sábado, 5 de novembro de 2016

PARANÁ : É O PIONEIRO NA LUTA CONTRA O FRATURAMENTO HIDRÁULICO.

No Brasil, Paraná É Pioneiro Na Luta Contra O Fraturamento Hidráulico (FRACKING)

Londrina, a segunda maior cidade do estado, aprovou semana passada por unanimidade projeto de Lei que proíbe a extração do gás de xisto antes mesmo de ter o subsolo vendido pela ANP
Dos 15 estados brasileiros que estão na rota do fraturamento hidráulico (FRACKING), método não convencional para extração do subsolo do gás metano da rocha de xisto, o Paraná está colecionando grandes vitórias na luta contra o gás da morte. E não é para menos. Das 399 cidades, 122 tiveram o subsolo vendido pela Agência Nacional de Petróleo e Gás (ANP) sem que os gestores públicos, movimentos sociais e do setor produtivo, bem como a população, fossem consultados.
Em 2013, a ANP realizou a 12ª Rodada de licitações e vendeu blocos para a exploração do gás de xisto que impactou diretamente cidades como Umuarama, Toledo, Foz do Iguaçu, Guarapuava, entre outras localizadas em cima dos aquíferos Serra Geral e Guarani. São áreas de grande produção agrícola e pecuária, potencial turístico e densamente povoadas que seriam arrasadas caso os poços de Fracking fossem perfurados.
“Aquele leilão pegou todas as pessoas de surpresa e tivemos que agir rápido diante dos impactos ambientais, econômicos e sociais que essa terrível e devastadora tecnologia minerária provoca. E o Paraná foi o primeiro estado a se mobilizar, ainda em 2013, para impedir que as nossas reservas de água e terras produtivas fossem contaminadas, nosso povo ficasse doente e o clima do planeta piorasse”, relembra Juliano Bueno de Araujo, fundador da COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida – e coordenador de Campanhas Climáticas da 350.org.
Desde então, a COESUS se fortaleceu e se consolidou como uma frente multisetorial para impedir que o Fracking aconteça no Brasil. Foram realizadas centenas de audiência públicas, seminários, oficinas de capacitação e celebradas parceiras com outras entidades ambientalistas, climáticas e movimentos sociais, sindicatos rurais e de agricultores para informar e mobilizar as pessoas e pressionar os gestores municipais a aprovarem uma legislação que proibisse essa técnica.
Unanimidade
A exemplo de outras cidades, a Câmara de Vereadores de Londrina também aprovou por unanimidade em primeira discussão o Projeto de Lei 51/2016 de autoria da vereadora Lenir de Assis (PT) que proíbe o Fracking. “O método de exploração de gases de xisto é um perigo para a saúde e o meio ambiente, estando relacionado a casos de câncer, mudanças climáticas e abalos sísmicos”, justifica a autora do PL. O projeto ainda contou com o apoio de José Roque Neto, Mário Takahashi, Amauri Pereira Cardoso, Douglas Carvalho Pereira e Elza Correia.
Agora, a proibição será votada em segunda discussão e, se aprovada e sancionada, Londrina se somará aos municípios paranaenses que proibiram o Fracking antes mesmo da ANP ter vendido o subsolo para a exploração do gás de xisto como Maringá, Arapongas, Cornélio Procópio, Ribeirão Claro, entre outros.
Juliano Bueno de Araujo explica que a campanha Não Fracking Brasil ganha a cada dia mais adesão dos paranaenses à medida que as informações dos riscos e perigos do fraturamento hidráulico chegam às cidades e as pessoas se dão conta da ameaça. “O mesmo está acontecendo em outros estados. E ainda assim, passados três anos da campanha, a ANP continua a ignorar a opinião da população que não quer o Fracking, não quer que o gás da morte acabe com as reservas de água, os ecossistemas e mate as famílias”, destaca.
Tanto ignora que a agência está realizando aquisição sísmica em várias regiões do Paraná a todo o vapor. O temor é que outros 150 municípios possam ser incluídos na próxima rodada de licitações, especialmente os localizados na região Norte Pioneiro onde já foram feitos testes para verificar as características do solo. “Se isto realmente acontecer, como previmos, o Paraná terá 2/3 do seu território contaminado pelo fraturamento hidráulico, impactando a vida de aproximadamente seis milhões de pessoas. Não podemos permitir que isso aconteça”, reafirma Juliano.
Assista vídeo dos testes para aquisição sísmica realizados no perímetro urbano de Carlópolis que assustaram os moradores https://www.youtube.com/watch?v=0suymr_8oNE
Perigos
Fracking é o método não convencional para extração do gás de xisto (folhelho pirobetuminoso) que está a grandes profundidades. Para quebrar a rocha e liberar o metano, são injetados milhões de litros de água, misturados à areia e um coquetel com mais de 720 produtos químicos, muitos tóxicos, cancerígenos e até radioativos. Parte dessa mistura retorna à superfície e fica armazenada à céu aberto em ‘piscinas’ contaminando os rios e córregos, o solo e o ar. O que fica no subsolo chega aos aquíferos pelas fissuras provocadas pelas explosões na rocha, além do metano que torna a água inflamável.
No Brasil, a ANP já vendeu o subsolo para exploração do gás não convencional de 372 cidades, muitas delas localizadas sobre os principais aquíferos, áreas de floresta e de preservação, regiões de grande performance agrícola, territórios onde vivem comunidades tradicionais e povos indígenas, além de localidades densamente povoadas.
A campanha Não Fracking Brasil conseguiu sensibilizar o Ministério Público Federal que obteve liminares com efeito suspensivo dos leilões da 12ª Rodada em seis estados, entre eles o Paraná e São Paulo.
Por Silvia Calciolari,

