem a população nestes locais, além dos atendentes e alguns enfermeiros.
Esse é um dos gargalos também presenciados em várias localidades. O país, tanto nos pequenos como nos grandes centros, não está preparado para uma epidemia. Vide a situação dos complexos hospitalares nas capitais como Rio de Janeiro.
Os repelentes que encontramos no mercado, por muitas vezes, não dão conta por muito tempo, de afastar os mosquitos. Empiricamente, dá a impressão de que os insetos estão ficando cada vez mais resistentes, inclusive, em locais com refrigeração mais fria. Constatei isto, por exemplo, em uma sala climatizada a 17 graus em uma rodoviária mato-grossense, no município de Juína, neste mês, onde diferentes insetos (com aspecto semelhante ao Aedes sobrevoavam sem cerimônias).
Algumas alternativas encontradas em alguns municípios são de investir na produção de repelentes naturais. Entre eles, a crotalária, a citronela e o nim. Ao se produzir sementes e mudas em escala, em viveiros, é possível fazer a distribuição à população e para o plantio em espaços públicos.
Outra lacuna na prevenção é o efeito tardio de ações coletivas. Fazer mutirões depois que os ovos já eclodiram também revela a carência de planejamento estratégico que é vista em todo o território nacional. É necessário lembrar que eles podem ficar “adormecidos” por um ano e na próxima chuva retomar o ciclo de nascimento dos mosquitos. Portanto, prevenção é no ano todo.
Em 2015, em todo o Brasil, 843 pessoas morreram em decorrência da dengue em um total de 1,6 milhão de casos registrados. No ano anterior foram 473 óbitos. Este é um dado relevante, que aponta um estágio mais agressivo da doença, pouco a pouco.
Desde o século XIX, há registros da presença do Aedes, no Brasil e mundialmente, a partir do século anterior. O mosquito é procedente do Egito e se espalhou aos demais continentes por meio da África. Portanto, uma história longa, que não faz parte de uma realidade só das últimas décadas. Segundo a Fiocruz, na atualidade há registros de sua presença nas Américas, na África, Ásia, Austrália e Polinésia Pacífica. Quando falamos do Aedes aegypti, estamos tratando de um status de emergência mundial. Não há tempo a perder.
Sucena Shkrada Resk é jornalista, formada há 23 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (http://www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.

in EcoDebate, 05/02/2016

ALIMENTOS ORGÂNICOS E O BRASIL.

