terça-feira, 6 de dezembro de 2016

ALEPO NA SÍRIA E OS TRÊS VETOS DE CESSAR-FOGO DE SETE DIAS

Rússia e China vetam resolução do Conselho de Segurança sobre trégua em Alepo, na Síria

Em reunião na segunda-feira (5) sobre a conjuntura na Síria, países que integram o Conselho de Segurança da ONU não chegaram a um acordo quanto a um novo cessar-fogo em Alepo. Resolução que previa trégua de sete dias para a entrada de ajuda humanitária na cidade foi vetada pela Rússia e pela China — dois dos membros permanentes do organismo decisório — e rejeitada também pela Venezuela.
Crianças em Alepo, na Síria. Foto: OCHA / Josephine Guerrero
Crianças em Alepo, na Síria. Foto: OCHA / Josephine Guerrero
Em reunião na segunda-feira (5) sobre a conjuntura na Síria, países que integram o Conselho de Segurança da ONU não chegaram a um acordo quanto a um novo cessar-fogo em Alepo. Resolução que previa trégua de sete dias para a entrada de ajuda humanitária na cidade foi vetada pela Rússia e pela China — dois dos membros permanentes do organismo decisório — e rejeitada também pela Venezuela.
Proposto por Espanha, Nova Zelândia e Egito, o texto recebeu 11 votos a favor e três negativas. Angola se absteve da deliberação. Qualquer voto contrário vindo de um dos cinco membros permanentes do Conselho — Estados Unidos, França, Rússia, China e Reino Unido — tem o poder de rejeitar completamente uma resolução proposta junto ao órgão das Nações Unidas.
A decisão discutida no início da semana determinava que todas as partes do conflito sírio cessassem, 24 horas após a adoção da resolução, todo e qualquer ataque na cidade de Alepo, realizado com qualquer tipo de armamento, incluindo foguetes, morteiros, mísseis anti-tanque guiados, bem como bombardeios e ataques aéreos.
O objetivo era permitir que necessidades humanitárias urgentes fossem atendidas ao longo dos sete dias de cessar-fogo. O texto pendente de aprovação também estipulava que o Conselho “teria a intenção de considerar prorrogações para períodos (de trégua) de sete dias recorrentemente”.
A proposta continha ainda uma exigência de que todas as partes da guerra permitissem e facilitassem o acesso imediato, seguro, livre e duradouro das Nações Unidas e seus parceiros a todas as regiões de Alepo.
O resultado negativo das negociações no âmbito do Conselho vem logo após outro fracasso do organismo em implementar medidas para pôr um fim ao derramamento de sangue na porção leste de Alepo, a parte da cidade sob cerco. No início de outubro, uma resolução proposta conjuntamente por França e Espanha e outra pela Rússia não passaram.
Em relatório sobre a situação da cidade síria apresentado na segunda-feira (5), o Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) alertava que cerca de 31,5 mil pessoas estavam internamente deslocadas dentro do perímetro urbano por conta das hostilidades.
No mesmo dia, informou a agência, três organizações não governamentais que atuam em Alepo suspenderam seus serviços de saúde e alimentação. A decisão foi tomada após o assassinato de um agente humanitário e um ataque a um armazém das entidades.
O OCHA também chamou atenção para o deslocamento de 10 mil sírios que haviam encontrado abrigo em uma antiga fábrica de algodão no oeste da cidade. Devido às condições precárias do local, o contingente acabou abandonando o lugar para buscar residências em outras regiões.
Fonte : ONUBRASIL

AMAZÔNIA : DESMATAMENTO DISPARA.

