segunda-feira, 20 de novembro de 2017

PRODUÇÃO AGRÍCOLA RESPONDE POR PELO MENOS 20% DAS EMISSÕES DE GASES DO EFEITO ESTUFA

Produção agrícola responde por pelo menos 20% das emissões de gases do efeito estufa


ONU
Em pronunciamento na 23ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, a COP23, o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), José Graziano da Silva, alertou que as transformações do clima poderão arrastar milhões de pessoas para um ciclo vicioso de pobreza e má nutrição. Dirigente cobrou adoção de padrões mais sustentáveis na produção agrícola.
Uso indiscriminado de antibióticos na pecuária pode favorecer desenvolvimento de resistência de bactérias e micróbios a medicamentos. Foto: Departamento dos Estados Unidos para Agricultura / Ryan Thompson
Pecuária é segmento da produção de alimentos que mais emite gases do efeito estufa. Foto: Departamento dos Estados Unidos para Agricultura / Ryan Thompson
Em pronunciamento na 23ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, a COP23, o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), José Graziano da Silva, alertou que as transformações do clima poderão arrastar milhões de pessoas para um ciclo vicioso de miséria e má nutrição. Até 2050, quedas na produção agrícola associadas às mudanças climáticas poderão elevar em 20% o risco de fome no mundo.
“Não estamos fazendo o suficiente para enfrentar essa grave ameaça”, criticou o dirigente da agência da ONU, lembrando que os países insulares e as nações menos desenvolvidas são “especialmente vulneráveis” às mudanças climáticas.
A produção agrícola ocupa um lugar paradoxal na dinâmica climática – é afetada por suas oscilações, mas é também uma das maiores responsáveis pelas mudanças climáticas. “Pelo menos um quinto das emissões totais de gases do efeito estufa pode ser atribuído ao setor agrícola”, afirmou Graziano.
Apesar dos desafios, Graziano afirmou que ainda há tempo para agir. Segundo ele, a comunidade internacional tem capacidade para erradicar a fome em todas as suas formas até 2030, tal como previsto pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS).
O segmento da produção de alimentos que mais emite gases do efeito estufa é a pecuária. Todavia, “é possível uma pecuária de baixo carbono”, enfatizou o chefe da FAO. A agência estima que técnicas de criação de gado aprimoradas, de fácil implementação, podem reduzir de 20 a 30% as emissões.
“Não basta transformar apenas a forma como produzimos alimentos. A mitigação e a adaptação às mudanças climáticas devem ser integradas em todo o sistema alimentar, desde a produção até o transporte, desde o processamento até o consumo dos alimentos, tanto nas zonas rurais, como nas zonas urbanas”, enfatizou o dirigente.
“Reduzir o desmatamento, recuperar terras e florestas degradadas, acabar com as perdas e o desperdício de alimentos, melhorar o ‘sequestro de carbono’ pelo solo, (promover) a pecuária com baixas emissões, essas são apenas algumas das soluções conhecidas para abordar, ao mesmo tempo, a fome, a pobreza e a sustentabilidade.”
Por ocasião da COP23, a FAO lançou uma nova publicação – Acompanhando a adaptação nos setores agrícolas – que oferece um marco e uma metodologia para apoiar países na implementação de medidas de adaptação às mudanças climáticas. Acesse o documento clicando aqui (em inglês).
Da ONU Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/11/2017