in EcoDebate, 04/11/2016

PROJETO PARA RIOS PAULISTANOS : PREVENÇÃO CONTRA ENCHENTES.

Projeto Da FAU/USP, Para Rios Paulistanos, Alia Usos Múltiplos Das Águas, Do Lazer À Macrodrenagem


Proposta prevê implantação de parques em orlas fluviais e a criação de lagos nas nascentes e foz de rios como alternativa para prevenção contra enchentes
Pesquisa da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP propõe uma série de intervenções para as orlas fluviais de três rios da cidade de São Paulo. O trabalho da arquiteta Eloísa Balieiro Ikeda prevê a construção de dois níveis de cais ao longo do canal Pinheiros, com passeios para pedestres e áreas arborizadas em ambos os espaços, a implantação de bulevares às margens do ribeirão Jaguaré e de parques e lagos no córrego Água Podre. Os parques proporcionariam uma opção de lazer para a população e os lagos, além da composição de paisagens urbanas com qualidade, reteriam as águas das chuvas, realizando a macrodrenagem de maneira sistêmica, ao longo de cada afluente, e prevenindo inundações.
A base do projeto, desenvolvido no Grupo Metrópole Fluvial da FAU, é o Estudo de pré-viabilidade do Hidroanel Metropolitano de São Paulo, apresentado em 2011 e coordenado pelo professor Alexandre Delijaicov, orientador da pesquisa. “Tendo essa proposta como eixo, os pesquisadores do grupo desenvolvem projetos e aprofundam conceitos relacionados à arquitetura de infraestrutura urbana fluvial”, conta a arquiteta. “Há no Brasil uma carência de projetos que reconheçam o papel dos rios como estruturadores urbanos que devem ser o logradouro público principal, um ambiente de convergência e encontro, a identidade de um lugar, que orienta as pessoas na cidade.”
Esquema de Infraestrutura Azul e Verde: Águas Fluviais e Parques/Praças/Jardins – Fonte: autora, 2016 (Clique na imagem para ampliar)
O projeto elaborado na pesquisa abrange as orlas fluviais do canal do Pinheiros inferior, que vai da barragem da Traição até a barragem do Retiro, próximo da confluência com o Rio Tietê. “Foram escolhidos três rios para o desenvolvimento do projeto e pesquisa, o Pinheiros, um de seus afluentes, o Jaguaré, e o Água Podre, afluente do Jaguaré”, explica Eloísa. “São três escalas distintas de cursos d’água e de orlas fluviais, de modo a demonstrar a possibilidade de irradiação de desenvolvimento urbano a partir dessa ramificação de eixos de infraestrutura.”
No canal Pinheiros, a proposta prevê um tipo de intervenção comum em rios que cortam cidades na Europa, que é a construção de um cais alto, ou seja, de um novo térreo para a cidade. “Em Paris, por exemplo, o Rio Sena possui um cais baixo, próximo ao nível d’água do rio, e um cais alto construído alguns metros acima, que está no nível da malha urbana que tem uma continuidade em ambas as margens do rio, transpondo-o em nível, sem a necessidade de subir e descer pontes”, conta a arquiteta.
No caso do Pinheiros, as vias expressas, as marginais, seriam mantidas no nível do cais baixo. Sobre essas vias seria construído o novo térreo da cidade, no nível do cais alto. “Esse novo térreo teria um uso urbano adequado, oposto ao das vias expressas exclusivas para veículos, com bulevares arborizados com generosos passeios para pedestres ao longo de todo o canal. Assim, as pessoas teriam espaço para passeio no cais baixo, próximo ao rio, e também nos bulevares do cais alto”, descreve Eloisa. “No nível do cais baixo, voltado para o canal, seriam reservadas áreas para bares, restaurantes, comércio em geral, com arcadas e varandas voltadas para o rio.”
