sábado, 6 de junho de 2026

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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Petrolíferas lucram com projetos “sustentáveis” que não funcionam .

 

dinheiro do petróleo

Hidrogênio, biocombustíveis e captura de carbono escondem estratégia bilionária para prolongar era dos combustíveis fósseis

Estudo internacional expõe como projetos vendidos como “verdes” pela indústria petrolífera aumentam injustiça ambiental e bloqueiam transição energética real

Promessa verde, realidade poluente

As maiores petrolíferas do mundo prometem liderar a transição energética, mas pesquisa recente revela uma realidade inquietante: projetos apresentados como soluções climáticas funcionam como cortina de fumaça para perpetuar dependência de combustíveis fósseis por décadas.

Estudo conduzido pelo Instituto de Ciência e Tecnologia Ambiental da Universidade Autônoma de Barcelona (ICTA-UAB), em parceria com a Universidade de Sussex, analisou 48 conflitos ambientais globais e concluiu que iniciativas como hidrogênio, biocombustíveis, captura e armazenamento de carbono e compensação de emissões operam como “falsas soluções”.

Publicada na revista Energy Research & Social Science, a pesquisa demonstra que essas tecnologias não reduzem emissões efetivamente, além de agravar injustiças ambientais e fortalecer o poder político-econômico do setor responsável pela crise climática.

A estratégia do atraso disfarçado de inovação

Empresas petrolíferas se reposicionam estrategicamente como “parte da solução” para neutralizar pressões sociais, jurídicas e políticas que exigem abandono rápido dos fósseis. Essa narrativa permite conectar refinarias, oleodutos e termoelétricas a infraestruturas de hidrogênio, biocombustíveis ou captura de carbono, justificando operação continuada por décadas.

O gasoduto H2Med, planejado entre Barcelona e Marselha, exemplifica essa tática: vendido como infraestrutura para hidrogênio, pode transportar gás fóssil. Marcel Llavero Pasquina, pesquisador do ICTA-UAB, alerta que essas tecnologias só mitigariam mudanças climáticas se substituíssem completamente extração de petróleo, gás e carvão.

“A verdadeira contribuição climática dessas empresas deveria ser medida pelos combustíveis fósseis que deixam de explorar, não pelos projetos apresentados como verdes”, destaca Llavero Pasquina.

Injustiça ambiental e subsídios bilionários

A pesquisa revela que projetos promovidos por petrolíferas não demonstram capacidade de capturar ou reduzir CO₂ na escala necessária. Longe de melhorar condições de vida, reproduzem injustiça ambiental: expandem poluição atmosférica, expropriação de terras e destruição de modos de vida tradicionais, especialmente no Sul Global.

Paradoxalmente, essas iniciativas recebem generosos subsídios públicos, inflando lucros privados de projetos com eficácia climática limitada ou duvidosa. O estudo documenta como falsas soluções fortalecem alianças entre petrolíferas e setores altamente poluidores — aviação, agronegócio, mineração —, criando novas dependências econômicas que consolidam poder do setor fóssil.

Captura corporativa da transição energética

Essas estratégias permitem que petroleiras se apresentem como atores indispensáveis na descarbonização, mantendo influência sobre governos, instituições internacionais, mercados financeiros e fóruns de governança climática.

“A narrativa de que empresas de combustíveis fósseis são ‘parte da solução’ é essencial para preservar legitimidade e evitar transformações profundas que desafiem seu poder e modelo extrativista”, explica Llavero Pasquina.

Freddie Daley, pesquisador associado, reforça: “Nosso estudo mostra que falsas soluções não resultam de acidentes tecnológicos ou experimentos malsucedidos — são estratégias deliberadas da indústria fóssil para atrasar o fim da era dos combustíveis fósseis. Dão aparência de progresso mantendo sistema subjacente intacto, com custo considerável para meio ambiente e clima.”

Resistência comunitária e urgência política

Comunidades locais, povos indígenas e movimentos por justiça ambiental resistem globalmente, denunciando essas iniciativas como falsas soluções que ignoram causas estruturais da crise climática: desigualdades socioeconômicas, neocolonialismo e expansão de economias industriais baseadas em consumo.