COP 23 : A CONFERÊNCIA SOBRE O CLIMA

COP23: A Conferência sobre o Clima da ONU terminou sem atingir os objetivos

IHU
Os delegados da COP23 não conseguiram elaborar as regras para cumprir o Acordo de Paris, para reduzir o aquecimento global. O financiamento das medidas necessárias e a resistência dos Estados Unidos complicam o avanço.
A reportagem é publicada por Página/12, 18-11-2017. A tradução é de André Langer.
No seu último dia, a Conferência das Nações Unidas sobre o Clima (COP23), realizada na Alemanha, suscitou mais dúvidas do que certezas, depois de terem sido produzidos ainda mais curtos-circuitos entre os países industrializados e as nações em desenvolvimento sobre o financiamento climático e os compromissos assinados, somado ao pouco interesse dos Estados Unidos e às catástrofes naturais que atingiram o mundo. O objetivo da 23ª Conferência Climática das Nações Unidas era, em princípio, elaborar as regras para cumprir o compromisso do Acordo de Paris para impedir que a temperatura da Terra aumente mais de dois graus em relação à era pré-industrial. Mas aqueles que buscavam o acordo tiveram que se conformar com um rascunho e empurrar a discussão para novembro de 2018, na próxima reunião convocada para acontecer na Polônia.
“A parte fraca da conferência foram os métodos de implementação do Acordo de Paris, não apenas o acesso a financiamentos e recursos, mas a transferência de tecnologias e gerenciamento de capacidades e, assim, ajudar os países em desenvolvimento”, explicou a ministra das Relações Exteriores do Equador, María Fernanda Espinosa, porta-voz do G77. Há oito anos, na conferência climática de Cancun, foi criado um Fundo Verde para ajudar as nações atrasadas em tecnologias ecológicas. “Para este momento, esperava-se ter 100 bilhões de dólares anuais no Fundo e isso não aconteceu. O que temos são seis bilhões”, ou seja, menos de 10% do esperado, acrescentou a representante.
Além das discussões sobre o financiamento, em Bonn, a antiga capital da Alemanha Ocidental, e longe da sede que originalmente devia organizar a COP23 (Fiji, o país escolhido, abriu mão do compromisso devido à falta de logística para acolher a cúpula), os delegados dos 193 Estados que aderiram às Nações Unidas tiveram que enfrentar outros obstáculos. O principal país emissor de dióxido de carbono, os Estados Unidos, mostrou novamente que a decisão do seu presidente, Donald Trump, de abandonar o Acordo de Paris, não era apenas uma declaração: nesta conferência, a delegação estadunidense foi significativamente reduzida, assim como sua participação nos debates, segundo informaram delegados de diferentes países. “É como se nos faltasse o coração. A posição dos Estados Unidos influenciava os outros países desenvolvidos, o que, por sua vez, tem consequências para as posições que serão adotadas pela maioria dos países em desenvolvimento”, disse Seyni Nafo, delegado do grupo de países africanos.
Mas nem todos os países estavam pálidos na reunião anual do clima. Mais de vinte países, incluindo o Reino Unido, aFrança, a Itália, o México, a Dinamarca e a Áustria, selaram uma aliança na COP23 pela qual se comprometem a eliminar o carvão como recurso energético antes de 2030. A queima de carvão é uma das principais fontes de dióxido de carbono. Entretanto, o compromisso não foi assinado pelos três primeiros emissores globais de CO2 e consumidores de carvão (ChinaÍndia e os já mencionados Estados Unidos), nem pela Argentina, nem pela anfitriã da conferência, a Alemanha. Angela Merkel, chefe do governo alemão, explicou em uma atividade da conferência que seria “bastante difícil fechar as usinas de energia a carvão”. “Há consideráveis conflitos sociais também em um país rico como o nosso”, acrescentou.
Acordo de Paris, assinado em 2015, representou um compromisso global para manter o aumento da temperatura da terra a uma taxa de 1,5 ou 2 graus por ano. Por sua vez, os países tiveram tempo até 2018 para detalhar seu plano de desenvolvimento para reduzir a poluição. Até agora, não houve progressos nessas duas metas e as consequências para os próximos anos, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), serão ondas de calor “mortíferas”, secas de vários meses e 26 milhões de novos pobres por ano.
(EcoDebate, 20/11/2017) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

domingo, 19 de novembro de 2017

REFUGIADOS DO CLIMA

Refugiados do clima: ONU alerta para aumento do deslocamento forçado provocado por mudança climática