Corte do canal Pinheiros na altura da ponte que conecta a Raia Olímpica da USP e o Parque Villa-Lobos [Fonte: autora, 2016]. Propõe-se que a área da Raia Olímpica da USP seja transformada em parque público (clique na imagem para ampliar)

Bulevares fluviais

O Córrego Jaguaré, “encurralado” entre as pistas da Avenida Escola Politécnica, apresenta algumas partes fechadas. “O projeto prevê que todo o canal seja reaberto e ao longo das orlas imediatas sejam implantados bulevares fluviais e áreas acessíveis para passeio conjugadas ao córrego”, aponta a arquiteta. “O canal, ou o córrego aberto, é o eixo de um feixe de infraestrutura, composto de túneis-canais que captam separadamente as águas de chuva e esgotos, impedindo a contaminação das águas fluviais.”
O Córrego da Água Podre tem parte de seu percurso aberto, e na região das nascentes há um lago, na área pertencente ao Centro de Ensino Unificado (CEU) Butantã. “Neste caso o canal seria totalmente reaberto, parques e lagos seriam implantados no trecho das nascentes, foz e ao longo do canal, ocupando áreas públicas livres do próprio leito maior do ribeirão e também terrenos desocupados”, conta Eloisa. “As ruas nas margens do Água Podre são bastante estreitas, o que exigiria um redesenho para torná-las espaços compartilhados entre pedestres, veículos, árvores, áreas de estar com bancos e outros mobiliários urbanos.”
Foto do Córrego Água Podre – Fonte: autora, 2016
A arquiteta observa que o aproveitamento dos usos múltiplos das águas, conforme prevê a Política Nacional de Recursos Hídricos, pode ser feito em todos os rios de São Paulo. “Além dos lagos, que retêm água, proporcionando uma drenagem descentralizada em substituição aos piscinões, os parques são uma opção de lazer, o que é atualmente um uso ignorado”, ressalta. “Os rios tornaram-se barreiras urbanas, esgotos a céu aberto, leitos inacessíveis e indesejados. Essa é uma cultura de construção de cidade insustentável que deve ser transformada.”
De acordo com Eloísa, apesar de o projeto elaborado na pesquisa não ter se aprofundado na questão da navegação fluvial, ela está presente na proposição do Hidroanel. “Ela seria utilizada no transporte de grandes volumes de cargas públicas, em especial resíduos urbanos, como lixo, entulho, lodo, ou o próprio sedimento de dragagem dos rios”, afirma. “Inclusive, a navegação é o que financeiramente viabiliza a construção do Hidroanel.” A pesquisa é descrita em dissertação de mestrado apresentada na FAU.
A proposta do Hidroanel, que interliga os rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, além das represas Billings, Guarapiranga e Taiaçupeba, surgiu a partir de uma demanda do governo do Estado. Posteriormente, um estudo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) de São Paulo demonstrou a viabilidade financeira do projeto, que inclui a construção de um canal ligando as represas Billings e Taiaçupeba, entre as cidades de Ribeirão Pires e Suzano. No entanto, apenas algumas iniciativas isoladas estão em execução, como a construção da eclusa da Penha, no Rio Tietê.