O Brasil orgânico do século XXI, artigo de Ming Liu

Publicado em fevereiro 5, 2016  

[EcoDebate] Não é novidade que hoje, no mundo e no Brasil, a demanda por produtos orgânicos está em alta. Este crescimento reflete maior conscientização do consumidor na busca por produtos cada vez mais saudáveis e menos industrializados, que no processo de produção minimize o impacto ambiental, que garanta ser seguro, bom para a saúde e que possa ser adotado em programas de prevenção para a saúde. Queremos o futuro num planeta vivo, orgânico e saudável para se viver.
A história dos orgânicos é recente: começa no início do século XX, mas foi apenas a partir de 2001, que os grandes mercados – Estados Unidos e Europa – se preocuparam em regulamentar, criar mecanismos de controle para garantia da qualidade e credibilidade junto ao consumidor final. O Brasil também iniciou este processo em 2003, publicando a Lei 10.831 sob as asas da agroecologia e da agricultura familiar.
O Brasil por sua extensão geográfica, diversidade da natureza de produtores e variedade do clima e biomas, acabou optando por uma legislação mais inclusiva, diferentemente dos outros países, em que o principal canal de produção acabou se baseando apenas na estrutura tradicional da agricultura e no processamento. A regulamentação foi em 2011, com a criação do selo nacional obrigatório que oferece a credibilidade que o consumidor precisa.
A regulamentação criou condições para que o mercado global de orgânicos represente perto de US$ 80 bilhões de dólares em faturamento. Um valor pequeno se comparado com os números das grandes corporações do agronegócio e ainda posiciona os orgânicos como um mercado de nicho, mas com as referências de qualidade no processo de compra e os hábitos que os consumidores vêm adotando na busca de produtos com melhor qualidade e mais seguros, os orgânicos passam a ser um mercado mainstream. No varejo, as grandes redes e as mais especializadas de pequeno porte estão em demanda crescente, em especial por produtos frescos, produtos processados e de maior valor agregado.
O Brasil tem um mercado na ordem de R$ 2,5 bilhões, incluindo as exportações, com expectativa de crescimento de 30-35% em 2016, importância relativamente tímida se comparada com o valor global do setor e mais irrelevante em relação ao valor e números do agronegócio no país: perto de 23% do PIB Nacional, responsável pelo emprego de 39% da população do país, mais de 39% das exportações e com apenas 30% das terras utilizadas.
Estes números mostram o potencial de crescimento. É importante saber que a estruturação será determinada pela demanda, produção e disponibilidade dos produtos. Segundo dados do Ministério da Agricultura, em novembro de 2015 estavam registrados 11.478 produtores orgânicos, sendo a região Sul o maior adensamento – cerca de 36% do total; seguidos pelas regiões nordeste (32%) e sudeste (21%). No ranking, em primeiro lugar está o Rio Grande do Sul com 1.598 produtores orgânicos, seguido pelo Paraná e São Paulo, com 1.561 e 1.290 produtores, respectivamente.
No varejo, os produtos orgânicos estão em praticamente todas as grandes redes de supermercados, além do aumento contínuo do número de feiras orgânicas, que já são mais de 600 acontecendo semanalmente em todas as regiões do Brasil.
O desafio do setor é estar estruturado para ter produtos, em todos os segmentos de alimentos e bebidas, para atender esta demanda. Podemos prever que deve acontecer no Brasil, o mesmo no desenvolvimento do setor nos Estados Unidos e na Europa, onde as grandes empresas acabaram se adaptando para ter linhas orgânicas de produtos.
Em termos de empreendedorismo, atualmente temos poucas empresas com faturamento na ordem de dezenas de milhões de dólares e nenhuma ainda na casa das centenas. Enquanto que nos Estados Unidos, há empresas com faturamento na casa do bilhão de dólares.
Acredito que o Brasil está no início deste processo, com a estruturação de uma ordem de trabalho estabelecida em cadeias: primária, com a pulverização de pequenos e micro produtores, agroecológicos e da agricultura familiar; e na secundária, com empreendedores pequenos e inovadores até as grandes processadoras e indústrias que enxergam nos orgânicos uma alternativa comercial viável; e na terciária com serviços que contribuam na mudança de comportamento do consumidor.
Para o futuro, podemos prever que a mudança de parâmetros dos consumidores, em que o preço nem sempre será decisivo, apesar do cenário econômico não muito positivo para os próximos anos. Esperamos que cada vez mais, a racionalidade e o bom senso sejam decisivos na busca de produtos mais éticos, seguros e saudáveis.
Assumindo uma posição assertiva, foi criado o Conselho Nacional da Produção Orgânica e Sustentável – ORGANIS, que construirá uma plataforma de negócios para unir integrantes de uma cadeia produtiva, ser a representante legítimo de produtores, processadores, empresas e empreendedores brasileiros da cadeia de produção orgânica e sustentável.
É um novo desafio para um país como o Brasil – orgânico por natureza e com a maior biodiversidade do planeta.
• Ming Liu é diretor do ORGANIS e coordenador executivo do Organics Brasil – mingliu@organis.com.br

Colaboração de Vera Moreira, in EcoDebate, 05/02/2016

A CRISE NO MERCADO DE TRABALHO.

