terça-feira, 13 de agosto de 2019

RECORDE DE DEGELO NOS POLOS EM JULHO DE 2019.

Recorde de degelo nos polos em julho de 2019, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


 [EcoDebate] O mês de julho de  2019 bateu todos os recordes de degelo nos polos, contribuindo para a elevação do nível dos oceanos e servindo de alerta para bilhões de pessoas que moram nas áreas litorâneas. Depois de cinco sucessivos anos (2014, 2015, 2016, 2017 e 2018) de recordes de temperaturas globais, o ano de 2019 caminha para ser o segundo mais quente já registrado. Os meses de junho e julho de 2019 foram os mais quentes da série histórica que começou em 1880.
Os gráficos abaixo mostram os registros e as tendências do degelo no Ártico e na Antártica nos últimos 40 anos, de 1979 a 2019. Nota-se que o degelo no Ártico é muito mais rápido e apresenta uma redução de 7,3% por década, sendo que no mês de julho de 2019 foram computados 7,6 milhões de km2, bem abaixo da média de 9,5 milhões de km2 no período 1981-2010. Na Antártica, o mês de julho apresentou 15,3 milhões de km2, abaixo da média de 16 milhões de km2 do período 1981-2010.

degelo no Ártico e na Antártica em julho: 1979-2019

O degelo na Groenlândia também é dramático, como mostra o gráfico abaixo do National Snow and Ice Data Center, dos EUA. Após um inverno relativamente seco e primavera quente, a Groenlândia apresentou um grande episódio de derretimento de superfície no mês de julho, especialmente no dia 31/07/2019, com uma área máxima de fusão em 984.000 quilômetros quadrados. O derretimento foi detectado em toda a costa, exceto na ponta mais distante ao sul da camada de gelo, e se estendeu para o interior das regiões oeste central e centro-leste, quase até o cume. As áreas costeiras do leste e nordeste também se fundiram extensivamente.
O derretimento da Groenlândia até o final da primavera foi significativamente maior do que a média de 1981 a 2010, com várias áreas excedendo 10 dias de derretimento adicional acima da média e algumas regiões com mais de 20 dias. Apenas a ponta mais ao sul da ilha e uma região ao longo do lado sudoeste da camada de gelo estão abaixo da média até o momento, segundo o National Snow and Ice Data Center. A taxa atual de fusão é equivalente ao que o modelo mais pessimista projetava para 2070 (Shankman, 01/08/2019).
A enorme cúpula de calor que quebrou recordes de temperatura em toda a Europa na semana passada se instalou na Groenlândia, elevando as temperaturas em toda a vasta ilha do Ártico para até 30 graus Fahrenheit acima do normal. Escrevendo na revista Rolling Stone em um artigo intitulado “A Groenlândia está derretendo diante de nossos olhos”, o meteorologista Eric Holthaus adverte que o gelo da Groenlândia deve derreter em seu ritmo mais rápido já registrado.

Greenland surface melt extent

Portanto, a tendência de perda de gelo é clara ao longo dos últimos 40 anos. As curvas do gráfico abaixo tem uma distribuição bimodal, pois o hemisfério Norte tem pico de gelo entre fevereiro e março, quando o hemisfério Sul está no vale (mínimo de gelo). O máximo do gelo global acontece entre outubro e novembro. Seguindo as curvas anuais (todas com este mesmo tipo bimodal de distribuição), nota-se que elas mostram uma tendência de queda em relação à média de 1981-2010, embora haja oscilações anuais de curto prazo, diferentes da tendência de longo prazo.

global sea ice extent

Todavia, chama a atenção que o padrão de queda na extensão de gelo, desde setembro de 2016, não tem paralelo nos últimos 40 anos, quando se começou as medidas por satélite. A curva de 2016 sofreu uma queda abruta no último trimestre do ano (outubro a dezembro) e continuou batendo recordes de baixa nos dois primeiros meses de 2017 e 2018. Embora tenha havido variações mensais, a extensão de gelo voltou a bater recordes de baixa nos meses de maio, junho e julho de 2019.
O gráfico abaixo mostra uma clara tendência de redução do volume de gelo marinho ao longo dos últimos 40 anos. De fato, medições diretas revelam que diversas geleiras estão derretendo 10 a 100 vezes mais rápido do que se pensava anteriormente, com implicações para o aumento do nível do mar e as pessoas que vivem em áreas costeiras.

