domingo, 20 de dezembro de 2020

DERRETIMENTO DA CAMADA DE GELO DA GROENLÂNDIA PODE LEVAR A UM AUMENTO DO NÍVEL DO MAR DE 18 CM EM 2100.

Derretimento da camada de gelo da Groenlândia pode levar a um aumento do nível do mar de 18 cm em 2100

Um novo estudo, liderado por pesquisadores do Laboratório de Climatologia de ULiège , aplicando os modelos climáticos mais recentes, dos quais o MAR – desenvolvido em ULiège – prevê um derretimento da camada de gelo da Groenlândia 60% maior do que o previsto anteriormente. 

Dados que serão incluídos no próximo relatório do IPCC. Este estudo foi publicado na Nature Communications .

Université de Liège*

A camada de gelo da Groenlândia, a segunda maior após a da Antártica, cobre uma área de 1,7 milhão de quilômetros quadrados. Seu derretimento total pode levar a um aumento significativo do nível do oceano, de até 7 metros. 

Embora ainda não estejamos lá, os cenários anteriores previstos pelos modelos climáticos acabam de ser revisados ​​para cima, prevendo um aumento do nível do mar de até 18 cm até 2100 (em comparação com os 10 cm anunciados anteriormente) apenas por causa do aumento do derretimento superficial. 

No âmbito do próximo relatório do IPCC (AR6) que será publicado em 2022, o Laboratório de Climatologia ULiège foi levado a aplicar, no âmbito do projeto ISMIP6, o modelo climático MAR que está a desenvolver para reduzir o antigo e o novo Cenários do IPCC. Os resultados obtidos mostraram que para a mesma evolução das concentrações de gases de efeito estufa até 2100, esses novos cenários preveem um derretimento da superfície da calota polar da Groenlândia 60% maior do que o estimado anteriormente para o relatório anterior do IPCC (AR5, 2013). 

O modelo MAR de ULiège foi o primeiro a demonstrar que a camada de gelo da Groenlândia derreteria ainda mais com o aquecimento do Ártico no verão. Embora nosso modelo MAR sugerisse que em 2100 o derretimento da superfície da camada de gelo da Groenlândia contribuiria para um aumento nos oceanos de cerca de dez centímetros no pior cenário (ou seja, se não mudarmos nossos hábitos) “, explica Stefan Hofer, pesquisador pós-doutorado no Laboratório de Climatologia ULiège, “nossas novas projeções agora sugerem um aumento de 18 cm “. Como os novos cenários do IPCC são baseados em modelos cuja física foi aprimorada – em particular, incorporando uma melhor representação da nebulosidade – e cuja resolução espacial foi aumentada, essas novas projeções deveriam, em teoria, ser mais robustas e confiáveis.

A equipe do Laboratório de Climatologia (Unidade de Pesquisa SPHERES / Faculdade de Ciências ) foi a primeira a reduzir esses cenários na calota polar da Groenlândia. ” Agora seria interessante , diz Xavier Fettweis , FNRS Research associado e diretor do Laboratório, analisar como essas projeções futuras são sensíveis ao modelo MAR que estamos desenvolvendo reduzindo esses cenários com outros modelos que não o MAR, como fizemos em o clima atual (GrSMBMIP) “ . Este estudo será realizado no âmbito do projeto europeu PROTECT(H2020) em que ULiège participa. O objetivo deste projeto é avaliar e projetar mudanças na criosfera terrestre, com incertezas totalmente quantificadas, a fim de produzir projeções globais, regionais e locais robustas do aumento do nível do mar em um intervalo de escalas de tempo.

Os dados recolhidos no âmbito do projecto Katabata – um projecto para medir o potencial dos ventos catabáticos no sul da Groenlândia – lançado em Setembro último por Xavier Fettweis e Damien Ernst ( Montefiore / Escola de Engenharia ), também ajudarão a refinar os modelos, particularmente modelagem do vento no modelo climático MAR. “ Sabendo que o vento influencia o derretimento do manto de gelo, é importante ter os modelos mais confiáveis ​​possíveis, conclui Xavier Fettweis.”

degelo da Groelandia

Evolução do balanço de massa da superfície (queda de neve – derretimento) com os cenários antigo (acima) e novo (abaixo). A cor azul indica uma perda de massa em mm / ano (por exemplo, 800 mm / ano – a quantidade de chuva em Bruxelas).  