Colapso do mercado de trabalho brasileiro nos últimos cinco anos, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Publicado em fevereiro 5, 2016 
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[EcoDebate] O crescimento da economia e da renda ocorre em função do aumento da população ocupada multiplicada pelo aumento da produtividade. Estes dois vetores são essenciais. Ocorre que a produtividade no Brasil está estagnada há muito tempo. O crescimento da economia e da renda que ocorreu no período 2004 a 2010 se deu em função do aumento da taxa de ocupação e da elevação do emprego formal (que em geral é mais produtivo do que o trabalho informal). Se as tendências da primeira década do século XXI continuassem por mais 20 ou 30 anos o Brasil poderia dar um salto na qualidade de vida e no bem-estar da sua população.
Contudo, as tendências se inverteram e o mercado de trabalho brasileiro entrou em colapso na segunda década do século XXI. A população ocupada tem diminuído e a taxa de ocupação caiu em ritmo ainda mais acelerado. Este dado é preocupante, pois o Brasil vive o seu melhor momento demográfico, já que a população em idade ativa cresce mais rápido do que a população total e a razão de dependência (pessoas em idade ativa dividida pelas pessoas em idade dependente) está no nível mais baixo da história. Ou seja, o Brasil está desperdiçando o seu bônus demográfico. E sem o aproveitamento deste bônus não há como fazer a decolagem do desenvolvimento econômico e social.
A crise do mercado de trabalho é nacional, mas atinge de forma impactante a maior e mais dinâmica região metropolitana (RM) do país. A RM de São Paulo tem uma população de mais de 20 milhões de habitantes (equivale à população conjunta de Portugal e Grécia). Segundo dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), do Dieese e Seade, a População em Idade Ativa (PIA) era de 17,02 milhões de pessoas em dezembro de 2010 e passou para 17,73 milhões em dezembro de 2015. A População Ocupada (PO) era de 9,73 milhões de pessoas em dezembro de 2010 e caiu para 9,59 milhões em dezembro de 2015. Assim, enquanto crescia o número de pessoas em idade de trabalhar, decrescia a quantidade de pessoas ocupadas. Como resultado, a taxa de ocupação (PO/PIA), que deveria crescer para aproveitar o bônus demográfico, infelizmente, caiu de 57,2% para 54,2% nos últimos cinco anos. O desemprego na RMSP passou de 10% no final de 2010 para 14% no final de 2015.
Mas o problema não se restringe somente à queda da população ocupada em termos absoluto e relativo. Caiu também o rendimento real das pessoas ocupadas. A PED mostra que o rendimento médio na RMSP era de R$ 2.160,00 em dezembro de 2010 e caiu para R$ 1.919,00 em novembro de 2015. Isto representou uma queda de quase 12% no poder de compra da população ocupada. No conjunto houve uma redução na massa salarial, reduzindo a demanda por consumo e acelerando a tendência à recessão.

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Os dados do Caged, do Ministério do Trabalho, mostram que o saldo da criação de emprego foi sempre positivo na primeira década do atual século, atingindo o máximo de 2,5 milhões de vagas criadas em 2010. Mas a partir deste pico, a geração líquida de emprego começou a cair desde a posse da presidenta Dilma Rousseff e atingiu o recorde negativo em 2015, com a perda de mais de 1,5 milhão de empregos formais “destruídos”. E o pior é que existe a perspectiva de um outro tombo em 2016.

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O desperdício da mão de obra não é exclusividade de São Paulo. A quantidade de pessoas ocupadas nas 6 maiores regiões metropolitanas do Brasil (Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre) está estagnada nos últimos cinco anos. A população em idade ativa cresceu, mas as oportunidades de trabalho diminuíram. O desemprego aumentou, assim com a informalidade. Isto significa um retrocesso econômico e um sofrimento para a população mais pobre que não tem outro meio digno de sobrevivência e autonomia.
Segundo a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do IBGE, a população ocupada nas 6 regiões metropolitanas era de 23.016 mil pessoas (12.553 mil homens e 10.462 mil mulheres) em dezembro de 2010 e passou para 23.213 mil pessoas (12.392 mil homens e 10.822 mil mulheres) em dezembro de 2015. Nos 5 anos de governo da presidenta Dilma Rousseff o número de homens efetivamente ocupados diminuiu e o número de mulheres ocupadas está praticamente estagnado.
A taxa de ocupação (percentagem da população ocupada – PO – sobre a população em idade ativa – PIA) estava em 54% em dezembro de 2010, subiu para 55,3% em novembro de 2012, voltou ao nível de 54% em dezembro de 2013 e caiu rapidamente até atingir o nível de apenas 51,3% em dezembro de 2015. Ou seja, a geração de emprego ficou estagnada no primeiro governo Dilma e praticamente entrou em colapso depois de 2013.
A quantidade de pessoas desempregadas nas 6 maiores regiões metropolitanas subiu de 1,28 milhão em dezembro de 2010 (sendo 534 mil homens e 745 mil mulheres) para 1,73 milhão em dezembro de 2015 (sendo 836 mil homens e 896 mil mulheres). A taxa de desemprego aberto da população total que estava em 5,3% em dezembro de 2010 passou para 6,9% em dezembro de 2015 (sendo 6,3% dos homens e 7,6% das mulheres). Entre os jovens de 15 a 17 anos a taxa de desemprego passou de 21,2% para 31,4% e entre os de 18 a 24 anos passou de 11,4% para 16,5% nos últimos 5 anos. Há que se considerar que a PME não leva em consideração o desalento e o desemprego oculto, como faz o Dieese. Caso isto fosse considerado, as taxas de desemprego seriam bem mais altas e todas na faixa de dois dígitos. Ainda segundo a PME do IBGE, o rendimento médio real da população ocupada ficou estagnado nos últimos 5 anos.