global sea ice volume

Artigo de Sutherland et. al publicado na revista Science (26/07/2019) relata uma pesquisa com sonares mostrando resultados alarmantes, pois as geleiras estão derretendo mais rápido do que esperávamos. Do Alasca à Antártida, milhares de geleiras escorrem sobre a terra e correm para o oceano. As geleiras de maré estão recuando e derretendo rapidamente, como grande parte do gelo da Terra, aumentando continuamente o aumento do nível do mar.
O estudo de Sutherland et al. descobriu como sondar diretamente os processos de fusão e testou o método em uma geleira no Alasca. O que se descobriu é preocupante: a geleira está derretendo muito mais rápido do que as teorias atuais sugeriram, pois as taxas de fusão medidas foram cerca de 10 a 100 vezes maiores do que a teoria previa.
Pelo princípio da precaução a humanidade deveria se preocupar com a elevação do nível dos oceanos e isto não é para um futuro distante. Em julho de 2019 a cidade do Rio de Janeiro foi impactada pela ressaca. As praias do Rio perderam faixas de areia e houve degradação das estruturas. Na Praia do Pepê, na Barra da Tijuca, com uma faixa de arreia cada vez menor, parte da ciclovia foi derrubada pela água. Em Copacabana, a areia desapareceu, nos postos 5 e 6, deixando à mostra pedras antigas e prejudicando os turismo. Ao longo do litoral brasileiro são inúmeros os casos de erosão e perda de benfeitorias (malfeitorias) e infraestrutura das praias.
O custo do aquecimento global e da subida do nível do mar será cada vez mais elevado e o número de pessoas atingidas será cada vez maior. O que aconteceu em julho de 2019 é apenas uma amostra do que virá no futuro.

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:
Sutherland, D. A. et. al. Direct observations of submarine melt and subsurface geometry at a tidewater glacier, Science, Vol. 365, Issue 6451, pp. 369-374, 26 Jul 2019
https://science.sciencemag.org/content/365/6451/369.abstract
Sabrina Shankman. Greenland’s Melting: Heat Waves Are Changing the Landscape Before Their Eyes, Inside Climate News, 01/08/2019
https://insideclimatenews.org/news/01082019/greenland-climate-change-ice-sheet-melt-heat-wave-sea-level-rise-fish-global-warming

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 09/08/2019

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

BRASIL : DESCAMINHOS DO OURO.

Ações do MPF no Pará apontam provas do completo descontrole da cadeia econômica do ouro no Brasil

