quinta-feira, 24 de maio de 2018

ALIMENTOS NUTRACÊUTICOS

Alimentos Nutracêuticos, artigo de Roberto Naime

alimentação saudável
Foto: EBC
[EcoDebate] A alimentação natural é a farmácia e se diga de passagem, “barata” que trata da sua saúde. Mas o que poucas pessoas têm conhecimento é que substâncias que compõem determinados alimentos, chamados nutracêuticos ou funcionais, podem prevenir e até mesmo tratar de vários tipos de doenças.
Os nutracêuticos são alimentos que têm a funcionalidade ou a capacidade pelas substâncias que contém, de comprovadamente proporcionar benefícios à saúde, como a prevenção e tratamento de doenças. O termo nutracêutico vem de “nutri”, nutriente e “cêutico”, de farmacêutico, ou seja, alimentos que nutrem e trazem saúde. É a medicina natural tratando da saúde das pessoas e prevenindo as suas doenças.
Na verdade, todo alimento natural, ou seja, aquele que não foi processado industrialmente, pode ser classificado como “funcional” já que contém, em doses variáveis, componentes essenciais à nossa saúde, como vitaminas, minerais, enzimas e fibras. Porém, certos alimentos contém outras substâncias com grande capacidade de proteção e mobilização imunológica.
Desde os primórdios da civilização, o homem procurava os seus alimentos na natureza e aprendeu com os animais, através da observação e da experimentação, a se nutrir com os alimentos que poderiam prevenir ou curar as suas doenças. Então surgiu a fitoterapia, que foi utilizada por pagés, magos, alquimistas, padres, terapeutas e médicos. Aliás, a indústria farmacêutica começou sintetizando as moléculas dos produtos naturais para produção de medicamentos.
Existe uma pequena revolução nas prateleiras dos supermercados, onde consumidores cada vez mais conscientes e exigentes querem em suas mesas os alimentos nutracêuticos, os alimentos que trataram da saúde dos seus ancestrais.
O homem cria e transforma as suas ideias, mas sempre volta as suas origens. Os antigos tinham toda a sabedoria do mundo porque estavam em contato direto com a natureza. O chamado “homem civilizado” atualmente, vive estressado, se alimentando muito mal com alimentos cada vez mais industrializados e com menos nutrientes.
Os alimentos perecíveis nas feiras, impressionam os olhos, mas não tem gosto e não tem os seus nutrientes essenciais. Os agrotóxicos estão cada vez mais poderosos e muito mais prejudiciais à saúde do ser humano.
No entanto, funcionalidades alimentares relacionadas com substâncias nutracêuticas estão cada vez mais valorizadas.
A água é uns dos elementos fundamentais para a existência do homem, é um dos principais componentes do organismo. Cerca de 60 a 70% do corpo de uma pessoa é constituído de água. Esta substância também participa da composição de todos os líquidos e células, desempenhando funções importantes no metabolismo normal como a dissolução de nutrientes fornecidos na alimentação, assim como das toxinas e outros elementos que devem ser eliminados do organismo, e também na regulação da temperatura corpórea.
Muitos problemas de saúde da população são relacionadas a água. São doenças provocadas por vírus, bactérias, protozoários e helmintos ou vermes ou por agentes químicos presentes na água, geralmente resultado da poluição. Por isso é recomendável não comprar água de procedência duvidosa. A água é um grande preventivo das doenças. Os vasilhames devem ser transparentes, limpos, bem cuidados, sem arranhões, com lacre e com análise química atualizada. Os refrigerantes são considerados “água morta” por não serem naturais.
Não é necessário e nem recomendável o uso contínuo ou permanente de água mineralizada ou mineral natural. Excesso de nutrientes e substâncias químicas na água em idade mais avançada podem causar concreções nos rins em algumas pessoas. Outras podem ter metabolismo alterado e gerar concreções com predomínio cálcico a partir da ingestão de leite e derivados.
O sal refinado pode ser substituído pelo sal marinho. Como o Dr. Márcio Bontempo manifesta o sal marinho contém cerca de 84 elementos que são eliminados ou extraídos para a comercialização durante o processo industrial para a produção do sal refinado. Como enxofre, bromo, magnésio, cálcio e outros menos importantes, que representam excelente fonte de nutrição adequada.