Referências científicas

 

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/12/2020

DESFAZENDO ALGUNS MITOS SOBRE AS VACINAS.

 vacina

Foto: EBC

Desfazendo alguns mitos sobre as vacinas, artigo de Alexandre Okamori

[EcoDebate] Diante do impacto da pandemia de Covid-19 sobre a vida de todos, a chegada de uma vacina segura e eficaz, atualmente, é a notícia mais aguardada em todo o mundo. Frente ao desafio de pesquisadores de diversos países, as informações circulam rapidamente e, junto delas, também correm os boatos e “fake news” sobre o tema, colocando em risco a credibilidade desta que representa um dos mais importantes avanços da história da medicina.

Dessa forma, garantir a veracidade das informações que chegam até nós sobre o assunto é vital para conseguirmos controlar e evitar a propagação das doenças.

A maioria das enfermidades que podem ser prevenidas por vacina é transmitida pelo contato com objetos contaminados ou por gotículas de saliva expelidas pela tosse, espirros ou fala.

Vale ressaltar que a vacina continua sendo a melhor forma de prevenção para muitas doenças graves e as complicações que podem surgir, inclusive já ajudou a erradicar a poliomielite e a varíola.

As vacinas são produzidas com o vírus ou bactéria inativa ou com partes desses agentes. Devido a isso, elas não provocam a doença, mas conseguem estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos para combatê-la. Assim, se a pessoa tiver contato com o agente causador da doença, já tem anticorpos para evitar que a doença progrida.

Além da proteção individual, a vacinação é de suma importância para a famosa imunidade de rebanho. Isso quer dizer que é necessário que uma porcentagem x da população (entre 85% e 95%) seja imunizada para evitar a circulação do vírus.

O ideal seria que todas as pessoas pudessem ser imunizadas, mas algumas não podem ser vacinadas. É o caso de pessoas que estão imunossuprimidas, ou seja, com alguma doença ou tratamento que diminua as suas defesas imunológicas e, portanto, não podem tomar a vacina.

No entanto, se todos que puderem tomar vacina o fizerem, vão proteger aqueles que não podem. Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Universidade de Oxford apontam que a vacinação em massa evita de 2 a 5 milhões de mortes por ano no mundo.

Entre as diversas informações erradas sobre as vacinas, existem algumas que merecem esclarecimento:

  1. “Não é necessário fazer vacinação de doenças já quase erradicadas”

A vacinação impede que essas doenças voltem, mesmo que estejam quase erradicadas. O sarampo, por exemplo, é um caso de doença que estava controlada e cujos números voltaram a crescer porque uma parcela da população parou de se vacinar.

  1. “Vacinas causam autismo”

O tema ganhou força com a divulgação de um artigo escrito pelo médico Andrew Wakefield em 1998. No entanto, em 2010 essa hipótese foi totalmente retratada devido à descoberta de diversas informações falsas e acordos envolvendo o pesquisador e advogados relacionados a processos por danos vacinais.

  1. “Vacinas tem vários efeitos colaterais ainda desconhecidos”

Em geral, as vacinas não apresentam efeitos colaterais graves. Os casos agudos são raros e não puderam ser associados exclusivamente à vacina, uma vez que outros fatores, como a predisposição genética, também estão envolvidos.

  1. “Vacinas contém mercúrio, que é perigoso para a saúde”

Algumas vacinas podem conter timerosal, um composto orgânico a base de mercúrio. Porém, a quantidade usada é muito baixa, alguns trabalhos mostram que, na alimentação, por exemplo, a dose ingerida de mercúrio é maior.

Em resumo, os riscos associados ao uso de vacinas são largamente sobrepujados pelos riscos da não vacinação, que pode, como já dito, provocar a perda de milhões de vidas. Dessa forma, é obrigação dos profissionais de saúde divulgar os benefícios da vacinação e combater as informações e evidências supostamente científicas que tentam trazer descrédito à vacinação como forma de proteger a população.

