sexta-feira, 9 de novembro de 2012

REFUGIADOS SÍRIOS


ANCARA - Mais de 11 mil sírios fugiram da guerra civil em seu país nas últimas 24 horas, informa o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). Trata-se de um raro aumento acentuado no fluxo de refugiados, avalia a entidade.
Sírios cruzam a fronteira com a Turquia - Reuters
Reuters
Sírios cruzam a fronteira com a Turquia
Alguns sírios estavam tão desesperados para sair do país que escalaram cercas de arame farpado para entrar na Turquia em Ceylanpinar, cidade turca que confina com a província síria de Al-Hasakah. Idosos, homens e mulheres adultas carregavam crianças nas costas enquanto escalavam a cerca de arame farpado e saíam da Síria, observados por soldados turcos. O número de refugiados sírios, agora, supera 400 mil, disse o Acnur.
Panos Moumtzis, porta-voz do Acnur em Genebra, disse que 9 mil sírios fugiram para a Turquia, mil cruzaram a fronteira com a Jordânia e outros mil dirigiram-se ao Líbano. De acordo com ele, "este é realmente o número mais alto de refugiados em um bom tempo", diante de uma média de 2 mil a 3 mil refugiados por dia nos últimos meses. Moumtzis disse que, com isso, o número de refugiados cadastrados pelo Acnur nos países vizinhos da Síria supera agora a marca de 408 mil.
Moumtzis disse que agora o número de refugiados sírios na Turquia é de 120 mil. "Essas pessoas fugiram dos combates entre o Exército Sírio Livre (ELS) e o governo da Síria", incluídos mais de 70 que escaparam feridos para a Turquia e morreram nos últimos dois dias nos hospitais da província de Sanliurfa", disse Adrian Edwards, porta-voz do Acnur.
Um funcionário do governo turco disse que grande parte dos novos refugiados chegam da cidade de Harem, na província de Idlib, perto do Mediterrâneo, mas também da província de Al-Hasakah, que fica no interior, perto do rio Eufrates e na fronteira entre Síria, Turquia e Iraque. Grande parte desses últimos escapam dos combates em Ras al-Ayn, cidade na fronteira turca. Além das tropas de Assad, os insurgentes sírios combatem com curdos sírios.
Mais cedo, a agência estatal de notícias da Turquia, Anadolu (Anatólia) informou que um grupo de soldados sírios, incluindo dois generais e 11 coronéis, escapou para a Turquia em um comboio de carros com suas famílias, em Idlib, entrando na província de Hatay. Os desertores militares sírios costumam ficar abrigados em acampamentos separados dos refugiados civis.
Com AP e Dow Jones
fonte: Estadão.com.br

PRIVATIZAÇÕES


MP 579: um programa de privatização pior do que o do governo FHC'. Entrevista especial com Joaquim Francisco de Carvalho

“Às vezes as pessoas não estão preparadas para assumir determinados cargos relacionados ao setor. Basta ver que a Dilma, quando foi ministra de Minas e Energia, fez muita coisa errada, e tampouco pensou em investir em energia eólica ou solar”, declara o engenheiro.

Confira a entrevista.


Interligar parques de energia eólica e centrais hidrelétricas. Essa é a proposta indicada por alguns engenheiros para garantir o abastecimento energético brasileiro nos próximos anos. Entre eles, Joaquim Francisco de Carvalho, pesquisador associado ao Programa de Pós-Graduação em Energia da USP, diz que esse sistema tem a capacidade de “gerar uma energia suficiente para que se possa consumir no Brasil o mesmo que se consome hoje na Alemanha, um país altamente desenvolvido”. Segundo ele, “o progresso tecnológico permitirá que, no futuro, gaste-se menos energia elétrica para se obter o mesmo resultado”. 

Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, Carvalho explica que a interligação entre os dois sistema poderá ser “feita por meio de um sistema transmissão interligado, na forma de uma 'smart grid'(rede inteligente). A ideia é ligar os parques entre si e interligá-los com o sistema hidrelétrico através da malha de transmissão de energia. Então, nos períodos secos, se usará, sempre que possível, a energia eólica para não gastar a água que está acumulada, de tal maneira que, nos períodos secos, ainda haverá água suficiente nos reservatórios hidrelétricos”.

O engenheiro também comenta a MP 579, anunciada no mês de setembro pelo governo federal, e é enfático: “A MP significa, em última análise, um programa de privatização pior do que foi o do governo Fernando Henrique Cardoso. É ainda mais danoso para o sistema”. Sobre o Plano Decenal de Energia 2021, que está na pauta do governo, Carvalhoreconhece os méritos da EPE, mas pondera que seus técnicos “não conseguem colocar em prática o que sabem e o que é lógico”. 

Joaquim de Carvalho
 é doutor em Energia pela USP, e mestre em Engenharia Mecânica, com ênfase em Energia Nuclear pela PUC-Rio. É pesquisador associado ao Instituto de Energia e Eletrotécnica da USP. 

Confira a entrevista. 

IHU On-Line – Em que consiste a proposta de um sistema interligado hidroeólico para o Brasil? 

Joaquim Francisco de Carvalho 
– O Brasil tem um sistema hidrelétrico amplo, praticamente todo interligado, que consegue abastecer 85% da energia do país. Mas em momentos hídricos críticos, quando a vazão dos rios fica menor, na época das secas, a energia hidrelétrica não é suficiente para abastecer o país, e aí são ligadas as centrais termoelétricas a gás natural, a carvão e a óleo para reforçar o abastecimento de energia. Mas isso não é desejável, porque contribui para o efeito estufa. O ideal seria evitar a geração termelétrica a combustíveis fósseis. Além disso, existem no Brasil duas usinas nucleares em operação, Angra I e Angra II, que também estão interligadas ao sistema, que geram uma energia muito cara e, apesar de não agredirem o meio ambiente, há o risco de acidentes catastróficos, a exemplo do que ocorreu em Fukushima.

Na verdade, o Brasil pode prescindir de energia nuclear porque tem um potencial hidrelétrico que está entre os maiores do mundo e do qual só se tem aproveitado 30%. Além disso, tem um potencial eólico extremamente elevado. Os estudos mais recentes indicam algo em torno de 284 gigawatts de potência. Com esses dois potenciais naturais, é possível desenvolver um sistema integrado hidroeólico. 

IHU On-Line – Como seria feita essa interligação dos parques eólicos com a rede hidrelétrica? Por que essa interligação traz benefícios energéticos? 