Por Júlio Bernardes, do Jornal/Agência USP, in EcoDebate, 04/11/2016

SÃO PAULO E OS LIXÕES A CÉU ABERTO.

Uma Em Cada Quatro Cidades De SP Tem Lixões A Céu Aberto, Diz Tribunal De Contas Do Estado (TCE)


lixão
Fiscalização do Tribunal de Contas do Estado (TCE) de São Paulo apontou que pouco mais da metade (51,54%) dos municípios avaliados implantaram o Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos. Em 28,83% dos municípios, o plano está em fase de elaboração e 19,63% deles ainda não iniciaram a elaboração. Em 38 cidades (23,31%) há depósito de resíduos a céu aberto, os chamados lixões, ou seja uma em cada quatro cidades. O TCE fiscalizou um total de 163 municípios.
O tribunal constatou que a coleta seletiva dos resíduos urbanos é feita em 63,8% dos municípios. Em 34,97% das cidades existe unidade de triagem de resíduos e em 5,52% existe unidade de compostagem.
Sobre áreas de transbordo, 29,45% dos municípios têm tais espaços, ou seja, 48 cidades e 23 cidades não contam com licença de operação da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).
Em 60,74% dos municípios, existem área de aterro, totalizando 99 cidades. Em 22 municípios não há licença de operação da Cetesb. Em 22 das cidades (13,5%), o tratamento de resíduos sólidos é feito antes do aterramento.
Segundo o tribunal, entre os municípios que levam os resíduos para aterros, poucos fazem algum tratamento do material antes de descartá-lo: reciclagem (19), compostagem (4) e reutilização (2).
Por Camila Boehm, da Agência Brasil, in EcoDebate, 04/11/2016

O FIM DA MOBILIDADE SOCIAL ASCENDENTE.

