terça-feira, 10 de novembro de 2020

CRIME EM MARIANA : 5 ANOS DE IMPUNIDADE E INJUSTIÇA SOCIOAMBIENTAL.

 desastre de Mariana

Mariana, MG, após o rompimento da barragem da Samarco. Foto: Antonio Cruz/ABr

Crime em Mariana: 5 anos de impunidade e injustiça socioambiental

Por Gilvander Moreira1

Dia 5 de novembro de 2020, cinco anos do crime/tragédia das mineradoras Samarco/Vale/BHP Billiton e do Estado. Dói, mas é preciso recordar e denunciar.

Pela impunidade reinante e pela continuidade da engrenagem criminosa, o Governo de Minas Gerais, as mineradoras e as autoridades não aprenderam nada com os crimes/tragédias da Vale e do Estado, em Mariana e em Brumadinho.

Pior, jamais aprenderão, pois cegados pelo ídolo do mercado idolatrado estarão sempre ajoelhados se empanturrando das benesses do sistema de morte, enquanto se enlameiam de sangue por ações ou omissões cúmplices que fomentam a reprodução da mineração devastadora. Covardemente, teremos outros crimes/tragédias sendo preparados enquanto continuar a atual composição estrutural da Comissão de Atividades Minerárias (CMI) do Conselho Estadual de Política Ambiental (COPAM) com 12 conselheiros/as, sendo 10 conselheiros/as do Governo de Minas, da União e representantes das grandes empresas de mineração (de entidades a elas ligadas) e apenas 2 conselheiros representando a sociedade civil: CEFET-MG2 e FONASC3. Com essa composição tremendamente injusta e desigual, o resultado das votações é sempre 10 votos a favor dos licenciamentos de novos projetos da mineração contra 1 ou 2. Durante as longas reuniões de apreciação e votação de novos projetos de mineração os 10 conselheiros representantes do Estado e de entidades que representam as mineradoras quase não falam, ficam olhando no celular e ao final, SEMPRE votam a favor dos projetos de mineração devastadores. Isso é injustiça que clama aos céus! É uma casa de horrores!

A missão da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD), por lei, é “garantir a sustentabilidade”, mas decidem sempre pró-mineração e contra a sustentabilidade. Em uma reunião que autorizou a retomada de mineração na Serra da Piedade, em Caeté, ao lado de Belo Horizonte, uma representante da Secretaria de Governo (SEGOV) chegou ao absurdo de dizer que “princípio da precaução não tem poder de barrar mineração”. Indignado, eu disse que já vi várias decisões judiciais impedirem/suspenderem mineração alegando o princípio constitucional da precaução. A ex-superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em Minas Gerais, a museóloga Célia Corsino, disse em Audiência Pública na ALMG, que “jamais daria anuência do IPHAN-MG ao projeto de mineração na Serra da Piedade”. Logo depois, Célia Corsino foi exonerada da Superintendência do IPHAN, em MG, pelo Governo Federal de Jair Bolsonaro. Júlio Grillo, ex-superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), em Minas Gerais, foi exonerado pelo desgoverno federal um dia após ele votar contra a retomada da mineração na Serra da Piedade.

Os crimes/tragédias não são apenas da mineradora Vale, mas também do Estado, porque os licenciamentos ambientais concedidos pelo Governo de Minas Gerais que, em conluio com o capital, se ajoelha diante do poderio econômico das grandes mineradoras e dribla todos os argumentos técnicos e jurídicos suficientes para não conceder licenciamento ambiental a empreendimentos extremamente devastadores socioambientalmente. O Estado concede licenças ambientais para projetos devastadores e, pior, não fiscaliza. Na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre a Mina Capão Xavier, da Vale, em Nova Lima, MG, uma funcionária da Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEAM), do Governo de Minas Gerais, disse: “A FEAM não fiscaliza. Nós apenas lemos os relatórios produzidos por funcionários das mineradoras”. Por isso, o crime não é só da Vale, mas também do Estado que está acumpliciado ao capital desde que se iniciou há 300 anos mineração no estado de Minas Gerais.