À medida que o número de pessoas deslocadas em todo o mundo devido a eventos relacionados ao clima continua a crescer, as Nações Unidas e seus parceiros estão focados em abordagens regionais para responder à questão dos “refugiados do clima”.
A média anual de deslocados por mudanças climáticas entre 2008 e 2016 chegou a 25,3 milhões, de acordo com dados divulgados pelo Conselho Norueguês de Refugiados. Os cinco países que têm a maior proporção de sua população afetada pelos deslocamentos são todos Estados insulares: Cuba, Fiji, Filipinas, Tonga e Sri Lanka.
Os moradores da antiga vila de Vunidogoloa foram obrigados a se deslocar devido ao risco de inundações e erosão costeira. Foto: Nansen Initiative, via UNOCHA
Os moradores da antiga vila de Vunidogoloa, em Fiji, foram obrigados a se deslocar devido ao risco de inundações e erosão costeira. Foto: Nansen Initiative, via UNOCHA
À medida que o número de pessoas deslocadas em todo o mundo devido a eventos relacionados ao clima continua a crescer, as Nações Unidas e seus parceiros estão focados em abordagens regionais para responder à questão dos “refugiados do clima”.
A média anual de deslocados por mudanças climáticas entre 2008 e 2016 chegou a 25,3 milhões, de acordo com dados divulgados pelo Conselho Norueguês de Refugiados. Os cinco países que têm a maior proporção de sua população afetada pelos deslocamentos são todos Estados insulares: Cuba, Fiji, Filipinas, Tonga e Sri Lanka.
“Durante a temporada de furacões, por exemplo, vimos o deslocamento de 1,7 milhão de pessoas em Cuba — o equivalente a 15% da população”, disse Camila Minerva, gerente do programa humanitário da OXFAM na República Dominicana, durante coletiva de imprensa sobre “Mobilidade humana e mudança climática” na Conferência das Nações Unidas sobre o Clima (COP23), em Bonn, Alemanha, na semana passada (8).
“Aqueles em situação de pobreza e marginalização são cinco vezes mais propensos ao deslocamento e estão sujeitos a permanecerem mais tempo longe de casa do que as pessoas em países de maior renda. E esse número está aumentando com a mudança climática”, acrescentou.
Mariam Traore, especialista em migração, meio ambiente e mudança climática da Organização Internacional para Migrações (OIM), disse que o efeito inicialmente lento das mudanças climáticas faz as pessoas migrarem, às vezes de maneira forçada.
“Em um país como o Bangladesh, fizemos uma pesquisa no ano passado e 40% das famílias entrevistadas nos disseram que as mudanças climáticas contribuíram diretamente para a decisão de migrar”, explicou.
Nesse contexto, foi sugerida a criação de um status de “refugiado climático”, protegendo aqueles que foram forçados a abandonar seu país por causa dos impactos das mudanças climáticas.
“O status legal de refugiado é estabelecido pela Convenção de Refugiados de 1951, que é muito clara sobre o motivo pelo qual esse status é conferido, que é basicamente a perseguição”, disse Marine Franck, diretora do programa de mudança climática da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).
“No contexto do deslocamento da mudança climática, pode haver casos em que haja perseguição envolvida onde este status de refugiado possa ser aplicado, mas na maioria dos casos, não”, acrescentou.
Franck ressaltou que a questão da ampliação do alcance da proteção aos refugiados “não é necessariamente desejável, porque existe o risco de minar os refugiados que fogem da perseguição e do conflito violento”. Além disso, ela explicou: “precisamos também renegociar a Convenção e não há interesse dos Estados, além de não ser a ferramenta de proteção mais efetiva”.
O ACNUR considera mais apropriado analisar o que existe no nível regional, e tentar uma abordagem de baixo para cima. Franck mencionou os vistos de proteção humanitária, proteção temporária e autorizações de moradia, bem como leis de migração que favoreçam uma proteção real.
“É muito mais eficaz, porque os Estados vão analisar o que seus vizinhos estão fazendo e podem adotar o mesmo tipo de procedimento, em vez de adotar uma convenção global ou uma nova categoria. Porém, a negociação pode não ser tão fácil, além de não termos garantias de que os Estados o implementariam adequadamente”, disse a diretora de programa do ACNUR.
Da ONU Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/11/2017

