quarta-feira, 25 de novembro de 2020

SOLO - GEOQUÍMICA E MEIO AMBIENTE.

 Solo – Geoquímica e Meio Ambiente

Artigo de Carlos A. de Medeiros Filho

solo contaminado

https://www.mediotejo.net/empresas-ambientais-querem-que-governo-avance-com-lei-de-solos-contaminados/

[EcoDebate]

O perfil de solo pode ter suas características geoquímicas influenciadas por atuações antrópicas e, consequentemente, pode se constituir em importante marcador de condições ambientais.

Diversos metais pesados e contaminantes orgânicos podem ser incorporados ao solo por meio de fertilizantes e pesticidas; emissões de veículos a motor, atividades industriais, lixos e águas servidas das fossas e sumidouros.

Ban Ki-moon, diplomata e político sul-coreano, foi o oitavo secretário-geral da Organização das Nações Unidas, de 2007 até 2017. No dia o Dia Mundial do Solo de 2014, comemorado em 5 de dezembro, Ban Ki-moon transmitiu uma mensagem que reporta aspectos da importância dos solos para a humanidade.

Ele afirma que: sem solos saudáveis, a vida na Terra seria insustentável. Os solos são à base da agricultura. Eles fornecem aspectos vitais para o ecossistema e a base para alimentos, rações, combustíveis, fibras e produtos medicinais importantes para o bem-estar humano. O solo também é a maior armazenador de carbono orgânico, que é essencial para a mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Em uma época de escassez de água, os solos são fundamentais para a sua adequada estocagem e distribuição. A degradação do solo, no entanto, é um problema a aumentar rapidamente em todas as partes do mundo. Cerca de 33 por cento dos solos globais já são degradados através da urbanização. A erosão do solo, esgotamento de nutrientes, salinidade, aridificação e contaminação são ameaças adicionais. Por muito tempo, o mundo aceitou o solo como algo garantido. Mas o solo é um recurso natural que não é facilmente renovado. Gestão sustentável do solo deve ser uma prioridade para todos. Mais adiante, o diplomata sul-coreano conclui: Uma vida saudável não é possível sem solos saudáveis (1).

A avaliação e o monitoramento da qualidade do solo representam uma questão fundamental para a política e gestão dos recursos ambientais. A qualidade do solo, entre muitas outras funções, é altamente relevante para a capacidade de fornecer serviços ecossistêmicos essenciais para os seres humanos, como a conservação da produtividade vegetal e animal e o fornecimento de alimentos e rações saudáveis. Este é um tópico importante para os formuladores de políticas que têm a responsabilidade de preservar a qualidade do solo e implementar medidas para remediar os solos poluídos. Elementos potencialmente tóxicos (EPT), sejam de origem geogênica ou antropogênica, podem constituir um risco à saúde humana e aos ecossistemas (2).

Estudos geoquímicos nas regiões urbanas e rurais podem fornecer conclusões gerais para a conservação da natureza e proteção do solo e estimativas de impacto ambiental. Somente considerando as características de toda uma região, com a multiplicidade de influências sobrepostas de várias fontes, é possível derivar métodos para estimar os perigos da complexa interação de fatores e determinar a sensibilidade dos sítios aos diferentes usos da terra (3).

Equilibrar o delicado ciclo geoquímico do solo no ambiente rural e urbano é um exercício desafiador. A geoquímica, como disciplina científica, tem proporcionado um conhecimento valioso sobre a mobilização, dispersão, deposição e distribuição de metais potencialmente tóxicos. O monitoramento sistemático e temporal da geoquímica dos solos, especialmente das concentrações de EPTs, permite construir um cenário consistente sobre os comportamentos e mudanças na qualidade do solo devido às atividades humanas, incluindo alterações no uso do solo e mudanças climáticas.

Referências Bibliográficas

1- Journal of Geochemical Exploration 154 (2015) 1 – 5.

2- Beonea, G.M.; Carinia, F.; Guidottia, L.; Rossib, R.; Gattia, M.; Fontanellaa, M.C.; Cenci, R.M. 2018. Potentially toxic elements in agricultural soils from the Lombardia region of northern Italy. Journal of Geochemical Exploration 190, 436–452.