A impunidade do crime/tragédia acontecido a partir do distrito de Bento Rodrigues alimentou a construção de outros crimes/tragédias como o da Vale, a partir de Brumadinho. Com o passar do tempo, rastros de morte vão sendo percebidos e se avolumando. As águas da bacia do Rio Paraopeba garantiam 50% do abastecimento público de Belo Horizonte e região metropolitana. A COPASA4 investiu 130 milhões de reais para captar água do Rio Paraopeba em uma grande obra inaugurada em dezembro de 2015, prometendo que a obra garantiria o abastecimento de BH e região metropolitana pelos próximos 25 anos. Tudo isso foi perdido. E agora, onde arrumar água para garantir o abastecimento de cinco milhões de pessoas de Belo Horizonte e região metropolitana? A nova captação de água que a Vale está fazendo no Rio Paraopeba, acima de Córrego do Feijão, na comunidade de Ponte das Almorreimas, em Brumadinho, além de sacrificar impiedosamente várias comunidades e aumentando a devastação ambiental, não garantirá o abastecimento de BH e RMBH por muitos anos.

Onde há muito minério há também muita água. O Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais, é também um Quadrilátero Aquífero. Os lugares onde as mineradoras se instalam eram paraísos naturais, mas após a chegada das mineradoras iniciou-se um processo absurdo que sacrifica no altar do deus do mercado a dignidade humana e a dignidade da mãe terra, da irmã água, da flora e da fauna. Bento Rodrigues, por exemplo, era um ‘paraíso na terra’, mas após a mineração da mina de Fundão, estava sendo abastecida por caminhões pipas, antes de ser devastada pelo crime tragédia da VALE/SAMARCO/BHP que aconteceu na tarde do dia 05 de novembro de 2015 e continua impune e matando de muitas formas. Em um instante, 19 vidas de seres humanos foram ceifadas. Pior, dezenas de pessoas, em 5 anos, já morreram vítimas das consequências dramáticas daquele crime hediondo e ecocida.

Tripudiando sobre as vítimas, o Governo de Minas já autorizou o retorno da mineração da mineradora VALE/SAMARCO/BHP em Mariana, aprovou a construção da barragem de Maravilhas 3 da Vale, o alteamento da Barragem da mineradora Anglo American, em Conceição do Mato Dentro, à revelia da Lei “Mar de Lama”, de iniciativa popular, aprovada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais – Lei Estadual nº 23.291/2019.

No Brasil, há mais de 24 mil barragens: de água para irrigação, de rejeitos de mineração com lama tóxica ou de água para geração de energia em hidrelétricas. As barragens de hidrelétricas são feitas de concreto com ferro e aço, mas as barragens de rejeitos minerários são apenas uma montanha de lama com calços quebradiços. Mais de 700 grandes barragens são de rejeitos minerários, sendo que 70% destas estão em Minas Gerais, mais de 460. Desde a década de 1970, volta e meia, alguma barragem de rejeitos minerários tem se rompido. Em Minas Gerais, houve vários rompimentos de minerodutos, o Minas-Rio, por exemplo, que consome diariamente água que dá para abastecer uma cidade de 230 mil pessoas e transporta o equivalente a 1.600 carretas de minério por dia. As nossas montanhas estão sendo arrancadas e vendidas pela metade do preço de banana e, pior, todas as nascentes, rios e os lençóis freáticos estão sendo sacrificados. As condições objetivas de vida estão em exaustão e colapso nos territórios sob a sanha das mineradoras.

Recentemente houve mais uma operação do Ministério Público de MG com o apoio das Polícias Militar e Civil visando combater a atuação de uma associação criminosa estruturada para facilitar a concessão de licenças ambientais no âmbito da Superintendência Regional de Meio Ambiente (Supram) Zona da Mata mineira, vinculada à SEMAD. As investigações até então realizadas apontam para o pagamento de propinas a funcionários públicos e a falsificação de documentos e relatórios em processos administrativos de licenciamento ambiental.