ESTRUTURA FUNDIÁRIA E A LUTA PELA TERRA

Estrutura fundiária iníqua e luta pela terra

Estrutura fundiária iníqua e luta pela terra
Estrutura fundiária iníqua e luta pela terra
Por frei Gilvander Moreira
“A população do território hoje conhecido como Brasil em 1500 era, calcula-se, de mais de cinco milhões2 de pessoas distribuídas por centenas de povos, com línguas, religiões, organizações sociais e jurídicas diferentes” (MARÉS, 2003, p. 49). Há mais de cinco séculos o latifúndio continua sendo a estrutura básica fundiária no Brasil e, ultimamente, sob a hegemonia do agronegócio, a luta pela terra necessita de crítica permanente, isso para diminuir, no mínimo, os riscos de perdurar e repetir ad infinitum a estrutura latifundiária, um dos fundamentos da sociedade do capital, “estruturalmente incapaz de dar solução às suas contradições” (MÉSZÁROS, 2007, p. 116).
Como pode o Brasil continuar desde 22 de abril de 1500, há 517 anos, sem fazer reforma agrária, sem democratizar o acesso à terra? “Desde o século XIX, com a ascensão da burguesia em vários países, foi a reforma do direito de propriedade e a democratização do acesso à propriedade, de maneira a abolir privilégios nele baseados, dinamizar o mercado e incrementar a igualdade jurídica que dinamizaram a economia capitalista e acentuaram o papel transformador do mercado” (MARTINS, 1999, p. 75).
Segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no livro anual que edita, desde 1979, Conflitos no Campo Brasil, nos últimos anos, as ocupações de terra tem acontecido em menor número, tanto na atuação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) quanto em outros movimentos camponeses, diante da avalanche do agronegócio e sob o governo do Partido dos Trabalhadores (PT) no plano federal, que findou com o golpe parlamentar-jurídico e midiático de 31 de agosto de 2016. Depois de ter atingido 79065 famílias em ocupações no ano de 1999, iniciou-se um decréscimo no número de famílias que vão para ocupações no campo anualmente. Em 2004, tivemos 76.000 famílias e depois foi reduzindo o número até chegar a apenas 16.858 famílias no ano de 2010, apresentando de 2011 a 2014 pouco mais de 23 mil famílias por ano, em 2015 um ligeiro aumento com 32.927 famílias e, em 2016, em uma grande queda, foram para ocupações apenas 21.776 famílias sem-terra, o que é muito pouco em relação às 79.065 famílias do ano de 1999.
O número de conflitos agrários no Brasil tem sido muito alto desde o ano de 1500, com momentos de forte questionamento da ordem estabelecida da propriedade privada capitalista nas épocas das lutas camponesas de Canudos (1896-1897), do Contestado (1912-1916), de Trombas e Formoso (1950-1957) e das Ligas Camponesas (1955-1964). “De 1985 a 2014 contabilizou-se mais de 19 milhões de pessoas envolvidas em conflitos no campo brasileiro” (MATOS; CUNHA; GOMES DE ALENCAR, 2014, p. 68). A luta pela terra no Brasil é histórica e continua acirrada sob múltiplas formas.
Ocupar latifúndio é algo radical, que envolve graves riscos, mas já está sedimentado no imaginário dos Sem Terra que “se os Sem Terra não ocupam, o governo não faz nada!” Melhor dizendo, faz tudo para o fortalecer a propriedade capitalista da terra, eixo essencial do capitalismo no Brasil. O Estado, no Brasil, tem permanecido nas mãos de partidos que garantem a reprodução e ampliação do capital. Martins assinalava isso em 1989. “Os partidos que realmente representam uma alternativa democrática e transformadora são ainda fracos – e são impedidos de crescer, acrescentamos – e não têm condições de interferir significativamente nesse círculo vicioso do poder. No Brasil o Estado tem o seu partido, o que empurra o processo político contra qualquer tendência democrática real” (MARTINS, 1989, p. 65).
O Estado brasileiro faz o pior: investe pesado no agronegócio e no fortalecimento do iníquo regime da posse e do domínio da terra – estrutura fundiária – no Brasil, baseado no latifúndio. Referindo-se à luta de mil mulheres da Via Campesina, que em 08 de março de 2006, destruíram um viveiro de mudas de eucalipto de uma transnacional no Rio Grande do Sul, Plínio de Arruda Sampaio comentou: “A ação das Mulheres da Via Campesina, na sede da Aracruz Celulose, está em consonância com as ações de Gandhi e Martin Luther King Jr., mártires dos oprimidos. Elas e eles fizeram desobediência civil: desafio a leis injustas sem agredir pessoas. Como gesto extremo, querem acordar consciências anestesiadas que são cúmplices de sistemas opressivos. A não violência de Gandhi e Luther King não diz respeito às coisas, mas, sim, às pessoas humanas” (FSP, 24/3/2006, p. A3).
O boicote do sal e do tecido inglês na Índia, o dos ônibus segregacionistas no Sul dos Estados Unidos e tantos outros movimentos de desobediência civil em todo o mundo causaram grandes prejuízos materiais aos capitalistas, mas trouxeram conquistas para a humanidade. Vivemos dias muito sombrios, para não dizer dramáticos. Ficou natural encarcerar pessoas em massa que, tratadas como gado, sucumbiram ante o brilho do ouro dos tolos: as mercadorias produzidas pelo capital à custa da dignidade e da liberdade de tantas pessoas e da vida do nosso Planeta. Tornou-se natural violentar pessoas apenas porque lutam por moradia, transporte decente, contra a homofobia ou por um pedaço de terra para cultivar e morar. Vivemos dias tenebrosos por sentir na própria pele as consequências de condutas tão contrárias à ética nos espaços públicos e privados.
Referências.
CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o estado: pesquisa de antropologia política. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.
MARÉS, Carlos Frederico. A função social da terra. Porto Alegre: Sérgio Antonio Fabris Editor, 2003.
MARTINS, José de Souza. O poder do atraso: ensaios de Sociologia da História Lenta. 2ª edição. São Paulo: HUCITEC, 1999.
______. Caminhada no chão da noite: emancipação política e libertação nos movimentos sociais do campo. São Paulo: HUCITEC, 1989.
MATOS, Helaine Saraiva; CUNHA, Gabriela Bento; GOMES DE ALENCAR, Francisco Amaro. Panorama dos conflitos e da violência no espaço agrário brasileiro de 1985-2014. In: Conflitos no Campo Brasil 2014. Goiânia: CPT Nacional, p. 68-73, 2014.
MÉSZÁROS, István. O desafio e o fardo do tempo histórico: o socialismo do século XXI. São Paulo: Boitempo, 2007.
1 Padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutor em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, CEBs, SAB e Ocupações Urbanas; professor de “Direitos Humanos e Movimentos Populares” em curso de pós-graduação do IDH, em Belo Horizonte, MG. e-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.freigilvander.blogspot.com.br –  www.gilvander.org.br  – www.twitter.com/gilvanderluis  – Facebook: Gilvander Moreira III
2 Estimativa fruto de pesquisa demográfica parcial apresentada no livro CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o estado: pesquisa de antropologia política. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.
Vídeo que ilustra o texto, acima:
Palavra Ética, na TVC/BH: frei Gilvander – Acampamento Dom Luciano/MST, Salto da Divisa/MG. 22/09/2014
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/11/2017