Dr. Alexandre Okamori é imunologista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/12/2020

O HOLOCENO ESTÁ PARA O "PARAÍSO"ASSIM COMO O ANTROPOCENO ESTÁ PARA O "INFERNO".

O Holoceno está para o ‘paraíso’ assim como o Antropoceno está para o ‘inferno’, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Oh! que vergonha para a estirpe humana!

Firme concórdia reina entre os demônios:

E os homens, na esperança de alcançarem

A ventura do Céu, vivem discordes,

A racional essência desmentindo!”

John Milton (1608-1674) em Paraíso Perdido

[Ecodebate] O Holoceno (os 12 mil anos antes da Revolução Industrial e Energética) foi um período de estabilidade climática e de abundância de serviços ecossistêmicos. Em certo sentido, algo parecido com a imagem luminosa e idílica do paraíso.

O Antropoceno – a Era da dominação humana desenfreada sobre o Planeta – tem sido a Era do aquecimento global, da degradação ecológica e do ecocídio que está provocando a 6ª extinção em massa das espécies.

Algo semelhante à representação lúgubre e tenebrosa do inferno. O Antropoceno se parece cada vez mais com o “Paraíso Perdido”.

A humanidade adotou um modelo de produção que tem como base a idolatria do dinheiro e do consumo conspícuo. A ganância e a arrogância colocaram os interesses humanos acima dos direitos da natureza e das demais espécies vivas da Terra. Como mostra a literatura especializada, o ser humano inventou Deus e possibilitou Deus criar o “homem” à sua imagem e semelhança. A força humana é tal que provoca o aquecimento global, como mostra o gráfico.

estabilidade climática no Holoceno e aquecimento global do Antropoceno

O livro Gênesis, do Velho Testamento, diz que Deus criou o mundo em sete dias, sendo que no sexto dia, no cume da criação e antes do descanso do sétimo dia, Ele criou o ser humano (primeiro o homem e depois a mulher) à sua própria imagem e semelhança, ordenando: “Frutificai, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra”. Esta concepção teo-antropocêntrica de superioridade e dominação humana reinou na mente das pessoas e nas diversas instituições durante milênios, especialmente no hemisfério Ocidental, e ainda está presente no mundo contemporâneo. Mesmo nos dias atuais, o “crescei e multiplicai-vos” orienta, por exemplo, as reações religiosas e conservadoras contra o processo de universalização dos métodos contraceptivos modernos.

Mas foi com a Revolução Industrial e Energética que a civilização humana iniciou a sua escalada para dominar e explorar a natureza em grande escala. Após a Segunda Guerra houve uma aceleração da exploração da riqueza natural e de aumento da poluição do solo, da água e do ar e do descarte dos resíduos sólidos.

Os últimos 7 anos (2014 a 2020) foram os mais quentes já registrados (2020, provavelmente, será o segundo ano mais quente). Se o aquecimento global continuar no ritmo atual, a civilização estará no caminho de uma catástrofe. Como mostrou o jornalista David Wallace-Wells, a Terra pode se tornar um lugar inabitável ou terrivelmente inóspito.

10 mil anos de Dióxido de Carbono

Um estudo das universidades de New South Wales, na Austrália, e de Purdue, nos Estados Unidos, publicado na “Proceedings of the National Academy of Sciences”, em 2010, afirma um aumento de apenas 4ºC medidos por um termômetro úmido levaria metade da população mundial a enfrentar um calor equivalente a máximas registradas em poucos locais atualmente. Embora seja improvável que isso aconteça ainda neste século, é possível que já no próximo, várias regiões estejam sob calor intolerável para humanos e outros mamíferos. O estudo também ressalta que o calor já é uma das principais causas de morte por fenômenos naturais e que muitos acreditam, erroneamente, que a humanidade pode simplesmente se adaptar a temperaturas mais altas. A fisiologia humana não suporta temperaturas acima de 50º C. Ou seja, o aquecimento global pode deixar até metade do planeta inabitável.