3- Birke, M and Rauch, U.: 1994, Geochemical investigations in the urban areas of Berlin, Mineral Magazine 58A, 95–96, London (Mineralogical Society).

Carlos Augusto de Medeiros Filho, geoquímico, graduado na faculdade de geologia da UFRN e com mestrado na UFPA. Trabalha há mais de 35 anos em Geoquímica em Pesquisa Mineral e Ambiental.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/11/2020

ÁRVORES E TELHADOS VERDES PODEM AJUDAR A REDUZIR O EFEITO DA ILHA DE CALOR URBANA.

Telhado Verde
Telhado Verde

Árvores e telhados verdes podem ajudar a reduzir o efeito da ilha de calor urbana

Os especialistas em poluição do ar da Universidade de Surrey descobriram que a infraestrutura verde (IG), como as árvores, pode ajudar a reduzir as temperaturas em muitas cidades e vilas da Europa.

University of Surrey*

Uma ilha de calor urbana é uma área urbana significativamente mais quente do que as áreas rurais circundantes. A diferença de temperatura normalmente é maior à noite do que durante o dia.

Com o governo do Reino Unido se comprometendo a construir 300.000 novas casas todos os anos, teme-se que muitas das cidades e vilas do país experimentarão um aumento na temperatura causado por mais veículos e atividades de construção.

Em um artigo publicado pela Environmental Pollution , especialistas do Centro Global para Pesquisa do Ar Limpo (GCARE ) de Surrey modelaram como uma cidade do Reino Unido seria afetada se sua paisagem urbana incluísse diferentes tipos de IG.

O estudo se concentrou na simulação de aumentos de temperatura na cidade de Guildford, no Reino Unido, sob diferentes coberturas de IG (árvores, pastagens e telhados verdes). A equipe adotou sistemas de modelagem de computador amplamente usados que descobriram que 78 por cento de Guildford estava coberto por pastagens e árvores.

A equipe de pesquisa decidiu investigar cinco cenários:

  • Qual é o status quo com a infraestrutura verde (IG) atual?
  • O que aconteceria se a cidade não tivesse infraestrutura verde (IG)?
  • O que aconteceria se você substituísse a infraestrutura verde (IG) atual apenas por árvores?
  • O que aconteceria se você substituísse a infraestrutura verde (IG) atual apenas por telhados verdes?
  • O que aconteceria se você substituísse a infraestrutura verde (IG) atual apenas por pastagens?

A equipe do GCARE descobriu que as árvores são a forma mais eficaz de infraestrutura verde (IG) e os resultados mostraram que Guildford seria 0,128 o C mais frio se as árvores substituíssem todas as formas de IG na cidade.

A equipe também descobriu que as árvores são a melhor solução para a redução dos picos de temperatura porque podem sombrear melhor as superfícies e influenciar a mistura aerodinâmica do ar na atmosfera causada pela turbulência intensificada.

O professor Prashant Kumar , diretor do GCARE da Universidade de Surrey, disse: “À medida que os formuladores de políticas e líderes políticos procuram resolver a crise habitacional do país, é de vital importância que considerem como esse influxo de nova infraestrutura urbana impactará nosso meio ambiente planeta.

“Espero que nosso estudo forneça aos tomadores de decisão as informações de que precisam quando estão decidindo qual infraestrutura verde estabelecer em nossas comunidades. Nossos resultados sugerem que, dada a escolha, as árvores são as mais eficazes na redução do efeito de ilha de calor urbana que muitas de nossas cidades enfrentam. ”

Referência:

Tiwari, A., Kumar, P., Kalaiarasan, G., Ottosen, T.B., 2020. The impacts of existing and hypothetical green infrastructure scenarios on urban heat island formation. Environmental Pollution, 115898.
https://doi.org/10.1016/j.envpol.2020.115898

 

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/11/2020 

O MAIOR PICO DE MORTES DA COVID-19 NO MUNDO.

