quarta-feira, 13 de março de 2024

O EXTRATIVISMO GLOBAL ESTÁ DEGRADANDO E SUFOCANDO A NATUREZA .

O extrativismo global está degradando e sufocando a natureza

 

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Este mundo curioso que nós habitamos é mais maravilhoso do que conveniente,
mais bonito do que útil, mais para ser admirado e apreciado do que usado”
Henry Thoreau (1817-1862)

 

A economia global continua consumindo recursos naturais em um ritmo alarmante, enquanto o progresso em direção ao cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável está aquém do necessário

O ser humano não gerava grande impacto na natureza quando a população era pequena e vivia da coleta dos frutos da natureza. As populações humanas eram nômades e totalmente dependentes da caça e da oferta de bens de subsistência oferecida pela ampla biodiversidade dos ecossistemas.

Mas este quadro começou a mudar com a 1ª onda de progresso advinda da fixação das populações a um território com a prática da agricultura e a domesticação de animais e se ampliou com a 2ª onda gerada pelas atividades industriais.

A revolução agrícola e pecuária foi um período de transformação fundamental na história da humanidade que teve um impacto significativo na forma como as sociedades se organizavam e se desenvolviam. A revolução agrícola e pecuária iniciou-se há cerca de 10.000 anos, com a transição das sociedades humanas de uma economia de caça e coleta para uma economia baseada na agricultura e na domesticação de animais.

Este período viu o desenvolvimento de práticas agrícolas como a irrigação, a rotação de culturas e o uso de ferramentas agrícolas, o que permitiu o aumento da produção de alimentos e o estabelecimento de comunidades sedentárias. A domesticação de animais, como o gado, as ovelhas e os porcos, também desempenhou um papel crucial nesta revolução, fornecendo não só carne, mas também leite, peles e força de trabalho para a agricultura.

A revolução industrial, por sua vez, ocorreu a partir do século XVIII na Grã-Bretanha e espalhou-se por toda a Europa e, posteriormente, para outras partes do mundo. Esta revolução foi caracterizada pela transição de uma economia agrária e artesanal para uma economia industrial baseada na produção em massa de bens utilizando máquinas alimentadas por energia, inicialmente a vapor e mais tarde a eletricidade.

A revolução industrial teve um impacto profundo em todos os aspectos da vida humana, desde a economia e a política até a sociedade e a cultura. A urbanização acelerada, o surgimento da classe trabalhadora industrial, a expansão do comércio global e a rápida inovação tecnológica foram algumas das características distintivas deste período.

Uma característica comum das revoluções da produção econômica da humanidade é a extração de matéria-prima e de recursos naturais. O extrativismo tem sido a base do desenvolvimento das civilizações. O avanço e o enriquecimento da humanidade se deu às custas do empobrecimento e do retrocesso do meio ambiente.

Como mostrou o economista ecológico, Clóvis Cavalcanti (2012), a economia, em suas dimensões físicas, é feita de coisas, material e energia fornecida pela natureza, o que gera permanentemente “estruturas dissipativas”. O sistema produtivo (throughput ou transumo) gera um fluxo metabólico do ambiente que leva à entropia.

O autor explica como funciona o modelo “Extrai-Produz-Descarta”: “Pela Figura 1 pode-se ver que o que a economia moderna faz, na verdade, em última análise, é cavar um buraco eterno que não para de aumentar (extração de matéria e energia de baixa entropia). Cumprido o processo do transumo, os recursos terão virado inevitavelmente dejetos – matéria neutra, detritos, poeira, cinzas, sucata, energia dissipada – que não servem para quase absolutamente nada (matéria e energia de alta entropia). Amontoam-se formando um lixão, também eterno, que não para de crescer. Assim, a extração de recursos e a deposição de lixo deixam como legado uma pegada ecológica cada vez maior” (p. 40).

modelo extrai produz descarta

 

Desta forma, enquanto permanecer o modelo de crescimento econômico baseado no “Extrai-Produz-Descarta” não poderá haver desenvolvimento sustentável, pois o crescimento da Pegada Ecológica continuará ultrapassando a Biocapacidade do Planeta. Como a humanidade já superou a capacidade de carga da Terra, o extrativismo só aumenta a Sobrecarga das atividades antrópicas.