Joaquim Francisco de Carvalho
 – Por meio de um sistema transmissão interligado, na forma de uma "smart grid” (rede inteligente). Os parques eólicos deveriam ser interligados de tal maneira que, quando não houver vento em determinada região, haverá em outra, porque nunca há uma calmaria completa ao longo de todo o litoral. Então, ao interligar os parques entre si, quando um não opera por falta de vento, outros estarão operando. Isso é semelhante a uma carteira de ações na bolsa de valores. Quer dizer, investimento numa única ação é mais incerto do que investimento numa carteira de ações, ou seja, o conjunto das ações será mais estável do que cada ação individualmente. A ideia é esta: ligar os parques entre si e interligá-los com o sistema hidrelétrico por meio da malha de transmissão interligada. Então, nos períodos secos, se usará, sempre que possível, a energia eólica para não gastar a água que está acumulada, de tal maneira que não seja necessário racionar a energia por falta de água nos reservatórios. 

IHU On-Line – E como deve ser realizado o estudo ambiental para que as comunidades locais não sejam prejudicadas com o projeto, como acontece hoje com a construção de novas hidrelétricas?

Joaquim Francisco de Carvalho
 – Essa é uma polêmica que está sendo discutida por causa da construção de novashidrelétricas na Amazônia. Dizem que a construção de novas hidrelétricas na região irá destruir todo o ecossistema da floresta. Porém, quem diz isso não fez os cálculos corretos, ou fala em nome do lobby das usinas nucleares, dos grupos interessados nas termelétricas convencionais e nas nucleares, que estão contra as hidrelétricas, porque as hidrelétricas tornam desnecessárias as nucleares e termelétricas convencionais. Além disso, os reservatórios hidrelétricos criam problemas para as mineradoras que cobiçam as reservas de minérios estratégicos existentes na Amazônia. Em suma, há fortes interesses que estão por trás dessa guerra contra as centrais hidrelétricas. 

Se se aproveitassem 80% do potencial hidrelétrico da Amazônia e deixassem 20% intacto para preservar as bacias hidrográficas mais sensíveis, pela diversidade biológica, seria inundada uma área conjunta inferior a 0,5% da área da Amazônia brasileira, ou seja, uma extensão perfeitamente assimilável pelo ecossistema regional. Então, essa é uma polêmica vazia.

A Amazônia tem cinco milhões de km², onde vivem 500 mil índios. Não tem cabimento os índios quererem ter soberania sobre toda esta extensão. Por outro lado, como cidadãos que são, têm todo o direito de reclamar e exigir que o governo os reassente em lugares mais adequados e em condições de urbanização, educação, saúde e saneamento dignas de sua condição humana. Ou seja, eles devem ser transferidos para regiões previamente urbanizadas, com acesso à água, energia elétrica, saneamento básico, etc. para viverem melhor do que vivem hoje. 

IHU On-Line – Mas os novos parques eólicos deveriam ser construídos em que regiões do Brasil? Comunidades também terão de ser realocadas?

Joaquim Francisco de Carvalho
 – Esse é outro problema, porque os parques eólicos também podem provocar prejuízos para as populações de pássaros, mas há estudos que definem as rotas migratórias desta fauna. Então, seria preciso construir os parques fora dessas áreas. Além disso, os parques causam poluição sonora, e seria necessário construí-los de modo que não ficassem nas proximidade de zonas urbanizadas. A respeito disso, é interessante assinalar que já se estudam técnicas para o isolamento acústico de habitações situadas em zonas de influência de parques eólicos. 

IHU On-Line – Já é possível vislumbrar qual seria o potencial energético do sistema hidroeólico?

Joaquim Francisco de Carvalho 
– Esse sistema pode gerar uma energia suficiente para que se possa consumir no Brasil o mesmo que se consome hoje na Alemanha, um país altamente desenvolvido. Com o avanço da tecnologia, será possível gastar menos energia elétrica para se obter o mesmo resultado. Então, será possível ter mais conforto com menos consumo de energia. 

IHU On-Line – E será possível reduzir o custo atual de R$ 80/Mwh da energia gerada pelo setor elétrico?

Joaquim Francisco de Carvalho
 – Esse já é um valor bastante barato. Mas esse é o valor cobrado pelas usinas novas. As antigas custam menos, porque o capital já está amortizado. 

Por outro lado, quando se privatizou o sistema elétrico, os novos proprietários começaram a cobrar o preço da energia como se as centrais fossem novas, e essas empresas receberam (e continuem recebendo) um lucro fabuloso. ATractebel Energia, que funciona no Rio Grande do Sul, por exemplo, ganha muito dinheiro, porque comprouhidrelétricas que estavam amortizadas no Paraná e no Rio Grande do Sul, e vende a energia ao preço máximo do mercado. 

IHU On-Line – Como estão as pesquisas em relação ao sistema interligado hidroeólico?

Joaquim Francisco de Carvalho
 – As pesquisas estão paradas, porque quem deveria fazer esses estudos é aEmpresa de Pesquisa Energética – EPE, empresa do Ministério de Minas e Energia. O problema é que a EPE estuda em cima de tudo que já existe para expandir o que já existe. Agora que a EPE está começando a reconhecer a importância da energia eólica. A energia fotovoltaica, solar, também é interessante para o Brasil, mas não há estudos nem investimentos suficientes. A Alemanha, que tem um clima menos favorável que o Brasil, está investindo muito nessa área. 

IHU On-Line – Há uma crítica de que a energia solar não tem espaço no planejamento da política energética. Quais as razões?

Joaquim Francisco de Carvalho 
– A razão é falta de vontade política. Às vezes as pessoas não estão preparadas para assumir determinados cargos relacionados ao setor. Basta ver que a Dilma, quando foi ministra de Minas e Energia, fez muita coisa errada, e tampouco pensou em investir em energia eólica ou solar. Ela só pensava em energia hidrelétrica, por causa do grande impulso da Eletrobrás, ou no gás natural, no óleo combustível e no carvão. Mas, antes disso, ela foi secretária de finanças do governo Alceu Colares, do PDT do Rio Grande do Sul; depois mudou para o PT, onde foi secretária de energia do governo Olívio Dutra. Na época em que foi secretária de Energia no Rio Grande do Sul, ela não conhecia o assunto, mas falava como se dominasse o tema. Além de ter um conhecimento supérfluo, não tem preparo técnico. No meio acadêmico Dilma não tem credibilidade porque divulgou um currículo em que se dizia doutora pela Unicamp, mas o caso é que ela não tem nem mestrado nem doutorado nessa instituição. Ela cursou uma graduação na Unicamp. Então, com essa atitude, ficou desmoralizada no meio acadêmico, e ninguém acredita nela. 