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Assim, a crise do mercado de trabalho é ampla, geral e irrestrita. E deve ficar pior em 2016. O Brasil está ignorando a meta defendida pela OIT de “Pleno emprego e Trabalho decente”. Sem a recuperação do emprego (especialmente o emprego formal) fica difícil sair da recessão e da redução da renda per capita que atinge o Brasil no último triênio (2014-16). O número de trabalhadores que contribuem com a previdência social vem caindo desde 2013, o que agrava o desequilíbrio atuarial do sistema de proteção social no Brasil. Assim, fica difícil para o país atingir as metas sociais dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Não se trata de buscar o crescimento econômico a qualquer custo, mas sim de evitar que os trabalhadores paguem pela recessão, enquanto os ricos do topo da pirâmide de renda continuam concentrando a maior parte da riqueza produzida. Todas as pessoas deveriam ter direito ao trabalho e a uma vida simples e digna, em vez de alimentar uma máquina de produção que visa o consumo conspícuo e a acumulação de capital.
Trabalho é um direito, mas o desperdício do potencial produtivo do povo brasileiro – no momento da melhor situação da estrutura etária e de menor razão de dependência – pode significar o fim do desenvolvimento do Brasil. O Brasil está jogando fora, precocemente, o seu bônus demográfico que só acontece uma vez na história de cada país. Perder a chance única de dar uma salto da qualidade de vida pode significar a condenação eterna à situação de “armadilha da renda média”. Seria o fim do progresso e a perpetuação da mediocridade.
Referências:
ALVES, JED. O precoce fim do bônus demográfico no Brasil. Ecodebate, RJ, 27/03/2015
ALVES, JED. Dilma: a presidenta exterminadora de empregos. Ecodebate, RJ, 02/09/2015

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 05/02/2016

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

ZIKA VÍRUS : PREVENÇÃO PARA EVITAR QUE CHEGUE À EUROPA

Prevenção é chave para evitar que zika chegue à Europa, afirma OMS 

“Como não há vacina ou tratamento para o vírus zika, precisamos proteger a região europeia impedindo a doença na sua origem”, disse a diretora regional da OMS para a Europa, Zsuzsanna Jakab.
Instalação de mosquiteiros em comunidades é uma das iniciativas do Programa Nacional de Prevenção e Controle da Malária, que já reduziu em 84% o número de internações por conta da doença. Foto: Governo do Estado do Acre / Secom / Angela Peres
A instalação de mosquiteiros é uma das formas de prevenção contra a picada do mosquito. Foto: Governo do Estado do Acre/Secom/Angela Peres
A Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu nesta quarta-feira (3) aos países europeus uma ação coordenada e antecipada para proteger a região do vírus zika, um dia após a confirmação de um novo caso nos Estados Unidos.
“Como não há vacina ou tratamento para o vírus zika, precisamos proteger a região europeia impedindo a doença na sua origem”, disse a diretora regional da OMS para a Europa, Zsuzsanna Jakab.
A diretora-geral da agência de saúde da ONU, Margaret Chan, alertou na segunda-feira (2) para a quantidade de microcefalias e doenças neurológicas recentemente identificadas na América Latina e Caribe, acrescentando que se trata de uma emergência de saúde pública de preocupação internacional, e requer uma reposta unificada.
Segundo Chan, isso é um “evento extraordinário”, já que há forte suspeita de relação causal entre o conjunto de doenças e o vírus zika, como concordaram os especialistas do Comitê Internacional de Emergência de Regulamento de Saúde.
Ainda, questionado sobre o novo caso de transmissão do vírus zika por relações sexuais no Texas, Estados Unidos, o porta-voz da OMS, Gregory Hartl, afirmou que há preocupação sobre esta forma de transmissão, mas lembrou que 99%, ou mais, dos quadros acontecem por meio de picadas de mosquitos.
Para ele, a combinação de ampla distribuição geográfica da espécie do mosquito que pode transmitir o vírus, a falta de imunidade contra a doença pelo mundo e a ausência de vacina e de testes de diagnósticos rápidos e confiáveis aumenta a preocupação em relação à propagação do vírus em nível global.
Hartl enfatizou a importância de programas de controle feitos pelas autoridades e a proteção individual contra a picada de mosquitos, por meio do uso de roupas apropriadas, repelentes, a permanência em ambientes fechados durante horários de pico de mosquitos e uso de mosquiteiros na cama.
Fonte : ONUBR