Desmatamento dispara na Amazônia

Foto: André Villas Bôas/ISA
Por Claudio Angelo, do OC –           

Em 2016, 7.989 km2 de floresta viraram cinza na Amazônia, causando emissão de carbono equivalente a dois Portugais; governo reage aumentando transparência de cadastro rural.
O desmatamento na Amazônia subiu pelo segundo ano consecutivo em 2016. E que subida: a taxa de devastação foi de 7.989 quilômetros quadrados, 29% superior à de 2015 – que, por sua vez, já havia sido 24% maior que no ano anterior.
É o maior aumento na velocidade do desmatamento desde 2008, ano em que um pico de devastação fez o governo endurecer a vigilância e cortar crédito de fazendeiros nos municípios mais críticos. É também o maior aumento percentual desde 2001, empatado com 2013. A área perdida equivale a 5,3 vezes a cidade de São Paulo. No acumulado, somente nesta década a Amazônia perdeu o equivalente a meio Panamá.
A estimativa anual do Prodes, o sistema de monitoramento por satélite que calcula a taxa oficial, foi postada no site do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) no fim da tarde de terça-feira (29). Diferentemente dos anos anteriores, não houve anúncio formal em entrevista coletiva. Pela manhã, o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho (PV-MA) chegou a anunciar que divulgaria o número, mas recuou na sequência, limitando-se depois a dizer a jornalistas que aguardassem a publicação das informações pelo Inpe.
Segundo o OC apurou, o número estava na mesa do ministro Gilberto Kassab (Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações) desde pelo menos a conferência do clima de Marrakesh. Embora o aumento viesse sendo antecipado há meses pelos técnicos do governo, a estimativa final da taxa levantou sobrancelhas em Brasília – as apostas giravam em torno de 7.000 km2, e o dado final chegou a quase 8.000 km2.
O Pará respondeu sozinho por quase 40% da área de floresta perdida no bioma Amazônia entre agosto de 2015 e julho de 2016 (o “ano fiscal” do desmatamento é medido nos 12 meses de agosto a julho seguinte): foram 3.015 quilômetros quadrados, ou duas cidades de São Paulo. Mato Grosso ficou em segundo, como de praxe, com 1.508 quilômetros quadrados – uma queda de 6% em relação ao ano anterior. O maior salto na devastação ocorreu no Estado do Amazonas: 54% de aumento, deixando o Estado em quarto lugar entre os campeões da motosserra em 2016.

Série histórica dos dados de desmatamento, com os últimos dois anos de subida
 O novo pico no corte raso na Amazônia terá implicações diretas sobre as metas brasileiras contra as mudanças climáticas. Segundo Tasso Azevedo, coordenador do SEEG (Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima), o desmatamento deste ano acrescenta 130 milhões de toneladas de gás carbônico equivalente às emissões do Brasil. “É o mesmo que o Estado de São Paulo, o mais populoso do país, emitiu em todo o ano de 2015, ou duas vezes a emissão anual de Portugal”, compara Azevedo.
Em 2009, o Brasil lançou o compromisso internacional de reduzir o desmatamento na Amazônia em 80% até 2020. As duas altas consecutivas desviam o país da trajetória. “O número deste ano é duas vezes maior que a meta assumida para 2020, que é de 3.925 quilômetros quadrados”, prossegue o coordenador do SEEG.
“O número é a colheita do que se plantou nas políticas nos últimos anos: anistia a desmatadores no Código Florestal, abandono da criação de áreas protegidas e demarcação de terras indígenas e o passa-vergonha da meta para florestas do Brasil na ONU”, disse Marcio Astrini, coordenador de Políticas Públicas do Greenpeace. A meta à qual ele se refere é a NDC, de 2015, que prevê eliminar apenas o desmatamento ilegal – e apenas até 2030.
Segundo Sarney Filho, “uma série de elementos” colaborou para a elevação: “Tivemos problemas de gestão, uma transição de governo e a repercussão de três anos de mudança no Código Florestal”, afirmou. É a primeira vez que um ministro reputa ao código, enfraquecido por pressão da bancada ruralista durante o governo Dilma, a elevação na velocidade de destruição da maior floresta tropical do mundo.
Para tentar conter a sangria, o Ministério do Meio Ambiente anunciou nesta terça-feira uma medida que deve aumentar ainda mais a fúria dos ruralistas contra Sarney: a interface pública do CAR (Cadastro Ambiental Rural), instrumento criado justamente pelo Código Florestal para permitir o monitoramento das áreas de vegetação nativa em propriedades particulares (leia mais aqui).
O cadastro é pré-requisito para a anistia de multas para quem desmatou de forma irregular antes de 2008. Também só com ele é possível aderir aos PRA (programas de regularização ambiental), por meio dos quais a multa é convertida em recuperação das áreas devastadas ilegalmente.
Pela plataforma do CAR anunciada nesta terça, qualquer cidadão com acesso à internet em casa poderá saber como o desmatamento evolui em mais de 3 milhões de propriedades rurais do país inteiro. No caso do Pará, hoje já é possível saber até mesmo o CPF do proprietário. “Além de um instrumento de desenvolvimento, o CAR é um instrumento de monitoramento. Vai servir muito bem para o controle social do desmatamento”, disse o ministro. (Observatório do Clima/ #Envolverde)
* Publicado originalmente no site Observatório do Clima.