Daley adverte governos: “Se levam a sério compromissos climáticos internacionais e nacionais, devem parar de tratar atraso como inovação e cessar recompensas a empresas que reembalam velhas práticas extrativistas como ação climática.”

Risco de bloqueio sistêmico

O estudo alerta que integração dessas falsas soluções em políticas públicas e mercados energéticos pode bloquear transformações reais no sistema energético global, consolidando poder de empresas fósseis em momento crítico para descarbonização.

Os autores destacam necessidade urgente de repensar regulação e papel dessas tecnologias para impedir que transição energética seja capturada por quem busca perpetuar modelo fóssil.

Referência:

Llavero-Pasquina, Marcel & Eckstein, Sarah & Daley, Freddie & Rugh, Nathaniel & Glimmerveen, Judith. (2025). False solutions: How do fossil fuel companies reproduce their power through the energy transition?. Energy Research & Social Science. 130. 104367. 10.1016/j.erss.2025.104367. https://doi.org/10.1016/j.erss.2025.104367

 

Nota da Redação: Sugerimos que leia, também, a matéria “Créditos de carbono são fraude? Estudo revela falhas em 25 anos de mercado“.

 

Citação
EcoDebate, . (2026). Petrolíferas lucram com projetos “sustentáveis” que não funcionam. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2026/06/01/petroliferas-lucram-com-projetos-sustentaveis-que-nao-funcionam/ (Acessado em junho 6, 2026 at 03:38)

in EcoDebate, ISSN 2446-9394

O Brasil está preparado para o El Niño 2026?

 imagem de satélite mostra aquecimento anormal das águas do Pacífico Tropical, em junho de 2023

El Niño

 

Modelos climáticos apontam para um episódio forte ou muito forte entre 2026 e 2027 e a maior ameaça ao país não é o fenômeno em si, mas as nossas velhas vulnerabilidades

Com probabilidade acima de 90% de formação do El Niño no segundo semestre de 2026, cientistas alertam que temos ciência de ponta para prever, mas seguimos falhando em proteger quem está no caminho da catástrofe.

Nem todo El Niño produz os mesmos efeitos, e é importante evitar simplificações excessivas. Mas nosso país esbarra na dificuldade histórica de incorporar o conceito de risco ambiental às suas atividades de planejamento territorial. É importante aprendermos a lidar com nossas vulnerabilidades

Artigo de Enner Alcântara

O fenômeno El Niño voltou a aparecer com frequência no noticiário internacional nos últimos meses. A razão é simples: alguns modelos climáticos indicam a possibilidade de desenvolvimento de um evento relativamente intenso entre 2026 e 2027. Isso não significa, evidentemente, que o planeta caminhe inevitavelmente para uma catástrofe climática global, mas chama atenção porque os episódios mais fortes de El Niño costumam alterar o regime de chuvas e temperaturas em diferentes partes do mundo.

O El Niño é um fenômeno natural associado ao aquecimento anômalo das águas superficiais do Pacífico Equatorial. Esse aquecimento modifica a circulação atmosférica tropical e acaba influenciando o clima em várias regiões do planeta. A climatologia conhece esse mecanismo há bastante tempo, embora ainda existam dificuldades importantes quando se tenta antecipar, com muitos meses de antecedência, a intensidade exata de cada evento e seus impactos regionais (Trenberth, 1997; McPhaden et al., 2006).

Nem todo El Niño produz os mesmos efeitos. Os episódios de 1982/1983, 1997/1998 e 2015/2016 ficaram conhecidos pela intensidade e pelos impactos observados em diferentes continentes, mas cada um deles apresentou características próprias. A atmosfera não responde de maneira idêntica em todos os eventos, e isso é importante para evitar simplificações excessivas.

No Brasil, os efeitos do El Niño variam bastante de uma região para outra. Historicamente, a Região Sul tende a registrar aumento das chuvas durante esses episódios, enquanto áreas do Norte e do Nordeste frequentemente enfrentam redução das precipitações e períodos mais secos. Mas isso não funciona como uma regra absoluta. Outros fatores oceânicos e atmosféricos também interferem no comportamento climático sul-americano, especialmente as condições térmicas do Atlântico Tropical.