Em plena era digital, falta sistema informatizado de fiscalização, e notas fiscais ainda são preenchidas à caneta
Rio cercado por árvores, muitas derrubada, e com barrancos de terra no leito do rio, resultado do assoreamento provocado pela mineração
Área de garimpo ilegal em que Ibama desativou máquinas de mineração na Terra Indígena Munduruku, no Pará, em maio de 2018 (créditos: Vinícius Mendonça/Ibama, em licença CC BY-SA 2.0, via Flickr)
Uma investigação inédita para esmiuçar o funcionamento de uma das maiores empresas compradoras de ouro no maior polo da mineração ilegal no Brasil, a bacia do Tapajós, no sudoeste do Pará, resultou em um retrato do completo descontrole do país sobre essa cadeia econômica, responsável por prejuízos financeiros, sociais e ambientais de proporções devastadoras.
Coletadas durante três anos pelo Ministério Público Federal (MPF) e pela Polícia Federal (PF), uma série de provas do quanto é frágil a regulamentação e a execução do papel fiscalizador do Estado foram reunidas em duas ações propostas pelo MPF à Justiça Federal em Santarém em maio e julho deste ano.
Uma ação, na área criminal, foi ajuizada contra os responsáveis por um posto de compra de ouro da empresa Ourominas em Itaituba, acusados de formarem uma organização criminosa para fraudar documentação e, assim, “esquentar” (acobertar) a origem clandestina do ouro. Só entre 2015 e 2018, o grupo fraudou a compra de 610 quilos do minério, causando um prejuízo de R$ 70 milhões à União.
A outra ação, na área cível, foi proposta contra a Agência Nacional de Mineração (ANM), a União, o Banco Central, o posto de compra e a Ourominas. Nessa ação o MPF cita, pela primeira vez, trechos de um manual de atuação da instituição para o combate à mineração ilegal. O documento foi elaborado pela força-tarefa Amazônia do MPF, integrada por procuradores da República de todos os estados da região, que fizeram um diagnóstico aprofundado sobre os problemas, indicando soluções para a questão.
Procedimentos de controle arcaicos – Como ainda não contam com um sistema informatizado, os procedimentos atuais para o controle da compra, venda e transporte do ouro são um campo fértil para fraudes.
As notas fiscais são preenchidas manualmente, à caneta. O máximo de tecnologia exigido pela legislação para a confecção dos documentos da cadeia do ouro é a máquina de escrever e o papel-carbono. As notas fiscais em papel ficam estocadas com os compradores. Não há nota fiscal eletrônica, não há acesso automático às informações pelo poder público, e muito menos cruzamento de dados.
A atividade garimpeira sequer é definida de modo claro na legislação, permitindo que a atuação de uma empresa mineradora de porte industrial tenha seus impactos considerados equivalentes à atividade de um garimpeiro artesanal.
Não há limites para a emissão de autorizações de exploração de lavra: uma mesma pessoa ou cooperativa pode ser detentora de quantas permissões de lavra conseguir registrar em seu nome.
Também não há controle sobre o uso das permissões de exploração, facilitando muito o “esquentamento” do ouro clandestino. As permissões continuam em vigor mesmo que as áreas não tenham sido exploradas, ou que seus detentores não apresentem relatórios de produção, ou que apresentem relatórios zerados ou incompatíveis com a quantidade de minério indicada em notas fiscais.
A legislação prevê a criação de um sistema de certificação de reservas e de recursos minerais. No entanto, o sistema ainda não está criado. Houve consulta pública no final de 2018, e a avaliação das propostas está a cargo da ANM.
O sistema deveria servir para subsidiar a formulação e implementação da política nacional para as atividades de mineração, fortalecer a gestão dos direitos e títulos minerários, consolidar as informações relativas ao inventário mineral brasileiro, definir e disciplinar os conceitos técnicos aplicáveis ao setor mineral, entre outras funções.
Riquezas saqueadas – A Amazônia brasileira já tem mais de 450 áreas ou pontos de mineração ilegal, registra o relatório Amazônia Saqueada, publicado no final do ano passado por pesquisadores da Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (Raisg).
Só na bacia do Tapajós são comercializadas ilegalmente 30 toneladas de ouro por ano – R$ 4,5 bilhões em recursos não declarados –, seis vezes mais que o comércio legal na mesma região, segundo informações apresentadas pela ANM em audiência pública realizada em abril deste ano na Câmara dos Deputados.
Envenenamento em massa – De acordo com laudo elaborado pela PF e pela Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), nas águas do Tapajós a mineração ilegal de ouro despeja, a cada 11 anos, o equivalente à barragem da Samarco que rompeu em Mariana (MG) em 2015, destruindo a calha do rio Doce, entre Minas Gerais e Espírito Santo.
Há estimativas de que até 221 toneladas de mercúrio são liberadas por ano para o meio ambiente pela mineração ilegal no Brasil, indicam estudos preliminares apresentados em 2018 na primeira reunião do Grupo de Trabalho Permanente da Convenção de Minamata sobre Mércurio (GTP-Minamata), realizada pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA).