 O maior pico de mortes da Covid-19 no mundo

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

[EcoDebate] A pandemia da Covid-19 continua sua marcha ascendente no mundo. Em novembro já superou em muito o pico da 1ª onda ocorrido em abril de 2020. Na semana de 10 a 16/04 houve, na média diária, 80 mil casos e 6.824 mortes. No período de 10 a 16 de novembro houve, na média diária, mais de 575 mil casos e 8.866 óbitos, conforme mostra o gráfico abaixo para os dados da mortalidade. O pico da 2ª onda já é muito maior do que o pico da 1ª onda.

Nos meses de março e abril foram os países da União Europeia e os EUA que responderam pela grande maioria das mortes. Mas no mês de julho a América Latina e Caribe (ALC) respondeu por cerca de 50% das mortes. Nos meses de agosto e setembro a Índia passou a ganhar destaque. Mas em outubro e novembro a Europa (Ocidental e Oriental) e os EUA voltaram a ser epicentros da pandemia, conforme mostra o gráfico abaixo do jornal Financial Times.

201123a Segunda Onda Covid19 Na Europa

O gráfico abaixo, da Organização Mundial da Saúde (OMS), mostra o número de casos por semana epidemiológica ao longo do ano de 2020, com destaque para as grandes regiões. O que mais chama a atenção no gráfico é o crescimento continuado e sustentado do número de casos semanais ao longo de 2020. Na semana de 03 a 09 de fevereiro ocorrem 23 mil casos no mundo. Na semana de 13 a 19 de abril foram 540,9 mil casos. Na semana retrasada, de 09 a 15 de novembro foram pouco menos de 4 milhões de casos. E na semana passada (de 16 a 22/11) o número de casos semanais ultrapassou, pela primeira vez, 4 milhões de casos em 7 dias. E ainda não há sinais de interrupção. Dos mais de 4 milhões de casos da semana de 16 a 22/11, um montante de 1,8 milhão ocorreu na Europa e 1,6 milhão nas Américas.

201123b Número De Casos De Covid19 No Mundo

O gráfico seguinte, também da OMS, mostra o número de óbitos por semana epidemiológica ao longo do ano de 2020. Na semana de 03 a 09 de fevereiro ocorrem 508 mortes no mundo e o pico foi atingido na semana de 13 a 19 de abril com 51 mil óbitos na semana. Nas semanas seguintes houve oscilação, mas sempre com montantes menores do que o pico de abril. Contudo, na semana de 02 a 08 de novembro houve 53,9 mil mortes superando o pico de abril. E o pior, a subida não parou por ai e aumentou nas duas semanas seguintes. Na semana de 16 a 22 de novembro houve o recorde de 67,2 mil óbitos em 7 dias, representando uma média de quase 10 mil mortes por dia. Dos 67,2 mil óbitos da semana, um montante de 33 mil, ocorreu na Europa e 22 mil nas Américas.

201123c Número De Casos De Covid19 No Mundo

No Brasil, o número de casos e de mortes subiu nas últimas duas semanas, conforme mostram os gráficos abaixo da OMS. Tudo indica que o Brasil já está singrando na segunda onda da covid-19.

O relaxamento que ocorreu no país pode gerar um aumento da pandemia no final do ano, complicando as festas de natal e réveillon.

201123d Crescimento Do Número De Casos De Covid19 No Brasil

Os esforços para conter a pandemia fizeram parte da pauta da reunião do G-20, dos dias 21 e 22 de novembro de 2020, além dos caminhos para a recuperação econômica e a administração do endividamento dos países emergentes. Segundo o secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, os países mais vulneráveis são os mais pobres e altamente endividados do mundo em desenvolvimento, que estão “à beira da ruína financeira e da crescente pobreza, fome e sofrimento incalculável”.

Porém, apesar de todos os discursos politicamente corretos, pouca coisa efetiva foi decidida na reunião do G-20. Por exemplo, faltou um plano efetivo para garantir uma vacinação em massa a partir do ano que vem. Enquanto isto, o SARS-CoV-2 continua se propagando pelos territórios do globo, deixando um número de vítimas cada vez maior.