O mundo está em uma trilha insustentável, como mostrou o Painel Internacional de Recursos (IRP) do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). O Painel divulga o relatório “Global Resources Outlook” de 5 em 5 anos e, na edição de 2024, lançada no dia 01 de março, há uma grave advertência: “O mundo enfrenta atualmente uma tripla crise planetária, envolvendo alterações climáticas, perda de biodiversidade e poluição e resíduos. A economia global continua consumindo recursos naturais em um ritmo alarmante, enquanto o progresso em direção ao cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável está aquém do necessário” (p. 26).

O gráfico abaixo, do Global Resources Outlook 2024, mostra que a extração anual de materiais (biomassa, combustíveis fósseis, minerais metálicos e minerais não metálicos) cresceu de 30,9 bilhões de toneladas em 1970 para 95,1 bilhões de toneladas em 2020 e estima-se 106,5 bilhões de toneladas em 2024.

A extração foi de 2,1% ao ano entre 1970 e 2000, acelerou para 3,5% entre 2000 e 2012, mas desacelerou para 1% ao ano entre 2012 e 2020, no rescaldo da crise financeira global e na desaceleração econômica causada pela pandemia da covid-19. Com a recuperação pós pandêmica, o crescimento médio da extração de recursos voltou a acelerar para 2,9% ao ano. O maior crescimento do extrativismo ocorreu na Ásia, que é o continente mais populoso do mundo.

A composição do uso de materiais também mudou significativamente nas últimas cinco décadas. Em 1970, a biomassa foi a maior categoria de uso de material com 41% do total, mas a sua percentagem diminuiu para 33% em 2000 e 26% em 2020. Os minerais não metálicos se tornaram a maior categoria, com 48% em 2020, acima dos 31% de 1970, sinalizando uma transição do metabolismo agrário baseado em biomassa para um metabolismo industrial baseado em minerais.

infográfico do extrativismo global

 

Sem dúvida, é preciso destacar que a extração de recursos cresceu acima da taxa de aumento da população mundial. A média global da demanda material per capita era de 8,4 toneladas em 1970 e cresceu para 12,2 toneladas per capita em 2020 e chegou a 13,2 toneladas per capita em 2024.

O crescimento da população e do consumo aumentam a demanda por recursos da natureza. E o pior: segundo o relatório “Global Resources Outlook 2024”, a exploração de recursos pode passar de 100 bilhões de toneladas em 2020 para 160 bilhões de toneladas em 2060, um aumento de 60% nas próximas 4 décadas.

É preciso rever o caminho do abismo. O mundo precisa planejar o decrescimento demoeconômico para reduzir o extrativismo global que está degradando e sufocando a natureza.

Mas, enquanto o decrescimento não se torna uma realidade, é preciso buscar a difícil tarefa de fazer o desacoplamento absoluto entre a produção de bens e serviços e a quantidade de recursos extraídos do meio ambiente.

Referências:

ALVES , J. E. D. População, desenvolvimento e sustentabilidade: perspectivas para a CIPD pós-2014. R. bras. Est. Pop., Rio de Janeiro, v. 31, n.1, p. 219-230, jan./jun. 2014
http://www.rebep.org.br/index.php/revista/article/view/651/pdf_618

CAVALCANTI, Clóvis. Sustentabilidade: mantra ou escolha moral? Uma abordagem ecológico-econômica. SP, Estudos avançados 26 (74), 2012 http://www.scielo.br/pdf/ea/v26n74/a04v26n74.pdf

United Nations Environment Programme (UNEP): Global Resources Outlook 2024: Bend the Trend – Pathways to a liveable planet as resource use spikes. International Resource Panel. Nairobi, 2024
https://wedocs.unep.org/20.500.11822/44901

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

 

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in EcoDebate, ISSN 2446-9394

Conheça os indicadores do aquecimento global .

 Cientistas utilizam sete indicadores principais para monitorar o estado do sistema climático global; processo envolve observações no fundo do mar até ao topo da atmosfera e conta com ampla rede de estações espalhadas pelo mundo, além de satélites e radares. 

Você com certeza já ouviu mensagens da ONU alertando o mundo sobre o perigo do aquecimento global. Mas você sabe como é feita a medição que está por trás destes alertas?

Ao todo, sete indicadores são usados pelos cientistas para monitorar a evolução e o estado do sistema climático global. Esses indicadores constituem informação chave para descrever as alterações climáticas.

Os métodos aplicados neste processo vão de observações no fundo do mar até ao topo da atmosfera.