PAQUISTÃO : POPULAÇÃO 1950 - 2100

Estimativa da população do Paquistão e cenários de projeção: 1950-2100

Pakistan: Total population
[EcoDebate] O Paquistão fazia parte da Índia até 1947. Ambos foram completamente dominados pela Inglaterra entre 1858 e 1947. A ideia da criação de um Estado que unificasse politicamente todos os muçulmanos da região foi lançada por Mohammad Iqbal, presidente da Liga Muçulmana, que a partir de 1934 passou a ser dirigida por Mohammed Ali Jinnah (1876-1948), considerado o criador do país. O Paquistão comemora a data de sua independência no dia 14 de agosto, um dia antes da Índia.
O nome Paquistão surgiu em 1933 e a independência ocorreu com a descolonização da Índia. O Paquistão foi criado com base nas províncias de maioria muçulmana. O Paquistão Ocidental e a Bengala Oriental, que fez a sua independência do Paquistão em 1971, passando a se chamar Bangladesh.
O Paquistão tinha uma população de 37,5 milhões de habitantes em 1950 e passou para 197 milhões de pessoas em 2017, segundo dados da Divisão de População da ONU. O Paquistão é o sexto país mais populoso do mundo e deve passar para o quinto lugar ainda na atual década, ultrapassando o Brasil. Na projeção média da ONU, a população do Paquistão vai atingir 352 bilhões de habitantes em 2100.
Mas como o futuro é incerto, ONU trabalha com outras duas projeções. Na projeção alta o Paquistão atingiria 528 milhões de habitantes em 2100 e na projeção baixa atingiria 223 bilhões de habitantes no final do século XXI.
As diferentes projeções se devem fundamentalmente às diferentes hipóteses sobre o comportamento das taxas de fecundidade. O gráfico abaixo mostra que a taxa de fecundidade total (TFT) no Paquistão era muito alta (quase 7 filhos por mulher) e só ficou abaixo de 5 filhos nos anos 2000, quando a transição para baixos níveis começou a ocorrer. No quinquênio 2015-20 a TFT paquistanesa está em 3,4 filhos por mulher. Na projeção média, a TFT do Paquistão só deve ficar abaixo do nível de reposição a partir de 2060, devendo ficar em torno de 1,85 filho por mulher nas últimas décadas do atual século. Se a TFT ficar meio filho (0,5) acima da média a população irá para 558 milhões de habitantes em 2100 e se ficar meio filho abaixo da média, a população será de 223 milhões de habitantes em 2100. Ou seja, pequenas variações na taxa de fecundidade podem significar uma diferença de mais de 300 milhões de habitantes até o final do século (muito mais do que um Brasil).
Pakistan
Os gráficos abaixo mostram a distribuição por sexo e idade da população paquistanesa para alguns anos selecionados. Nota-se as pirâmides de 1950 e 2017 tinham uma estrutura jovem, com cada novo grupo etário com volume maior do que o precedente. Isto ocorre devido às altas taxas de fecundidade do século passado. Somente na pirâmide de 2050 haverá o início da redução do grupo mais jovem.
Na pirâmide de 2100 (de acordo com a projeção média) a distribuição etária vai mudar, refletindo o contínuo processo de envelhecimento populacional. Ou seja, a transição demográfica do Paquistão vai se desenvolver no século XXI e o país terá uma quantidade de jovens muito grande nas próximas décadas.
Para aproveitar esta janela de oportunidade e garantir a melhoria da qualidade de vida da população, o país deveria investir pesadamente em educação, saúde e, principalmente, na geração de emprego para se atingir a plena ocupação e o trabalho decente. Porém, o desempenho econômico e social do Paquistão é sofrível e o país ainda enfrenta muitas disputas com a Índia. Os altos gastos militares reduzem o orçamento para os investimentos sociais. As disputas religiosas e de facções políticas também atrasam os avanços no bem-estar.
população do Paquistão
