Fim do crescimento demo-econômico do G-20? artigo de José Eustáquio Diniz Alves
[EcoDebate]
A economia e a demografia devem sofrer grandes transformações no século
XXI. O acelerado crescimento demo-econômico dos últimos 200 anos pode
estar com os “dias contatos”. Diversos autores falam no fim do
crescimento econômico, tais como: Richard Heinberg, em The End of Growth: Adapting to Our New Economic Reality e Jeff Rubin, em The End of Growth. Outros autores falam em redução do crescimento, como Robert J. Gordon, no artigo: “Is U.S. Economic Growth Over?”.
Existem vários indicadores que apontam para o fim do crescimento
econômico ou uma redução bastante drástica no ritmo de aumento do PIB: o
“pico do petróleo”, a escassez dos recursos naturais, os efeitos do
aquecimento global, o aumento do preço dos alimentos, o envelhecimento
populacional e a estagnação dos ganhos de inovação e produtividade, etc.
O fato é que as atividades antrópicas já ultrapassaram os limites da
biocapacidade do Planeta e o menor crescimento econômico deve reforçar o
menor crescimento demográfico e vice-versa. O crescimento econômico
extensivo não deve se repetir no século XXI. A economia dos países
desenvolvidos caminha para a estagnação e pode arrastar o resto do
mundo. Mas este artigo foca nas questões populacionais, com base no
grupo dos países conhecidos como G-20.
O G-20 é o clube das 19 maiores economias do mundo mais a União
Européia. Neste artigo estamos substituindo a União Européia (pois já
existem no grupo a Alemanha, Reino Unido, França e Itália) pela Espanha
(que é o 14º Produto Interno Bruto – PIB). Os dados são do FMI e estão
em poder de paridade de compra (ppp), para o ano de 2012. O G-20, com um
PIB de 63,4 trilhões de dólares, representa 76,6% da economia mundial e
62% da população global. Os Estados Unidos são a maior economia, com
15,7 trilhões de dólares, mas a China está se aproximando, com 12,4
trilhões de dólares. Índia e Japão estão no terceiro e quarto lugares
com cerca de 4,7 trilhões de dólares. O Brasil vem em sétimo lugar com
2,4 trilhões e a África do Sul em vigésimo lugar com 579 bilhões de
dólares.
Em termos populacionais a China ocupa a primeira posição, mas deve
ser superada pela Índia na próxima década. Estados Unidos vem em
terceiro lugar, Indonésia em quarto, Brasil em quinto, México em sexto e
Austrália em vigésimo. A população do G-20, em 1950, era de 1,753
bilhão de habitantes e passou para 4,373 bilhões de habitantes em 2102.
Houve um crescimento de 2,5 vezes, representando um acréscimo de 2,6
bilhões de habitantes em 62 anos.
Para o século XXI as projeções indicam uma situação de reversão da
tendência de crescimento demográfico, pois a maioria dos países do G-20
já possuem fecundidade abaixo do nível de reposição. Na segunda metade
do corrente século a população do G-20 vai se reduzir, mesmo
considerando que a imigração vai fazer crescer a população de países
como Estados Unidos, Canadá e Austrália nas próximas décadas, ou
amenizar o ritmo de declínio de outros países como Alemanha, Itália,
Reino Unido, etc.
Pelas estimativas médias da Divisão de População da ONU a população
de 4,4 bilhões de habitantes do G-20 em 2012 vai chegar a 4,8 bilhões em
2030, atingir o pico de 4,986 bilhões em 2047 e voltar para os mesmos
4,4 bilhões atuais, em 2100. Ou seja, a população do G-20 (graças
principalmente à Índia) vai crescer cerca de 600 milhões até a metade do
século e deve perder os mesmos 600 milhões de habitantes até 2100. No
computo geral, a população do G-20 vai chegar em 2100, na projeção
média, com a mesma população de 2012.
Mas com uma diferença fundamental: a razão de dependência demográfica
dos idosos (percentagem da população de 65 anos e mais sobre a
população de 15 a 64 anos) vai passar de 13% em 2012 para 47% em 2100.
Ou seja, para cada 100 pessoas em idade de trabalhar existiam 13 pessoas
idosas em 2102, mas no final do século XXI vai haver praticamente 1
idoso para cada 2 pessoas em idade de trabalhar. O número de pessoas com
65 anos e mais no total dos países do G-20 era de 92,4 milhões em 1950,
passou para 374,5 milhões em 2010 e deve atingir 1,189 bilhão em 2100. E
o crescimento será maior entre as pessoas com mais de 80 anos de idade
que, em geral, possuem maior dependência e requerem maiores custos do
sistema de saúde.
Mas embora a população total do G-20 só comece a diminuir em 2047, a
População em Idade Ativa (PIA) deve começar a diminir em 2030. Em 1950,
havia 1,077 bilhão de pessoas com idades entre 15 e 64 anos. Este número
passou para 2,925 bilhões em 2010 e deve alcançar o máximo de 3,232
bilhões em 2030, para depois começar a cair e atingir 2,516 bilhões em
2100. Portanto, a PIA vai diminuir em cerca de 400 milhões de pessoas na
comparação 2100 e 2010. Enquanto a PIA vai cair, a população idosa (65
anos e mais) vai passar de 374 milhões em 2010 para 1,189 bilhão em
2100. Por conta disto, a razão de dependência de idosos vai chegar a
quase 50%.
Estas mudanças demográficas tevem ter um impacto na redução do
crescimento econômico do G-20 e, consequentemente, na economia
internacional e podem ser mais acentuadas se não houver recuperação
esperada da fecundidade e se a Índia acelerar a transição demográfica.
No século XX diversas inovações médicas e sanitárias possibilitaram a
redução da mortalidade infantil e da mortalidade materna. Isto fez
cresceer a população masculina e feminina em idade de trabalhar. As
inovações médicas atuais para aumentar a longevidade vai,
fundamentalmente, aumentar a razão de dependência dos idosos, sem
grandes efeitos na produtividade econômica.
De maneira recorrente, o menor crescimento econômico deve induzir
menores taxas de fecundidade, contribuindo para a redução da população.
Portanto, a perspectiva para as próximas décadas é que haja grande
mudança no quadro de crescimento demo-econômico que prevaleceu nos dois
últimos séculos. Nos próximos anos veremos se este quadro está
sinalizando para uma situação de baixo crescimento econômico, estado
estacionário ou decrescimento do PIB.
José Eustáquio Diniz Alves,
Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor
titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da
Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus
pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
EcoDebate, 16/01/2013
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