A indústria é geralmente poderosa e possui a sua forma de controle sobre as autoridades. É claro que será então dada muita ênfase a importância do sal refinado empobrecido em relação ao sal puro e integral, que é abominado. O sal marinho tem cristais maiores que o sal refinado, e deve ser utilizada na mesma quantidade. Somente se recomenda um preparo mais lento para que os cristais de sal se dissolvam adequadamente.
Recomenda-se a substituição do açúcar refinado pelo açúcar natural, que pode ser garapa, melado, rapadura ou ainda açúcar mascavo. O melado é um dos alimentos que mais contém ferro na natureza. A cana-de-açúcar é originária da Índia, sendo uma planta selvagem que começou a ser cultivada em jardins.
Inicialmente era extraída a água de açúcar, que depois foi se transformando no próprio açúcar, considerado então um remédio, que aparecia nas receitas dos médicos orientais. O uso do açúcar como alimento começou por volta do século X, na Índia e na China. O açúcar foi trazido pelos árabes para a Europa e no século XV já era um dos principais produtos comercializados pelos povos do Mediterrâneo.
Neste período, os portugueses passaram a dominar as técnicas do fabrico do açúcar em suas ilhas atlânticas de Açores, Madeira, São Tomé e Príncipe. Logo foi trazido para o Brasil. No começo, não se ouvia falar em diabetes com os escravos vivendo da rapadura, farinha de mandioca e carne seca, que até hoje é consumida pela população carente brasileira dos Estados do Norte e Nordeste.
O arroz branco pode ser substituído pelo integral ou farelo de arroz. O arroz integral é envolto por uma película que é justamente o que o mantém integral. Esta película segura o germe do grão que juntos formam uma dupla designada farelo. Pode então ser considerado um alimento funcional.
O arroz branco, por sua vez, não contém esta película porque ela foi retirada no processo da refinação. Portanto, este arroz não contém farelo, não podendo ser indicado como alimento funcional.
Farelos de arroz, aveia, soja e trigo são ricos em fibras. Estas substâncias estimulam o funcionamento intestinal e reduzem o colesterol. Os farelos são ricos em vários compostos ativos como os fitatos, que protegem o organismo do depósito de chumbo, os ácidos graxos insaturados. Também as proteínas e vitaminas B1 principalmente.
É recomendada a substituição do óleo de soja pelo óleo de girassol. O que diferencia o óleo de girassol dos outros óleos é a concentração de ácidos graxos. Os ácidos graxos que interessam sob o ponto de vista da nutrição, são os insaturados, oléico e linolênico, principalmente este último capaz de dissolver e eliminar o excesso de colesterol no organismo. Essa característica, garante ao óleo de girassol, propriedades altamente reguladoras nas doenças cardíacas
Substitua o seu vinagre de vinho ou de álcool por vinagre de maçã. Este ingrediente tem a sua eficácia na redução de peso, na redução da celulite e na desintoxicação do organismo. Mas o vinagre de maçã também apresenta muitos outros benefícios para a saúde como redução do colesterol, promovendo uma boa circulação sanguínea, melhorando o metabolismo e facilitando a digestão.
Chás verdes, que são ricos em polifenóis que previnem o câncer e doenças do coração, são bastante recomendáveis. Vegetais crucíferos como brócolos, repolho, couve-de-bruxelas, rabanete e couve-flor possuem grandes quantidades de glicosinolatos que previnem o câncer.
Frutas cítricas são ricas em limoneno que previnem o câncer e fortalecem o sistema imunológico. Alho e cebola contém uma substância chamada alicina que estimula o sistema imunológico e redutores de colesterol e triglicerídeos. Por último, substitua o leite por produtos lácteos. Eles são pré e próbióticos e melhoram a flora bacteriana. O kefir, que é o coalho de leite, possui mais de 20 colônias de lactobacilos que auxiliam muito a flora intestinal.
Ainda, alimentos que contém lignina, como linhaça, regularizam o sistema imunológico, reduzem o colesterol e diminuem o risco de doenças cardiovasculares. A linhaça em grão pode ser
processada no liquidificador.
Esta é uma pequena parcela dos chamados produtos nutracêuticos e o que eles podem exercer de funcionalidades. Hábitos alimentares podem ser modulados e implementados no decorrer do tempo. Na medida que se estabelecem demandas de mercado, vai ocorrendo aprimoramento na produção. Afinal, se quer atender as necessidades dos consumidores em sociedades moduladas por livre iniciativa.
Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.
Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/05/2018