IHU On-Line – Quais foram os principais problemas do setor elétrico na última década?

Joaquim Francisco de Carvalho –
 O maior problema é que o governo inverteu o “time” e investiu em usinas fora do período necessário. Ou seja, investiram precipitadamente nas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio. Poderiam ter construído outras hidrelétricas menores, antes de investir nestas. Mas a pressão do lobby das empreiteiras fez o governo agir assim. Dilma é muito movida pelo lobby das grandes empresas. Então, os investimentos públicos estão a reboque do interesse das grandes empreiteiras, e o planejamento energético não existe.

IHU On-Line – O senhor também faz uma análise crítica da Medida Provisória – MP 579, que diz respeito à renovação das concessões do setor elétrico? 

Joaquim Francisco de Carvalho
 – A MP 579 irá privatizar o setor elétrico que sobrou de dentro para fora. Vai destruir tudo. A MP significa, em última análise, um programa de privatização pior do que o do Fernando Henrique Cardoso. É ainda mais danoso para o sistema.

IHU On-Line – Que análise o senhor faz do Plano Decenal de Expansão de Energia 2021? 

Joaquim Francisco de Carvalho 
– É um trabalho que tem seu mérito. A empresa de pesquisa tem um quadro de funcionários sérios e altamente competentes, que têm visão do futuro, só que politicamente eles não conseguem colocar em prática o que sabem e o que é lógico. O presidente da EPE, Mauricio Tolmasquim, é um homem informado e capacitado, só que politicamente ele não se consegue fazer nada. Então, o problema desse plano é que eles não investem o que deveriam investir em programas como esse, de interligação hidroeólica, e tampouco investem em tecnologia de redes inteligentes.

Com uma rede inteligente, seria possível ter uma medição, em tempo real, da energia que está sendo consumida e, de outro lado, seria possível medir quais são as condições de gerar energia num determinado momento. Então, se tiver menos água e muito vento, a rede é abastecida com energia eólica; se tiver menos vento, aí se utiliza a água. Isso é uma rede inteligente. 

IHU On-Line – Não há investimento?

Joaquim Francisco de Carvalho 
– Os alemães estão investindo seriamente em redes inteligentes, que permitem que cada casa tenha o seu painel solar. Durante o dia, quando a família está fora, o sol incide na residência e não se gasta energia. A casa funciona, portanto, como uma miniusina, porque estará produzindo energia elétrica e injetando-a na rede. Aí, quando a família chega em casa e começa a usar a energia elétrica, a conta começa a contar, e a família começa a pagar pela energia, mas essa energia é descontada da energia fornecida durante o dia, que foi economizada. Então, isso é bom para todo mundo, contribui para o sistema como um todo, e torna a energia mais barata para as famílias. Esse é um tema que deveria estar presente no Plano Decenal de Energia.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

GABARITO ENEM 2012

Gabarito oficial do Enem 2012

O Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) acaba de divulgar o gabarito oficial do Enem 2012. As provas foram realizadas no último final de semana, dias 3 e 4 de novembro, em 1.615 municípios espalhados pelo país. Descontando os quase 30% faltantes, o Enem contou com 4,175 milhões de candidatos nos 15.076 locais de provas.
Confira abaixo o gabarito para cada dia de provas, separado pelas cores de cada caderno.
1. Sábado (03/11) – Ciências da Natureza e Ciências Humanas
2. Domingo (04/11) – Linguagens, Códigos e Matemática
O resultado com as notas dos candidatos nesta edição do Exame Nacional do Ensino Médio está previsto para ser divulgado no dia 28 de dezembro.
Vale lembrar ainda que o desempenho dos candidatos no exame será utilizado pelo Sistema de Seleção Unificado (Sisu), para ingresso de novos estudantes em universidades públicas. Atualmente, 95 instituições de ensino superior no país aceitam a nota do Enem como critério para o ingresso de alunos.

Veja também:

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Opinião: Biocombustíveis são solução errada para proteger o clima, por Johannes Beck