A Convenção de Minamata é um acordo global para controlar o uso do mercúrio, tendo em vista a letalidade da substância para a saúde humana e para o meio ambiente. Em agosto de 2018 foi publicado decreto presidencial que concluiu a internalização jurídica, pelo Brasil, da Convenção. Com a promulgação do decreto, as determinações da Convenção de Minamata tornaram-se compromissos nacionais oficiais.
O mercúrio envenena principalmente quem trabalha em áreas de mineração ou vive perto delas, como povos indígenas e comunidades ribeirinhas, além da população consumidora do pescado. No ser humano, a substância afeta o sistema nervoso central, causando problemas de ordem cognitiva e motora, perda de visão, doença cardíaca e outras deficiências.
Urgência sanitária – Na região do Tapajós, já foram detectadas alterações cardiológicas e neurológicas em pessoas que têm alto nível de metilmercúrio, relatou na audiência da Câmara dos Deputados o neurocirurgião Erick Jennings Simões, da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) do Ministério da Saúde.
Ele destacou que não há cura para esses problemas originados pela contaminação por mercúrio, e que no Tapajós as pesquisas indicaram que a contaminação tem afetado até mesmo moradores de áreas urbanas distantes da região de garimpo, como os moradores de Santarém, um dos municípios mais populosos do Pará, com cerca de 300 mil habitantes.
Uma das lideranças indígenas presentes na audiência pública, Alessandra Korap, da etnia Munduruku, denunciou que as crianças estão reclamando de dores e que as mulheres grávidas estão sofrendo abortos espontâneos, algo que não acontecia nas aldeias. Segundo o neurocirurgião Erick Jennings, o metilmercúrio consegue atravessar a placenta, podendo causar danos irreversíveis ao feto.
Para pesquisadores do Ministério da Saúde e da Ufopa ouvidos por deputados federais, é “urgência sanitária” o monitoramento clínico e laboratorial das populações submetidas à contaminação de mercúrio na bacia do Tapajós.
Invasão originou ação – A mineração ilegal é um dos principais vetores de invasões a áreas protegidas, como Terras Indígenas e Unidades de Conservação (UCs). A investigação que deu origem às ações ajuizadas pelo MPF em Santarém, por exemplo, começou a partir das operações Dakji I e II, realizadas em 2016 para combater garimpagem ilegal de ouro na zona de amortecimento da Terra Indígena Zo’é, no município de Óbidos. A zona de amortecimento é uma área de proteção integral.
As operações deram origem a três inquéritos policiais. Em um deles, investigados que atuavam na área conhecida como garimpo Pirarara, na zona de amortecimento da Terra Indígena, relataram que vendiam o minério à Ourominas sem a necessidade de apresentar qualquer tipo de comprovante de legalidade da origem do produto.
Interditados nas operações, os garimpos ilegais foram sucessivamente reocupados por novas levas de garimpeiros, agora em 2019 pela terceira vez. “Este fato denota a dificuldade em se combater a extração ilegal de ouro tão somente a partir do exercício do poder de polícia ambiental in loco nos ‘garimpos’ ilegais. Esta ação civil pública busca promover um reenquadramento da problemática, impelindo os entes públicos a também exercerem sua atribuição regulatória e fiscalizatória sobre elos da cadeia que até então operam à margem do olhar estatal: os compradores de ouro ilegal”, explica o MPF na ação cível.
A ação cível foi assinada pelos procuradores da República Camões Boaventura, Paulo de Tarso Moreira de Oliveira, Ana Carolina Haliuc Bragança, Patrícia Daros Xavier e pelo assessor jurídico do MPF Rodrigo Magalhães de Oliveira. A denúncia criminal foi assinada pelos mesmos membros do MPF autores da ação cível, além dos procuradores da República Hugo Elias Silva Charchar e Antônio Augusto Teixeira Diniz.
Impactos em série – Além dos prejuízos financeiros bilionários para o país, dos graves riscos à saúde da população, e das invasões a áreas protegidas, a mineração ilegal estimula uma série de outros problemas socioambientais: desmatamento ilegal – que já eliminou 20% da cobertura vegetal original da Floresta Amazônica –, assoreamento de rios, grilagem (usurpação de terras públicas), conflitos agrários, trabalho insalubre, trabalho escravo, tráfico de pessoas e exploração sexual, doenças como malária, leishmaniose, e as sexualmente transmissíveis (DSTs), entre outras consequências.
Na prática – Nas próximas semanas, o MPF vai publicar uma série de matérias para resumir como as várias fragilidades do sistema de controle da cadeia do ouro possibilitaram a atuação da organização criminosa denunciada pela instituição.
Também serão descritos os pedidos feitos pelo MPF à Justiça relativos às instituições públicas e às empresas processadas.
O conteúdo integral das ações, com todos os detalhes disponíveis, já pode ser acessado nos links abaixo.
Ação cível: processo nº 1003404-44.2019.4.01.3902 – 2ª Vara da Justiça Federal em Santarém (PA)
Ação criminal: processo nº 0000244-28.2019.4.01.3902 – 2ª Vara da Justiça Federal em Santarém (PA)

