quarta-feira, 18 de novembro de 2020

MULHERES SÃO MAIS DE 30% DAS CANDIDATURAS DAS ELEIÇÕES 2020.

Mulheres são mais de 30% das candidaturas das eleições 2020

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

[EcoDebate] O Brasil sempre foi um dos países mais desiguais do mundo, apresentando grandes iniquidades de gênero ao longo da história, pois as mulheres eram relegadas à condição de cidadãs de segunda classe. No período colonial, a economia de base agrária e primária, tinha como fundamento a grande propriedade rural, a mão-de-obra escrava, a família tradicional, o analfabetismo, o patrimonialismo, além de estruturas hierarquizadas e pouco democráticas de poder. Esta estrutura pouco diversificada e excludente não oferecia autonomia e nem oportunidades de emprego extra doméstico para a grande maioria das mulheres. A cidadania feminina era restrita. O Código Civil de 1916 consolidou, na lei, a superioridade e a preeminência masculina, definindo o marido como chefe da sociedade conjugal (Pátrio Poder), além de legitimar os princípios de uma sociedade androcêntrica.

Todavia, a aceleração do processo de urbanização, industrialização e modernização, a partir da chamada Revolução de 1930, possibilitaram que as mulheres brasileiras conquistassem diversas vitórias nas mais diferentes esferas sociais. Nas últimas décadas o progresso das mulheres ocorreu em diferentes níveis: obtiveram o direito de voto em 1932; passaram a ser maioria da população a partir da década de 1940; atingiram a maioria do eleitorado em 1998; reduziram as taxas de mortalidade, elevaram a esperança de vida e já vivem, em média, sete anos acima da média masculina; ultrapassaram os homens em todos os níveis educacionais; aumentaram as taxas de participação no mercado de trabalho, diminuíram os diferenciais salariais e são maioria da População Economicamente Ativa (PEA) com mais de 11 anos de estudo; conquistaram duas das três medalhas de ouro do Brasil nas Olimpíadas de Pequim (2008) e Londres (2012); são maioria dos beneficiários da previdência e dos programas de assistência social, conquistaram a igualdade legal de direitos na Constituição de 1988 e obtiveram diversas vitórias específicas na legislação nacional; inclusive, chegaram à presidência do Supremo Tribunal Federal (Ellen Gracie em 2006) e à presidência da República (Dilma Rousseff nas eleições de 2010 e 2014).

Porém, a despeito de todas conquistas integrais ou parciais, a exclusão feminina no Poder Legislativo continua. No ranking internacional da IPU – Inter-Parliamentary Union – o Brasil ocupa a vergonhosa posição de 143º lugar da participação feminina (com 15%) na Câmara Federal. O Brasil perde para países como Ruanda (61,3%), Bolívia (53,1%), Moçambique (42,4%), Afeganistão (27%), etc.

O eleitorado já deu provas que pode sufragar candidaturas femininas competitivas, não se tratando portanto, de considerar simplesmente o eleitor machista ou patriarcal. A literatura indica que a melhor explicação para a baixa representação feminina no parlamento ocorre devido a dois motivos: 1) o tipo de sistema político/eleitoral do país e a forma como foi redigida a política de cotas; 2) a permanência de práticas misóginas dos partidos políticos que, monopolizados pelos homens, centralizam o poder partidário e a distribuição dos recursos das campanhas.

Fazendo um breve histórico da política de cotas de gênero no Brasil, tem-se como marco a decisão do Congresso Nacional – logo após a 4ª Conferência Mundial das Mulheres ocorrida em Beijing (de 1995) – em adotar uma política de cotas para tentar reverter a exclusão das mulheres brasileiras da política parlamentar. A Lei 9.100 de 29 de setembro de 1995, no § 3º do artigo 11º estabelecia o seguinte:

“Vinte por cento, no mínimo, das vagas de cada partido ou coligação deverão ser preenchidas por candidaturas de mulheres”.

Porém, o número candidaturas subiram de 100% para 150% do número de vagas a preencher pelos partidos, significando que houve possibilidade de aumento das candidaturas masculinas. E o pior, o partido era obrigado a reservar os 20% das vagas (posteriormente passou para 30%), mas não era obrigado a preenchê-las.

Dois anos depois houve a aprovação de uma nova Lei eleitoral. O parágrafo terceiro do artigo 10º da Lei 9.504, de 30 de setembro de 1997 ficou assim redigido:

“Do número de vagas resultantes das regras previstas neste artigo, cada partido ou coligação deverá reservar o mínimo de trinta por cento e o máximo de setenta por cento para candidaturas de cada sexo”.

A nova redação da política de cota possibilitou contornar os questionamentos da inconstitucionalidade do mecanismo anterior e deu um caráter mais universalista à política de cotas, dando o mesmo tratamento para os dois sexos. A nova ação afirmativa garantiu o respeito ao princípio “todos são iguais perante a lei” e apenas estabeleceu regras de representação, ou seja, um mínimo de 30% e um máximo de 70% para cada sexo.

Porém, assim como na Lei 9100, a nova redação não garantiu o preenchimento das candidaturas femininas. Os partidos reservavam o piso dos 30% para as mulheres e respeitavam o teto de 70% para os homens, mas não preenchiam as vagas femininas. Na prática, a exclusão feminina continuou, pois os partidos políticos continuaram com suas práticas excludentes, mantendo a desigualdade de gênero nas disputas eleitorais.