BELO MONTE : DEPOIS DA INUNDAÇÃO.

Belo Monte: depois da Inundação

Por Redação do Greenpeace Brasil –
Lançamento de documentário sobre uma das obras mais controversas do mundo conta com a presença de diversos povos indígenas ameaçados pela construção de hidrelétricas.

“Se Maomé não vai até a montanha, a montanha vai até Maomé. Então nós vamos levar Belo Monte para o conhecimento de todos”. Esse é Todd Southgate, diretor do documentário Belo Monte: Depois da Inundação, lançado ontem (5) em Brasília na presença de seus protagonistas: os povos indígenas do Rio Xingu, barrado pela infâme construção. Também participaram outros povos ameaçados pela produção de energia, que habitam os rios Madeira, Tapajós, Teles Pires e Juruena.
Antes do início do filme, que explora a história e consequência de uma das obras mais violentas e controversas do mundo, foi apresentado um estudo de impactos econômicos caso a Usina Hidrelétrica de São Luiz do Tapajós, no Rio Tapajós, fosse construída. No total, R$1,9 bilhão seriam perdidos em impactos não avaliados pelos estudos do governo, como perda de renda de subsistência, piora da qualidade d’água e aumento de gases de efeito estufa com a criação do reservatório.
Com a exibição do documentário, foi provado que nenhuma dessas perdas é novidade para aqueles que moram da região da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Muitos vieram às lágrimas vendo a triste realidade que se instalou ao redor de todo o Rio Xingu. “Eu não tinha noção da amplitude dessa tragédia. Todo brasileiro tem que saber disso”, disse, emocionada, a atriz e comediante Maria Paula Fidalgo. Saiba mais sobre o filme aqui, que será disponibilizado online em breve.
Seguiu-se então um debate com a presença de Antônia Melo e Raimunda Silva, do Movimento Xingu Vivo Para Sempre, cacique Gillard Juruna, do Xingu, cacique Juarez Munduruku, do Tapajós, Sônia Guajajara, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, Adriana Ramos, do Instituto Socioambiental, Felício Pontes, procurador da República, Todd Southgate e Philip Fearnside, cientista.
“Esse é um projeto sem fins lucrativos, feito para não deixar Belo Monte cair no esquecimento. Não é entretenimento, é uma ferramenta de resistência para todos os impactados pela obra e também para quem vai ser impactado por outro projeto semelhante”, defendeu Southgate.

