sábado, 23 de maio de 2026
Dia da Terra e o aquecimento dos oceanos .
“Em meio a toda essa vastidão do Universo, não há indício de que alguém virá
de algum lugar para nos salvar de nós mesmos”
Carl Sagan(1934-1966)
Recordes sucessivos de temperatura, o derretimento acelerado de geleiras, a elevação do nível do mar e a intensificação de eventos extremos reforçam o diagnóstico de uma crise climática
Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
O Dia da Terra, celebrado em 22 de abril e criado em 1970, surgiu em um contexto de crescente preocupação com a crise ecológica global. A iniciativa partiu do senador norte-americano Gaylord Nelson, com o objetivo de promover uma consciência coletiva sobre problemas como a poluição, a conservação da biodiversidade e outras questões ambientais fundamentais para a proteção do planeta.
As primeiras mobilizações, naquele mesmo ano, reuniram cerca de duas mil universidades, dez mil escolas de ensino básico e centenas de comunidades. Esse amplo engajamento gerou forte pressão social, contribuindo para que o governo dos Estados Unidos criasse a Agência de Proteção Ambiental (EPA) e aprovasse uma série de leis voltadas à preservação ambiental.
No entanto, em vez de atender plenamente aos alertas sobre a degradação ambiental, governos e setores desenvolvimentistas frequentemente optaram por priorizar o crescimento populacional e econômico, em nome da grandeza nacional e da projeção internacional. Esse caminho tem sido associado à busca por uma prosperidade material muitas vezes insustentável e pouco racional do ponto de vista ecológico.
Ao longo dos 56 anos desde a criação do Dia da Terra, em 1970, a preocupação com o aquecimento global passou de um tema periférico no debate ambiental para o eixo central das discussões sobre o futuro da humanidade.
Nas décadas de 1970 e 1980, o foco inicial do movimento ambientalista — impulsionado pelo primeiro Dia da Terra — estava mais concentrado em problemas visíveis e imediatos, como a poluição do ar e da água, a contaminação por produtos químicos e a perda de biodiversidade. Ainda que a base científica do aquecimento global já estivesse sendo construída, especialmente a partir dos estudos sobre o efeito estufa, o tema permanecia restrito a círculos acadêmicos.
A virada começa no fim dos anos 1980, quando o aquecimento global ganha projeção internacional com a criação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, em 1988. A partir daí, sucessivos relatórios científicos passaram a consolidar evidências de que o aumento das temperaturas médias do planeta estava ligado às emissões de gases de efeito estufa decorrentes das atividades humanas.
Nos anos 1990, o tema entra definitivamente na agenda política global, com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, e a adoção da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. O aquecimento global passa a ser reconhecido como um desafio coletivo, ainda que as respostas políticas tenham sido inicialmente tímidas.
Na década de 2000, a preocupação se intensifica com a ampliação das evidências científicas e a crescente cobertura midiática. O Protocolo de Kyoto, que entrou em vigor em 2005, representou a primeira tentativa concreta de estabelecer metas obrigatórias de redução de emissões para países desenvolvidos. Paralelamente, eventos climáticos extremos — como ondas de calor, secas e tempestades mais intensas — começaram a ser associados ao aquecimento global no debate público.
A partir de 2010, o tema ganha ainda mais urgência. O Acordo de Paris marca um ponto de inflexão ao estabelecer o compromisso global de limitar o aquecimento a bem abaixo de 2º C, com esforços para restringi-lo a 1,5º C. Ao mesmo tempo, cresce a mobilização da sociedade civil, especialmente entre os jovens, com movimentos como o Fridays for Future, liderado por Greta Thunberg.
Nos anos mais recentes, o aquecimento global deixou de ser uma preocupação futura para se tornar uma realidade presente. Recordes sucessivos de temperatura, o derretimento acelerado de geleiras, a elevação do nível do mar e a intensificação de eventos extremos reforçam o diagnóstico de uma crise climática em curso. Instituições como o Copernicus Climate Change Service têm documentado esse avanço com dados cada vez mais precisos.
Os dados mais recentes vêm mostrando um salto sem precedentes na temperatura da superfície dos oceanos a partir de 2023, que se manteve em 2024 e continuou muito elevada em 2025 — e tudo indica que 2026 pode voltar a bater recordes, conforme mostra o gráfico abaixo do Climate Reanalyzer.
Estudos mostram que houve um “salto” abrupto nas temperaturas da superfície do mar em 2023 e 2024, algo estatisticamente muito raro sem o aquecimento global em curso. Além disso, praticamente todo o oceano foi afetado por ondas de calor marinhas extremas em 2023.
Em 2023 e 2024 foram observados recordes sucessivos de temperatura da superfície do mar, incluindo valores acima de 21º C em médias globais diárias. Esse patamar representa um nível muito elevado em comparação com a climatologia recente (anos 1990–2010).
Mesmo com a transição para condições de La Niña (que tendem a resfriar as águas marinhas), as temperaturas permaneceram extremamente altas. 2025 foi um dos três anos mais quentes dos oceanos já registrados. As temperaturas da superfície do mar ficaram “próximas de recordes” ao longo do ano.

No início de 2026, a média global da superfície do mar já voltou a ultrapassar 21º C . E está próxima dos picos recordes de 2024 e pode bater todos os patamares anteriores com a volta do fenômeno El Niño no segundo semestre de 2026.