No mês de agosto de 2017 foram divulgados os dados do censo demográfico do Paquistão. A população total do Paquistão atingiu 207,7 milhões de habitantes (maior do que a previsão da ONU). Em 1998, a população total do Paquistão era de 130 milhões. Nos últimos 19 anos, a taxa média anual de crescimento da população foi de 2,4%. Sucessivos Governos repetiram que a taxa de crescimento da população caiu para 1,8% aa, e isso foi visto como um grande sucesso. Mas os resultados do censo mostraram que o ritmo de crescimento demográfico continua elevado.
Segundo o jornal The Print, “Estudos demonstraram que há uma alta demanda por serviços de planejamento familiar, mas muitas vezes eles não alcançam as pessoas. Os clérigos também estão divididos sobre a questão do planejamento familiar e alguns argumentam que é contra os ensinamentos do Islã. Isso é problemático porque os países de maioria muçulmana, como o Irã e Bangladesh, promoveram campanhas de planejamento familiar, muitas vezes com a ajuda de clérigos. Mas os objetivos do Paquistão para reduzir a taxa de natalidade não foram alcançados apesar dos compromissos políticos”.
Para agravar a situação, o Paquistão que é um dos países mais pobres da Ásia tem sérios problemas na área ambiental. O país já sofre com a desertificação e a crise hídrica, enquanto o déficit ambiental cresce de forma alarmante. Dados da Footprint Network, mostram que a biocapacidade total do Paquistão era de 21,4 milhões de hectares globais (gha) em 1961 e a pegada ecológica total era de 23,5 milhões de gha na mesma data. O déficit ambiental era bastante pequeno. Mas em 2013 a biocapacidade total passou para 63,2 milhões de gha e a pegada ecológica para 132 milhões de gha. Portanto, o Paquistão, mesmo sendo um país pobre e de baixo nível de consumo, tem um déficit ambiental de mais de 100%.
Além da falta de recursos e da desigualdade social, um fator que pode comprometer o futuro da população são as consequências do aquecimento global. O Paquistão depende das águas provenientes das geleiras do Himalaia, que são responsáveis por 75% a 80% dos recursos hídricos do país. O derretimento das geleiras é a fonte principal da rede de irrigação no Paquistão, que alimenta 90% das terras agrícolas. Uma alteração no fluxo da água terá graves consequências para a produção agrícola paquistanesa. Além disto, a China tem construído represas e diminuído a disponibilidade de água para o Paquistão e a Índia.
Pegada ecológica e biocapacidade, Paquistão, 1961-2013
O desenvolvimento sustentável do Paquistão não será alcançado facilmente, pois haverá dificuldade para alimentar e melhorar o padrão de vida da população que tinha um Índice de Desenvolvimento Humano de 0,55 em 2015 (147º lugar no ranking), menor do que o IDH da Índia, de 0,624 (131º lugar no ranking).
Tudo isto dificulta a saída da armadilha da pobreza. Os conflitos internos e a violência são outros elementos que dificultam a melhoria das condições de vida da população. Somente com o esforço interno e a cooperação internacional as condições atuais do país poderão ser revertidas.
Referência:
ALVES, JED. Estimativa da população da Índia e cenários de projeção: 1950-2100, Ecodebate, 11/08/2017
https://www.ecodebate.com.br/2017/08/11/estimativa-da-populacao-da-india-e-cenarios-de-projecao-1950-2100-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
Raza A. Rumi. Pakistan’s new census: What has changed in 20 years, The Print, 28/08/2017
https://theprint.in/2017/08/28/pakistans-new-census-changed-20-years/
Pakistan birth rate a ‘disaster in the making’ as population surges, AzVision, 11/092017
http://en.azvision.az/news/71662/pakistan-birth-rate-a-disaster-in-the-making-as-population-surges.html
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/11/2017