BRASIL : A BIODIVERSIDADE E SUA RELAÇÃO COM AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS .

Qual a importância da biodiversidade no Brasil e a sua relação com o debate global das mudanças climáticas?


O que sabemos sobre a biodiversidade e as mudanças climáticas no Brasil?

WWF
Para que mais pessoas se interessem pelo tema e conheçam a produção técnico-científica já produzida até este momento no país, ontem, 22 de maio, Dia Internacional da Biodiversidade, o WWF-Brasil lançou a publicação Biodiversidade e Mudanças Climáticas no Brasil – Levantamento e Sistematização de Referências. O material apresenta diversos estudos e autores, além de identificar lacunas de conhecimento para incentivar a elaboração de novas pesquisas.
O Dia Internacional da Biodiversidade é uma data comemorativa instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) para chamar a atenção da população mundial para a importância da diversidade biológica e para a necessidade de proteção da biodiversidade em todos os ecossistemas do planeta.
Nessa agenda, o clima é fator determinante para a distribuição dos seres vivos no planeta. Ao longo dos últimos milhares de anos, cada espécie desenvolveu as características específicas para sua sobrevivência de acordo com seu habitat.
Além das muitas ameaças que já afetam a integridade dos ecossistemas naturais e sua biodiversidade, como desmatamento, queimadas e poluição, os efeitos previstos das mudanças do clima devem gerar consequências ainda mais graves à vida. Para continuar a existir, as espécies deverão se adaptar ou migrar para locais com condições climáticas mais adequadas.
Com o objetivo de conhecer e divulgar a produção científica brasileira, o WWF-Brasil convidou a pesquisadora Priscila Lemes, Doutora em Ecologia e Evolução pela Universidade Federal de Goiás, para fazer um levantamento bibliográfico sobre estudos e pesquisas relacionando biodiversidade e mudanças climáticas no Brasil.
Mais pesquisas no Brasil
Desde o início do século XX, há estudos internacionais que avaliam a influência das variações do clima sobre as espécies. Já no Brasil, a análise da relação clima e biodiversidade ainda é recente. A quantidade de trabalhos sobre o tema só começou a ganhar volume a partir de 2007 – e por meio de modelagens. Ainda é necessária a realização de estudos com abordagens que envolvam a observação direta.
De acordo com o diretor executivo do WWF-Brasil, Mauricio Voivodic, um dos grandes desafios na relação entre mudanças climáticas e biodiversidade é saber se as espécies se adaptarão rápido o suficiente para acompanhar as alterações em curso – e as respostas serão diferentes de acordo com cada espécie. “A análise dos impactos negativos das mudanças climáticas na biodiversidade brasileira é fundamental para definir as medidas que precisamos tomar para enfrentar esse problema, com metas nacionais mais ambiciosas na defesa da vida”, afirma Voivodic.
Mapa dos estudos
O levantamento solicitado pelo WWF-Brasil encontrou 110 estudos sobre o tema. Desses, mais de 80 foram publicados nos últimos cinco anos. Há também um predomínio de estudos sobre a vulnerabilidade de plantas, animais e ecossistemas terrestres em relação à biodiversidade em ambientes marinhos e de água doce. Uma mostra disso é que as plantas são o grupo mais analisado, com 33 documentos. Já os peixes são menos estudados, com apenas dois estudos.
Em relação à localização dos estudos, foram encontrados 18 documentos com abrangência nacional, e o mesmo número com foco no bioma Mata Atlântica. O Cerrado é tema de 16 estudos, a Amazônia, de 11, e a Caatinga, de quatro. Foram encontrados 15 trabalhos científicos tendo como escopo a América Latina. Dois documentos não reportaram uma localização específica.
O levantamento Biodiversidade e Mudanças Climáticas no Brasildestaca ainda que as áreas protegidas são essenciais para a manutenção da biodiversidade e a mitigação dos efeitos das mudanças do clima. Porém, diferentes pesquisas questionam se as áreas protegidas já estabelecidas serão suficientes para salvaguardar a fauna e flora brasileiras dos biomas. Um dos motivos é que a perda e a fragmentação de habitats impõem obstáculos ao deslocamento das espécies para locais de clima mais adequado. A combinação de diferentes ameaças pode alterar a magnitude e o padrão espacial da perda da biodiversidade.
“Nos estudos levantados, fica clara a necessidade de medidas da redução da vulnerabilidade dos ecossistemas. No caso das florestas tropicais, além das mudanças climáticas, há a constante ameaça de desmatamento. É necessário haver um fortalecimento de ações de conservação e recuperação para aumentar a conectividade dos ecossistemas remanescentes, com a consolidação de unidades de conservação, refletindo uma gestão florestal integrada da paisagem”, afirma André Nahur, coordenador do Programa Clima e Energia do WWF-Brasil.
A publicação destaca resultados importantes para a biodiversidade e para a própria economia do país, com migração ou extinção de culturas ou espécies nativas importantes, como é o caso do pequi, típico da região centro-oeste, cuja diminuição trará implicações na economia de vários municípios, afetando também comunidades tradicionais que têm na agrobiodiversidade uma fonte de sustento.
“Outras espécies, como o jaborandi, a arnica ou outras que nem mesmo conhecemos ainda, são importantes para a área medicinal e correm risco de extinção local. Estudar e entender os efeitos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade é essencial para identificar alternativas para lidar com a ameaça da perda e extinção de espécies, fundamentais para a qualidade de vida do ser humano”, afirma a pesquisadora Priscila Lemes.