Na Bíblia, o profeta Miqueias mostra que a riqueza de quem se enriqueceu se baseia na miséria de muitos e tem como alicerce a carne e o sangue do povo. Denuncia Miqueias: “Essa gente tem mãos habilidosas para praticar o mal: o príncipe exige, o juiz se deixa comprar, o grande mostra a sua ambição. E assim distorcem tudo. O melhor deles é como espinheiro, o mais correto deles parece uma cerca de espinhos! O dia anunciado pela sentinela, o dia do castigo chegou: agora é a ruína deles” (Miqueias 7,3-4). Os opressores dos tempos bíblicos, atualmente são os diretores, executivos, acionistas da mineradora VALE e todos os seus vassalos nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Na Bíblia, no livro do Êxodo se diz que o Deus da vida, para forçar a libertação do povo escravizado, enviou dez pragas sobre os faraós – com coração endurecido – do imperialismo do Egito que superexplorava o povo. A 1ª praga/prodígio é narrada em Êxodo 7,14-24: “transformou o Rio Nilo em sangue. Todos os peixes morreram. O rio ficou poluído e morto. Os egípcios não podiam beber mais da água do rio” (Êxodo 7,20-21). Depois da 1ª praga, as seguintes eram gradativamente piores, até o povo superescravizado conquistar a libertação, com a travessia do mar vermelho. Quantas barragens ainda precisarão romper e mais quantos crimes acontecer para que as autoridades ouçam os clamores do povo, da mãe terra, da irmã água e de todos os seres vivos?

03/11/2020

Obs.: Os vídeos nos links e o áudio, abaixo, ilustram o assunto tratado acima.

1 – Palavra Ética na TVC/BH: Crimes da Vale e Samarco. Produção de farinha/Acampamento Nova Esperança 2

https://www.youtube.com/watch?v=MAFE-j4uXcA

2 – Denúncia comovente/Marino/crime/SAMARCO/VALE/BHP/ESTADO/Audiência Pública da ALMG. Parte I/Vídeo 2

https://www.youtube.com/watch?v=IK1-T0j3aQQ

3 – Massacre da Samarco/Vale/BHP: luta profética-2a Romaria das Águas/Terra-bacia do rio Doce. 3a parte

https://www.youtube.com/watch?v=iGTj1BVxgj4

4 – MAB na 19a Romaria das águas e da terra de MG: desastre da Samarco/Vale/BHP, pecado grave. 24/07/16

https://www.youtube.com/watch?v=_SJ4X5mwbcU

5 – Tribunal Popular julga crime das mineradoras Samarco/Vale/BHP: crime de Mariana. BH, 01/04/2016

https://www.youtube.com/watch?v=vsPtdDosOVs

6 – Vale e Estado de MG são cúmplices: Crime continua em Ponte das Almorreimas, Brumadinho, MG/06/3/2020

https://www.youtube.com/watch?v=DfRxyYPRgXY

7 – Vale mente e comete crimes também em Catas Altas, MG. Por território Livre de Mineração! Vídeo 1

https://www.youtube.com/watch?v=hzdbWx5eoDI

8 – “Meu irmão está debaixo da lama tóxica do crime da Rio Verde, hoje Vale, há 19 anos”. Bruma/Vídeo 5

https://www.youtube.com/watch?v=vv6Vizfy0I0

9 – “Vale comete crime e nós é que pagamos?” Ponte das Almorreimas, Brumadinho, MG. Vídeo 2 – 26/12/2019

https://www.youtube.com/watch?v=B23WPoTESIw

10 – Cresce o crime da VALE e do Estado; cresce a luta. Atingidos no TJMG, em BH. Vídeo 3 – 21/11/2019

https://www.youtube.com/watch?v=GR5f6k3KGU8

Obs. 2: no YOUTUBE – no canal: Frei Gilvander luta pela terra e por direitos – existem centenas de videorreportagens denunciando os crimes tragédias das mineradoras Vale, Samarco, BHP, Angloamerican, SAM etc.

1 Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; agente da CPT, assessor do CEBI e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH e de Teologia bíblica no SAB, em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       www.twitter.com/gilvanderluis        –    Facebook: Gilvander Moreira III

2 Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais.

3  Fórum Nacional da Sociedade Civil nos Comitês de Bacias Hidrográficas.

4 Companhia de Saneamento de Minas Gerais.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/11/2020

O BRASIL TM MAIS DE 3 MIL ESPÉCIES DE ANIMAIS E PLANTAS AMEAÇADAS DE EXTINÇÃO.