Ainda assim, existe uma preocupação compreensível em relação ao cenário atual. O país vem enfrentando, nos últimos anos, uma sequência de eventos extremos bastante significativa. Secas severas na Amazônia, enchentes no Sul, ondas de calor persistentes em diferentes regiões e incêndios florestais de grande proporção passaram a fazer parte da rotina climática recente do Brasil.

Nem todos esses eventos decorrem diretamente do El Niño, e atribuições automáticas costumam ser cientificamente problemáticas. Mas existe hoje um entendimento consolidado de que o aquecimento global pode aumentar a frequência e a intensidade de alguns extremos climáticos. Fenômenos naturais de variabilidade climática, como o El Niño, passam então a atuar sobre uma atmosfera mais quente e com maior disponibilidade de energia e vapor d’água (IPCC, 2021).

O problema brasileiro, contudo, não é apenas climático.

Desastres raramente são produzidos exclusivamente pela chuva, pela seca ou pelo calor. Eles dependem muito das condições sociais e territoriais sobre as quais esses eventos atuam. Uma mesma quantidade de chuva produz impactos completamente diferentes em cidades com infraestrutura adequada e em áreas marcadas por ocupação irregular, drenagem insuficiente e forte vulnerabilidade social.

Isso vale igualmente para as secas. Seus efeitos são muito mais graves onde há baixa segurança hídrica, maior dependência de agricultura de sequeiro e pouca capacidade de resposta institucional. Por isso, fenômenos como o El Niño acabam expondo fragilidades que já existiam antes deles.

O Brasil possui instituições científicas altamente qualificadas para monitorar o clima e produzir previsões sazonais. Houve avanços importantes nas últimas décadas em monitoramento hidrometeorológico, modelagem climática e sistemas de alerta. Hoje existe capacidade técnica para acompanhar secas, enchentes e extremos climáticos com um nível de detalhe muito superior ao que existia há vinte ou trinta anos.

Mas conhecimento científico, sozinho, não reduz risco.

Em muitas cidades brasileiras, a expansão urbana continuou ocorrendo em áreas suscetíveis a enchentes e movimentos de massa. Em outras regiões, a pressão sobre recursos hídricos aumentou sem planejamento compatível com a variabilidade climática do país. Grande parte dos problemas aparece justamente aí: menos na ausência de informação e mais na dificuldade histórica de incorporar risco ambiental ao planejamento territorial.

Preparar-se para possíveis impactos associados ao El Niño não significa impedir a ocorrência do fenômeno. Isso simplesmente não é possível. A questão central é reduzir vulnerabilidades. Melhorar drenagem urbana, fortalecer sistemas de alerta, proteger encostas, ampliar monitoramento hidrológico e planejar melhor o uso do território continuam sendo medidas muito mais efetivas do que respostas emergenciais tomadas apenas depois das tragédias.

Talvez a principal lição trazida pela discussão atual sobre o El Niño seja justamente essa. Eventos climáticos extremos fazem parte da dinâmica natural do sistema climático. O que transforma esses eventos em desastres de grandes proporções é, muitas vezes, a forma como as sociedades organizam seus territórios e lidam, ou deixam de lidar, com suas próprias vulnerabilidades.

Enner Alcântara é professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Desastres Naturais (Unesp/Cemaden), onde orienta pesquisas nas áreas de sensoriamento remoto, análise espacial e modelagem preditiva aplicada a eventos extremos.

Imagem acima: imagem de satélite mostra aquecimento anormal das águas do Pacífico Tropical, em junho de 2023. Crédito: NOAA.

O artigo foi publicado originalmente no Jornal da Unesp.

 

Citação
EcoDebate, . (2026). O Brasil está preparado para o El Niño 2026?. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2026/06/01/o-brasil-esta-preparado-para-o-el-nino-2026/ (Acessado em junho 6, 2026 at 03:38)

in EcoDebate, ISSN 2446-9394

Aumenta a idade média da fecundidade no Brasil .