Comunidades em Maalimin, no nordeste do Quénia, enfrentam condições de seca
Pnuma/Miranda Grant
Comunidades em Maalimin, no nordeste do Quênia, enfrentam condições de seca

1 – Temperatura média do ar na superfície

O primeiro indicador importante é a temperatura média do ar na superfície. Para gerar essa informação é feita uma combinação entre a temperatura do ar cerca de dois metros acima da superfície da terra e do mar, usando informações de estações de medição espalhadas pelo mundo e modelos de reanálise de clima. 

É com base em seis conjuntos de dados de temperatura global que a OMM calcula a anomalia e o ranking anual. 2023 será o ano mais quente desde que há registro. As medições começaram em 1850. 

Além disso, os últimos nove anos, de 2015 a 2023, foram os mais quentes. 

2- Conteúdo de calor do oceano

O segundo indicador é o conteúdo de calor do oceano. Essa medida é feita em várias profundidades, chegando até 2 mil metros. Todas as bases de dados apontam que a taxa de aquecimento do oceano tem tido um aumento acentuado nas últimas duas décadas em todas as profundidades. 

O oceano absorveu e retém cerca de 90% do excesso de calor devido ao aumento do efeito estufa causado pelos humanos. A última informação consolidada disponível, referente ao ano 2022, revela que o conteúdo de calor do oceano atingiu um novo recorde neste ano. 

Restos de uma casa no Atol de Tarawa, Kiribati, que foi destruída pela elevação do nível do mar e por tempestades, agravadas pelas mudanças climáticas
Unicef/Sokhin
Restos de uma casa no Atol de Tarawa, Kiribati, que foi destruída pela elevação do nível do mar e por tempestades, agravadas pelas mudanças climáticas

3- Aumento do nível do mar

Outro elemento observado é o aumento do nível do mar, que tem acontecido de forma constante. Entre janeiro de 1993 e outubro de 2023, o mar subiu mais de 10 cm, atingido um valor recorde em 2023. 

Além disso, verifica-se uma aceleração, pois a taxa de subida do nível médio do mar nos últimos dez anos é mais do que o dobro da registrada entre 1993 e 2002. 

As projeções apontam para a continuidade do aumento de forma cada vez mais rápida, especialmente devido ao aquecimento dos oceanos e o derretimento do gelo dos glaciares e das calotas polares. 

No ritmo atual, o degelo da Groenlândia e da Antártida podem contribuir para que o nível médio do mar suba quase um metro ainda neste século, num cenário de altas emissões de gases com efeito estufa. 

4- Massa glacial

O quarto indicador é a massa glacial. Os chamados glaciares, ou geleiras, são uma grande massa de gelo que pode levar até 30 mil anos para se formar. Elas estão presentes em várias partes do planeta, principalmente no topo das mais altas montanhas. As geleiras armazenam 70% da água doce existente no planeta. 

Desde os anos 70, houve uma diminuição média de mais de 30 metros na espessura dessas geleiras. 

Em agosto de 2023, foi registrado na Suíça um novo recorde de altitude para o ponto na atmosfera em que a água congela, que ficou em 5.298 metros. Isso é bem mais acima do que o topo das mais altas montanhas da Europa, como o Mont Blanc, que tem 4.811 metros.

Túnel de iceberg fotografado em Portal Point, na Antártida
Unsplash/Derek Oyen
Túnel de iceberg fotografado em Portal Point, na Antártida

5- Extensão do gelo marinho

A quinta medida é a extensão do gelo marinho. Novos números mostram que em setembro deste ano, o gelo marinho da Antártica era de 1,5 milhão km2 menor que a média, uma área aproximadamente igual a área de Portugal, Espanha, França e Alemanha juntas.

É bom lembrar que o gelo também tem o papel de refletir a luz do sol, então conforme reduz a camada de gelo do planeta, mais calor fica retido e isso acelera ainda mais o derretimento do gelo que resta. 

6 – Acidificação do oceano

O sexto indicador observado é a acidificação do oceano. Os mares absorvem cerca de 23% das emissões anuais de dióxido de carbono, CO2, geradas pelo homem, mas paga um preço ecológico elevado por isso.

O CO2 reage com a água do mar aumentando sua acidez e isso coloca em perigo os organismos vivos, afetando inclusive a pesca e aquicultura. Isso afeta também a proteção costeira ao enfraquecer os recifes de coral, que servem de barreira para o litoral.