Para forçar os partidos a respeitarem o espírito da Lei de Cotas visando aumentar o número de mulheres candidatas e aumentar a equidade de gênero nas listas de candidaturas, e após ampla pressão dos setores progressistas da sociedade, houve uma nova mudança na legislação. Na Lei 12.034, de 29/09/2009, a nova redação da política de cotas ficou assim redigida:

“Do número de vagas resultante das regras previstas neste artigo, cada partido ou coligação preencherá o mínimo de 30% (trinta por cento) e o máximo de 70% (setenta por cento) para candidaturas de cada sexo”.

A alteração pode parecer pequena, mas a mudança do verbo “reservar” para “preencher” significou uma mudança no sentido de forçar os partidos a presença das mulheres nas nominatas eleitorais. O ideal é que fosse garantido a paridade de gênero (50% para cada sexo) nas listas de candidaturas. Mas a mudança na redação da lei representou uma oportunidade, mesmo que limitada. A aplicação da Lei 12.034/2009 garantiu o aumento do número de candidaturas femininas nas eleições de 2010, 2012, 2014 e 2018

A conquista feminina mais recente ocorreu em 2018, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, por maioria de votos, que a distribuição de recursos do Fundo Partidário destinado ao financiamento das campanhas eleitorais direcionadas às candidaturas de mulheres deve ser feita na exata proporção das candidaturas de ambos os sexos, respeitado o patamar mínimo de 30% de candidatas mulheres previsto no artigo 10 , parágrafo 3º, da Lei 9.504/1997.

Ou seja, para as eleições de 2020, os partidos são obrigados a preencher a cota mínima de 30% para as candidaturas de cada sexo e, também, destinar no mínimo 30% dos recursos financeiros. O resultado é inequívoco, pois já houve aumento do percentual de candidaturas femininas. O gráfico abaixo mostra que a percentagem de mulheres candidatas nas eleições municipais do ano 2000 foi de 18,8% (bem abaixo da cota de 30%). O percentual de candidatas subiu um pouco nas duas eleições seguintes (21,4%), mas só chegou ao percentual de 30% nas eleições de 2012 (após a Lei 12.034, de 29/09/2009). As eleições de 2020 apresentam o maior percentual de candidaturas femininas de todos os tempos (33,5%).

número e percentagem de candidaturas masculinas e femininas no Brasil: 2000 a 2020

Entre 2000 e 2020, o número de homens candidatos nas eleições municipais aumentou 8% (de 323 mil para 349 mil) e o número de mulheres candidatas aumentou 135% (de 75 mil para 177 mil). A expectativa é que mais mulheres candidatas resulte em mais mulheres eleitas. Mas claro que existem muitas barreiras visíveis e invisíveis.

Tudo indica que as mulheres terão mais sucesso em 2020 do que em eleições anteriores. Resta saber o grau de uma provável vitória, pois a conquista da paridade de gênero ainda está distante no horizonte.

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/11/2020 

O CRESCIMENTO DA POPULAÇÃO MUNDIAL NÃO É A PRINCIPAL AMEAÇA AO PLANETA.

 artigo

O Crescimento da População Mundial não é a Principal Ameaça ao Planeta

Artigo de Tomás Togni Tarquinio

[EcoDebate]

Correntes da ecologia política de países ricos voltam a considerar o crescimento exponencial da população mundial como uma ameaça à habitabilidade do planeta. A ponto de pessoas renunciarem a ter filhos como contribuição para a causa ecológica.

O excesso de habitantes esteve ausente das discussões nos últimos 50 anos, desde a controvérsia entre Barry Commoner e Paul Ehrlich, em 1968, e da edição do livro “Os Limites do Crescimento”, em 1972. Mesmo recentemente, o tema não foi lembrado durante a COP-21, Conferencia de Paris de 2015, quando 190 países chegaram ao consenso de que a temperatura média do planeta não deve ultrapassar 2ºC até o final do Século XXI.

A percepção que a desregulação ecológica planetária está cada vez mais aguda abriu espaço para o fortalecimento de hipóteses acerca do colapso de nossa sociedade termo industrial, do decrescimento econômico e do controle demográfico mundial. Bem como consolidou a convicção de que as transformações ecológicas e ambientais não são mais ameaças para as futuras gerações, como a ecologia política supunha há 15 anos, mas são fenômenos em curso, embora se desconheça a intensidade e progressividade da evolução. As mudanças climáticas avançam mais rapidamente do que as previsões e os efeitos constatados são mais graves, agudos e extremos. As projeções iniciais do Painel Intergovenamental de Mudanças Climáticas (IPCC) ficaram aquém da realidade (nível dos oceanos, degelo da banquisa e do permafrost, retroação positiva, etc.).

O emprego do termo desregulação ecológica é mais apropriado do que crise ecológica, uma vez que o planeta caminha irreversivelmente em direção a outro equilíbrio, que desconhecemos, enquanto que a palavra crise supõe retorno ao “status quo ante”.

Se há consenso sobre a impossibilidade de manter uma expansão demográfica exponencial em um mundo finito, pois a terra tem apenas 13 mil quilômetros de diâmetro, distância entre Montevidéu e Paris, isso não significa que a superpopulação seja uma questão ecológica central, prioritária. Ainda que a evolução dos números seja inquietante.