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/11/2020

GELEIRAS DA REGIÃO DO EVEREST DIMINUINDO MESMO EM GRANDES ALTITUDES.

 Geleiras da região do Everest diminuindo mesmo em grandes altitudes

University of St Andrews*

Um novo estudo realizado por pesquisadores da Universidade de St Andrews e da National Geographic descobriu que as geleiras ao redor do Monte Everest estão agora perdendo massa em uma elevação que antes se pensava ser protegida da perda de gelo.

O aquecimento sustentado ocorreu no Himalaia, e as geleiras na região montanhosa mais alta do planeta têm consistentemente perdido massa desde o início dos anos 1960 em resposta.

degelo
figura 1

O comportamento das geleiras ao redor do Monte Everest nas últimas seis décadas é agora revelado em pesquisas publicadas hoje na revista multidisciplinar One Earth .

O projeto, que faz parte da Expedição National Geographic e Rolex Perpetual Planet Everest de 2019, usou uma combinação de imagens de satélite espião desclassificadas das décadas de 1960 e 1970, dados de levantamentos aéreos anteriores da topografia do Monte Everest e dos vales circundantes da década de 1980 , uma gama de dados de satélite modernos e dados lidar da Expedição Everest 2019 para restringir a taxa de perda de massa de gelo das geleiras da região ao longo do período de tempo mais longo possível usando arquivos de satélite.

Geleira Nuptse em 2006
Foto 1: Geleira Nuptse em 2006

O trabalho também documentou o primeiro exemplo conhecido de comportamento de ondas de geleiras ao redor do Monte Everest – um fenômeno que se pensava ser restrito a geleiras localizadas em outros locais.

O Dr. Owen King, da Escola de Geografia e Desenvolvimento Sustentável da Universidade de St Andrews, que liderou o estudo, disse: “Nossos resultados mostram que as taxas de perda de massa de gelo aumentaram consistentemente desde o início dos anos 1960 e agora são semelhantes à taxa global média de perda de gelo, apesar da extrema elevação da região. A perda de gelo ocorreu até mesmo acima de 6.000 m acima do nível do mar, o que enfatiza o impacto das mudanças climáticas no ambiente hostil de alta montanha. ”

O Dr. Atanu Bhattacharya, também da Escola de Geografia e Desenvolvimento Sustentável da Universidade de St Andrews, acrescentou: “O comportamento das geleiras no alto do Himalaia fornece a evidência mais clara dos impactos de longo alcance das mudanças climáticas nesta região remota.”

Um aumento na taxa de recessão das geleiras em resposta ao aquecimento de longo prazo afetará as comunidades montanhosas locais e as mais a jusante por causa de seu efeito na magnitude e no momento do fornecimento de água de degelo para os rios e porque aumenta o risco de perigos glaciais.

Geleira Khumbu
Foto 2 Geleira Khumbu

O Dr. Tobias Bolch, da Escola de Geografia e Desenvolvimento Sustentável da Universidade de St Andrews, que estudou geleiras no Himalaia por quase duas décadas e liderou as investigações baseadas em sensoriamento remoto, disse: “Os resultados do estudo fornecem uma valiosa referência para projeções futuras de perda de gelo na região e ajudará a entender com mais precisão o estresse colocado sobre os recursos hídricos em todo o Himalaia nas próximas décadas. ”

Alex Tait, geógrafo da National Geographic que liderou o componente de mapeamento da Expedição Everest 2019, disse: “É difícil o suficiente voar um helicóptero acima do acampamento base do Everest, nossa equipe completou uma pesquisa lidar com resolução sub-decímetro usando helicópteros do chefe do a geleira Khumbu ao seu término. Nossos dados lidar foram um importante dado de base para este estudo e permitirão investigações mais detalhadas e aprofundadas sobre as mudanças anteriores na geleira mais alta do mundo; também será útil nos próximos anos, à medida que a mudança acelera nas torres de água da Alta Montanha da Ásia. ”

Geleira Khumbu em 2016
Foto 3: Geleira Khumbu em 2016

Figura 1: O recuo da geleira Lhotse Shar / Imja e o desenvolvimento e expansão associados do lago glacial Imja Tsho, capturados por imagens desclassificadas da Corona KH-4 em 1962, fotografias aéreas usadas para compor o mapa Geográfico Nacional do Everest de 1988 e as imagens do satélite Cartosat 2018 . A geleira recuou mais de 2,5 km devido à expansão do lago glacial. As imagens ortográficas foram geradas por © Atanu Bhattacharya, University of St Andrews.