A poluição do ar causada por usinas de energia contribui para o aquecimento global
Unsplash/Maxim Tolchinskiy
A poluição do ar causada por usinas de energia contribui para o aquecimento global

7 – Concentração de gases do efeito estufa

E por último é analisada a composição da atmosfera. E o que é mais alarmante nesse sentido é o aumento da concentração de gases que causam o “efeito estufa”, ou seja, retem o calor. 

A emissão desses gases disparou por conta de atividades humanas desde o início da era industrial e esse é o principal motivo identificado pelos cientistas para as mudanças climáticas que vivemos hoje.

O principal gás do efeito estufa é CO2. Parte dele é absorvida por florestas e mares, mas quase metade fica no ar e demora muitos anos para se dissipar. 

A última vez que a Terra registou uma concentração comparável de CO2 foi há 3 a 5 milhões de anos, quando a temperatura era 2 a 3°C mais quente e o nível do mar era 10 a 20 metros mais alto do que é agora. 

Naquela época havia apenas a emissão de CO2 por processos naturais. Hoje, a emissão de CO2 gerada pelos seres humanos, embora seja menor do que aquela resultante dos processos naturais, causa um excesso que não tem como ser absorvido, gerando um desequilíbrio fatal. 

Dados de instituições de referência

A Organização Meteorológica Mundial usa conjuntos de dados provenientes de várias instituições de referência e centros de investigação internacionais, incluindo os dados de temperatura global de seis instituições que são referência em monitoramento do clima.

A primeira delas é Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço dos Estados Unidos, Nasa. Essa agência tem pelo menos 42 satélites e instrumentos espaciais dedicados a medições ligadas ao clima na Terra. 

A segunda organização de referência é a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, Noaa, que possui ou opera 17 satélites 1322 boias marinhas, 15 navios e 9 aeronaves para monitorar o clima. 

Além disso, a agência organiza uma base de dados com registros de mais de 100 mil estações meteorológicas de 180 países e territórios. 

A terceira fonte de dados é o Met Office, o serviço meteorológico nacional do Reino Unido, fundado em 1854. O centro inglês é uma referência devido a sua capacidade tecnológica baseada no uso de supercomputadores para realizar previsões meteorológicas e projeções de alterações climáticas. 

OMM para a América do Norte, América Central e Caribe
ONU Costa Rica/Danilo Mora
OMM para a América do Norte, América Central e Caribe

A quarta é o Centro Europeu de Previsão do Tempo, Ecmwf, que opera um dos modelos previsão do tempo com melhor performance a nível global e o modelo de reanálise ERA5, que integra variáveis da atmosfera, do solo e do oceano, com elevada resolução espacial e temporal. 

A quinta fonte da OMM é o grupo Berkeley Earth, uma organização científica independente, especializada em ciência de dados, que estuda tendencias, faz análises estatísticas e simulações com informações de estações meteorológicas espalhadas ao redor do mundo.

A sexta fonte é a Agência Meteorológica do Japão, JMA, que desenvolveu o modelo de reanálise de terceira geração, JRA55, que foi o primeiro deste tipo a disponibilizar informação desde final da década de 50 do século XX. 

Consenso científico

Além disso, a meteorologia é uma das disciplinas onde existe uma cooperação internacional longa e bem-sucedida. Os sistemas de observação, incluindo as estações ao redor do mundo têm que seguir e operar de acordo com especificações rigorosas para gerar dados uniformizados, confiáveis e robustos. 

O Sistema global de observação da OMM conta atualmente com mais de 11 mil estações em terra, cerca de 4 mil a bordo de navios, mais de 1,2 mil boias na superfície do mar, enviando em tempo real os dados de observação, para além de diversos satélites, aviões, radares e detectores de descargas elétricas atmosféricas, entre outros. 

Todo esse compartilhamento da informação que vem dessas estações e meios de observação alimenta as bases de dados e modelos climáticos que são usados em estudos rigorosos sobre as causas do atual aquecimento do planeta. 

É por isso que, segundo a Nasa, 97% dos cientistas de clima que estão ativamente desenvolvendo e publicando estudos concordam que os seres humanos estão causando o aquecimento global e as mudanças climáticas

Fonte: ONU News

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in EcoDebate, ISSN 2446-9394