De fato, foram necessários 130 anos para que a população mundial passasse de 1,0 bilhão de indivíduos, em 1800, para 2,0 bilhões de habitantes, em 1930. Em seguida, 33 anos para alcançar 3,0 bilhões. Após 1960, houve aumento de 1,0 bilhão de habitantes a cada 13 anos, aproximadamente. Hoje, o planeta abriga 7,7 bilhões de pessoas, embora a taxa de crescimento da população mundial diminua regularmente desde 1970 (Quadro I).

QUADRO I

População mundial entre 1750 e 2100 e taxa de crescimento em %

População mundial entre 1750 e 2100 e taxa de crescimento em %

Por essa razão, as teses de Thomas Malthus voltaram à superfície com andrajos extraídos da crise ecológica. De fato, o excesso demográfico agrava os problemas ecológicos e ambientais, além de problemas sobejamente conhecidos como a expansão de favelas e megalópoles. No entanto, a interface entre população e degradação ambiental é muito mais complexa, pouco conhecida, gera controvérsias, envolve vários domínios do saber, muito dos quais não dispondo ainda de instrumentos de análise adequados.

Pelo menos dois aspectos geram controvérsias no campo da ecologia política. O primeiro é relativo ao número de habitantes que o planeta pode comportar. O segundo remete às propostas de redução da população mundial.

Análises prospectivas, quanto a capacidade de suporte da Terra, variam de 1,0 bilhão a 15 bilhões de habitantes. No primeiro caso, supõe-se que o planeta abrigaria uma população com padrão de vida material semelhante ao que hoje existe nos países ricos. No segundo caso, a população teria um nível de vida material sóbrio, compartilharia os recursos naturais e tecnologias com parcimônia e seria menos urbana.

É impossível vislumbrar quais serão as características dessas sociedades futuras demograficamente equilibradas, quais tecnologias utilizarão, se a produção e o consumo serão destinados apenas ao essencial e necessário, ou se haverá abundância material em proveito de uma população reduzida. Estamos muito longe de formular um esboço tangível do que será uma sociedade futura descarbonizada, movida por energias renováveis, que limite a perda de biodiversidade, que seja moderada no uso de recursos renováveis e não renováveis, capaz de recuperar os meios naturais degradados e com número de habitantes compatível. São especulações sobre o porvir sem possibilidades de comprovação.

As correntes da ecologia política que consideram a superpopulação como uma variável central ignoram inúmeros componentes que causam o processo de degradação da natureza. A incompreensão simplista as conduz a designar grupos humanos como estando em demasia no planeta. Trata-se de uma postura no mínimo abjeta, quando não racista, segregacionista e excludente. Não hesitam em apontar habitantes do continente africano e de países asiáticos como séria ameaça.

Utilizam o aumento numérico da população como único critério. Argumentam que é preciso reduzir o número de habitantes dos países que apresentam taxas de natalidade elevadas, leia, pobres. Ou seja, os países cujas emissões de gases de efeito estufa (GEE) e o consumo de massa são pouco significativos. E as mulheres seriam, evidentemente, o principal alvo da planificação familiar. Não lhes vem ao espírito vasectomizar os varões ricos. Abreviando, trata-se de visão estreita que aponta o outro como sendo excedente no planeta. “L’enfer c’est l’autre!”, parafraseando Sartre.

Ora, é inegável que existe uma correlação entre população e as pressões que ela exerce sobre o meio natural. Mas, as degradações são resultantes de diversas variáveis interdependentes, de outras grandezas mais relevantes do que a demográfica. Por exemplo, de 1800 até 2015, a população mundial aumentou por um fator da ordem de 6,5 vezes. Mas, o consumo de energia aumentou por um fator 50 vezes, enquanto que o capital por 134 vezes.

Os impactos negativos das atividades humanas (indústria, agricultura, transporte, energia…) sobre o meio natural vivo e inanimado (água, ar, solos, fauna, flora, ecossistemas…) dependem de variáveis como, o número de habitantes, as diversas formas de produção e consumo de bens e serviço (riqueza), a tecnologia, entre outras. Além do mais, as formas de produzir e consumir provocam impactos negativos muito diferenciados. Por exemplo, os danos ao ar, água, solo, etc. causados por um curtume não são os mesmos ocasionados pela siderurgia, pecuária, internet, refrigeração… Além disso, é necessário considerar dois importantes fatores: o alcance geográfico do dano e a magnitude, amplitude ou dimensão da degradação.

No final dos anos 1960, a querela Commoner versus Ehrlich, deu origem a equação I=PAT, na qual I (danos), é igual ao produto de P (população), por A (riqueza) e por T (tecnologia). No entanto, essa equação é insuficiente para avaliar as degradações.