Acompanhando o aumento médio da temperatura global, as ondas de calor ficaram cada vez mais frequentes. A duração, a frequência e a intensidade das mesmas provavelmente aumentarão na maioria das zonas terrestres ao longo deste século antecipando o “cenário de Mad Max” em diversas regiões do Planeta. Hoje em dia, já dá para notar o aumento da intensidade e da frequência de furacões, tufões e ciclones, além de tempestades e tornados que devastam o território e a qualidade de vida de milhões de pessoas.

A última vez que a temperatura ultrapassou os 2º C, no Planeta, foi no período Eemiano (há cerca de 120 mil anos) e provocou o aumento do nível dos oceanos em algo entre 5 e 9 metros. Tudo indica que a temperatura no século XXI vai ultrapassar os 2º C em relação ao período pré-industrial. Os prejuízos poderão ser incalculáveis tanto nas áreas urbanas, quanto rurais. A fome pode voltar a assustar grande parte da população mundial.

E o mais grave é que uma Terra inabitável e inóspita levará a autodestruição humana, mas também pode levar junto milhões de espécies que nada tem a ver com os erros egoísticos dos humanos que se julgam seres superiores e mais inteligentes. A humanidade pode estar rumando para o suicídio, podendo também gerar um ecocídio e um holocausto biológico de proporções épicas.

O último Relatório Planeta Vivo (2020) divulgado pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF), mostra que o avanço da produção e consumo da humanidade tem provocado uma degradação generalizada dos ecossistemas globais e gerado uma aniquilação da vida selvagem: as populações de vertebrados silvestres, como mamíferos, pássaros, peixes, répteis e anfíbios, sofreram uma redução de 68% entre 1970 e 2016.

Existe uma grande desigualdade entre as espécies da Terra, pois enquanto cresce a população humana, definham as populações não humanas. Segundo Ron Patterson (2014): “Há 10.000 anos os seres humanos e seus animais representavam menos de um décimo de um por cento da biomassa dos vertebrados da terra. Agora, eles são 97 por cento”. A jornalista Elizabeth Kolbert, no livro The Sixth Extinction, documenta o processo de extinção das espécies que ocorre com o avanço da civilização.

O Ecocídio é um crime que acontece contra as espécies animais e vegetais do Planeta. Esse crime se espalha no mundo em uma escala maciça e a cada dia fica pior. Exatamente por isto, cresce a consciência de que é preciso mudar o modelo de desenvolvimento que adota um padrão de produção e consumo danoso para o meio ambiente e que é responsável pelo aumento da destruição da vida na Terra. Para tanto, é preciso considerar o Ecocídio um crime contra a paz, um crime contra a natureza e um crime contra a humanidade e as futuras gerações. O crime do especismo é equivalente aos crimes de racismo, sexismo, classismo, homofobismo, escravismo, etc. Recentemente foi criado um site para incentivar a mobilização contra a discriminação das espécies, definindo o dia 22 de agosto de 2015, como o “Dia mundial contra o Especismo”.

Em vez de criar uma cornucópia, a humanidade criou um monstro como mostrou Mary Shelley, no livro “Frankenstein, ou o Moderno Prometeu”. Antes de mais nada, é preciso esclarecer duas coisas sobre o conteúdo e o título do livro: “Frankenstein, ou o moderno Prometeu”. Victor Frankenstein representa a ambição do setor de ciência e tecnologia de “brincar de Deus”. No livro, após incrível esforço, ele conseguiu decifrar, sozinho, a fórmula da criação. Sua autoconfiança lhe deu a certeza de que era capaz de “dar a vida a um animal tão complexo e maravilhoso quanto o ser humano”.

Tal como o Criador, ele havia conseguido gerar um homem. Mas, quase imediatamente, a excitação cedeu lugar ao desespero. De fato, Victor Frankenstein conseguiu dar vida a um material inerte, como Deus criou Adão do barro. Mas sua criação era feia e asquerosa: “uma coisa que nem Dante poderia ter concebido”. Numa espécie de depressão pós-parto, tomado de pavor, Frankenstein, o criador, renegou e abandonou a sua Criatura, sem sequer ter feito o seu batismo. A Criatura, sem nome, gerada pela racionalidade do gênio humano, foi renegada por toda a humanidade e se tornou o monstro mais conhecido da era moderna.