Convidados e organizadores posam para foto após a exibição de estreia do documentário. Foto: © Alan Azevedo / Greenpeace
Convidados e organizadores posam para foto após a exibição de estreia do documentário. Foto: © Alan Azevedo / Greenpeace

Para Antônia Melo, Belo Monte é um crime, que além de tudo agora está atraindo a mineração para o local. “É muita falta de informação. E o filme ajuda com isso. Não há dinheiro que domine um povo consciente”.
Segundo Sônia Guajajara, a resistência contra Belo Monte não é apenas regional, mas nacional e também mundial. “Precisamos fortalecer ainda mais essa aliança que foi criada entre índios, ribeirinhos, organizações, advogados e cientistas”, disse ela.
Por sua vez, o cacique Gillard Juruna contou como perdeu seu irmão pescador recentemente por conta de equipamentos de péssima qualidade da Norte Energia e o cacique Juarez Munduruku chamou atenção para as recentes investidas do poder público: “o governo está vindo com tudo. [A usina de] Tapajós foi suspensa, mas pode voltar a qualquer momento. Eles não sabem que os Munduruku não têm divisão com a floresta, os animais ou o rio. Nós somos o Tapajós”.
O procurador da República, Felício Pontes, ressaltou: “Belo Monte tem que servir de exemplo do que não pode mais acontecer”.
Com produção da International Rivers, Amazon Watch e Todd Southgate, e narração de Marcos Palmeira, o documentário foi premiado como melhor filme no júri popular do Festival Cine Amazônia.
Seguindo a programação, hoje (6) um seminário sobre Hidrelétricas na Amazônia, Conflitos Socioambientais e Caminhos Alternativos está tendo lugar na Câmara dos Deputados, em Brasília. O evento, composto por três mesas de debate com diversos especialistas no tema, pode ser acompanhado por transmissão ao vivo. (Greenpeace Brasil/ #Envolverde)
* Publicado originalmente no site Greenpeace Brasil.

SECA EXTREMA AVANÇA NO NORDESTE.

Por Miguel Martins —
Nem sempre uma fogueira de São João serve de metáfora aos castigos da seca sobre a terra ardente, como cantava Luiz Gonzaga em Asa Branca. Em Sousa, município do Sertão da Paraíba, a tradicional festa popular serviu em 2015 de alento para quem espera a volta de chuvas abundantes na região.
Após cinco anos de estiagem no Nordeste, o município lançou o programa São João das Águas. Em lugar de contratar atrações musicais com cachês astronômicos, a prefeitura preferiu convocar trios de forró com músicos locais a preços modestos. A economia serviu para bancar a perfuração de 130 poços para captação de água, inaugurados sob o ritmo do triângulo e da zambumba.

Com os açudes em colapso, o Semiárido sofre com a estiagem prolongada. Foto: Manuel Porto/ Divulgação

O programa foi capaz de suprir as necessidades da população, enquanto o açude São Gonçalo, principal fonte de abastecimento de água da cidade, encontrava-se praticamente seco. O nível do reservatório voltou a subir neste ano e chegou a perto de um terço de sua capacidade.
Ao se considerar o volume dos reservatórios próximos, muitos deles em situação de aridez completa, a realidade dos moradores de Sousa é relativamente confortável, ao menos por enquanto.
Um dos idealizadores do São João das Águas, Fernando Perisse, ex-diretor do Departamento de Água, Esgoto e Saneamento Ambiental de Sousa, afirma que a carência de água em cidades próximas deve incentivar migrações para regiões que ainda possuem recursos hídricos. “O problema é o efeito dominó: com os açudes da Paraíba em colapso, a rede de poços que criamos passa a interessar a outros moradores da região.”
Prestes a entrar em seu sexto ano consecutivo de estiagem, o Nordeste convive com a seca mais prolongada dos últimos cem anos. Segundo a atualização de outubro do Monitor de Secas, da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos, todos os estados nordestinos sofrem atualmente com a chamada seca excepcional, classificação utilizada quando a estiagem resulta em uma situação emergencial, que inclui perdas de cultura e escassez de água em reservatórios, córregos e poços. Em Pernambuco, o estado mais afetado, 90% do território apresenta o quadro mais grave de seca.
Diversos açudes na região estão em situação crítica. Dos 107 açudes pernambucanos, 67 estão em estado de colapso: operam a menos de 10% de sua capacidade. Na Paraíba, o panorama é semelhante. Dos 126 reservatórios estaduais, apenas 30 têm capacidade armazenada superior a 20% de seu volume total. Atualmente, 67 açudes operam com menos de 5% de suas capacidades.
O impacto da estiagem sobre a produção agropecuária no Nordeste impressiona. Um levantamento recente da Confederação Nacional dos Municípios aponta que, entre 2013 e 2015, a estiagem causou um prejuízo de 103,5 bilhões de reais na região.