Do ponto de vista geográfico, um dano ecológico pode ser local, regional ou global. Uma árvore cortada no quintal provoca um impacto local. Mas, a destruição de um bioma florestal como a Amazônia (ecossistemas de grandes zonas biogeográficas submetidas a um clima particular) provoca um dano global. Um veículo movido a motor térmico, ao percorrer 100 metros, ocasiona tanto uma degradação local e/ou regional, quanto global. Dano global, porque a combustão de energia fóssil emite dióxido de carbono (CO2), gás de efeito estufa (GEE) não tóxico responsável pelo aquecimento global. Local e/ou regional, porque a combustão emite diversos poluentes e partículas tóxicas de efeito circunscrito, como o SO2, NOx, PM2.5, COV, CH4, CO, Pb, Hg… A conhecida poluição do ar que afeta aglomerações urbanas e industriais, responsável por 8,8 milhões de óbitos anuais no mundo.

A magnitude ou dimensão dos danos ao meio natural é um fator extremamente importante. A degradação pode ser reparável, ou regenerável, como no caso de uma árvore abatida que pode ser substituída por outra, como também pode ser irreversível, irreparável, como no caso do CO2, principal GEE lançado por motores térmicos, substância cumulativa que perdura séculos na atmosfera. Também, a aniquilação de um bioma terrestre ou aquático e a perda de biodiversidade têm caráter irremediável, irremissível. A sociedade termo industrial, infelizmente, caminha rapidamente em direção dessa irreversibilidade.

Um outro aspecto a ser considerado reside no fato de que os seres humanos não são iguais face às pressões que eles mesmo exercem sobre a natureza. Um caçador coletor de uma tribo isolada da Amazônia não provoca o mesmo tipo de dano que um banqueiro de Wall Street. Não é necessário um desenho para compreender essa afirmação, “ça va de soi”. Como, também, não são iguais diante dos sofrimentos ocasionados pelas degradações. Por exemplo, o impacto negativo do aquecimento global sobre o modo de vida da etnia Tuaregue é muito mais grave e intenso do que o suportado pela população do Quartier Latin; embora a contribuição dessa última para o aquecimento global seja superior a produzida pelos berberes nômades do Saara. Na realidade, os danos provocados pelas atividades humanas são bastantes diferentes, variam segundo as características dos grupos humanos, de seus modos de vida, do que e de como produzem e consomem, de como se alimentam, divertem, transportam, habitam, vestem, rezam, etc.

Por essas razões, constatar que há relação entre a população e a pressão que a população exerce sobre a natureza não autoriza nenhuma corrente da ecologia política afirmar que determinado grupo social está em demasia no planeta. Nem tampouco assinalar qual grupo merece permanecer sobre a face da Terra. Do ponto de vista ético e filosófico, ecológico e político não existe ninguém que esteja em sobre número no globo terrestre.

Como também foi assinalado, o impacto nocivo depende dos recursos empregados e de sua apropriação. Assim, quanto maior for o volume de matérias primas e de energia empregadas para satisfazer as necessidades de uma população, mais intensa será a transformação operada na natureza. A energia é uma grandeza física com a propriedade de modificar o estado de um sistema. Ela altera a temperatura de um recinto, a forma de um objeto, a velocidade de um corpo, a composição da matéria, etc. Quanto mais energia for empregada em um sistema, maior será a transformação desse sistema. Em consequência, quanto mais energia for injetada para produzir e consumir bens e serviços, maior será a transformação provocada no meio natural biótico e abiótico. E hoje, infelizmente, nós injetamos uma quantidade de energia superior ao que o sistema terrestre pode absorver.

As medidas de energia e de emissões de GEE, entre outras de cunho físico, químico e biológico, são excelentes indicadores das pressões que a humanidade exerce sobre o meio natural. São índices muito superiores aos econômicos que se revelam inadequados para avaliar as enormes transformações ecológicas.

A sociedade termo industrial, iniciada com a invenção da máquina a vapor, em 1777, alcançou um elevado nível de intervenção na biosfera, atmosfera, litosfera, hidrosfera/criosfera. Em apenas 150 anos, houve intensificação brutal dos níveis de interferência no meio natural – fenômeno jamais ocorrido desde o surgimento do gênero Homo, nossos ancestrais. Ao mesmo tempo, nunca se produziu tanta riqueza, tantos bens e serviços como nesse curto período da História.

Porém, nem toda a população da Terra desfruta da riqueza construída pela sociedade termo industrial. Apenas uma parte está integrada a ela. A população mundial que desfruta da sociedade de consumo de massa é hoje da ordem de 4,8 bilhões de indivíduos, sobre um total de 7,7 bilhões de habitantes. Em 1980, ela era em torno de 1,8 bilhão de pessoas, para uma população total de 4,5 bilhões. Foram absorvidos 3,0 bilhões de habitantes em 40 anos. Fato que explica o elevado grau de degradação que hoje afeta o meio natural.

A humanidade está diante de um impasse insolúvel: manter a população já integrada e, ao mesmo tempo, estender a inserção ao restante excluído, mas sem intensificar a transformação do meio natural. Estamos diante de uma impossibilidade determinada pelas leis da natureza. A integração já alcançada foi suficiente para acender a luz vermelha de todos os indicadores ambientais que crescem exponencialmente (biológicos, químicos, hídricos, físicos, produtivos, geológicos, minerais, energéticos e o escambau). Basicamente, a população integrada a sociedade termo industrial é a principal responsável pelas grandes modificações, com diferentes graus de inserção.

O consumo de energia primária e as emissões de GEE, particularmente do CO2, são preciosos indicadores da desregulação ecológica.