Fonte: Ministério Público Federal no Pará

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/07/2019

BRASIL E A PRODUÇÃO DE LIXO PLÁSTICO X RECICLAGEM.

Brasil é o 4º país que mais produz lixo plástico no mundo e o que menos recicla


lixo plástico

Patrícia Faga Iglésias Lemos diz que impor multas ou punições é positivo, mas são necessários uma mudança de comportamento das pessoas e um trabalho educativo
Por Simone Lemos, Rádio USP
O Brasil é um dos países que mais produzem lixo plástico no mundo e o que menos recicla. São 11 toneladas por ano, e apenas 9% do plástico produzido no mundo é reciclado. Os números fazem parte de dados divulgados pela ONU no ano passado. Ainda não existe uma lei específica para o descarte do plástico, mas já existem ações que proíbem seu descarte irregular, com destaque e hoje em dia, para a proibição de uso dos canudos feitos desse material em São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará.
Segundo a professora Patrícia Faga Iglésias Lemos, do Departamento de Direito Civil da Faculdade de Direito da USP, impor multas ou punições é positivo, surte efeito, mas são necessários uma mudança de comportamento das pessoas e um trabalho educativo. A professora lembra da existência da lei federal de 2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos, na qual o descarte do material plástico se enquadra e proporciona uma destinação adequada. “O impacto dos resíduos dispostos inadequadamente no solo e também muitas vezes no mar é muito ruim para as pessoas, o meio ambiente e, no caso do mar, para os animais marinhos. Existe todo um entorno dessa lei que deve ser considerado e não somente a questão dos canudos”, observa. “A legislação é positiva ao impor um valor pelo descumprimento do seu regramento”, afirma Patrícia. Mas precisa ter um trabalho no comportamento, na educação, para alertar as pessoas.
Tocador de áudio

Da Rádio USP, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/07/2019

AUMENTO DO DESMATAMENTO NA AMAZÔNIA É INCONTESTÁVEL.



desmatamento
 Elton Alisson, de Campo Grande (MS)  |  Agência FAPESP – Alvo de recente questionamento, o aumento no desmatamento na Amazônia nos últimos meses, em comparação com 2018, é incontestável. O aumento foi apontado pelo sistema de monitoramento por satélites Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e deverá ser confirmado antes de dezembro com o lançamento dos dados obtidos durante um ano completo por outro sistema de monitoramento da instituição, o Prodes.
Nos próximos dias deverão ser divulgados os dados do Deter para o período de agosto de 2018 a julho de 2019. Entre outubro e novembro, sairão os dados do Prodes para o mesmo período, que são utilizados para verificação do Deter. O Prodes usa dados do satélite Landsat – sistema que existe desde 1989 – e apresenta os dados consolidados sobre o desmatamento total apenas uma vez por ano.
A afirmação foi feita por Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), durante palestra na 71ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada de 21 a 27 de julho na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em Campo Grande.
“Os números da série anual do Prodes, que compreende o período de agosto de 2018 a julho de 2019, devem confirmar o que os dados dos últimos meses mostraram: que o desmatamento da Amazônia nos últimos 12 meses foi muito maior do que no período anterior”, disse Nobre, que é pesquisador aposentado do Inpe.
“Temos que partir do princípio de que está realmente ocorrendo um aumento do desmatamento na Amazônia”, disse. Segundo ele, o questionamento dos dados sobre o desmatamento da Floresta Amazônica nos últimos três meses indicados pelo Deter é infundado. Isso porque a margem de incerteza do sistema varia de 10% a 12%.
O sistema apontou que o desmatamento na Amazônia em quilômetros quadrados (km²) aumentou nos meses de maio, junho e nos primeiros 20 dias de julho, respectivamente, 34%, 91% e 125% em relação aos mesmos meses em 2018.
“Esses percentuais de aumento estão muito além da margem de incerteza. A probabilidade de que o desmatamento da Amazônia está aumentando está acima de 99%”, disse Nobre.
Os dados do Deter são disponibilizados desde o lançamento do sistema, em 2004, pelo Inpe. Já os do Prodes – que foi o primeiro sistema de monitoramento de desmatamento na Amazônia criado pelo órgão em 1989 – ficaram embargados no início e só passaram a ser disponibilizados em 2002.
“Esses dados públicos permitiram um enorme entendimento das causas do desmatamento e municiaram as políticas de combate que tiveram grande sucesso durante vários anos”, disse Nobre.
O eventual embargo dos números de desmatamento obtidos pelo Deter e o Prodes ou a descontinuação desses dois sistemas causariam enormes prejuízos para o país e fariam o Inpe perder o protagonismo mundial no desenvolvimento de sistemas de monitoramento florestal, afirmou.
“Não divulgar os dados do desmatamento do Inpe não faria o problema desaparecer, porque hoje há muitos grupos em todo o mundo que fazem esse tipo de mapeamento. Mas o Inpe, que desenvolveu o melhor sistema de monitoramento de florestas tropicais do mundo ao longo dos últimos 30 anos, perderia sua liderança”, disse Nobre.
De acordo com o pesquisador, o Brasil, por intermédio do Inpe, foi o primeiro país do mundo a fazer esse tipo de monitoramento florestal por satélite. Os sistemas desenvolvidos pelo instituto ajudaram a capacitar pesquisadores de 60 países e muitos países tropicais usam os algoritmos criados na instituição.
Enquanto os sistemas de monitoramento desenvolvidos por outras instituições no mundo, baseados em big data e algoritmos automáticos de inteligência artificial, apresentam hoje uma margem de erro acima de 20%, a do Prodes é de 5 a 6%, comparou Nobre. “Isso representa um enorme aperfeiçoamento desse sistema de monitoramento, que é resultado de 30 anos de avanço científico”, disse.
Confiança nos dados
Em coletiva de imprensa no dia 26 de julho, na reunião da SBPC, o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, disse que “não tem dúvidas de que os dados produzidos pelo Deter estão corretos e são confiáveis, mas foram usados com o objetivo incorreto”.
“Os dados do Deter não são para medição do desmatamento, mas para alerta de desmatamento, para auxiliar o Ibama nas ações de fiscalização. Seria errado utilizá-los para indicar desmatamento”, disse Pontes à Agência FAPESP. “Os dados do Prodes é que têm a finalidade de medir desmatamento, mas demoram um certo tempo para ser compilados.”
O ministro destacou que o Inpe é uma instituição conceituada, cujo trabalho é reconhecido internacionalmente, e que continuará a desempenhar suas funções como sempre fez. “O fato de perguntarmos sobre a variação de um dado é normal é já aconteceu anteriormente”, disse.
O portal TerraBrasilis é uma plataforma web desenvolvida pelo Inpe para acesso, consulta, análise e disseminação de dados geográficos gerados pelos projetos de monitoramento da vegetação nativa do instituto, como o Prodes e o Deter: http://terrabrasilis.dpi.inpe.br/.
Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/08/2019