O prejuízo equivale à soma do Produto Interno Bruto dos estados de Alagoas, Piauí e Sergipe. Setor mais atingido, a agricultura teve prejuízos de 74,5 bilhões de reais. Na pecuária, foram perdidos 20,4 bilhões com a morte e queda no valor dos animais.
Mesmo estados que historicamente não costumam apresentar estiagens graves têm sofrido com a falta de chuvas. No Maranhão, 60% do território encontrava-se, em agosto, em situação de seca extrema. Segundo um relatório do Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos, em agosto de 2014 e 2015 não foi registrada no estado uma situação de estiagem que merecesse a classificação emergencial.
O baixo índice de chuvas entre outubro de 2015 e a primeira metade deste ano impactou fortemente a produção na região sul do Maranhão: apenas 50% dos 700 hectares previstos para a safra de soja foram plantados e as perdas no setor da pecuária foram estimadas em 50 milhões de reais.
Marcio Honaiser, secretário de Agricultura, Pecuária e Pesca do Maranhão, afirma que o retorno recente das chuvas na região sul do estado, onde se encontram as principais atividades rurais, deu novo fôlego para os produtores. “Buscamos o governo federal para garantir o adiamento das dívidas agrícolas e pecuárias, mas ainda falta um gesto mais concreto do Planalto para auxiliar a região.”
Embora o Ministério da Integração Nacional tenha disponibilizado recentemente 30 bilhões de reais para mitigar os efeitos da seca, a transposição do Rio São Francisco, principal obra federal para abastecer o Nordeste, ainda não foi concluída.
A Agência Nacional de Águas prorrogou até março de 2018 o início da operação do projeto. Uma das principais bandeiras dos governos de Lula e Dilma Rousseff, o empreendimento pode assegurar o abastecimento de água para 12 milhões de moradores dos estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte, justamente aqueles mais afetados pela estiagem dos últimos anos.
A demora na transposição da água nos quatro estados tem relação com a Lava Jato. Envolvida nas investigações, a construtora Mendes Júnior informou ao Ministério da Integração Nacional não ter condições de dar prosseguimento às obras e abriu mão dos contratos de captação de água em Cabrobó, em Pernambuco, e Jati, no Ceará. Os trechos paralisados do empreendimento serão relicitados.
Segundo Perisse, a transposição pouco influenciaria atualmente na situação de desabastecimento. Principal fonte prevista de captação do São Francisco para suprir as necessidades de pernambucanos e paraibanos, o reservatório de Sobradinho, na Bahia, tem capacidade armazenada inferior a 5,5%. “Se as obras estivessem prontas, ainda assim a água não chegaria no Semiárido.”
Preocupado com o colapso em andamento, Perisse alerta para o descaso em relação aos moradores da região. “Vivemos essa situação em um momento no qual uma direita extremamente antinordestina ganha força no Brasil. Da forma como está, o Semiárido vai virar um deserto.” (Carta Capital/ #Envolverde)
* Publicado originalmente no site Carta Capital.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

DESIGUALDADE DE GÊNERO : MULHERES TRABALHAM MAIS E GANHAM MENOS.