MICROCLIMAS URBANOS E ARBORIZAÇÃO

Microclimas urbanos e arborização


Bairro Jardim das Paineiras, Campinas, destaca-se com maior quantidade de cobertura arbórea e temperatura ambiente mais baixa (crédito: Lea Yamaguchi Dobbert)
[EcoDebate] A sociedade humana se destaca pela capacidade que possui de unir esforços e agregar-se social e economicamente ao redor de interesses. Em pouco tempo o homem consegue urbanizar grandes áreas.
No entanto, também podemos citar casos que a sociedade parece estar inerte a respeito de temas que se enfrentados de frente poderia melhorar a qualidade de vida das populações.
O processo do êxodo rural que o Brasil viveu nas últimas décadas levou ao surgimento de áreas urbanas sem qualquer planejamento. Deve ficar claro, que não se trata somente da saída de milhões de pessoas do campo para as cidades, mas da chegada a áreas periféricas para residir sem a infraestrutura adequada.
Como bem demonstram muitos exemplos, as cidades com o passar dos anos e por pressão eleitoral, parte desses espaços periféricos receberam água encanada, guias de sarjetas, asfalto, calçadas, galerias de águas fluviais, iluminação pública e até mesmo em muitas cidades a rede de esgoto.
Agora, o que se observa hoje é que a arborização vem sendo deixada de lado. Existe uma selva de pedras nas cidades e se sente a aridez pela falta do verde. Inserir árvores nas cidades de forma planejada e adequada vem sendo um dos grandes desafios urbanos.
No entanto, a maioria da população parece não estar ciente da necessidade de recomposição de ambientes mais verdes nas cidades cinzentas, e esta ação traria uma melhor qualidade de vida para todos os seus habitantes.
A arborização traz benefícios, como purificação do ar pela fixação de poeiras e gases tóxicos, e pela reciclagem de gases através dos mecanismos fotossintéticos e a melhoria do microclima da cidade, através da retenção da umidade do solo e do ar e pela geração de sombra, evitando que os raios solares incidam diretamente sobre as pessoas.
Ocorre a redução na velocidade do vento, que funciona como uma barreira em caso de tempestades, e a influência no balanço hídrico, favorecendo infiltração da água no solo e provocando evapotranspiração mais lenta.
Propicia também abrigo à fauna, influenciando positivamente para um maior equilíbrio das cadeias alimentares e diminuição de pragas e agentes vetores de doenças e até mesmo amortecimento de ruídos. Outro grande benefício é o aumento da umidade do ar.
Uma árvore isolada pode transpirar em média 400 litros de água por dia, produzindo um efeito refrescante no clima.
É preciso ser ambiciosos na busca do “esverdear” as áreas urbanas. E começar arborizando a frente das casas ou quintais com árvores frutíferas. Nada melhor do que se deliciar com uma fruta recém colhida.
É preciso refletir sobre o assunto e plantar, já que só assim se irá colher sombra, frescor, verde, vida, flores e frutos. As diferenças de temperatura entre áreas arborizadas e com lâminas de água, com regiões convencionais, nas cidades e áreas urbanas, podem ultrapassar a 10 graus de temperatura.
Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.
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in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/11/2017