TÉCNICA PERMITE CULTIVAR CIANOBACTÉRIAS PARA BIOENERGIA.

Técnica permite cultivar cianobactérias para bioenergia e, ao mesmo tempo, limpar a água de estações de tratamento de efluentes


Técnica permite cultivar cianobactérias para bioenergia

Idaho National Laboratory/DOE*
As florações de cianobactérias têm bloqueado as vias fluviais em todo o mundo, desde estuários na Flórida até a bacia do rio Mississippi e lagos na China.
E as toxinas que as cianobactérias produzem são prejudiciais aos seres humanos, aos animais de estimação e à vida selvagem. Esses organismos fotossintéticos, também chamados de algas verde-azuladas, crescem em fontes humanas de nitrogênio e fósforo, incluindo efluentes de estações de tratamento de resíduos e fertilizantes que são levados para bacias de fazendas.
Mas os pesquisadores da bioenergia há muito reconhecem um lado positivo dessa ameaça transmitida pela água e que nutre os nutrientes: eles poderiam fornecer um excelente suprimento de biomassa para biocombustíveis e energia.
Agora, um pesquisador do Idaho National Laboratory desenvolveu uma nova maneira de cultivar cianobactérias para bioenergia e, ao mesmo tempo, limpar a água de estações de tratamento de efluentes.
Os resultados aparecem na revista BioEnergy Research .

Instalação de tratamento de águas residuais.
Instalação de tratamento de águas residuais. Foto: DOE