Destaques do levantamento:
Plantas
  • Todas as populações naturais de jaborandi (Pilocarpus microphyllus), espécie de planta medicinal de diferentes usos (expectorante, tônico capilar, anti-reumático e tratamento oftalmológico) serão perdidas quando o clima se tornar menos adequado; contudo, se habitat naturais forem protegidos e restaurados, é provável que a espécie persista em longo prazo (Zwiener et al., 2017).
  • No Cerrado, as projeções do clima futuro devem ser especialmente severas para as plantas. No final do século, a mangaba (Hancornia speciosa), rica em vitamina C e cujo leite é fonte de medicamentos para tuberculose e úlceras, e a arnica (Lychnophora ericoides), famosa por sua ação anti-inflamatória, poderão ter mais de 90% da distribuição atual reduzida (Simon et al., 2013). Já o pequi (Caryocar brasiliense) poderá sofrer uma forte diminuição da diversidade genética (Nabout et al., 2011; Colevatti et al., 2011), resultando em grandes perdas econômicas para os extrativistas.
  • Na Mata Atlântica, que atualmente  tem menos de 12% da cobertura vegetal nativa, haverá redução de 25 a 50% na distribuição de 38 espécies lenhosas (Joly & Colombo 2010).
  • No caso do ipê-amarelo (Tabebuia aurea), muitos alelos têm potencial perdido como efeito do aquecimento global, resultando em perda de variação entre populações (Lima et al., 2017) e aumentando os riscos de extinção local.
Vertebrados
  • No Brasil, os pontos de maior ocupação humana possivelmente vão ser palco de maior tensão para a conservação. O tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) e o tatu-canastra (Priodontes maximus) talvez sofram redução na distribuição geográfica (Zimbres et al., 2012).
  • A combinação de mudança do clima e redução da cobertura florestal deve causar o declínio demográfico de todas as espécies do gênero Callicebus, primata de médio porte conhecido como sauá ou guigó, no leste do Brasil (Gouveia et al., 2016).
  • Na Mata Atlântica, o desmatamento pode ter repercussão imediata na riqueza de espécies, como no caso das aves (Loiselle et al., 2010), tornando-se mais grave quando combinada com as condições climáticas em curso. Com isso, prevê-se uma diminuição de até 45% da distribuição geográfica de aves endêmicas e ameaçadas (Souza et al., 2011).
    • Algumas espécies, como o jacu-de-barriga-castanha (Penelope ochrogasteri), terão reduções de até 80% na distribuição geográfica no clima atual -(Marini et al., 2009b).
    • O papa-mosca-de-costas-cinzentas (Polystictus superciliaris), deve ter uma distribuição menor em 22% a 75% (Hoffmann et al., 2015).
  • A serpente Phalotris lativittatus, endêmica do bioma do Cerrado, deve diminuir sua extensão territorial em até 70%, até 2050, além de um deslocamento para o oeste (Vasconcelos, 2014).
  • Os anfíbios têm características que os tornam mais sensíveis às alterações no ambiente, já que sua fisiologia e seu comportamento alteram diante da temperatura (Navas et al., 2013). Eles também precisam de água para a reprodução ou, pelo menos, de microambientes mais úmidos (Haddad et al., 2013). Isso significa que as alterações na precipitação e na disponibilidade de água devem reduzir sua biodiversidade.
Ecossistemas e serviços ecológicos
Os polinizadores, fundamentais na provisão de serviços ecossistêmicos essenciais aos sistemas naturais e à agricultura, também podem ser afetados pela mudança do clima. As mudanças climáticas podem afetar a distribuição geográfica, a abundância local e a sincronia no florescimento das plantas e na atividade dos polinizadores (Hegland et al., 2009).
Giannini e colaboradores (2017) analisaram a distribuição potencial de 95 espécies de polinizadores relevantes a 13 tipos de lavouras, cujas projeções apontam para a redução de áreas climaticamente adequadas a espécies de polinizadores e sua influência na produção de culturas. Considerando-se esse cenário, é prevista a desaceleração da produtividade nas plantações, independentemente do déficit de polinização.
Isto pode resultar em prejuízos à renda agrícola, reforçando a vulnerabilidade socioeconômica em face das alterações em curso (Giannini et al., 2017).
A abelha Xylocopa hirsutissima poderá ter uma severa perda de área adequada (93,7%) e se deslocar para a região norte do Cerrado (Gianinni et al., 2013).
Doenças emergentes
  • O aumento da temperatura e a incidência de secas, resultantes desse processo, podem alterar a distribuição, a densidade e a prevalência de doenças transmitidas por vetores (dengue, leishmanioses, malária, febre amarela etc.), e levar à adaptação de vetores e hospedeiros a novos ciclos de transmissão em vista do impacto das condições climáticas no desenvolvimento, no comportamento e na vida-útil de muitos insetos (Mills et al., 2010; Campbell-Lendrum et al., 2015).
  • A perigosa combinação de altas temperaturas, baixa disponibilidade de água e perda e fragmentação de habitat na Amazônia pode elevar a importância de vetores secundários do mosquito do complexo Albitarsis na transmissão da malária na América do Sul (Laporta et al., 2015). Além disso, dois vetores de malária no norte da América do Sul, Anopheles darlingi e Anopheles nuneztovari s.l., podem expandir suas distribuições geográficas em locais onde também houve a fragmentação do habitat (Alimi et al., 2015).
  • No Brasil, estima-se uma provável expansão do mosquito Aedes aegypti para o sul até 2050 (Cardoso-Leite et al., 2014).
  • Há evidências da existência de uma relação entre as condições climáticas atuais e futuras e o aumento da incidência de leishmaniose (Mendes et al., 2016; Piggot et al., 2014), assim como da influência da mudança do clima nos vetores da doença (González et al., 2010; Moo-Llanes et al., 2013).