 

A idade média da fecundidade está aumentando no Brasil devido a fatores como maior escolaridade, participação no mercado de trabalho, mudanças culturais e planejamento familiar

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

O Brasil está passando por um ampla e profunda transição demográfica. As taxas de mortalidade começaram a cair no final do século XIX e as taxas de fecundidade tiveram um rápido declínio a partir dos anos 1970. A Taxa de Fecundidade Total (TFT) no Brasil estava acima de 6 filhos por mulher em meados do século passado, chegou a 2,3 filhos por mulher no ano 2000, ficou abaixo do nível de reposição na metade da primeira década do atual século e atingiu o nível de 1,55 filho por mulher em 2022. A queda da TFT ocorreu em todas as regiões brasileiras com os níveis regionais convergindo para um ponto próximo da média nacional.

Mas além da diminuição do número médio de filhos, há também o aumento da idade média da fecundidade. A publicação do IBGE, Censo Demográfico 2022. Fecundidade e migração Resultados preliminares, considerar que a idade média da fecundidade é um importante indicador que revela tendências no comportamento reprodutivo, indicando, dentre outras coisas, se as mulheres estão tendo filhos mais cedo ou mais tarde. Como se observa no gráfico abaixo, para o Brasil e Grandes Regiões, em quase todas as localidades houve o aumento da idade média da fecundidade ao longo do período de análise (2000 a 2022).

idade média da fecundidade brasil e regiões

Segundo a publicação do IBGE, em que pese o fato de termos dois anos a mais de observação no período 2010-2022, quando comparado ao período 2000-2010, proporcionalmente a idade média da fecundidade no país aumentou mais no segundo período de análise vis a vis o primeiro período de análise. No Brasil, a idade média da fecundidade em 2000 era de 26,3 anos, passando para 26,8 anos em 2010 (aumento de 0,5 ano) e para 28,1 anos em 2022 (aumento de 1,3 ano).

Ao longo do período 2000-2022 a Região Centro-Oeste foi aquela que apresentou o maior aumento na idade média da fecundidade (com 2,7 anos) e a Região Norte o menor (com 1,2 anos). Em todos os três Censos Demográficos, a idade média da fecundidade nas Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste foi sempre inferior àquela das Regiões Sudeste e Sul, evidenciando o envelhecimento mais tardio da curva de fecundidade nas três primeiras. Em 2022, a idade média da fecundidade foi de 27,0 anos no Norte, e de 28,7 no Sudeste e no Sul do país. No Nordeste e no Centro-Oeste as idades médias foram de 27,7 e 27,9 anos, respectivamente. A idade média de fecundidade está aumentando por vários motivos:

1. Maior escolaridade e mais oportunidades educacionais

Mulheres têm buscado mais educação superior e pós-graduação. O investimento em estudos muitas vezes leva a decisões de postergar o início da maternidade para depois da formação acadêmica e estabilização profissional. Isso está ligado à redução da fecundidade em grupos com mais educação e aumento da idade média de fecundidade entre essas mulheres.

2. Maior participação no mercado de trabalho

Com mais acesso ao trabalho formal, carreiras profissionais atraem mulheres que preferem consolidar seus empregos antes de formar uma família. O foco em carreira e renda geralmente adia decisões sobre filhos e os casais, especialmente as mulheres, esperam a consolidação da inserção profissional antes da decisão de ter o primeiro filho.

3. Mudanças sociais e culturais

Normas tradicionais sobre família e maternidade vêm mudando: há mais aceitação social de ter filhos mais tarde ou de não ter filhos. Além disso, a importância atribuída à autonomia pessoal e ao estilo de vida influencia escolhas reprodutivas.

4. Acesso a métodos contraceptivos e planejamento familiar

Melhor acesso a contracepção, educação sexual e planejamento familiar dá mais controle sobre quando ter filhos, contribuindo para o adiamento da maternidade.

5. Condições econômicas e custos de vida

Em contextos de incerteza econômica ou altos custos com moradia, educação e cuidado infantil, muitas pessoas optam por ter filhos mais tarde ou em menor número. Isso faz parte de uma tendência que também aparece internacionalmente.

Evidentemente, este processo gera consequências sociais e econômicas e acelera o ritmo da transição da estrutura etária:

  • Envelhecimento da população

Quando menos crianças nascem e a população vive por mais tempo, a proporção de pessoas idosas cresce. Isso significa menos jovens na população total e mais pessoas na terceira idade, gerando desafios e oportunidades.

O maior desafio é a pressão sobre sistemas de saúde e previdência: Há menos trabalhadores ativos contribuindo para os sistemas de aposentadoria, ao mesmo tempo em que cresce a demanda por serviços de saúde voltados para idosos.