Foto 1: Geleira Nuptse em 2006: A geleira quase não era visível há mais de dez anos. © Tobias Bolch, Universidade de St Andrews

Foto 2: Parte superior da língua da geleira Khumbu em 2016. © Owen King, University of St Andrews

Foto 3: parte inferior da língua da geleira Khumbu em 2016. © Owen King, Universidade de St Andrews

Referência:

‘Six decades of glacier mass changes around Mt. Everest are revealed by historical and contemporary images’ by Owen King, Atanu Bhattacharya, Sajid Ghuffar, Alex Tait, Sam Guilford, Aurora C. Elmore and Tobias Bolch
One Earth
VOLUME 3, ISSUE 5, P608-620, NOVEMBER 20, 2020
DOI: https://doi.org/10.1016/j.oneear.2020.10.019

 

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 24/11/2020

MUDANÇA NOS RIOS ATMOSFÉRICOS PODE ACELERAR O DEGELO DA ANTÁRTIDA.

 

degelo no Ártico

Mudança nos rios atmosféricos pode acelerar o degelo da Antártida

Os sistemas climáticos responsáveis pelo transporte de umidade dos trópicos para as regiões temperadas do hemisfério sul têm mudado gradualmente em direção ao Polo Sul nos últimos 40 anos, uma tendência que pode levar a um aumento nas taxas de derretimento do gelo na Antártica, de acordo com novas pesquisas.

American Geophysical Union*

Os rios atmosféricos são longos e estreitos jatos de ar que transportam grandes quantidades de vapor d’água dos trópicos para os continentes e regiões polares da Terra. O novo estudo descobriu que os rios atmosféricos no hemisfério sul estão mudando devido em parte à redução da camada de ozônio, emissões de gases de efeito estufa e variações naturais na temperatura da superfície do mar.

Esta mudança dos rios atmosféricos pode afetar a umidade e o calor transportado para a Antártica, disse Weiming Ma, um cientista atmosférico da UCLA e principal autor do novo estudo publicado no jornal Geophysical Research Letters da AGU , que publica relatórios de alto impacto e formato curto com implicações imediatas abrangendo todas as ciências terrestres e espaciais.

“A implicação mais importante de nossa descoberta é que, devido a essa mudança, espera-se que mais rios atmosféricos invadam a Antártida, o que terá efeitos sobre o gelo marinho circundante e as geleiras do continente”, disse Ma.

Os rios atmosféricos se formam quando o ar quente e turbulento dos trópicos encontra frentes frias em regiões de latitudes médias. A estreita faixa entre essas duas massas de ar concorrentes fica mais espessa com o vapor de água condensado à medida que as temperaturas caem na região do ar saturado.

Às vezes medindo milhares de quilômetros de comprimento, esses sistemas de nuvens podem contribuir com até 60% da precipitação anual em algumas regiões, como Califórnia, Chile e Europa Ocidental.

No passado, os cientistas usaram simulações para prever a futura ocorrência de rios atmosféricos na Europa Ocidental, mostrando que esses padrões climáticos provavelmente se tornariam mais comuns em um clima mais quente. No entanto, uma vez que sua direção e movimento são determinados em grande parte pelos jatos da Terra, e como o jato oeste deve se deslocar em direção ao Polo Norte em modelos climáticos futuros, os pesquisadores preveem que os rios atmosféricos provavelmente se moverão em direção aos polos também.