O Fim Da Mobilidade Social Ascendente, Artigo De José Eustáquio Diniz Alves


percentagem da população com renda estagnada ou em declínio
[EcoDebate] As economias avançadas são aquelas que apresentaram grande crescimento econômico no século XX. Estas economias de alta renda viabilizaram um processo de mobilidade social ascendente, com cada nova geração ficando mais rica e com melhores indicadores de desenvolvimento humano do que as gerações precedentes.
A maioria das pessoas que cresceram em economias avançadas desde a Segunda Guerra Mundial passaram a ter uma vida melhor do que a de seus pais. Com exceção de um breve hiato na década de 1970, o dinamismo do crescimento econômico e a melhora do nível de emprego possibilitaram que a maioria das famílias experimentassem aumento dos rendimentos, tanto antes como depois dos impostos e transferências. Ainda recentemente, entre 1993 e 2005, 98% das famílias, em 25 economias avançadas, tiveram aumento da renda real, segundo estudo da McKinsey Global Institute.
Mas o quadro mudou no século XXI. Os rendimentos reais de cerca de dois terços das famílias nas 25 economias avançadas do estudo ficaram estáveis ??ou caíram entre 2005 e 2014. O relatório da McKinsey constata que, entre 2005 e 2014, os rendimentos reais nessas mesmas economias avançadas ficaram estáveis ??ou caíram para 65 a 70% das famílias, ou mais de 540 milhões de pessoas. E depois das transferências governamentais e com menores taxas e impostos a situação foi atenuada, mas assim mesmo até um quarto de todas as famílias teve a renda estagnada ou em declínio na década.
Estes resultados fornecem uma nova perspectiva para o debate sobre a desigualdade de renda que vem preocupando os políticos das economias avançadas. O relatório da McKinsey detalha o aumento acentuado na proporção de agregados familiares e grupos de renda que simplesmente não estão avançando, fenômeno que afeta pessoas em todas as esferas da distribuição de renda. E os mais atingidos são os jovens, os trabalhadores menos instruídos, levantando o espectro de uma “geração perdida”, que está crescendo mais pobres do que seus pais.
O impacto econômico e social desta situação é potencialmente corrosivo. As pessoas cujos rendimentos não estão avançando estão perdendo a fé em aspectos do sistema econômico global. Quase um terço daqueles que não estão avançando disseram a situação pode ser ainda pior com seus filhos. Isto gera ansiedade, raiva e opiniões negativas sobre o livre comércio e a imigração.
Se o baixo crescimento econômico da última década continuar agravando o quadro de estagnação secular, a proporção de domicílios em segmentos de renda constante ou em declínio poderia subir tão alto quanto 70 a 80% do total de famílias, durante a próxima década.
Este quadro reforça situações como a do Brexit e o crescimento de líderes populistas e o avanço do bairrismo e da xenofobia. O empobrecimento de amplos setores das economias avançadas também afeta as economias do Terceiro Mundo e dificulta o caminho para a erradicação da pobreza e a melhoria da qualidade de vida global. Talvez com a exceção de alguns países do leste asiático, poderá ser também o fim da mobilidade social ascendente entre os países.
Referência:
Richard Dobbs et. al. Poorer than their parents? A new perspective on income inequality, McKinsey Global Institute, july 2016

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 04/11/2016

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

BRASIL PRECISA SE PREPARAR PARA O AVANÇO DO MAR SOBRE AS CONSTRUÇÕES

A Translação Do Oceano No Leblon E A Erosão Do Litoral Brasileiro, Artigo De José Eustáquio Diniz Alves

calçadão do Leblon após ressaca

[EcoDebate] O último fim de semana de outubro de 2016, no Brasil, foi marcado pelo segundo turno das eleições municipais, mas também pela ressaca que atingiu várias cidades e regiões do país. Isto mostra que o aquecimento global e o aumento do nível do mar já são uma realidade inquestionável. Somos a primeira geração a sentir os efeitos do crescente aumento da acumulação de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera e, talvez, a última geração que ainda terá alguma chance de evitar uma catástrofe climática.
O que aconteceu no último fim de semana de outubro foi apenas um alerta. Foi um sinal de que os “céticos do clima” estão equivocados e que o Brasil precisa se preparar para o avanço das águas salgadas sobre as construções humanas. A cidade do Rio de Janeiro é a maior aglomeração urbana do litoral brasileiro e conta com uma população superior a 6 milhões de habitantes. Duas pessoas morreram quando um trecho da ciclovia Tim Maia foi derrubado pela fúria das ondas, no feriado de Tiradentes, no 21 de abril de 2016.
Em 2016 aconteceram diversas translações do mar sobre as praias da cidade, como a invasão do mar na avenida Atlântica, em Copacabana, pouco antes das Olimpíadas. Mas nenhuma translação teve o impacto da ressaca que destruiu um trecho do calçadão do Leblon e invadiu a avenida Delfim Moreira, levando areia e entulho até a calçada dos prédios, gerando prejuízos nas garagens dos edifícios de um dos bairros mais ricos da cidade. A estrutura do Mirante do Leblon foi atingida e danificada, enquanto outros trechos correm o risco de afundar devido à erosão.
Tudo isto aconteceu no sábado (dia 29 de outubro). Mas o mais impressionante é que a vulnerabilidade do litoral carioca sequer foi mencionada por qualquer dos dois candidatos à prefeitura do Rio de Janeiro, que protagonizaram um debate repleto de denúncias e ataques pessoais na sexta-feira (dia 28/10). Ou seja, as praias cariocas estão sendo invadidas pelo mar e a maior parte das construções costeiras podem ficar submersas – gerando enormes prejuízos materiais – porém, a campanha eleitoral esteve dominada pela guerra de desqualificação mútua das candidaturas. Não surpreende, pois, o alto número de votos nulos, brancos e abstenções. Parece que os políticos, quer seja de esquerda ou de direita, não estão preparados para os grandes desafios e riscos pelos quais passam as metrópoles brasileiras diante das mudanças climáticas.