O consumo anual médio de energia primária de um habitante dos Estados Unidos é de 6,9 toneladas equivalente petróleo (TEP/habitante/ano). O de um habitante da Europa Ocidental é inferior a 4,0 TEP/habitante/ano. Ou seja, o consumo de um europeu é 42% inferior ao de um norte-americano. Mas, o nível de vida material de ambos é semelhante. Portugal, por exemplo, dispõe de indicadores sociais melhores do que os dos Estados Unidos, não obstante dispor de um PIB per capita 65% inferior e consumir 2,1 TEP/habitante/ano. Portanto, há muito espaço para redução do consumo de energia. O Brasil consome 1,6 TEP/habitante/ano.

Mas, a diferença é gritante quando comparamos aos países pobres. O consumo médio de um habitante do Bangladesh é de 0,25 TEP/habitante/ano (73% dos habitantes são rurais). O país abriga metade da população dos Estados Unidos e cada habitante consome 28 vezes menos energia do que um norte-americano.

O mesmo ocorre com as emissões de CO2 de origem antrópica, o principal GEE. Segundo Oxfam (2020), os 10% mais ricos do planeta emitiram 52% do total de CO2 acumulado na atmosfera entre 1990 e 2015. Refinando a análise, o 1% mais rico é responsável por 15% das emissões de CO2 acumuladas. Enquanto que os 50% mais pobres respondem por apenas 7% das emissões de CO2 acumuladas; ou seja, contribuíram para o aquecimento global com a metade das emissões do 1% mais abastado. Isto posto, não é absurdo afirmar que se a população mais pobre não existisse, o aquecimento global continuaria imperturbavelmente sua nefasta trajetória ascendente. A emissão total mundial de CO2, em 2017, foi de 37 giga toneladas (Gt).

Comparativamente, as degradações causadas pela sociedade termo industrial são muito superiores às provocadas pela agricultura camponesa mundial. A população agrícola (moderna e tradicional) é o contingente mais numeroso de trabalhadores do planeta: em torno de 2,8 bilhões de habitantes, 38% da população mundial. A maior parte prática a pequena produção agrícola camponesa, vive em autarquia, são sistemas de produção autônomos com poucas trocas com o exterior. Esse grupo pertence aos 50% mais pobres da população mundial.

A atividade agrícola, moderna e tradicional, responde por algo em torno de 30% das emissões totais mundiais de GEE (CO2, CH4, N2O). Sendo que, 20% do total mundial provém essencialmente da agricultura e da pecuária moderna (fermentação entérica de ruminantes, adubos de síntese, esterco, rizicultura, máquinas e equipamentos), enquanto que os outros 10% provém da modificação do uso do solo (queimadas, desmatamento, extensão da fronteira agrícola), basicamente resultantes do processo de transformação de ecossistemas naturais diversificados (florestas, cerrados, savanas), compostos por uma diversidade de espécies animais e vegetais, em ecossistemas artificiais, antrópicos mono-específicos. Os espaços naturais são e estão sendo reduzidos em proveito de culturas de grãos e pastagens, atividades agrícolas modernas intensivas em máquinas, insumos, energia (uma das razões do desaparecimento de 60% do número de indivíduos da fauna selvagem de vertebrados entre 1970 e 2014).

No tocante a superfície mundial destinada a agricultura, a produção de alimentos para os animais ocupa 77% da área total (culturas de grãos e pastagens). Os 23% restantes são destinadas a alimentação humana. Mas, a produção animal responde por apenas 18% das calorias e 37% das proteínas mundiais. A maior parte dos grãos produzidos no mundo são destinados à alimentação de animais (ruminantes, suínos, aves, peixes, etc.) e são produzidos basicamente pela agricultura moderna.

Mas, a eficiência dessa cadeia trófica muito baixa. Grosso modo, um bovino, se for considerado como uma máquina, seria um instrumento de transformar biomassa vegetal em biomassa animal. Mas, com um rendimento reduzido, da ordem de 10% no caso dos ruminantes. Em outros termos, o animal ingere dez quilos de biomassa vegetal (grãos e ervas), em matéria seca, para convertê-la em apenas um quilo de biomassa animal (carne e derivados), em matéria seca. O saldo de nove quilos é transformado em excremento e calor. A pecuária intensiva e moderna alimenta os bichos com rações compostas em 80% por grãos (soja, trigo, aveia, milho e outros) e um pouco de erva. Portanto, uma dieta alimentar humana mais fundada em vegetais reduziria, ao mesmo tempo, o espectro da falta de alimentos e as emissões de GEE.

Quanto às características geográficas e a magnitude dos danos provocados pelas práticas de produção camponesa, elas são fundamentalmente reparáveis, locais e regionais. A principal fonte de energia primária consumida é a biomassa vegetal, energia renovável. Convém destacar que cerca de 1,0 bilhão de agricultores não dispõem de eletricidade. O emprego de energias fósseis é irrisório. A moto mecanização é incipiente, bem como o uso de adubos fósseis, agrotóxicos e outros insumos. A poluição do solo, água e ar é orgânica, raramente química ou física de difícil absorção pelo meio natural. Os principais danos ocasionados por essa atividade tradicional afetam a biodiversidade vegetal e animal e podem ser reparadas, controladas, minimizadas, contrariamente aos GEE que são cumulativos na atmosfera.