biocombustíveis

Até 2020, os biocombustíveis devem representar 10% do consumo da União Europeia: a solução errada para um sistema de transportes menos nocivo ao clima, opina o chefe da redação Português para a África, Johannes Beck.
[Deutsche Welle] Nem tudo o que se denomina “bio” é correto do ponto de vista ambiental. Há, por exemplo, poucos biocombustíveis que realmente trazem vantagens ao meio ambiente. Entre eles estão sobretudo aqueles provenientes de dejetos, como o gás metano extraído da purina.
Mas dejetos são uma fonte muito limitada. E quando a meta é substituir em grande escala o petróleo como combustível, é preciso cultivar enormes extensões de terra para produzir biodiesel ou etanol.
Campeão mundial da produção de biocombustíveis – ao lado do Brasil – os Estados Unidos apostam em especial no milho. Uma opção que não beneficia, em absoluto, o clima global. Durante o cultivo do milho são liberadas enormes quantidades de óxido nitroso, nocivo ao clima. Além disso, a produção de etanol a partir do milho consome uma grande quantidade de energia.
Desse modo – segundo cálculos do Departamento Ambiental da Suíça – quem abastece seu veículo com etanol de milho contribui tanto para a emissão de gases estufa quanto os que utilizam gasolina convencional.
Balanço ecológico catastrófico
O pior exemplo é o óleo de palmeira do Sudeste Asiático, também utilizado como biodiesel. Na Malásia e na Indonésia foram queimados, nos últimos anos, milhares de hectares de mata tropical para o plantio de palmeiras. Um fato tanto mais catastrófico porque grande parte das florestas afetadas estava sobre solos de turfa, e os gases estufa neles contidos foram liberados num volume gigantesco.
Segundo dados da organização ambientalista WWF, somente em Sumatra o desmatamento das florestas de turfa entre 1990 e 2002 provocou a liberação de 1,1 gigatonelada de dióxido de carbono por ano. Isso é mais do que a emissão anual da Alemanha. Além disso, a substituição das selvas tropicais por plantações implica a destruição do habitat de plantas, animais e seres humanos.
Nesse meio tempo, a União Europeia (UE) reagiu, exigindo a apresentação de certificados para biocombustíveis, com o fim de evitar que as florestas sigam sendo dizimadas. A UE também passou a privilegiar outros tipos de biocombustível, com melhor “desempenho ambiental”. Entre elas, o etanol produzido a partir da cana-de-açúcar –muito mais eficiente do que o de milho, centeio ou trigo –, do qual o Brasil é o maior fornecedor.
Mas a cana-de-açúcar e a maioria das outras plantas ideais para a produção de biocombustível só crescem nos trópicos ou subtrópicos. Isto é: justamente onde se encontram as selvas e os ecossistemas de maior biodiversidade do planeta. E estes têm que ser transformados em monoculturas agrárias para que a produção seja suficiente para substituir os combustíveis fósseis.
Monoculturas no Brasil
Paralelamente a isso os preços dos gêneros alimentícios subirão drasticamente em todo o mundo, pois não há áreas agricultáveis suficientes para, ao mesmo tempo, matar as necessidades de combustível e de comida da população planetária.
Mesmo o pioneiro Brasil não consegue cobrir com o etanol nem um terço de seu consumo de combustível. E para isso já é necessária 5% de toda a área agrícola do país.
Enormes extensões de Mata Atlântica no Nordeste foram derrubadas para o cultivo da cana-de-açúcar nas últimas décadas. Em Pernambuco, por exemplo, restam apenas 2,7% das florestas originais. Há também pressão para transformar em plantações partes do Pantanal. Tais conflitos demonstram os limites práticos do biocombustível.
Nesse ínterim, o governo brasileiro reagiu, designando para o plantio sobretudo áreas do Cerrado no Planalto Central. Porém também estas são ricas em espécies vegetais e animais, as quais seria lamentável sacrificar em nome das monoculturas de soja ou cana-de-açúcar.
Indiretamente, a expansão do bioetanol também aumenta a pressão sobre a região amazônica, pois os canaviais expulsam bovinocultores e plantadores de soja, forçando-os a adentrar a mata tropical.
UE precisa redefinir metas
Somente para satisfazer a meta da UE – de, até 2020, substituir 10% de todo o combustível consumido por substâncias de origem orgânica – será necessário criar novas áreas agrícolas do tamanho da Irlanda. O cálculo é do Instituto de Política Ambiental Europeia (IEEP), sediado em Londres.
Por isso, a União Europeia deveria abrir mão de suas metas. Biocombustíveis originários de monoculturas agrícolas são um caminho equivocado, já que, desse modo, a natureza e o clima não são protegidos, mas ainda mais prejudicados.
O caminho para um sistema de transporte mais ecológico tem de ser outro: os automóveis precisam tornar-se mais eficientes e consumir menos combustível. É preciso ampliar os transportes públicos e, no futuro, reduzir drasticamente o tráfego, através de um planejamento urbano inteligente.
Autor: Johannes Beck
Revisão: Alexandre Schossler
Artigo de opinião na Agência Deutsche Welle, publicada pelo EcoDebate, 11/03/2011

domingo, 4 de novembro de 2012

CIDADE: LUGAR DA DIVERSIDADE

Atualmente as grandes cidades, em especial as metrópoles, constituem centros de referências culturais de nossa sociedade. Inúmeras são as manifestações para repensar a cidade grande: movimentos como forma de expressão social e política. Exemplos :
- Hip hop;
- Os grafiteiros;
- Mangue-beat.
Fonte: Henrique Delboni e Mércia Kobayashi







TEMA DA REDAÇÃO DO ENEM 2012/MOVIMENTO IMIGRATÓRIO PARA O BRASIL NO SÉCULO XXI

MEC divulga tema da Redação do Enem 2012

Neste domingo, 4 de novembro, os candidatos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) resolvem as questões de Matemática e suas Tecnologias e também de Códigos, Linguagens e suas Tecnologias, além da Redação. As provas tiveram inicio às 13h e seguem até às 18h. Já disponibilizamos o gabarito das provas de Ciências Humanas e Ciências da Natureza, aplicadas ontem.
Há poucos minutos atrás, por volta das 14h, o Ministério da Educação publicou nota divulgando o polêmico tema da Redação do Enem 2012. Nada de Rio +20, bullyng, sustentabilidade ou outros assuntos atuais, como esperado. O tema da redação do Enem 2012 é o “Movimento imigratório para o Brasil no século XXI”.
O que se espera dos candidatos, que estão escrevendo sua redação neste momento, é que respeitem  as cinco competências que serão avaliadas: 1. domínio da língua portuguesa; 2. compreensão do tema proposto; 3. capacidade de selecionar e organizar ideias; 4. conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação; e 5. elaboração de proposta para o problema abordado.

Entenda como será feita a correção 
O texto será examinado por dois corretores, sem que um conheça a nota atribuída pelo outro. Caso haja diferença superior a 200 pontos entre as duas notas, o texto será lido por um terceiro corretor. Após a avaliação deste, persistindo diferença superior a 200 pontos, será acionada uma banca examinadora de excelência. Tal banca será composta por três professores e será responsável pela atribuição da nota final da redação do participante. O valor máximo é de mil pontos e a nota final será a calculada somando-se as três notas da banca e dividindo por três.
As redações que passarem pelos dois corretores iniciais com diferença de pontuação inferior a 200 terão nota final igual a soma das duas notas dividas por dois. Entretanto, caso a nota de um corretor, para qualquer uma das competências, seja 160 e a de outro, 40, a redação será encaminhada ao terceiro avaliador. Se a terceira nota, nessa mesma competência, se aproximar daquela atribuída por um dos dois corretores anteriores, não haverá necessidade da banca examinadora. A avaliação mais baixa será eliminada.
Vale lembrar ainda que, a partir deste ano, os candidatos passam a ter acesso ao espelho da correção.

sábado, 3 de novembro de 2012

O NEOLIBERALISMO - II


D) O neoliberalismo no Brasil e a questão do controle dos recursos naturais.Foi a partir do governo de Fernando Collor de Mello (1990-1992) que o neoliberalismo se instalou com mais intensidade no Brasil. Logo após sua posse, anunciou que havia chegado o momento da “modernidade econômica”, ou seja, do livre mercado, da redução do papel do Estado e de um amplo programa de privatizações (Programa Nacional de Privatizações).

mecatronicaatual.com.br
A etapa inicial de privatizações abrangeu, principalmente, os setores siderúrgico, petroquímico e de fertilizantes. A primeira estatal privatizada foi a Usiminas, em outubro de 1991. A política de privatização prosseguiu atravessando o governo de Itamar Franco (1992-1993) e chegou até o governo de Fernando Henrique Cardoso (1994-1998). Em outubro de 1994, 34 empresas estatais já haviam sido privatizadas. Em seguida, o programa avançou para outros setores: telecomunicações, elétrico e petróleo, criando grandes discussões no Congresso Nacional.