Outro desafio é a redução da oferta de pessoas no mercado de trabalho: menos jovens entrando na força de trabalho pode limitar a capacidade de inovação e o crescimento econômico a longo prazo.

  • Redução do número de filhos por mulher

A idade média de fecundidade mais alta costuma acompanhar uma tendência de ter menos filhos. No Brasil, a taxa de fecundidade total caiu para cerca de 1,55 filhos por mulher em 2022, abaixo do nível de reposição populacional (2,1).

Menos crianças e adolescentes no sistema educacional, que pode parecer positivo para algumas políticas públicas no curto prazo. Desafios futuros de sustentabilidade demográfica, porque menos pessoas podem significar menos trabalhadores e consumidores no futuro.

  • Alterações nas estruturas familiares

Mais casais optam por ser pais depois dos 30 anos. Há um aumento no número de pessoas que chegam à idade adulta sem filhos. Isso influencia também o mercado imobiliário (por exemplo, escolhas sobre morar sozinho x com família), serviços de lazer e consumo e até políticas públicas de urbanismo.

A idade média da fecundidade está aumentando no Brasil devido a fatores como maior escolaridade, participação no mercado de trabalho, mudanças culturais e planejamento familiar.

Esse adiamento tem impactos sociais e econômicos, incluindo envelhecimento da população, reduções na taxa de fecundidade e desafios para sistemas públicos e mercado de trabalho. Mas também gera oportunidades.

O processo de transição da fecundidade e de envelhecimento da estrutura etária cria um novo fenômeno que é o avanço das gerações grisalhas e o desenvolvimento da economia prateada que podem se contrapor aos desafios da nova dinâmica demográfica brasileira. A redução e o envelhecimento da fecundidade, quando combinados ao avanço das gerações grisalhas, não significam apenas escassez, mas uma reorganização estrutural da economia e da sociedade brasileira.

1. Oportunidades associadas à redução e ao adiamento da fecundidade

  • Requalificação do investimento social ao longo do ciclo de vida

Menos nascimentos permitem realocar recursos públicos e privados. Menos pressão quantitativa sobre creches e ensino básico. Mais espaço para investimento por criança, elevando capital humano. Possibilidade de expandir educação continuada, requalificação profissional e aprendizagem ao longo da vida. Em vez de um modelo extensivo (muitos jovens, baixo investimento médio), abre-se espaço para um modelo intensivo de qualidade.

  • Ganhos de autonomia feminina e produtiva

O adiamento da maternidade está ligado a: maior inserção e permanência das mulheres no mercado de trabalho; trajetórias profissionais mais longas e qualificadas e maior renda ao longo do ciclo de vida. Isso amplia a base contributiva da previdência, o consumo qualificado e a diversidade de arranjos familiares e econômicos. Do ponto de vista macroeconômico, mulheres economicamente ativas por mais tempo compensam parte da redução demográfica.

  • Menos dependência infantil, mais capacidade de poupança

Famílias com menos filhos têm maior capacidade de poupança e investimento, consomem mais serviços (saúde, lazer, cultura, turismo) e demandam produtos de maior valor agregado. Esse padrão favorece setores intensivos em serviços e conhecimento — exatamente os que crescem em economias envelhecidas.

2. O avanço das gerações grisalhas como vetor de transformação estrutural

O envelhecimento populacional não é apenas um fenômeno biológico; é uma mudança geracional profunda. As gerações que entram hoje na velhice: têm mais escolaridade, melhor saúde funcional (em média), maior familiaridade com tecnologia e expectativa de vida ativa mais longa. Isso desloca a imagem do idoso de “dependente” para ator econômico, social e político relevante.

  • Expansão do tempo produtivo da vida

Com ganhos de longevidade a vida adulta produtiva se alonga. A fronteira entre “ativo” e “inativo” se torna mais difusa e aposentadoria passa a ser transição, não ruptura. Isso cria espaço para: trabalho parcial, empreendedorismo sênior, mentoria intergeracional e reentrada no mercado após os 60+. Em termos demográficos, mais anos produtivos compensam menos pessoas nascendo.