Quadro II

O consumo anual mundial de todas as fontes de energia primária

O consumo anual mundial de todas as fontes de energia primária é da ordem de 14 G/TEP (Quadro II), dos quais 83%, aproximadamente, são fósseis (petróleo: 32%; carvão: 30%; gás natural: 21%). O nuclear e a hidroeletricidade respondem por 4% cada. A biomassa por 6%. As renováveis, solar, eólica e outras estão em torno de 1%. Conter o aquecimento global e as mudanças climáticas significa substituir e reduzir a parte das energias fósseis – esteio da modernidade e de sua opulência. Basta constatar que, entre outros aspectos, que o consumo de petróleo mundial per capita é de 2 litros por dia, superior ao consumo de água potável por habitante.

Para conter o aquecimento global em 2ºC no final do século, será necessário reduzir o uso de energia fóssil em 50%, até 2050. Isso significa reduzir em torno da metade o consumo mundial per capita de energia primária (1,9 TEP/ano) e as emissões de GEE (no caso do CO2 4,8 ton./ano). Para conter o aquecimento global em 2°C no final do Século XXI, as emissões globais de GEE devem ser reduzidas pela metade, até 2050. Nos restam apenas 30 anos para efetuar essa transição energética e ecológica.

A responsabilidade pela preservação dos equilíbrios do meio natural é comum a todos habitantes do planeta. Porém, essa responsabilidade é diferenciada e não se estende apenas às populações dos países ricos. Ela deve também alcançar os grupos sociais ricos dos países pobres. Os segmentos da população que se apropriam da maior quantidade e volume de matérias primas e de energia são os principais agentes da desregulação ecológica. É necessário reduzir o uso desse substrato natural sobre o qual repousa a qualidade de vida material de parte da população. Trata-se da questão ecológica central para conter o aquecimento global, fenômeno que exige medidas muito mais urgentes do que controle da população, ainda que a sua redução ou estabilização seja necessária.

A humanidade está diante de uma impossibilidade física, química, biológica de manter o padrão de produção e consumo e ao mesmo tempo dar continuidade ao processo de inserção dos 3,0 bilhões de habitantes à sociedade termo industrial.

Hoje, a temperatura média do planeta está apenas 1°C acima da temperatura da era pré-industrial. No entanto, a humanidade assiste impotente a intensificação dos impactos do aquecimento global (inundações, secas, ciclones, incêndios, derretimento do gelo, perda de biodiversidade, etc.).

A dificuldade reside no fato de não haver possibilidade de compatibilizar a necessidade de crescimento permanente do capitalismo com os princípios ecológicos. A como afirma Schumpeter “a destruição criadora constitui a base essencial do capitalismo”. Faltou acrescentar que se trata não apenas de destruir um capital obsoleto em proveito de outro, mais eficiente em termos econômicos, mas que também é um gigantesco processo físico, químico e biológico de transformação de energia e recursos naturais, vivos e inanimados, em dejetos nocivos, dentre os quais os GEE.

Ainda há tempo para mudar a trajetória. Dispomos de conhecimentos científicos para construir uma sociedade fundada na sobriedade socialmente compartilhada, livre e justa.

Tomás Togni Tarquinio

Antropólogo, pós graduado em prospectiva

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/11/2020

AGROPECUÁRIA RESPONDE POR 72% DAS EMISSÕES DO BRASIL EM 2019.

 mecanização agricultura

Agropecuária respondeu por 72% das emissões do Brasil em 2019

Redução de desmatamento e manejo correto de solos, porém, têm potencial de reverter a curva das emissões aponta Observatório do Clima

A mais nova estimativa das emissões brasileiras de gases de efeito estufa traz uma notícia má e uma boa para a agropecuária brasileira. A má é que, somando as emissões diretas (principalmente do rebanho bovino) e indiretas (do desmatamento), a atividade rural respondeu por quase três quartos da poluição climática nacional em 2019. A boa é que medidas de custo relativamente baixo, como o controle do desmatamento, ou de custo negativo, como a recuperação de pastagens degradadas, pode reduzir em muito e em alguns casos reverter essa curva.

Os dados, da nova edição do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima), foram discutidos num seminário virtual nesta quarta-feira (11) por pesquisadores do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e do Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola), com a participação do físico Paulo Artaxo, da USP, e do administrador e geógrafo Laurent Micol, da Pecsa (Pecuária Sustentável da Amazônia).

O setor de mudanças do uso da terra foi o maior responsável pelo aumento de quase 10% nas emissões do Brasil no ano passado. Ele respondeu por cerca de 968 milhões de tCO2e, contra 788 milhões em 2018, um aumento de 23% de um ano para o outro. O desmatamento na Amazônia foi o principal responsável pelo crescimento.

A agropecuária emitiu 598,7 milhões de toneladas de CO2 e em 2019, um aumento de 1,1% em relação às 592,3 milhões de toneladas emitidas em 2018. As emissões diretas do setor, fortemente ligadas ao rebanho bovino, representaram 28% do total de gases de efeito estufa do Brasil. As emissões de uso da terra representaram 44% do total nacional. Somados, os dois setores concentram 72% das emissões brasileiras.