Paralelamente às privatizações, o Brasil se abriu para o exterior, liberando as importações e a entrada de capital estrangeiro nas bolsas de valores. Realizou, também, a desregulamentação de setores do mercado, como, por exemplo, o de informática.

De 1990 até nossos dias o país vem, portanto, aplicando à economia a “receita neoliberal” desregulamentação, abertura econômica, privatizações de empresas estatais e diminuição da ingerência do Estado nos negócios.
neccint.wordpress.com

A “receita neoliberal” está varrendo o mundo , tendo a América Latina como alvo predileto das imposições neoliberais, via FMI e Banco Mundial. Essas instituições, controladas pelos países ricos, têm condicionado novos empréstimos denominado dinheiro novo – para os países já endividados à adoção da novas regras neoliberais, entre as quais as privatizações despontam como a principal. O México e a Argentina seguiram à risca as regras neoliberais ou o denominado Congresso de Washington, ou seja, um plano elaborado em 1989, pelo qual os Estados Unidos, FMI, Banco Mundial e BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) pressionaram para acelerar as privatizações e enfraquecer os Estados latino - americanos. No período de 1988-1992, dois terços de todas privatizações no mundo foram realizadas na América Latina.

O México, foi o primeiro país a adotar o modelo neoliberal e, em fins de 1994, estava falido. Para amenizar essa crise, os Estados Unidos emprestaram-lhe 40 bilhões de dólares, o que salvou de prejuízos os bancos internacionais tinham financiado a implantação do neoliberalismo no país. Mas em contrapartida o México perdeu o controle sobre sua principal riqueza, o petróleo, cuja reserva, a oitava maior do mundo, foi hipotecada, ou seja, dada como garantia aos Estados Unidos pelo empréstimo concedido.

Segundo analistas da economia internacional, isso fez parte das intenções ou do projeto dos países industrializados de possuir o controle e domínio de recursos naturais importantes e estratégicos. A crise do petróleo em 1973 mostrou a vulnerabilidade desses países em relação a essa fonte de energia fundamental para suas economias, enquanto 90% das reservas mundiais de petróleo encontram-se no subsolo de países subdesenvolvidos. Para se ter uma ideia, dos sete países mais ricos do mundo (Grupo dos Sete ou G-7), quatro não as possuem em seus territórios (Japão, França, Itália e Alemanha), mas têm empresas estatais para a distribuição do produto. Quanto aos Estados Unidos, suas reservas petrolíferas estão diminuindo em média 3% ao ano e dependem de importação de 50% do petróleo que consome.
dw.de

Grande parte do petróleo extraído e comercializado no mundo encontra-se sob controle estatal e o mesmo ocorre com muitas outras matérias-primas minerais, situação que não interessa aos países industrializados ou às empresas transnacionais que dependem dessas matérias-primas. A esse propósito, já em 1977, Henry Kissinger, ex-secretário de Estado norte-americano, declarava:

“Os países industrializados não poderão viver da maneira como existiram hoje, se não tiverem à sua disposição os recursos naturais não-renováveis do planeta, a um preço próximo do custo de extração e transporte [...] que montar um sistema mais requintado e eficiente de pressões e constrangimentos, que garantam a consecução de seus intentos”(Citado por Osvaldo Maneschy, no artigo “Primeiro Mundo preserva forte seus Estados”)

A onda neoliberal que invade o mundo, principalmente os países do Leste (ex-socialistas), da América Latina, da África e alguns da Ásia, possui então, entre outros, o objetivo de assegurar livre acesso à exploração e comercialização dos recursos naturais por parte das corporações transnacionais. Afastar o Estado do gerenciamento dos recursos naturais passou a ser, então, uma estratégia do neoliberalismo, para atingir um fim maior que é o de possuir o controle das reservas naturais do globo. Daí os postulantes da desestatização ou privatização, da desregulamentação dos mercados e da pressão de grupos econômicos dominantes no sentido de diminuir a atuação estatal nos países dependentes.

Essa situação nos lembra o velho ditado “faça o que eu digo, não faça o que faço”. Ou seja, na economia dos países desenvolvidos existe uma significativa presença do Estado, mas nos países da “periferia”, numa intensa propaganda antiestatal, disseminam a ideia de que todos os seus problemas econômicos e sociais advêm da ingerência do Estado na economia ou da “forte” presença das empresas estatais e de que o caminho da salvação está no livre jogo do mercado.

Participação do Estado no PIB em alguns países desenvolvidos e dependentes (1990)


Dinamarca
  51,9%


Suécia
    49,7%


França
    42,1%

Alemanha
    39,3%

Estados Unidos
    28,1%

Brasil *
    21,4%

Índia
    16,7%

Etiópia
    16,2%

Uganda
    15,0%

Peru
    10,7%

* Como esses dados são de 1990, não levam em conta as privatizações de indústrias siderúrgicas, de fertilizantes e petroquímicas em nosso país.

e) Para onde a globalização e o neoliberalismo têm conduzido a sociedade?

Inicialmente, é oportuno lembrar que o otimismo neoliberal posterior à queda do Muro de Berlim (1989) e à desarticulação do socialismo real no Leste europeu vem sendo abalado por fatos e tendências mundiais difíceis de negar:


• Aumento do desemprego estrutural ou tecnológico.

• Questionamento do Estado como agente disciplinador da vida econômica.

• Migrações internacionais do Sul para o Norte, gerando reações fascistas na Europa, aprofundando os conflitos étnicos e de nacionalidades, e agravando o problema do desemprego.

• Substituição das “zonas de influência” características do período da Guerra Fria, dentro do jogo geopolítico mundial praticado pelas potências, pelo jogo econômico e criação de “zonas de rentabilidades”
 

• Aumento da exclusão social.

   Entre esses fatos e tendências serão detalhados a seguir os mais importantes.


Aumento do desemprego estrutural ou tecnológico.

Esse tipo de desemprego tem sua origem em mudanças na tecnologia de produção, como, por exemplo, o aumento da mecanização e da automatização industrial derivado da Terceira Revolução Industrial ou Tecnológica. Segundo o economista José Luis Fiori, nos países desenvolvidos da OCDE (Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico) calcula-se que o desemprego estrutural atingiu a cifra de 35 milhões de pessoas, em 1972. em alguns deles, o desemprego entre a população economicamente é alarmante: Espanha 16%, Bélgica, 14%, Itália, 10,3%, Reino Unido, 10% e França, 9%, com média geral de 10%. No Brasil, o percentual é de 6%.