Desigualdade De Gênero: Mulheres Trabalham Cinco Horas A Mais E Ganham 76% Do Salário Dos Homens

O crescimento econômico do Brasil na última década não se refletiu em mais igualdade no mercado de trabalho. Com ou sem crise, as mulheres brasileiras continuam trabalhando mais – cinco horas a mais, em média – e recebendo menos.
Indústrias
Entre as mulheres, 70% estão fora do mercado de trabalho e dedicam-se aos afazeres domésticos e familiares . Foto: Arquivo / Agência Brasil
 
A renda das mulheres equivale a 76% da renda dos homens e elas continuam sem as mesmas oportunidades de assumir cargos de chefia ou direção. A dupla jornada também segue afastando muitas mulheres do mercado de trabalho, apesar de elas serem responsáveis pelo sustento de quatro em cada dez casas.
As constatações são da Síntese de Indicadores Sociais – Uma análise das condições de vida da população brasileira, divulgada na sexta-feira (2), no Rio de Janeiro, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A pesquisa estudou os indicadores entre os anos de 2005 e 2015.
As mulheres tendem a receber menos que os homens porque trabalham seis horas a menos por semana em sua ocupação remunerada. Porém, como dedicam duas vezes mais tempo que eles às atividades domésticas, trabalham, no total, cinco horas a mais que eles. Ao todo, a jornada das mulheres é de 55,1 horas por semana, contra 50,5 horas deles.
De acordo com a pesquisadora do IBGE Cristiane Soares, os homens continuam se esquivando de tarefas da casa, o que se reflete em mais horas na conta delas. “Na década, a jornada masculina com os afazeres domésticos permanece em 10 horas semanais”, destacou.
Mesmo trabalhando mais horas, as mulheres têm renda menor, de 76% da remuneração dos homens. Esse número era de 71% em 2005 e reflete o fato de mulheres ganharem menos no emprego e também por não serem escolhidas para cargos de chefia e direção. Dos homens com mais de 25 anos, 6,2% ocupavam essas posições, contra 4,7% das mulheres com a mesma idade. Porém, mesmo nesses cargos, fazendo a mesma coisa, o salário delas era 68% do deles.
Apesar deste cenário, a pesquisa mostra que cresce o número de mulheres chefes de família. Considerando todos os arranjos familiares, elas são a pessoa de referência de 40% das casas. Entre aqueles arranjos formados por casais com filhos, uma em cada quatro casas é sustentada por mulheres. O percentual de homens morando sozinho com filhos é mínimo.
Nem trabalham, nem estudam
Acompanhando a tendência mundial, as mulheres jovens entre 15 e 29 também estão em desvantagem em relação aos homens da mesma idade. No Brasil, boa parte delas interrompe os estudos e para de trabalhar para cuidar da casa. Entre o total de mulheres, 21,1% não trabalha nem estuda, contra 7,8% dos homens.
Em uma década, a situação dos jovens chamados de nem-nem mudou pouco. Em 2005, 20,2% das mulheres estavam nesta situação e 5,4% dos meninos. De acordo com a pesquisa, a hipótese mais provável é que essas meninas estejam cuidando de filhos ou da casa. Em média, 91,6% delas contaram que dedicam 26,3 horas semanais a afazeres domésticos. Já entre os meninos, 26,3% dos nem-nem que responderam cuidar da casa dedicam 10,3 horas semanais à atividade.
A especialista do IBGE no tema, Luana Botelho, destaca que a situação não se alterou na década, mesmo quando a situação econômica do país era mais favorável, em 2005.”Podemos olhar a série histórica que a situação não se altera com a economia. O fato de ter mais ou menos emprego não vai fazer essa mulher deixar de ser nem-nem”, disse. Para ela, são necessárias medidas específicas para permitir que as jovens diminuam a dedicação às tarefas domésticas e voltem a trabalhar.
No total, cerca de 70% das mulheres brasileiras estão fora do mercado de trabalho. A maioria tem 50 anos ou mais e não tem instrução ou só completou o ensino fundamental.
* Colaborou Tâmara Freire, repórter do Radiojornalismo da EBC

Por Isabela Vieira, da Agência Brasil, in EcoDebate, 05/12/2016

AUMENTO DA POBREZA E O CRESCIMENTO DA GERAÇÃO NEM-NEM-NEM.

