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Nova pesquisa mostra que a sombra das árvores e o verde das praças reduzem temperatura, poluição e ruído a centenas de metros de distância
Um estudo feito em Surrey, na Inglaterra, mediu em tempo real como um parque de 52 hectares protege não só quem entra nele, mas toda a vizinhança
Porque aquele parque do seu bairro vale muito mais do que você imagina
Semana retrasada, num daqueles dias sufocantes de uma onda de calor, em que o asfalto parece derreter, eu passei pela praça perto de casa e senti algo que, na hora, atribuí apenas ao cansaço e à saudade do frescor de infância: o ar ficou diferente. Mais leve. A temperatura parecia ter caído de repente, como se alguém tivesse aberto uma geladeira gigante no meio da cidade.
Não era impressão.
Uma pesquisa recente conduzida pelo Centro Global de Pesquisa sobre Ar Limpo (GCARE), da Universidade de Surrey, na Inglaterra, confirmou o que muita gente já sentia na pele e foi além, com dados precisos.
O parque que respirou por uma cidade inteira
Os pesquisadores escolheram o Stoke Park, o maior parque de Guildford, com 52 hectares de gramados, árvores e jardins. Usando equipamentos de monitoramento de alta frequência, eles mediram temperatura, poluição por partículas e ruído dentro e ao redor do parque, em condições reais de verão e não em laboratório, não em simulação computacional.
Os números são impressionantes.
Pela manhã, os níveis de partículas em suspensão no ar (o chamado PM10, aquela poeira fina que entra nos pulmões e causa todo tipo de problema respiratório) eram mais de 11% menores dentro do parque do que nas ruas urbanizadas ao redor. A temperatura matinal estava 6,5% mais baixa.
Mas o que me chamou mais atenção foi o que acontecia fora do parque.
O verde que atravessa as grades
A cada 100 metros percorridos a partir da borda do parque em direção às ruas e calçadas da cidade, a temperatura subia mais de meio grau. Esse efeito se estendia por até 300 metros além dos limites do parque.
Pensa comigo: você não precisa estar dentro do parque para sentir o benefício. Quem mora numa rua a dois ou três quarteirões de distância também está, de alguma forma, sendo amparado por aquele verde.
Isso muda completamente a forma como precisamos pensar sobre parques urbanos. Eles não são apenas espaços de lazer isolados, eventualmente cercados por grades e restritos a quem entra neles. São infraestrutura climática. São sistemas de proteção coletiva.
O silêncio que a natureza oferece
O estudo também mediu o ruído. E aqui tem outro dado revelador: dentro dos parques, os níveis de poluição sonora eram 5,41 decibéis mais baixos do que nas áreas urbanas próximas.
Cinco decibéis pode não parecer muito quando você lê assim, frio no papel. Mas na prática, essa diferença é suficiente para que a maioria das pessoas perceba uma mudança real no ambiente sonoro. É a diferença entre uma rua barulhenta e uma rua que você consegue ouvir a si mesmo pensar.
Nas grandes cidades brasileiras, onde o ruído do trânsito, das obras e dos comércios é praticamente constante, esse dado tem um peso enorme para a saúde mental e o bem-estar das pessoas.
A sombra das árvores como proteção do corpo
Os pesquisadores foram além da temperatura do ar e mediram algo chamado de Temperatura Fisiologicamente Equivalente, ou PET, basicamente, como o corpo humano sente o calor, levando em conta umidade, vento, radiação solar e outros fatores.
E aí o número demonstra que áreas sombreadas por árvores e gramados dentro do parque reduziram essa sensação térmica em até 8,5°C em comparação com as ruas próximas.
Oito graus e meio. No meio de uma onda de calor, essa diferença pode ser, literalmente, a diferença entre se sentir bem e precisar de atendimento médico.
O que isso tem a ver com você, comigo, com nossas cidades
Quando leio pesquisas como essa, fico pensando no Brasil, num país que tem uma biodiversidade incrível, mas que ao mesmo tempo assiste a suas cidades crescerem engolindo áreas verdes, substituindo árvores por concreto, cortando praças para ampliar avenidas.
Cada árvore derrubada numa calçada, cada praça cimentada, cada parque ameaçado por algum projeto imobiliário é, à luz dessa pesquisa, uma decisão que vai custar caro para muita gente, não apenas em dinheiro, mas em saúde, em conforto, em qualidade de vida.
E o contrário também é verdade. Cada parque preservado, cada novo bosque urbano criado, cada arborização de calçada planejada com cuidado é um investimento que protege um raio muito maior do que o espaço físico que ele ocupa.
A cidade que eu quero viver
Não sou urbanista, nem pesquisador de clima. Sou apenas um jornalista, alguém que gosta de caminhar pela cidade e que presta atenção no que sente quando passa por uma praça arborizada versus uma avenida de seis pistas.
Mas estudos como esse me dão argumentos concretos para defender o que eu já defendia, que parques não são luxo. Não são área sobrando no mapa urbano. São parte essencial da infraestrutura de uma cidade que quer ser habitável agora, e especialmente num futuro em que as ondas de calor vão ser cada vez mais frequentes e intensas.
Da próxima vez que você ouvir alguém dizer que “aquele terreno verde ali poderia virar um prédio”, lembre desse estudo. E lembre que o parque protege não só quem está dentro dele, mas todo o quarteirão ao redor.
Talvez até o seu.
Henrique Cortez, jornalista e ambientalista.
Referência:
Khalili, S., Jones, L., Sebastian Pfautsch, S., Kumar, P., 2026. Quantifying the benefits of parks for mitigating heat, air and noise pollution to inform climate-resilient planning. City and Environment Interactions, 31, 100407. Link: https://doi.org/10.1016/j.cacint.2026.100407
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
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