Por que Frankenstein é o moderno Prometeu? Na mitologia grega, Prometeu é o personagem que roubou o fogo aos deuses do Olimpo e o deu ao ser humano, o que lhe assegurou o status de “ser racional” e a superioridade sobre os demais animais da Terra. O fogo representa o conhecimento e o poder que era posse exclusiva dos deuses. Como castigo pela desobediência e ousadia de se comparar aos seres superiores do Olimpo, Zeus ordenou que Prometeu fosse acorrentado no cume do monte Cáucaso, onde todos os dias uma águia dilacerava seu fígado que, logo em seguida, se regenerava. Ou seja, o fogo que Prometeu deu aos humanos (racionalidade) tem lhes proporcionado importantes conquistas mas, em contrapartida, também derrotas e sofrimento. Desta forma, a analogia entre Frankenstein e Prometeu é evidente.

Mary Shelley também fez outra referência “mitológica” fundamental, quando na epígrafe do livro cita uma passagem do excepcional poema “Paraíso Perdido” (1667), de John Milton, em que Adão questiona a Deus: “Pedi para que me arrancasses das trevas?” Desta forma, a autora relaciona Victor Frankenstein ao Criador e sua Criatura a Adão. Mas um Adão desobediente e ciente do seu querer, que prefere perder o Paraíso a viver uma vida sem o poder orgástico do sabor dos frutos da árvore do conhecimento, condimentado pelo fogo prometeico.

O que Mary Shelley quis mostrar no livro é que a racionalidade humana – tão decantada pelos revolucionários iluministas do século XVIII – é incapaz de gerar apenas bons frutos. Em vez de alcançar a “perfectibilidade do ser humano”, realça a imperfectibilidade. O retrocesso, ao invés do progresso. O colapso e não a abundância fáustica. Enfim, em vez de um novo ser humano, monstros.

Indubitavelmente, o livro “Frankenstein, ou o moderno Prometeu” é um alerta sobre os perigos de uma ciência arrogante e exagerada que desencadeia forças que não pode controlar. O livro de Mary Shelley inova ao trazer uma crítica ao iluminismo, não pelo lado conservador e tradicionalista de pensadores como Thomas Malthus e Edmund Burke (críticos ferrenhos de seus pais e da Revolução Francesa), mas pelo lado das consequências não antecipadas do efetivo sucesso da racionalidade.

De forma presciente, o livro, escrito no começo da modernidade urbano-industrial, permite uma leitura do poder da ciência e da tecnologia como fator modelador de um estilo de desenvolvimento que viola a natureza e a ordem natural do mundo, uma vez que as invenções físicas e químicas podem trazer embutidas blasfêmias, e a bioengenharia genética, perversões. Hoje, é senso comum dizer que as promessas maravilhosas da energia nuclear já traziam embutidos os desastres de Chernobyl, Three Mile Island e Fukushima.

Desta forma, a humanidade abandonou a estabilidade climática do Holoceno e criou o Antropoceno que é uma Era marcada pelo aquecimento global e pela 6ª extinção em massa das espécies. Assim, como Victor Frankenstein foi vítima do monstro que ele mesmo criou, a humanidade pode ser vítima do “monstro de duas cabeças” (mudanças climáticas e perda de biodiversidade) que foram gerados no Antropoceno.

O artigo “Extraordinary human energy consumption and resultant geological impacts beginning around 1950 CE initiated the proposed Anthropocene Epoch”, de Jaia Syvitski, Colin N. Waters, Jan Zalasiewicz et. al. (16/10/2020), publicado na revista Nature (Communications Earth & Environment) dá uma contribuição fundamental para a definição do início e do impacto do Antropoceno e mostra que o gasto de energia humana no Antropoceno, cerca de 22 zetajoules (ZJ), excedeu em muito o dos 11.700 anos anteriores do Holoceno (cerca de 14,6 ZJ), principalmente por meio da combustão de combustíveis fósseis.