 

O Brasil tem mais de 3 mil espécies de animais e plantas ameaçadas de extinção

IBGE

  • Resumo

  • Em 2014, o Brasil tinha 3.299 espécies de animais e plantas ameaçadas de extinção.
  • As espécies ameaçadas integram as Listas Nacionais Oficiais de espécies da fauna e da flora ameaçadas de extinção, do ICMBio e CNCFlora/JBRJ, que totalizam 12.262 espécies da fauna e 4.617 espécies da flora dentre as mais de 166 mil reconhecidas no Brasil
  • A Mata Atlântica foi o bioma com mais espécies ameaçadas: 1.989, ou 25% das espécies do bioma no estudo. Em seguida, vem o Cerrado, com 1.061 (19,7%).
  • Pantanal e a Amazônia têm as maiores proporções de espécies na categoria “menos preocupante” (88,7% e 84,3%, respectivamente)
  • O estudo mostra que o país já tem, ao menos, dez espécies da fauna nativa extintas.
  • Uma outra espécie extinta na natureza depende de programas de reprodução em cativeiro: a ave Mutum-do-Nordeste (Pauximitu), nativa da Mata Atlântica.

Sauim-de-coleira, espécie encontrada na Amazônia, corre risco de desaparecer
Sauim-de-coleira, espécie encontrada na Amazônia, corre risco de desaparecer – Foto: Renato Araújo / Agência Brasília

 

As espécies ameaçadas integram as Listas Nacionais Oficiais de espécies da fauna e da flora ameaçadas de extinção totalizam 12.262 espécies da fauna e 4.617 espécies da flora dentre as mais de 166 mil reconhecidas no Brasil

O Brasil tinha 3.299 espécies de animais e plantas ameaçadas de extinção em 2014. Esse número representa 19,8% do total de 16.645 espécies avaliadas nas Contas de Ecossistemas: Espécies Ameaçadas de Extinção no Brasil, divulgadas hoje (5) pelo IBGE. O estudo analisou os números de espécies ameaçadas nos biomas brasileiros (Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pampa, Pantanal e Mar e ilhas oceânicas) e diferentes tipos de ambiente (terrestre, água doce e marinho).

A pesquisa foi feita com bases nas listas oficiais do Ministério do Meio Ambiente, organizadas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e pelo Centro Nacional de Conservação da Flora do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (CNCFlora/JBRJ), de 4.617 espécies da flora e 12.262 espécies da fauna, respectivamente, dentre as mais de 166 mil (49.168 de plantas e 117.096 de animais) reconhecidas no país.

A Mata Atlântica foi o bioma com mais espécies ameaçadas: ao todo, pesquisadores encontraram 1.989, ou 25% do total das espécies avaliadas do bioma. Em seguida, vem o Cerrado, com 1.061 (19,7%).

estado de conservação da fauna e flora, 2014, por bioma

Mata Atlântica é o bioma na pior situação, mas Cerrado preocupa

Os dois hotspots brasileiros – conceito que estabelece que um bioma tem um alto número de espécies endêmicas e elevada perda de área natural – a Mata Atlântica e o Cerrado preocupam especialistas. No caso da primeira, observam-se perdas importantes na quantidade de área de cobertura natural ao longo dos séculos, devido a maior presença de ambientes antropizados, ou seja, onde houve ação humana, por conta do histórico de ocupação e urbanização, a partir do litoral, na formação do território brasileiro. Por exemplo, do total de espécies avaliadas da flora marinha nativa do bioma avaliadas, 32,7% (146) estão ameaçadas.

Já no Cerrado, o aumento da área antropizada é mais recente, crescendo nas últimas décadas. “A pesquisa mostra que há reflexo dessas ações na situação das espécies da fauna e da flora, após o bioma ter perdido metade da área de cobertura natural neste período”, afirma o coordenador da pesquisa, Leonardo Bergamini, citando o estudo Uso da Terra nos Biomas Brasileiros, publicado pelo IBGE em setembro.

O Cerrado também apresenta a segunda menor proporção de espécies na categoria “menos preocupante” (67,0%).

Pantanal e Amazônia têm resultados melhores na preservação das espécies

A lista dos biomas segue com a Caatinga, com 366 espécies ameaçadas (18,2%), e o Pampa, com 194 espécies em risco (14,5%). Este último é único bioma em que o ambiente de água doce tem uma proporção de espécies de animais ameaçadas maior do que o ambiente terrestre: 48 espécies, o que representa 8,4% das espécies de água doce avaliadas do Pampa, contra 5,4% no ambiente terrestre.