Segundo especialistas não existem previsões otimistas quanto à diminuição das taxas de desemprego a curto prazo. Ao contrário, acredita-se num aumento ainda neste final de século e no inicio do que se aproxima, mesmo que a economia mundial apresente acrescimento. A Terceira Revolução Industrial ou Tecnológica alterou profundamente o modo de produzir. A robótica e a informática substituíram em larga escala a mão-de-obra industrial. Esse fato somado às próprias dificuldades por que passa a economia mundial têm aprofundado o desemprego.

Particularmente nos países subdesenvolvidos a mecanização tem atingido amplos segmentos da atividade agrícola, como por exemplo, o canavieiro, que emprega sazonalmente grandes contingentes de mão-de-obra.

Questionamento da legitimidade do Estado nacional.

Após o fim da Guerra Fria, pensava-se que as tensões e conflitos mundiais diminuiriam. Entretanto, eles irromperam em vários locais, de forma violenta, questionando a legitimidade do Estado nacional (Geórgia, Chechênia, Iugoslávia, etc.).

Aumento da exclusão social.

O aumento dos excluídos da sociedade, ou dos “cuspidos da sociedade”, segundo a expressão do cientista político alemão Robert Kurz, tem favorecido ou estimulado a violência não só no mundo subdesenvolvido. As cidades grandes e médias apresentam elevados índices de criminalidade, intenso tráfico de drogas, formação de quadrilhas, menores abandonados, tráfico de órgãos etc. Nos países pobres, o Estado, em decorrência da falta de recursos financeiros, pouco faz para reverter essa situação, abandonando à própria sorte grande parcela da população, negando-lhes, até mesmo, o direito à cidadania. Nessa globalização, que beneficia apenas uma minoria, o número de pessoas que consegue se integrar economicamente no processo em curso é cada vez menor. Ao lado das ilhas de prosperidade, crescem os arquipélagos de miséria. No Brasil, por exemplo, a renda mensal de 11% da população economicamente ativa é igual ou inferior a meio salário mínimo e a de outros 19% varia entre meio e um salário mínimo. Logo 30% da população economicamente ativa brasileira “vive” em situação de miséria, o que é contraditório, para não dizer escandaloso ou vergonhoso.

Se nada for feito em escala planetária – não se trata de pessimismo – as consequências serão drásticas. As reações desesperadas dos “cuspidos” do mercado deverão colocar em xeque o novo sistema mundial. Em antecipação a essa possibilidade, os investimentos em segurança militar e policial crescem assustadoramente. As potências não mais declararão guerra entre si, como no passado, mas sim a exemplo do que fizeram na Guerra do Golfo, em 1991, unirão forças para assegurar a existência de ilhas de riqueza diante das ameaças dos excluídos.

Segundo algumas previsões de cientistas políticos e sociais de várias tendências, caso esse quadro seja mantido, poderá ocorrer o estabelecimento de ditaduras sanguinárias e guerras civis em vários lugares do mundo, comprometendo as conquistas democráticas.
Globalização e regionalizaçãoneconômica: O Brasil no Mercosul

a) As trocas comerciais intra-Mercosul e a posição brasileira.

Como vimos, a mundialização da economia capitalista é um processo que se intensifica nos dias atuais. A formação dos grandes monopólios capitalistas denominados transnacionais que, em diferentes localidades, operam a unificação mundial do capital, é a expressão moderna da etapa monopolista do capitalismo mundial.

A globalização da economia comporta. Por um lado, a incorporação de mão-de-obra de muitos países em uma estrutura produtiva empresarial mundialmente integrada (internacionalização da produção), como também a do mercado financeiro internacional caracterizado pela unificação dos capitais nacionais e estrangeiros. O sistema de economias nacionais características do capitalismo concorrencial foi cedendo lugar à formação do mercado mundial, com a crescente necessidade de os Estados e as empresas se adaptarem aos novos padrões produtivos gerados pela Terceira Revolução Industrial.

Contudo, cabe ressaltar que, no bojo desse processo, e como sua expressão geográfica mais visível, ocorre também a formação de blocos geoeconômicos em todo o mundo. Os seja, diversos países se reúnem em blocos para se fortalecerem economicamente diante dos quadros dos quadros competitivos que a globalização impõe. Através do fortalecimento de sistemas comerciais multilaterais que facilite o acesso mais amplo e não-discriminatório a todos os mercados, pode-se dizer que atualmente as economias nacionais buscam participar da globalização ou mundialização do capitalismo por intermédio da formação de blocos econômicos regionais.

O Brasil, a Argentina, o Paraguai e o Uruguai assinaram, em março de 1991, o Tratado de Continuação do Mercado Comum do Sul (Mercosul), conhecido como Tratado de Assunção. Em 1996 e 1997 houve a adesão, respectivamente, do Chile e Bolívia, e hoje está o Mercosul mais abrangente dom as entradas do Peru, Colômbia e da Venezuela, essa última admitida em 31/07/2012. Visando, entre outros objetivos, a livre circulação de bens, serviços e fatores
produtivos e a adoção de uma política comercial comum em relação ao outros Estados ou agrupamentos de Estados, o Mercosul é um tentativa de seus países-membros de realizar uma inserção mais competitiva na economia internacional.

Observando o gráfico, é possível constatar o crescimento do comércio entre o Brasil e os demais países do Mercosul, sobretudo após a assinatura do Tratado de Assunção, em 1991, em 1990, as transações comerciais entre os países do Mercosul,  somavam 3,6 bilhões de dólares, um resultado inexpressivo quando comparado ao de 1994, que foi mais de 19 bilhões de dólares.

Passam pelo Rio Grande do Sul 80% dos produtos comercializados entre p Brasil e os demais países do Mercosul,, sobretudo Argentina, constituindo-se assim o estado sulino numa espécie de “corredor de passagem” entre Buenos Aires e São Paulo. Entre 1991 e 1994, as exportações do Rio Grande do Sul para países-membros do Mercosul,  cresceram 450%, representando 15% do total de suas vendas para o exterior. Tal fato, aliás, vem colaborando para que a região sul do Rio Grande do Sul seja mais valorizada pelo governo federal brasileiro, que vem realizando acordos e projetos para o desenvolvimento de sua infra-estrutura (transporte e energia), para inseri-la de forma mais adequada no processo de integração.