PNAD 2015: Aumento Da Pobreza E Crescimento Da Geração Nem-Nem-Nem, Artigo De José Eustáquio Diniz Alves

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[EcoDebate] O sonho da erradicação da pobreza e da mobilidade social ascendente da geração de jovens do Brasil está indo por água abaixo. Toda a propaganda ufanista apresentada durante a campanha presidencial de 2014, agora mostra a sua verdadeira cara. Entre 2011 e 2014 a economia brasileira cresceu de forma anêmica, 2015 e 2016 foram anos de enorme recessão e, provavelmente, o período 2017 a 2020 marcará anos de estagnação e baixo crescimento. O Brasil ruma para a sua segunda década perdida, conforme escrevi, sem encantamento com o governo eleito, em artigo no Portal Ecodebate, dois anos atrás (Alves, 28/11/2014).
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2015 é a última da série (já está sendo substituída pela PNAD Contínua desde 2012), mas permite comparar o que aconteceu nos dez anos anteriores, como mostra a Síntese de indicadores sociais, do IBGE.
O percentual da população residente em domicílios com rendimento mensal per capita de até ¼ do salário-mínimo (pobreza extrema) vinha caindo na primeira década do século XX, mas voltou a subir na segunda década. Em 2011, havia 8,5% das pessoas na extrema pobreza. Este percentual caiu para 7,9% em 2014, mas voltou a subiu e passou para 9,2% em 2015, aproximadamente o mesmo nível de 2010. São os jovens de 0-4 anos e de 5 a 14 anos os que mais sofrem com a pobreza extrema, pois apresentam taxas duas vezes superior à da população total (18%). Os idosos estão menos representados na pobreza extrema, conforme mostra o gráfico acima. No conflito intergeracional, as crianças e jovens tem levado a pior. Tudo indica que a pobreza extrema vai continuar subindo em 2016 e 2017 devido à queda da renda que já é reportada pela PNAD Contínua.
Se o aumento da pobreza extrema, especialmente de crianças e jovens, já é um problema grave, o futuro do Brasil fica comprometido com o aumento da geração nem-nem-nem. O percentual de jovens de 15 a 29 anos que nem estudavam, nem trabalhavam e nem procuravam emprego (chamada “geração nem-nem-nem”) era 12,8% em 2005 e passou para 14,4% em 2015. Entre os homens os percentuais eram de 5,4% e 7,8%. Entre as mulheres o percentual era de 20,2% em 2005 e de 21,1% em 2015.
Considerando apenas a “geração nem-nem” (os jovens que não estudam, nem trabalham, mas procuram emprego) os percentuais aumentaram de 19,7% em 2005 para 22,5% em 2015. No caso das mulheres chega a 30%. O número de jovens de 15 a 29 anos que só trabalhavam caiu de 44% em 2005 para 40,9% em 2015. Estes números representam o desperdício de uma geração e comprometem as perspectivas de melhoras futuras no país.
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Esta é a realidade brasileira: uma crise geral no mercado de trabalho, um aumento da pobreza extrema e uma crescente juventude com elevados níveis educacionais, mas sem perspectiva de emprego, enquanto se aprofunda a estagflação e a utopia vira distopia. O pior é que o brasil está perdendo os últimos anos do seu bônus demográfico. Todo país desenvolvido e com alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) viveu e aproveitou o bônus demográfico. Não há exceção. A colheita dos benefícios da janela de oportunidade demográfica é condição essencial para alcançar altos níveis de renda e de bem-estar.
Mas o Brasil está polarizado na discussão sobre a PEC 241/55, com um lado dizendo que ela é a solução e o outro dizendo que é a danação. Porém, como escrevi em artigo recente (Alves, 01/12/2016): “Com PEC ou sem PEC, restam menos de 15 anos para o Brasil dar um salto no seu processo de desenvolvimento. Se essa crise econômica não for resolvida rapidamente e se o pleno emprego e o trabalho decente, aliado ao aumento da produtividade, não se tornar prioridade absoluta, o país vai ficar eternamente preso na chamada armadilha da renda média” e não haverá futuro de ordem e progresso, como sonhado pelos positivistas da Proclamação da República”.
Referência:
ALVES, JED. O fim do crescimento econômico e a década perdida 2.0, Ecodebate, 28/11/2014
ALVES, JED. PEC 241: danação ou salvação? Colabora, RJ, 01/12/2016
PNAD 2015. Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira, Coordenação de População e Indicadores Sociais. Rio de Janeiro: IBGE, 2016
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 05/12/2016