Na parte final do ranking, o Pantanal e a Amazônia têm as maiores proporções de espécies na categoria “menos preocupante” (88,7% e 84,3%, respectivamente) e, também, o menor percentual de espécies consideradas ameaçadas: 3,8% e 4,7%, nesta ordem. Em números absolutos, são 54 espécies ameaçadas no Pantanal e 278 na Amazônia.

Ao menos dez animais da fauna nativa já foram extintos

O estudo mostra também que o país já tem, ao menos, dez espécies da fauna nativa extintas: as aves Maçarico-esquimó (Numenius borealis), Gritador-do-nordeste (Cichlocolaptes mazarbarnetti), Limpa-folha-do-nordeste (Philydor novaesi), Peito-vermelho-grande (Sturnella defilippii), Arara-azul-pequena (Anodorhynchus glaucus), e Caburé-de-pernambuco (Glaucidium mooreorum); o anfíbio Perereca-verde-de-fímbria (Phrynomedusa fimbriata); o mamífero Rato-de-Noronha (Noronhomys vespuccii); e os peixes marinhos Tubarão-dente-de-agulha (Carcharhinus isodon), e Tubarão-lagarto (Schroederichthys bivius).

Além dessas, há mais uma espécie extinta na natureza e que atualmente depende de programas de reprodução em cativeiro: a ave Mutum-do-Nordeste (Pauxi mitu), nativa da Mata Atlântica.

Processo de avaliação das espécies demanda tempo, dados e recursos

São consideradas ameaçadas as espécies nas categorias ‘vulnerável’, ‘em perigo’ e ‘criticamente em perigo’. Bergamini explica que, para compor essa classificação, a metodologia abrange cinco critérios. “A redução da população é um deles. Ou seja, se determinada espécie perdeu entre 50% e 69% dos seus indivíduos em certo intervalo de tempo, ela será enquadrada na categoria ‘vulnerável’. Se for maior ou igual a 70%, estará na categoria ‘em perigo’, e assim por diante”, exemplifica. “Quem está no ‘quase ameaçado’, se nada for feito, pode entrar nas categorias de ameaçados”, completa o especialista.

Ainda quanto à metodologia do estudo, Bergamini explica o motivo da pesquisa abranger apenas 10% da fauna e 11% da flora. “O processo de avaliação é complexo, demanda tempo, dados e recursos. E como o número de espécies é muito alto, a opção dos institutos responsáveis para este primeiro estudo foi definir prioridades”. Um dos critérios utilizados para elaborar a lista da fauna foi a necessidade de pesquisar, desde já, todos os animais vertebrados e alguns invertebrados com interesse econômico ou propensão maior de ameaça de desaparecimento. Já no caso da flora, a lista das espécies foi baseada nas espécies em que constavam previamente em outras listas estaduais, nacionais ou na Lista Vermelha Global da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês).

O estudo Contas de Espécies Ameaçadas faz parte das Contas Econômicas Ambientais do IBGE e representa mais uma etapa do projeto de incluir os indicadores ambientais do país nas Contas Nacionais.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 06/11/2020

AUMENTO DO CALOR DOS RIOS ÁRTICOS ESTÁ DERRETENDO O GELO MARINHO E AQUECENDO A ATMOSFERA.

Aumento do calor dos rios árticos está derretendo o gelo marinho e aquecendo a atmosfera

Um novo estudo mostra que o aumento do calor dos rios árticos está derretendo o gelo marinho no Oceano Ártico e aquecendo a atmosfera.

Por Heather McFarland*
University of Alaska Fairbanks

O estudo publicado esta semana na Science Advances foi liderado pela Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia Marinho-Terrestre, com autores contribuintes nos Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos, Finlândia e Canadá.

De acordo com a pesquisa, os principais rios árticos contribuem significativamente com mais calor para o Oceano Ártico do que em 1980. O calor do rio é responsável por até 10% da perda total de gelo do mar que ocorreu de 1980 a 2015 na região da plataforma ártica Oceano. Esse derretimento é equivalente a cerca de 120.000 milhas quadradas de gelo de 1 metro de espessura.

“Se o Alasca fosse coberto por gelo espesso de 1 metro, 20% do Alasca teriam desaparecido”, explicou Igor Polyakov, co-autor e oceanógrafo do Centro Internacional de Pesquisa Ártica e do Instituto de Meteorologia Finlandês da Fairbanks da Universidade do Alasca.