Mas o novo estudo descobriu que os rios atmosféricos do hemisfério sul já estão seguindo essa tendência, rastejando continuamente em direção ao Polo Sul há pelo menos quatro décadas. Usando simulações baseadas em vários modelos e conjuntos de dados que remontam a 1979, os pesquisadores procuraram tendências gerais e mecanismos potenciais que podem explicar os padrões observados.

De acordo com os resultados da modelagem do novo estudo, pelo menos parte da tendência observada pode ser explicada por aumentos nas emissões de gases de efeito estufa e destruição da camada de ozônio na Antártica e seus efeitos correspondentes nos gradientes de temperatura entre o equador e o pólo sul; entretanto, a mudança também parece ser impulsionada por mudanças naturais de longo prazo nas temperaturas da superfície do mar.

“Encontramos evidências de resfriamento no Pacífico equatorial e no Oceano Antártico, que é causado por um padrão denominado Oscilação do Pacífico interdecadal”, disse Ma. “Este é um padrão natural que ocorre ao longo de várias décadas e não é impulsionado pela atividade humana.”

Esses padrões mais frios na temperatura da superfície do mar puxam a corrente de jato oeste mais para o sul, empurrando os rios atmosféricos junto com eles. Não está claro exatamente como isso pode afetar os padrões de chuva e queda de neve na América do Sul, mas parece provável que partes da Antártica experimentarão taxas maiores de derretimento do gelo como resultado, de acordo com os pesquisadores.

“A mudança global do nível do mar depende criticamente do destino do manto de gelo da Antártida, e esse gelo é impactado por quantos rios atmosféricos atingem a Antártica e quão fortes eles são”, disse Marty Ralph, diretor do Centro para Extremos de Água e Clima Ocidentais na Scripps Institution of Oceanography, que não estava envolvida no novo estudo.

Embora os rios atmosféricos sobre a Antártica Oriental tenham sido associados ao aumento do acúmulo de neve em alguns anos, eles parecem ter o efeito oposto no outro lado do continente. De acordo com uma pesquisa publicada em 2019 que usou um conjunto de dados semelhante, uma média de apenas 12 rios atmosféricos por ano cruzam a porção oeste da Antártica, mas eles contribuem com até 40% do derretimento do gelo no verão em algumas áreas e parecem ser responsável pela maior parte do derretimento do gelo no inverno e nas geleiras de alta altitude.

Grandes derretimentos de gelo na Antártica Ocidental ainda são bastante raros, ocorrendo apenas algumas vezes a cada década. No entanto, os cientistas alertam que o aumento das temperaturas devido ao aquecimento global do clima e à ocorrência de mudanças nos rios atmosféricos no hemisfério sul provavelmente fará com que a frequência e a gravidade desses eventos de degelo aumentem no futuro próximo.

Referência:

Ma, W., Chen, G., & Guan, B. (2020). Poleward shift of atmospheric rivers in the Southern Hemisphere in recent decades. Geophysical Research Letters, 47, e2020GL089934. https://doi.org/10.1029/2020GL089934

 

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 24/11/2020

AS MULHERES NAS ELEIÇÕES MUNICIPAIS DE 2020.

 As mulheres nas eleições municipais de 2020

“É muito mais difícil matar um fantasma do que matar uma realidade”

Virginia Woolf (1882-1941)

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

[EcoDebate] O Brasil é um dos países do mundo com maior desigualdade de gênero na política e ocupa o 143º lugar no ranking da Inter-Parliamentary Union (IPU), pois na Câmara Federal há somente 15% de mulheres ocupando os assentos de deputadas federais. Com 50% ou mais mulheres no parlamento estão Ruanda, Cuba, Bolívia e Emirados Árabes Unidos.

Nas Câmaras Municipais a situação não é muito diferente, embora o Brasil tenha começado a adotar as políticas de cotas a partir das eleições de 1996, quando o percentual de vereadoras ficou pouco acima de 10% e o de prefeitas em torno de 5% (ver Alves, 11/11/2020). Os números melhoraram nos anos seguintes, mas o déficit democrático de gênero se mantém elevado.