A TRAGÉDIA COM A CHAPECOENSE E A COMOÇÃO MUNDIAL.

A Tragédia Com A Chapecoense E A Comoção Mundial, Artigo De Montserrat Martins

[EcoDebate] O estádio cheio de torcedores do Atlético Nacional da Colômbia cantando em homenagem à Chapecoense foi de arrepiar. O Real Madrid com a camiseta “Somos Todos Chapecoense” também foi comovente. No país e no mundo, chocados com a perda das dezenas de vidas da delegação esportiva, assistimos a reações que foram muito além do imaginado.
No noticiário habitual estamos acostumados a notícias ruins sobre a humanidade: guerras, flagelos, injustiças, exploração de uns por outros, competições destrutivas, violência… Poucas vezes a bondade é notícia, a solidariedade, a generosidade, atos de empatia.
Pois o que se viu naquele estádio da Colômbia foi um gigantesco ato de “empatia coletiva” onde a torcida de um time fazia homenagem às vítimas do que viria a ser seu rival, cantando que a Chape era a campeã, louvando pessoas e as suas respectivas famílias de um outro time, de um outro país, com a mesma devoção como se estivessem homenageando a seus próprios jogadores e famílias.
Por todo o país e nas mais diversas praças de esportes do mundo foram feitas diversas homenagens expressando solidariedade e carinho com as vítimas. Num mundo cada vez mais cheio de conflitos e de intolerâncias – étnicas, religiosas, nacionais, ideológicas – esse episódio de empatia e solidariedade tem um significado imenso, de que ainda se pode falar em “humanidade” em um aspecto positivo, de valores morais elevados tais como a sensibilidade demonstrada, em tantos lugares do mundo, neste episódio.
Está na moda nas redes sociais criticar tudo e todos, falar mal da humanidade em contraste com falar bem dos outros animais, por exemplo. A empatia com a dor da Chapecoense não redime a humanidade, mas evidencia que também temos um lado amoroso, capaz de nos unir, mesmo que em situações excepcionais, já que no dia a dia estamos imersos em tantas óticas competitivas, em relação às demais pessoas.
Mas nem tudo são flores, há quem tenha feito uso perverso dessa tragédia. Foi o caso da Câmara dos Deputados, que aproveitou que todos os holofotes estavam na Chapecoense para aprovar um texto desfigurado do que seriam as “Medidas contra a corrupção”. A indignação foi tão grande que o Senado já rejeitou, no dia seguinte, um pedido de urgência de Renan Calheiros para aprovar o texto da Câmara.
Agindo na calada da noite, para fugir à pressão da opinião pública e deturpar as medidas contra a corrupção (de modo a inibir Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal), a Câmara provocou um “panelaço” na noite seguinte, em todo país. Os deputados, enfim, também “uniram o país”, mas na revolta contra eles.
Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é médico psiquiatra, bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais e ex-presidente do IGS – Instituto Gaúcho da Sustentabilidade

in EcoDebate, 05/12/2016