Os rios têm o maior impacto durante o rompimento da primavera. A água quente despeja no Oceano Ártico coberto de gelo e se espalha abaixo do gelo, decompondo-o. Assim que o gelo marinho derrete, a água quente começa a aquecer a atmosfera.

A pesquisa descobriu que muito mais energia térmica do rio entra na atmosfera do que derrete o gelo ou aquece o oceano. Como o ar é móvel, isso significa que o calor do rio pode afetar áreas do Ártico distantes dos deltas dos rios.

Os impactos foram mais pronunciados no Ártico Siberiano, onde vários grandes rios fluem para a região da plataforma relativamente rasa que se estende por quase 1.600 quilômetros da costa. O rio Mackenzie, do Canadá, é o único rio grande o suficiente para contribuir substancialmente para o derretimento do gelo marinho perto do Alasca, mas os rios menores do estado também são uma fonte de calor.

Polyakov espera que o aumento da temperatura global do ar continue a aquecer os rios árticos no futuro. À medida que os rios esquentam, mais calor flui para o Oceano Ártico, derretendo mais o gelo marinho e acelerando o aquecimento do Ártico.

Os rios são apenas uma das muitas fontes de calor que agora aquecem o Oceano Ártico. Todo o sistema ártico está em um estado extremamente anômalo à medida que as temperaturas globais do ar aumentam e as águas quentes do Atlântico e do Pacífico entram na região, decaindo o gelo do mar mesmo no meio do inverno . Todos esses componentes trabalham juntos, causando ciclos de feedback positivo que aceleram o aquecimento no Ártico.

“É muito alarmante porque todas essas mudanças estão se acelerando”, disse Polyakov. “As mudanças rápidas são simplesmente incríveis na última década.”

Os autores do artigo incluem Hotaek Park, Eiji Watanabe, Youngwook Kim, Igor Polyakov, Kazuhiro Oshima, Xiangdong Zhang, John S. Kimball e Daqing Yang.

O financiamento para o componente de pesquisa de Polyakov foi fornecido pela National Science Foundation.

Este diagrama mostra a quantidade relativa de aquecimento causado pelos rios árticos, com as fontes de calor em laranja e os dissipadores de calor em turquesa. Na primavera, os rios deságuam no Oceano Ártico, aquecendo a água e derretendo o gelo marinho, que por sua vez aquece a atmosfera. Um feedback ocorre quando o gelo reflexivo desaparece, permitindo que a água escura do oceano absorva mais calor e derreta mais gelo marinho.
Este diagrama mostra a quantidade relativa de aquecimento causado pelos rios árticos, com as fontes de calor em laranja e os dissipadores de calor em turquesa. Na primavera, os rios deságuam no Oceano Ártico, aquecendo a água e derretendo o gelo marinho, que por sua vez aquece a atmosfera. Um feedback ocorre quando o gelo reflexivo desaparece, permitindo que a água escura do oceano absorva mais calor e derreta mais gelo marinho.

Gráfico adaptado do artigo da Science Advances.

Referência:

Increasing riverine heat influx triggers Arctic sea ice decline and oceanic and atmospheric warming
BY HOTAEK PARK, EIJI WATANABE, YOUNGWOOK KIM, IGOR POLYAKOV, KAZUHIRO OSHIMA, XIANGDONG ZHANG, JOHN S. KIMBALL, DAQING YANG
Science Advances 06 Nov 2020:
Vol. 6, no. 45, eabc4699
DOI: 10.1126/sciadv.abc4699
https://advances.sciencemag.org/content/6/45/eabc4699

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 07/11/2020 

MUDANÇAS CLIMÁTICAS E A DEMANDA POR ALIMENTOS PODEM REDUZIR OS HABITATS NATURAIS EM QUASE UM QUARTO.

 

agricultura mecanizada

Mudanças climáticas e a demanda por alimentos podem reduzir os habitats naturais em quase um quarto

Mamíferos, pássaros e anfíbios em todo o mundo perderam em média 18% de sua área de habitat natural como resultado de mudanças no uso da terra e mudanças climáticas, concluiu um novo estudo. Na pior das hipóteses, essa perda poderia aumentar para 23% nos próximos 80 anos.