O crescimento da população humana global, sua afluência e consumo de energia estão altamente correlacionados. Esta explosão extraordinária de consumo e produção demonstra como o Sistema Terrestre partiu de seu estado Holoceno, desde aproximadamente 1950, forçando mudanças físicas, químicas e biológicas abruptas no registro estratigráfico da Terra que podem ser usados para justificar a proposta de nomear uma nova época: o Antropoceno.

O relatório “Lancet Countdown on Health and Climate Change”, publicado em 02/12/2020, mostra que a contagem regressiva da Lancet sobre Saúde e Mudanças Climáticas está em andamento desde 2015, quando o acordo de Paris foi negociado.O relatório da revista The Lancet foi o trabalho de mais de 100 especialistas de 35 instituições ou universidades, incluindo a Organização Mundial da Saúde e a University College London (UCL).

A conclusão é que os impactos das mudanças climáticas na saúde foram os “mais preocupantes” desde o início do relatório. Todos os 16 indicadores de saúde monitorados no relatório estão piorando. Este é o novo normal e, se nada for feito, caminharemos para uma Terra muito quente, ácida e inabitável.

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. A tecnologia e o Frankenstein, Ecodebate, 18/04/2012

http://www.ecodebate.com.br/2012/04/18/a-tecnologia-e-o-frankenstein-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. Frankenstein e o ‘monstro’ do aquecimento global, #Colabora, 17/10/2017

https://projetocolabora.com.br/clima/frankenstein-e-o-aquecimento-global/

ALVES, JED. A Inteligência Artificial pode se transformar em um monstro incontrolável Entrevista IHU 28/09/2017

http://www.ihu.unisinos.br/572111-a-4-revolucao-industrial-ainda-e-uma-promessa-entrevista-especial-com-jose-eustaquio-alves

ALVES, JED. O Frankenstein de Mary Shelley na Sapucaí, Ecodebate, 14/02/2018

https://www.ecodebate.com.br/2018/02/14/o-frankenstein-de-mary-shelley-na-sapucai-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. “Frankenstein, ou o moderno Prometeu” de Mary Shelley, SCRIBD, 06/03/2018

https://pt.scribd.com/document/373844032/Frankenstein-ou-o-moderno-Prometeu-de-Mary-Shelley

Jaia Syvitski et. al. Extraordinary human energy consumption and resultant geological impacts beginning around 1950 CE initiated the proposed Anthropocene Epoch, Nature Communications Earth & Environment, volume 1, Article number: 32, 16/10/2020

https://www.nature.com/articles/s43247-020-00029-y

Subcommission on Quaternary Stratigraphy (SQS). Working Group on the ‘Anthropocene’

http://quaternary.stratigraphy.org/working-groups/anthropocene/

The Lancet Countdown on Health and Climate Change, The Lancet, 02/12/2020

https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)32290-X/fulltext

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/12/2020

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

CICLONES NTROPICAIS CONSECUTIVOS CAUSAM DESTRUIÇÃO MASSIVA E IMPACTAM MILHÕES DE PESSOAS.

 Ciclones tropicais consecutivos causam destruição massiva e impactam milhões de pessoas

WMO

Ciclones tropicais consecutivos causaram destruição massiva e impactaram milhões de pessoas na América Central e partes do Sudeste Asiático, enfatizando mais uma vez as ameaças representadas pelos ciclones tropicais à vida e propriedade e bem-estar socioeconômico e a necessidade de coordenação e cooperação a nível global sob a égide da OMM.

O furacão Iota atingiu a Nicarágua em 17 de novembro como uma poderosa categoria 4 na escala de Saffir Simpson. É o furacão mais forte do ano no Atlântico e atingiu exatamente a mesma área, que ainda está se recuperando da categoria 4 Eta, que atingiu há menos de duas semanas e causou centenas de vítimas.