Biodiversidade e Mudanças Climáticas no Brasil
Biodiversidade e Mudanças Climáticas no Brasil

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Biodiversidade e Mudanças Climáticas no Brasil
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Do WWF-Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/05/2018

DÍVIDA PÚBLICA E O DÉFICIT ORÇAMENTÁRIO PARA O PRÓXIMO GOVERNO.

O déficit orçamentário e a dívida pública que o próximo governo (2019-2022) vai herdar, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


“A consciência da ignorância é muito melhor do que a ilusão do conhecimento”
Martin Wolf
deficit nominal e resultado primário, Brasil: 2003-2023
[EcoDebate] A situação fiscal do Brasil é dramática, pois o governo está tomando dinheiro emprestado para cobrir as despesas correntes e se endividando para cobrir o enorme déficit nominal. O gráfico acima mostra as contas públicas brasileiras conforme dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), WEO de abril de 2018. O superávit/déficit primário é o resultado do balanço da arrecadação, menos os gastos do governo, mas sem contabilizar os juros da dívida. Corresponde à geração de caixa do governo. O superávit ajuda a reduzir o endividamento. O déficit nominal acelera o crescimento da dívida pública. O conceito de déficit nominal inclui o déficit/superávit primário mais os gastos com o pagamento de juros. Quanto maior o déficit nominal mais rápido cresce a dívida pública.
Os dados são claros. Entre 2003 e 2013, o Brasil conseguiu gerar superávit primário durante uma década, o que possibilitou crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e uma certa estabilidade macroeconômica. Em 2003, o superávit primário foi de R$ 56 bilhões (3,2% do PIB) e passou para R$ 118 bilhões (3,8% do PIB) em 2008. Na recessão de 2009, o governo promoveu políticas fiscais anticíclicas e o superávit primário caiu para R$ 65 bilhões (1,9% do PIB). O superávit voltou a subir até 2011, com R$ 129 bilhões (2,9% do PIB), mas começou a cair nos anos seguintes até se tornar déficit a partir de 2014.
Enquanto o superávit primário se manteve relativamente alto entre 2003 e 2008, o déficit nominal ficou moderadamente controlado abaixo de R$ 100 bilhões, o que representava menos de 3% do PIB. Mas com a recessão, o déficit nominal ultrapassou R$ 100 bilhões em 2009 e chegou a R$ 159 bilhões (-4,2% do PIB), em 2010. Mas o que estava ruim piorou e o déficit nominal chegou a R$ 363 bilhões (-6,5% do PIB) em 2014 e a impressionantes R$ 588 bilhões (-9,8% do PIB) em 2015.
Enquanto houve superávit primário houve também redução da dívida pública bruta (como % do PIB), com redução forte entre 2003 e 2008 e redução moderada até 2013, conforme mostra o gráfico abaixo. Porém, quando o superávit primário se transformou em déficit, elevando o déficit nominal, a dívida pública bruta disparou, chegando a 87% do PIB em 2018 e devendo alcançar 96% do PIB em 2023.
dívida pública brasileira (%PIB): 2003-2023
Artigo de Antonio Nucifora, economista-chefe do Banco Mundial no Brasil (FSP, 08/05/2018), mostra que se nenhuma reforma for feita, a dívida pública brasileira ultrapassará 130% do PIB na próxima década. Ele diz: “Com uma elevação tão rápida, é alto o risco de que os credores deixem de acreditar que o governo brasileiro poderá pagar a sua dívida e, portanto, parem de emprestar dinheiro novo ao Brasil. Caso isso aconteça, o Brasil enfrentará taxas de juros mais altas e o Real se depreciará. Como consequência, a inflação subirá e o poder aquisitivo dos brasileiros será reduzido, especialmente para os pobres, forçando o ajuste que os políticos não terão tido a coragem de fazer. Foi isso o que aconteceu durante as crises financeiras da década de 1980 e início da de 1990”.
Contudo, existe uma forte resistência ao ajuste fiscal e às reformas para sanear as contas públicas. Por um lado, esta resistência é normal numa democracia, pois os diferentes setores da população possuem expectativas diferentes quanto ao gasto público. Por outro lado, se nada for feito a economia brasileira não vai sair da estagnação e não será capaz de gerar emprego para os mais de 26 milhões de brasileiros que estão desempregados ou desalentados.
Em artigo recente, Nelson Barbosa, que foi ministro da Fazenda e do Planejamento no governo Dilma, questiona o bordão “quem votar não volta”, já que se não reformar não haverá governabilidade. A recuperação da estabilidade fiscal demandará mudanças de regras fiscais, no gasto público e na tributação pelo próximo governo. Ele diz: A solução é uma reforma fiscal focada somente em metas de gasto, que podem ser crescentes, constantes ou cadentes em proporção do PIB, de acordo com a escolha política dos eleitores, de quatro em quatro anos. Do lado do gasto, o desafio é controlar despesas obrigatórias, e isso não envolve somente a Previdência.
Também é preciso reavaliar o outro grande gasto federal —a remuneração de servidores—, bem como diminuir o engessamento de algumas despesas por regras e vinculações que não deveriam ser matéria constitucional. Uma saída do atual impasse político entre esquerda e direita seria combinar as duas iniciativas em uma só medida: uma PEC (proposta de emenda à Constituição) que reveja o teto de gasto e aperfeiçoe a regra de ouro, de um lado, e que reforme a Previdência e outros gastos obrigatórios, do outro. A ideia dessa “PEC do compromisso” é combinar flexibilidade com responsabilidade fiscal. Evitar a rigidez crescente do Orçamento público por excesso de metas e, ao mesmo tempo, reduzir o crescimento do gasto obrigatório da União”.
As duas opiniões acima, de economistas de diferentes escolas de pensamento, mostram que a situação fiscal do Brasil vai requerer um entendimento entre a direita e a esquerda e entre toda a sociedade brasileira que já não aguenta a falta de perspectivas para o país e está pagando um alto preço com a baixa percentagem de pessoas ocupadas, a péssima qualidade da saúde e da educação e a falta de segurança pública, dentre outros problemas sociais.
A economia brasileira está presa à armadilha do baixo crescimento, com 27,7 milhões de pessoas desocupadas ou desalentadas e com aumento da extrema pobreza e até aumento da mortalidade infantil, além, do aumento das mortes por causas violentas. Nem a meta de reduzir o analfabetismo foi atingida.
O Brasil está criando uma geração perdida e sem esperança, pois cresceu o número de jovens Nem-Nem. O Brasil tinha 48,5 milhões de pessoas com idade entre 15 e 29 anos e 11,1 milhões não trabalhavam e também não estavam matriculadas em uma escola, faculdade, curso técnico de nível médio ou de qualificação profissional. Não se pode esperar muito de uma geração do futuro que está sendo excluída no presente!
Sem fundamentos econômicos sólidos será impossível atingir o “Pleno emprego e o trabalho decente”, saúde e educação de qualidade para todos. Portanto, não será ignorando a crise fiscal que os problemas sociais serão resolvidos. O Estado é importante, mas não se pode desprezar a força da sociedade civil.
Os dados sobre os períodos de recessão e de recuperação do CODACE – o comitê que data os ciclos econômicos formado pela FGV – confirmam que o Brasil vive a pior retomada da história. A economia de 2019 será menor do que a economia de 2013. No ritmo atual, a renda per capita brasileira só retomará o nível de 2013 em 2023. O próximo governo (que ainda ninguém sabe quem será) terá que ter muita criatividade para tirar o Brasil do beco sem saída em que se encontra.
Referências:
Nelson Barbosa. Reformar o Orçamento público é inevitável, e isso tem de ser debatido na eleição, FSP, 11/05/2018
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/nelson-barbosa/2018/05/reformar-o-orcamento-publico-e-inevitavel-e-isso-tem-de-ser-debatido-na-eleicao.shtml
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/05/2018

sábado, 19 de maio de 2018

ECONOMIA BRASILEIRA : ESTAGNAÇÃO E DESEMPREGO

Economia brasileira em 2018: estagnação e o recorde de 27,7 milhões de desocupados, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


“Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições
justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego”
Artigo 23 da Declaração Universal dos Direitos Humanos (10/12/1948)
taxa composta de subutilização da força de trabalho (%)
[EcoDebate] Os economistas do mercado financeiro começaram o ano de 2018 tentando vender um cenário otimista para a economia brasileira, representado por baixa taxa de inflação, baixa taxa de juros, retomada da renda e do emprego e alto crescimento econômico (considerando que hoje em dia o voo da galinha de 3% de aumento do PIB é comemorado como um “milagre”).
Mas o pacote dourado de produtos otimistas que o mercado tentou vender não resistiu à realidade do primeiro trimestre do ano. As notícias que vieram a público nesta semana de 13 a 19 de maio traçam um quadro muito desanimador para a realidade nacional, neste ano eleitoral, sem muitas perspectivas pela frente.
Com a economia na UTI e uma quantidade enorme de desempregados no país, era de se esperar uma taxa de inflação baixa, como é estabelecido pela famosa “Curva de Phillips”, que relaciona alto desemprego à baixa inflação. Contudo, os preços tendem a subir no Brasil devido ao aumento do preço do petróleo (que chegou a US$ 80 o barril Brent, esta semana), à nova política de preços de combustíveis da Petrobras (o Brasil tem uma das gasolinas mais caras do mundo) e à desvalorização cambial que está impactando o Brasil (o dólar oficial atingiu R$ 3,7 e ultrapassou R$ 4 no mercado paralelo), a Argentina e diversos outros países ditos em desenvolvimento.
Com a possibilidade de aumento da inflação, o Banco Central, no dia 16/05, resolveu manter a taxa de juros Selic em 6,5% ao ano, que é a mais baixa em termos nominais, mas é muito alta em termos reais, considerando o estado anêmico da economia brasileira.
O Banco Central também divulgou (dia 16/05) o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), que registrou uma baixa de 0,13% no acumulado do primeiro trimestre de 2018 na comparação com o trimestre anterior (outubro a dezembro de 2017), pela série ajustada. Isto significa que a economia brasileira está estagnada e será incapaz de crescer 3% no corrente ano, mesmo que houvesse um grande milagre.
Na quinta-feira, dia 17/05/2018, o IBGE divulgou a taxa composta de subutilização da força de trabalho que agrega os desempregados, os subocupados por insuficiência de horas e a força de trabalho potencial. O desalento, que faz parte da força de trabalho potencial, engloba as pessoas que estavam fora da força de trabalho por uma das seguintes razões: não conseguiam trabalho, ou não tinham experiência, ou eram muito jovens ou idosas, ou não encontraram trabalho na localidade – e que, se tivessem conseguido trabalho, estariam disponíveis para assumir a vaga.
Segundo a PNAD Contínua do IBGE, a subutilização da força de trabalho chegou à impressionante taxa de 24,7% no 1º trimestre de 2018, o que representa ¼ da força de trabalho brasileira. Ou seja, 1 em cada 4 brasileiros estão sem o direito humano básico ao emprego, como estabelece a Declaração Universal dos Direitos Humanos (de 10/12/1948).
No total, são 27,7 milhões de pessoas “jogadas na rua da amargura do desemprego”. Esta é a taxa (24,7%) e o número (27,7 milhões) mais alto da série da PNADC, iniciada em 2012. Em alguns estados a taxa de subutilização da força de trabalho chega a 40% (como na Bahia). Isto mostra que o Brasil viveu a sua maior e mais profunda recessão da história e que está tendo a pior e mais desalentadora recuperação de todos os tempos. Pelo menos 3 milhões de brasileiros procuram emprego há 2 anos e nada encontram.
Na verdade, todos estes dados acima sobre inflação, juros, desemprego, baixo crescimento, etc. apenas confirmam que a economia brasileira está em um “beco sem saída” e o povo brasileiro já não sabe mais o que é “Ordem e Progresso”, lema que foi inscrito na bandeira nacional pela influência dos positivistas quando da Proclamação da República e que foi apropriado como lema requentado do atual governo federal.
A situação da economia brasileira é, indubitavelmente, critica. O país tem uma grande crise fiscal, uma dívida pública que está saindo totalmente do controle, baixa taxa de poupança e investimento e baixíssima produtividade dos fatores de produção. Mesmo a ótima notícia de que o Brasil vive o seu melhor momento demográfico da história e que tem uma janela de oportunidade única para dar um salto no desenvolvimento humano, não vale de nada, pois o estado da economia está jogando fora o bônus demográfico ao desperdiçar o potencial de 27,7 milhões de potenciais trabalhadores.
Para complicar ainda mais o que já está complicado, matéria do site Bloomberg (17/05/2018), com base em estudos da economista da Universidade de Harvard, Carmen Reinhart, mostra que os chamados “mercados emergentes” estão em pior situação hoje em dia do que durante a crise financeira global de 2008.
Ao invés do otimismo dos BRICS, termo inventado pelo economista Jim O’ Neill, do banco de investimento Goldman Sachs, em 2001, a moda agora é falar de “Os 5 fracos” (“the Fragile Five”), que incluem Brasil, Índia, África do Sul, Turquia e Indonésia. Sendo que a Argentina é Hors concours. Uma crise internacional neste momento só agravaria a crise brasileira.
O Brasil está em rota de declínio, possui um governo corrupto, ilegítimo e paralisado, um Congresso corrupto, caro e ineficiente, um ativismo judicial inaceitável e tem uma oposição perdida e que não sabe o que apresentar para tirar o Brasil do buraco, a não ser velhas propostas que já se comprovaram repetidamente inadequadas e insuficientes. Ou seja, a fila do desemprego vai continuar crescendo e cada vez mais pessoas vão procurar trabalho por mais tempo e o país terá mais gente insatisfeita o tempo todo.
Referências:
Enda Curran and Cormac Mullen. Worse Than 2008? Here’s What the Emerging Market Numbers Show, Bloomberg, 17 de maio de 2018
https://www.bloomberg.com/news/articles/2018-05-17/worse-than-2008-here-s-what-the-emerging-market-numbers-show
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/05/2018

GORDURAS TRANS : MORTES E DOENÇAS

Organização Mundial da Saúde (OMS) divulga plano para eliminar gorduras trans produzidas industrialmente