University of Cambridge*

O estudo, publicado hoje na revista Nature Communications , analisou mudanças na distribuição geográfica de 16.919 espécies de 1700 até os dias atuais. Os dados também foram usados para prever mudanças futuras até o ano 2100 em 16 cenários climáticos e socioeconômicos diferentes.

Uma abundância diversificada de espécies sustenta as funções essenciais do ecossistema, desde a regulação de pragas até o armazenamento de carbono. A vulnerabilidade das espécies à extinção é fortemente impactada pelo tamanho de sua distribuição geográfica, e o desenvolvimento de estratégias eficazes de conservação requer uma melhor compreensão de como as áreas de distribuição mudaram no passado e como irão mudar em cenários futuros alternativos.

“O tamanho do habitat de quase todas as aves, mamíferos e anfíbios conhecidos está diminuindo, principalmente por causa da conversão de terras pelos humanos à medida que continuamos a expandir nossas áreas agrícolas e urbanas”, disse o Dr. Robert Beyer, do Departamento de Zoologia da Universidade de Cambridge, primeiro autor do relatório.

Algumas espécies são mais impactadas do que outras. Preocupantes 16% das espécies perderam mais da metade de sua distribuição histórica natural estimada, um número que pode aumentar para 26% até o final do século.

A distribuição geográfica das espécies diminuiu recentemente de forma mais significativa nas áreas tropicais. Até cerca de 50 anos atrás, a maior parte do desenvolvimento agrícola estava na Europa e na América do Norte. Desde então, grandes áreas de terra foram convertidas para a agricultura nos trópicos: desmatamento de floresta tropical para plantações de dendezeiros no Sudeste Asiático e para pastagens na América do Sul, por exemplo.

À medida que os humanos movem suas atividades para os trópicos, o efeito nas áreas de distribuição de espécies está se tornando desproporcionalmente maior por causa de uma maior riqueza de espécies nessas áreas e porque as áreas naturais dessas espécies são menores para começar.

“Os trópicos são hotspots de biodiversidade com muitas espécies de pequeno porte. Se um hectare de floresta tropical é convertido em terras agrícolas, muito mais espécies perdem grandes proporções de suas casas do que em lugares como a Europa ”, disse Beyer.

Os resultados preveem que as mudanças climáticas terão um impacto crescente na distribuição geográfica das espécies. O aumento das temperaturas e a mudança nos padrões de chuva irão alterar os habitats significativamente, por exemplo: outros estudos previram que, sem ação climática, grandes partes da Amazônia podem mudar de floresta tropical de dossel para uma mistura de floresta e pastagem aberta como a savana nos próximos 100 anos.

“As espécies na Amazônia se adaptaram para viver em uma floresta tropical. Se a mudança climática fizer com que este ecossistema mude, muitas dessas espécies não serão capazes de sobreviver – ou pelo menos serão empurradas para áreas menores de floresta tropical remanescente ”, disse Beyer.

Ele acrescentou: “Descobrimos que quanto mais altas as emissões de carbono, pior fica para a maioria das espécies em termos de perda de habitat”.

Os resultados fornecem suporte quantitativo para medidas políticas que visam limitar a área global de terras agrícolas – por exemplo, intensificando a produção de alimentos de forma sustentável, encorajando mudanças na dieta para comer menos carne e estabilizando o crescimento populacional.

A conversão de vegetação natural em terras agrícolas e urbanas e a transformação de habitat adequado causada pelas mudanças climáticas são as principais causas do declínio nos tamanhos de alcance e duas das ameaças mais importantes para a biodiversidade terrestre global.

“Se essas tendências passadas nas perdas de habitat vão reverter, continuar ou acelerar, dependerá das futuras emissões de carbono globais e das escolhas sociais nos próximos anos e décadas”, professora Andrea Manica, do Departamento de Zoologia da Universidade de Cambridge, que liderou o estudo .

Ele acrescentou: “Embora nosso estudo quantifique as consequências drásticas para a distribuição das espécies se o uso global da terra e as mudanças climáticas não forem controlados, eles também demonstram o enorme potencial de ação política oportuna e concertada para interromper – e de fato reverter parcialmente – tendências anteriores em intervalo de contrações. Tudo depende do que fizermos a seguir. ”

Esta pesquisa foi apoiada pelo Conselho Europeu de Pesquisa.