COP 23: EM CONFERÊNCIA SOBRE CLIMA, FAO ALERTA PARA POBREZA E MÁ NUTRIÇÃO

COP 23: Em Conferência sobre Clima, FAO alerta para pobreza e má nutrição

Seca. Foto: UN Multimedia
Diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, José Graziano da Silva, afirmou que emissões geradas pelo setor agrícola devem subir a não ser que mundo adote formas sustentáveis de produção, transporte e consumo de alimentos.
Monica Grayley, da ONU News em Nova Iorque.
A mudança climática coloca milhões de pessoas num círculo vicioso de insegurança alimentar, má nutrição e pobreza. O alerta foi feito pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO.
O diretor-geral da agência, José Graziano da Silva, afirmou que o mundo não está fazendo o suficiente para enfrentar o que ele chama de uma “imensa ameaça”. E os países que correm maior risco são os menos desenvolvidos e as pequenas ilhas em desenvolvimento.
Soluções
Graziano da Silva afirmou que a meta de atingir fome zero até 2030 ainda é possível. Para ele, a agricultura é onde as lutas contra a fome e a mudança climática juntam-se para gerar soluções.
A agência lançou um relatório durante a Conferência sobre Mudança Climática, que ocorre em Bonn, na Alemanha.
O documento “Rastreando Adaptação em Setores Agrícolas”, numa tradução livre, oferece metodologias para acompanhar as medidas de adaptação do clima na agricultura.
Antes do evento, a líder da Aliança para o Futuro do Oceano, Isabel Torres de Noronha, falou à ONU News sobre como o aquecimento global tem afetado os mares e também infraestruturas relacionadas a fontes de alimentação.
Fenômenos
“O mar, de facto, é o recipiente de 93% do aquecimento global. Apenas 1% na atmosfera e 3% em terra. Isso tem estado a acontecer em vários casos. Na zona costeira, outros impactos relacionados com a destruição devido aos fenômenos climáticos, extremos, têm a ver com a destruição de infraestrutura. Mas há muitos mais exemplos. E por exemplo, os portos também podem ser afetados por estas mesmas tempestades.”
Para o diretor-geral da FAO, é preciso integrar a mitigação e adaptação em toda a cadeia alimentar. Segundo Graziano da Silva, não funciona apenas transformar a maneira como é produzida a comida. Mas transporte, processamento e consumo também devem ser examinados.
Secas
A receita da agência é clara: mudança climática, pobreza e fome podem ser combatidos e vencidos ao mesmo tempo.
Dados divulgados pela FAO em setembro revelaram que o número de pessoas como fome no mundo subiu, pela primeira vez, em uma década totalizando 815 milhões de pessoas.
O aumento deve-se, principalmente, a conflitos e crises econômicas, mas também à mudança climática e uma série de secas prolongadas na África.
O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática mostra que o problema pode aumentar o risco de fome e má nutrição em 20% até 2050.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/11/2017