ONU
A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou na segunda-feira (14) um guia para eliminar os ácidos graxos trans produzidos industrialmente do suprimento global de alimentos.
A eliminação das gorduras trans é fundamental para proteger a saúde e salvar vidas. A OMS estima que, a cada ano, a ingestão de gordura trans leve a mais de 500 mil mortes de pessoas com doenças cardiovasculares.
A eliminação das gorduras trans é fundamental para proteger a saúde e salvar vidas. Foto: ONU/Domínio Público
A eliminação das gorduras trans é fundamental para proteger a saúde e salvar vidas. Foto: ONU/Domínio Público
A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou na segunda-feira (14) o REPLACE, guia com um passo-a-passo para eliminar os ácidos graxos trans produzidos industrialmente do suprimento global de alimentos. A eliminação das gorduras trans é fundamental para proteger a saúde e salvar vidas. A OMS estima que, a cada ano, a ingestão de gordura trans leve a mais de 500 mil mortes de pessoas com doenças cardiovasculares.
Gorduras trans produzidas industrialmente estão presentes nas gorduras vegetais hidrogenadas, como margarina e ghee, e em salgadinhos, alimentos assados e frituras. Os fabricantes costumam utilizá-las por terem uma vida útil mais longa do que outras gorduras. No entanto, alternativas mais saudáveis podem ser usadas, não afetando o sabor ou o custo dos alimentos.
“A OMS pede aos governos que usem o pacote de ação REPLACE para eliminar os ácidos graxos trans produzidos industrialmente do suprimento de alimentos”, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. “A implementação das seis ações estratégicas do REPLACE ajudará a alcançar a eliminação da gordura trans e representará uma importante vitória na luta global contra as doenças cardiovasculares.
O pacote de ações REPLACE fornece seis ações estratégicas para assegurar a eliminação rápida, completa e sustentada das gorduras trans produzidas industrialmente a partir do suprimento de alimentos. O guia sugere revisar fontes alimentares com gordura trans produzidos industrialmente e o panorama para as mudanças políticas necessárias; promover a substituição de gorduras trans produzidas industrialmente por gorduras e óleos mais saudáveis; e legislar ou promulgar ações regulatórias para eliminar gorduras trans produzidas industrialmente.
Outras recomendações envolvem avaliar e monitorar o teor de gorduras trans no suprimento de alimentos e mudanças no consumo de gordura trans entre a população; conscientizar sobre o impacto negativo na saúde das gorduras trans entre formuladores de políticas, produtores, fornecedores e o público; e estimular a conformidade de políticas e regulamentos.
Vários países de alta renda praticamente eliminaram as gorduras trans produzidas industrialmente por meio de limites legalmente impostos sobre a quantidade que pode estar contida nos alimentos embalados. Alguns governos implementaram proibições de óleos parcialmente hidrogenados, a principal fonte de gorduras trans produzidas industrialmente.
Na Dinamarca, primeiro país a impor restrições às gorduras trans produzidas industrialmente, o teor de gordura trans dos produtos alimentares diminuiu drasticamente e as mortes por doenças cardiovasculares diminuíram mais rapidamente do que em países comparáveis da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
“A cidade de Nova Iorque eliminou a gordura trans produzida industrialmente há uma década, seguindo a liderança da Dinamarca”, disse Tom Frieden, presidente e CEO da “Resolve to Save Lives”, uma iniciativa da “Vital Strategies”. “A gordura trans é um químico tóxico desnecessário, que mata, e não há razão para as pessoas no mundo todo continuarem expostas a ela”.
“Em países de baixa e média renda, onde o controle do uso de gorduras trans produzidas industrialmente é frequentemente mais fraco, são necessárias ações para garantir que os benefícios sejam vividos igualmente em todo o mundo.
O embaixador global da OMS para doenças crônicas não transmissíveis, Michael Bloomberg, ex-prefeito de cidade de Nova Iorque e fundador da Bloomberg Philanthropies, argumentou que “proibir gorduras trans na cidade de Nova Iorque ajudou a reduzir o número de ataques cardíacos sem mudar o sabor ou o custo dos alimentos”. Segundo ele, a eliminação de seu uso em todo o mundo poderia salvar milhões de vidas.
“Uma abordagem abrangente do controle do tabaco nos permitiu fazer mais progresso globalmente na última década do que quase todos pensavam ser possível. Agora, uma abordagem semelhante à gordura trans pode nos ajudar a fazer esse tipo de progresso contra as doenças cardiovasculares, outra das principais causas mundiais de morte evitável.”
A eliminação do suprimento global de alimentos com gorduras trans produzidas industrialmente foi identificada como uma das metas prioritárias do plano estratégico da OMS, que orientará o trabalho da organização entre 2019 e 2023.
O plano está na pauta da 71ª Assembleia Mundial da Saúde, a ser realizada em Genebra entre os dias 21 e 26 de maio. Como parte dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, a comunidade global se comprometeu a reduzir em um terço até 2030 as mortes prematuras por doenças crônicas não transmissíveis. A eliminação global de gorduras trans produzidas industrialmente pode ajudar a atingir esse objetivo.
“Por que nossos filhos deveriam ter um ingrediente tão inseguro em seus alimentos?”, questionou Tedros. “O mundo está agora embarcando na Década de Ação da ONU sobre Nutrição, usando-a como uma bússola para melhorar o acesso à alimentação e à nutrição saudáveis. A OMS também está usando esse marco para trabalhar com governos, indústria alimentícia, academia e sociedade civil para garantir sistemas alimentares mais saudáveis para as gerações futuras, inclusive eliminando as gorduras trans produzidas industrialmente.”

Nota

Existem duas fontes principais de gorduras trans: fontes naturais (nos produtos lácteos e carne de ruminantes, como vacas e ovelhas) e fontes produzidas industrialmente (óleos parcialmente hidrogenados).
Os óleos parcialmente hidrogenados foram inicialmente introduzidos no suprimento de alimentos no início do século 20 como um substituto da manteiga, e se tornaram mais populares nos anos 1950 e 1970, com a descoberta dos impactos negativos na saúde dos ácidos graxos saturados. Óleos parcialmente hidrogenados são usados principalmente para frituras e como ingrediente em produtos assados; eles podem ser substituídos em ambos os casos.
A OMS recomenda que o consumo total de gordura trans seja limitado a menos de 1% do consumo total de energia, o que se traduz em menos de 2,2 g/dia em uma dieta de 2 mil calorias. As gorduras trans aumentam os níveis de colesterol LDL, um biomarcador bem aceito para o risco de doenças cardiovasculares, e diminui os níveis de colesterol HDL, que levam o colesterol das artérias e o transportam para o fígado, que o secreta para a bile.
Dietas ricas em gorduras trans aumentam o risco de doença cardíaca em 21% e de mortes em 28%. Substituir as gorduras trans por ácidos graxos insaturados diminui o risco de doença cardíaca, em parte, melhorando os efeitos negativos das gorduras trans nos lipídeos do sangue. Além disso, existem indicações de que a gordura trans pode aumentar a inflamação e a disfunção endotelial.
A OMS realiza até 1º de junho uma consulta pública on-line para revisar as orientações atualizadas sobre o consumo de ácidos graxos saturados para adultos e crianças.
Da ONU Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/05/2018