Referência:

Beyer, R.M. & Manica, A.: ‘Historical and projected future range sizes of the world’s mammals, birds and amphibians’. Nature Communications, Nov 2020. DOI: 10.1038/s41467-020-19455-9
http://dx.doi.org/10.1038/s41467-020-19455-9

 

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 07/11/2020

A PANDEMIA BATE RECORDE NOS EUA E TRUMP PERDE AS ELEIÇÕES.

 A pandemia bate recorde nos EUA e Trump perde as eleições

“O significado da vida é que algum dia ela acaba”

Franz Kafka (1883-1924)

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

[EcoDebate] Os resultados das eleições americanas do dia 03 de novembro de 2020 ficaram incertos por quatro dias, geraram muita ansiedade, mas houve um desfecho festivo no fim de semana com a derrota de Donald Trump e a vitória de Joe Biden e Kamala Harris.

Pela primeira vez os EUA elegem uma mulher para a vice-presidência e uma mulher com ascendência de pais imigrantes vindos da Jamaica e da Índia (garantindo a presença da diversidade negra e asiática no poder).

Como mostrei em artigo recente (ALVES, 30/09/2020), os fundamentos da economia dos EUA estão abalados com a maior recessão em um século, com aumento do déficit público, elevação exponencial da dívida pública e aumento do desemprego.

Mas a prioridade número 1 é vencer a pandemia e garantir a saúde das pessoas, como ressaltou o presidente eleito.

O gráfico abaixo mostra que os EUA vivem a 3ª onda da covid-19 e cada afluxo tem sido maior do que o anterior. Na 1ª onda, a média móvel de 7 dias atingiu o pico de 32.600 casos em 24 horas. Na 2ª onda, a média móvel chegou ao segundo pico de 70 mil casos em 24 horas. Na 3ª onda, a média móvel continua subindo e já atingiu o montante de 107 mil casos em 24 horas. No dia 06/11 o número de casos chegou à impressionante cifra de 132 mil pessoas infectadas em um dia, recorde absoluto entre todos os países.

gráfico abaixo mostra que os EUA vivem a 3ª onda da covid-19 e cada afluxo tem sido maior do que o anterior

O gráfico abaixo mostra a média móvel das mortes da covid-19 nos EUA. Os recordes aconteceram na 1ª onda com média de 2.250 vidas perdidas em 24 horas e com o máximo de 2.744 óbitos no dia 21 de abril. Na 2ª onda, a média móvel bimodal chegou ao valor de 1.181 vítimas fatais em 24 horas. Na 3ª onda, a média móvel continua subindo e já atingiu o montante de 1.000 óbitos em 24 horas. No dia das eleições americanas (03/11) aconteceram 1.200 mortes pelo novo coronavírus.

gráfico abaixo mostra a média móvel das mortes da covid-19 nos EUA

Portanto, a principal prioridade de Biden-Harris é controlar a pandemia da covid-19. Sem resolver o problema da emergência sanitária não há como resolver outros problemas econômicos, sociais e ambientais.

A segunda prioridade é a geração de emprego. Como mostram os gráficos abaixo a pandemia gerou uma recessão que provocou mais de 20 milhões de pessoas desempregadas, com uma taxa de desemprego de cerca de 15% no segundo trimestre de 2020. A taxa diminuiu para 6,9% no terceiro trimestre, mas é um número muito alto e que pode subir diante da 3ª onda da pandemia no inverno que se aproxima. O democrata promete um pacote fiscal de mais US$ 3 trilhões para acelerar um plano de investimentos em infraestrutura previstos para os próximos 10 anos.

os gráficos abaixo a pandemia gerou uma recessão que provocou mais de 20 milhões de pessoas desempregadas

Mas a dupla Biden-Harris vai ter que lidar com a guerra comercial entre EUA-China, com a guerra tecnológica pela implementação da rede de 5G, recolocar os EUA no Acordo de Paris, adotar medidas contra o aquecimento global, viabilizar a aceleração do processo de transição da matriz energética e resolver os problemas de desigualdade social e racial e restaurar os mecanismos de cooperação multilateral. Os desafios não são pequenos.

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referência:

ALVES, JED. Déficit, dívida pública e crise da democracia nos EUA, Ecodebate, 30/09/2020

https://www.ecodebate.com.br/2020/09/30/deficit-divida-publica-e-crise-da-democracia-nos-eua/

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 09/11/2020