Iota é o 30 recorde ª tempestade nomeada da temporada. Pela primeira vez na história, o Atlântico teve duas grandes formações de furacões em novembro, em uma época do ano em que a temporada normalmente está terminando. Houve quatro grandes furacões

(Categoria 3+) desde outubro: Delta, Epsilon, Eta e Iota – todos retirados do alfabeto grego porque a lista regular de nomes de tempestades se esgotou.

O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (UNOCHA) alertou sobre as consequências potencialmente catastróficas de tais furacões sem precedentes em rápida sucessão.  Apelos internacionais por assistência já foram lançados para Guatemala, Honduras e Nicarágua após a Eta.

Temporada de furacões no Atlântico

Temporada de furacões no Atlântico
(Fonte. Philip Klotzbach, Colorado State University)

Iota tocou o solo na Nicarágua com ventos máximos de 155 mph (250 km / h). É um furacão catastrófico, trazendo tempestades, ventos, inundações e deslizamentos de terra com risco de vida para a América Central, bem como até 30 polegadas (750 mm) de chuva em locais isolados, de acordo com o Centro Nacional de Furacões dos EUA, que atua como Centro Meteorológico Regional Especializado da OMM.

Inundações e deslizamentos de terra na Nicarágua e em Honduras podem ser agravados pelos impactos do furacão Eta, porque as duas tempestades atingiram o mesmo local geral.

De acordo com a previsão, Iota se moverá para o interior, no norte da Nicarágua em 17 de novembro, e se moverá no sul de Honduras. Iota enfraqueceu após a chegada à categoria 2 e um rápido enfraquecimento adicional é esperado conforme a tempestade se dissipar na América Central no final de 18 de novembro.

Espera-se que Iota produza os seguintes acúmulos de chuva até quinta-feira:

  • Honduras, norte da Nicarágua, sudeste e centro da Guatemala e sul de Belize: 10 a 20 polegadas (250 a 500 mm),
  • El Salvador e Panamá: 4 a 8 polegadas (100 a 200 mm), com totais máximos isolados de 12 polegadas (300 mm).

Esta chuva vai levar a inundações repentinas significativas com risco de vida e inundações de rios, juntamente com deslizamentos de terra em áreas de terreno elevado.

Mensagens principais para Iota

Pacífico Norte Ocidental

No Oceano Pacífico Norte Ocidental e no Mar da China Meridional , houve 22 tempestades nomeadas até agora nesta temporada, incluindo 10 tufões. Isso inclui três na categoria 3 de intensidade equivalente, três na categoria 4 e 1 na categoria 5 (Goni), de acordo com RSMC Tokyo (o Tokyo Typhoon Center).

Goni (conhecido como Rolly nas Filipinas) atingiu as Filipinas em 1º de novembro como o tufão mais poderoso em 2020 e um dos mais poderosos ciclones tropicais já registrados (estreitamente relacionado ao Haiyan (Yolanda) em 2013.

Cinco tempestades tropicais sem precedentes atingiram as Filipinas em um curto período de três semanas, começando em 25 de outubro com o tufão Molave ​​(nome local: Quinta) e continuando esta semana com a forte tempestade tropical Vamco (Ulysses). Vamco foi o 21º ciclone tropical a atingir as Filipinas este ano.

Dentro de um mês, de 11 de outubro a 15 de novembro, oito sistemas tropicais impactaram o Vietnã, que suportou o impacto de chuvas torrenciais, inundações e deslizamentos de terra, causando enormes perdas e danos

Desde o início de outubro, a série de ciclones tropicais afetou um total de 32,5 milhões de pessoas, com mais de 2,7 milhões de pessoas nas Filipinas, Vietnã e Camboja com necessidade urgente de assistência, de acordo com o OCHA. Casas foram danificadas ou destruídas por inundações, tempestades, ventos de alta velocidade, deslizamentos de terra e lama vulcânica, forçando a evacuação de milhões de pessoas, de acordo com o OCHA. Instalações de saúde, sistemas de água e saneamento e escolas foram danificados. Colheitas, gado, barcos de pesca e outras fontes de subsistência foram varridos.

 

ciclones tropicais na ásia

 

Da World Meteorological Organization (WMO), com tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/11/2020