Um microrganismo repleto de energia
“A comunidade científica se interessou em produzir biocombustíveis a partir de algas porque a quantidade de óleo das algas é 10 vezes maior que a do óleo de palma e 131 vezes a da soja”, disse Carlos Quiroz-Arita, que iniciou sua pesquisa como estudante de pós-graduação no Colorado. Universidade. “Bem, as cianobactérias têm quatro vezes mais produtividade que as algas em condições de escala laboratorial”.
Mas há um problema: cultivar essa quantidade de cianobactérias exigiria muita água e muitos nutrientes.
Então, Quiroz-Arita e seus colegas começaram a pensar em flores de cianobactérias. “Não faz sentido usar mais água e mais fertilizantes para produzir biocombustíveis”, disse ele. “Se cultivarmos cianobactérias em uma instalação de tratamento de águas residuais, não só podemos usar cianobactérias e algas para o cultivo de biocombustíveis, mas também para reduzir a proliferação de algas e cianobactérias a jusante.”
O funcionamento interno de uma estação de tratamento de águas residuais
Os pesquisadores trabalharam com a Drake Water Reclamation Facility (DWRF) em Fort Collins, Colorado, para modelar a melhor abordagem para produzir cianobactérias a partir de águas residuais. Como os funcionários da DWRF estavam mais interessados em melhorar a qualidade da água e reduzir as emissões de CO2, a Quiroz-Arita projetou sua abordagem para atingir essas metas.
Águas residuais em uma moderna estação de tratamento de águas residuais como a DWRF normalmente passam por vários processos diferentes antes que o efluente tratado possa ser descarregado com segurança.
Quiroz-Arita estabeleceu o ponto no processo onde uma centrífuga é usada para separar os resíduos sólidos do lixo líquido. Os resíduos sólidos são secos e enviados para um aterro, e os resíduos líquidos ricos em nutrientes, chamados de concentrados, são reciclados de volta para a estação de tratamento de águas residuais antes de serem descartados.
“As estações de tratamento de águas residuais não podem liberar o centrado no meio ambiente”, disse Quiroz-Arita. “Isso mataria tudo. O que eles fazem é apenas continuar reciclando o centrato no processo com bombas. É um processo que consome muita energia para limpar o nitrogênio e o fósforo e, em muitos casos, não é suficiente para atender aos critérios de qualidade da água. ”
Um processo passo a passo para produzir biomassa
É nesta etapa do processo de tratamento de águas residuais que os operadores de plantas podem controlar melhor as concentrações de nutrientes para o cultivo de cianobactérias.
Uma vez que a centrífuga separa os sólidos do centrato, o concentrado é bombeado para um dispositivo chamado fotobiorreator – um dispositivo onde as cianobactérias são cultivadas usando nutrientes e luz solar, limpando o nitrogênio e o fósforo do centrato para níveis consistentes com água do estado e federal. padrões de qualidade.
A cianobactéria se multiplica e, em seguida, outra centrífuga separa a biomassa das cianobactérias da água.
Essa biomassa então passa para um biodigestor – um dispositivo que usa micróbios para transformar a biomassa em biogás, que é então queimada para calor e energia. O CO2 resultante é bombeado de volta ao fotobiorreator para ajudar na fotossíntese e reduzir a pegada de carbono.
Trade-offs e avaliação do ciclo de vida
Como as cianobactérias crescem melhor com a quantidade certa de nutrientes, os pesquisadores começaram testando diferentes concentrações de concentrados / efluentes. “Encontramos a melhor concentração total de nitrogênio para obter a maior taxa de crescimento e taxa de absorção de nutrientes para esta cianobactéria”, disse Quiroz-Arita.
Encontrar a receita certa para cada estação de tratamento de águas residuais depende das suas águas residuais individuais e das suas características centradas. Cada planta provavelmente exigiria suas próprias análises biológicas e de engenharia, disse ele.
Quando os pesquisadores começaram a observar a concentração de nitrogênio e o crescimento de cianobactérias, houve algumas compensações. Em concentrações mais baixas de nitrogênio, com uma taxa de crescimento mais lenta, a água alcançou os padrões de qualidade da água mais rapidamente. O trade-off é que uma taxa de crescimento mais lenta em baixas concentrações de nitrogênio requer mais área plantada para o fotobiorreator que, por sua vez, consome mais eletricidade.
Quando todos os benefícios desse processo são computados em uma avaliação do ciclo de vida, o resultado é um efluente mais limpo, menores emissões de CO2 e menor consumo de energia em relação aos processos convencionais de tratamento de águas residuais. (O processo também produz um fertilizante, a estruvita, que se precipita do centrato antes de entrar no fotobioreator. A instalação pode vender a estruvita como um coproduto.)
O processo atraiu o interesse da indústria, e o Escritório de Tecnologias de Bioenergia do Departamento de Energia dos EUA destacou as instalações de águas residuais municipais como uma promissora fonte de água e nutrientes para a produção de biocombustível à base de algas.
Em seguida, a Quiroz-Arita está procurando financiamento para continuar pesquisando maneiras de melhorar a taxa de crescimento de cianobactérias e taxa de absorção de nutrientes, otimizar o processo de remoção de nutrientes e métricas de sustentabilidade e colaborar com as instalações municipais de tratamento de esgoto para ampliar o processo sob diferentes condições.

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/07/2019

A AMÉRICA LATINA SUBMERGENTE.