Em 2016 as mulheres conquistaram 13,5% das vagas das Câmaras Municipais e deram um salto para 16% em 2020. Foi um dos maiores acréscimos do atual século, mas é uma percentagem muito longe da paridade de gênero (50% a 50% para cada sexo). No ritmo do avanço de 2016 para 2020 a paridade poderá ser alcançada após 14 eleições, ou seja, 56 anos. Assim, o Brasil alcançaria a paridade de gênero nas câmaras municipais no ano de 2076.

percentagem de mulheres eleitas para as prefeituras e câmaras municipais no Brasil, 1992-2020

Em relação às prefeituras (não tem cotas), o ritmo é ainda mais lento. No ritmo do avanço das últimas duas eleições a paridade seria atingida em 76 eleições, ou 304 anos. Portanto, a paridade de gênero nas prefeituras poderia ser atingida no ano de 2324.

Evidentemente, tanto tempo para se conseguir justiça de gênero na política é inaceitável e o país precisa encontrar uma forma de acelerar a inserção feminina nos espaços de poder em todos os níveis da Federação. Por exemplo, pode-se elevar o percentual de mulheres candidatas para 50% já nas próximas eleições.

No caso das Câmaras Municipais das capitais das Unidades da Federação a situação é bem melhor, embora também distante da paridade de gênero. A tabela abaixo mostra o percentual de mulheres eleitas para vereadoras nas capitais de 2008 a 2020. A capital com menor percentual de mulheres eleitas em 2020 foi João Pessoa, com 3,7%. Na capital da Paraíba o percentual de mulheres caiu em relação as eleições anteriores.

Já em Porto Alegre apresentou a maior percentagem de mulheres eleitas em 2020 entre as capitais, com 30,6%, número bem superior aos 11,1% de 2016. O aumento foi de quase 3 vezes. Em Belo Horizonte, a participação feminina passou de 9,8% em 2016 para 26,8% em 2020. Em Florianópolis que tinha zero mulheres na Câmara em 2008 e 2012, passou para 4,3% em 2016 e para 21,7% em 2020.

percentagem de mulheres eleitas nas câmaras de vereadores nas capitais, 2008-2020

A maioria das capitais apresentou aumento da inclusão feminina. Na média, a participação feminina nas Câmaras das capitais é maior do que a média obtida nos demais municípios brasileiros.

A novidade é que as regiões Sul e Sudeste ultrapassaram o Nordeste em percentual feminino na vereança. Mas em todos os lugares a meta de 50% ainda está distante.

Do ponto de vista de raça/cor, as candidaturas brancas conquistaram 53,5% das vagas de vereadores, as candidaturas negras (pretas + pardas) conquistaram 44,7%, as amarelas conquistaram 0,4% e as indígenas conquistaram 0,3% das vagas. A menor representação é da população indígena. A população negra não conquistou a paridade, mas o percentual está próximo de 50%. Portanto, as eleições municipais mostrou que a desigualdade de gênero é maior do que a desigualdade de raça/cor.

A caminhada para um país com menores desigualdades sociais e com maior equidade de gênero ainda tem muitos passos para percorrer. A sociedade precisa redobrar os esforços para construir uma nação mais justa e com igualdade de oportunidade para toda a população brasileira.

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. Mulheres são mais de 30% das candidaturas das eleições 2020, Ecodebate, 11/11/2020 https://www.ecodebate.com.br/2020/11/11/mulheres-sao-mais-de-30-das-candidaturas-das-eleicoes-2020/

ALVES, JED. O perfil do eleitorado brasileiro por idade e sexo em 2020, Ecodebate, 21/10/2020

https://www.ecodebate.com.br/2020/10/21/o-perfil-do-eleitorado-brasileiro-por-idade-e-sexo-em-2020/

ALVES, JED. Dia Internacional da Mulher: Condorcet e Olympe de Gouges, Ecodebate, 02/03/2018 https://www.ecodebate.com.br/2018/03/02/dia-internacional-da-mulher-condorcet-e-olympe-de-gouges-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/11/2020