CORRUPÇÃO, REFÚGIO E TRÁFICO DE PESSOAS.

Corrupção, refúgio e tráfico de pessoas são temas de parceria entre Mistério da Justiça e ONU

Diretor da ABC, João Almino, diretor do PNUD no Brasil, Didier Trebucq e secretário nacional de justiça, Beto Vasconcelos durante o evento. Foto: PNUD/João Vítor Melo
Diretor da ABC, João Almino, diretor do PNUD no Brasil, Didier Trebucq e secretário nacional de justiça, Beto Vasconcelos durante o evento. Foto: PNUD/João Vítor Melo
A Secretaria Nacional de Justiça do Ministério da Justiça (SNJ) firmou acordo com o Sistema da Organização das Nações Unidas, na segunda-feira (1), para atuar de forma conjunta em três temas: agenda de enfrentamento da corrupção; política nacional de imigração e refúgio; e plano de enfrentamento ao tráfico de pessoas.
O Projeto de Cooperação Técnica Internacional da SNJ com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) tem como objetivo fortalecer o processo de formulação e monitoramento de políticas nacionais nessas áreas, com base na experiência internacional e em pesquisas com universidades brasileiras que serão selecionadas por editais. Além disso, o projeto auxiliará na modernização dos processos de trabalho da unidade e na criação de novos meios de participação e diálogo com a sociedade na construção e monitoramento das políticas públicas.
Segundo o Secretário Nacional de Justiça, Beto Vasconcelos, “essa parceria é importante porque permitirá mobilizar vários recursos para aperfeiçoar políticas públicas de migração nessas áreas e refúgio, enfrentamento da corrupção e da lavagem de dinheiro, e do tráfico de pessoas com boas práticas internacionais, com envolvimento da população na formulação dessas políticas”.
Para o diretor de país do PNUD, Didier Trebucq, “nossos desafios são grandes, e nossas parcerias agregarão valor aos produtos a serem gerados, bem como contribuirão para a promoção do desenvolvimento humano.” Trebucq lembrou também “o alinhamento do projeto com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, especialmente o ODS 16, com foco no combate à corrupção e na promoção de instituições eficazes, bem como os ODS 8 e 10, nas temáticas de tráfico de pessoas e migração.”
A parceria envolve também o Ministério das Relações Exteriores (MRE), por meio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e da Coordenação-Geral de Ações Internacionais de Combate à Fome. Na ONU, além do PNUD, participam o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). A a Organização Internacional para as Migrações (OIM) também participa da iniciativa.
Participaram do evento, realizado na Casa da ONU, o secretário Nacional de Justiça, Beto Vasconcelos; o diretor da ABC, João Almino, e o coordenador-geral de Ações Internacionais de Combate à Fome, Milton Rondó, além do diretor do PNUD no Brasil, Didier Trebucq, do representante Interino do ACNUR no Brasil, Agni Castro, do diretor regional da OIM, Diego Beltrand, e do representante do escritório da UNODC no Brasil, Rafael Franzini.
Fonte : ONUBR