  • Reorganização das relações intergeracionais

Menos filhos e mais idosos aumentam a importância dos vínculos não familiares (comunidade, vizinhança, redes sociais). Fortalecem modelos colaborativos de cuidado e estimulam políticas de cidades amigáveis ao envelhecimento. Essa reorganização pode reduzir custos sociais futuros se bem planejada.

3. A economia prateada como resposta estratégica à nova demografia

A economia prateada não é um nicho: é um novo eixo de desenvolvimento. A população idosa deixa de ser vista como um fardo e um problema e passa a ser valorizada como solução para o avanço do bem-estar social.

  • Mercado consumidor robusto e crescente

Pessoas 60+ concentram renda, patrimônio e aposentadorias. Consomem de forma estável (menos cíclica) e demandam qualidade, não apenas preço. Os setores diretamente impactados são: saúde e cuidados integrados; moradia adaptada e retrofit urbano; turismo sênior; tecnologia assistiva; educação ao longo da vida e serviços financeiros e seguros. Isso gera empregos locais, pouco automatizáveis e intensivos em serviços.

  • Inovação orientada ao envelhecimento

O envelhecimento populacional estimula inovação em design universal. Acelera soluções digitais inclusivas e favorece tecnologias de cuidado, monitoramento e autonomia. Muitas dessas inovações beneficiam todas as idades, aumentando produtividade geral da economia.

  • Redefinição do contrato social e produtivo

A economia prateada permite diluir a dependência exclusiva da fecundidade como motor do crescimento, substituindo o crescimento demográfico por crescimento de produtividade, longevidade ativa e capital humano acumulado, além de criar um novo pacto entre gerações, baseado em cooperação, não competição.

O Brasil terá que decidir entre a “armadilha fiscal geriátrica” e a oportunidade civilizatória. A redução e o envelhecimento da fecundidade não são reversíveis no curto prazo, mas não devem ser tratados apenas como problema e exigem mudança de paradigma.

Um Envelhecimento Saudável, Ativo e Colaborativo (ESAC) requer ações articuladas em quatro níveis. No plano individual, o cuidado com a saúde e o bem-estar depende do engajamento pessoal, já que a prática regular de atividade física e a adoção de uma alimentação adequada pressupõem iniciativa e responsabilidade de cada indivíduo. No nível local e comunitário, as relações sociais com vizinhos e com a comunidade do entorno são fundamentais para o fortalecimento dos vínculos coletivos, a construção de redes de apoio e o senso de propósito de vida. No âmbito da iniciativa privada, cabe às empresas combater práticas etaristas, valorizar a diversidade etária e promover ambientes de trabalho multigeracionais e inclusivos. Por fim, no nível do Estado, as políticas públicas devem atuar de forma integrada nas esferas federal, estadual e municipal, com ações que apoiem a população com 50 anos ou mais e promovam o aproveitamento do bônus da longevidade, estimulando o pleno uso do potencial econômico, social e produtivo das gerações prateadas.

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. Transição demográfica e desenvolvimento socioeconômico na Jamaica e Costa Rica, Ecodebate, 21/01/2026 https://www.ecodebate.com.br/2026/01/21/transicao-demografica-e-desenvolvimento-socioeconomico-na-jamaica-e-costa-rica/

ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século XXI (com a colaboração de GALIZA, F), ENS, maio de 2022

https://prdapi.ens.edu.br/media/downloads/Livro_Demografia_e_Economia_digital_2.pdf

CAVENAGHI, Suzana; ALVES, José Eustáquio D. Childlessness in Brazil: socioeconomic and regional diversity. In: XXVII IUSSP International Population Conference, 2013, Bussan. Proceedings of XXVII IUSSP International Population Conference. IUSSP, 2013. v. 1. p. 1-25.

https://iussp.org/sites/default/files/event_call_for_papers/ChildlessNessBrazil_Final.pdf

IBGE. Censo Demográfico 2022. Fecundidade e migração Resultados preliminares da amostra

https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv102187.pdf

 

Citação
EcoDebate, . (2026). Aumenta a idade média da fecundidade no Brasil. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2026/06/03/aumenta-a-idade-media-da-fecundidade-no-brasil/ (Acessado em junho 6, 2026 at 03:31)

 
in EcoDebate, ISSN 2446-9394