calçadão do Leblon após ressaca

No mesmo dia 29 de outubro, a cidade de Santos, no estado de São Paulo, sofreu mais uma vez os efeitos da ressaca, com ondas de 3 metros avançando sobre a cidade. Na Ponta da Praia cairiam muretas e pedras dos mosaicos portugueses da calçada se soltaram. A travessia de balsas entre Santos e Guarujá chegou a ficar paralisada por duas horas por conta da agitação da maré. A orla da Ponta da Praia ficou cheia d’água e também gerou prejuízos no lado da calçada dos prédios. Segundo o jornal A Tribuna, mais de 20 toneladas de areia e entulho foram removidas. Houve bloqueio de tráfego na avenida da praia (Av. Saldanha da Gama), entre o Canal 6 e Av. Capitão João Salermo. Os desastres estão virando rotina em Santos.
No Rio Grande do Sul, a ressaca causou transtornos para a população que vive no litoral gaúcho. No município de Santa Vitória do Palmar, mais de 100 casas foram atingidas pela força do mar. A cidade ficou sem abastecimento de água e luz. Um vídeo feito por um morador mostra o momento em que uma casa foi destruída (ver no link abaixo). De acordo com a Defesa Civil, dezenas casas foram destruídas, e outras 30 correm risco de desabar.
Estes são alguns exemplos de destruição provocada pelo aumento do nível do mar, em apenas um fim de semana. A tendência é que estes acontecimentos vão se multiplicar nas próximas décadas. Toda a costa brasileira está ameaçada.
O litoral brasileiro foi o ponto de encontro de duas civilizações e se tornou a “cabeça de ponte” fundamental para a colonização portuguesa no continente americano. Como disse frei Vicente de Salvador: “os portugueses arranharam a costa brasileira feito caranguejo”. A maior parte da população e da economia brasileira está localizada nas áreas litorâneas. Durante cinco séculos, o Brasil explorou as riquezas existentes entre as ondas e as baixadas costeiras. Aproveitou a fertilidade do oceano e dos deltas dos rios para construir cidades e para espalhar a presença humana ao longo e às custas da Mata Atlântica. Mas, agora no século XXI, o litoral está submergindo em decorrência do avanço do mar provocado pelo aquecimento global.
Da chegada de Pedro Álvares Cabral até agora, os benefícios dos ecossistemas costeiros superaram os custos do processo civilizatório. Mas as indicações apontam que esta relação está se invertendo e os custos podem superar os benefícios nas próximas décadas. A natureza degradada pode não suportar mais o peso do modelo “extrai recursos, produz bens e serviços e descarta lixo, poluição e resíduos sólidos” (fluxo metabólico entrópico). O aumento da concentração de dióxido de carbono está provocando a acidificação das águas e do solo, o que reduz a vida marinha e terrestre e provoca extinção de espécies. O efeito estufa degela o Ártico, a Groenlândia, a Antártica e os glaciares e os fluxos do derretimento do gelo caem nas águas quentes dos oceanos e eleva o nível dos mares, que, por sua vez, avançam inexoravelmente sobre as áreas mais baixas dos continentes.
O afundamento do litoral brasileiro e a inundação das partes baixas das cidades litorâneas vão gerar um grande dano à economia brasileira e ao padrão de vida da população. O choque climático pode agravar o choque social e gerar uma espiral descendente para o futuro do desenvolvimento brasileiro.
Referências:
ALVES, JED. A crise do capital no século XXI: choque ambiental e choque marxista. Salvador, Revista Dialética Edição 7, vol 6, ano 5, junho de 2015