Ainda que a eficiência da produção de carne tenha crescido 18% entre 2010 e 2019, com o crescimento do rebanho bovino de apenas 2,6%, a pecuária de corte responde por 62% das emissões de GEE da agropecuária. Desde a regulamentação da PNMC (Política Nacional sobre Mudança do Clima), em 2010, o setor de agropecuária viu um aumento de 7% nas suas emissões.

No entanto, o setor pode reduzir suas emissões significativamente por meio da implementação de tecnologias de manejo correto de solos. A principal delas é a recuperação de pastagens degradadas, financiada há uma década por meio do Programa ABC, do Ministério da Agricultura. É uma tecnologia de custo negativo, pois ela aumenta a capacidade de suporte da pastagem e, consequentemente, a renda do produtor.

O SEEG calcula desde 2015 o balanço de carbono dos solos agrícolas, que hoje não é contabilizado nos inventários de emissões do governo brasileiro. As análises vêm concluindo que já existe sequestro líquido de carbono — de 39,7 milhões de toneladas de CO2 equivalente em 2019. Como o país ainda engatinha na disseminação de tecnologias de agropecuária de baixo carbono (o programa ABC tem apenas 1% do crédito agrícola no Plano Safra) e há 100 milhões de hectares de pastos degradados no Brasil todo, uma área maior que a França e a Alemanha juntas, o potencial de emissões negativas é enorme.

“Os resultados do SEEG agro mostram a crescente contribuição da agropecuária para as emissões nacionais, porém este cenário deve ser revertido, os sistemas de produção precisam adotar as boas práticas de manejo e cuidado do solo — onde está concentrada a maior parte dos estoques de carbono. Um solo conservado produz mais e ainda estoca carbono, e é portando um dos recursos naturais mais importantes do Brasil”, afirma Renata Potenza, Coordenadora de Clima e Cadeias Agropecuárias do Imaflora.

O desmatamento, principalmente na Amazônia, está retornando a patamares verificados nos anos 1990. Seu descontrole, principalmente em 2019 e 2020, fez com que o Brasil perdesse as duas metas de sua lei de clima (a Política Nacional sobre Mudança do Clima) para 2020: a redução de 80% na taxa de desmatamento amazônico em comparação com a média 1996-2005 e a redução das emissões brasileiras brutas a um máximo de 2,068 bilhões de toneladas de CO2 equivalente neste ano.

“O desmatamento já foi reduzido no passado com políticas públicas consistentes. Não existe nenhuma razão tecnológica, social ou econômica para não voltarmos a uma trajetória de redução”, disse Ane Alencar, do Ipam. “É preciso lembrar que o desmatamento está descolado da variação do PIB: o país cresceu 1,1% no ano passado e as emissões cresceram quase 10%, puxadas pelo aumento do desmatamento. São emissões que não produzem riqueza e que precisam ser eliminadas, sob pena de não cumprirmos nossa meta no Acordo de Paris”, continuou.

A eliminação do desmatamento também se torna mais urgente à luz de novos dados científicos que vêm mostrando que as emissões do setor possivelmente são muito maiores do que se imagina. O SEEG vem calculando há dois anos, ainda de forma experimental, o carbono emitido por incêndios florestais não relacionados ao desmatamento. São matas, especialmente na Amazônia, que não queimariam em condições naturais, mas que vêm pegando fogo com frequência devido à degradação florestal e aos efeitos da mudança do clima. Essas emissões também não são contabilizadas nos inventários nacionais.

No ano passado, quando as queimadas colocaram o Brasil no centro de uma crise internacional, as emissões por incêndios em florestas emitiram 517 milhões de toneladas de gás carbônico equivalente no Brasil. O Ipam estimou que 36% das queimadas no país em 2019 tenham tido origem em incêndios florestais. Como se trata de fogo causado por seres humanos, o Observatório do Clima defende que essas emissões passem a ser computadas nos inventários como parte da conta de carbono que o Brasil precisa pagar.

Sobre o SEEG: O Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa foi criado em 2012 para atender a uma determinação da PNMC (Política Nacional de Mudanças Climáticas). O decreto que regulamenta a PNMC estabeleceu que o país deveria produzir estimativas anuais de emissão, de forma a acompanhar a execução da política. O governo, porém, não as produziu. Os inventários nacionais, instrumentos fundamentais para conhecer em detalhe o perfil de emissões do país, são publicados apenas de cinco em cinco anos.

O SEEG (www.seeg.eco.br) foi a primeira iniciativa nacional de produção de estimativas anuais para toda a economia. Ele foi lançado em 2012 e incorporado ao Observatório do Clima em 2013. Hoje, em sua oitava edição, é uma das maiores bases de dados nacionais sobre emissões de gases estufa do mundo, compreendendo as emissões brasileiras de cinco setores (Agropecuária, Energia, Mudança de Uso da Terra, Processos Industriais e Resíduos).

As estimativas são geradas segundo as diretrizes do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), com base nos Inventários Brasileiros de Emissões e Remoções Antrópicas de Gases do Efeito Estufa, do MCTIC (Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações).

Atuaram no SEEG 8 pesquisadores das ONGs: Ipam (Mudança de Uso da Terra), Imaflora (Agropecuária), Iema (Energia e Processos Industriais) e ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade (Resíduos).