BRASIL : QUATRO DÉCADAS DE BAIXO CRESCIMENTO ECONÔMICO, SENDO DUAS DÉCADAS PERDIDAS.

Brasil: quatro décadas de baixo crescimento econômico, sendo duas décadas perdidas, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


crescimento do PIB para o mundo e o Brasil
[EcoDebate] O Brasil apresentou um crescimento do PIB mais rápido do que a média mundial na maior parte do século XX. Entre 1950 e 1980 o PIB brasileiro cresceu 7,1% ao ano, quase o dobro do ritmo do PIB global. Mas a realidade mudou nas últimas quatro décadas e o Brasil passou a crescer menos do que a média mundial.
O gráfico acima mostra que a velocidade do crescimento do PIB brasileiro foi menor do que a velocidade do incremento global nos últimos 40 anos, sendo duas décadas perdidas. Entre 1981 e 1990, enquanto o PIB mundial cresceu 38,4%, o PIB brasileiro cresceu apenas 16,6% na década, ou 1,55% ao ano. Mas como a população cresceu 19,2% na década (1,77% aa), houve decréscimo da renda per capita. Por isto se diz que foi uma década perdida, pois o brasileiro médio ficou mais pobre no período.
Entre 1991 e 2000, o PIB mundial acumulou um crescimento de 37,6%, contra 29,3% do Brasil. O crescimento médio anual foi de 3,24% no mundo e de 2,6% no Brasil. Ou seja, os anos de 1990 foram de maior crescimento do que a década anterior no Brasil, mas também em ritmo abaixo do desempenho da economia global. A primeira década do atual século foi mais dinâmica do que as duas últimas do século passado, tendo um crescimento total de 46,7% no mundo (3,9% aa) e 43,5% no Brasil (3,7% aa). O superciclo das commodities impulsionou o crescimento na maioria dos países.
A atual década (2011-20), com base nos dados das projeções do FMI, deve apresentar um crescimento global de 43,7% (3,7% aa) e de somente 10,6% no Brasil (1% aa). Como a população brasileira deve crescer 7,5% (0,7% aa), o crescimento da renda per capita foi mínimo, caracterizando uma situação de estagnação e uma segunda década perdida. A década de 1981-90 foi a pior em termos de renda per capita e a década de 2011-20 será a pior em crescimento do PIB.
Evidentemente, não se pode esperar que o Brasil cresça mais do que a China e a Índia, que são os dois motores da economia internacional. Mas o gráfico abaixo mostra que, na atual década, o Brasil está tendo um desempenho pior do que os países em desenvolvido, mas também pior do que os países desenvolvidos. Enquanto a Ásia emergente deve crescer 93% na década e a África Subsaariana deve crescer 45,7%, o Brasil crescerá somente 10,6%, um ritmo menor do que o apresentado pelos Estados Unidos (24,5%) e a União Europeia (18,5%). Este baixo crescimento do Brasil não pode ser atribuído há uma suposta crise internacional, mas aos problemas criados internamente. Como já mostrei em outros artigos, a média do período 2011-18 (governos Dilma e Temer) foi o pior octênio do período republicano brasileiro.
crescimento do PIB do Brasil, EUA e regiões do mundo
Como consequência do menor crescimento econômico, o PIB brasileiro perde participação no PIB mundial. O Brasil representava 4,3% do PIB mundial em 1980 e deve ficar com menos de 2,5% do PIB mundial em 2020.
participação do PIB brasileiro no PIB mundial
Como o Brasil está em rota submergente e se empobrecendo em termos relativos, a renda per capita brasileira cresce menos do que a renda per capita mundial. Em 1980, a renda per capita brasileira era de US$ 4,8 mil, 62% maior do que a renda per capita mundial de US$ 3 mil. Em 2014, o Brasil ainda tinha uma renda per capita (US$ 16,3 mil) superior a renda mundial (US$ 15,1 mil). Mas a partir de 2016, o cidadão brasileiro médio ficou mais pobre do que o cidadão médio global. O FMI estima uma renda per capita de US$ 17,4 mil para o Brasil e de US$ 19,6 mil para o mundo. O Brasil passou para o grupo do lado inferior da renda média mundial.
evolução da renda per capita do mundo e do Brasil
Portanto, o Brasil apresentou crescimento da renda entre 1980 e 2020, mas um crescimento menor do que a média mundial. Em termos relativos, é como andar para trás. O tamanho do Brasil está menor na comparação internacional. Isto não teria problemas caso a distribuição de renda fosse bem distribuída e houvesse progresso e solidariedade social no país. Mas o que tem passado é uma falta de perspectiva e agravamento do desemprego, da insegurança, das condições de moradia e da violência.
Provavelmente, todos as candidaturas à Presidência vão falar da necessidade de crescimento econômico. Mas o que o Brasil precisa é de um crescimento qualitativo e com melhor distribuição de renda e não simplesmente quantitativo, com base na exploração de recursos naturais e na exportação de commodities.
O velho Brasil está em crise e o novo ainda não foi gestado e está difícil de se ver uma boa alternativa à frente.
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/05/2018