A América Latina submergente, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


[EcoDebate] O Fundo Monetário Internacional divulgou no dia 23 de julho de 2019 as atualizações para o desemprenho da economia global, das regiões e dos países. O crescimento do PIB mundial que estava estimado para 3,3% em 2019 (WEO de abril) caiu para 3,2%. A maior redução ocorreu na América Latina e Caribe (ALC) cujo crescimento estava previsto para 1,4% e caiu para O,6% em 2019. Portanto, a região (com 33 países) deve apresentar redução da renda per capita em 2019, pois o crescimento populacional está previsto em 1% neste mesmo ano.
O Brasil – o maior PIB da ALC – teve um corte de 2,1% (WEO de abril) para 0,8% (WEO de julho) na previsão de crescimento econômico em 2019. O México – o segundo maior PIB da ALC – teve um corte de 1,9% para 0,9%, muito abaixo das promessas do presidente Andrés Manuel López Obrador (AMLO), que assegurou na campanha eleitoral um crescimento de 4% nos seis anos do seu mandato. A Argentina – o terceiro maior PIB da ALC – está em recessão pelo segundo ano consecutivo. Contudo, notícias piores acontecem na Venezuela que teve uma queda do PIB de 25% em 2018 e deve ter outra queda consecutiva, agora de 35% em 2019.
Na verdade, o baixo desempenho econômico da ALC vem desde o início da chamada década perdida. Em 1980 a ALC representa 12,2% do PIB mundial, enquanto os 5 países fundadores da ASEAN (Indonésia, Filipinas, Malásia, Singapura e Tailândia) tinham 3,2% do PIB mundial, a Índia 2,9% e a China apenas 2,3% do PIB mundial. Mas nos últimos 40 anos a ALC apresentou um mergulho e diminuiu sua participação no PIB mundial, caindo para 7,5% em 2018, devendo atingir 7% em 2024, conforme mostra o gráfico abaixo.
No mesmo período a China deu um salto e ultrapassou a ALC em 2003, chegou a uma participação de 18,7% em 2018 e deve alcançar 21,4% do PIB mundial em 2024. A Índia também apresentou uma ascensão (embora menor do que a China) e atingiu 7,8% do PIB mundial em 2018, ultrapassando a ALC. Os 5 países da ASEAN atingiram 5,5% do PIB mundial em 2018 e devem ficar com 6,1% em 2024, muito perto da ALC (com 33 países).
participação da ALC, China, Índia e ASEAN+5 no PIB global
O fato é que os países asiáticos do gráfico acima estão em uma tendência emergente, enquanto a ALC está numa tendência submergente. A ALC tinha um tamanho 5,3 vezes maior do que a China em 1980 e em 2018 a China era 2,5 vezes maior. A ALC tinha um tamanho 4,3 vezes maior do que a Índia em 1980 e agora empataram de tamanho e a Índia será maior na próxima década. A ALC era 3,8 vezes maior do que os 5 países fundadores da ASEAN e pode ser ultrapassada em meados da próxima década.
A ALC, em 1980, tinha uma renda per capita (preços constantes em poder de paridade de compra – ppp) de US$ 10,8 mil, sendo 15 vezes superior à renda per capita da China de apenas US$ 721, sendo 8,3 vezes superior à renda per capita da Índia de US$ 1,3 mil e sendo 3,4 vezes superior à renda per capita da ASEAN+5 que era de US$ 3,1 mil, conforme mostra o gráfico abaixo.
Mas em 2017, a China com renda per capita de US$ 15,2 mil já havia ultrapassado a renda per capita da ALC e deve deixar os latino-americanos bem para trás na próxima década. Os 5 países da ASEAN reduziram bastante a diferença e podem ultrapassar a renda per capita da ALC antes de 2030. Já a Índia deve ultrapassar a ALC após 2030.
renda per capita da ALC, China, Índia e ASEAN+5
Os países da Ásia parecem que estão decolando como um avião, enquanto a ALC, ao contrário, está mergulhando como um submarino descontrolado e sem rumo definido. A renda per capita de 2013 da ALC só será alcançada novamente em 2021 ou 2022. Portanto, a região está passando pela segunda década perdida e pode ficar eternamente presa à armadilha da renda média e à estagnação secular.
Uma das explicações para a trajetória emergente da Ásia e a trajetória submergente da ALC é o nível das taxas de investimento (formação bruta de capital fixo). A taxa de investimento na ALC está em torno de 20% do PIB e da Ásia emergente em torno de 40% do PIB.
Enquanto os países asiáticos investem em infraestrutura, ciência e tecnologia e capital humano (gerando emprego e aumento da produtividade) os países latino-americanos apenas repõe a depreciação econômica e não conseguem acompanhar o ritmo da Ásia emergente.
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/08/2019