Sobre o Observatório do Clima: rede formada em 2002, composta por 56 organizações não governamentais e movimentos sociais. Atua para o progresso do diálogo, das políticas públicas e processos de tomada de decisão sobre mudanças climáticas no país e globalmente. Site: www.observatoriodoclima.eco.br.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/11/2020

DIABETES É FATOR DE RISCO PARA INSUFICIÊNCIA RENAL.

 saúde

Diabetes é fator de risco para insuficiência renal

Doença está entre o segundo fator de risco para insuficiência renal. O tratamento para a doença renal é feito por sessões de hemodiálise ou transplante do órgão. Sábado (14/11) é comemorado o Dia Mundial do Diabetes para conscientização sobre a doença.

O diabetes atinge 16 milhões de brasileiros segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Fatores como obesidade, envelhecimento populacional e sedentarismo tem contribuído para o aumento no número de casos de diabetes.

No próximo sábado, 14 de novembro, é comemorado o Dia Mundial do Diabetes, uma data para prevenir e conscientizar a população sobre essa doença que causa muitas mortes no mundo. Além da mudança de vida que a doença exige do paciente, complicações podem comprometer outros órgãos, como os rins.

O diabetes, apesar de ser uma doença conhecida de nome pela população, ainda é cercada de mitos e informações desencontradas, principalmente para os portadores dessa patologia. Diferente do que muitos pensam, quem tem o problema pode ter uma vida normal, mas para isso, o acompanhamento médico, a adesão ao tratamento e a prática de hábitos saudáveis são fundamentais, principalmente para evitar outros transtornos.

Insuficiência renal

O diabetes pode trazer danos aos rins, comprometendo a sua capacidade de filtragem.

“Os altos níveis de açúcar fazem com que os rins filtrem muito sangue, sobrecarregando os órgãos e levando a perda de proteínas na urina”, explica o médico nefrologista e presidente da Fundação Pró-Rim, Dr. Marcos A. Vieira.

“Com o tempo e o excesso de resíduos no sangue, a sobrecarga faz com que os rins percam a capacidade de filtragem e venham a falhar. Assim, o paciente diabético vai necessitar de sessões de hemodiálise ou de um transplante renal”, complementa.

Segundo dados da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), aproximadamente 25% das pessoas com diabetes tipo I e 5 a 10% dos portadores de diabetes tipo II desenvolvem insuficiência nos rins. Cerca de 35% dos pacientes renais crônicos atendidos na Fundação Pró-Rim – referência nacional no tratamento renal – são diabéticos.

Epidemia silenciosa

A doença renal crônica é considerada uma epidemia silenciosa. Por não ter sintomas específicos, a insuficiência renal pode ser confundida com outras doenças, ocasionando atraso no seu diagnóstico. Os sinais mais comuns são inchaço, falta de apetite, enjoos, fraqueza, dores no estômago e perda de sono. “A identificação da doença muitas vezes só acontece quando se encontra em estágio avançado, e os rins já estão em fase crítica de funcionamento”, conta o nefrologista.

Diagnóstico e prevenção

É recomendado que os diabéticos, tanto do Tipo 1 e do Tipo 2, façam a pesquisa de microalbuminúria, a qual vai verificar a quantidade albumina (proteína produzida no fígado) eliminada na urina. Quanto maior a quantidade de albumina é eliminada pelo organismo, mais os rins estão afetados.

A Sociedade Brasileira de Nefrologia e a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) recomendam que toda pessoa com diabetes, entre os 12 a 70 anos de idade, faça a pesquisa pelo menos uma vez por ano.

“O controle da glicose é uma das medidas que o diabético deve gerenciar, evitando assim complicações para outras doenças, como a doença renal crônica, doenças cardiovasculares e a retinopatia diabética”, enfatiza Dr. Marcos A. Vieira.

Cuidados com a pressão arterial, o uso correto de medicamentos alinhados com a prática de hábitos saudáveis, como a prática de exercícios físicos, controle de peso e o não consumo de álcool e cigarros, podem reduzir o desenvolvimento de outras doenças.

“Nem todos os diabéticos desenvolvem a doença renal. O baixo controle da taxa glicêmica e da pressão arterial, e os fatores genéticos podem favorecer o surgimento da doença. É possível conviver com a diabetes desde que a pessoa se comprometa com o tratamento”, conclui o médico.

Identificando a diabetes

Existem dois tipos de diabetes: 1 e 2. A tipo 1 é uma doença autoimune. Aparece geralmente na infância e adolescência, mas pode ser diagnosticada em adultos também. Já a tipo 2 é quando o organismo não consegue usar adequadamente a insulina que produz, ou não produz insulina suficiente para controlar a taxa de açúcar no sangue. Esse tipo é principalmente causado pela obesidade.

Fatores de risco:

– Idade igual ou superior a 45 anos

– História familiar de Diabetes Mellitus (pais, filhos e irmãos)

– Excesso de peso (IMC igual ou maior a 25Kg/m²)

– Sedentarismo

– Taxa de HDL-c (“bom” colesterol) baixa ou de triglicerídeos elevada

– Hipertensão Arterial

– Diabetes Mellitus gestacional prévio

– Macrossomia ou história de abortos de repetição ou mortalidade perinatal

– Uso de medicamentos hiperglicemiantes: corticosteroides, tiazídicos, betabloqueadores

Fonte: Fundação Pró-Rim

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/11/2020