Lei de fronteira:

Na década de 1940, foi criada a Lei de Fronteira, para evitar conflitos com os países vizinhos, estabelecendo que todo investimento na faixa de 150 Km de fronteira deveria ter autorização federal. Isso implicou certo abandono do extremo sul do Rio Grande do Sul durante várias décadas, e somente agora, com a intensificação das trocas comerciais do Mercosul,, o novo quadro democrático configurado em seus países-membros, começa a ser revertida.

Mas se, por um lado, a integração é positiva para esse estado brasileiro, por outro, alguns de seus setores mais tradicionais e importantes estão sofrendo impactos negativos. É o caso, por exemplo, dos laticínios. Terceira bacia leiteira do Brasil (730 milhões de litros de leite ano), responsável por 10% do mercado de laticínios, o Rio Grande do Sul enfrenta a concorrência da Argentina e Uruguai, cujos preços são mais acessíveis devido ao emprego de tecnologias mais sofisticadas e ao menor custo de produção. Provavelmente isso obrigará os produtores gaúchos do setor a buscarem maior produtividade a menor custo de produção, para não serem “engolidos” pela competição.     

  Outros setores da economia do Rio Grande do Sul que sofrem com a integração são o do trigo, o da carne, o de conservas e o da produção vinícola. A cultura do trigo, até 1995, já havia perdido mais de 100 mil postos de trabalho em virtude da entrada do produto argentino. Tanto a agricultura como a pecuária do sul do Brasil, caracterizadas por pequenas unidades produtivas baseadas na estrutura familiar, poderão sofrer uma reestruturação fundiária ao necessitarem incorporar cada vez mais tecnologia para acompanhar os padrões competitivos de seus parceiros do Mercosul. Na verdade, o Brasil todo terá de se adaptar aos padrões tecnológicos do setor agropecuário visivelmente superior de seus parceiros do Mercosul.

Quanto à indústria de transformação, comparado aos demais países do Mercosul, o Brasil apresenta as melhores condições competitivas. Isso se deve, em parte, à origem da energia empregada em nossa produção industrial, que é, sobretudo hídrica, ao passo que a Argentina, principal concorrente, utiliza a energia petrolífera em grande escala (3 a 4 vezes mais que os outros países do Mercosul), sendo a nuclear sua principal fonte geradora de energia, ambas mais onerosas para a atividade industrial. Além disso, as economias de escala no Brasil são superiores em função da maior amplitude do mercado interno. Nosso setor automobilístico tem posição de destaque, uma vez que a Argentina figura como o principal importador de carros brasileiros e o segundo de autopeças. Da mesma forma, a superioridade brasileira em setores como os do aço e dos eletrodomésticos indica que a integração apenas fará com que eles ampliem sua produção.

b) O Brasil e o Mercosul diante da integração hemisférica e as exportações brasileiras.


Em 1989 o presidente norte-americano George Bush lançou um projeto ambicioso, a “iniciativa pelas Américas”, prevendo a formação, num futuro não distante, de uma vasta zona econômica livre ou de um mercado comum estendendo-se do Alasca até a Terra do Fogo, isto é, por toda a América. Ao que tudo indica, o surgimento dessa grande área comercial das Américas será devido à agregação dos vários conjuntos já existentes, e não à incorporação de cada país isoladamente. Muitos acreditam que a formação de blocos econômicos regionais e sub-regionais, no caso da América, beneficiará os países integrantes. Nãos obstante, analistas e especialistas brasileiros em comércio exterior, diante dos esforços norte-americanos para a criação da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), prevista para 2005, apontam para vários problemas dessa integração. Entre eles a provável ruína do setor rural brasileiro e argentino, que não seria capaz de enfrentar os baixos preços dos produtos dos EUA e do Canadá, que chegam a ter subsídios de mais de 200 bilhões de dólares or ano.

Diante disso, caberia perguntar se não estamos diante do velho imperialismo norte-americano agora sob a máscara neoliberal e sob os argumentos da “economia global”. O Mercosul e outros blocos econômicos latino-americanos constituem mais uma tentativa integracionista de alguns países latino-americanos para promover seus interesses diante do comércio internacional, mas se não forem bastante hábeis nas negociações, sobretudo com o Nafta, estes correm o risco de continuar atrelados aos interesses norte-americanos, promovendo mais uma vez a frustração de seus anseios.

A União Européia e os Estados Unidos constituem os principais parceiros comerciais do Brasil, mesmo com o decréscimo das exportações para a primeira entre 1991 e 1994.

Como o Brasil apresenta, até o momento, uma economia bem mais diversificada e uma base industrial mais sólida que seus parceiros do Mercosul e da América Latina, sendo o país mais industrializado do continente depois dos EUA e do Canadá, os países do NAFTA o vêem como o país com maiores oportunidades de comércio na América Latina. As exportações da Argentina e do Mercosul tomadas em conjunto para os EUA são pouco superiores às brasileiras.

Observa-se que nos últimos anos uma expansão do comércio inter-regional na América Latina. O Mercosul, aliás, vem ampliando parcerias com outras organizações econômicas latino-americanas – Pacto Andino, Caricom, Aladi, MCCA – e com outros países interessados em acordos bilaterais (o México, por exemplo) o que já estava previsto no Tratado de Assunção. Tomando-se como parâmetro o percentual total das exportações da América Latina, entre 1987 e 1983, as exportações realizadas entre os países latino-americanos aumentaram de 13% para 18%. Até o momento, o Pacto Andino e a Aladi são os principais parceiros comerciais do Mercosul na configuração dos blocos econômicos na América Latina. No entanto, se isso demonstra uma expansão do comércio intra-regional latino-americano nos últimos anos, convém ressaltar que os países envolvidos ainda têm um longo caminho a percorrer para a consolidação de uma integração realmente significativa entre suas economias, rompendo com a tradicional orientação de suas economias fundamentalmente exportadoras de produtos primários, que são em grande parte comercializados com os países mais desenvolvidos do sistema capitalista. 

EUA: a tática de “dividir para controlar” e suas inquietações comerciais.

[...] Do ponto de vista político, a estatura que o Brasil vem ganhando como líder do Mercosul é tida como ameaçadora. Os brasileiros é que sugeriram aos demais países latino-americanos a ideia de negociar em bloco seus interesses na Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), a ser formada a partir de 2005. os EUA querem negociar país a país, na velha tática de dividir para controlar. Almejam também antecipar o cronograma de formação da unidade. O Brasil pensa o contrário e pretende primeiro consolidar o Mercosul antes de se aventurar no livre mercado da ALCA.