Esse encadeamento de anos (2023–2026) não é apenas uma série de recordes isolados — ele revela uma mudança estrutural: a) Os oceanos absorvem cerca de 90% do excesso de calor do sistema climático; b) Estão acumulando energia continuamente, o que eleva o “piso térmico” do planeta; e c) Mesmo quando há variabilidade natural (El Niño/La Niña), o patamar geral segue subindo. Em outras palavras: os recordes estão deixando de ser exceção e se tornando o novo normal.
O que os dados do Climate Reanalyzer captam — essa sequência de temperaturas acima de 21º C — é um sinal muito claro de aceleração do aquecimento oceânico. E isso é crucial, porque oceanos mais quentes:
intensificam eventos extremos (chuvas, furacões, secas)
aceleram o derretimento das calotas de gelo e elevam o nível dos oceanos
pressionam ecossistemas (como recifes de coral) e reduzem a biodiversidade marinha
e reduzem a capacidade do planeta de estabilizar o clima
Assim, ao longo dessas mais de cinco décadas, o aquecimento global passou de hipótese científica a evidência incontestável e, finalmente, a uma emergência global. O mundo precisa abandonar as guerras e a dependência dos combustíveis fósseis. A transição energética é um imperativo.
O Dia da Terra, que começou como um movimento voltado à conscientização ambiental, tornou-se hoje também um marco simbólico da luta contra a crise climática e da busca por um novo modelo de desenvolvimento compatível com os limites do planeta.
José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382
Referências:
ALVES, JED. Crescimento demoeconômico no Antropoceno e negacionismo demográfico, Liinc em Revista, RJ, v. 18, n. 1, e5942, maio 2022 https://revista.ibict.br/liinc/article/view/5942/5595
ALVES, JED. Dia da Terra, aquecimento global e emissões de carbono, Ecodebate, 27/04/2016
ALVES, JED. Dia da Terra: Duas vias para preservar a vida no Planeta, Ecodebate, 20/04/2022
https://www.ecodebate.com.br/2022/04/20/dia-da-terra-duas-vias-para-preservar-a-vida-no-planeta/
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
Jardins de chuva e telhados frios protegem as cidades do calor e das enchentes .
Em um país marcado pelo calor extremo e pelas chuvas intensas, duas tecnologias simples e acessíveis podem mudar a forma como nossas cidades lidam com o clima: os jardins de chuva e os telhados frios
Por Henrique Cortez*
Você já parou para observar como nossas cidades parecem “sufocadas” pelo asfalto e pelo concreto? Em dias de chuva forte, o medo das enchentes; nos dias de sol, o mormaço insuportável das ilhas de calor. Recentemente, mergulhei no conceito de resiliência urbana e descobri que a solução para esses problemas pode ser mais verde e simples do que imaginamos.
Estou falando dos jardins de chuva e dos telhados frios, tecnologias que, embora pareçam novidade, buscam resgatar processos naturais que perdemos no meio das selvas de pedra.
O que são, afinal, os jardins de chuva?
Sabe aquela água que costuma se acumular perigosamente no asfalto? Os jardins de chuva são projetados justamente para lidar com ela. Eles funcionam como “oásis de drenagem”: uma rede subterrânea que atua como um reservatório, permitindo que a água permeie o solo de forma controlada.
Mas o que mais me encanta não é apenas a engenharia, e sim a vida que eles trazem de volta. Esses jardins são compostos por camadas específicas que garantem sua eficiência. Além de gerenciarem o volume hídrico, as plantas filtram os poluentes da chuva, entregando uma água muito mais limpa para nossos rios e córregos. É a natureza trabalhando a nosso favor para promover o retorno da fauna e o enriquecimento da biodiversidade local.
Por que precisamos de telhados frios?
Se o jardim de chuva cuida do que acontece no chão, o telhado frio é a nossa defesa contra o céu. No Brasil, temos a tradição das telhas cerâmicas vermelhas, que absorvem um calor solar imenso. Ao optarmos por superfícies reflexivas ou brancas, criamos uma oportunidade única de resfriamento externo.
Essa mudança simples reduz drasticamente as ilhas de calor e melhora a qualidade do ar ao nosso redor. É uma solução que une o útil ao agradável: traz vantagens econômicas (menos gasto com ar-condicionado!) e um impacto ambiental positivo imediato para o clima tropical.
Mais do que infraestrutura, um compromisso com a vida
Investir nessas áreas verdes não é apenas uma questão de paisagismo; é uma estratégia crucial para a sobrevivência das cidades frente às mudanças climáticas. Ao adotarmos essas práticas, reduzimos a necessidade de obras emergenciais e minimizamos o risco de desastres naturais.
Mudar a cor de um telhado ou plantar um jardim estratégico na calçada pode parecer pouco, mas é assim que restauramos os processos ecológicos e hídricos do nosso lar. Afinal, todos merecemos viver em cidades que não apenas nos abriguem, mas que também respirem e nos ofereçam qualidade de vida.
* Henrique Cortez, jornalista e ambientalista. Editor do EcoDebate.

Referências:
Jardins de chuva: Solução verde que transforma drenagem urbana
Telhados frios: uma estratégia eficaz para combater o calor urbano
in EcoDebate, ISSN 2446-9394