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 03/11/2016

terça-feira, 1 de novembro de 2016

RESOLVENDO QUESTÃO DO ENEM SOBRE ESCALAS.




Fonte : Equipe Expoente

SALINIZAÇÃO DO SOLO

Salinização do Solo

A salinização do solo é um processo causado pelo acúmulo de sais minerais, o que resulta na perda de áreas agricultáveis.


Exemplo de área em estágio avançado de salinização do solo
Exemplo de área em estágio avançado de salinização do solo

A salinização do solo, como o próprio nome indica, é o processo de acúmulo de sais minerais na forma de íons (Na+ e Cl–) nos solos, ocasionando a sua improdutividade. Os sais minerais ficam acumulados, geralmente, em razão da evaporação da água que cobre a superfície.
O processo de salinização do solo é muito comum em áreas áridas ou semiáridas, que geralmente também são propensas a apresentardesertificação. Isso significa que em todas as regiões que apresentam climas nos quais a evaporação é maior do que a precipitação, é necessário ter cuidado no manejo dos recursos hídricos.
A água – até mesmo a potável – carrega consigo uma série de substâncias, incluindo os sais minerais e compostos químicos diversos, tais como o potássio. Naturalmente, esses elementos não constituem uma ameaça aos solos, pois o escoamento da água provoca o processo de “lavagem” (retirada da camada superior), que evita que eles se acumulem. O problema acontece quando a água evapora muito rapidamente e não há essa lavagem, pois tais substâncias não evaporam em conjunto, o que gera o acúmulo e a consequente salinização ao longo do tempo.
Nesse sentido, a ausência de chuva para proporcionar esse escoamento superficial hídrico e a baixa umidade (que intensifica os índices de evaporação) estão entre os principais fatores responsáveis pela salinização do solo. Contudo, as atividades humanas também são consideradas um problema, principalmente quando áreas de clima árido recebem uma grande carga de água na irrigação de lavouras sem o controle da quantidade de sais existentes nesses recursos hídricos utilizados. O ideal, nesses casos, é mensurar quimicamente essas substâncias e reduzir os gastos com água por intermédio de técnicas específicas, como o gotejamento.
Além desses processos, citam-se também algumas ocorrências de salinização do solo causadas pela redução ou perda de água de mares ou lagos salgados, a exemplo do Mar de Aral, na Ásia. O Mar de Aral (que, apesar do nome, é um grande lago, e não um mar) vem passando por um processo de redução do seu volume ao longo dos anos em razão da utilização indevida dos rios que o abastecem, o que faz com que os elevados índices de evaporação proporcionem essa perda. Assim, os solos que antes eram cobertos por água ficam apenas com a grande quantidade de cloreto de sódio e outros sais acumulados, o que proporciona o problema da salinização.
Além de tornarem os solos improdutivos, as consequências da salinização estão na intensificação da desertificação e na perda de vegetais e plantas, causando danos sobre os ecossistemas terrestres. Por esse motivo, é necessário reduzir os efeitos da ação humana que aceleram esse problema a fim de evitar a perda desses ambientes naturais.

Por Rodolfo F. Alves Pena
Fonte : Alunos Online