[...] Outra ponta da inquietação americana é provocada pela gradativa aproximação entre a União Européia e o Mercosul, que retira espaços americanos em vários setores – automobilístico principalmente.

[...] Do ponto de vista estritamente comercial, os EUA têm ainda razões estratégicas para se preocuparem com essa parte de cá do globo. Suas empresas estão encontrando dificuldades maciças para angariar resultados em mercados já rateados e de crescimento estagnado, casos da Europa e do Japão. Ao mesmo tempo resistem em enfrentar as regras burocráticas dos asiáticos e temem os problemas de países do Leste, como a Rússia.

Carlos J. Marques & Darcio Oliveira, Quem pisca primeiro? Isto é 12.02.97, p. 63/65

c) A ausência de enfoque social do Mercosul, a Bacia do Prata e impactos ambientais.

No plano internacional, o peso relativo do Mercosul contribui para o incremento da pauta de exportação de seus países-membros, permitindo a estes uma maior participação no comércio mundial. No contexto nacional, a integração exige a desregulamentação ou liberalização de seus mercados, o que significa abandonar o modelo de substituição de importações e adotar o de transnacionalização do mercado interno.

As centrais sindicais dos países do Mercosul temem que o processo de integração reduza os postos de trabalho. Com consequente aumento do desemprego. A preocupação se justifica, na medida em que o Mercosul está articulado com o processo de internacionalização dos mercados, Np qual a redução dos mercados no qual a redução de custos de produção (inclusive de mão-de-obra), mediante uso intensificado de tecnologia, se tornou uma condição necessária para melhorar a competitividade das empresas locais. Nesse sentido, a defesa do emprego representa uma das mais importantes pautas da agenda sindical do Mercosul, que, não sendo devidamente defendida e considerada pelos governos dos países-membros, poderá fazer desse bloco apenas mais um projeto político e econômico desprovido de uma verdadeira dimensão social. O movimento sindical reivindica a defesa da “cláusula social”, ou seja, a inserção, nos acordos comerciais, do respeito às normas trabalhistas fundamentais pelos países que os assinam.

Conclui-se disso que, se a inserção do Brasil no Mercosul e no mercado mundial é necessária, para não correr o risco de ficar à margem das transformações da economia e dos processos produtivos mundiais, também não se deve esquecer que, mesmo assim o país poderá mais uma vez deixar de resolver suas desigualdades internas, mantendo e até mesmo aprofundando a deterioração das condições de vida de grande parte da sua população. Se isso ocorrer de fato, os benefícios da integração somente poderão ser festejados entre as transnacionais instaladas em nosso países pelos setores privilegiados pelo acirramento das trocas comerciais, restando a milhões de brasileiros apenas as migalhas desse banquete desfrutado por poucos.

A partir da década de 1980, diante da globalização da economia e da consolidação de regimes democráticos, os países latino-americanos vêm demonstrando uma tendência maior em incentivar projetos de cooperação entre suas economias. Veja-se, por exemplo, o caso da Bacia do Prata, cujos recursos naturais e disposição espacial estratégica eram motivo de conflitos sob o regime militar. Ela se tornou, hoje, cenário de políticas conjuntas de desenvolvimento de infra-estrutura física e aproveitamento energético e hidroviário para promover a integração regional e, por conseguinte, um maior fortalecimento dos países do Cone Sul para sua inserção no mercado mundial.

Todavia, convém chamar a atenção para as prováveis consequências ecológicas dessa integração que se anuncia. Será ela capaz ao mesmo tempo de propor políticas, legislações e projetos que minimizem od impactos que serão causados pela intensificação dos empreendimentos econômicos sobre o meio ambiente? Cabe a cada um de nós participar desse processo criticamente, atentos a essas particularidades e sem grandes ilusões e euforias. Sob expressões tão comuns, hoje em dia, como “competitividade” e “produtividade a menores custos”, podemos estar aderindo a uma lógica que só fará beneficiar as grandes empresas transnacionais e nacionais, escamoteando as verdadeiras consequências sociais e ambientais do processo de integração do Mercosul.

Fim do século.

[...] Contrariamente ao que diz a ideologia – como bem observa Kurz – o mercado não é para todos. De passagem fica claro quanto era estreita e provinciana a nossa ideia de modernização, para a qual o problema não estava na marcha do mundo, mas apenas em nossa posição relativa dentro dela. Se é verdade que a modernização tomou um rumo que não está ao alcance de nossos recursos, além de não criar o emprego e a cidadania prometida, como ficamos? O que pensar dela? O mito da convergência providencial entre progresso e sociedade brasileira em formação (ou latino americana) já não convence. E se a parte da modernização que nos tocou for esta mesma dissociação agora em curso, fora e dentro de nós? E quem somos nós neste processo?

As sociedades que não alcançarem a integração moderna são afetadas de modo diferenciado pela nova ordem global. No Brasil corremos o risco de ver reprisado o desastre da abolição. Quando os senhores, ao se modernizarem, se livraram dos escravos e os abandonaram à sua sorte. É sabido que o novo padrão competitivo, íngreme em face das realidades da vida popular, se compõe à maravilha com o nosso descaso secular pelos pobres. Em seu “despreparo”, estes estão pelos deixando de interessar como força de trabalho quase gratuita. Passou o tempo em que incorporá-los parecida um imperativo econômico.

Diante das novas tendências estruturais, mais segmentadoras que integradoras, com as suas desqualificações sociais duras e sobretudo o desemprego tecnológico, não será fácil as elites decidirem e entenderem, até para uso particular, em que consista ser parte de um país ou governá-lo. Só por coração cristão ou deformação esquerdista antiga os cidadãos da faixa atualizada, aliás policiassista, sentirão afinidade com os que sobraram. O divorcio entre economia e nação é uma tendência cujo alcance ainda mal começamos a imaginar. A pergunta não é retórica: o que é, o que significa uma cultura nacional que já não articule nenhum projeto coletivo de vida material, e que tenha passado a flutuar publicitariamente no mercado por sua vez, agora como casca vistosa, como um estilo de vida simpático a consumir entre outros?

Enfim, o capitalismo continua empilhando vitorias(Roberto Schwarz, Folha de São Paulo)
 

Fonte: Melhem Adas/Panorama Geográfico Brasileiro